As Multiplas Faces de VictoriaVolume 1 – Capítulo 10 – Capítulo 10: Miles
Capítulo 13Dia sim, dia não, eu acordava cedo para correr.
Como o trabalho na propriedade do Sr. Bernard não era fisicamente exigente, eu sentira gradualmente minha resistência diminuir. Mas quando comecei a correr novamente, percebi que não apenas meus músculos haviam enfraquecido, mas também meu coração e pulmões, o que me surpreendeu.
Acordava antes do amanhecer, corria por cerca de uma hora e voltava para casa justamente quando o sol nascia. Os criados da propriedade da Condessa Yolana acordavam por volta dessa hora, então eu pulava o muro antes que eles estivessem por perto.
Quando comecei a correr regularmente, notei que havia um homem na casa dos sessenta anos morando em uma pequena casa que ficava bem atrás da propriedade da Condessa Yolana. Fiquei um pouco curiosa sobre ele.
Ele tinha um cavalo grande com crina e cauda pretas, e eu o vira montando o cavalo várias vezes. Sua maneira de montar era tão bonita que eu não podia deixar de admirar; era como se ele e o cavalo fossem um.
O homem tinha cabelos brancos curtos e uma constituição imponente. Eu me perguntei se ele estivera no exército.
Em uma corrida há algum tempo, encontrei o homem descansando seu cavalo perto de um riacho em uma clareira por onde eu passava. Diminui o passo quando entrei na clareira, e nossos olhares se encontraram. Pensei que seria estranho se eu me virasse, então chamei o homem.
— Bom dia.
— Ah, bom dia! A senhora está correndo?
— Isso mesmo.
— É incomum ver uma senhora correndo por aí.
— Acho que o senhor tem razão.
Depois disso, conversamos um pouco sobre o clima, então fiz uma reverência e saí correndo novamente. Isso aconteceu mais algumas vezes. O homem parecia começar a esperar por nossas conversas, e eu honestamente podia dizer o mesmo.
Um dia, o homem trouxe à tona algo além do clima.
— O que a senhora faz para viver?
— Ah, nada de especial. Sou uma plebeia, e trabalho para sustentar minha filha.
— Entendo! — Ele pareceu interessado. Caminhei até seu cavalo e falei suavemente com ele, então acariciei seu focinho.
— Que cavalo lindo o senhor tem.
— Ele é velho, assim como eu — disse o homem, e então se apresentou. Seu nome era Miles Grant, e ele era um ex-soldado que trabalhara no exército até se aposentar junto com seu amado cavalo.
— O senhor serviu seu país por muito tempo, não serviu?
— Bem, não fiz muita coisa. Como o senhor sabe, não há muitas guerras neste reino. Então tive muito tempo livre. Sou apenas grato por ter ganhado uma pensão que me permite viver o resto dos meus dias em conforto — disse Miles com um sorriso enquanto acariciava seu cavalo. O cavalo relinchou feliz e esfregou o focinho contra ele.
— Adoro cavalos. Adoraria ter um meu, mas moro em uma casa de hóspedes na propriedade da minha senhoria. Ela é uma senhoria maravilhosa, então quero ser uma boa inquilina para ela.
Miles piscou seus olhos azuis-claros enquanto ouvia.
— Eu poderia cuidar de um cavalo para a senhora. Se a senhora quer um cavalo, presumo que saiba montar?
— Sim, sei montar. Meus irmãos mais velhos estavam no exército, e eles me ensinaram. Tem certeza? Claro que pagaria para o senhor cuidar do cavalo.
— Posso até escolher um cavalo que ache que combina com a senhora. Acho que sou um pouco melhor em julgar cavalos do que a senhora. A senhora montaria nele por um tempo para que eu possa ter uma ideia do seu nível?
Subi no cavalo de Miles e andei, depois trotei levemente pela clareira.
— Entendo. A senhora é muito boa. O que está procurando em um cavalo?
— Um que eu possa montar em longas distâncias.
— Entendido.
Antes que eu percebesse, estávamos conversando, e eu estava pedindo a Miles que comprasse um cavalo para mim. Concordei em pagar a ele para mantê-lo em sua propriedade.
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Alguns dias depois, Miles estava me esperando na clareira junto com dois cavalos.
— Miles, aquele cavalo é...?
— Sim. Este é o seu cavalo. Ele corre bem e é muito esperto. Estava bem dentro do seu orçamento também. Chamavam-no de Aleg nos estábulos. Vá em frente e experimente.
Aleg estava me encarando com reserva porque eu era uma estranha. Quando montei nele, no entanto, ele obedeceu aos meus comandos obedientemente. Andei devagar com ele, depois o fiz trotar levemente pela área. Sim, ele era um bom cavalo.
— Adorei! Obrigada.
— Então cuidarei bem dele para a senhora.
— Obrigada. Virei montá-lo em dias alternados.
— Perto do amanhecer?
— Sim.
Embora eu tivesse prometido pagar adiantado pelo trabalho de Miles, ele disse que cobriria a maior parte das despesas ele mesmo.
— Mas cuidar de cavalos é difícil. Por favor, deixe-me pagar — insisti.
— Não mesmo, não tenho nada além de tempo livre. Além disso, com aquele cavalo por perto, meu cavalo vai pensar que tem que acompanhar o jovem. Isso vai animá-lo! — ele riu.
Eu queria o cavalo para emergências, caso tivesse que fugir com Nonna. Não podia roubar o cavalo e a carruagem da Condessa Yolana.
Voltei para casa e fiz o café da manhã, então fui acordar Nonna. Enquanto comíamos juntas, contei a ela sobre o cavalo.
— Nonna, você gostaria de praticar montaria? Você vai comigo, é claro.
— Um cavalo? Quero montar com você, Vicky!
Seus olhos se arregalaram, e ela pulou da cadeira, ofegante de animação enquanto mastigava sua torrada.
— Tenho que trabalhar durante o dia, então teremos que montar de manhã cedo.
— Vou acordar! Vou acordar cedo para montar!
— Certo. A partir de amanhã de manhã, montaremos em dias alternados.
— Entendi!
— Ah, e outra coisa — não conte a ninguém da residência principal sobre nosso cavalo ainda.
