Ascendance of a Bookworm — Capítulo 169: CAPÍTULO 169 - 168

Ascendance of a Bookworm
Cap. 169
0%
Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 169 - 168

Capítulo 169

3.891 palavras~17 min de leitura

Ascendance of a Bookworm – Capítulo 168

Hora do almoço no Templo

O almoço começou no quarto sino. Após levar a aprendiz de volta a seus aposentos de diretora, voltei ao quarto do Senhor Ferdinando. Ele me permitia almoçar com ele sempre que eu estava no templo. No começo eu achava incrivelmente estressante comer com ele, tanto que eu mal conseguia sentir o gosto da comida, mas, após uma temporada inteira almoçando juntos, agora eu tinha compostura suficiente para esperar ansiosamente por nossas refeições.

Porque, quero dizer, todos os dias ele servia o tipo de comida que nós, nobres inferiores, só comíamos em ocasiões especiais.

— Obrigado por me receber, Senhor Ferdinando.

Um de seus assistentes me deixou entrar, e encontrei o Senhor Ferdinando trabalhando, enquanto nossa refeição estava sendo preparada. Ele reconheceu minha entrada com nada mais do que um rápido olhar. A primeira vez que comi aqui, presumi que o havia interrompido em um momento sério, mas agora sabia que isso eram apenas negócios, como de costume.

Fui até a mesa do Senhor Ferdinando, tomando cuidado para não atrapalhar seus assistentes, enquanto preparavam a comida.

— Damuel, que tábua é essa? — Senhor Ferdinando perguntou.

— Uma lista de perguntas da aprendiz. Ela disse que gostaria que você respondesse quando tivesse tempo.

O Senhor Ferdinando pegou a tábua e olhou para ela, depois balançou a cabeça e murmurou em um tom exasperado: “Parece que ela começou a ler uma Bíblia bem antiga.” Então, ele imediatamente começou a escrever suas respostas.

As perguntas da aprendiz, eram sobre palavras e frases desconhecidas, que ela havia encontrado ao ler livros. No outro dia, ela começou a ler uma cópia de uma Bíblia escrita em um dialeto de nossa língua, tão antigo que nem eu conseguia lê-la, sendo que me formei na Academia Real. Não importava como você olhasse para isso, esse simplesmente não era o tipo de livro que uma criança, que acabara de ser batizada, gostaria de ler. No entanto, a aprendiz atravessou as páginas com um sorriso no rosto, tentando decifrar o texto comparando-o com uma Bíblia que havia sido escrita em linguagem mais moderna.

— Ela disse que era divertido comparar com uma Bíblia moderna, e apenas ter novas palavras para ler era o suficiente para fazê-la feliz — eu disse.

— Essa garota sempre fica feliz quando tem um livro em suas mãos.

— Eu sei. O que mais me surpreendeu, depois de vir ao templo, foi o quão obcecada a aprendiz é com os livros.

A primeira coisa que ela fez, quando fui designado para protegê-la e ela poderia sair de seu quarto, foi ir direto para a sala dos livros, que geralmente estava congelando porque nem sequer tinha uma lareira. Ela estava fraca o suficiente para que pudesse adoecer em um piscar de olhos, e nada a emocionava mais do que a ideia de passar horas lendo em uma sala que a maioria das pessoas estaria ansiosa para sair o mais rápido possível.

No final, Fran e eu tivemos de pedir ao Senhor Ferdinando que a deixasse levar livros de volta para os aposentos da diretora, permitindo assim, que ela lesse em frente a uma lareira. Mas se não fosse por isso, a aprendiz, sem dúvida, teria passado horas e horas entediantes na sala, congelante dos livros, e eu teria sido forçado a acompanhá-la. Essa foi por pouco.

— Ela até leva livros para a cama quando está doente e acamada. Apesar do fato de que ela precisa descansar, ela continua chorando, enquanto implora por livros, até que Fran finalmente cede e a deixa ter um.

— Eu não esperaria nada menos daquela maníaca obstinada — respondeu Senhor Ferdinando, enquanto continuava escrevendo respostas para perguntas sobre a linguagem tão arcaica que nem sequer foi ensinada na Academia Real.

