Crônicas das Terras dos PortaisMininovel – Vida Corrompida – Parte 5 - Chamas que precedem o Inverno
Capítulo 5ANO 1383
A chuva começou pouco depois das crianças dormirem.
Fraca primeiro, um som fino batendo no telhado velho enquanto o vento atravessava as frestas das paredes de madeira. O salão já estava escuro, iluminado só pelo vermelho baixo das brasas morrendo na lareira.
Algumas crianças resmungavam dormindo. Outras se viravam sob os cobertores ao som da chuva aumentando do lado de fora.
Drunnen continuava acordada.
Encolhida sobre o colchão afastado perto da parede, segurava o cobertor junto ao peito enquanto observava o salão em silêncio. Os olhos passavam devagar pelas outras crianças dormindo próximas umas das outras.
Ninguém perto dela.
Nem mesmo agora.
O vento bateu forte numa das janelas, fazendo a madeira estalar.
Drunnen puxou o cobertor um pouco mais para perto do rosto.
O calor veio fraco primeiro, quase só um desconforto nas pontas dos dedos.
Ela franziu o rosto.
Uma linha fina de fumaça subiu entre as mãos.
Os olhos arregalaram na mesma hora.
O cobertor escapou dos dedos rápido demais e caiu sobre o colchão ainda fumegando.
— Não… — saiu baixo da garganta.
A menina empurrou o tecido para longe, mas outra faísca escapou entre os dedos antes mesmo dela alcançar o chão.
A chama nasceu pequena, tremendo sobre o tecido escuro.
Por um instante vacilou, baixa demais para assustar alguém.
Então o vento atravessou outra fresta da parede.
O fogo cresceu.
A borda do colchão escureceu rápido demais.
Drunnen recuou contra a parede, respirando curto enquanto o brilho alaranjado começava a se espalhar pelo salão.
— Mae… — chamou baixo.
A voz morreu no barulho da chuva.
A fumaça subiu primeiro, grossa e escura, espalhando-se pelo teto enquanto uma das crianças tossia dormindo perto do centro da sala. Outra se mexeu sob o cobertor quando a chama alcançou a madeira da parede.
O estalo veio seco. Mais forte dessa vez.
Drunnen continuou parada junto da parede enquanto o fogo subia rápido pelas tábuas antigas, espalhando sombras tortas pelo salão.
Então alguém gritou.
— Fogo!
O salão despertou num caos instantâneo.
Um colchão virou no escuro. Alguém tropeçou e caiu entre os cobertores. Crianças começaram a tossir enquanto outras gritavam sem entender de onde vinha a fumaça.
— Água!
— Acorda!
— Tá queimando!
Colchões foram arrastados pelo chão enquanto crianças tropeçavam entre cobertores e a fumaça grossa começava a cobrir o teto.
Maelin apareceu primeiro. Os olhos encontraram as chamas perto da parede.
Perto de Drunnen.
— Sai daí! — gritou atravessando o salão.
Uma viga estalou acima delas, espalhando faíscas pelo chão enquanto Sera surgia logo atrás, empurrando duas crianças menores em direção à porta.
— Todo mundo pra fora! Agora!
A fumaça piorava rápido. Um menino caiu tossindo perto das mesas, e Drunnen correu para puxá-lo dali, mas ele arrancou o braço no mesmo instante.
— Não encosta em mim!
As vozes começaram a se atropelar no salão tomado pelo fogo.
— Foi ela!
— Eu falei!
— Ela queimou o orfanato!
Maelin não respondeu. Atravessava a fumaça carregando uma criança no colo enquanto empurrava outra para a saída.
Então parte do teto cedeu com um estrondo que atravessou o salão inteiro. Uma viga em chamas caiu entre Maelin e Drunnen, espalhando brasas pelo chão.
— Drunnen! — o nome saiu pela primeira vez no meio do caos.
A menina virou o rosto imediatamente.
Por um segundo curto, ela e Maelin conseguiram se enxergar através da fumaça.
Depois outra parte da estrutura começou a desabar.
Sera segurou Maelin pelos ombros antes que ela atravessasse o fogo.
— Vai cair tudo!
Lá dentro, o calor subia pelas paredes em ondas secas enquanto colchões, madeira e cortinas queimavam juntos.