— Por quê?
— Porque até que você fique boa em montar, eles podem dizer: "Pare com isso, é perigoso demais!"
— Ah, entendi. Assim como quando eu disse que gostava de subir em árvores.
Ela contou a eles sobre subir em árvores. É claro que contou…
— Eles podem se preocupar até que você fique boa em montar.
— Certo. Posso contar a eles quando estiver boa em montar?
— Claro, quando eu disser que você pode.
— Entendi!
O dia inteiro, Nonna ficou fora de si de animação enquanto estávamos na casa do Sr. Bernard. Ela devia estar realmente ansiosa para montar. Fui verificar se ela estava se lembrando de manter segredo e a vi sussurrar para o Sr. Bernard: "Adivinha! Adivinha! Tenho um segredo!" e sair correndo. Ela estava agindo de forma muito misteriosa.
O Sr. Bernard estava no meio de uma pesquisa, então fechei silenciosamente sua porta e pedi a Nonna que fizesse uma de suas tarefas favoritas na minha frente — polir a prataria. Sentei-me à mesa da cozinha com ela, fazendo trabalho de tradução. Nonna olhou para mim enquanto polia as colheres, garfos e facas. Quando nossos olhares se encontraram, ela soltou uma risada que soou como "Mwe- hee- hee!"
— Você está realmente ansiosa, não está? Vamos tomar banho cedo esta noite e ir para a cama cedo também.
— Certo! Que tipo de comida os cavalos gostam de comer?
— Cavalos comem grama como nós comemos carne e pão. E como petisco, eles adoram maçãs e cenouras.
— Uoooooau! Ei, Vicky. Vamos comprar maçãs e cenouras no caminho para casa!
— Claro. Vamos fazer isso.
Não pude deixar de rir quando ela disse "Uoooooau!"
Quando Nonna estava sentada quieta e não dando chutes circulares ou cambalhotas, ela parecia que poderia ser filha de um aristocrata. Ela era muito animada e engraçada. Sem mencionar que tinha um talento natural para artes marciais e combate.
Naquela noite, depois do jantar, tomamos banho rápido, escovamos os dentes e fomos para a cama. Eu também estava ansiosa pelo dia seguinte.
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No dia seguinte, eu estava de folga do trabalho, então levei Nonna para visitar a casa de Miles. Ele estava no quintal.
— Ah! Esta é sua filha?
— Sim, isso mesmo.
Nonna não estava ouvindo nossa conversa. Ela estava encarando Aleg. Ela riu "Mwe- hee- hee!" novamente baixinho. Ela estava até andando com um passo saltitante, então claramente estava muito animada.
Miles caminhou até Nonna e falou com ela.
— O que você acha? Cavalos são grandes, não são?
— Sim! Muito grandes! E bonitos!
— Você não está com medo?
— Nem um pouco! Quero montar nele!
— Essa é uma boa resposta! — Miles explicou os princípios básicos de segurança na montaria para Nonna. Não se virar, não assustar o cavalo gritando, acompanhar os movimentos do cavalo e manter a calma.
Nonna e eu montamos em Aleg. Estávamos usando calças de montaria que eu fiz para nós. Também estávamos usando sapatos muito parecidos com botas de montaria.
Coloquei Nonna na minha frente e andei devagar com Aleg. Aleg era um cavalo esperto. Ele se movia com mais cuidado com a Nonna do que quando eu montava sozinha. Miles era um excelente juiz do caráter de um cavalo.
— Posso montar junto com a senhora? — perguntou ele.
— O senhor montaria? Isso seria maravilhoso. Ficaria radiante se o senhor nos mostrasse seus lugares favoritos por aqui.
E assim nós três montamos juntos, com Miles em seu amado cavalo ao nosso lado.
— A propósito, Miles. Qual é o nome do seu cavalo?
— Noite. No exército, eles o chamavam de Pesadelo.
— Pesadelo! Ele ganhou esse nome no campo de batalha?
— Quando ele era jovem, montei nele em uma corrida contra alguns amigos e seus cavalos. Eles lhe deram esse nome naquela época.
Miles e Noite deviam ter sido muito fortes com um apelido desses. Eu gostaria de tê-los visto antigamente.
Depois disso, cavalgamos tranquilamente até o quarteirão norte da capital. Era onde ficavam as oficinas de marcenaria, serrarias, lojas de móveis, oficinas de tecelagem, e assim por diante. Depois que passamos por lá, descemos uma ladeira suave até que a estrada se transformasse em uma floresta. Era minha primeira vez vindo aqui, e embora tivéssemos viajado devagar, fizemos uma pausa.
— Deve ser por volta dessa hora — disse Miles. Eu me perguntei o que ele queria dizer. Ele desmontou de Noite perto de uma fileira de castanheiras. Nonna e eu descemos de Aleg, e os cavalos pastaram livremente. Havia muitas ouriços de castanha abertos no chão. Eles eram até grandes para castanhas da montanha. — Vou colher algumas castanhas. Vocês podem fazer o que quiserem.
— Quero colher castanhas também! — eu disse.
Miles e eu pisamos nas ouriços com nossas botas para quebrá-las e pegar as castanhas de dentro.
— Aqui! — ele chamou, jogando uma sacola de pano. Ele tinha uma para si também.
E assim Miles e eu nos concentramos em colher castanhas por cerca de uma hora enquanto Nonna observava Aleg e Noite de perto. Os cavalos esticaram o pescoço e a cheiraram.
— Não toque nos cavalos sem permissão — eu avisei.
— Certo!
Finalmente, ambas as sacolas estavam tão cheias que estavam prestes a estourar, então montamos em nossos cavalos novamente. Estávamos andando devagar, mas como Aleg ainda era jovem, ele olhou para trás várias vezes e relinchou.
— Parece que ele quer correr. Quer que eu leve sua filha para a senhora?
— Nonna, você vai montar no cavalo do Miles com ele?
— O quê? Mas quero montar com você enquanto o cavalo corre!
— Esta é sua primeira vez em um cavalo. Você ainda não pode montar em Aleg quando ele corre a toda velocidade. Primeiro você tem que se acostumar mais a montar.