Observei suas mãos com admiração, os rumores que meu irmão mais velho me dissera, sobre o Senhor Ferdinando estar em outro nível, eram todos verdadeiros. Eu mesmo queria aproveitar esta oportunidade para aprender mais sobre línguas antigas, já que não tinha sido capaz de responder a nenhuma das perguntas da aprendiz.

Seria vergonhoso para um nobre como eu, um nobre inferior, com certeza, mas um nobre. No entanto, ter menos conhecimento do que uma aprendiz de donzela de santuário plebeia.

Era um pouco estranho que, apesar de ir ao templo como parte de minha punição, eu agora estava estudando em um nível mais alto do que quando eu estava frequentando a Academia Real.

— Sumo Sacerdote, Sir Damuel. A comida está pronta — anunciou um assistente, que foi meu sinal para sair de sua mesa.

A mesa estava repleta de deliciosos aperitivos lindamente preparados, já muito mais extravagantes do que o que eu costumava comer no quartel dos cavaleiros e em casa. Sentei-me, fazendo o meu melhor para evitar que meu estômago fizesse barulho. Seria um pouco embaraçoso para mim fazer um barulho assim na frente do Senhor Ferdinando, alguém incomparavelmente acima de mim, em todos os sentidos.

O cardápio de hoje parecia ser taschnitz, um pássaro que havia sido completamente cozido. Só precisou de um olhar para ver como estava bem cozido, e parecia macio o suficiente para derreter no segundo em que tocasse a língua.

— Como foi ontem? — Senhor Ferdinando perguntou, quando começou a comer a comida servida a ele.

Tornou-se uma rotina diária para mim relatar o que a aprendiz tinha feito desde o nosso almoço anterior. Fran estava dando relatórios semelhantes, como assistente da aprendiz, mas o Senhor Ferdinando gostava de coletar informações de várias fontes e perspectivas. E, para constar, essa rotina era muito importante para mim. Era insuportável comer em silêncio com o Senhor Ferdinando sentado do outro lado da mesa.

— Tuuli veio visitar ontem à tarde, com algumas pessoas da Companhia Gilberta. Eles discutiram como manter o ateliê funcionando enquanto a aprendiz estivesse fora, para a Oração da Primavera — respondi, cortando um grande pedaço do vargel, ternamente fervido, e o molhando com molho de creme, antes de colocá-lo na minha boca. O sabor suave do creme misturado com um toque de manteiga se espalhou pela minha boca, e o vargel macio se quebrou na minha língua.

Aaaah. Nada me faz sentir a primavera como vargel com molho de creme.

Fiquei feliz por estar experimentando sabores de primavera novamente, mas, ao mesmo tempo, doía dizer adeus aos bolos de parue que descobri no orfanato. Eles eram doces para plebeus, nunca vistos no Bairro dos Nobres, mas sua doçura gentil tinha sido realmente deliciosa. A aprendiz havia dito que eles eram algo para se esperar, no próximo ano, embora ela provavelmente não tivesse percebido que, naquele momento, meu dever de guarda no templo teria acabado.

E seria um pouco demais para mim, me misturar com plebeus e ir caçar parues. Uma pena.

Quando pensei em como os bolos parue tinham um sabor bom, o Senhor Ferdinando disse: “Ah, sim”, tendo aparentemente acabado de se lembrar de algo.

— Tenho ouvido o nome “Tuuli” com bastante frequência, mas o que exatamente ela faz aqui? Ao contrário da Companhia Gilberta, não acredito que haja muito para ela fazer.

Embora o nome de Tuuli muitas vezes apareça em relatórios, ela geralmente apenas chegava com a Companhia Gilberta, antes de partir quase que imediatamente para o orfanato. Ocorreu-me que eu nunca falava muito sobre ela, já que eram sempre os da Companhia Gilberta que tinham coisas importantes a dizer.

Tuuli era, aparentemente, a irmã mais velha da aprendiz, mas ela era uma plebeia normal. Mal se pareciam como irmãs, quando as colocávamos lado a lado. Elas eram obviamente próximas uma da outra, mas sua conduta e maneira de falar não poderiam ter sido mais diferentes. Era difícil acreditar que elas haviam crescido juntas.

