Crônicas das Terras dos Portais — Capítulo 9: Mininovel – Balisteiro – Parte 9 – Parte 9: Últimos Vestígios

Crônicas das Terras dos Portais
Cap. 9
0%
Crônicas das Terras dos Portais

Mininovel – Balisteiro – Parte 9 – Parte 9: Últimos Vestígios

Capítulo 9

3.594 palavras~16 min de leitura

Corpos cobriam o hall da mansão. Mesas tombadas, taças quebradas e faixas de decoração rasgadas espalhavam-se pelo chão de mármore, enquanto lustres balançavam acima dos destroços do salão. O cheiro de fumaça e sangue continuava preso no ar.

O comandante percorreu o cenário com os olhos.

— Situação! — ordenou.

Nenhum deles respondeu. Ele apontou para a enorme silhueta de ferro parada entre os escombros.

— Perdemos quase cem homens? Para um construto Quangra enferrujado da terceira era?

Os aventureiros voltaram-se para ele.

— Ele é diferenciado, capitão.

O comandante desembainhou a espada.

— Tracem uma nova abordagem.

Na Guilda, um dos estrategistas aproximou o rosto do grande mapa luminoso. Outro deslizou pequenos marcadores sobre o pergaminho.

— Eles espalharam as equipes.

Um terceiro ergueu os olhos.

— Os conjuradores divinos vão virar alvo.

O comandante permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder:

— Avancem para o jardim. Toda proteção fica com eles.

No jardim, dois conjuradores ergueram as mãos. Runas espalharam-se sobre a grama bem aparada.

— Fragilizar metal!

Os conjuradores ergueram as mãos.

— Barreira!

Uma cúpula translúcida se abriu diante da linha de frente.

— Não deixem ele mirar nos magos! — gritou o comandante.

— Caçadores, flanco direito!

— Assassinos, minem a sombra dele!

— Guerreiros, avancem só até a borda da proteção!

Os conjuradores então soltaram um grito sônico em conjunto; o metal da armadura começou a fissurar enquanto caçadores disparavam e desapareciam entre os escombros.

— Aguentem! — berrou um dos magos, com os dentes cerrados.

— Ele está quebrando a formação! — respondeu outro, enquanto se escondia dos disparos de Akem.

Os guerreiros avançaram logo atrás dos escudos mágicos.

— Agora!

O Balisteiro permaneceu imóvel. Por um instante, pareceu apenas observar.

Dentro da cabine, uma mão repousou sobre a alavanca.

Só então o compartimento girou.

— Ele vai disparar outra vez! — alguém gritou.

As balistas começaram a girar.

— Dispersar!

— Não dá tempo!

O primeiro disparo atravessou a barreira.

O segundo rompeu a formação.

O terceiro obliterou um grupo inteiro antes mesmo que conseguisse se espalhar.

Corpos foram lançados contra árvores, paredes e colunas quebradas. O jardim desapareceu sob uma chuva de terra, madeira e sangue.

— Recuar! — o comandante ergueu a espada, sem avançar um passo.

— Não parem de correr! — gritou um caçador, já com o rosto coberto de poeira.

Pela pequena abertura do posto de comando, um único olho observava o jardim enquanto as balistas daquele lado se alinhavam de uma vez.

— Ele está reposicionando! — disse um conjurador, com a voz falhando.

— Pra onde?

A resposta veio no instante seguinte.

Uma nova sequência de virotes varreu o jardim em linha reta, cortando o espaço entre os escombros e a retaguarda dos aventureiros.

— Magos!

— Abaixem!

— Protejam os conjuradores!

Dois guerreiros ergueram os escudos no último segundo.

Os virotes atravessaram cada um deles como se fosse madeira podre.

— Ele viu a brecha! — gritou um dos caçadores, já se jogando para o lado.

— Então fecha essa porcaria! — respondeu o comandante.

Um conjurador apontou para a perna esquerda do construto.

— Segurem ele!

Correntes de luz envolveram a articulação.

O Balisteiro apenas mudou o peso do corpo. O chão afundou, e as correntes mágicas partiram-se uma após outra.

Outro grupo surgiu pelo flanco.

Lanças encantadas atingiram o corpo metálico.

Faíscas espalharam-se pela blindagem.

Pela primeira vez, o Balisteiro recuou um único passo.

Uma das luzes do mapa mudou de cor.

— Acertaram.