Então ela correu.
Atravessou fumaça, brasas e pedaços de madeira espalhados pelo chão até alcançar a porta destruída. A chuva apagou parte das pequenas chamas presas na roupa dela quando saiu para o quintal.
As crianças estavam agrupadas perto da cerca, tossindo sob a tempestade.
— Ela tentou nos matar… — alguém murmurou no meio do grupo.
Ninguém saiu quando a garota se aproximou.
Uma menina menor escondeu o rosto no ombro do irmão.
Outro garoto recuou um passo sem tirar os olhos dela.
Maelin permaneceu parada sob a chuva, respirando pesado, o rosto iluminado pelas chamas atrás do orfanato.
Por um instante curto, olhou direto para a tiefling.
Depois desviou os olhos para o prédio queimando.
E o espaço vazio continuava ali.
Atrás delas, o teto desabou de vez.
O vizinho abriu o celeiro para eles pouco depois.
As crianças entraram tremendo, enroladas em cobertores molhados, enquanto a chuva batia forte no telhado de madeira antiga. O cheiro de feno úmido e fumaça ainda grudava nas roupas de todos.
Drunnen entrou por último.
O espaço surgiu outra vez sem ninguém precisar falar.
Maelin observou o grupo apertado perto da parede.
Depois olhou para Drunnen parada sozinha perto da porta.
— Dru.
Ela ergueu os olhos.
Maelin bateu uma vez no feno ao lado dela.
— Vem cá.
Drunnen atravessou o celeiro devagar e sentou perto dela. Maelin abriu um cobertor velho sobre as duas sem dizer muita coisa.
Por algum tempo, só a chuva preenchia o silêncio.
Drunnen segurava uma ponta chamuscada do cobertor queimado entre os dedos.
— Mae.
— Hm?
Ela demorou um pouco antes de continuar:
— Se a gente tivesse uma casa… pequena…
Maelin abaixou os olhos para ela.
— Pequena como?
— Pequena. Só nossa.
A chuva continuava pesada do lado de fora.
— Ia ter coelho? — perguntou Maelin depois de um instante.
Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca de Drunnen.
— Dois.
— Dois? Tudo isso?
Ela assentiu.
— E sopa.
— Ah, então é uma casa rica.
Drunnen aproximou o rosto do cobertor.
— A gente podia morar longe.
Maelin passou os dedos devagar pelos cabelos úmidos dela.
— Você ainda vai encontrar gente boa por aí, Dru. Aventureiro, mago, rei… esse tipo de gente muda o mundo.
Drunnen ergueu os olhos.
— E o dinheiro deles compra casa?
— Compra quantas você quiser.
Ela ficou quieta por um instante.
— Então você vai comigo?
A pergunta saiu pequena demais.
Maelin soltou o ar devagar.
— Você vai crescer primeiro.
Drunnen continuou olhando para ela.
— E aí vai acabar rica demais pra lembrar de mim.
— Não vou.
O sorriso de Maelin apareceu rápido demais.
Depois desapareceu.
— Dorme um pouco, Dru.
Drunnen fechou os olhos ainda segurando um pedaço da roupa dela entre os dedos.
Três semanas depois, o cheiro de fumaça ainda aparecia sempre que o vento atravessava o teto novo do orfanato.
As marcas do incêndio continuavam nas paredes perto da cozinha, escondidas mal e mal sob cal torta e madeira recém-pregada.
Drunnen atravessava o salão carregando roupas molhadas quando viu duas meninas separando batatas perto da mesa.
— Eu ajudo.
Uma delas puxou o saco para mais perto do corpo.
— Já acabou.
Drunnen hesitou por um instante antes de assentir e sair sem reclamar.
Sera acompanhou ela cruzando o quintal com os olhos antes de largar outra panela na bancada.
— Já tão olhando torto outra vez na cidade.
Maelin continuou costurando.
— Quando foi que pararam?
— O açougueiro mandou osso ontem.
— Mandou comida. Queria o que? Carne que nobre come?
— Mandou resto.
O silêncio ficou entre as duas enquanto a chuva começava fina do lado de fora.