Nonna assentiu relutantemente. Miles estendeu os braços e a pegou de mim, então a colocou na frente dele no cavalo, segurando-a firmemente com um braço.
Dei um chute em Aleg, e ele imediatamente disparou como se dissesse: "Já era hora!" Controlei Aleg enquanto ele avançava na brisa, ajustando meus movimentos aos dele. Dizem que quando cavalo e cavaleiro se tornam um, é quase como se pudessem ler a mente um do outro. Fazia muito tempo que eu não sentia isso.
Depois de um tempo, pude sentir que Aleg estava satisfeito, então diminui gradualmente a velocidade e parei ao lado de Miles e Nonna, que estavam observando.
— Você é tão legal, Vicky!
— A senhora é uma ótima cavaleira. Tenho um novo respeito pela senhora — disse Miles.
— Obrigada. Bem, vamos voltar para casa agora?
Pegamos o lado da montanha do quarteirão norte através do quarteirão oeste para evitar o quarteirão sul lotado, então voltamos para o quarteirão leste, passando em frente ao castelo. Depois que dei água a Aleg e o escovei, agradeci por um bom passeio e me despedi de Miles. Então andamos pela propriedade de Miles para voltar à propriedade da Condessa Yolana.
— Vicky, não poderíamos ter pulado o muro do Miles para chegar à casa da Condessa Yolana? Eu vi o telhado.
— Poderíamos, mas isso não é algo que se deva fazer sempre. Vamos garantir que andamos a menos que seja absolutamente necessário, certo?
— Mas podemos pular se tivermos que fazer isso.
— Só quando sua vida estiver realmente em perigo. Em outras palavras, não pule muros. Vamos andar.
— Certo!
Voltamos para a casa de hóspedes. Sentei-me e usei uma faca pequena para descascar as castanhas. Nonna queria fazer isso, mas eu disse que ela era jovem demais para usar a faca. Descasquei as castanhas cerca de 80 por cento, então as passei para Nonna. A tarefa dela era remover a castanha da pele. Havia muitas castanhas, então quando terminamos, meus ombros estavam doloridos.
Fiz algumas tarefas domésticas que haviam se acumulado, então fiz um ensopado com barriga de porco e castanhas. Coloquei um pouco em um prato e o entreguei na casa de Miles. Nonna disse que ficaria sozinha em casa.
— Boa noite. Cozinhei o jantar usando aquelas castanhas que colhemos hoje, então queria compartilhar.
— Ah! Isso é interessante; só sei ferver castanhas ou assá-las!
— Fiz um ensopado com elas e com barriga de porco. Pode ser um pouco pesado, mas vai ficar perfeito com um pouco de álcool.
Miles caminhou lentamente em direção ao saguão, então enfiou a mão no bolso. De repente, ele se virou e jogou algo em minha direção.
Desviei rapidamente do que quer que fosse e me preparei para o próximo ataque.
— Desculpe por testar você assim. Foi apenas um brinquedo de madeira. Não se preocupe. A senhora disse que é uma plebeia comum, e pode ser que engane outras pessoas, mas não consegue me enganar.
— Eu disse que tenho um irmão no exército que me ensinou a montar, lembra?
Coloquei suavemente a tigela de ensopado na pequena mesa de centro no saguão onde Miles havia colocado suas chaves.
— E aqui você quase estragou a guloseima que trouxe para você e tudo! Honestamente!
— Ah, a comida está segura? Bem, imaginei que a senhora seria capaz de desviar enquanto ainda...
Olhei rapidamente para baixo para ver o que ele havia jogado em mim. Era um pequeno pássaro de madeira entalhado à mão.
— Estou surpresa que o senhor pregue uma peça dessas em mim, Miles!
— A senhora pensa que está escondendo sua perícia, mas não consegue suprimi-la completamente. Não teve problemas em me deixar segurar sua filha hoje, então posso dizer que confia em mim. Mas foi descuidado da sua parte fazer isso.
Miles fez um gesto em direção a uma cadeira e se virou para fazer chá. O senhor diz isso enquanto mostra as costas para mim?
— O que chamou minha atenção para a senhora não foi sua habilidade de montaria. A senhora é muito boa em montar — não me entenda mal. Mas a senhora sempre me mantinha no canto do olho. Toda vez que eu tentava entrar em seu ponto cego, a senhora se movia casualmente para mais perto de mim. Acho que é um hábito seu.
Entendo.
— Então? O que o senhor vai fazer comigo agora? — perguntei.
— Nada. Mas agora que vi a senhora com sua filha, que não se parece em nada com a senhora, tive certeza. Aquela garotinha não é parente sua, é?
— Não, não é. Ela foi abandonada pela mãe quando a conheci.
— Acolher a criança foi incrivelmente imprudente.
— Não me arrependo nem um pouco. Graças a ela, finalmente estou vivendo uma vida normal.
Miles me entregou uma xícara de chá. — Desculpe pelo que aconteceu antes. A senhora é simplesmente uma pessoa tão interessante.
— Deixe-me dizer mais uma vez: sou uma plebeia comum que está simplesmente criando sua filha.!
— Claro, claro. Vamos ficar com isso. Mas quero dizer uma coisa: se a senhora precisar de ajuda, pode vir a mim. Posso pelo menos atrasar seus inimigos.
— Mas por quê?
— Porque a senhora é uma mulher com um passado criando sua filha entre pessoas comuns. Não vou perguntar por que está fazendo isso. Mas como um velho que não tem nada além de tempo livre, gostaria de ajudá-la.
Dei-lhe o tipo de sorriso despreocupado que você veria descrito nos livros didáticos da organização.
— Pessoas comuns não têm inimigos — eu disse. — Contanto que o senhor cuide do meu cavalo, isso já é mais do que suficiente para mim.
Miles mergulhou o dedo no ensopado que eu trouxera e provou. — Hmm, isso é bom.
— Obrigada. E obrigada pelo chá. — Eu estava prestes a fechar a porta, mas então me virei. — E obrigada pelo conselho.
— Não há de quê. De agora em diante, tome cuidado ao interagir com pessoas que parecem habilidosas.