— Tuuli pratica matemática e leitura no orfanato e, em troca, ensina os órfãos sobre costura e culinária. Agora que é primavera, seu trabalho voltou e ela só pode visitar a cada dois dias, mas as visitas regulares de um membro da família parecem estar ajudando a aprendiz a ficar mais calma.

— Excelente. Nenhuma notícia poderia ser melhor do que essa.

Quando as nevascas ficaram tão ruins que a família da aprendiz não pôde visitá-la, ela se tornou tão instável que começou a seguir o Senhor Ferdinando aonde quer que ele fosse, como um patinho seguindo seus pais. Quando as coisas estavam especialmente ruins, o Senhor Ferdinando tinha que levar a aprendiz para sua própria oficina. Ele o fazia com enorme relutância, mas qualquer coisa que a acalmasse era mais do que bem-vinda.

Esta oficina era o quarto escondido do Senhor Ferdinando. Os quartos escondidos eram o espaço mais pessoal que um nobre tinha, um lugar onde eles podiam relaxar e se acalmar, para que, em circunstâncias normais, não permitissem que outras pessoas entrassem. Nobres muito jovens registrariam sua mana com seus pais, para que pudessem entrar também, mas, depois de seu batismo, eles redefiniriam os selos para torná-lo um lugar completamente pessoal, que só eles poderiam entrar. Com isso em mente, fiquei realmente chocado ao ver Senhor Ferdinando deixando uma estranha, como a aprendiz, entrar em seu quarto escondido.

Dito isso, fazia sentido, quando ele explicou que a deixava usar seu quarto escondido, já que ela, como não nobre, não tinha a capacidade de fazer um próprio, e por isso, não tinha lugar para expulsar com segurança seus sentimentos reprimidos. Era uma faceta de seu treinamento no caminho para se tornar filha de um nobre, que não deveria mostrar emoção por fora.

— Damuel, você passou uma temporada com Myne agora. O que acha dela se tornar a filha adotiva de Karstedt? — Senhor Ferdinando perguntou.

Abaixei minha faca por um momento e pensei em como a aprendiz havia agido durante o inverno.

— Quando vejo o quanto ela se diverte com a família e a Companhia Gilberta, então, o quanto ela parece triste quando eles saem, me parece que separar uma garota tão jovem quanto ela da família, seria uma tragédia. Mas considerando sua enorme quantidade de mana, a experiência técnica que ela demonstrou ao gerenciar uma oficina cada vez mais lucrativa, seu agudo senso econômico e até mesmo sua chocante fraqueza, não acho que ela seria capaz de sobreviver como plebeia.

— Você também pensa assim, então — Senhor Ferdinando murmurou enquanto trazia seu garfo para a boca.

— Quando a vejo gerenciar o orfanato e o ateliê de perto, é difícil ignorar o quão anormal a aprendiz é. Esta não é apenas a diferença entre uma nobre e uma plebeia, é como se ela estivesse em uma categoria própria.

Nobres e plebeus eram estritamente delineados por sua mana, ou falta dela, então era natural que houvesse diferenças entre eles. Mas a aprendiz era diferente dos nobres e dos plebeus. Não era tão simples quanto perguntar se ela tinha mana ou não. Tudo o que ela fazia, tudo o que dizia e até mesmo sua maneira de pensar era estranha. A diferença entre a aprendiz e outros plebeus ficava clara quando você a comparava com a família ou com os da Companhia Gilberta.

— O que realmente me surpreendeu, foi a aprendiz dizendo que dirigia o ateliê do orfanato puramente por interesse pessoal. É impensável que um pobre plebeu agisse não com o propósito de sobreviver, mas para satisfazer um passatempo. E, além disso, ela está ganhando uma quantia obscena de dinheiro. Com honestidade. Mesmo depois de ver isso, ainda acho difícil de acreditar.

Enquanto guardava a aprendiz em seus aposentos, ouvi inúmeras conversas entre ela e os comerciantes da Companhia Gilberta, e a observei passando por livros contábeis financeiros, do ateliê, com Fran e Gil para calcular os lucros. Apesar de não ter passado nem um ano desde seu batismo, ela estava ganhando muito mais em um ano do que eu, um nobre inferior.