Naquela noite, os colchões foram espalhados cedo pelo salão. O de Drunnen continuou perto da parede reconstruída, no mesmo lugar de antes.
Pouco depois das lanternas apagarem, vieram as rodas.
Distantes primeiro.
Pesadas.
Madeira atravessando lama do lado de fora.
Os cavalos pararam diante do orfanato já tarde da noite.
Quando Maelin abriu a porta, a chuva entrou junto do frio.
Um homem desceu da carroça com calma demais para alguém vindo de estrada naquela lama. A capa escura estava encharcada até os joelhos, mas o resto dele parecia arrumado demais para aquela hora.
Os olhos passaram pelo salão e pararam em Drunnen.
As moedas suspensas entre os dedos dele demoraram meio segundo além do normal.
— Ah — disse o homem, quase distraído.
Maelin puxou Drunnen um passo para trás antes mesmo de perceber o movimento.
Ele sorriu de leve.
— Sua filha?
— Não — respondeu Maelin na mesma hora.
O silêncio ficou curto entre eles.
— Perdão — disse calmamente. — Meninas assim normalmente vêm de histórias complicadas.
Maelin endureceu o rosto.
— Isso não é assunto seu.
Os olhos dele demoraram mais do que deveriam sobre Drunnen antes da bolsa de moedas cair sobre a mesa com um som limpo demais para um lugar como aquele.
— Tem sopa? — perguntou enquanto tirava a capa molhada dos ombros. — Faz dois dias que eu só mastigo pão duro nessa estrada.
Sera recolheu as moedas rápido demais.
— Tem sim.
Na manhã seguinte, a carroça continuava parada diante do orfanato.
— Eixo empenou — explicou o homem, agachado ao lado da roda. — Se eu forçar estrada agora, fico atolado até amanhã.
Sera cruzou os braços perto da porta.
— Desde que continue pagando, ninguém reclama.
Mais tarde, ele ajudou alguns garotos a levantar tábuas novas perto do depósito dos fundos. As crianças começaram a rodeá-lo aos poucos pelas histórias que contava enquanto trabalhava.
Só Drunnen evitava chegar perto. Sempre que o homem aparecia, ela mudava de caminho discretamente, e o mercador percebia todas as vezes.
Na terceira noite, Drunnen ajudava Sera a levar os pratos depois da janta quando ele segurou o pulso dela.
O gesto foi suave. Quase gentil.
— Você tem olhos muito bonitos — disse baixo. — Nunca vi dessa cor.
Drunnen tentou puxar a mão imediatamente, mas o homem demorou meio segundo além do necessário para soltar.
Pouco.
Mas suficiente.
Ela recuou rápido demais.
Do outro lado do salão, Maelin permanecia parada perto da pia, os olhos presos na cena por tempo demais.
Naquela noite, a cozinha já estava quase escura quando Sera falou sem erguer os olhos:
— Ele paga bem.
Maelin continuou secando o mesmo prato.
— Hm.
— Já deixou mais ouro aqui em quatro dias do que muito fazendeiro em dois mês.
O pano diminuiu o ritmo entre os dedos dela.
— Dinheiro não dura.
— Madeira também não se compra sozinha.
Sera apoiou as duas mãos cansadas na bancada e soltou o ar devagar pelo nariz.
— O quarto menor ainda pinga. O celeiro tá caindo pros lados. E daqui a pouco começa frio de verdade.
Maelin deixou o prato sobre a mesa.
— Eu sei.
O silêncio voltou por alguns segundos, interrompido apenas pelo som baixo de uma criança tossindo no corredor escuro.
Sera olhou naquela direção antes de abaixar a voz:
— Ele gosta da menina.
Maelin ergueu os olhos imediatamente.
— Não gosto do jeito que ele olha pra ela.
— Homem olha.
— Ela evita ficar perto dele.
Sera pegou outra panela devagar demais antes de responder:
— Ela evita ficar perto de quase todo mundo.
A frase ficou parada entre as duas.
Maelin puxou uma cadeira um pouco para trás com o pé e sentou sem fazer muito barulho. O corpo parecia mais cansado do que antes, como se o incêndio ainda tivesse deixado fumaça dentro dela.
— Hoje ele segurou ela.
— Eu vi — respondeu Sera.
