Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 170 - 169
Capítulo 170Ascendance of a Bookworm – Capítulo 169
O título de “Gutenberg”
— Tudo pronto, Gutenberg?
— Você poderia parar de me chamar assim?!
— O terceiro sino vai tocar em breve se não nos mexermos. Vamos lá! Vamos lá! Vamos, Gutenberg.
O capataz colocou a mercadoria em um saco e abriu a porta, afastando meus protestos com uma risada. Eu o segui, a pesada caixa de tipos de letras metálicos nos meus braços e uma carranca afiada no meu rosto. Hoje eu estaria apresentando os frutos da minha tarefa dapla para a Guilda dos Ferreiros. Todo mundo na oficina nos viu com sorrisos.
— Ei, Gutenberg, certifique-se de realmente vender esses seus tipos para eles.
— Meu nome é Johann! Pare de me chamar de “Gutenberg”!
— Heheh! Nem todo mundo recebe um título especial de seu patrono, você sabe. Isso é algo que você deve se gabar para a guilda.
Arg! Por que todo mundo tem que tirar sarro de mim?
Graças ao capataz, até meus companheiros de guilda estavam me chamando de “Gutenberg”, agora. Ou melhor, devo dizer que foi tudo graças a Myne, minha única patrona. Enquanto carregava a caixa pesada, pensei no dia em que ela me deu meu título.
Tudo aconteceu quando fui à Companhia Gilberta, para apresentar minha tarefa dapla para eles. Sempre fiz tantas perguntas sobre os pedidos que recebi, que nenhum cliente, exceto Myne, estava disposto a ser meu patrono. Ela era pequena e nem parecia ter idade suficiente para ter sido batizada ainda, mas acho que as aparências podem ser enganosas. Além disso, era fácil esquecer que ela era uma garotinha quando respondia a perguntas sobre seus pedidos, fornecia plantas e pagava pelo que precisava.
No final, sua tarefa para mim era fazer tipos de letras de metal. Eu tinha que fazer cada letra de acordo com suas especificações exatas, o que era tão gratificante, quanto imensamente difícil.
Me pergunto se a Senhora Myne vai gostar deles, pensei, enquanto tirava o pano que cobria a caixa e revelava os tipos de letras ao meu primeiro e único patrono, esperando, com medo, a avaliação que decidiria meu futuro.
— Uau.
Myne olhou para os tipos de letras, seus olhos dourados tremendo. Ela tinha a pele branca pálida, de alguém que nunca saía ao sol, o que tornava o fato de suas bochechas estarem coradas ainda mais evidente. A maneira como ela colocou a mão no peito enquanto suspirava, a fez parecer inteiramente como uma garota apaixonada, e havia uma certa intensidade em seu olhar, que parecia antinatural para uma garotinha.
Ela timidamente pegou um dos tipos de letra e rolou-o em sua palma minúscula, olhando para ele como se fosse o maior tesouro do mundo.
Acho que é seguro dizer que ela gosta deles, então.
No momento em que soltei um suspiro de alívio, os olhos vacilantes de alegria de Myne endureceram, quando ela adotou uma expressão mais calma e crítica. Ela pegou um segundo tipo de letra e alinhou os dois na mesa, antes de abaixar a cabeça para olhar diretamente para eles. Então, ela estreitou os olhos e começou a medir sua espessura e altura, verificando se havia diferenças.
E-Eles vão ficar bem?
Fiquei com medo de novo, até que ela me deu sua avaliação. Hum.
— Eles são maravilhosos! Você realmente se tornou Gutenberg!
— O quê?
— Johann, lhe concedo o título de “Gutenberg”!
Guten-o quê?
Baixei o queixo como um tolo enquanto olhava para Myne. Sua presença, como uma princesa delicada e frágil, uma linda flor pálida abrigada do mundo, acabara de se despedaçar violentamente, diante de meus olhos.
Lutz tentou acalmá-la, mas a excitação de Myne era imparável. Ela o abraçou e saiu de sua cadeira, falando o mais rápido que pôde, suas bochechas agora ainda mais coradas.
