Ascendance of a Bookworm — Capítulo 94: CAPÍTULO 94 - 93

Ascendance of a Bookworm
Cap. 94
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 94 - 93

Capítulo 94

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 93

Começa a reunião

Quando os sacerdotes cinzentos saíram da sala, Arno empurrou uma coisa, parecida com um carrinho, em direção à mesa. Ele então começou a derramar chá, presumivelmente o tipo preferido do Sumo Sacerdote, em um copo de vidro grosso. Assim que começou a fermentar, Arno olhou para cima e começou a tirar várias garrafas de vidro cheias de chá, explicando o que eram e de que região vinham.

— Irmã Myne, o que você gostaria de beber?

Para ser honesta, eu não fazia ideia. Eu apenas apontei para um aleatoriamente, dizendo — Este por favor —, o que levou a perguntas sobre que tipo de leite eu gostaria de usar. Novamente, eu não fazia ideia. Mas minha posição era tal que, se eu não respondesse, a conversa não seguiria. Eu não poderia simplesmente dizer “Quero o mesmo que Benno”.

Até mesmo beber chá é uma provação para os nobres, pensei enquanto me virava para olhar para Fran. Era hora novamente de eu liberar a técnica que havia aprendido hoje: jogar problemas em outra pessoa.

— Fran, que tipo de leite você acha que vai combinar melhor com este chá?

— Hum. O leite de um grauvache de três anos de Holger terá uma leve doçura, que deve se adequar bem ao seu gosto.

— Entendo. Nesse caso, eu gostaria de leite grauvache de Holger. — Minha bebida para a reunião foi chá teegabt com leite de grauvache vindo de Holger. Honestamente, era difícil acreditar que ainda estávamos falando a mesma língua.

Quando Arno perguntou a Benno por suas preferências, todos os outros sacerdotes cinzentos terminaram de sair da sala. Então, “Seu chá, Irmã Myne” ele silenciosa e graciosamente colocou uma xícara de chá de vidro na minha frente, que eu peguei e tomei um gole. O chá misturado tinha leite suave e espalhava uma doçura leve pela minha boca. Tanto os ingredientes quanto a preparação eram de primeira linha. Foi tão bom que pude sentir meu coração palpitar.

Assim que todos tomaram seu chá, Arno empurrou o carrinho para algum lugar. Quando o perdi de vista, ele voltou e fechou a porta. Não pude deixar de piscar de admiração pelo quão proposital cada movimento que ele fez era. No momento em que ele voltou a ficar atrás de seu mestre, o Sumo Sacerdote falou.

— Benno, recebi relatos de que você é o homem perspicaz, que primeiro tomou Myne sob sua asa. Que tipo de pessoa Myne parece ser, aos seus olhos? No templo, ela é conhecida como uma pessoa perigosa, cuja mana se agita por qualquer motivo. Eu gostaria de saber o que você acha dela, como alguém que passou tanto tempo cuidando dela.

— Mana furiosa, hein? Muito interessante. — Benno olhou para mim com um olhar assustadoramente hostil. Se não fosse pelo Sumo Sacerdote estar aqui, ele sem dúvida teria gritado comigo por não contar a ele sobre isso. Desviei o olhar dele casualmente e levei minha xícara aos lábios. — Sou apenas um mero comerciante. Mana está, portanto, além de mim, mas posso discutir minha experiência pessoal sobre Myne.

— Sim, por favor.

O Sumo Sacerdote se inclinou ligeiramente para frente, instigando Benno. Me senti um pouco estranha, como uma criança assistindo seus pais falarem sobre eles com um professor em uma reunião. Apesar de manter uma expressão recatada, eu estava basicamente gritando “Por favor, pare! Pelo menos, faça isso quando eu não estiver por perto!”, por dentro, mal retendo o desejo de correr para fora da sala.

— Irmã Myne é um prodígio, exclusivamente quando se trata de inventar novos produtos. Ela pode inventar os conceitos, mas não criá-los ela mesma. No momento, um aprendiz em minha loja a auxilia no processo de criação dos produtos. Myne não é totalmente autoconsciente de sua genialidade e sempre se mostrou dona de uma personalidade generosa e ingênua.

Parecia que a descrição de Benno de mim, mudou de “idiota desmiolada sem senso de autopreservação” para “generosa e ingênua” quando reformulado para a linguagem de um nobre. Sinceramente, nunca esperei que Benno dissesse algo assim. Parafrasear era tudo, ao que parecia.

— Espere um momento. Ingênua eu posso entender, mas generosa?

O Sumo Sacerdote olhou para Benno com uma expressão incrivelmente duvidosa, provavelmente achando sua avaliação difícil de acreditar. Não poderia o culpar por isso. Eu era famosa entre os sacerdotes por deixar minha mana vazar e entrar em fúria e deixar o Arcebispo inconsciente. O Sumo Sacerdote também deve saber, pelo relatório de Fran, que eu brevemente soltei minha mana só porque Gil estava atrapalhando minha leitura. Do ponto de vista dele, eu estava longe de ser uma pessoa generosa. Eu era uma pessoa perigosa e emocional, que ficava brava constantemente.

— Há algumas coisas que ela valoriza além das palavras: sua família, seus amigos e, de fato, livros. Se estes não estão envolvidos, Irmã Myne é generosa demais. Ela confia nos outros quase que imediatamente e continua a fazê-lo apesar de ter sido enganada várias vezes. Talvez “apática” ou “indiferente” a descrevesse melhor, para usar as palavras do aprendiz acima mencionado, que a conhece ainda melhor que eu.

— Apática. Entendo — murmurou Fran atrás de mim. Lembrei-me de como agi esta manhã e percebi que não havia espaço para discussões lá.

