Crônicas das Terras dos Portais — Capítulo 8: Mininovel – Balisteiro – Parte 8 – Parte 8: O Fantasma da Floresta

Crônicas das Terras dos Portais
Cap. 8
0%
Crônicas das Terras dos Portais

Mininovel – Balisteiro – Parte 8 – Parte 8: O Fantasma da Floresta

Capítulo 8

2.521 palavras~11 min de leitura

A noite já dominava a cidade quando o grande salão da guilda permanecia tomado pela movimentação. Botas cruzavam o piso de pedra, aventureiros ajustavam armaduras, conjuradores encaixavam cristais nos cajados e pergaminhos passavam discretamente de mão em mão.

No centro do saguão, um enorme círculo rúnico pulsava em azul sob as mãos erguidas de quatro magos. Faíscas percorriam a superfície do portal enquanto os conjuradores trocavam sinais discretos, estabilizando a magia.

— Capitães.

Cinco homens e duas mulheres afastaram-se naturalmente do restante da companhia e formaram um semicírculo diante dele.

O velho rompeu o lacre, percorreu rapidamente o conteúdo da carta e ergueu os olhos.

— A missão foi confirmada.

Ninguém fez perguntas.

— O alvo permanece o mesmo: Uma reunião privada entre diversas famílias nobres.

Um dos capitães cruzou os braços.

— Não interessa quem são. Não interessa o motivo. Quando esta missão terminar, ninguém poderá contar o que aconteceu naquela montanha.

Outro capitão assentiu lentamente.

— Sem sobreviventes.

— Exatamente.

Ele aproximou a carta da chama de um lampião preso à coluna mais próxima. O papel queimou rapidamente entre seus dedos antes que as cinzas caíssem sobre o piso de pedra.

Uma das mulheres observou o círculo rúnico.

— O contratante informou alguma resistência?

— Apenas guardas particulares.

Ela fez um pequeno movimento afirmativo com a cabeça.

— Então será um serviço rápido.

Ao redor deles, os últimos preparativos chegavam ao fim. Escudos eram ajustados, cristais encaixados e armas revisadas em silêncio.

— Cada grupo já recebeu sua rota de entrada? — perguntou o comandante aos seus capitães.

— Recebeu.

— Os pontos de encontro?

— Também.

Ele caminhou até a borda do círculo mágico.

Os quatro magos ergueram as mãos quase ao mesmo tempo. As runas espalhadas pelo chão começaram a brilhar com mais intensidade, e um zumbido grave percorreu todo o salão.

Um dos conjuradores abriu os olhos.

— O portal está estável.

O comandante fez um breve gesto com a cabeça.

— Primeiro grupo.

Quase oitenta aventureiros atravessaram o círculo e desapareceram na luz azul.

— Segundo grupo.

Outra coluna avançou.

O clarão voltou a tomar o salão antes de desaparecer novamente.

Quando o último grupo finalmente permaneceu diante do círculo, o comandante caminhou até a frente deles.

Percorreu lentamente aqueles rostos endurecidos por anos de combate.

— A sorte está lançada.

Abaixou a viseira do elmo.

Pisou no círculo.

A luz azul tomou conta do salão.

Quando desapareceu, não havia mais ninguém ali.

O mago fechou o grimório.

— Eles vão surgir bem no meio da festa.

A estrada estreita que subia a montanha permanecia iluminada apenas pelos lampiões presos às carruagens. Uma após outra, elas venciam a última curva antes de alcançarem os grandes portões da residência, onde criados alinhados recebiam os convidados sob a luz dourada dos cristais suspensos nas colunas.

— Casa Foledhari.

Dois empregados abriram imediatamente a porta da carruagem.

— Sejam bem-vindos.

O coche seguinte já ocupava seu lugar.

— Casa Duren.

Criados recolhiam capas de viagem, conduziam os visitantes para o interior da residência e desapareciam novamente pelo jardim antes que outra carruagem cruzasse o portão.

Mais acima, as janelas abertas espalhavam música sobre o pátio.

Lowie permaneceu à entrada do grande salão ao lado de Matthijs Boerdam, cumprimentando pessoalmente cada convidado que atravessava as portas.

— Senhor Van Enter.

Os dois homens apertaram as mãos.

— Faz tempo que não nos encontramos.

— Tempo demais.

Outro casal aproximou-se logo atrás.

— Senhor Brienza.

Lowie abriu um sorriso cordial.

— É uma honra recebê-los.

Poucos passos adiante, criados recolhiam taças vazias enquanto músicos terminavam de afinar violinos, flautas e alaúdes junto à parede principal. Conversas discretas espalhavam-se entre pequenos grupos que já ocupavam o salão, misturando política, comércio e velhas amizades retomadas naquela noite.