Os estrategistas aproximaram-se da mesa enquanto outro estudioso abria um dos esquemas antigos.

— Foi numa articulação.

O comandante da Guilda cruzou os braços.

— Então ele pode ser danificado.

O velho estrategista balançou lentamente a cabeça.

— Sim. Mas depois dessa vamos ter que renegociar o pagamento. Mande todos recuarem.

Passou os dedos sobre um desenho antigo antes de completar:

— Mas ele não deveria mover-se assim.

Outro aproximou-se.

— Nunca houve registros de um desempenho tão alto contra os druidas.

Todos ficaram em silêncio.

O velho estrategista apoiou a mão sobre o mapa.

— Talvez porque ele sirva melhor para matar pessoas civilizadas.

Ninguém respondeu.

O Balisteiro avançou entre os destroços, ignorando os corpos e a fumaça, até alcançar a passagem que levava ao pátio interno.

Uma família surgiu correndo pela lateral da mansão. A mulher puxava duas crianças pela mão, enquanto o homem vinha logo atrás, olhando por cima do ombro.

— Não! — gritou uma das crianças.

Mas o construto já havia virado o tronco. As balistas dispararam em sequência.

A mulher caiu primeiro. As crianças foram lançadas contra o chão de pedra.

— Sai da frente!

O jardim da mansão transformara-se numa corrida desesperada.

Convidados abandonavam mesas, derrubavam cadeiras e atravessavam os canteiros sem olhar para trás. Criados gritavam uns pelos outros enquanto tentavam abrir caminho entre a multidão.

— Pela esquerda! Pela esquerda!

— As carruagens! Abram passagem!

Cavalos relinchavam presos às rédeas, assustados pelo caos que se espalhava por todo o pátio.

Outro disparo cruzou o jardim logo em seguida.

A haste de ferro atravessou uma carruagem inteira, despedaçou uma estátua de mármore e desapareceu entre as árvores da montanha.

No meio da fumaça que saía da fachada destruída, Akem avançava lentamente.

O ferro escuro refletia a luz das tochas espalhadas pelo jardim. A cada passo, as placas da blindagem se moviam com precisão, enquanto as duas balistas rotatórias acompanhavam a multidão em fuga.

Enquanto ele avançava, a parede lateral da mansão estremeceu. Uma coluna rachou de alto a baixo.

Depois outra.

O teto cedeu com um estrondo.

Stefan deteve sua corrida contemplando aquilo, apenas a tempo de ver um enorme pilar de pedra no jardim desabar sobre ele.

Sarah correu primeiro.

— Stefan!

O rapaz tentou levantar-se, mas o peso da coluna esmagou sua perna.

Lowie apareceu logo atrás, seu corpo repleto de ferimentos e cicatrizes.

— Pai?

— Agora não, Sarah. Empurrem!

Matthijs ajoelhou-se ao lado dele sem hesitar.

Os dois apoiaram as mãos na pedra. Os músculos estremeceram.

A coluna moveu apenas alguns centímetros.

— Mais uma vez! — gritou Lowie.

Eles fizeram força ao mesmo tempo.

A pedra deslizou lentamente.

— Agora!

Lowie e Matthijs mantiveram o peso suspenso enquanto Sarah puxava o noivo para fora.

Stefan caiu de lado sobre a grama.

Respirava com dificuldade.

A calça rasgada revelava a perna coberta de sangue.

Sarah passou um dos braços dele sobre os próprios ombros.

— Vamos!

Os dois mal haviam dado alguns passos quando Lowie ergueu a cabeça.

Lá adiante, entre a fumaça, o construto aproximava-se sem alterar o ritmo. Os canhões rotatórios buscavam novos alvos.

— Preciso dizer uma coisa...

Matthijs acompanhou a direção de seu olhar.

— O que foi?

A resposta saiu quase sem voz.

— Eu sei quem ele...

O disparo veio antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita.

O enorme virote atravessou os dois homens quase ao mesmo tempo.

— Pai!

Mas Stefan a puxou pelo braço.

— Não, Sarah!

Ela voltou a sustentá-lo.

— Fuja — murmurou Stefan, soltando o braço dela. — Você tem mais chances sem mim!

— Não! Eu não vou te soltar.

Os dois atravessaram o jardim tropeçando entre destroços, alcançaram uma das carruagens ainda intactas e praticamente jogaram Stefan para dentro.