O Sumo Sacerdote franziu a testa em pensamento, olhou para mim, depois franziu a testa novamente.

— Mais alguma coisa? Por favor, diga qualquer coisa que possa fazer com que sua mana enlouqueça, fora de sua família, amigos e livros.

— Não consigo pensar em nada importante para mim, além dessas três coisas. — Respondi, e o Sumo Sacerdote assentiu em resposta, parecendo aliviado.

Benno ergueu os olhos ligeiramente em pensamento, depois olhou entre Fran e o Sumo Sacerdote.

— Falando nisso. Acredito ser necessário que eu relate a você o quão anormalmente fraca Myne é.

— Quão fraca ela é? Sim, lembro que ela precisa de alguém para cuidar de sua saúde.

O Sumo Sacerdote parecia assim e eu senti Fran vacilar um pouco atrás de mim. Ele provavelmente estava se lembrando do que Benno havia dito a ele no corredor.

— Myne está chocantemente carente de força e resistência. Se você não observar cuidadosamente sua expressão, tom, velocidade de caminhada e o quanto ela se moveu em um determinado dia, ela ficará inconsciente e entrará em colapso, sem aviso, apesar de parecer saudável. Ela então ficará acamada por vários dias, com febre. A partir do momento atual, apenas o aprendiz, na minha loja, pode gerenciar sua saúde.

— Aquele aprendiz é o garoto chamado Lutz, sim? Fran. Você pode cuidar da saúde dela? — disse o Sumo Sacerdote, levando todos a olharem para Fran. Seus profundos olhos castanhos vacilaram brevemente, então ele baixou os olhos e falou em um tom que exalava arrependimento.

— Não, ainda não. Perdoe-me.

Virei um pouco a cabeça e vi o punho de Fran, que estava no nível dos meus olhos, tremendo um pouco. Estava claro como o dia que ele sentiu uma enorme frustração consigo mesmo, por não atender às expectativas do Sumo Sacerdote.

— Fran acabou de se tornar meu assistente esta manhã. Não seria razoável para ele aprender a controlar minha saúde tão cedo. Lutz levou muito tempo para memorizar os sinais.

— Não temos esse tempo. — Apesar da minha tentativa de apoiar Fran, tudo desmoronou com as palavras duras do Sumo Sacerdote. — A Ordem dos Cavaleiros pode nos pedir ajuda novamente no outono. Aprenda a cuidar da saúde de Myne antes disso. Entendeu, Fran?

O Sumo Sacerdote deu a Fran um olhar firme, que sugou o ar e depois assentiu.

— Entendido. Não vou falhar.

Assim como seus esforços na entrada e seu conhecimento de chá mostraram, Fran era um indivíduo que trabalharia imensamente para o bem do Sumo Sacerdote. Eu poderia imaginar que, com o Sumo Sacerdote ordenando diretamente que ele aprendesse a gerenciar minha saúde, ele estaria levando isso muito a sério, a partir de agora. Pessoalmente, fiquei feliz por ele ter uma fonte de motivação positiva.

Benno, vendo meu alívio, reduziu a preocupação em seus olhos.

— Sumo Sacerdote, Myne é uma criança extremamente inteligente, considerando sua idade. Mas ela tem pouca experiência de vida e está longe tanto da cultura do templo, quanto da própria sociedade nobre.

— Sim, eu sei. É por isso que designei Fran para ela. Ele é um dos melhores assistentes que tenho. Ela pode fazer a ele qualquer pergunta que lhe vier à mente. Claro, pretendo ajudar a educar Myne também.

Ouvi Fran suspirar atrás de mim. Me virei e vi que ele estava olhando para o Sumo Sacerdote com os olhos arregalados de descrença. Espere. Fran achou que ele foi designado para ser meu assistente por não trabalhar bem o suficiente ou algo assim? Se for esse o caso, talvez seja fácil colocá-lo do meu lado apenas dizendo: “Vamos trabalhar juntos para ajudar o Sumo Sacerdote”. Enquanto eu bebia meu chá e pensava em um plano para colocar Fran ao meu lado, o Sumo Sacerdote olhou entre Benno e eu com olhos estreitos.

— A propósito, Benno. Ouvi dizer que Myne é a Deusa da Água para você. Qual é o significado por trás disso?

— O quê?!— gritou Benno, tão chocado que ele deixou cair sua xícara com um barulho. O choque flagrante de Benno, parecia ter aprofundado a suspeita do Sumo Sacerdote. Ele suspirou e cruzou as pernas.

— Eu gostaria de saber, exatamente, com que olhos você está olhando para Myne.

— Entendo sua curiosidade, mas… Eu mesmo não entendo por que aqueles ao meu redor dizem isso.

Benno vacilando e dando desculpas era tão diferente dele que eu queria rir, mas para dizer a verdade, eu não sabia o que o Sumo Sacerdote queria dizer com aquela coisa da Deusa da Água. Inclinei a cabeça, confusa, lembrando como Benno ficou bravo quando Otto disse a mesma coisa.

— Hum, desculpe-me por interromper, mas que implicação a Deusa da Água tem? — Olhei em volta, mas todos evitaram fazer contato visual comigo. Estava claro que ninguém queria ser o único a me dizer. Isso era muito embaraçoso. Pisquei, em confusão, e Benno me passou um bilhete que dizia “Fique quieta!”. Aparentemente, fiz uma pergunta que era melhor ser feita silenciosamente, então sussurrei para Fran.

— É importante para mim saber sobre os deuses, não é? Eu gostaria que você me explicasse isso, Fran.

— Ah, bem, isso é… — Fran olhou para o Sumo Sacerdote em busca de ajuda. Benno, com a mão na testa, soltou um suspiro e o Sumo Sacerdote falou com relutância.