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O Mestre Clark deu uma mordida na torta com um olhar sonhador no rosto e, por alguma razão, Nonna parecia triunfante. A expressão que uma garota bonita fazia quando estava se gabando era algo à parte.
Enquanto nós três saboreávamos nossos lanches, vi uma mulher na casa dos cinquenta entrar na padaria. Percebi pela maneira como estava vestida e por como falava que era criada de um nobre. Ela estava discutindo sobre algo com um dos funcionários no fundo.
— Sinto muito, senhora. Mas a torta de maçã está esgotada por hoje.
— Nem uma fatia sequer?
— Não, sinto muito.
— Haah... E agora, o que vou fazer?
Ops. Provavelmente era porque eu comprei uma torta de maçã inteira para levar para a família do Mestre Clark. A mulher parecia estar com problemas. Eu poderia comprar outra coisa para os Anderson, então talvez devesse deixá-la ficar com a torta? Virei-me e falei com ela.
— Com licença, mas acabei de comprar uma torta de maçã inteira como presente para alguém. A senhora gostaria de ficar com ela?
— Tem certeza?
— Sim, posso voltar e comprar outra coisa outro dia.
A mulher me agradeceu profusamente. Ela pegou a torta de maçã com cuidado nos braços e se curvou para mim várias vezes antes de sair.
— A senhora gosta tanto de torta de maçã que comprou uma inteira, Srta. Sellars? — perguntou o Mestre Clark.
— Adoro torta de maçã, mas comprei aquela para a Condessa Eva e o conde. Se você diz que eles não gostam muito de doces, então vou comprar outra coisa para eles. Vendem muitas coisas deliciosas aqui.
E foi isso.
Naquele dia, coloquei o Mestre Clark, que estava muito satisfeito, na carruagem dos Anderson e o mandei de volta para casa. Então Nonna e eu caminhamos para casa juntas.
Tomamos banho e nos lavamos com o sabonete luxuoso que a Condessa Yolana me dera.
Depois disso, Nonna e eu dormimos lado a lado. Eu adorava dormir na mesma cama com ela.
Mesmo que ela já pudesse dormir sozinha aos seis anos, eu queria compensar toda a solidão que ela experimentara na primeira infância. Eu esperava até Nonna adormecer, então lia livros, trabalhava em algumas traduções para o Sr. Bernard, ou treinava.
Na semana seguinte...
— Diga, Victoria. Ouvi dizer que você conhece a criada do Barão Hanson? — perguntou a Condessa Eva.
— Hanson...? Não, não me lembro.
— Bem, conheço o Barão Hanson pelo trabalho do meu marido. Hoje mesmo, sua esposa, a baronesa, veio nos visitar com algumas folhas de chá raras, e a criada dela reconheceu Clark! E ela disse que você deixou ela ficar com uma torta de maçã inteira.
— Ah! Agora sei quem é. Na semana passada, estávamos em uma padaria no quarteirão sul quando encontrei a mulher. As tortas de maçã estavam esgotadas, e eu tinha acabado de comprar a última, então deixei que ela ficasse com ela.
A Condessa Eva assentiu entusiasticamente. Pensei que fosse o fim disso, mas aparentemente não.
Três dias depois, o Barão e a Baronesa Hanson chegaram à mansão Anderson com sua criada. Então a Condessa Eva convocou Nonna e eu.
— Victoria, o Barão Hanson tem algo a dizer a vocês duas.
Isso certamente é muito alvoroço por uma única torta de maçã! pensei. Tive um mau pressentimento sobre isso.
Nonna e eu entramos na sala de estar dos Anderson. Uma senhora que era a imagem de uma nobre levantou-se de seu assento e olhou para Nonna. Ambas tinham cabelos loiros. A mulher cobriu a boca com a mão e seus olhos se encheram de lágrimas.
O quê? Não me diga que são os pais de Nonna?
Havia algo neles que me lembrava Nonna.
— Prazer em conhecê-los. — Nonna e eu os cumprimentamos. O homem também parecia tomado pela emoção.
— Victoria, sente-se. Estes são o Barão e a Baronesa Hanson. Barão, esta é Victoria, e a garota se chama Nonna.
Quando nos sentamos, os dois encararam Nonna.
— Quando nossa criada nos contou, eu simplesmente não consegui acreditar. Mas ela realmente se parece com ela! — exclamou o barão.
— Eu sei. Idêntica! — concordou a baronesa.
— Com licença, mas o que é tudo isso? — perguntei.
A baronesa enxugou os olhos com o lenço e explicou: — Nossa filha morreu de doença quando tinha três anos. Se tivesse vivido, ela se pareceria exatamente com esta garota aqui.
— E então, Victoria — disse a Condessa Eva —, o Barão e a Baronesa Hanson gostariam de adotar Nonna.
— ...
Meu mau pressentimento estava certíssimo.
— Sinto muito, mas não tenho intenção de abrir mão de Nonna.
— Por favor, pense com cuidado, Victoria — começou o barão. — Ouvi dizer que você é solteira e está criando a criança sozinha. Temos muito dinheiro para adotar. E quando Nonna crescer, podemos arranjar um nobre para se casar com nossa família e dar continuidade ao nosso nome. Você não acha que esta é a melhor oportunidade para ela?
Entendo. Tudo isso é sobre status e dinheiro.
— Vicky, sobre o que eles estão falando?
— O barão e a baronesa querem que você seja filha deles, Nonna.
— O quê? De jeito nenhum.
A baronesa interveio imediatamente. — Uma criança de seis anos não entende a importância desta conversa, Victoria. Obviamente, ela vai dizer que prefere ficar com a pessoa a quem se acostumou. Mas você deve considerar a felicidade dela quando crescer. Ora, se algo acontecer com você, ela vai acabar na rua!
Era verdade que se eu ficasse doente ou machucada demais para trabalhar, estaríamos em apuros.
Fiquei em silêncio, e o barão de repente fez uma proposta ousada. — Nonna, que tal você ficar na nossa casa por uma semana para experimentar? Tenho certeza de que você não sabe como é viver como nobre, então talvez mude de ideia depois de experimentar por si mesma!
— Isso mesmo! Posso fazer um vestido para você. E vou comprar muitas joias para combinar com esses olhos bonitos que você tem. Podemos ir ver peças de teatro, e podemos colocar decorações bonitas no seu quarto e conseguir o que você quiser!