— Vai, vai! — berrou o cocheiro, mas um virote o atingiu em cheio arrancando o seu corpo da carroça.

Em meio ao caos, um dos cavalos empinava, relinchando e puxando a carruagem para o lado.

Sarah apoiou um dos pés no estribo.

Quando ergueu o outro para subir...

Parou.

O Balisteiro estava diante dela.

Tão perto que ela conseguia distinguir os riscos espalhados pela blindagem e as pequenas manchas de barro secando sobre o ferro escuro. As balistas permaneciam imóveis. Nenhum disparo.

Apenas o enorme construto ocupando completamente o caminho. Sarah respirava sem conseguir desviar os olhos.

Os olhos dela subiram lentamente pela blindagem. Entre duas placas da cabine, uma pequena abertura revelava um único olho.

Ela cambaleou um passo para trás. Os lábios tremeram.

— ...Akem?

A carruagem permanecia logo atrás dela. Stefan apoiava-se na porta, tentando vencer a dor da perna esmagada, enquanto o enorme construto bloqueava completamente a estrada.

As duas balistas desceram lentamente até apontar para o peito da jovem.

O silêncio pareceu engolir todo aquele tumulto do jardim.

Stefan desceu cambaleando e passou à frente dela.

— Sarah...

Ela permaneceu onde estava.

Os olhos permaneciam presos ao olho humano escondido atrás da blindagem.

Stefan tomou fôlego.

— Akem. É a mim que você quer. Me mate. Mas deixa ela ir embora.

Sarah segurou seu braço.

— Não. Eu não vou te deixar!

— Vai sim! É a mim que ele quer.

Ela apenas balançou a cabeça.

O construto deu mais um passo.

Foi então que sete figuras surgiram correndo pelo jardim.

— Os guarda-costas de elite do meu pai! — disse Stefan ao ver aqueles homens.

— Senhorita Brienza, Stefan, vão embora! — ordenou o primeiro, desembainhando as espadas ainda em movimento.

Os outros já se espalhavam ao redor do Balisteiro, cada um ocupando uma posição diferente como se repetissem um procedimento conhecido.

— Vá! — gritou o capitão, sem diminuir o passo. — Tire seu noivo daqui!

Stefan puxou Sarah pelo braço.

— Vamos!

Ela ainda lançou um último olhar para a pequena abertura da cabine.

— Akem...

O capitão passou correndo por eles.

— Saiam daqui! — repetiu, já preparando os ganchos presos ao cinturão. — Há outros aqui. Não é só o construto. Se ficarem, vão morrer!

Sarah finalmente recuou.

Stefan praticamente caiu sobre o banco do cocheiro enquanto ela subia logo do lado. Um dos cavalos relinchou quando Sarah puxou as rédeas, e a carruagem arrancou pela estrada, desaparecendo entre as árvores.

Akem apontou uma das balistas para a carroça, porém um dos ganchos desviou a trajetória do disparo.

— Agora é com a gente.

Mais dois lançaram ganchos contra os ombros do Balisteiro. As correntes prenderam-se às placas da blindagem ao mesmo tempo em que um conjurador ergueu as duas mãos e lançou uma rajada de vento sob os pés de outros dois companheiros.

Os homens foram impulsionados para cima.

Akem acompanhou a carruagem desaparecer entre as árvores enquanto puxava seu braço de volta. Seus olhos permaneceram fixos na estrada por apenas um instante antes de deslizarem novamente para os pequenos visores.

Os aventureiros já golpeavam a couraça.

O primeiro punhal encontrou uma junta do ombro.

Outro homem enfiou uma barra de ferro entre duas placas da blindagem.

— Abram essa escotilha!

Akem fez um comando, o Balisteiro estremeceu.

A perna direita afundou alguns centímetros, fazendo toda a estrutura inclinar-se para a frente. Os combatentes perderam o equilíbrio ao mesmo tempo, mas apenas por um instante. As lâminas voltaram a prender-se entre as placas da blindagem, e o ataque recomeçou imediatamente.

— Não deem espaço! — gritou o líder. — Ele não consegue atacar nos pontos cegos!

Um dos homens terminou de cortar a primeira articulação. Uma névoa mágica escapou sob pressão, espalhando-se em jatos brancos pela blindagem. Outro afundou uma barra de ferro entre duas engrenagens expostas, tentando travar o movimento do braço esquerdo.

Akem não reagiu.

Apenas deslocou lentamente a mão sobre uma das alavancas.