— Amor romântico, enamorados, aquele que move o coração. A Deusa da Água é frequentemente usada como uma metáfora para essas coisas.

Hum, enamorados? Amor romântico? De jeito nenhum. Benno é dedicado à sua noiva morta e vai viver sua vida como um solteiro. E mesmo que não estivesse, por que alguém pensaria isso sobre Benno e eu? Não faz o menor sentido.

— Isso é ridículo. Benno tem idade suficiente para ser meu pai, sabe.

Segurei o desejo de rir e deixei claro que não havia nada entre Benno e eu.

— É como a Irmã Myne diz. A própria ideia é ridícula.

— É o que você diz, mas não é incomum que se formem relacionamentos entre aqueles com diferenças de idade como as suas. — Disse o Sumo Sacerdote, olhando para Benno, de tal forma, que deixou claro que ele ainda estava duvidando.

Eu tinha ouvido falar de tais relacionamentos na indústria do entretenimento no Japão, mas eu não tinha ouvido falar de nada parecido desde que me tornei Myne. Afinal, se você estivesse se casando novamente, com alguém jovem o suficiente para ser seu filho, você provavelmente tinha idade suficiente para que seus próprios filhos pagassem suas suas contas, de forma que as crianças ganhando dinheiro não iriam querer mais dependentes na família. Casar-se com alguém bem jovem primeiro, em vez de se casar novamente, não era uma má opção realmente. A vida de uma plebeia não era fácil o suficiente para apenas o membro mais velho do casal estar lá fora trabalhando e ganhando dinheiro.

— Eu nunca ouvi falar de tal coisa. Falando nisso, suponho que relacionamentos com grandes diferenças de idade não são raros no templo? Afinal, um dos meus assistentes deseja estabelecer uma relação dessas com o Arcebispo. Mas temo que o mesmo não possa ser dito para os plebeus. Está fora de questão. É compreensível que você não entenda como é a vida para nós, plebeus, Sumo Sacerdote, dado o quão protegido este templo é.

Eu estava apoiando Benno, mas por algum motivo, um silêncio embaraçoso se seguiu. Benno passou outro bilhete, este dizendo “Por favor. Cale a boca!” Parecia que meu apoio não foi apreciado.

Fechei os lábios como solicitado, mas agora ninguém estava falando. Um longo e pesado silêncio encheu a sala. Todos estavam tomando chá e observando uns aos outros, em vez de dizer qualquer coisa. Constrangedor. Estar aqui foi tão, tão constrangedor.

— Sumo Sacerdote, embora eu seja apenas um humilde servo, gostaria de pedir permissão para falar, se puder.

O salvador que quebrou o silêncio constrangedor não era outro, senão Mark.

Olhei para cima, surpresa, e estava escrito no rosto do Sumo Sacerdote que ele queria alguém, qualquer um para consertar isso. Assim, ele imediatamente concedeu permissão, praticamente aplaudindo enquanto o fazia.

— Você pode falar.

— Vou deixar isso claro para o bem da honra do meu mestre, mas, neste caso, a Deusa da Água está sendo usada para significar algo totalmente diferente. Como você certamente sabe, a série de invenções da Irmã Myne levou meu mestre a começar um negócio totalmente novo. A Companhia Gilberta lidava apenas com roupas e tal durante toda a sua história, mas agora, graças a Myne, estamos florescendo em algo maior. Ela é, de fato, a Deusa da Água para nossa loja.

— Hum, entendo. Posso entender e concordar com essa interpretação. Nesse caso, como minha última pergunta, gostaria de perguntar sobre o Ateliê da Myne. — Parecia claro que ele realmente não concordava com essa interpretação, mas o Sumo Sacerdote mudou de assunto, sem prosseguir com o assunto. — Quanto lucro a oficina está ganhando? Permiti sua operação contínua sob a condição de que uma parte desse lucro seja dada ao templo, se você se lembra.

Benno assentiu e fingiu pensar. Entretanto, na realidade, ele estava arrancando um pedaço pequeno de papel de um papel grande, com um monte de mensagens já escritas nele, que estava dentro de sua manga grande. De repente, percebi que os pedaços de papel que Benno estava me entregando, vinham do pedaço de papel que Mark estava escrevendo na carruagem. Eu vacilei.

O quê, Mark? Foi Mark quem escreveu “idiota” naquela nota?! Não acredito! Eu acreditava que ele era um cavalheiro maravilhoso! Eu não posso acreditar que cada nota que ele escreveu, antes do tempo, era tão dura! Eu sabia que ele havia escrito “idiota”, “cale a boca” e assim por diante, no lugar de Benno, mas ainda era chocante para mim. Queria que ele não tivesse escrito aquelas anotações com seu sorriso de sempre.

Benno me entregou outro bilhete enquanto eu afundava, deprimida. Estava escrito “Não diga nada”.

— O lucro depende do produto. Como você sabe, nenhum negócio mantém um nível constante de lucro, em geral. E como estamos no processo de iniciar um novo negócio, estamos realmente perdendo mais dinheiro em investimentos do que estamos ganhando em receita. Considerando os custos de manutenção do ateliê e preparação para este novo negócio, acredito que um décimo do lucro líquido é uma soma justa, — sugeriu Benno, o que fez o Sumo Sacerdote fazer uma careta.

— Um décimo é bem baixo, não é?

— Se você perdoar minha grosseria, é tão grande que não é razoável. Não posso pagar menos aos trabalhadores, nem posso me dar ao luxo de perder dinheiro, que poderia ser gasto comprando os materiais necessários e pagando por seus custos de importação.