— Quero dizer, este é o início da era da impressão! Você está literalmente testemunhando o exato momento em que a história foi mudada para sempre! Esta é a segunda vinda de Gutenberg! Seu primeiro nome era Johannes, e agora ele está mudando a história como Johann! Que coincidência esplêndida! Um fatídico encontro de lendas! Louvados sejam os deuses!
Sim, eu não tenho absolutamente nenhuma ideia do que ela está falando.
Eu tinha sido forçado a fazer a mesma pose estranha durante a minha cerimônia de maioridade no templo, mas esta foi a primeira vez que vi alguém fazê-la e orar aos deuses na vida normal. Todos ficaram atordoados, mas Myne não parou por aí.
— Gutenberg é um artesão lendário no nível de um deus, cujo trabalho mudou a história e os livros para sempre. Johann é realmente o Gutenberg desta cidade!
Antes que eu pudesse processar totalmente o peso extremo do título que ela me dera, Myne começou a dar ao Benno e ao Lutz o mesmo. Meus camaradas estavam crescendo diante dos meus olhos. No entanto, minha principal preocupação era alguém a parando e pondo fim a essa atmosfera estranha.
Olhei para o servo em pé atrás de Myne, que tinha uma espécie de olhar imponente em seu rosto, quando Myne fez a pose novamente e elogiou Mestionora, a Deusa da Sabedoria! Foi então que ela caiu para a frente, ainda fazendo a pose com um sorriso feliz no rosto. Ela bateu no chão e ficou imóvel. Por um segundo, um silêncio desconfortável encheu a sala.
— O quê?! Senhora Myne?!
— Garota, você está bem?!
— O-o que está acontecendo?!
De todos lá, apenas o servo que a guardava, o capataz e eu nos levantamos em choque. O servo se ajoelhou, apressadamente, ao lado dela, observando-a enquanto o capataz e eu observávamos nervosamente. Mas todo mundo deu suspiros pesados.
— Ela até que demorou bastante. Agora posso finalmente ter um pouco de paz e tranquilidade novamente. — disse Benno, sem sequer se mover de sua cadeira. Ele, Lutz e até mesmo seus outros servos pareciam totalmente inabaláveis.
— Fran, deite-a naquele banco ali. Ela voltará de carruagem de qualquer maneira.
— Como quiser. Com licença, Sir Damuel. — O criado chamado Fran, pegou a Myne inconsciente e a levou para o banco perto da lareira, por algum motivo, depois a deitou e descansou um casaco grosso e de aparência quente sobre ela. O processo era tão rápido e calmo que era inteiramente como se todos tivessem previsto que isso aconteceria.
Enquanto eu ainda estava sem palavras, Benno bateu os dedos na mesa.
— Vamos começar a avaliação, então. Cuidarei disso como guardião da Myne, já que ela desmaiou. Tudo bem?
— Wow? Você vai simplesmente deixá-la assim?
Olhei para Myne inconsciente no banco, me perguntando se não havia problema em não fazer nada sobre uma garotinha, que acabara de cair inconsciente, do nada. Com certeza não parecia certo.
— O que você acha, Lutz?
— Ela provavelmente acordará ao pôr do sol. Eu diria que ela terá uma grande febre quando acordar, mas ela só tem a si mesma para culpar por isso. — Lutz disse, categoricamente, dando um pequeno encolher de ombros. Ele parecia bem-acostumado a lidar com Myne.
— Quantos dias isso vai durar? — Fran perguntou.
— Depende de quanto tempo ela fica tão animada. Não faço ideia, já que nunca a vi ficar tão louca.
A julgar pela conversa deles, eu podia dizer que não era tão incomum para Myne entrar em colapso. Eu gostaria de ter sabido disso antes. Eu tinha certeza de que estive a um segundo de um ataque cardíaco.
— De qualquer forma, esta deve ser uma avaliação fácil. Qualquer coisa que faça um patrono desmaiar de alegria deve passar com as cores vibrantes, eu diria.
— Sim, não foi difícil ver o quão animada ela estava — disse o capataz. — Sua avaliação servirá, Benno. Embora eu deva dizer, eu gostaria de saber para que eles serão usados.
Enquanto o capataz olhava para os tipos de letras, o servo mais jovem de Myne ergueu a cabeça, com uma percepção repentina, e pegou o que estava carregando.
