Crônicas das Terras dos Portais — Capítulo 6: Mininovel – Balisteiro – Parte 6 – Parte 6: Entre Aço e Promessas

Crônicas das Terras dos Portais
Cap. 6
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Crônicas das Terras dos Portais

Mininovel – Balisteiro – Parte 6 – Parte 6: Entre Aço e Promessas

Capítulo 6

1.808 palavras~8 min de leitura

O primeiro clarão da manhã mal atravessava a névoa quando os dois grupos de aventureiros deixaram a estrada e entraram no brejo. À frente deles caminhavam uma comitiva de guardas da cidade, abrindo passagem entre os juncos com as lanças, enquanto o restante seguia logo atrás, atento a qualquer movimento vindo da água.

Um dos aventureiros olhou para a ponte escondida pela névoa.

— Estranho...

O guarda voltou-se para ele.

— O quê?

— Tá silencioso demais para uma tribo assassina.

Ninguém respondeu. Continuaram avançando até que o primeiro homem alcançou a cabeceira da ponte e simplesmente parou.

Os que vinham atrás diminuíram o passo.

— O que foi?

O aventureiro não respondeu. Apenas ergueu lentamente a mão.

Os demais contornaram seu corpo e também ficaram imóveis.

A barricada de troncos havia desaparecido. Tábuas quebradas espalhavam-se pela ponte e pelas margens do brejo, misturadas a corpos, lanças partidas e escudos improvisados. Entre eles, enormes virotes de ferro permaneciam cravados na madeira, atravessando árvores, estacas e, em alguns casos, mais de um corpo de uma só vez.

Um dos guardas caminhou alguns passos à frente. Abaixou-se ao lado de um dos cadáveres, depois olhou para outro.

— Não sobrou ninguém...

Outro aventureiro apontou para um virote fincado numa figueira.

— Que arma foi essa?

Ninguém respondeu.

Um homem de barba grisalha aproximou-se da seta. Segurou a haste com as duas mãos e tentou arrancá-lo da árvore, mas o metal sequer se moveu.

Ele soltou a peça devagar.

— Ajuda aqui.

Dois companheiros juntaram-se a ele. Os três fizeram força ao mesmo tempo e, ainda assim, o virote permaneceu onde estava.

Um deles limpou o suor da testa.

— Nem saiu do lugar.

O homem da barba passou a mão pela haste de ferro.

— Isso é tiro de balista.

Outro aventureiro virou-se para ele.

— Balista?

— Sim. Daquelas que defendem castelo.

Os olhos percorreram a ponte coberta de corpos.

— Mas como alguém conseguiu?

O guarda caminhou pela ponte observando o terreno.

— Contem os corpos.

Os aventureiros começaram a percorrer a área.

— Cinco.

— Nove.

— Treze.

Outro atravessou a ponte.

— Vinte e um.

Mais adiante, um caçador saiu entre os juncos.

— Vinte e oito.

O silêncio voltou a cair sobre o grupo.

Um dos homens afastou alguns galhos quebrados com a ponta da bota.

— Tem uma marca aqui.

Os demais aproximaram-se.

A lama conservava uma sequência de pegadas profundas que seguia em direção à floresta. O caçador ajoelhou-se ao lado da primeira, colocou a própria mão dentro da marca e permaneceu imóvel por alguns instantes.

Depois ergueu os olhos para os companheiros.

— Eu não faço ideia do que deixou isso.

Outro homem acompanhou as marcas por alguns metros. Parou diante de um pinheiro cuja casca havia sido arrancada quase até a metade e, mais adiante, encontrou outra árvore marcada da mesma forma.

Permaneceu olhando para a mata por alguns segundos antes de voltar.

— Parece uma coisa grande e pesada. Acho melhor não seguir.

O guarda recolheu uma zarabatana caída sobre a ponte e a quebrou ao meio.

— Vamos embora.

Ninguém contestou.

O grupo deixou a ponte em silêncio.

Na oficina, Dimik desenrolava um mapa sobre a bancada quando Akem entrou carregando uma caixa de ferramentas. O velho percorreu algumas anotações com o dedo, parou sobre um risco feito a carvão e ergueu os olhos.

— Encontraram outra ocorrência.

A caixa bateu no chão antes mesmo que Akem respondesse.

— Onde?

Dimik apontou para uma cadeia de montanhas desenhada na borda do mapa.

— Num desfiladeiro ao norte. Os tropeiros juram que um casal de centopeias gigantes fez ninho por lá.