O Balisteiro girou o tronco com violência.

O aventureiro preso ao braço direito foi arrancado da blindagem. Seu corpo descreveu um arco no ar antes de atingir uma das estátuas do jardim com um estalo seco.

Os outros nem olharam. Continuaram golpeando.

O segundo assassino alcançou uma fresta entre duas placas do ombro.

Sorriu.

— Achei!

Introduziu o braço inteiro pela abertura.

— Achei a trava! — gritou, com a voz abafada pelo metal. — Vou separar o braço!

A mão procurava o mecanismo quando o ombro do Balisteiro simplesmente se fechou.

O grito foi curto.

A armadura voltou lentamente à posição original. O corpo decepado caiu alguns metros adiante, enquanto o resto do braço permanecia esmagado dentro da articulação.

O capitão retirou um pergaminho preso da bolsa presa ao cinturão.

— Recuem! — disse ele abrindo o papel.

As explosões arrancaram três placas inteiras da lateral do Balisteiro, expondo o interior sensível da armadura. Um dos aventureiros mergulhou imediatamente sobre a abertura estocando sua espada. O braço esquerdo respondeu ao comando seguinte com evidente atraso.

— Agora! — gritou um deles, vendo a articulação ceder. — Ele está perdendo pressão!

Akem puxou outra alavanca. A armadura deu um passo para trás. Depois outro.

Então lançou todo o peso do corpo contra um velho muro de pedra. Os três aventureiros presos ao flanco esquerdo desapareceram entre a blindagem e a alvenaria. O impacto fez o muro desabar completamente.

Quando a poeira baixou, apenas um deles ainda respirava.

O capitão abandonou a escotilha.

Correu sobre o dorso da armadura, até alcançar a cabeça do construto, erguendo as duas espadas acima do visor principal.

— Morra!

As lâminas desceram juntas.

No mesmo instante, o Balisteiro inclinou o corpo para trás, e o capitão perdeu o apoio. Tentou recuperar o equilíbrio, mas a enorme mão metálica fechou-se ao redor de sua cintura antes que pudesse saltar.

Os ossos estalaram.

Akem continuou apertando até sentir o corpo ceder por completo.

Quando finalmente o soltou, o capitão caiu sobre os destroços do jardim como um boneco sem vida.

O silêncio voltou a dominar o jardim. Partes da blindagem cobriam o chão, uma das balistas pendia torta sobre o ombro esquerdo, e a perna esquerda respondia com dificuldade a cada movimento. O braço esquerdo permanecia parcialmente travado.

Akem apoiou lentamente a mão sobre os comandos.

O Balisteiro voltou a caminhar.

Sarah conduzia a carruagem em velocidade máxima quando quatro homens surgiram entre as árvores.

Um arqueiro tomou posição no centro do caminho.

Dois conjuradores ergueram as mãos ao mesmo tempo, fazendo inscrições mágicas azuladas se espalharem sobre o chão.

O último desembainhou lentamente a espada.

Sarah puxou as rédeas. Os cavalos relincharam e pararam a poucos metros deles.

O espadachim deu um passo à frente.

— Senhorita Brienza.

Sarah permaneceu firme no banco do cocheiro.

— Quem são vocês?

— Apenas homens cumprindo um contrato.

Stefan apoiou a mão na lateral da carruagem e desceu com dificuldade.

— Que contrato?

O homem não respondeu de imediato. Apenas ergueu a espada.

— Matem os dois.

Os conjuradores terminaram o encantamento. A magia subiu pelo ar.

No mesmo instante, um único virote atravessou o grupo aglomerado no meio da estrada. Pedaços de carne e sangue se espalharam pela estrada.

Sarah apenas observou o noivo. Depois voltou lentamente o rosto.

O Balisteiro avançava entre as árvores.

A blindagem encontrava-se praticamente destruída. Grandes placas haviam desaparecido, deixando pistões, engrenagens e tubos expostos. O braço esquerdo movia-se com dificuldade, uma das balistas pendia inutilizada sobre o ombro e a perna esquerda arrastava-se alguns centímetros a cada passo.

Mesmo assim seguia avançando.

Sarah correu na sua direção.

— Sarah! — chamou Stefan.

Ela não respondeu.

Continuou até parar diante do construto.

A escotilha abriu lentamente. A mandíbula metálica surgiu primeiro, depois o único olho humano que ainda permanecia naquele rosto.