Matthijs acompanhou o movimento por alguns instantes antes de voltar-se para Lowie.

— Nunca imaginei que conseguiríamos reunir tanta gente sem chamar atenção.

Lowie lançou um breve olhar para as janelas abertas.

— Foi justamente por isso que escolhi este lugar.

Sarah atravessava lentamente o salão ao lado de Stefan.

O vestido vinho acompanhava cada passo enquanto convidados interrompiam as próprias conversas apenas para cumprimentá-los.

— Meus parabéns aos dois.

Ela agradecia com um sorriso discreto.

Stefan repetia o gesto logo depois.

— Que essa união traga prosperidade às duas famílias.

Outro aperto de mãos.

Mais felicitações.

Sarah voltou o rosto por um breve instante em direção à entrada principal antes de retomar imediatamente a caminhada ao lado do noivo.

Stefan acompanhou a direção do olhar dela antes de encará-la novamente.

— Está tudo bem?

Ela voltou a sorrir.

— Está.

Continuaram recebendo cumprimentos como se a breve distração jamais tivesse existido.

No extremo oposto do salão, um criado aproximou-se de Lowie.

— Senhor Brienza.

Ele afastou-se alguns passos da conversa.

— Sim?

— Os conjuradores verificaram os círculos pela terceira vez.

Lowie aguardou em silêncio.

— Todas as barreiras permanecem estáveis.

O comerciante apenas fez um pequeno movimento afirmativo com a cabeça.

— Excelente. Continuem assim.

O criado inclinou-se respeitosamente antes de desaparecer entre os convidados.

Matthijs aproximou-se novamente.

— Ainda preocupado?

Lowie permaneceu alguns instantes em silêncio. Do lado de fora havia apenas a escuridão das montanhas.

— Hoje à noite ninguém pode chegar até nós sem ser convidado.

O patriarca sorriu discretamente.

— Contratei um grupo de aventureiros de elite. Sete deles. Valeu cada moeda investida.

Os músicos finalmente iniciaram a primeira peça.

O murmúrio das conversas diminuiu enquanto criados acendiam os últimos cristais espalhados pelo salão. A luz refletia nos lustres, atravessava os vitrais coloridos e fazia o ouro das molduras cintilar sobre as paredes.

Lowie percorreu lentamente o ambiente com o olhar. Sarah e Stefan permaneciam no centro do salão, cercados por convidados.

— Estão todos aqui. — Sua voz saiu quase num sussurro.

Matthijs acompanhou seu olhar pelo salão.

— Depois de tudo o que aconteceu...

Lowie fez um discreto movimento afirmativo com a cabeça.

— Os antigos acordos finalmente voltarão a existir.

Matthijs aproximou-se mais uma vez.

— Deu tudo certo.

Lowie respirou fundo antes de responder.

— Agora ninguém estraga esta noite.

O grande círculo rúnico voltou a iluminar o salão da Guilda. O grupo trocou olhares. Um dos capitães aproximou-se do comandante.

— Alguma coisa deu errado.

O velho voltou-se para os magos.

— Outra vez.

Os conjuradores reajustaram rapidamente o círculo.

— Segundo grupo.

Outra coluna atravessou a luz. Também voltou imediatamente.

Dessa vez, ninguém falou.

Os próprios aventureiros começaram a se afastar do círculo enquanto os conjuradores se aproximavam dele em silêncio. Um deles ajoelhou-se sobre as runas, apoiou as duas mãos no piso e fechou os olhos. A luz percorreu lentamente toda a circunferência do portal antes de desaparecer outra vez.

Outro mago desenrolou um mapa coberto de símbolos arcanos e posicionou pequenos cristais sobre diferentes pontos do pergaminho.

Nada aconteceu.

O comandante aproximou-se.

— Encontraram o problema?

Ninguém respondeu imediatamente.

Os dois magos trocaram um rápido olhar e repetiram o ritual.

As runas voltaram a percorrer o salão antes de desaparecerem outra vez.

O conjurador mais velho soltou lentamente o ar.

— Não existe conexão.

Outro inclinou-se sobre o mapa.

— Impossível.

Percorreu os símbolos com a ponta dos dedos.

— As coordenadas estão corretas.

O primeiro voltou a ajoelhar-se. Fechou os olhos outra vez. Permaneceu imóvel durante vários segundos antes de abrir lentamente a mão sobre a pedra.

— O lugar existe.

O comandante franziu a testa.

— Então por que não chegamos até ele?

— Porque não está neste plano.

O salão mergulhou num breve silêncio.

Um mago foi até o círculo.

— Alguém deslocou toda a propriedade para uma camada espacial paralela.