Akem já caminhava em direção ao Balisteiro.

— Quando saímos?

Dimik enrolou o mapa devagar.

— Hoje à noite.

Akem já abriu o compartimento da armadura.

— Se sairmos agora, chegamos antes do anoitecer.

Dimik continuou enrolando o mapa.

— Você está com pressa demais. Vamos seguir com o plano original.

Akem apenas fechou o compartimento.

Na manhã seguinte, a estrada do norte voltava a receber carroças. Dois tropeiros desmontaram junto à guarita e encontraram os guardas observando o movimento da estrada.

— Passagem livre? — perguntou um deles. — Achei que aquelas centopeias ainda estivessem no desfiladeiro.

O guarda deu de ombros.

— Também achei. Mesmo assim mandaram a gente voltar pra cá.

— Então o que aconteceu?

O homem balançou lentamente a cabeça.

— Não faço ideia.

Sarah atravessava lentamente o salão principal da casa dos Brienza enquanto duas costureiras ajustavam a barra do vestido.

— Ainda não está bom? — perguntou Lowie ao entrar.

— Alguma coisa não tá correta.

Uma das costureiras soltou uma risada.

— Ela diz isso de todos.

Lowie aproximou-se da filha.

— Stefan vem jantar hoje.

Sarah apenas assentiu.

— Então escolha logo um vestido.

Ela sorriu discretamente.

— É justo isso que estou tentando fazer.

As semanas começaram a correr depressa.

Um mapa era substituído por outro sobre a bancada da oficina.

— Encontrou mais uma? — perguntava Akem.

— Desta vez são ogros.

— Quando saímos?

— Agora.

Depois dos rumores sobre centopeias gigantes, vieram matilhas de feras e criaturas escondidas em antigos covis e rotas comerciais abandonadas por anos.

As carroças voltavam a circular poucos dias depois.

Os viajantes encontravam apenas rastros de batalha, árvores atravessadas por enormes virotes e pegadas impossíveis de identificar.

As perguntas repetiam-se por todas as estradas.

— Quem fez isso?

— Ninguém sabe. Mas há um boato.

Em outra parte da cidade, Stefan deixava um livro de contas sobre a mesa.

— Mais um contrato fechado.

Lowie percorreu os números rapidamente.

— Você aprendeu depressa. Fiz bem em te tirar daquele trabalho.

Stefan fechou o livro.

— Ainda tenho muito para aprender.

Lowie sorriu de leve.

— Continua assim. Em breve isso tudo será responsabilidade de vocês.

Na oficina, Dimik já desenrolava outro mapa sobre a bancada antes mesmo de Akem terminar a manutenção do Balisteiro.

— Temos mais trabalho.

Na varanda dos Brienza, Sarah e Stefan observavam o jardim enquanto os empregados desmontavam parte da estrutura da festa.

— Você não era de fugir das festas — disse ela. — Tem alguma coisa desagradando?

Stefan sorriu.

— Prefiro conversar sem tanta gente ouvindo.

Ela o olhou por alguns instantes.

— Ainda sente vergonha?

Ele riu baixo.

— Um pouco.

Sarah aproximou-se.

— Não precisa.

Pela primeira vez, Stefan segurou a mão dela sem hesitar.

Nenhum dos dois voltou a falar.

O sol atravessava as janelas altas da oficina quando Akem ergueu um enorme cilindro metálico e o encaixou na bancada. As pernas de aço moviam-se sem qualquer hesitação sob a roupa de trabalho, e apenas o som abafado das articulações denunciava que já não havia quase nada de humano abaixo da cintura. Dimik girou a peça entre as mãos, examinou uma pequena trinca e a devolveu ao rapaz.

— Esse arcanopistão perdeu energia. — Akem aproximou a peça do peito e acompanhou a rachadura com a ponta dos dedos. — Percebi ontem.

— Quando?

— Depois do terceiro disparo.

Dimik abriu uma gaveta e retirou outro conjunto de peças.

— Tudo bem. Vamos substituí-lo.

— Coloque um com elemento fogo em vez de vento.

O velho levantou os olhos.

— Vai consumir mais energia.

— Não faz diferença. As batalhas são sempre curtas mesmo.

Dimik apenas assentiu e voltou ao trabalho.

Sobre outra bancada repousavam duas placas novas de blindagem. Akem apenas ergueu uma delas para sentir o peso antes de devolvê-la ao lugar.

— Quase o dobro da de antes.

— E aguenta o triplo do impacto.