— Vou demonstrar. Irmã Myne me disse para me preparar para isso.
— O que você vai fazer, Gil?
— Vou colocar tinta neles e imprimir algo. Dã. Heheh.
Gil, parecendo animado, sacou as ferramentas de que precisava. Ele alinhou o rolo, papel, tinta e alguma coisa circular, que eu nunca tinha visto antes, na mesa. O rolo que eu tinha feito anteriormente para Myne, agora estava completamente preto, e a julgar pelo fato de que Gil agora o estava cobrindo com tinta, eu poderia adivinhar por quê.
— De acordo com a Irmã Myne, você alinharia os tipos de letras e faria uma página de texto com eles. Então você põe tinta neles assim — explicou Gil, enquanto ele passava o rolo sobre os tipos de letra, transformando-os de prata reluzente para um preto pegajoso.
— Ei, ei, ei! — Gritei, reflexivamente, ao ver Gil sujando os tipos de letra de Myne, sem a permissão dela, mas ele simplesmente ignorou meus gritos, colocando uma folha de papel sobre os tipos.
— Para impressão real, usaríamos algum tipo de “coisa de imprensa” para empurrar a tinta, mas como isso é apenas uma demonstração dos tipos de letras, vou usar essa coisa chamada baren, em vez disso — explicou Gil com orgulho enquanto pressionava a coisa plana e redonda contra o topo do papel, esfregando-a em círculos. Parecia que eu era o único que se sentia doente de horror. Todos os outros olharam para o trabalho de Gil com grande interesse.
— Uma vez que a tinta está no papel, você o tira dos tipos e a deixa secar.
Gil removeu o papel, mostrando que tinha fileiras de letras distintas impressas em tinta preta. Ele repetiu o processo usando outra folha, fazendo uma cópia idêntica. Com um largo sorriso no rosto, Gil, então, segurou os dois pedaços de papel, lado a lado, e os mostrou para nós.
E então? Não entendo o que é tão impressionante. Isso parece um desperdício de papel para mim, eu pensei.
Mas, olhando ao redor da sala, ficou bem claro que eu era o único que tinha essa opinião. Benno, o capataz, e o guarda de Myne desenvolveram expressões duras no segundo em que viram as páginas.
O guarda-costas de Myne, Damuel, parecia particularmente surpreso. Ele estava examinando de perto os dois papeis com um olhar sério e mortal.
— Você terminou duas páginas tão rápido? — Ele perguntou — Eu não posso acreditar.
Enquanto isso, o capataz havia pegado alguns dos tipos de letra não utilizados, alinhando-os na palma da mão, antes de grunhir.
— Cada tipo é apenas uma única letra, por isso é fácil misturá-los e fazer qualquer texto que você precisa.
— Ela disse que seria muito, muito mais rápido do que cortar modelos de estêncil a cada vez — disse Lutz, fazendo com que todos franzissem as sobrancelhas ainda mais.
— Myne estava certa. Isso mudará a história. Eu sabia sobre impressão, mas não sabia que seria tão fácil trocar as letras. — Benno suspirou e balançou a cabeça. — O que aquela idiota fez desta vez?
As palavras de Benno falaram por todos, enquanto todos olhavam, coletivamente, para Myne, ainda inconsciente no banco. Eles pareciam saber o que estava acontecendo, mas eu, com certeza, não sabia. Tudo o que eu sabia era que, ao assumir Myne como minha patrona, me envolveria em algo que não tinha retorno.
— Myne disse que começaria a fazer a impressora agora, então acho que vai demorar um pouco até que ela faça muitas delas e as coisas realmente comecem a acontecer — disse Benno, em um tom mais brilhante, mas o capataz balançou a cabeça, com uma expressão conflituosa.
— Ela disse que ia pedir em uma oficina de carpintaria. Isso significa que ela já tem uma boa ideia de como fazer uma. Se ela puder fazer um projeto detalhado, como o que ela dá a Johann, não demorará muito para que a impressora seja feita.
As plantas de Myne eram sempre muito minuciosas e precisas, especialmente as que ela fazia para mim, já que sabia que eu gostava de ter todos os detalhes relevantes. Se a oficina de carpintaria recebesse um projeto como esse, eles acabariam com a impressora em pouco tempo.
