Aoharu DevilVolume 2 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Arremesso de três pontos com ursinhos de goma
Capítulo 14— Aí estão vocês! Por favor, entrem. — disse Sai-san ao nos cumprimentar.
Se havia algo diferente nela, era o fato de não estar usando seu habitual jaleco branco. Em vez disso, ela estava com um visual mais casual: camiseta e jeans. O tecido ficava esticado por causa de seu peito avantajado, mostrando até o umbigo, e como o jeans era muito justo na cintura, já faltava um botão.
Eu preferia que ela usasse algo mais adequado ao convidar pessoas para sua casa, em vez dessa roupa ridícula, mas vai ser uma perda de tempo discutir com ela.
Apenas alguns dias atrás, ela nos convidou para ir à sua casa. Claro, o motivo era simples: discutir sobre o demônio. Não sei os detalhes do que ela queria discutir, mas ela queria que conversássemos em algum lugar onde ninguém pudesse ouvir, então, depois que nossas aulas terminaram, Ioka e eu, fomos para a casa comum onde Sai-san mora. É claro que já estive aqui muitas vezes, no entanto, também era um local ao qual eu não ia com frequência. De certa forma, a casa representa algo antinatural e irregular e, mais do que tudo, não quero passar meus dias aqui.
Essa é provavelmente uma boa maneira de descrever isso.
— Desculpe pela intrusão… Eeeh!?
E, desta vez, foi Ioka quem descobriu o motivo disso. Uma vez dentro, ela soltou um grito fraco, apenas para cobrir a boca mais uma vez. Eu não podia culpá-la, é claro. O interior da casa estava, ainda mais do que o de Ioka, lotado a ponto de não haver espaço para andar. Eu nem sei para que serviam a maioria dessas coisas, mas pude ver várias coisas amontoadas em caixas de papelão, que enchiam o corredor. Em outros cantos, era possível ver os vestígios de uma avalanche de livros e papéis.
— Sai-sensei, você... mora aqui? — Ioka observou a casa apertada, mas Sai-san apenas respondeu com um tom direto.
— Mas é claro! Para morar em algum lugar, você só precisa de um lugar onde possa dormir.
— Faz sentido…
Se você levar em consideração a situação de Ioka, então esse definitivamente não era um momento para concordar.
Eu juro, essa professora falsa…
— Minha pesquisa é muito mais complicada do que vocês, crianças, podem imaginar. Ah, cuidado. Esse é um amuleto que ganhei do Vaticano, então cuidado pra não chutar ele.
Caminhando pelo corredor que mal dava espaço para passar, Sai-san sentou-se em seu sofá. Cercada por nada além de coisas velhas, a única coisa que parecia um pouco moderna era o console de videogame carregando em sua mesa. Enquanto isso, Ioka e eu ficamos onde podíamos, enquanto esperávamos Sai-san continuar.
— De qualquer forma, bom trabalho em exorcizar aquele demônio. Fico feliz que tudo tenha dado certo. — disse ela e tirou uma sacola vermelha de uma caixa próxima.
Um urso dourado estava desenhado no plástico e, depois de rasgar a embalagem, ela colocou um pequeno ursinho de goma na boca.
— Não acredito que estou ouvindo isso da pessoa que simplesmente desapareceu no exterior e ficou em silêncio durante todo o tempo.
— Vamos lá, não seja assim. Desta vez, eles encontraram uma literatura sobre invocação de demônios, escrita por Charles Rainford, localizada no subsolo do Castelo de Alnwick, no Reino Unido. Ela falava sobre um dos métodos que não foi detalhado no manuscrito de Nicolau Flamel, incluindo parte do que era necessário para retraduzir as Artes de Invocação de Crowley, então...
— Sim, sim. Podemos deixar a palestra para depois e pular para a conclusão?
— Tem algo te incomodando? Deixando a psicologia clínica de lado, você não é adequado para ser um pesquisador.
— Nunca disse que queria ser um, então não altere minha vida por mim, ok?
— Hã?! Você não quer?! Mesmo tendo a mim como um excelente exemplo para aprender?
— Claro que não. Você só come lanches e joga videogame.