Ela achava que podia subornar uma criança com promessas de luxo? Minha Nonna não seria influenciada por promessas tão baratas.
Considerando a personalidade da Condessa Eva e o status de ambas as famílias, eu esperava que ela rejeitasse firmemente a questão da adoção, mas por alguma razão, seu tom de voz era suave.
— Barão Hanson, Nonna é uma garotinha bastante ativa. Acho que pode ser difícil criá-la como nobre e discipliná-la como tal.
— Não, não, Duquesa Anderson. Deixe-nos preocupar com isso. Tenho certeza de que a garota vai mudar de ideia depois de ficar uma semana na nossa casa.
Eu era quem estava criando Nonna, e ainda assim ninguém estava pedindo minha opinião sobre isso. Decidi que os recusaria firmemente, de uma vez por todas.
— Como eu disse antes, eu—
— Quantos dias eu preciso passar lá? Sete? Ou seis? — Nonna interveio, me deixando sem palavras.
Os rostos do barão e da baronesa se iluminaram de alegria.
— Seis noites. Ou sete, se você quiser. Você é uma garotinha muito inteligente! — disse o barão.
— Estou tão feliz, Nonna.
Fiquei atordoada ao encontrar um olhar satisfeito no rosto de Nonna.
Queria dizer a ela: Por quê? Pensei que as coisas estivessem indo bem entre nós. Estamos nos divertindo morando juntas, não estamos?
— Nonna, por quê...?
— Se eu ficar com vocês por seis noites e não gostar, então podemos dizer não de vez?
— Claro. Você pode vir para nossa casa imediatamente e passar a noite começando hoje.
— Certo.
Espere um momento. Hoje?!
— Por favor, espere um minuto, Lorde Hanson. Nonna não tem uma muda de roupa.
— Victoria, ela não precisa de uma muda de roupa — disse a baronesa. — Podemos dar a ela tudo o que ela precisa. Vou comprar todos os vestidos que ela quiser. Você é como um sonho realizado, Nonna!
— Isso mesmo. Vamos fazer compras no caminho para casa — acrescentou o barão.
E assim eles levaram Nonna, como se estivessem a tirando de mim para sempre. Fiquei completamente perplexa enquanto via Nonna acenar para mim impassivelmente da carruagem. Então ela se foi.
— Srta. Sellars! Por que Nonna acabou de entrar naquela carruagem?!
— Mestre Clark... Sinceramente, não sei.
— Hã? Srta. Sellars?
— Sinto muito... Preciso ir para casa.
Senti-me infinitamente deprimida enquanto caminhava para casa. Passei pelos portões da propriedade da Condessa Yolana e arrastei meus pés pelo caminho. Quando passei pela Condessa Yolana, que estava cuidando do canteiro de flores, ela me chamou.
— Ah, Victoria! Cadê a Nonna?
— Ela está passando a semana na casa de um barão.
A Condessa Yolana imediatamente percebeu meu humor abatido, e a preocupação apareceu em seu rosto. — O que aconteceu?
Dei a ela um relato honesto sobre tudo o que havia acontecido.
— E então, se Nonna gostar da vida aristocrática, eles têm planos de adotá-la.
— E Nonna concordou com isso?
— Certamente parece que sim.
— Hmm, entendo. Você disse que o nome do barão era Hanson? Ah, sim... Agora me lembro. Acho que eles pretendem fazer de Nonna a substituta da filha que morreu.
— Parece que sim. Se me dá licença, Condessa Yolana, estou me sentindo muito confusa agora, e gostaria de me deitar.
Fiz o possível para não abaixar a cabeça enquanto caminhava até minha casa de hóspedes. Ouvi a Condessa Yolana oferecer algumas palavras gentis de encorajamento atrás de mim. — Isso não vai acabar bem para eles. Tenho certeza. Acredite no que digo, Nonna vai recusá-los e voltar para casa.
O céu do entardecer gradualmente escureceu.
Eu estava completamente perdida e sentei-me sem energia na cadeira até ficar tudo escuro, mas não conseguia me levantar.
Nunca imaginei que Nonna concordaria tão facilmente em me deixar. Pensei que ela recusaria na hora. Eu presumira que ela ficaria comigo para sempre. Quase chorei quando pensei na maneira brusca de Nonna falar e no jeito que ela sorria quando fazia cambalhotas e mortais no ar sem esforço.
Sentar sozinha neste quarto vazio o fez parecer frio, como se a vida tivesse sido sugada dele. Pensando bem, até eu deixar a organização, eu sempre estivera cercada de pessoas. E desde que chegara a este reino, Nonna estivera ao meu lado. Finalmente experimentei um gostinho da vida normal, mas agora parecia que eu viveria sozinha.
De repente, houve um boom, boom, boom violento! Alguém estava batendo na porta.
— Victoria! Você está aí?
Era a voz do capitão.
Ugh, não quero que ele me veja assim, pensei, então não respondi.
— Sei que você está aí, Victoria. Se não abrir, vou arrombar esta porta!
Por favor, não. Isso custaria muito dinheiro para consertar.
— Está destrancada — eu disse.
A porta se abriu, e o capitão entrou. Ele ficou parado no quarto escuro por um momento, então acendeu a lamparina que eu tinha na mesinha perto da porta.
— Estava completamente escuro aqui, e fiquei preocupado. A Condessa Yolana me mandou uma mensagem. Fiquei tão preocupado com você que corri todo o caminho até aqui. Ela disse que Nonna foi para a casa de algum nobre?
— Presumi que, como Nonna era uma criança, ela ficaria comigo para sempre. Mesmo que eu não tivesse o direito de ditar a vida dela.
— Victoria. — O capitão se aproximou de mim enquanto eu estava sentada e colocou a mão no meu ombro. — Acho que Nonna foi com eles porque deve ter um plano.
— Sim, também acho. Ela é uma garota inteligente. Mas de uma perspectiva externa, este seria o melhor cenário possível para ela. Tornar-se filha adotiva da nobreza neste reino garantiria seu status, segurança e felicidade, ao contrário de ser criada por uma estrangeira solteira como eu.