— No entanto.

— Entendo que, nos negócios, às vezes é preciso raspar o lucro para vender mais. Mas, se o Ateliê da Myne for para o vermelho, não posso esperar que você forneça apoio financeiro, correto?

O Sumo Sacerdote ficou em silêncio. Naturalmente, ele não seria capaz de fornecer tal apoio. O próprio templo já estava no vermelho. E, além disso, era difícil para o Sumo Sacerdote argumentar com sua posição. O templo recebeu trabalho gratuito de órfãos na forma de sacerdotes cinzentos e operou com doações dadas pelas famílias de vestes azuis e do arquiduque. A fonte de renda do templo era totalmente diferente da de uma loja que fazia negócios e outras coisas. Era provável que o Sumo Sacerdote não tivesse uma forte compreensão da organização de uma loja, nem como os trabalhadores eram pagos.

— Irmã Myne é livre para doar sua parte pessoal dos lucros para o templo como quiser, mas a oficina, como um todo, não pode se dar ao luxo de doar tanto dinheiro que seja forçada a parar de operar.

— Entendo. Dez por cento, então.

Benno assumiu a liderança da conversa com argumentos sólidos, após argumentos sólidos e, no final, garantiu o valor da doação que ele queria. O próprio Benno estava casualmente recebendo trinta por cento de nossos lucros na forma de taxas de manuseio, mas ele minimizou as doações para o templo para apenas dez por cento.

Enquanto eu ficava admirada com a habilidade de Benno, Mark pegou folhas de papel de contrato e as alinhou ao longo da mesa. Uma vez que o negócio foi feito, deve-se imediatamente solidificá-lo na forma de um contrato. A ação de Mark parecia clara em comparação com a negociação hábil de Benno, mas ele ainda estava completamente a frente das coisas. Para ser honesta, parecia que Mark era tão bom assistente quanto aqueles assistentes que os nobres de vestes azuis tinham.

Como este era um contrato entre plebeus e a massa concentrada de nobres que era o templo, os pedaços de papel de contrato eram realmente para contratos mágicos. Escrevemos o contrato, afirmando que o templo receberia um décimo dos lucros do Ateliê da Myne, então nós o assinamos. Primeiro o Sumo Sacerdote, como representante do templo, depois eu, como a capataz do Ateliê da Myne, depois, finalmente, Benno, como meu guardião e aquele que estaria administrando os assuntos financeiros em primeiro lugar.

Sangue, de novo? Eu… Odeio contratos mágicos.

— O que você está esperando, Myne? É sua vez.

Embora fosse apenas uma faca picando a ponta de um dedo, eu ainda não havia me acostumado a uma lâmina sendo apontada para mim. Agarrei a faca com a mão trêmula, ao impulso do Sumo Sacerdote, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Fran estendeu a mão e tirou de mim.

— Por favor, feche os olhos, Irmã Myne. — Apertei meus olhos com força e senti uma sacudida de dor de um dedo. Abri os olhos e vi sangue saindo. Fran estendeu a folha de papel de contrato, contra a qual pressionei o dedo. O contrato desapareceu em chamas brilhantes, como os contratos mágicos sempre faziam.

— Essas são todas as perguntas que eu tinha. Esta reunião foi um uso muito produtivo do tempo. Você tem meus agradecimentos, Benno.

— Sua gratidão é muito apreciada, meu senhor.

Enquanto Benno e o Sumo Sacerdote trocavam despedidas, Mark limpou as ferramentas usadas para escrever o contrato mágico, Fran recolheu as xícaras de chá e Arno preparou o tapete.

— Agora, vamos orar e agradecer aos deuses por nos guiar em direção a este encontro, — disse o Sumo Sacerdote enquanto gesticulava para mim e Benno em direção ao tapete. Olhei para Benno e Mark no caminho para lá e mal segurei o desejo de rir.

Isso significa que vou ver Benno e Mark fazendo aquela pose de oração boba? Mal posso esperar! Quero tanto ver isso! Mas vou ter dor de barriga de novo! Quando coloquei a mão sobre a boca, para sufocar o imenso poder destrutivo carregado pela imagem mental de Benno e Mark atingindo a pose de oração, de repente, senti toda a força ser drenada do meu corpo. Eu acidentalmente soltei um “wow?!” muito de repente, quando meus joelhos desmoronaram e meu corpo caiu para frente, carregado pelo peso da minha cabeça.

— Irmã Myne?! — Fran soltou um grito de surpresa atrás de mim e todos olharam em volta. O Sumo Sacerdote deu um suspiro exasperado ao me ver desmaiar.

— Myne, levante-se já. Você parece vergonhosa.

Claro, eu já havia tentado ficar de pé sozinha, mas minhas mãos simplesmente não estavam se movendo. Eu também não conseguia levantar a cabeça.

— Hum, meu corpo está estranho. Não consigo me mexer. Mas não parece que estou com febre. Minhas mãos estão meio frias. Sr. Benno, o que está acontecendo?

— Como se eu soubesse! Não me pergunte!

Benno me pegou enquanto gritava, mas eu não pude agarrar sua camisa, como de costume. Meus braços pareciam tão pesados que era como se eles nem me pertencessem.

— Honorável Sumo Sacerdote, peço sinceras desculpas por este problema. Gostaria de pedir que as despedidas formais sejam omitidas para que possamos partir imediatamente.

— C-Claro, eu não me importo. Vou deixar Myne sob seus cuidados.

Benno, ainda me carregando, pediu ao Sumo Sacerdote para sair, com uma expressão pálida. Enquanto ele fazia isso, eu não sentia os sinais de calor inchando dentro de mim como eu normalmente sentiria. Eu ainda me sentia relativamente fria e honestamente, parecia que meu corpo estava ficando cada vez mais frio, apesar de ainda ser o início do verão.