— A aprendiz é anormal em mais de uma maneira e acredito que, se ela quiser um pouco de paz em sua vida, precisará ser colocada sob a proteção do Senhor Karstedt — concluí.

Não havia muito mais que você pudesse pedir do que a proteção do comandante da Ordem dos Cavaleiros, especialmente dada sua relação de sangue com o Arquiduque. Eu tinha certeza de que ela seria muito mais feliz com ele do que com algum nobre intermediário, violento e cruel como Schikicoza. Sem mencionar que, se a aprendiz se tornasse filha do Senhor Karstedt e entrasse na sociedade nobre, como nobre superior, ela poderia me mostrar seu favor e tornar a vida mais fácil para mim, novamente, como era antes do erro que eu havia cometido. Servir à aprendiz de todo o coração, agora, certamente tornaria meu futuro mais brilhante, e eu não poderia negar o elemento de interesse próprio me motivando.

— Como você defendeu a Myne tão fortemente, mostra que você se acostumou bastante com ela e com o templo. Você tem um olhar diferente agora do que costumava ter — observou Senhor Ferdinando.

Dei um meio sorriso enquanto comia meu taschnitz. A sensação da carne desmoronando na minha boca, me lembrou de como, no final do outono passado, parecia que toda a minha vida estava desmoronando. Tudo mudou para mim durante a missão de extermínio de Trombe.

— Eu estava animado para minha primeira missão de extermínio de Trombe, depois de ter que ficar de fora de tantas delas, antes de atingir a maioridade. Eu sou apenas um cavaleiro inferior, mas trabalhei duro para memorizar a longa oração pelas armas da Escuridão, para que eu pudesse ajudar o máximo possível.

— Lembro-me dos novatos ficarem animados com a primeira vez que foram autorizados a usar armas da Escuridão em uma missão de extermínio. — disse o Senhor Ferdinando com um leve sorriso. Parecia que, mesmo ele, estava animado para sua primeira missão verdadeira como cavaleiro, e podia simpatizar com o como me sentia. Isso fez eu me sentir muito quente, por algum motivo.

— Fazia sentido que o Senhor Karstedt me escolhesse como guarda. Eu tinha acabado de terminar meu tempo como aprendiz, eu nunca tinha exterminado um Trombe antes, e, como um nobre inferior, eu não tinha muita mana. Mas ainda hoje, eu gostaria que ele não tivesse me emparelhado com Schikicoza.

Shikicoza tinha sido um nobre intermediário, mas ele era um daqueles que haviam retornado do templo após a agitação política da Monarquia. Como um ex-padre sem muita mana, a sociedade nobre o tratava com desprezo e escárnio, e assim, seu único consolo era dominar pelo poder aqueles abaixo dele em posição, os nobres inferiores. Não importava o quanto eu odiasse, não importava o quanto isso me frustrasse, um nobre como eu nunca poderia desafiar um nobre intermediário.

— Schikicoza tratava sua posição como um escudo, algo que lhe permitiria se safar de prejudicar a aprendiz. Mesmo que eu só tenha sido rebaixado, em vez de executado, por permitir que isso acontecesse, minha vida ainda chegou ao fundo do poço. Fui forçado a endividar-me com meu irmão mais velho para cobrir minha parte das vestes da aprendiz, minha noiva de outro ducado terminou nosso noivado devido à eu ser rebaixado ao posto de aprendiz, e, além de tudo, minha nova tarefa era servir a uma aprendiz plebeia no templo, onde aqueles quase sem mana ficavam. Era tão terrível, que nem meus companheiros cavaleiros conseguiam rir disso.

Minha posição como um nobre realmente entrou em colapso da noite para o dia. Todos me ofereceram sua simpatia, dado que eu só tinha acabado nesta posição por causa de Schikicoza, mas isso não ajudou minha situação. Meu nome seria para sempre manchado como o cavaleiro que estragou o trabalho e foi enviado para o templo.

Depois que terminei de contar minha dolorosa história, da maneira mais interessante que pude, o Senhor Ferdinando largou seus talheres e me deu um olhar sério.