A mão no meu ombro se moveu ligeiramente.
— Não fale de si mesma assim. Você é uma mulher maravilhosa, forte e independente. Tenho certeza de que Nonna voltará para você. É o que eu realmente penso.
— Mas ela seria mais feliz se não voltasse, e é isso que dói.
— Victoria... Nonna pode decidir o que a fará mais feliz. Conhecendo-a, ela ficará bem. Ela vai escolher você e voltar para casa.
Sua voz gentil e profunda ressoou em meu coração. Sua mão parecia tão grande e quente no meu ombro, e senti um lampejo de força no fundo.
Se ao menos Nonna e eu pudéssemos viver juntas novamente, pensei, imaginando todas as coisas que faria por ela.
— Você tem razão — eu disse. — Acho que vou costurar aqueles botões nas roupas dela para surpreendê-la quando ela voltar.
— Isso mesmo. Mover as mãos vai ajudar a distrair sua mente.
Levantei-me lentamente e curvei a cabeça para o capitão. — Muito obrigada. Estou bem agora. Acho que vou preparar o jantar. O senhor já comeu?
— Não. Ia comer, mas então recebi a mensagem da Condessa Yolana.
— Bem, vou preparar algo para nós dois, então.
Piquei alguns legumes que tinha em mãos para fazer sopa, então temperei um pouco de porco e cozinhei. Normalmente, não usaria muitos temperos, mas esta noite, como éramos só os adultos, dei um toque picante. Por fim, cortei algumas fatias de pão amanhecido, um pouco duro.
— Só tenho isso.
— É mais do que suficiente. Parece delicioso.
Será que Nonna realmente voltará para casa?
De qualquer forma, o capitão estava certo. Mesmo tendo apenas seis anos, Nonna deveria ser capaz de decidir o que a fazia feliz. Viver uma existência infeliz que lhe era imposta pelos outros era insuportável, mas você conseguia atravessar tempos difíceis se estivesse levando uma vida que escolheu. E Nonna era forte e inteligente.
— Acho que Nonna vai voltar para casa, mas se você não gostar disso, não hesite em falar. Você pode ir à casa daquele barão e trazer Nonna de volta. Se não quiser ir sozinha, eu vou com você.
Pensei um pouco e então balancei a cabeça.
— Quero colocar os sentimentos dela em primeiro lugar, então vou esperar.
— Tudo bem. Bem, se mudar de ideia, é só me avisar. Eu vou com você.
O capitão pareceu preocupado comigo depois do jantar, mas disse: — Você deveria ir para a cama cedo esta noite — e então foi para casa.
Na manhã seguinte, acordei depois de passar a noite sem Nonna.
— Acho que deveria fazer coisas que não posso fazer quando Nonna está por perto.
Tentei mudar meu estado de espírito. Galopei Aleg a toda velocidade e comi refeições simples que enfatizavam nutrição em vez de sabor. Quando tinha tempo livre, trabalhava na minha peruca preta. Estava quase terminada.
Naquela noite, visitei a casa de Miles depois do trabalho. Havia algo que eu queria verificar.
— Hmm? O que a traz aqui?
— Estava me perguntando se você lutaria comigo, Miles.
— Claro. Qual é a sua arma?
— Tenho uma espada curta com o fio cegado, para fins de treinamento.
— Vou usar minha espada de treino, então.
A espada de Miles parecia pesada o suficiente para quebrar ossos se acertasse em cheio. Mal havíamos nos cumprimentado, mas já estávamos nos preparando para lutar. Percebi que ele estava animado.
— Venha para cima de mim a qualquer momento — disse Miles.
— Aqui vou eu.
Corri em direção a ele e avancei bem na frente dele enquanto ele segurava sua espada de treino em posição. Girei e desferi um chute na parte de trás do ombro esquerdo dele.
Ele recuperou a postura, então se virou e balançou a lâmina em minha direção com um swish! Consegui desviar no último segundo e agarrei minha espada curta. Desviei de seus golpes repetidas vezes, então golpeei seu lado com minha espada curta. Num instante, saltei em direção ao pescoço ligeiramente exposto de Miles por trás, envolvi meu braço esquerdo em volta dele e pressionei a lateral da minha espada firmemente contra sua testa.
— Pronto, arranquei os dois olhos — eu disse.
— Argh, você me pegou! Pronta para outra rodada?
— Quantas você quiser.
Lutamos por mais cinco minutos intensos. Apesar da idade, Miles ainda tinha uma habilidade formidável. Eu não teria a menor chance contra ele se estivesse em seu auge. Enquanto nós dois ofegávamos e o suor escorria em nossos olhos, ele quebrou o silêncio.
— O que aconteceu com a criança?
— Ela está na casa de outra pessoa.
Ele avançou contra mim antes que eu terminasse de falar. Interceptei-o com minha espada curta. Errei! Minha mão direita latejou.
Desviei a lâmina dele com um empurrão e desferi um chute rápido no quadril direito dele — seu lado dominante.
— Oof! — Ele soltou um gemido.
— Na verdade, eu estava mirando na sua virilha — eu disse, ofegante.
— Mirar na virilha de um velho pode ser um golpe crítico!
— Ah, então agora você joga a carta da idade. — Foi tão engraçado que tive que rir. — Espere um minuto!
— Não há espera em batalha.
— Não consigo parar de rir!
— Ah, então você finalmente se animou.
— Sim.
— Então que tal um chá?
— Claro!
Miles não me perguntou nada. Quando terminei meu chá, ele disse: — Você pode voltar quando quiser. Eu realmente me diverti. — E me mandou embora com um sorriso.
Senti-me cerca de 80 por cento melhor. E confirmei o que tinha ido lá para confirmar.
Depois disso, mergulhei no trabalho por vários dias. O Mestre Clark estava deprimido e, às vezes, me lançava olhares muito preocupados.
— Mestre Clark, sei o que você quer dizer, mas estou tentando respeitar os desejos de Nonna.
— Eu nunca teria deixado ela ir. — Ele não aceitava minha decisão de forma alguma.
Eu me exercitava todas as manhãs, continuando minha corrida e equitação. Havia muitas coisas para fazer; eu só precisava procurá-las.