O comandante permaneceu imóvel.

— Isso é possível?

O conjurador passou a mão sobre uma das runas já apagadas.

— Sim. Mas exige uma quantidade absurda de energia... e especialistas em ocultação espacial.

O comandante cruzou os braços.

— Existe alguma maneira de encontrá-la?

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.

Então o mais velho respondeu:

— Apenas duas.

— Quais?

— Encontrando uma brecha entre os planos.

O outro concluiu:

— Ou ter alguém que conheça o caminho.

O comandante demorou alguns segundos para responder. Depois voltou-se para os capitães.

— Recolham o equipamento.

Um deles deu um passo à frente.

— Vamos cancelar a missão?

O comandante apenas assentiu.

— Sem alvo...

Guardou definitivamente a carta.

— ...não existe missão.

Os aventureiros começaram a desmontar o equipamento enquanto o brilho das runas desaparecia lentamente.

O último acorde dos músicos ainda ecoava pelo salão quando Stefan ergueu a taça.

— À prosperidade das nossas famílias.

Taças ergueram-se por toda parte. Criados circulavam entre os convidados repondo vinho, enquanto risos e conversas voltavam a preencher o ambiente.

Sarah aproximou discretamente sua taça da de Stefan.

— À paz.

O cristal mal tocou o outro.

O teto do salão explodiu. Madeira, pedra e vidro despencaram do teto junto de um enorme virote de ferro. A onda de choque lançou mesas, cadeiras e convidados contra o chão.

Os convidados se entreolharam, imóveis, os rostos vazios, até que um grito rompeu o silêncio.

Então veio o segundo disparo. Inúmeras hastes atravessaram uma coluna de sustentação com um estrondo seco, arrancando lascas de pedra que voaram como lâminas pelo ar. Em seguida, rompeu duas mesas no caminho, espalhando pratos, taças e comida sobre o chão, e ainda levou consigo os corpos de dois convidados que nem chegaram a entender o que os atingira.

O teto tremeu. Pequenos fragmentos de reboco e pedra começaram a cair sobre os ombros dos presentes, fazendo alguns se abaixarem por reflexo enquanto outros erguiam os braços para proteger o rosto. Uma mulher levou as mãos à boca, os olhos arregalados, e um homem ao lado dela ficou parado, com a taça suspensa no ar, como se ainda esperasse que alguém explicasse o que estava acontecendo.

— De onde veio essa coisa? — alguém gritou, a voz falhando no meio da frase.

— É um ataque! — gritou outro, já se levantando de supetão.

Os músicos abandonaram os instrumentos quase ao mesmo tempo. Um deles deixou o arco cair no chão; outro recuou tropeçando na própria cadeira, com o rosto pálido e os dedos ainda fechados sobre as cordas do alaúde. O salão inteiro hesitou por um único instante, como se todos tivessem prendido a respiração ao mesmo tempo.

Então veio o pânico.

— Saiam daqui!

— Abaixa!

— Meu filho!

Cadeiras foram arrastadas com violência, taças se estilhaçaram no piso e vinho se espalhou entre os pés dos convidados. Alguns ergueram os braços para proteger o rosto; outros se abaixaram de repente, tropeçando nas próprias saias e casacas.

— Socorro! — gritou alguém, coberto por um escombro.

O pânico espalhou-se antes mesmo que alguém entendesse o que estava olhando.

— Corram!

Criados abriram as portas laterais enquanto convidados se empurravam em direção às saídas. Crianças choravam entre adultos que tentavam atravessar os corredores estreitos carregando feridos nos braços.

Lowie ergueu a voz acima da confusão.

— Para o pátio!

Um empregado hesitou diante da porta principal.

— Senhor...

— Abram!

As grandes folhas de madeira foram empurradas para fora. O jardim apareceu envolto por poeira.

Durante alguns segundos, ninguém saiu.

A figura saiu lentamente da poeira. A blindagem negra refletia a luz dos cristais espalhados pela fachada. Então as enormes balistas montadas sobre os ombros giraram ao mesmo tempo.

O primeiro disparo veio antes que alguém pudesse reagir.

Os olhos percorriam lentamente aquele construto enquanto fugiam pelo jardim.

— Não pode ser...

Outro segurou o braço do companheiro sem conseguir desviar o olhar.

— É o Fantasma da Floresta.

Ninguém respondeu.

As balistas voltaram a girar.

Uma sequência de virotes atravessou o salão.

As primeiras pessoas que tentavam fugir foram lançadas em pedaços contra a escadaria da mansão. O restante voltou a correr em todas as direções.

Lowie agarrou Sarah pelo braço.

— Vai!

Ela tentou olhar para trás.

— Pai...

— Agora!