— Ahhh... Mas eu sou tão legal, né? Bem, você só não tem bom gosto, irmãozinho. — Sai-san nos mostrou um suspiro descontente, enquanto puxava o ursinho de goma com os dois dedos, distorcendo sua forma.
Fiquei preocupado que ela pudesse arrancar a cabeça dele, mas ela jogou-o na boca antes disso.
— Bem, chega disso. Ioka-san, você viu alguma chama desde aquele dia?
— Não, nenhuma.
— E o lagarto?
— Também não.
Respondi no lugar de Ioka, pois senti que havia algo errado com aquela pergunta.
— Ei, Sai-san... Achei que o demônio tivesse sido exorcizado.
No entanto, como se para trair minhas esperanças, Sai-san sorriu enquanto colocava outro ursinho de goma na boca.
— Você poderia dizer isso, mas também poderia discordar.
— O que isso significa?
— O demônio ainda está dentro de Ioka-kun.
Era uma afirmação tão absurda e abrupta.
— Não pode ser! A gente claramente-
— Ei, ei, calminha aí. Os demônios são um fenômeno que concede desejos e vontades. Assim como a eletricidade que flui através de qualquer coisa condutora, os demônios vão para onde os desejos dormem. E, sem dúvida, Amy deixou o corpo de Ioka-kun uma vez.
— Amy... Esse era o nome do demônio, certo? — perguntei estranhando a afirmação.
— Com certeza. Mas, em vez de categorizá-los com classificações como da Pseudomonarchia Daemonum de Goetia, usamos a reinterpretação, o Neo Solomonismo, como nossa principal forma de interpretá-los. Isso nos permite separar os demônios que realizam desejos em 72 tipos.
Essa explicação parecia semelhante ao que me foi dito antes. Você tinha 72 pilares de demônios. Isso me lembrou das ilustrações aterrorizantes que eu tinha visto nos livros da biblioteca. São seres que você gostaria de esquecer, mas não consegue.
— Mas eles os chamavam de Condes ou Duques como se fossem pessoas, certo?
— Parece que você estudou como eu disse. Como era de se esperar do meu discípulo, afinal você tem uma ótima professora.
— Se a última parte fosse verdade de alguma forma, eu teria concordado com você pela primeira vez.
— Como posso dizer isso? Há muito tempo, as pessoas pensavam que alguns enviam raios do céu, mas acabaram descobrindo que era uma descarga de eletricidade causada pela diferença de potencial elétrico. Não é incomum que o que você acreditava ser obra dos deuses, na verdade, tivesse apenas um fenômeno físico por trás.
A explicação dela era um pouco rebuscada, mas mesmo assim eu concordei com a cabeça.
— De qualquer forma, depois que Amy deixou o corpo de Ioka-kun, ela tentou possuir periodicamente o corpo de Aruha-kun.
— Isso porque eu desejei ser salvo e ela fez exatamente isso, né?
— Ou pelo menos era o que pensávamos, mas há algo que não faz muito sentido. Mas, para isso, teremos que passar por algumas investigações e exames sobre o que aconteceu entre você e aquele demônio, então nos dê um tempo.
Lembrei-me daquele dia. Eu precisava dizer Ioka e meu instinto me fez mover meu corpo antes mesmo que eu pudesse reagir.
É por isso que nem me lembro muito daquela época... Mas acho que eu queria sobreviver a qualquer custo.
— De qualquer forma, teria sido perfeitamente plausível que o demônio mudasse de hospedeiro, de Ioka-kun para você, mas parece que isso não aconteceu. Ainda não temos certeza do motivo disso... Mas, como resultado, o demônio voltou para Ioka-kun.
— Espere um segundo... Mas eu não soltei nenhuma chama desde então! — Ioka, que estava ouvindo em silêncio até aquele momento, agora apresentou um contra-argumento contundente.
— Oh, isso é simples. Seu desejo está sendo concedido no momento.
Ioka começou a corar enquanto olhava para o chão. Dentro daquela sala mal iluminada, a luz fraca que entrava pelas cortinas brilhava diretamente sobre a pedra gravada em seu grampo de cabelo. A razão para as chamas era seu único desejo: ser vista e admirada por alguém. E naquele dia, prometi que sempre a observaria. Mas é claro que, depois de dizer isso no calor do momento, eu não sabia exatamente o que isso implicava.