Mark se preparou apressadamente para sair e Arno abriu a porta para Benno, que saía rapidamente da sala, com longos passos. Ao contrário do que normalmente acontecia, quando eu desmaiava, eu não caí inconsciente, e meus membros, pendurados, pareciam estranhos. Quando senti o quão pesada era minha cabeça, sem força, uma onda de arrependimento tomou conta de mim. Perdi a oportunidade de ver Benno e Mark fazendo a pose de oração.

— Mestre Benno, por favor, espere! — Da minha cabeça pendurada eu podia ver o peito de Fran e parte de sua mandíbula. Mas Benno o ignorou e continuou caminhando, em um ritmo rápido. Ele estava indo tão rápido que minha cabeça estava balançando e parecia que meu cérebro estava sendo agitado. “Eu gostaria que ele andasse um pouco mais devagar, para que eu não pulasse”, pensei enquanto ouvia Fran chamar Benno, um passo atrás dele, novamente.

Imagem 1

— Mestre Benno!

— O quê? Tente prestar atenção, estou com pressa. — Benno havia voltado ao seu eu habitual e completamente indelicado.

Fran se encolheu de medo por um momento, por sua atitude brusca, mas, após sugar o ar, criou coragem para falar.

— Por favor, permita-me carregar a Irmã Myne.

— Estou com pressa. Não.

— Não posso forçar um convidado a carregá-la. Sou o assistente da Irmã Myne.

Meu coração palpitou com Fran, continuando a desafiar Benno, apesar de suas rejeições bruscas, e finalmente seus esforços foram recompensados. Benno parou no lugar.

— As pessoas desmaiadas são pesadas, pequenas ou não. Absolutamente, não a deixe cair.

Benno lentamente dobrou os joelhos e me entregou a Fran, que cuidadosamente ajustou os braços sob a minha cabeça e corpo antes de se levantar. Com minha cabeça apoiada no ombro de Fran, não precisava mais pular.

— Você é bom em carregar pessoas, Fran, — eu disse, impressionada.

— Irmã Myne, não há necessidade de você se forçar a falar. — Fran respondeu com uma voz um pouco aguda.

— Não consigo mexer meu corpo, mas minha cabeça está bem. Não estou me forçando.

— Eu disse isso porque você não está mais prestando atenção à sua maneira de falar. — Não pude deixar de sorrir com a preocupação na voz de Fran. Foi um pouco embaraçoso saber que Fran agora estava preocupado comigo, mas também me deixou um pouco feliz.

— Hum, Fran. Com Delia e Gil por perto, não sei quando teremos outra oportunidade de conversar em particular, então quero dizer algo agora. Tudo bem? — Sussurrei nos ouvidos de Fran, para evitar que outros sacerdotes no corredor ouvissem, e ele assentiu enquanto continuava a olhar para frente.

— O que você gostaria de dizer?

— Eu ainda não sei muito sobre ser uma nobre e acho que isso provavelmente lhe causará muitos problemas, mas trabalharei duro para aprender o que preciso saber o mais rápido possível. Então, por favor, me ajude. Farei o meu melhor para ser útil ao Sumo Sacerdote, o que torna o nosso objetivo o mesmo. Acha que podemos formar um time?

Os braços de Fran me apertaram e vi sua garganta balançar enquanto ele sugava o ar.

— Esse é o meu trabalho, em primeiro lugar. Na verdade, eu deveria me desculpar, por não adivinhar as intenções do Sumo Sacerdote e sobrecarregá-la com minha insatisfação.

— Espere, adivinhando? Ele não te explicou nada? — Essa foi uma revelação chocante. Era difícil culpar Fran por estar infeliz, por ser designado para mim, sem explicação. Ele passou de ser o assistente do Sumo Sacerdote para o assistente de uma plebeia aprendiz de donzela azul do santuário. Nem mesmo uma nobre. Sem dúvida, ele só poderia ter visto isso como um rebaixamento.

— O Sumo Sacerdote raramente fala desnecessariamente, pois não tem como saber quantos espiões estão à sua volta. Fiquei surpreso com o quanto ele falou hoje, independentemente de ter dispensado os outros primeiro.

— Ainda assim, quero dizer, você precisa deixar seus subordinados saberem quais são suas intenções. Você foi ferido por ser designado para mim, exatamente porque ele não se fez claro, certo? — Eu não tinha ideia de, em que posição o Sumo Sacerdote estava exatamente, mas se ele estava fazendo alguém tão leal quanto Fran infeliz, era difícil imaginar que ele não estivesse em uma sequência de perder aliados.

— Parecia que o Sumo Sacerdote havia dito que não precisava de mim e que eu estava no nível de Delia e Gil.

— Você definitivamente não está. O Sumo Sacerdote te designou para mim, mas ele definitivamente ainda o considera seu servo. — Sussurrei para que ninguém mais ouvisse, meu conselho extremamente manipulador, destinado a fortalecer a lealdade de Fran ao Sumo Sacerdote e fazê-lo ser mais gentil comigo.

— Você realmente acha isso? — Apesar de fazer uma pergunta, o tom de voz de Fran deixou sua dúvida clara.

— Da perspectiva dele, ele está apenas emprestando você para mim. É por isso que ele lhe deu ordens na reunião, sem me perguntar primeiro, mesmo que eu seja seu novo mestre e houvesse um convidado lá. Quero dizer, se você fingir que sou uma nobre normal por um segundo, não seria muito rude da parte dele ordenar que você aprenda a administrar minha saúde até o outono assim?

