Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.03: Volume 10 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O Anexo e o Homem Esquecido

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.03
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O Anexo e o Homem Esquecido

Capítulo 10.03

4.213 palavras~18 min de leitura

O anexo de Gyoku-ou parecia um lugar bastante confortável graças à abundância de vegetação. Quando se pensava na Província de I-sei, onde ficava a capital do oeste, logo vinha à mente o deserto, mas, na verdade, havia muitas planícies cobertas de grama. O clima era seco, sim, mas havia mais do que areia por ali; existia água suficiente para que plantas herbáceas crescessem, pelo menos. Isso não queria dizer, porém, que a água não fosse um recurso precioso.

Será que foi naquela residência principal que ficamos da última vez? Maomao se perguntou. Lá também havia muito verde. Só o fato de o jardim da mansão ter tantas árvores já transmitia uma sensação de riqueza. Claro, para as pessoas da capital, acostumadas a viver às margens do grande rio, com o mar não muito distante, talvez faltasse alguma coisa.

Mas já é suficiente para ser revigorante.

O jardim seguia, de maneira geral, o estilo da região central, mas estava repleto de plantas que ela nunca tinha visto. Seu primeiro pensamento foi que adoraria testar seus efeitos medicinais, mas, bem, isso era bem a cara de Maomao.

— Senhorita! Vamos colocar nossa bagagem no chão primeiro. A viagem foi tão longa... Estou exausto — disse o charlatão, parecendo tão abatido quanto soava.

— Boa ideia — respondeu Tianyu. — Ei, Niangniang, quando chegarmos ao nosso quarto, podemos jogar pedra, papel e tesoura para decidir quem vai explorar a mansão.

Lihaku caminhava alguns passos atrás dos três, mantendo a vigilância. O consultório médico ficava em um prédio separado da mansão. Também não podiam reclamar da localização; afinal, doenças eram consideradas uma impureza. Se o consultório ficasse em um lugar muito movimentado, sempre haveria preocupação com contaminação toda vez que um paciente aparecesse.

— Que lugar estranho... — comentou o charlatão, olhando para o edifício com curiosidade. — Pensei a mesma coisa sobre o consultório médico do prédio administrativo… — Com certeza não era nada parecido com o que estavam acostumados em Li e, embora a capital do oeste tivesse seu próprio estilo arquitetônico, aquele prédio também não parecia pertencer a ele. Quase lembrava...

— Isso é uma capela? — perguntou Tianyu, passando a mão pelos tijolos.

— Capela? O que é isso? — perguntou o charlatão. Não era surpresa que ele não conhecesse a palavra; havia poucas capelas em Li, e o charlatão estava longe de ser alguém cosmopolita.

— Pense nela como um santuário — explicou Maomao.

— Ah! Um lugar para rezar.

— Isso. Há muitas religiões diferentes nesta cidade — disse Tianyu.

Eles entraram no edifício e encontraram um salão de teto alto e abobadado. Não parecia haver nenhum objeto de adoração ali dentro; os únicos vestígios da fé que um dia existiu naquele lugar eram algumas decorações nas paredes. Talvez uma pessoa muito devota tivesse morado ali no passado. Quando o local passou para as mãos de Gyoku-ou, ele não chegou a demolir o prédio, mas ele deixou de ser um lugar de culto.

— Tem o tamanho perfeito. Ah, e olhem! O restante das nossas coisas já chegou. Hum... Tem bastante coisa mesmo. Vai dar trabalho organizar tudo isso. Será que deixamos nas caixas mesmo? — disse o charlatão.

— Boa ideia. Então vamos logo jogar pedra, papel e tesoura! Quem vai sair para explorar?

Não fazia muito tempo que Maomao teria aceitado a sugestão de Tianyu com entusiasmo. Mas, pensando melhor, uma dúvida surgiu: mesmo que ela vencesse, será que os outros dois realmente fariam o trabalho ali? Ao mesmo tempo, sabia que ficaria irritada se Tianyu ganhasse, e, se o charlatão fosse o vencedor e tivesse a chance de sair explorando, bem... só de imaginar já dava um certo nervoso.

No fim, Maomao escolheu a solução mais sem graça. Arregaçou as mangas, amarrou um lenço sobre a boca e declarou:

— Explorar fica para depois! Primeiro precisamos organizar tudo isso!

— Ah... Mas você parecia tão animada para dar uma olhada por aí.

— Senhorita, estou tão cansado da viagem... Não podemos fazer tudo com mais calma? — reclamou o charlatão.