Pelo menos, não houve chamas desde aquele dia, então acho que estou fazendo algo certo... Né?
— No entanto, se houvesse algum tipo de gatilho, os sintomas poderiam aparecer novamente. E ela seria possuída novamente, por assim dizer.
— Mas o que faremos a respeito disso?
— Bingo. É por isso que te chamei aqui hoje — ela enfiou o pacote de ursinhos de goma no bolso e usou a mola do sofá para pular — Ioka-kun, você trouxe o que eu pedi?
— Ah, sim. Está aqui — ela disse e entregou a Sai-san o grampo de cabelo que eu lhe dei de presente.
— Hum, um grampo de cabelo. O tamanho deve ser perfeito. Talvez seja um pouco fraco demais para se conectar à Amy. Eu teria preferido qualquer coisa com uma conexão física com o fogo, como um isqueiro ou uma vela...
— B-Bem! Eu perdi meu precioso grampo de cabelo, então... Aruha-kun... procurou por aí e... me deu isso de presente...
— Hã? Hmmm… Entendo, entendo…
Olhando para Ioka explicando-se freneticamente com o rosto vermelho, Sai-san sorriu e então olhou para mim. Eu não sabia o que aquela expressão significava, mas decidi revidar.
— O que foi?
— Nada, na verdade. Só que tudo fez sentido. Se for esse o caso, então não há problema. Isso definitivamente reflete seu desejo. Vamos prosseguir com o ritual.
Diante daquela palavra assustadora que ela usou, Ioka e eu nos olhamos.
— Ritual? O que vamos fazer?
— Não há nada para ficar nervoso. O importante são os seus sentimentos e você já tomou sua decisão, certo?
— Eu me pergunto...
— Talvez eu tenha me expressado de forma indireta, então deixe-me dizer de outra maneira… seu coração já decidiu, não é?
Eu não tinha ideia do que exatamente Sai-san estava falando, no entanto, Ioka parecia ter uma ideia, pois de repente franziu as sobrancelhas.
— Você pode ser bem malvada às vezes, Sai-sensei.
— Ah, por favor... Só estou tentando ser gentil. Talvez um pouco exagerada? Talvez. Mas, tanto faz. Pegue esse grampo de cabelo.
Ioka parecia ter algo a dizer, mas acabou colocando o grampo na palma da mão, segurando-o com força. Sai-san então colocou as duas mãos em volta das de Ioka e olhou diretamente nos olhos dela.
— Vou fazer algumas perguntas, então responda com sinceridade. Se mentir... Ou melhor, se seus verdadeiros sentimentos não corresponderem às respostas, há uma chance de que as chamas se acendam. Entendeu?
— Acho que sim.
Eu observava as duas se olhando de longe, imaginando o que estava prestes a acontecer.
— Então, vamos começar. Qual é o seu desejo?
— Quero que alguém olhe para mim.
— E esse desejo foi concedido?
— Sim, foi.
Não parecia um ritual sobrenatural. Era mais como se ela tivesse respondido a algumas perguntas simples para confirmar sua vontade.
— E se esse desejo se desfizesse e não fosse mais concedido?
— Então... Então eu o concederei com meu próprio esforço!
De repente, a expressão de Ioka ficou rígida e pude perceber que ela colocou mais pressão em seu aperto. Instintivamente, eu soube que era o demônio. O calor começou a se acumular dentro de sua mão.
— Sai-san! Tem certeza que isso é uma boa ideia?! — perguntei temendo o desfecho.
— É sim. Então acalmem-se, vocês dois. Tenho que fazer mais perguntas.
Isso realmente vai dar certo ou Sai-san está apenas tentando nos acalmar?
Eu não conseguia chegar a uma conclusão. Portanto, fui forçado a assistir em silêncio acreditando em Sai-san e Ioka.
— Você realmente pode conceder esse desejo sozinha?
— Sim, eu posso.
Eu podia ver o ar ao redor das mãos deles se distorcendo. Supondo que fosse a névoa do calor, isso me dizia que o demônio estava agindo novamente e, ainda assim, as perguntas continuavam chegando.
— E quanto ao grampo de cabelo? — Ioka começou a pensar.
No entanto, ela endireitou as costas imediatamente ao levantar o olhar.