Agora que minha peruca preta estava completa, decidi apará-la até a altura dos ombros. Enfiei o cabelo em seções e o cortei. Como o cortei tão curto, sobrou bastante cabelo, então decidi fazer uma peruca infantil também. Era comprido o suficiente apenas para um corte de cabelo de menino, mas pensei que Nonna ficaria bem disfarçada como um garotinho de cabelo preto, se necessário.
Seis dias se passaram. No dia seguinte, Nonna tomaria sua decisão.
Naquela noite, fui desperta por um barulho. Estendi a mão e peguei minha adaga de uma sacola de pano que havia prendido atrás da cama.
Saí da cama silenciosamente e fiquei ao lado da porta da frente.
A maçaneta girou lentamente do lado de fora, mas a porta estava trancada, é claro. Agucei os ouvidos e ouvi os passos se afastarem da porta da frente em direção à janela da cozinha. Pensei por um momento e então corri para meu quarto e escapei pela janela. Pensei em esfaquear a pessoa por trás no momento em que ela entrasse pela janela da cozinha, então contornei a casa de tijolos, empunhando minha adaga.
Virei a esquina duas vezes, e lá estava ela. Nonna estava lutando para abrir a janela da cozinha, contando com a lua como sua única luz. Ela estava usando uma camisola branca pura afogada em babados, e chinelos brancos luxuosos feitos de seda.
— O que você está fazendo? — perguntei.
— Eek! Você me assustou!
— Você é quem me assustou, andando furtivamente à noite. Entre.
— Sim, Vicky.
Entramos e acendi uma lamparina, então limpei meus pés sujos. Nonna tirou a camisola cheia de babados ali mesmo no saguão.
— Essa renda é tão coceguenta e barulhenta. Eu odeio.
— Não acredito que você saiu andando sozinha à noite vestindo isso. E se uma pessoa má te atacasse? Por que você fez uma coisa dessas?
Nonna disse: — Espera aí! — então correu para o quarto, voltando com sua camisola de flanela azul-clara favorita.
— Bem — ela disse, vestindo a camisola de flanela macia. Ela abotoou e explicou: — Eles me trancaram no quarto hoje. E me chamaram de Dolores. E me disseram para chamá-los de Mamãe e Papai. Não gostei disso. Não sou Dolores, e eles não são meus pais.
Senti um pouco de pena do barão e da baronesa, mas imaginei que isso aconteceria.
— Então como você saiu da mansão se eles te trancaram lá?
— Me pendurei no parapeito da janela do segundo andar, então soltei. Rolei assim que aterrissei, exatamente como você me ensinou! E fiz um trabalho muito bom!
Eu queria explodir em risadas com o olhar triunfante em seu rosto. Eu a ensinara a fazer isso apenas em situações de emergência. Ela estava desesperadamente tentando dar desculpas.
— Estava trancada, então foi uma emergência. Eles estavam me usando para substituir a filha morta deles, e isso também foi uma emergência!
Soltei uma risada fraca. Aqueci um pouco de leite e coloquei um pouco de mel, então o entreguei a Nonna. Ela soprou para esfriar, então começou a beber.
— Então você sabia que eles estavam tentando usar você como substituta da filha deles. Acho que foi cruel trancá-la lá dentro. Pessoalmente, acho que você não deveria ter concordado em primeiro lugar.
— Bem, a Condessa Eva estava com problemas. Quando Condessa Eva se sente angustiada, ela torce o lenço bem apertado. E eu a vi fazer isso então. Foi por isso que fui. Eles disseram que se eu fosse e não gostasse, poderíamos dizer não.
Hmm, então Nonna também havia notado que a Condessa Eva estava angustiada.
— Você já a viu assim antes?
— Já. Quando dei uma joelhada no Mestre Clark, a Condessa Eva entrou no quarto e torceu o lenço.
Espera aí. Ela deu uma joelhada no Mestre Clark?!
— Volta um pouco. Você deu uma joelhada no Mestre Clark?
— Dei sim! Porque ele disse: "Me mostre como você faz!" Não se preocupe, Vicky. Não contei a ele como você deu aquele chute circular e o golpe de karatê, e também não mostrei!
O que você tem feito quando está longe de mim, Nonna?
Na manhã seguinte, antes de levar Nonna à propriedade do Barão Hanson, paramos na casa dos Anderson no caminho para nos desculpar com a Condessa Eva.
— Tarde da noite passada, Nonna escapou da casa do barão e voltou para casa. Tenho certeza de que estão preocupados com ela, então vou levá-la à casa do barão para me desculpar. Só queria vir avisar primeiro. — Fiz uma reverência, e Nonna fez o mesmo. Mas a Condessa Eva balançou a cabeça.
— Não, acho que você não deveria ir lá. Eu mesma entrarei em contato com eles. Causei muitos problemas para você e para Nonna porque não consegui recusar em seu nome — ela disse, então sussurrou algo no ouvido de sua criada. A criada assentiu e saiu correndo da sala.
— Há quatro anos, houve uma epidemia de gripe que passou pela capital, e todos que adoeceram tiveram febres muito altas — disse a Consessa Eva. — Clark pegou a gripe e ficou com febre por cinco dias seguidos. Felizmente, ele sobreviveu, mas muitas crianças e idosos morreram naquela época.
Sol: A cara de orgulhosa da Nonna me quebra, geniazinha. | Moon: Daqui a pouco já vira cria do RJ. Que Orgulho!!
A cada poucos anos, havia uma epidemia grave. Sobreviver era uma questão de resistência, então pessoas mais fracas perderem a vida era uma consequência inevitável.
— Como eu disse antes, meu marido é o ministro das relações exteriores. Por alguma razão, espalharam-se rumores de que tínhamos acesso a um remédio de outro país que era eficaz contra a gripe. Era verdade que havíamos encontrado um remédio muito bom que funcionava bem para queimaduras há algum tempo, e o distribuímos para quem precisava. Isso deve ter dado origem ao mal-entendido. Não importa o quanto negássemos ter remédio para a gripe, os rumores persistiam. Enquanto isso acontecia, o Barão Hanson apareceu em nossa casa. Ele tomou os rumores como verdade e nos implorou com lágrimas pelo remédio para salvar a vida de sua filha. Ele disse que nos daria todo o dinheiro que tinha. Tentei explicar que nunca usamos remédio para ajudar Clark a se recuperar, mas ele simplesmente não quis ouvir.