Benno coçou a cabeça.
— É verdade, mas levará algum tempo até que a influência da impressora realmente comece a ser sentida. Esta ainda é a única cidade com ateliês de papel vegetal, e acabamos de assinar um contrato para a Guilda das Tintas começar a fazer a tinta para esse papel. Há uma enorme falta de recursos aqui. Não podemos acompanhar as impressoras. Mas, bem, já que os ateliês em outras cidades começarão a abrir novamente na primavera, será apenas uma questão de tempo até que tudo mude.
Então, ele me lançou um olhar penetrante. A súbita mudança de intensidade em sua atitude relaxada anterior foi tão brutal, que eu realmente ofeguei.
— Johann, você será conhecido como “Gutenberg” de agora em diante. Myne lhe deu o título sozinha, e não acho que você tenha alguma chance de se afastar dela agora. — disse Benno, ainda olhando para mim.
Incapaz de pensar em qualquer coisa para dizer, em resposta, apenas balancei minha cabeça para cima e para baixo.Estou apavorado. Farei o que ela quiser, então, por favor, deixe-me viver.
Benno deu um aceno satisfeito, a voz do meu coração, aparentemente, sendo ouvida alto e claro.
— Bom.
Não que eu tenha outros patronos para quem fugir, de qualquer maneira.
Apertei meus lábios com a lembrança do que havia acontecido na Companhia Gilberta, momento em que o capataz me disse que voltaríamos lá para relatar o que a guilda dissesse sobre os tipos. Me sacudi de surpresa, pensando por um segundo que ele havia lido meus pensamentos, mas isso foi tolice.
Juntos, entramos na Guilda dos Ferreiros. Ela estava localizada no coração da cidade, que compreendia o largo em torno da praça central. Havia muitas guildas naquela praça, com a Guilda dos Mercadores sendo a maior de todas.
A seção sudoeste da praça era onde estavam as guildas de artesãos, como a Guilda dos Ferreiros, a Guilda dos Carpinteiros e a Guilda dos Construtores. A Guilda dos Alfaiates e a Guilda do Tingimento estavam no noroeste, enquanto a Guilda das Estalagens e a Guilda dos Restaurantes estavam no sudeste. No nordeste estava a Guilda dos Mercadores e um prédio de reuniões para soldados. E agora, que era primavera novamente, o coração da cidade estava cheio de pessoas que iam e vinham de todas essas diferentes guildas.
Entramos na Guilda dos Ferreiros, que estava tão ocupada quanto o esperado. Algumas pessoas estavam aqui para vender, tendo trazido coisas que tinham feito como trabalho de inverno, enquanto outros, como eu, tinham vindo com suas tarefas de dapla. Foi uma grande comoção.
— Ei, Johann. Ouvi dizer que você encontrou um patrono, hein? Parabéns, — disse a recepcionista, que estava preocupada comigo no passado. Minha busca desesperada por um patrono era bem conhecida na Guilda dos Ferreiros.
Levantei um pouco a caixa de letras para que ela pudesse ver.
— Sim. Eles deram uma boa avaliação para a minha tarefa, também. As coisas estão finalmente melhorando para mim.
Ao encontrar um patrono e receber uma boa avaliação por sua tarefa concluída, evitei que meu contrato como dapla fosse anulado. Eu ainda precisava mostrar minha tarefa para a Guilda dos Ferreiros, para que eles pudessem avaliá-la, mas eu ficaria bem, não importava o que dissessem. Manter meu contrato de dapla seguro era tudo o que importava para mim neste momento.
— Isso é tudo o que importa para você, hein? Você com certeza não tem muita ambição para um homem com seus talentos — disse a recepcionista.
As pessoas me disseram isso muitas vezes, mas eu realmente não concordava. Era uma simples questão factual, que minha avaliação da Guilda dos Ferreiros não afetaria a probabilidade de eu garantir mais clientes, não importava o quão boa ou ruim fosse. Afinal, não importava o quão alto a oficina ou a guilda valorizassem meu trabalho, se nossos clientes não compartilhassem essa opinião.