— É um marco. — declarou ela com um tom calmo, mas determinado — Para que eu pudesse sempre ser vista, não importa onde estivesse. Mas o importante é que eu me torne alguém digna disso. É por isso que... se meu desejo fosse concedido, eu o realizaria com meus próprios esforços.
Sai-san acenou com a cabeça, satisfeito com as palavras de Ioka, e afastou as mãos.
— Tudo bem, então abra sua mão.
Eu me aproximei para olhar a mão de Ioka também. Lá, vi o mesmo grampo de cabelo de antes.
— Nada mudou, certo?
— Não, por favor, espere… — Ioka se aproximou para olhar o grampo de cabelo.
Lá, vi um lagarto. O lagarto já era pequeno o suficiente para caber na palma da mão, mas encolheu ainda mais. Ele brilhava como uma sombra negra dentro da pedra.
— Há... um lagarto dentro da pedra!
— Ah, então até Ioka-kun consegue ver? Então conseguimos. — Sai-san sentou-se de volta no sofá como se tivesse acabado de passar por um dia difícil no trabalho.
Ela tirou um urso verde da embalagem, que brilhava sob as luzes acima dela. Ela colocou mais força nos dedos, distorcendo sua forma.
— Então nós... o selamos?
— Hmmm... Bem, algo assim. Trouxemos o fenômeno conhecido como demônio e a usabilidade de uma ferramenta humana para conectá-lo em um nível conceitual e foi assim que o isolamos. Não jogue fora nem perca, entendeu?
— Não vou! Nunca!
— Você chamou isso de ritual, mas parecia mais uma encarnação.
Sentindo-me aliviado, essas palavras saíram da minha boca.
— A cognição é importante e não ajudaria você a percebê-lo se não fosse na sua língua, certo?
— É assim que funciona?
— Certamente que sim.
Sai-san enfiou alguns ursinhos de goma na boca e continuou sem engolir nenhum.
— De qualquer forma, isso põe um fim a toda a situação.
— É mesmo o fim? Ela não vai queimar de novo, certo?
— Não há nada absoluto neste mundo, mas esta situação é muito mais segura do que antes. Ela só pode obter mais força e seguir em frente. Não importa qual seja a situação.
Desta vez, ela colocou um ursinho de goma amarelo em cima do polegar, jogando-o no ar como se estivesse jogando uma moeda. Ele traçou uma bela e estreita parábola e desapareceu dentro de sua boca. Ioka e eu nos olhamos mais uma vez. A maneira como ela se expressou parecia convincente, mas também enganosa. No entanto, não tínhamos conhecimento para confirmar nada ou refutar nada.
— Tudo bem, então vamos embora, Ioka.
— S-Sim.
— Ei, agora. — Sai-san nos chamou e nos fez parar no caminho.
— O-O que foi? — perguntou Ioka.
— Não há algo que você deveria dizer?
— Ah... Bem, muito obrigado, Sai-sensei. — Ioka agradeceu à mulher e fez uma reverência educada.
— Sim, sim, sim. E para me agradecer, você deve estar mais do que disposta a fazer algo por mim, certo? — disse Sai-san com um sorriso assustador enquanto olhava para Ioka.
— Ioka, vamos embora. Tenho um mau pressentimento sobre isso.
— Mas...
— Na verdade, tenho um favor pra pedir!
— Uau… e lá vamos nós de novo.
Minha terrível premonição estava certa, mas, olhando para a expressão dela, eu sabia que era um favor que não poderia recusar.
— Obrigada pela sua ajuda. Enfim, é bem simples. Quero que vocês continuem atuando como exorcistas na Sakamaki High para exorcizar demônios.
— Eu nunca concordei em ajudar e isso não parece nada simples.
— Apenas me escute. Os demônios reagem aos desejos que nascem durante a juventude. Provavelmente não há nenhum aluno naquela escola que não tenha nenhum problema. Um dia, alguém será possuído por um demônio, assim como Ioka-kun foi.
— Eu entendo a lógica por trás disso, mas...
— Aruha-kun, você tem experiência como exorcista porque exorcizou o demônio de Ioka-kun. Então, por uma questão de justiça, quero que você guie todas essas ovelhas perdidas.
— Você, entre todas as pessoas, está falando sobre justiça? Claro que não.