— Tempo demais.
Sera esfregou os dedos molhados no avental antes de responder:
— E soltou depois.
Maelin virou o rosto devagar na direção da cozinha escura.
— Você tá ouvindo o que tá dizendo?
— Tô ouvindo o inverno chegando.
A resposta saiu rápida demais. Depois disso, Sera ficou quieta por um instante, encarando a água suja dentro do barril.
— Eu não tô dizendo que gosto dele — continuou ela, mais baixa agora. — Mas homem de estrada é homem de estrada. O mundo tá cheio deles.
Maelin apertou os dedos contra a própria perna.
— Isso não melhora nada.
— Também não muda nada.
A chuva engrossou um pouco do lado de fora enquanto Sera passava a mão cansada pela testa.
— A garota sabe usar magia.
— Ela é uma criança.
— Criança que queimou metade de um prédio sem querer.
O silêncio caiu pesado entre as duas, e Maelin abaixou os olhos.
Sera percebeu tarde demais o que tinha acabado de dizer e soltou o ar devagar.
— Eu só tô dizendo que ela não é indefesa.
Maelin demorou alguns segundos antes de responder:
— Às vezes acho que ela nem sabe quando deve fugir.
Nenhuma das duas falou mais nada depois disso. Na outra sala, a madeira estalou baixo outra vez enquanto a chuva continuava batendo no teto reconstruído.
As duas estavam prestes a sair da cozinha quando o mercador apareceu na porta, já sem a capa molhada nos ombros. A lamparina baixa projetava sombras compridas pelo corredor atrás dele, e o cheiro de chuva ainda vinha grudado nas botas sujas de lama.
— Ainda acordadas? — perguntou com a mesma voz calma de sempre.
Sera soltou um ruído cansado pelo nariz enquanto enxugava as mãos no pano.
— Alguém precisa trabalhar nesse lugar.
O homem assentiu de leve, quase divertido, e apoiou uma pequena bolsa sobre a mesa. O som pesado das moedas batendo na madeira atravessou a cozinha baixa e silenciosa. Maelin parou de dobrar um dos panos no mesmo instante; Sera também ergueu os olhos.
Sem pressa, o mercador puxou o cordão da bolsa e virou parte do conteúdo sobre a mesa. As moedas espalharam reflexos dourados pela mesa suja da cozinha.
Por um instante, ninguém falou.
Sera largou o pano sobre a bancada enquanto o homem girava uma das moedas entre os dedos.
— Conheço gente em cidade grande — disse por fim. — Homem rico. Colecionador. Estudioso. Esse tipo de pessoa paga bem por raridade.
Os olhos passaram pela cozinha antes de voltarem para Maelin.
— A menina tem uma aparência incomum.
O rosto dela endureceu na mesma hora.
— Ela não é mercadoria.
O mercador assentiu outra vez, sem perder o tom tranquilo.
— Nunca disse que era.
A chuva continuava batendo fraca do lado de fora. Em algum ponto do salão maior, uma criança tossiu durante o sono antes do silêncio voltar.
O homem encostou dois dedos numa das moedas e fez ela girar devagar sobre a mesa.
— Mas também não parece feliz aqui.
Maelin não respondeu. Os dedos apertaram o pano dobrado um pouco mais forte.
— Trinta e cinco peças de ouro — continuou ele, como se falasse do preço de um cavalo ou de uma carga de farinha. — E eu levo ela comigo quando a estrada secar.
O brilho das moedas tremia baixo perto da chama da lamparina.
Maelin olhou para o ouro sem tocar em nada.
— Levar pra onde?
O homem deu de ombros.
— Depende de onde o inverno me empurrar.
A resposta veio fácil demais.
Sera puxou o ar pelo nariz e começou a recolher algumas tigelas da mesa para ocupar as mãos, evitando olhar diretamente para qualquer um dos dois.
— Vou guardar isso antes que alguma criança acorde e veja ouro espalhado assim.
Pegou duas moedas primeiro.
Depois mais algumas.
As mãos demoraram um pouco mais do que deveriam antes de fechar os dedos ao redor do ouro.
Então saiu da cozinha em silêncio.
A porta rangeu baixo quando fechou.
E Maelin ficou sozinha com ele.
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