— Você não está errada. — Fran soltou uma pequena risada, assim que a porta do lado de fora se abriu.

Nossa carruagem tinha acabado de voltar. O motorista, que provavelmente planejava retornar antes do término da reunião, piscou de surpresa com a nossa chegada antecipada.

— Fran, entregue Myne. — Benno entrou na carruagem primeiro e esticou os braços. Fran hesitou por um momento, depois me passou para Benno.

— Posso ir com você? — ele disse, em um tom de voz quase desesperado.

— Não. Nada além de problemas virão se você deixar o templo com roupas como essa — Benno o abateu enquanto me levava.

Fran franziu a testa, sem esperar ser recusado por causa de sua roupa e olhou para suas roupas.

— Eu posso conseguir algumas roupas que você possa usar no futuro, se você não se importar com coisas de segunda mão. Mas desista desta vez.

— Isso seria muito apreciado. — Após agradecer a Benno, Fran cruzou os braços de frente para a carruagem e se ajoelhou. — Irmã Myne, espero e rezo pelo seu retorno em segurança.

Foi uma despedida razoável para um assistente, dizer adeus ao mestre que estava partindo, mas me pegou desprevenida e eu meio que vacilei. Eu não tinha certeza de como responder, pois considerava o mestre de Fran sendo o Sumo Sacerdote e eu também não seria uma boa mestra. Eu não era o tipo de pessoa que ele deveria estar esperando.

Enquanto eu congelava em silêncio, incapaz de pensar em algo para dizer, Benno sussurrou em meu ouvido, baixinho.

— Apenas diga a ele que você voltará. Diga algo como: confio minha casa a você, na minha ausência.

Foi o que Benno disse, mas o templo não era minha casa. Eu nem tinha um quarto lá. Era tudo menos um lar para mim. Mas, embora tivesse sido simples discutir com Benno sobre isso, Fran disse que esperaria por mim. Senti que, como mestre de Fran, era meu dever voltar ao templo.

Suguei o ar e depois respondi com toda a elegância que pude reunir:

— Fran, confio minha casa a você na minha ausência.

Benno me apoiou no banco da carruagem com a cabeça no colo. Senti meu corpo gelado esquentar um pouco depois que ele desfez seu broche de ouro e me cobriu com sua capa. Soltei um suspiro de alívio, então percebi em que situação estava e mal segurei um grito.

Ah, não! Ele está me dando um colinho! Nunca em meus sonhos mais selvagens eu teria imaginado que Benno não seria apenas o primeiro cara com quem compartilhei notas secretas, mas o primeiro cara (fora da minha família) a me dar um colinho. Talvez isso tecnicamente não contasse, já que Benno desistiu do amor. Esperava que não contasse. Mas, de qualquer forma, como eu não podia escapar dessa situação por conta própria, tive que suportar o constrangimento até chegarmos à loja. Tentei escapar dos meus sentimentos de ansiedade fazendo uma pergunta ao Benno, embora isso me fizesse falar muito rápido.

— Sr. Benno, os sacerdotes não têm roupas de fora?

— Não, porque eles não precisam de nenhuma. Alguns podem ter um par ou dois, mas a maioria não terá.

De acordo com Benno, os sacerdotes só saíam do templo e entravam na cidade baixa quando os rituais ou cerimônias exigiam isso. Eles não se destacavam tanto quanto os padres azuis, mas um padre cinza deixando o templo e me seguindo pela cidade não atrairia nada, além do tipo de atenção que eu não queria.

— Mas isso não importa agora. Myne, cale a boca. — disse Benno, em voz baixa, enquanto traçava um dedo na minha testa. Ele então agarrou minhas mãos frias, como se para dar-lhes calor. Ele estava agindo inteiramente como se sua amada tivesse desmaiado. Eu não tinha nenhuma experiência com esse tipo de coisa, mesmo na minha vida passada, então minha luta aqui foi além do constrangimento. Eu estava apenas em conflito e nem sabia como reagir.

— Todos nos entendem mal porque você faz esse tipo de coisa sem perceber, Benno! — Como se lesse minha mente, Mark, sentado à nossa frente, baixou os olhos tristemente.

— Mestre Benno, Myne não é Liz. Ela vai ficar bem.

— Eu sei disso. Eu sei disso, então não diga que ela vai ficar bem. Não é tão simples, — disse Benno. Ele estava olhando pela janela, mas não soltou minhas mãos. Eu não conseguia ver a expressão dele daqui. Mas, de alguma forma, tive a sensação de que estava vendo um lado do Benno que não tinha o direito de ver. Era fácil adivinhar que Liz, seu primeiro e único amor, havia assegurado a ele, com um sorriso, que ela ficaria bem, enquanto morria lentamente, na frente dele.

Não pude dizer nada ao Benno. Eu não conseguia apertar suas mãos grandes de volta, mesmo que estivessem me dando calor. Eu não podia fazer nada, e eventualmente, a carruagem chegou à Companhia Gilberta.

— Lutz, venha ao escritório do Mestre Benno. Myne desabou no templo, — disse Mark em voz alta. Eu podia ouvir Lutz, que aparentemente estava trabalhando enquanto esperava que eu voltasse, correndo.

Lutz trouxe um banco para o escritório, na direção de Mark, e Benno me colocou nele após pegar brevemente sua capa de volta. Ele pegou meus braços pendurados e os apoiou no meu estômago. Eles eram surpreendentemente pesados. Eu o senti colocar a capa em cima de mim, no lugar de um cobertor.

Lutz olhou para mim com preocupação. Ele tocou minha testa, pescoço e mãos antes de inclinar a cabeça em confusão.