Exorcizar o demônio de Ioka não foi nada além de uma coincidência. Tudo porque Sai-san não estava presente. Porque eu não podia deixar Ioka sozinho. Eu não fiz isso por uma questão de justiça, e não há como eu fazer a mesma coisa novamente.
— Eu sabia que você diria isso. Mas e se eu dissesse... que Yomiko está envolvida?
Ao ouvir esse nome inesperado, senti como se tivesse levado um soco na cara.
— O que você acabou de…
— Estou dizendo que o fato de você exorcizar demônios está ligado a Yomiko.
Ioka testemunhou minha reação e falou.
— Espere um segundo. Quem é ela?
Olhei para Sai-san, obtendo confirmação, e então acenei com a cabeça. Afinal, não era nada para esconder. Simplesmente não via motivo para contar a ela. Mas este seria o momento perfeito.
— A irmã mais velha de Aruha-kun, Arihara Yomiko, desapareceu há três anos.
— N-Não pode ser...
É verdade. Minha irmã mais velha desapareceu há três anos.
“Tenho algo a fazer”
Essas foram suas últimas palavras e ela nunca mais voltou. Não sei do que ela estava falando. Não consigo nem imaginar. Tentei me lembrar várias vezes, mas tudo o que conseguia pensar era no seu sorriso gentil. Ela nunca foi do tipo que falava muito, mas eu nunca poderia imaginar que ela simplesmente desapareceria assim. Tudo o que eu sabia com certeza era que tinha ficado sozinho.
— Eu nunca te contei o que pesquisei, certo? Estou assumindo os restos da pesquisa de Yomiko na esperança de concluí-la.
— Você está seguindo os passos dela?!
Eu não sabia disso. afinal, tudo o que eu sabia era que ela estava pesquisando sobre demônios, mas não imaginava que Sai-san assumiria exatamente isso.
— É uma pena, mas Yomiko nunca me contou sobre sua pesquisa. Então, eu fui reunindo informações, tentando descobrir o que Yomiko estava tentando alcançar e estou tentando concluí-la.
— Mas por quê?! Por que minha irmã desapareceu?! E onde ela está agora?!
— Tenho uma hipótese, mas ainda não estou em condições de falar sobre isso. Me der um tempo. Estou a um passo de ter certeza disso. E, para isso, preciso reunir exemplos.
— Exemplos?
— De demônios, é claro.
— Então, exorcizar demônios ajudará na sua busca pela irmã de Aruha-kun? — perguntou Ioka com uma expressão humilde.
— Sim. Quero dizer, Yomiko é uma amiga importante para mim. Meu mundo sempre girava em torno dela, ou melhor, ainda gira… — disse Sai-san enquanto olhava pela janela.
Eu podia ver claramente uma mistura de emoções complicadas queimando em seus olhos. No entanto, não era tudo claro e iluminado, então meu próprio olhar se refletia neles, não me permitindo ver o que havia além da superfície.
Mesmo assim, ela provavelmente está falando a verdade sobre querer encontrar a irmã.
— Eu entendo o essencial, mas você não pode simplesmente exorcizar os demônios, Sai-san?
— Eu já te disse, certo? Os demônios aparecem diante dos desejos juvenis. As pessoas que aparecem na minha enfermaria para pedir ajuda ainda estão em uma situação muito melhor. Ao contrário disso, vocês ainda são estudantes. Podem patrulhar a escola por dentro.
— Sinceramente, não gosto nem um pouco dessa ideia, mas se estiver relacionado à minha irmã…
— Ah, para com isso. Você já acumulou bastante experiência como exorcista. Não há nada com que se preocupar.
Eu queria argumentar contra uma afirmação tão ridícula quando a mão de Sai-san se moveu repentinamente. Eu pude ver um objeto vermelho traçando uma linha no ar, seguido por algo pousando na minha boca. Tentei tossir para expeli-lo, mas meu corpo reflexivamente o empurrou para baixo da minha garganta. Levei alguns segundos para perceber que era um ursinho de goma.
— Uhuuu, isso é um três pontos.
— Gack...! Para que foi isso?!
— Apenas senti vontade de fazer isso.
— Isso não conta como motivo! Além disso, isso podia ter me matado!