O capataz e eu fomos para o segundo andar, onde vimos uma multidão de daplas. Eles, presumivelmente, também tinham acabado de atingir a maioridade, já que cada um estava apresentando sua tarefa, concluída, enquanto esperavam ao lado de seu capataz.
— Ora, ora, ora. Vejo que, apesar de toda a sua preocupação em não ter um patrono, você ainda acabou recebendo uma tarefa — disse um jovem, com cabelos curtos e de cor escarlate, com um olhar desafiador.
A julgar pelo fato dele estar aqui, tínhamos a mesma idade ou apenas um ano de diferença. Eu não poderia dizer com certeza, no entanto, uma vez que a quantidade de tempo que levou para encontrar um patrono e, em seguida, completar sua tarefa, variava de pessoa para pessoa.
Quem é esse guri aqui?
Às vezes, eu saía para comprar materiais ou entregar produtos a pedido do capataz, ou de meus colegas de trabalho, mas, geralmente, eu passava todo o meu tempo escondido na oficina. Para ser honesto, eu mal conhecia qualquer um. O capataz sempre gritava comigo sobre isso, dizendo ser uma das principais razões pelas quais tinha sido tão difícil para mim encontrar um patrono.
— Eu não sei qual era a sua tarefa, mas não será melhor do que o que eu fiz, — continuou o menino de cabelos escarlates.
Eu realmente não sabia o que dizer sobre isso, especialmente quando vinha de alguém que eu não conhecia. Tudo o que eu podia fazer era gaguejar um “Cl-claro”.
O cara bufou, depois correu de volta para o capataz.
— O que foi aquilo tudo?
— Esse é o Zack, da oficina Verde. — Disse o capataz. — Ele vê você como um rival. Você sabe que todo mundo está tenso para ver quem recebe as melhores avaliações e tudo isso, certo? Não seja um idiota. Se alguém vier à procura de uma luta, dê uma!
As palavras do capataz me interessaram. A oficina Verde era a ferraria mais popular e ocupada de toda a cidade. Se esse Zack era um dapla lá, era seguro dizer que ele era um ferreiro bem habilidoso.
Ah sim, acho que me lembro do capataz me dizendo, há muito tempo, que havia um ferreiro da minha idade que também era muito bom.
O terceiro sino tocou, e vários funcionários da Guilda dos Ferreiros entraram na sala para avaliar nossas tarefas. Trouxemos o nosso quando fomos chamados, explicamos que trabalho estávamos fazendo para o patrono, o que eles haviam pedido e como eles haviam avaliado nossa tarefa. Mostrei a eles nossas ordens de compra e a avaliação, por escrito, para confirmar que tudo era legítimo.
— Esses, com certeza, são muitos pedidos de suprimentos.
Myne certamente havia pedido muitas coisas no pouco tempo em que nos conhecíamos. A maioria dos clientes não pedia tantos itens seguidos, e certamente não pedia coisas tão estranhas quanto Myne.
— Myne valoriza muito a capacidade técnica de Johann. Suas ordens são sempre incrivelmente precisas — disse o capataz enquanto espalhava uma das plantas que Myne me dera. Cada funcionário da guilda era um ferreiro, para que eles pudessem dizer o quão precisas eram as ordens olhando para as plantas.
— Mas quem é essa “capataz Myne”? Nunca ouvi falar dela antes. Qual oficina ela dirige? — um dos funcionários da guilda perguntou, com a testa franzida, ao ver a assinatura de Myne nas tábuas. Infelizmente, foi só então que percebi que nem sabia qual era a oficina da minha patrona.
— U-Uhh. — Comecei a vacilar, mas o capataz colocou a mão no meu ombro e apontou para o quadro de avaliação.
— A capataz Myne é menor de idade, e Benno, da Companhia Gilberta, é seu guardião. Esse tipo de pergunta deve ser feita a ele ou à Guilda dos Comerciantes.
— A Companhia Gilberta a está apoiando? — murmuraram os funcionários, uma clara sensação de admiração em suas vozes, enquanto olhavam para o nome de Benno no quadro.
A Companhia Gilberta era uma das maiores lojas de Ehrenfest. Não era uma empresa antiga, com uma história muito longa, mas crescia a cada dia e muito dinheiro passava por lá. Myne, sendo apoiada por eles, significava que ela era um grande negócio, quando se tratava de clientes.