— Não, não podemos! — respondeu Maomao, cortando os dois. Os suprimentos médicos podiam ter estragado durante a longa viagem de navio. Eles precisavam descobrir o que ainda podia ser usado e o que já não servia mais, para repor tudo o que fosse necessário.

— Ninguém sai desta sala até terminarmos de organizar tudo.

— Ah, não... — O charlatão fez um bico e assumiu uma expressão profundamente desanimada.

Tianyu também não parecia satisfeito, mas arrastou os pés até os suprimentos e começou a trabalhar.

— O que gostaria que eu fizesse, senhorita? — perguntou o cachorrão, Lihaku. Ele parecia pronto para simplesmente se jogar no chão e começar a fazer flexões para passar o tempo caso ela não lhe desse nenhuma tarefa, então Maomao decidiu colocá-lo para fazer trabalho braçal.

— Pode pegar aquela caixa perto da porta e trazê-la para cá? — pediu ela.

— Claro! Uff! Isso está pesado! — Descobriu-se que até mesmo para Lihaku aquilo era pesado demais.

Maomao foi até a caixa, abriu a tampa e espiou lá dentro. Ela estava cheia de cascas de arroz e batatas-doces. Não era de admirar que fosse tão pesada. Nem mesmo Lihaku conseguiria levantá-la sozinho.

— Acho que isso não é nosso.

— O que acha? Devemos pegar um carrinho e levar isso para algum lugar? — perguntou Lihaku.

— Não. Acho que basta avisarmos alguém responsável, e eles resolvem isso — respondeu Maomao, pensando em quem deveriam procurar. Foi exatamente nesse momento que alguém surgiu vindo da direção do jardim, acenando com urgência.

— Eeeei! Acho que parte da minha carga foi parar junto com a de vocês! — gritou o recém-chegado. Era um homem sem nenhuma característica marcante. Na verdade, a única coisa digna de nota nele era justamente o quanto ele era comum. Tinha uma aparência agradável e devia ter uns vinte e três ou vinte e quatro anos.

Acho que já vi esse sujeito em algum lugar..., pensou Maomao, tentando lembrar.

Quando o homem a viu, parou de repente. — É... É você! — disse, apontando dramaticamente para ela. — Aquela que pode ou não ser irmã do Lahan! Eu ainda não consigo saber!

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— A resposta é não. — Agora ela tinha certeza. Ela já teve aquela conversa antes. Mas quem era esse cara mesmo? Seu olhar deslizou até a caixa cheia de batatas-doces. A menção ao nome de Lahan despertou uma lembrança. — Você é o Irmão do Lahan, não é? — A lembrança dele era vaga, mas ela achava que era isso.

— O Lahan é mais novo do que eu! Por que eu tenho que ser definido em função dele?!

Sim, era mesmo o Irmão do Lahan, com suas reações deliciosamente exageradas. Ela já o tinha encontrado antes e lembrava dele principalmente por ser absurdamente comum e por oferecer incontáveis oportunidades para comentários espirituosos. O rosto dele, porém... disso ela tinha se esquecido completamente.

— Bem, eu não sei o seu nome — observou Maomao.

— Meu nome é...

— Isso não foi um convite. — Ela só tinha conseguido lembrar o nome do charlatão recentemente, depois de muito tempo. Não precisava decorar mais nenhum.

— Ei, me escute! Deixe eu dizer meu nome!

Maomao, porém, não estava nem um pouco interessada em ouvir. — Mais importante: o que você está fazendo aqui?

[Noelle: Tadinho gente kkkkkkkkkkkkkkkkk]

Normalmente, aquele sujeito passava todo o tempo cuidando de plantações de batata na região central.

O Irmão do Lahan pareceu indignado com a pergunta. Lihaku, já convencido de que ele não representava nenhuma ameaça, apenas observava em silêncio.

— Estou aqui porque me arrastaram para cá! Mandaram eu vir no lugar do meu pai, com ordens para ensinar o pessoal da capital do oeste a cultivar essas coisas!

Maomao percebeu um certo ressentimento em sua voz. "Essas coisas" eram as batatas-doces.

— Aposto que o Lahan enganou você para fazer isso.

— E-E-Ele não fez isso!

Se havia uma coisa que definia o Irmão do Lahan, era como ele era fácil de entender. E Lahan continuava sendo tão impiedoso como sempre.

— Por que ele não pediu ao pai dele? — perguntou Maomao. O Pai do Lahan, La... ãhn, alguma coisa, adorava agricultura e parecia o tipo de pessoa que ele iria até os confins do mundo se houvesse um campo para cultivar.