— Ora, ora, está tudo bem. É assim que as coisas são, então estou contando com você, Exorcista-kun. — disse ela, acenando para nós.
Ela então se deitou no sofá e pegou seu console de videogame. Uma trilha sonora animada começou a tocar, enquanto ela pressionava os botões para jogar. Na linguagem dela, isso significava que a conversa havia terminado. Não importa o que eu diga, ela não vai me dar atenção.
— Ah, pelo amor de Deus... Vamos, Ioka!
— Hã? Ah, sim.
Suspirei e saí de casa, com um Ioka um pouco perplexo ao meu lado. Enquanto isso, o ursinho de goma que fui forçado a comer sem apreciar seu sabor ainda permanecia preso em algum lugar da minha garganta.
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Quando saímos da casa do Sai-san, já estava escuro lá fora. Chegando nesta estação, os dias ficaram cada vez mais curtos. A brisa fria fazia cócegas na minha pele, enquanto meu corpo tremia levemente. Enquanto caminhávamos pela rua, nosso caminho era iluminado pelas luzes verdes da rua, que haviam perdido seu brilho azulado original. Ioka caminhava silenciosamente comigo, mas de repente parou. Eu me virei e ela lentamente abriu a boca enquanto olhava para o chão.
— Aruha-kun, estou pensando nisso há algum tempo.
— O que é?
— Eu também vou me tornar uma exorcista.
— Como assim?
— Estou dizendo que vou te ajudar a exorcizar demônios. — ela ergueu a cabeça e me olhou diretamente nos olhos.
— Hm… não, isso não vai acontecer.
— Por quê?! Eu já lutei e venci um demônio antes. Você vai precisar da minha ajuda.
— Porque é perigoso!
— O mesmo vale para você. Você esqueceu o que aconteceu... comigo naquela vez?
Claro que não, porém é exatamente por isso!
Na arena, as chamas consumiram Ioka, enquanto ela se transformava em um lagarto. Arriscando minha própria vida, consegui eliminar essa ameaça. Eu a salvei apesar do perigo.
É justamente por isso que não posso deixá-la por perto de uma situação tão perigosa.
— Se minha irmã está envolvida, então é problema meu. Não posso envolver você nisso.
— Mas essa lógica é tão falha!
— Sem mencionar que você está muito ocupada com seu próprio trabalho, né?
— M-Mas eu...
Aconteceu do nada. A frase que ela começou de repente foi interrompida, quando seu corpo desabou. Antes que eu pudesse pensar, minhas mãos alcançaram seu braço, conseguindo mantê-la em pé.
— Ioka! Você está bem?!
— Desculpe, só senti uma tontura repentina.
Talvez seja o demônio agindo?
Mas deveríamos ter selado o lagarto. Entrei em pânico e coloquei minha mão gentilmente em seu pescoço. Queria verificar se ela estava comendo novamente, mas ela soltou um gemido fraco.
— Mhm!
— Ah, desculpe!
Imediatamente tirei minha mão. Não era surpresa que ela não gostasse da sensação de eu tocar seu pescoço.
— Mas... sua temperatura parece normal.
— Parece que sim...
Como ela mesma disse, isso não devia ter nada a ver com o demônio, o que me permitiu suspirar por dois motivos diferentes. Em pouco tempo, ela já havia se levantado com suas próprias forças, ficando de pé. No entanto, suas pernas ainda pareciam um pouco trêmulas.
— Você não está muito ocupada ultimamente? Está dormindo o suficiente, certo?
— Olha quem fala. Cuidar de mim mesma faz parte do meu trabalho.
— É mesmo?
— Ultimamente, eu até tento manter meu apartamento limpo!
Ela deve ter percebido o que eu estava insinuando e respondeu com uma réplica afiada. É claro que era um pouco difícil de acreditar, mas eu só rezo para que ela pelo menos esteja colocando o lixo para fora.
— E quanto à comida?
— Isso... pode ou não ter mudado muito.
Só depois de fazer essas perguntas é que percebi que me tinha transformado no próprio Shimizu-san. Claro que comprar salada com frango na loja de conveniência mais próxima é algo inevitável, considerando o tempo que ela tem disponível e a necessidade de ter cuidado com o que come, mas se ela está prestes a desmaiar diante dos meus olhos, gostaria que ela comesse direito de vez em quando.