Os dois apenas se olharam.

— Akem...

Ele baixou lentamente a cabeça.

— Me desculpa.

A voz saiu baixa.

Metálica.

Sarah permaneceu parada por um instante. As lágrimas escorriam sem que ela percebesse.

Então deu mais um passo.

— Por quê...?

Akem permaneceu em silêncio.

— Por que fez tudo isso?

Ele olhou rapidamente para os corpos espalhados pela estrada.

Depois encontrou novamente os olhos dela.

— Porque achei que destruir tudo faria a dor desaparecer.

Sarah desviou o olhar. Os dedos continuavam apoiados na borda da cabine.

Nenhum dos dois falou durante alguns segundos.

Stefan aproximou-se lentamente até ficar ao lado de Sarah.

Manteve os olhos baixos por alguns segundos antes de encarar Akem.

— A culpa foi minha.

Stefan deu mais um passo, colocando-se à frente de Sarah.

— Fui eu quem...

— Não — disse Akem, respirando devagar. — Você lutou por ela.

Stefan ficou onde estava.

— Você trabalhou.

Olhou para o chão por um instante.

— Você sofreu pelas escolhas que fez.

Voltou a encará-lo.

— Eu deveria ter feito o mesmo. Eu nunca quis que você ficasse assim...

Akem interrompeu-a com um discreto movimento da cabeça.

— Eu sei.

Sarah fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, as lágrimas continuavam caindo.

Ela deu mais um passo.

— Então vem com a gente.

Ele sorriu.

Foi um sorriso pequeno, quase imperceptível.

Tomou fôlego antes de responder.

— Não posso. Eu matei os pais de vocês.

Sarah segurou a borda da cabine.

— Pode, sim. Eu te perdoo.

Olhou rapidamente para a montanha atrás deles.

— Eles estão vindo. São muitos.

Stefan voltou-se na mesma direção.

— Quem?

— Os mercenários.

O silêncio caiu novamente. Sarah apertou os dedos contra o metal.

— Então, nós ficamos. Não vamos te abandonar.

Akem balançou lentamente a cabeça.

— Vão! Vocês têm uma vida pela frente.

Olhou para Stefan.

— Cuide dela.

Os olhos permaneceram em Stefan apenas o tempo suficiente para que ele entendesse.

Em seguida pousaram sobre Sarah.

— Seja feliz.

As lágrimas dela caíam sem que percebesse.

— E você?

Akem apoiou a mão sobre uma das alavancas da cabine.

— Não se preocupem comigo.

Fez uma breve pausa.

— Preparei uma última cartada.

Sarah permaneceu olhando para ele. Os dois sustentaram aquele silêncio por vários segundos.

Então Akem ergueu lentamente a mão metálica.

Sarah finalmente recuou.

Stefan segurou sua mão e a conduziu de volta à carruagem.

Os cavalos arrancaram pela estrada.

Akem acompanhou o veículo até desaparecer entre as árvores.

Só então fechou lentamente a escotilha.

O Balisteiro girou o corpo e começou a caminhar na direção oposta.

A carruagem descia a estrada em disparada.

Durante alguns instantes, ninguém disse uma palavra. Sarah mantinha as rédeas firmes nas mãos, guiando a carruagem enquanto Stefan, mesmo machucado, permanecia ao seu lado no estreito assento do cocheiro. O som das rodas saltando sobre as pedras misturava-se à respiração pesada dos cavalos, enquanto ela olhava para trás, tentando enxergar a montanha que desaparecia entre as árvores.

Stefan quebrou o silêncio.

— Despois de tudo, ele nos salvou.

Sarah não desviou os olhos da estrada.

— Pois é.

A carruagem continuou descendo. Aos poucos, o som distante da batalha desapareceu completamente. As árvores tornavam-se cada vez mais densas, escondendo o topo da montanha atrás de uma muralha verde.

— Acho que conseguimos.

Stefan abaixou lentamente a cabeça.

— Passei anos achando que ele me odiava.

Sarah continuou parada.

— Ele era apaixonado por mim desde que éramos crianças.

O rapaz fechou os olhos por um instante.

— Mesmo assim...

A voz falhou antes do fim da frase.

— Talvez fosse melhor vocês terem ficado juntos.

Sarah apoiou a testa no ombro do noivo. Os dedos apertavam o tecido do vestido, amassando-o entre as mãos.