— Eu acho que você foi infeliz, e que o desastre que aconteceu com você foi injustificado. Mas não acho que seja correto dizer que você foi punido puramente por causa das ações de Schikicoza. Você tem seus próprios pecados, e parece-me que não está muito ciente deles.

Meus próprios pecados? Do meu ponto de vista, eu tinha acabado de me envolver na bagunça de outra pessoa. Meus camaradas disseram que eu era azarado e coisas assim, mas nunca disseram que eu era culpado.

— O que você queria que um cavaleiro inferior como eu, fizesse com um cavaleiro intermediário zangado como Schikicoza? — Perguntei, a confusão sombria deslizando em minha voz — Nobres inferiores não têm escolha a não ser obedecer a aqueles acima deles em posição. O que mais eu poderia ter feito?

O Senhor Ferdinando ergueu uma sobrancelha.

— Damuel, você deveria ter usado “Rott” assim que percebeu que não poderia parar Shikicoza.

“Rott” era a luz vermelha, que era lançada de seu schtappe para pedir ajuda. Senhor Ferdinando disse que eu deveria tê-lo usado para chamar os cavaleiros, que lutavam contra o Trombe, para proteger a aprendiz, mas se fosse entre proteger uma donzela do santuário e exterminar um Trombe grande e mortal, parecia-me que o Trombe era a maior prioridade.

— Eu nem sequer considerei usar rott.

— Eu acredito que você teria usado rott se estivesse guardando um nobre superior ou a filha do Arquiduque de outro ducado. Estou errado?

Não estava. Se eu estivesse guardando a filha de um nobre superior, eu teria me jogado sobre a lâmina de Schikicoza para detê-lo, e se a força física falhasse, eu teria usado rott. Em outras palavras, uma parte de mim estava desprezando a aprendiz, por ser uma plebeia, assim como Schikicoza. Um calafrio correu pela minha espinha.

— Você faria bem em sempre tratar aqueles que está protegendo, como sendo superiores a si mesmo. Quando colocado em uma situação além do seu controle, você deve primeiro usar rott. Antes de se submeter a arrogância de um nobre intermediário, peça a ajuda daqueles de posição superior à si mesmo. Você não fez nenhum dos dois. Você se submeteu timidamente, em vez de cumprir seu dever, e agora está lamentando sua situação como nada mais do que o produto da má fortuna. Esses são seus pecados.

Apesar da expressão áspera de Senhor Ferdinando, sua voz era surpreendentemente gentil. Ele estava confirmando que viria me ajudar, se eu pedisse ajuda. Meus olhos se arregalaram. Um nobre superior nunca se ofereceu para me ajudar antes.

— Seus serviços provavelmente serão de grande necessidade, durante a Oração da Primavera, daqui a três dias. Há muitos rumores inquietantes se espalhando. Saiba bem que o orgulho e a covardia desnecessários serão inúteis durante as missões.

— Sim, senhor! Desta vez, com certeza, vou proteger a aprendiz.

Terminamos o almoço e, enquanto me preparava para voltar aos aposentos da diretora, o Senhor Ferdinando me impediu.

— Antes de ir, lembro de você dizendo que foi forçado a pedir dinheiro emprestado ao seu irmão mais velho. Você já pagou tudo?

Não, não totalmente.

Ser rebaixado para um aprendiz significava que, naturalmente, meu salário estava de volta ao de um aprendiz também, e eu já havia gastado todas as minhas economias no noivado, quando estava noivo. Perguntei se eles poderiam devolver um pouco, mas meu irmão mais velho havia dito que provavelmente não o fariam, já que o noivado foi anulado devido ao meu próprio fracasso. E mesmo que o fizessem, provavelmente não teria sido muito útil para pagar minha dívida.

— Para ser honesto, estou ainda pior financeiramente do que quando era estudante na Academia Real, já que agora não consigo dinheiro extra copiando livros ou vendendo os guias de estudo que escrevi.

— Copiar livros e vender guias de estudo? Por que um cavaleiro como você estava fazendo o trabalho de um nobre acadêmico? — O Senhor Ferdinando perguntou, a surpresa em seu tom me fazendo baixar o olhar para o chão.