— Tudo bem, vamos ver sua tarefa — disse um funcionário, após confirmar que não havia problemas com meu patrono. Retirei o pano da caixa e mostrei a eles os tipos de letras dentro.
— O que diabos é isso?
Sim, essa foi a minha primeira reação, também.
Mesmo depois que Gil nos ensinou como os tipos de letras de metal eram usados, eu ainda não entendia o que os tornava tão valiosos. Eu teria apostado que não havia um único artesão que pudesse dizer o quanto valiam, num relance.
— Eles são chamados de tipos de letras. São pedaços de metal com letras salientes. Johann, explique a ordem.
— Sim, senhor. O importante sobre esta ordem é que cada tipo tinha que ser exatamente idêntico, em tamanho. Todos precisavam ter a mesma altura, para se alinharem perfeitamente, quando colocados um ao lado do outro, assim. — Peguei alguns tipos de letras e os alinhei um ao lado do outro, depois abaixei a cabeça para vê-los no nível dos olhos, como Myne havia feito. Os funcionários fizeram o mesmo, enquanto olhavam os tipos.
— Esse é um trabalho bem preciso.
— Disseram-me que se quebrariam facilmente se não se alinhassem perfeitamente.
Eles não sabiam para que os tipos de letras deveriam ser usados, mas podiam apreciar o quão difícil eles tinham sido para fazer. Os funcionários assentiram, impressionados, e me parabenizaram por poder fazer um trabalho tão preciso.
— De acordo com a Companhia Gilberta, esta é uma invenção que vai mudar a história — disse o capataz. Ele estava apenas repetindo o que Benno havia dito, e as reações a sua afirmação estavam bastante divididas. Alguns riram, claramente tendo tomado isso como uma piada, enquanto outros empalideceram, enquanto consideravam a possibilidade dessas palavras serem verdadeiras.
— Johann recebeu até o título de “Gutenberg” por fazer isso. Aparentemente, esse é um título dado a grandes homens e mulheres cujas realizações mudaram a história. Johann e os chefes da Companhia Gilberta agora são os Gutenbergs de Ehrenfest — disse o capataz, em voz alta o suficiente para que todos pudessem ouvir. Uma agitação percorreu a multidão, e lutei contra o desejo de me enrolar em uma bola e morrer de vergonha.
— Então, como foi? — perguntou Benno.
Após avaliar minha tarefa na Guilda dos Ferreiros, o capataz e eu voltamos para a Companhia Gilberta. Precisávamos entregar os tipos de letra para Myne e relatar o que a Guilda dos Ferreiros havia dito sobre eles. Uma vez lá, fomos levados para o mesmo escritório de antes, onde Benno nos fez sua pergunta.
— Johann obteve as notas mais altas. Não que eu esperasse algo diferente. Nenhum outro aprendiz teria sido encarregado de fazer algo que exigisse tanta precisão.
Eu só tinha um único patrono, mas eu tinha completado várias ordens para ela, cada uma das quais me fez fazer uma coisa incomum, que exigia um alto nível de experiência técnica para completar. E então havia o preço alto que eles tinham. O fato dela ter me dado um título também significava muito. O capataz e todos na oficina zombaram de mim por isso, mas no mundo exterior, ter um título era uma grande honra.
Não que eu queira qualquer honra!
Devido a todos exagerarem sobre eu receber o título de “Gutenberg”, Zack ficou em segundo lugar, bastava dizer que isso não me fez nenhum favor, e sua inimizade por mim só ficou mais forte. Ele latiu para os funcionários da guilda, dizendo que não era certo que eu fosse elogiado tão bem, após ter uma má reputação e nenhum patrono por tanto tempo.
Acredite em mim, Zack, eu lhe daria este título “Gutenberg” em um segundo, se eu pudesse. Quero fazer coisas que satisfaçam meus patronos, e quero desenvolver todas as habilidades que precisarei para conseguir isso, mas não me importo com nenhum título.
— Não precisa fazer essa careta, Johann. Uma boa avaliação é muito importante — disse o capataz, enquanto dava um tapinha no meu ombro.
Mark assentiu em concordância.