— Eu sempre vi Akem apenas como amigo. E, mesmo assim, quando ele se declarou para mim eu não aceitei.

Stefan voltou o rosto para ela, mas nada disse.

O silêncio voltou a ocupar o interior da carruagem. Apenas o som ritmado dos cascos e das rodas acompanhava a descida da serra.

Então a noite inteira mudou de cor.

Uma luz branca surgiu atrás das montanhas.

Durante um único instante, toda a floresta pareceu mergulhar na claridade. As sombras desapareceram, os troncos ganharam contornos prateados e o interior da carruagem foi completamente tomado por aquela luz.

Os cavalos empinaram ao mesmo tempo. Depois dispararam.

Sarah puxou violentamente as rédeas.

— Segura!

A carruagem quase tombou antes de voltar ao caminho. Sarah virou-se imediatamente para trás. O clarão ainda iluminava o horizonte.

Nenhum dos dois disse uma única palavra.

Poucos segundos depois, o estrondo chegou. A montanha inteira pareceu estremecer. O impacto atravessou o chão, sacudiu a carruagem e fez bandos inteiros de pássaros levantarem voo acima da copa das árvores.

Sarah continuou olhando para trás. As lágrimas escorriam lentamente pelo rosto. Os lábios moveram-se quase sem emitir som.

— Akem...

A carruagem continuou descendo a serra. Atrás deles, a luz desapareceu pouco a pouco, devolvendo a floresta à escuridão da noite.

— Adeus...

O sol brilhava forte sobre a montanha.

A fumaça ainda escapava lentamente entre as pedras quebradas, misturando-se ao cheiro de ferro queimado e madeira carbonizada. Onde antes existira a mansão, restava apenas um enorme campo de destroços espalhados pela encosta.

Dimik caminhava sozinho, sem pressa. Parava de tempos em tempos para recolher alguma joi ou objeto de valor parcialmente enterrado sob as pedras: um conjunto de engrenagens ainda intacto, um pistão deformado pelo calor, cabos arcanos completamente fundidos e fragmentos da blindagem negra que um dia revestira o Balisteiro.

Nenhuma palavra era dita. Apenas o som de suas botas esmagando cinzas e pequenas lascas de metal acompanhava a caminhada.

Mais adiante, encontrou parte do núcleo estrutural. Ajoelhou-se, passou cuidadosamente os dedos sobre a superfície rachada e o guardou dentro da bolsa de couro presa ao ombro antes de continuar caminhando.

O braço metálico permanecia imóvel ao lado do corpo. Os olhos percorriam lentamente cada pedaço espalhado pelo terreno até que ele parou diante de um pequeno brilho entre pedras enegrecidas e restos de madeira carbonizada.

Dimik abaixou-se e afastou a terra com delicadeza. Era a mandíbula metálica. A primeira prótese que construíra para Akem.

— Como é possível?

Permaneceu alguns segundos olhando para ela. Depois limpou cuidadosamente a fuligem com a manga do casaco.

— Removi a dor...

Rolou a peça entre os dedos.

— Removi o medo...

O vento atravessou as ruínas.

— Removi a fome...

Fechou lentamente a mão sobre a mandíbula metálica.

— Removi o sono...

Fitou a mandíbula em silêncio. Então soltou o ar lentamente.

— Achei que pudesse remover aquilo que fazia um homem... ser um homem.

Seus dedos percorreram lentamente as pequenas marcas deixadas pelas ferramentas sobre o metal. A mandíbula ensanguentada permaneceu imóvel em sua mão enquanto ele sustentava o olhar sobre a peça.

Então fechou os olhos.

— Mesmo depois de tudo...

A voz saiu quase num sussurro.

— ...ele ainda fez a própria escolha.

Com extremo cuidado, envolveu a mandíbula num pedaço de tecido limpo e a guardou separadamente dos demais fragmentos.

— Sabe qual é a vantagem dos construtos, Akem? É que nunca morrem. São destruídos? Sim.

Ficou assim por mais alguns instantes.

— Mas, no final, sempre podem ser consertados. Reconstruídos.

Dimik ajustou a bolsa sobre o ombro, voltou-se para a trilha e começou a descer a montanha.

— Vamos para casa.

Sem olhar para trás.

— Mais uma vez para a bancada de trabalho.

Fim da leitura

Capítulo 9 concluído

Mininovel – Balisteiro – Parte 9 – Parte 9: Últimos Vestígios