Crônicas das Terras dos PortaisMininovel – Vida Corrompida – Parte 3 - Entre Braços Vazios
Capítulo 3ANO 1378
— Não vale! Você roubou! — gritou um dos meninos, correndo entre as árvores atrás do objeto jogado.
O outro disparou na frente, tropeçando numa raiz e quase caindo, arrancando gargalhadas dos que vinham atrás.
— Não roubei! Você que não sabe jogar!
— Passa aqui! Anda!
— Você que vem!
Os passos corriam soltos pelo chão irregular, levantando folhas secas enquanto a luz do fim da tarde atravessava as copas em faixas douradas. Algumas crianças avançavam mais para dentro do mato, outras ficavam para trás discutindo regras que mudavam a cada minuto, até que um som baixo cortou a brincadeira no meio.
Irregular.
Falho.
Uma das crianças parou primeiro, ainda inclinada da corrida, o rosto virando devagar para o lado de onde aquilo vinha.
— Você ouviu isso?
O menino ao lado deixou o riso morrer.
— …ouvi.
O som voltou.
Curto.
Quebrado, como se perdesse o próprio ritmo antes de morrer.
— Parece um bicho — disse alguém mais atrás, tentando soar seguro.
— Não é bicho — rebateu outro, abaixando a voz sem perceber. — Bicho não faz assim.
— Goblin faz — murmurou uma menina.
O silêncio durou pouco, mas foi suficiente para todos se entreolharem.
— Goblin não vem até aqui — respondeu um dos mais velhos rápido demais.
— E se vier?
Ninguém respondeu.
O som veio outra vez, mais perto agora, e uma das meninas apontou sem firmeza para dentro das árvores.
— Tá vindo dali.
Os olhares se cruzaram por um instante, cada um esperando que outro tomasse a frente. Foi a menor quem se moveu primeiro, avançando devagar até sair da linha de luz.
— Não vai — disse um garoto, franzindo o rosto. — E se for coisa ruim?
Ela não respondeu.
Só avançou mais um pouco.
Os outros vieram atrás em intervalos curtos, sem coragem suficiente para ficar sozinhos.
— A gente devia chamar a Maelin…
— Vai você.
— Eu não vou sozinho.
O cheiro mudou conforme avançavam.
A terra parecia mais úmida ali, pesada, parada havia tempo demais.
— Tem alguma coisa ali — murmurou a menor.
— Onde?
Ela apontou entre os troncos.
— Atrás da árvore.
O primeiro a enxergar travou no lugar.
Os outros se aproximaram aos poucos, em passos curtos, como se o chão pudesse reagir.
O corpo estava encostado no tronco, inclinado de lado, a cabeça baixa demais para alguém dormindo. Um dos braços pendia sem peso, e as roupas endurecidas em alguns pontos pareciam coladas ao corpo pela sujeira seca.
— Ele tá dormindo? — perguntou um dos menores.
— Não…
— Ele não tá se mexendo.
— Ele tá… morto?
Uma mosca passou zumbindo perto do rosto do homem.
Depois outra.
O som fino ficou girando no ar enquanto ninguém respondia.
O ruído estranho continuava.
Não vinha dele.
A menor deu mais um passo, prendendo a respiração sem perceber.
— Tá vindo… dali.
— Não chega perto! — disse alguém atrás dela agora sem esconder o medo.
Ela se inclinou mesmo assim, tentando enxergar entre o braço e o peito do homem.
— Tem alguém…
Os outros ficaram imóveis.
— É pequeno…
— O quê?
— Eu acho que—
— Não encosta — cortou uma voz seca atrás deles.
Todos se viraram ao mesmo tempo.
— A Maelin chegou… — alguém murmurou.
A cuidadora vinha andando rápido entre as árvores, o olhar passando primeiro pelas crianças antes de parar no corpo.
— Saiam.
Eles obedeceram quase imediatamente, recuando mais rápido do que haviam avançado.
A mulher se aproximou do homem e agachou ao lado dele, observando sem tocar; o ângulo do corpo, a rigidez nos braços, o jeito torto como ainda permanecia apoiado no tronco.
— Ele morreu faz alguns dias… — murmurou, mais para si do que para as crianças.
O olhar desceu até os braços fechados.
O som falhou outra vez.
Com cuidado, ela segurou o braço do homem e puxou devagar; a rigidez resistiu por um instante antes de ceder.
— Segurando até o fim…
Dentro do espaço aberto apareceu o movimento.
Pequeno.
Um rosto sujo, parcialmente escondido, os olhos abertos sem foco fixo. A boca tremia no esforço de produzir aquele som quebrado.
— …um bebê.
Nenhuma das crianças se aproximou dessa vez. Só olharam enquanto a cuidadora pegava a criança nos braços, ajustando o peso leve demais contra o peito.
Viva.
O corpo morto permaneceu encostado na árvore, o braço agora vazio caído ao lado do corpo, enquanto a mulher se levantava devagar.
— Vamos.
As crianças continuaram olhando para o homem por mais alguns segundos antes de começarem a voltar.
Como se alguma coisa ainda tivesse ficado entre aqueles braços vazios.
Maelin empurrou a porta com o ombro e entrou carregando a criança junto ao peito, ainda envolta no pano velho encontrado no mato.
Antes mesmo de parar, puxou uma cadeira com o pé para perto do fogão.
— Traz água quente pra mim. E alguma roupa pequena. Qualquer uma que esteja limpa.
O interior do orfanato era apertado, aquecido mais pelo fogo do que pelas paredes antigas de madeira. Algumas crianças ainda comiam perto da mesa; outras já tinham parado para olhar assim que Maelin entrou.