— Seu capataz está correto. Uma reputação positiva é importante para manter uma oficina funcionando. Como um dapla, você deve considerar o que é melhor para o futuro de sua oficina.
Eu estava sempre tão focado em melhorar minhas próprias habilidades que nunca pensei sobre o futuro da minha oficina ou seu lugar dentro da Guilda dos Ferreiros. Parecia que eu precisaria mudar isso se eu quisesse ser um dapla adequado.
— Mas você sabe, comerciantes e artesãos são diferentes. Concentre-se em fazer coisas boas, Johann. Isso por si só vai ajudar a reputação da nossa oficina. Não se preocupe, vou garantir que a oficina seja dirigida por pessoas que são boas nisso. Aprimore suas habilidades e apenas encontre outro patrono que aprecie seu conjunto de habilidades, como Myne.
— Chefe.
O capataz sempre dava tudo de si quando me provocava, mas ele também tinha um lado confiável. Ficando um pouco emocional, resolvi melhorar ainda mais minhas habilidades.
Mark deu um sorriso pacífico. — Nesse caso, Johann, aproveite essas oportunidades para aprimorar suas habilidades. Esses são de Myne, — disse ele, estendendo várias folhas de papel dobrado para mim.
Eu os abri, com cautela. Eram ordens de serviço contendo plantas detalhadas.
— Huh?!
As plantas descreviam ainda mais tipos de letras. Alguns tinham superfícies em branco e outros tinham símbolos. Apertei os papéis com as mãos trêmulas, sem esperar que meu inferno do tipo de letra ainda não tivesse acabado.
— O que… O que é isso?
— A Irmã Myne forneceu isso como uma ordem de acompanhamento, para quando você terminasse a inicial com resultados satisfatórios. Parece que, uma vez que você terminar esses símbolos, ela vai ordenar tipos de letras de tamanhos diferentes. Boa sorte — disse Mark, com um sorriso encorajador.
Mas eu não estava nada feliz. Seu sorriso parecia inteiramente com o sorriso de uma pessoa empurrando o trabalho tedioso para outra pessoa.
— Você tem um patrono infernalmente bom, hein? — O capataz colocou a mão no meu ombro, que no momento parecia pesar mais do que o mundo. Me virei e vi que seus olhos estavam brilhando de diversão. — Seu nome será gravado na história, com certeza, se você terminar todas essas ordens, Gutenberg.
— Chefe, por favor, não me chame assim! — Eu gemi, embalando minha cabeça em minhas mãos. — E eu sentia um pouco de respeito por você também. Devolva tudo!
Lutz deu de ombros.
— Você ficou sem sorte no dia em que Myne te encontrou. Desista, Gutenberg.
— Você é o primeiro a quem ela deu o título, Johann. Você é o verdadeiro Gutenberg — disse Benno com uma expressão séria.
Foi uma ideia aterradora. Todos escapariam do título a menos que eu ficasse aqui. Eu precisava arrastá-los para baixo comigo. Ou melhor, eu não queria que meus aliados fugissem de seu dever. Eu entendi o que eu precisava fazer.
— Lutz, Benno, somos todos Gutenbergs aqui. A Senhora Myne disse isso ela mesma!
Benno estalou a língua e olhou para mim, mas eu não tinha intenção de suportar o fardo do título sozinho.
— Na verdade, acho que você deveria ser o chefe Gutenberg, Benno. Você é o mais velho e rico de todos nós.
— Não. Boa tentativa, Johann. É hora de você aprender que quem quer que seja o primeiro, perde.
— Que tipo de lógica é essa?!
No final, não conseguimos decidir quem era o chefe Gutenberg. Quando mais tarde sugeri a Myne que Benno deveria ser o chefe Gutenberg, ela respondeu assim:
— Não se preocupe. Vocês são todos Gutenbergs juntos. Ninguém está acima ou abaixo de ninguém.
Não! Essa não é a resposta que eu queria.
Historiadores do futuro afirmariam que este momento foi quando o Grupo Gutenberg, os discípulos de Mestionora, a Deusa da Sabedoria, que dedicaria suas vidas ao desenvolvimento do processo de impressão e ao preenchimento do mundo com livros, nasceu em Ehrenfest.
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