— Acho que sim. Vou querer reforçar o braço também.

Dimik permaneceu alguns segundos olhando para ele.

— Você sempre pede mais blindagem. Vai acabar sobrecarregando o núcleo do balisteiro.

— Funciona. E isso é o que importa.

— Blindagem não vence batalha sozinha.

Akem deu de ombros.

— Mas impede que eu morra.

O velho permaneceu em silêncio por um instante antes de pegar as ferramentas.

— É. Isso faz sentido.

As ferramentas permaneciam espalhadas pela oficina enquanto Dimik trabalhava com o tórax do rapaz aberto sobre a bancada. Cabos arcanos, engrenagens e pequenas runas metálicas desapareciam sob a blindagem à medida que novas peças ocupavam seus lugares.

— Pronto. — Dimik fechou a última placa metálica, deu dois passos para trás e bateu levemente com os dedos sobre o componente recém-fixado.

Akem sequer olhou para o próprio corpo. Continuou estudando um mapa aberto sobre a bancada até que, sem levantar a cabeça, perguntou:

— Faz tempo que não vejo a Sarah.

As mãos de Dimik permaneceram imóveis.

— Esqueça-a.

O silêncio voltou a ocupar a oficina.

— Ela ainda mora na mesma casa?

— Já disse... esqueça.

Akem permaneceu olhando o mapa por alguns segundos.

— Como ela ficou?

Dimik respirou fundo.

— Melhor do que você imagina.

— Feliz?

O velho caminhou lentamente até a janela. Do lado de fora, a chuva escorria pelas folhas da floresta, e ele permaneceu algum tempo observando o pátio vazio antes de responder:

— Muito.

Akem não disse mais nada. O dedo continuou acompanhando uma estrada desenhada a carvão.

Dimik voltou devagar até a bancada.

— Ela passa os dias experimentando vestidos.

A mão de Akem parou sobre o mapa.

— Vestidos?

— O casamento está próximo.

O silêncio tornou a crescer entre os dois.

Dimik apoiou as mãos sobre a bancada.

— Stefan trabalha de sol a sol. Lowie já começou a levá-lo para as negociações.

— Eu sei.

— As grandes Casas confirmaram presença na festa de contrato de noivado. Vai ser o maior acordo comercial que estas cidades já viram.

Akem fechou lentamente o mapa.

— E aquelas famílias virão?

— Pode ter certeza — completou Dimik.

O rapaz ergueu os olhos pela primeira vez.

— Elas voltaram para Jillar?

— Nunca foram embora. Sempre estiveram a um portal de distância daqui.

Dimik puxou um banco e sentou-se diante dele.

— Enquanto você lutava para continuar vivo, Lowie reorganizou os negócios, ampliou os contratos e cuidou do futuro deles. Principalmente dos Boerdam. Quando se casarem, Stefan assume tudo.

Akem sustentou o olhar do velho.

— Então era esse o plano deles desde o começo.

Dimik não respondeu.

Os olhos de Akem permaneceram alguns segundos sobre o braço metálico antes de ele erguer a cabeça.

— Vamos nos focar no que importa. O que ainda pode ficar mais eficiente no balisteiro?

Dimik sustentou seu olhar por alguns segundos. Depois abriu um armário, retirou um novo conjunto de projetos e espalhou os desenhos sobre a bancada.

— Acho que chegou a hora de reforçarmos o núcleo estrutural.

Akem aproximou-se, percorreu os esquemas com os olhos e fez um discreto movimento afirmativo com a cabeça.

— Perfeito. Vamos começar hoje.

Dimik permaneceu imóvel.

— Você nem perguntou quanto tempo vai levar.

Akem arqueou discretamente a sobrancelha.

— Faz diferença?

— Faz. Pode demorar o suficiente para você não chegar a tempo na festa.

O rapaz apoiou as duas mãos na bancada.

— Enquanto eu estiver parado, alguém morre em alguma estrada.

O velho sustentou seu olhar por alguns segundos.

— Esse é exatamente o pensamento que eu queria ouvir.

Dimik recolheu uma das ferramentas e caminhou em direção à mesa de cirurgia.

— Muito bem, garoto. Vamos iniciar.

Esperou Akem deitar-se, aproximou a luminária do tórax metálico e pousou a mão sobre a blindagem por um breve instante.

Akem fechou os olhos antes que a primeira ferramenta tocasse o metal.

— Estamos cada vez mais perto.

Fim da leitura

Capítulo 6 concluído

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