— É um bebê? — perguntou uma menina pequena, largando o pedaço de pão que segurava.
— Não, é um pouco maior. Fecha a porta antes que o frio entre.
A menina permanecia quieta nos braços dela, os olhos claros passando devagar pelo salão sem parar muito tempo em ninguém.
Um dos meninos inclinou o corpo para frente.
— Ela tem coisa na cabeça…
— É chifre — corrigiu outro, mais baixo. — Que nem um bode.
— Eu sei, eu tô vendo.
Uma das menores apareceu carregando uma bacia de água com as duas mãos.
— Aqui…
— Devagar, Moira. Se não, vai acabar molhando o chão todo.
Moira colocou a bacia perto da cadeira e ficou ali mesmo, de joelhos. Inclinou o rosto um pouco mais para perto da menina, primeiro olhando os chifres, depois a pele arroxeada nas mãos pequenas.
— Ela é estranha.
— Você também é — respondeu Maelin, mergulhando um pano na água morna. — E ninguém reclamou ainda.
Algumas crianças riram baixo.
Maelin começou a limpar o rosto da menina, retirando barro seco das bochechas e folhas presas no cabelo. Conforme a sujeira saía, a pele arroxeada aparecia aos poucos sob a luz do fogo. A criança não reclamava nem tentava fugir; só seguia o movimento do pano com os olhos.
— Ela nem se mexe — comentou um garoto perto da mesa.
— Você se mexeria se tivesse sido encontrada abraçada num morto?
O menino fechou a boca na hora.
— Ela fala? — perguntou outro.
— Não sei ainda.
— E o nome?
Maelin torceu o pano devagar antes de responder. O olhar passou rápido pelas crianças ao redor, depois voltou para a menina no colo.
— Drunnen.
O salão ficou quieto por um instante.
— Vai ser Drunnen.
Os olhos da menina ergueram na mesma hora.
Ela ficou olhando para Maelin em silêncio, os dedos apertando o tecido da roupa limpa contra o peito pequeno.
O som morreu antes de virar palavra.
Maelin soltou um pouco de ar pelo nariz.
— Então Drunnen serve mesmo.
Mais crianças começaram a se aproximar aos poucos enquanto ela terminava de trocar as roupas da menina. Algumas atravessavam o salão olhando para outro lado, mas diminuíam o passo ao passar perto da cadeira; outras apareciam atrás das mesas só até conseguirem enxergar os chifres antes de se esconder de novo.
Moira acabou sentando perto da cadeira com um boneco improvisado de pano nas mãos.
— Quer?
Drunnen olhou primeiro para o boneco.
Depois para ela.
Pegou devagar.
Os dedos passaram pelo tecido gasto enquanto apertava o pano contra o peito pequeno.
Moira abriu um sorriso curto.
— Viu? Ela gos—
Um dos meninos apareceu atrás dela com as mãos fechadas em concha.
— Olha o que eu achei lá fora.
— O que é isso?
Ele abriu os dedos.
A lagartixa se debateu no susto.
Drunnen enrijeceu inteira antes mesmo de recuar. Os dedos apertaram o boneco com força enquanto o garoto ria.
— Ela tá com medo!
— Tira isso daí — disse Maelin, virando o rosto rápido demais.
— Não faz nada! É só—
O calor veio antes da luz.
Curto.
O tecido escureceu entre os dedos de Drunnen, e uma chama pequena escapou do boneco num tremor rápido de fogo.
Moira soltou um grito e caiu para trás.
O boneco bateu no chão ainda queimando.
— Ela queimou!
Ninguém se mexeu no primeiro instante.
Maelin agarrou a bacia e jogou água por cima antes que o fogo crescesse. O chiado subiu junto com uma fumaça fina, espalhando cheiro de pano queimado pelo salão.
— Eu falei que ela era estranha… — murmurou alguém.
O menino da lagartixa deu dois passos involuntários para trás, enquanto outra criança segurava o próprio braço e uma terceira puxava o banco para mais perto da mesa sem perceber que estava fazendo isso.
Drunnen continuava sentada na cadeira, os dedos ainda fechados no vazio onde o boneco estava antes. Ela soltou um som baixo, quebrado, mais perto de um resmungo confuso do que de palavras, enquanto o olhar ia das próprias mãos para o pano queimado no chão, depois para Moira caída perto da mesa.
— Foi sem querer — disse Maelin, secando as mãos no avental enquanto percorria os rostos ao redor. — Crianças com magia às vezes perdem o controle.
Ninguém respondeu.
Moira acabou levantando devagar, mas não voltou para perto da cadeira.
O menino da lagartixa guardou o animal no bolso depressa demais.
Quando alguém voltou a falar, foi baixo, sem olhar diretamente para Drunnen.
Na hora de dormir, os colchões começaram a mudar de lugar pouco a pouco. Uma criança puxava o seu alguns passos para longe, depois outra fazia o mesmo, sem discussão, sem ninguém mandar.
Ela ainda estava no colo de Maelin quando o espaço vazio começou a surgir ao redor do colchão separado perto da parede.
— Aqui é o seu — disse Maelin, abaixando-a devagar sobre o cobertor.
A menina ficou sentada torta no colchão, as pernas pequenas abertas sem equilíbrio firme. Os olhos acompanharam uma menina arrastando o travesseiro para mais perto do grupo, depois um menino puxando o cobertor para o outro lado da sala.
Ninguém olhava diretamente para ela agora.
O fogo da lareira estalou baixo.
Os dedos se fecharam contra o próprio colo vazio enquanto os outros colchões se aproximavam cada vez mais uns dos outros.
O espaço ao redor do dela continuava crescendo.
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