— Ela parece exausta, mas não está com febre. As mãos dela estão frias e ela não consegue se mexer. Eu nunca vi nada assim antes. Ei, Myne. O que você fez hoje? — ele perguntou, então pensei no que havia acontecido durante esse longo dia.

— Humm, fui ao templo, fiz a cerimônia de fidelidade, rezei, realizei uma oferenda, conheci meus assistentes, ouvi as instruções do Sumo Sacerdote e depois li a bíblia na sala dos livros até que você veio me buscar. Você e o Sr. Benno sabem tudo o que aconteceu depois.

— O que você quer dizer com oferta?

— Hum, despejando mana em um instrumento divino. Ele tira o excesso de calor em mim e faz com que eu me sinta muito bem.

Meu estômago rosnou, interrompendo minha explicação. Os olhos de todos mudaram para o meu estômago. Oh sim, eu não almocei. Acabei de lembrar. Escapou da minha mente já que tudo saiu dos trilhos. Eu definitivamente fiquei com fome muito rapidamente, uma vez que eu me lembrei que eu não comi.

— Bem, acho que estou com fome, — eu disse, o que aliviou um pouco a atmosfera sombria. Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Mark quando ele abriu a porta que levava ao andar de cima.

— Se ela está apenas com fome, sem febre, ela deve ficar bem sem nós por um momento. Vamos trazer-lhe algo para comer após nos trocarmos, Mestre Benno.

Depois que os dois desapareceram pelas escadas, Lutz trouxe uma cadeira ao lado do meu banco. Ele se sentou, franziu as sobrancelhas e continuou claramente querendo saber mais.

— Por que você está com fome em um momento como este? O que você comeu no almoço?

— Eu não almocei, isso seria uma perda de tempo de leitura. Posso ficar dois dias sem comer se tiver livros, então.

Minha resposta fez os olhos verde-jade de Lutz brilharem de raiva fria. Ele falou, sua voz afiada.

— Quando foi a última vez que você fez isso? Você tem tentado fazer livros desde que se tornou Myne, certo? Quando foi a última vez que ficou dois dias lendo sem comer? É melhor você não estar falando sobre sua vida passada, antes de se tornar Myne, certo?

— Ah. — Lutz, que sabia que eu não era a verdadeira Myne e tinha memórias da minha vida como Urano, apontou algo que me fez suar frio. Ele tinha razão. Eu só podia passar dias sem comer na minha vida passada. Embora houvesse momentos em que eu estava muito doente para comer, nunca havia perdido intencionalmente uma refeição, desde que me tornei a fraca e doente Myne.

— Além disso, usar mana é como mover seu calor da Consumação de propósito, certo? Tenho certeza que você disse que quando você estava sendo comida viva pela Consumação, sua temperatura continuava subindo e descendo. Talvez usar mana envolva a mesma coisa?

— A mana sendo sugada para um instrumento é muito diferente da mana se enfurecendo dentro de mim, sem ter para onde ir.

— Ambos têm mana se movendo. Mas você ainda pulou o almoço e veio até aqui em seu corpo fraco sem comer! O que achou que ia acontecer? Idiota! — gritou Lutz, antes de soltar um suspiro exausto. Ele então pegou minha mão e colocou-a contra sua testa. — Maldito frio, — disse ele, antes de me olhar com olhos chorosos.

— Eu estava tão animada com a sala dos livros que perdi tudo de vista. Desculpe, Lutz.

— Não se esqueça de comer! Você deveria se conhecer melhor! — gritou Lutz, com os olhos lacrimejantes e a minha mão ainda na dele.

— Do que você está falando? Myne ou não, ela é uma pessoa doente. Fique mais quieto. — Benno, tendo terminado de se trocar apressadamente, desceu e avisou Lutz.

Lutz, fazendo uma careta, levantou da cadeira para Benno e soltou minha mão. Mas suas emoções tinham que ir a algum lugar, então ele as cuspiu na forma de reclamações.

— Mas escute, Myne está dizendo que desmaiou por pular o almoço para ler livros. Eu só…

— SUA GRANDE IDIOTA!

— Wow?!

Benno, apesar de ter acabado de dizer a Lutz para ficar quieto perto de pessoas doentes, soltou um trovão tão alto que parecia que meu coração iria parar. Mas eu não podia fechar meus ouvidos ou fugir, não importa o quão alto ele gritasse. Eu só podia olhar para ele, parado ao meu lado, lágrimas se formando em meus olhos.

— Eles dizem que as crianças com a Consumação crescem lentamente porque a mana está roubando sua energia. Sua nutrição. E ainda assim, você pulou uma refeição após usar sua mana? O que há de errado com você…

— Quero dizer, eu não sabia disso, então.

— Você deveria se conhecer melhor! Preste mais atenção e reúna todas as informações que puder, idiota!

Eu sabia que Benno estava certo, mas não sabia como reunir informações sobre a Consumação. Ainda assim, responder desnecessariamente seria apenas derramar óleo em sua raiva ardente.

— Esta não é a primeira vez que você demonstra falta de consciência, Myne, mas, por favor, cuide melhor de si mesma, — disse Mark. — Além disso, Mestre Benno, por favor, não grite com aqueles que estão tão doentes que não podem nem se mover. — Mark foi gentil, mas implacável, pois trouxe comida para a mesa e me ajudou a me sustentar para comer. — Myne, você acha que será capaz de comer isso?

Eu podia ver uma tigela de sopa de pessoa doente, feita de cortar pão duro e mergulhá-lo em leite, coberto com mel. Provavelmente era doce e delicioso.

— Vou segurá-la. Lutz, você pode alimentá-la?