— Acho que vou passar na sua casa e cozinhar para você um dia desses, se você vai desmaiar assim. Afinal...
Tenho tempo de sobra…
Era o que eu queria dizer para terminar minha frase, mas fiquei perplexo com a reação atordoada de Ioka.
— Err, eu disse algo estranho?
— É verdade? Você vai fazer algo para mim? Além disso, você sabe cozinhar?
— Ah, foi isso que te deixou tão perplexa?
Agora eu entendia por que ela reagiu daquela maneira.
Sim, acho que não pareço o tipo de cara que sabe cozinhar para si mesmo.
— Minha família sempre gostou de ter comida caseira na mesa, então eu praticava quando tinha tempo livre. Mas agora não preciso mais cozinhar para mim mesmo.
— Entendo.
Como usei a palavra “família”, ela deve ter se lembrado da minha irmã. Percebi que seus lábios pálidos ficaram mais tensos, então mudei de assunto para dissipar o clima estranho.
— Tem alguma coisa que você gostaria de comer? Não sou chef nem nada, mas estou disposto a atender pedidos.
— Hum... Então... Fr...?
— Fr?
— Frango frito...
— Frango frito?!
Diante de um pedido tão inesperado, retornei a pergunta.
— Na verdade, esqueça! Disseram-me que fritar comida pode dar muito trabalho, então!
Ela acenou com as duas mãos na frente do rosto, então agora era minha vez de ficar perplexo.
— Disseram-lhe isso? Quero dizer, só estou preocupado com as calorias.
— Vou ter que correr um pouco mais pela manhã!
— A compensação não vai ser boa para você. Bem, comer comida frita de vez em quando não faz mal.
Além disso, fazer isso aqui e ali também não vai dar muito trabalho, mas, mais uma vez, antes que eu pudesse continuar, fui silenciado pela expressão séria de Ioka.
— O que há de errado? O gato comeu sua língua?
— Aruha-kun... Há algo que você gostaria que eu fizesse por você?
Diante de uma pergunta tão estranha, fiquei com a cabeça vazia.
— Hã? De onde veio isso?
— Eu só estava pensando, sabe… — disse ela com uma expressão pensativa.
Eu não sabia o quão genuína era aquela oferta, mas ainda assim pensei sobre isso.
— Hmm...
Algo que eu gostaria que ela fizesse por mim... Algo que ela pudesse fazer por mim...
— Você não está tendo pensamentos impuros, está?!
— Eu não pensei nisso até você dizer isso!
— Não jogue a responsabilidade em mim!
Devo confessar que a explosão dela involuntariamente me fez imaginar todo tipo de coisa na minha cabeça. Mas isso foi porque ela praticamente implorou por isso.
Nada demais, certo?
De qualquer forma, eram essas as coisas que eu queria que ela fizesse por mim? Eu não sentia isso de forma alguma. Esperei um pouco para que minhas bochechas avermelhadas se acalmassem e então encontrei minha resposta.
— Honestamente, eu ficaria mais do que feliz se você pudesse descansar um pouco. Se você desmaiar por trabalhar tanto como modelo, isso só vai se voltar contra você.
Não sei se ela queria que isso acontecesse, mas pude ver Ioka fazendo beicinho para mim.
— Você é tão estranho.
— Hã?
— Tudo o que você faz é se preocupar com os outros. Não há nada que você queira fazer?
— C-Claro que há…
— Oh? E o que é?
— Hm, prefiro não dizer... Não agora...
— Mas estou perguntando, então não vou deixar você ir até me dizer.
Ela insistiu incansavelmente, o que me fez suspirar em resignação. Eu sabia que não poderia escapar dessa. Mas, quando me perguntaram sobre algo que eu queria fazer, realmente não havia nada. Talvez em algum lugar dentro de mim, mas quando tento pensar nisso, sinto como se uma névoa espessa me impedisse de enxergar além, até que eu acabasse perdendo. Onde eu deveria estar e para onde eu deveria ir. O mundo é tão complicado, e o futuro está sempre mudando. É como uma noite tempestuosa que bloqueia qualquer visão das estrelas.
— Minha irmã simplesmente se levantou e saiu, dizendo que tinha algo a fazer.