A maioria dos cavaleiros ganhava seu dinheiro caçando feybeasts, feyplants e afins, e depois vendendo as feystones e os materiais obtidos com isso. Mas nós, cavaleiros inferiores, não tínhamos a riqueza de mana de que os nobres superiores desfrutavam, o que tornava difícil para nós, matar os feybeasts mais fortes. Por sua vez, isso dificultava a obtenção de bons materiais, e os materiais de baixa qualidade que podíamos obter, não valiam muito.

— Foi muito mais eficiente para mim, escrever um guia de estudo para o curso de cavaleiro do que caçar materiais.

— Interessante. Se as pessoas estão dispostas a pagar um bom dinheiro por um de seus guias de estudo, então estou certo em assumir que você é capaz de fazer o trabalho de um acadêmico? — Senhor Ferdinando perguntou.

Concordei com a cabeça. Eu ganhava uma pequena quantia de dinheiro sempre que voltava para casa, ajudando meu irmão mais velho com seu trabalho. Não era como se eu tivesse qualquer escrúpulo em fazer um trabalho acadêmico. Após discutir meu futuro com meu irmão mais velho, que era acadêmico, simplesmente decidi ser um cavaleiro para me diferenciar dele e expandir o alcance de nossa família.

Ferdinando piscou os olhos dourados, em surpresa, depois deu um pequeno sorriso.

— Damuel, o que me diz de me ajudar ao lado de Myne, quando voltar da Oração da Primavera? Pagarei a você um salário justo.

Wow!

As palavras “salário justo” agitaram meu coração, mas eu não podia me permitir vacilar aqui. Ele podia estar montando uma armadilha, e eu não era um acadêmico, eu era um cavaleiro.

— Senhor Ferdinando, agradeço a oferta, mas não sou um acadêmico.

— Você não acha importante ganhar dinheiro de forma eficiente utilizando seus talentos?

— É, mas eu sou o guarda-costas da aprendiz. Eu não poderia assumir mais trabalho enquanto estou no meio de cumprir o meu castigo.

Eu podia me sentir sendo dividido entre meu orgulho como um cavaleiro e a dureza da minha realidade atual. Eu estava morrendo por mais dinheiro, minha situação financeira realmente não poderia ser pior.

Os olhos de Senhor Ferdinando se estreitaram com diversão, como se ele pudesse ver através da minha luta interna.

— Naturalmente, você só estaria trabalhando como um acadêmico enquanto Myne estivesse no meu quarto. Acho que é seguro dizer que eu seria capaz de protegê-la de qualquer perigo, enquanto ela estiver aqui.

Fiquei em silêncio, incapaz de argumentar, mesmo quando ele afirmou que era mais forte do que eu. O Senhor Ferdinando usou a oportunidade para começar a riscar alguns números em uma tábua.

— Você sabe como estou ocupado com o trabalho agora, eu imagino. Preciso de toda a ajuda que conseguir. Hum. O que me diz deste salário, por trabalhar do terceiro ao quarto sino? Um aumento não está fora de questão, se você tiver um bom desempenho.

O salário que ele me mostrou, era aproximadamente o quanto um cavaleiro adulto ganhava, supondo que eu trabalhasse por um mês seguido. Era mais dinheiro do que eu poderia ganhar fazendo qualquer outra coisa, enquanto estava preso como guarda-costas dentro do templo. O salário de um aprendiz realmente era escasso, nada poderia ser melhor do que fazer outro trabalho ao meu lado.

Engoli em seco.

— Acho que vou aceitar essa oferta.

Escolhi a realidade, em vez do meu orgulho como cavaleiro, e o Senhor Ferdinando assentiu sem zombar de mim.

— Use bem esta oportunidade. Se você não pagar sua dívida em breve, imagino que você será incapaz de encontrar uma nova noiva, mesmo depois de retornar à sociedade nobre, não?

Ouvir isso doía, mas eu sabia que o Senhor Ferdinando só estava tentando me animar. Mas, mesmo assim, encontrar uma nova noiva não era apenas uma questão de quanto dinheiro eu tinha.

Que tipo de garota vai querer se casar com um cara que acabou de sair do templo?

Fim da leitura

Capítulo 169 concluído

CAPÍTULO 169 - 168