Stefan apareceu logo ao lado deles.

— Eu levo ela.

Lowie empurrou os dois em direção aos fundos da propriedade.

— E não olhem para trás.

Sarah deu mais um passo, depois outro, e ainda voltou o rosto uma última vez.

Lowie permanecia sozinho no centro do salão.

Outro disparo atravessou a mansão. A haste passou poucos metros acima dele e estilhaçou os vidros das janelas.

O comerciante ficou imóvel.

O olhar percorreu lentamente a blindagem, as balistas, o desenho das placas metálicas e as articulações, como se procurasse alguma explicação que ainda fizesse sentido.

— Dimik...

A palavra saiu quase sem voz.

A respiração falhou.

Ele deu um passo involuntário para a frente.

— Não...

Permaneceu imóvel diante do construto.

Seu rosto perdeu completamente a cor.

— Akem...

O nome saiu como um sussurro incrédulo.

Durante um instante, o comerciante travou a mandíbula e ignorou o tumulto ao redor.

Apenas olhava para a armadura.

As balistas começaram a girar. O virote atingiu-o em cheio.

Seu corpo desapareceu junto com parte da escadaria atrás dele, lançado contra a fachada da mansão numa explosão de pedra, madeira e sangue.

Sarah gritou.

Stefan segurou-a pela cintura antes que voltasse.

— Não!

Ela tentou se soltar.

— Meu pai!

Outro disparo atravessou o jardim.

Stefan puxou-a para trás de uma coluna caída enquanto novos estilhaços cobriam o chão ao redor dos dois.

— O círculo! — Um dos magos ergueu a cabeça. — Ele está acessível.

Os cristais espalhados ao redor do portal vibraram ao mesmo tempo.

— Como assim? — perguntou o comandante.

— Alguma coisa entrou.

Outro conjurador correu até o mapa.

As runas tremiam sobre o pergaminho.

— A proteção foi rompida.

O comandante aproximou-se.

— Conseguimos passar?

O mago ergueu os olhos. O comandante desembainhou a espada.

— Companhia.

Quinhentos aventureiros voltaram-se para o portal.

O comandante voltou-se para os capitães.

— Equipe de reconhecimento.

Trinta guerreiros, dez conjuradores arcanos e dez conjuradores divinos ocuparam o círculo. A luz envolveu o grupo inteiro por um breve instante, e todos desapareceram.

O salão permaneceu em absoluto silêncio.

Ninguém desviava os olhos do portal.

Poucos instantes depois, as runas explodiram novamente em claridade.

Cinco figuras surgiram cambaleando.

Um guerreiro caiu assim que atravessou o círculo. Outro desabou de costas sobre a pedra, enquanto um conjurador divino tentava estancar o sangue que escorria pelo próprio braço. O quarto mal conseguia permanecer de pé, e o quinto deu apenas dois passos antes de se apoiar numa coluna.

O comandante ajoelhou-se diante dele.

— O que aconteceu?

O homem respirou com dificuldade.

— Já... já tinha alguém lá...

— Quem?

O aventureiro fechou os olhos por um instante.

— Um construto. Um balisteiro Quangra...

O salão inteiro permaneceu imóvel.

— Foi ele quem rompeu o isolamento? — O comandante voltou-se para os magos.

O conjurador mais velho fez um discreto movimento afirmativo com a cabeça.

— A assinatura arcana coincide.

Outro acompanhou as runas que ainda pulsavam sobre o círculo.

— Alguém abriu uma passagem à força.

O comandante fitou novamente os sobreviventes.

— E o contrato?

O guerreiro respirou fundo.

— Esqueça o contrato.

A voz saiu quase num sussurro.

— Aquela coisa está destruindo todo mundo.

Os capitães trocaram olhares.

Ninguém disse uma palavra.

O comandante levantou-se lentamente, desembainhou a espada por completo e apontou a lâmina para o círculo mágico.

— Esqueçam a missão.

Todos se voltaram para ele.

— Não tem como cumpri-la sem tirar essa coisa do caminho.

Os capitães assentiram quase ao mesmo tempo.

Guerreiros ajustaram os escudos. Conjuradores arcanos recolheram cristais, enquanto conjuradores divinos distribuíam ampolas e reorganizavam seus grupos. Os quatro magos retomaram seus lugares ao redor do círculo, e as runas reacenderam uma a uma.

O comandante observou o portal por alguns segundos antes de abaixar lentamente a viseira do elmo.

— Desta vez...

Apertou o punho sobre a espada.

— Vamos concentrar todas as nossas forças nele.

Fim da leitura

Capítulo 8 concluído

Mininovel – Balisteiro – Parte 8 – Parte 8: O Fantasma da Floresta