Ah, entendo.
Os Hanson ainda guardavam rancor dos Anderson por causa daquele incidente e a Condessa Eva ainda se sentia culpada por isso. Foi por isso que ela achou difícil recusar categoricamente a sugestão deles de adotar Nonna.
— Condessa Eva, a senhora e sua família não são responsáveis pelo que aconteceu de forma alguma.
— Racionalmente falando, concordo. Mas aqueles dois não são racionais. Essa é a parte complicada de toda a situação. Talvez eles saibam no fundo que não tínhamos o remédio. De qualquer forma, essa história não tem nada a ver com vocês duas. Sinto muito por arrastá-las para assuntos que envolvem minha família e os Hanson. Peço desculpas.
No final, simplesmente fomos direto para a casa do Sr. Bernard.
— Eva me tratou com gentileza, mas é bom estar de volta em casa — ele disse.
— Só estou feliz que o senhor esteja bem, Sr. Bernard.
Nonna entregou a ele uma pequena flor amarela que encontrara florescendo à beira da estrada. — Aqui está, Sr. Bernard!
— Ooh! Esta é a primeira vez que ganho flores de uma garota tão linda!
Eu estava pensando no barão e na baronesa.
Mesmo que Nonna e eu tivéssemos vivido juntas por apenas alguns meses, a ideia de perdê-la era agonizante. Eu não conseguia nem imaginar a dor que os Hanson sentiram quando perderam sua filha de três anos. Eu só experimentara um pouco dessa dor.
Quando chegamos em casa, cozinhei um pouco de carne no fogão e tirei a poeira, então poli as janelas. Imaginar Nonna não estando mais neste mundo me trouxe perto das lágrimas. Recebi uma mensagem da Condessa Eva dizendo: Cuidei de tudo, então não há mais necessidade de se preocupar.
No dia seguinte, recebemos uma carta e um monte de pacotes dos Hanson.
Decidimos voltar para o baronato e nos concentrar em governar as coisas lá. Obrigada por nos fazer sentir que recuperamos a Dolores, mesmo que por pouco tempo.
— William Hanson
Dentro das várias caixas estavam vestidos caros, sapatos, acessórios, roupas íntimas, camisolas, chinelos e bolsas. Nonna não mostrou muito interesse neles, mas senti um nó no coração ao olhar para todos eles.
Os Hanson haviam ultrapassado um limite ao trancar Nonna em seu quarto, mas como eles se sentiram quando souberam que ela havia fugido sem intenção de voltar, e quando se desfizeram de todas aquelas coisas? Talvez finalmente tenham percebido que não havia substituto para sua filha e que ela nunca mais voltaria.
Então um pensamento cruzou minha mente: Meus pais ficaram tristes depois que me deixaram ir quando eu tinha oito anos? Eu não podia mais perguntar a eles, é claro, mas gostaria de poder. Se eles ainda estivessem vivos, diriam: "Claro que ficamos tristes"? Depois de todo esse tempo, eu gostaria que dissessem, mesmo sabendo que era inútil.
Informei a Condessa Yolana e o capitão que Nonna havia voltado e que o barão e sua família haviam voltado para seu domínio. E com isso, o incidente chegou ao fim.
Naquela noite, Nonna e eu tivemos um jantar tranquilo.
De repente, houve uma batida na porta. O capitão tinha vindo nos ver.
— Ah, Victoria. Tenho notícias para você.
— O que é?
— A Condessa Eva foi ao meu irmão mais velho pedir conselhos sobre o incidente com Nonna. Ele foi ao Barão Hanson e lhe deu um aviso, dizendo: "Até que ambas as partes concordem e a papelada seja oficialmente concluída, a guardiã legal de Nonna é Victoria." Ele também acrescentou que eu sou seu fiador.
— O Conde Asher falou com eles em meu nome?
— Sim, meu irmão conhece o barão.
Aposto que o Barão Hanson ficou muito surpreso quando o conde apareceu.
— Ouvi dizer que a baronesa estava mentalmente instável por algum tempo após a morte da filha deles. Uma vez, ela forçou uma garota plebeia loira a ir até a propriedade deles e disse: "Encontrei nossa filha perdida."
— Oh, céus...
— Aparentemente, eles mantiveram a família da criança e os criados em silêncio sobre o assunto porque isso poderia afetar a reputação do barão. Não tenho certeza de onde meu irmão ouviu isso, mas foi ele quem me contou. Eu não sabia disso antes, e a Condessa Eva também não.
Eu havia notado que a baronesa parecia bastante emotiva, mas nunca teria imaginado que isso tinha acontecido.
— Meu irmão estava preocupado e disse: "Se Nonna realmente se parece tanto com a filha deles, a baronesa pode ter se recusado a deixá-la ir mesmo que ela quisesse voltar para casa."
— Capitão, gostaria de agradecer ao Conde Asher pessoalmente em breve.
— Você não precisa fazer isso. Meu irmão é grato por tudo o que você fez pelo Tio Bernard. Mas se você realmente quiser agradecê-lo, ele adora um bom petisco para comer com álcool. Posso entregá-lo a ele.
Naquela noite, o capitão foi para casa com um sorriso no rosto.
— Nonna, os Hanson fizeram algo assustador com você enquanto você estava com eles?
— Não. Mas não gostei quando fiquei sozinha com a esposa. Porque ela ficava me chamando de Dolores. E era assustador quando ela ficava dizendo: "Finalmente, nossa família está reunida novamente", e começava a soluçar.
Que história trágica.
— Mas isso não me incomoda mais.
— Você é uma garotinha tão forte. E muito gentil.
— Vicky.
— Sim?
— Podemos morar com o Jeff?
Será que ela teve essa ideia porque quase se tornou parte da família de outra pessoa? Eu não tinha certeza de como responder, então apenas afaguei sua cabeça.
Eu gostaria que pudéssemos. Mas não podemos, pensei.
Traduzido por Moonlight Valley
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