— Eu não sou muito bom em alimentar as pessoas, então suas roupas, provavelmente, ficarão sujas, — disse Lutz, apontando para minhas vestes azuis. Como as vestes azuis eram as roupas da nobreza, elas eram de alta qualidade e caras. Seria uma grande coisa derramar leite nas vestes e deixá-las fedidas. Além disso, como eram o tipo de roupas que você escorregava dentro, tirá-las de mim enquanto eu não conseguia me mexer seria uma tarefa difícil.

— Entendo, esta é uma situação bastante problemática.

— Mark, vá buscar alguns cristais de mel. Será difícil trocá-la se ela não puder se mover.

Mark imediatamente saiu, retornando logo em seguida, com pequenos pedaços de mel duro e cristalizado. Ele colocou os doces pedaços de açúcar dourado na minha boca. Eles se separaram na minha língua e pude sentir a doçura se espalhando por mim. Quando o mel estava derretendo na minha boca, pude sentir o calor retornando ao meu corpo. Depois que vários pedaços de mel foram colocados na minha boca, consegui começar a lambê-los, momento em que Benno coçou a cabeça.

— Myne, o Sumo Sacerdote disse algo sobre o uso de mana? Algo como, pode fazer você se sentir doente, ou pode fazer algo mais acontecer?

Pensei no que o Sumo Sacerdote havia dito antes.

— Humm, ele disse para não me sobrecarregar ao oferecer mana. Na verdade, me fez sentir mais leve, então definitivamente não estava me sobrecarregando nem nada.

— Eu vejo. Mas você esteve doente com a Consumação toda a sua vida, o que significa que você está acostumada a um corpo cheio de mana em excesso, certo? Qual é a chance de seu corpo estar agindo de forma estranha, já que não está acostumada a ter menos mana?

— É possível. — Me concentrei na caixa metafórica em que guardei minha mana e tentei abri-la. Uma pequena quantidade de calor se espalhou por mim, circulando calor através do meu corpo. Eu podia sentir o calor se acumulando em meus dedos. Após colocar calor em todos os lugares que faltavam, fechei a caixa novamente.

— Parece que você estava certo, Sr. Benno. Meu corpo está quente de novo.

— Não fique tão quente, você desmaiaria de novo, certo? — Lutz imediatamente lançou um aviso. Parecia que ele sabia exatamente o que eu provavelmente faria.

— Acho que vou ficar bem. — Abri e fechei minhas mãos aquecidas. Elas ainda estavam rígidas, mas eu podia movê-las novamente.

Benno suspirou de alívio com a mão no peito.

— Myne, tudo o que sei sobre a Consumação é o que aprendi com rumores e boatos. Peça ao Sumo Sacerdote detalhes sobre a mana e como ela funciona. Ele ainda é jovem, mas parecia mais esperto que a maioria dos sacerdotes azuis.

— O quê? O Sumo Sacerdote é jovem? — Pisquei de surpresa.

— Não tenho certeza do que jovem significa para uma criança como você, mas pelo que posso dizer, ele tinha cerca de vinte e dois ou vinte e três anos. Embora a julgar por como ele parecia um pouco inseguro, ele pode ser ainda mais jovem.

— De jeito nenhum! Ele não está perto dos trinta? Eu tinha certeza de que ele era tão velho quanto você, Sr. Benno.

— Myne. Nunca diga isso a ele. Nunca — disse Benno com firmeza, com uma expressão assustadora.

Mas ele é tão calmo e digno. Ele manda nas pessoas como se não fosse nada. Sem mencionar que ele não é um padre qualquer, ele é o Sumo Sacerdote. Ele tem que ser pelo menos um pouco velho. Eu caí em pensamentos e tentei rolar um pouco para me sentar. Mas como eu ainda não conseguia mover meu corpo muito bem, rolei direto de todo o banco.

— Myne?!

— O que você está fazendo, idiota?!

— Pensei estar forte o suficiente para me sentar, então.

Os três levantaram as sobrancelhas com minhas desculpas. Então Benno, Mark e Lutz, todos lançaram reprimendas.

— Você mal pode se mover, o que você estava pensando?

— Realmente, devemos manter nossos olhos nela o tempo todo.

— Estou implorando, apenas fique quieta.

Os três ficaram aliviados ao me ver um pouco melhor, o que significava que sua preocupação agora poderia se transformar em raiva. Eu podia sentir a aura de raiva irradiando deles enquanto me cercavam, ainda no chão.

— Lutz, diga a Fran para dar relatórios diários detalhados sobre tudo o que Myne faz a partir de agora. Onde ela vai, se ela usa mana ou não, se ela almoçou. Tudo.

— Um pedido razoável, já que ninguém sabe o que Myne pode fazer quando não é cuidadosamente gerenciada. Você acha que está de olho nela, mas, ela acaba assim.

Benno bateu os dedos na mesa, olhando para mim com frustração. Mark estava sorrindo, mas seus olhos não estavam sorrindo, o que honestamente o fez parecer realmente assustador. Eu não podia argumentar contra eles e, assim, ouvi silenciosamente, me sentindo triste, momento em que Lutz pulou na pilha de cães também.

— Pareça tão triste quanto quiser, você não está me enganando. — Lutz, que me conhecia melhor que ninguém, apontou um dedo para mim. — Quando você tem um livro na sua frente, não há chance no mundo de ouvir seus assistentes ou qualquer outra pessoa se você não precisar. Se Fran disser que você ficou brava por eles atrapalharem sua leitura, ou que você pulou o almoço de novo para ler. Vou pedir àquele Sumo Sacerdote para te banir da sala dos livros!

Qualquer coisa menos isso. Acho que, graças a todos aqui, vou levar uma vida saudável e bem administrada no templo também.

Fim da leitura

Capítulo 94 concluído

CAPÍTULO 94 - 93