Lembrei-me do rosto dela quando disse isso. Seus olhos brilhavam com determinação.
— Mas, para mim, não tenho nada que deva fazer ou algo que deseje desesperadamente fazer. Não consigo explicar muito bem, mas é como se só o fato de estar aqui já consumisse toda a minha energia.
Quando terminei de falar, Ioka olhou para o chão novamente. Ela franziu as sobrancelhas como se estivesse incomodada pelo som de unhas arranhando o quadro-negro. Eu sabia que essa resposta não era o que ela esperava. Eu também fui covarde por arrastar minha irmã para fora de casa por conveniência. Mas, se ela continuasse me perguntando, parecia que o turbilhão de emoções dentro de mim iria explodir a qualquer momento. Ela me perguntou se não havia nada que eu quisesse fazer.
Ao contrário de mim, tem algo que ela queria fazer… algo que ela precisa fazer.
Ela tinha um objetivo que a impulsionava na vida, mas eu não tenho nada parecido com isso. Mesmo no meu trabalho como exorcista, eu apenas segui em frente porque me pediram para ajudar e porque não podia ignorar a pessoa à minha frente.
Se Sai-san não tivesse me pedido, eu nunca teria concordado em fazer algo tão perigoso.
É também por isso que continuo orbitando em torno de Ioka. A razão pela qual estou tentando cuidar dela a tal ponto não é completamente por ela. É porque eu mesmo não tenho uma trajetória. Se eu não fizer isso, vou voar para o vazio do espaço.
Embora eu esteja ciente de que ela está tentando cuidar de mim…
Mas, todas as vezes, acabo sendo atormentado pela culpa. Não há nada que eu possa fazer por ela. Não importa para onde ela vá, seu objetivo já está decidido. Às vezes me pego pensando:
Será que está tudo bem eu ficar ao lado dela? Ela provavelmente se sente culpada por mim.
Ela é confiante e orgulhosa, mas também tem uma alma gentil no fundo, então deve achar que eu a salvei. Mesmo tendo vencido o demônio sozinha, ela sente uma forte responsabilidade.
Então, não estou apenas usando essa fraqueza dela?
Talvez uma parte de mim espere que, ao ficar perto dela, eu possa me tornar algo mais e esse pensamento era tão reconfortante que eu não conseguia sair do lado dela.
Ainda me lembro vividamente da vez em que Rosy tirou aquela foto nossa. Mesmo alguém tão desinteressante e comum como eu representava um grande risco para Ioka só por estar comigo. Eu deveria saber disso, mas finjo que realmente me importo com ela. É tudo apenas uma falsa aparência.
Não tenho o direito de me importar com a minha irmã... E de ter alguém que considere meus próprios sentimentos.
— Aruha-kun, eu... me desculpe… — ela murmurou, enquanto eu via sua mão se mover.
Quando ela entrou no meu campo de visão, eu reflexivamente puxei a minha para trás.
— Ah...
Ela lentamente recuou o braço e segurou a barra da saia. Eu não poderia ter deixado passar isso. Como este mundo é tão complicado, há muitas coisas que não consigo ver claramente. E mesmo quando vislumbro algo, não sei como reagir.
— Desculpe. Não tem nada a ver com você, então não se preocupe com isso.
Essas palavras frias atingiram Ioka e então desapareceram no céu noturno. No entanto, eu nem sabia se a havia magoado.
— De qualquer forma, certifique-se de fazer algumas pausas adequadas, ok?
— Sim, farei isso. — ela respondeu com uma voz mansa prestes a desaparecer.
A partir daquele momento, nós apenas caminhamos pela rua em silêncio.
Por um instante, senti como se visse o lagarto dentro do grampo de cabelo dela me encarando. Depois de deixar Ioka em seu apartamento, segui para casa. Enquanto caminhava, olhei mais uma vez para o céu estrelado. Não importa o quão longe eu chegue, continuarei sendo apenas um planeta. Não uma estrela que brilha intensamente sem ajuda, mas apenas alguém que orbita em torno dos outros. E enquanto procuro meu centro, o mesmo se repete continuamente. Repetidamente.
Ioka e eu... somos completamente diferentes.
A pequena pedra que chutei com o pé foi lançada para longe e desapareceu dentro de uma sarjeta.
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