O Irmão do Lahan hesitou.

— Depois que descobriram o experimento dele cultivando batatas-doces no norte, ele não pode mais sair de lá.

— Experimento?

— As batatas-doces produzem várias vezes mais do que uma plantação de arroz, então ele achou que seriam perfeitas para a Província de Shihoku, onde há muita gente e muito espaço.

— Entendo.

Jinshi estava fazendo de tudo para reforçar o abastecimento de alimentos, e Maomao parecia se lembrar de que Lahan também era um grande defensor das batatas.

— O problema é que as batatas-doces vêm do sul, então não crescem bem no norte. Na verdade, duvido até que cresçam. Mas meu pai diz que vale a pena descobrir qual é o limite mais ao norte onde elas conseguem sobreviver, então simplesmente deixei que ele tentasse.

— Não me parece que este seja o momento para isso...

Até Maomao conseguia perceber que aquela era uma ideia perigosa. A fome se aproximava, e não podiam desperdiçar terras e trabalhadores apenas para satisfazer a curiosidade de um fazendeiro.

E ele tinha um rosto tão sereno...

O homem a fazia lembrar de Luomen e, ao que tudo indicava, quando algo despertava seu interesse, ele mergulhava nisso completamente e esquecia de todo o resto.

— Seria arriscado demais plantar só batatas-doces, então também trouxe isto. Olhe. — O Irmão do Lahan lançou para ela algo que estava na caixa ao lado da das batatas-doces.

— Batatas comuns? São batatas brancas, certo?

Era uma batata grande, arredondada e robusta. Batatas ainda eram um alimento relativamente novo; a chefe da Casa Verdigris tinha contado a Maomao que elas ainda não eram muito consumidas quando ela era jovem.

— Isso mesmo. Um tubérculo como esse consegue crescer até em regiões frias, mesmo que o solo não seja muito fértil, então ele mandou que eu trouxesse algumas. O Lahan só conhece o Papai Bonzinho, mas quando quer, ele pode ser uma pessoa bem assustadora.

O Pai do Lahan, La-alguma-coisa, evidentemente era um legítimo membro do clã La. Até Maomao quase tinha sido enganada por sua aparência tranquila.

— As batatas podem ser colhidas duas vezes por ano, então meu pai está completamente obcecado em plantá-las. Tenho até medo de que ele esteja tentando usá-las para inflar os números da colheita.

— Você sabe bastante sobre batatas — observou Maomao. Ela sempre considerou o Irmão do Lahan uma pessoa completamente comum, sem nenhuma qualidade especial além da facilidade de virar alvo de piadas, mas parecia que ele realmente tinha algo a oferecer.

— Nossa, você é um verdadeiro fazendeiro! — disse Lihaku, dando um tapa nas costas do Irmão do Lahan. Ele não tinha acompanhado toda a conversa, mas ainda assim ficou impressionado.

— F-Fazendeiro?! — O Irmão do Lahan quase engasgou. Ele parecia querer retrucar, mas estava indignado demais para conseguir dizer qualquer coisa. O charlatão, aparentemente intimidado pela fúria do Irmão do Lahan, manteve uma distância segura. Já Tianyu parecia considerar o homem comum demais para despertar qualquer interesse.

— Então, o que você quer dizer é que essas batatas não são para comer, e sim batatas-semente? — perguntou Maomao.

— Exatamente! Elas são! Minha função é ensinar as pessoas a cultivá-las. Ele e seu “Meu irmão mais velho não pode passar a vida inteira preso a um único lugar!” Afinal, qual é a diferença entre um campo e outro?!

Em resumo, aquela pessoa tão comum demonstrou um interesse perfeitamente comum pelo mundo além de sua região e, por causa disso, acabou sendo enganada. Ainda assim, o fato de ter corrido atrás daquela caixa de batatas-semente mostrava que ele realmente era um agricultor dedicado. Maomao suspeitava que ele produziria uma excelente colheita, mesmo reclamando o tempo todo.

Então ele vai ensinar o cultivo de novas plantações, é...? Isso provavelmente significava que o Irmão do Lahan passaria boa parte do tempo nas aldeias agrícolas.

— Quando você for às aldeias, leve-me junto com você — disse Maomao.

— E por que eu faria isso?

— Há algo que eu quero investigar.

Aquilo parecia um presente dos céus. Ela tinha imaginado que precisaria pedir ajuda a Rikuson ou a outra pessoa... até que o Irmão do Lahan apareceu.

Eu vi a roupa do Rikuson. As roupas manchadas de lama sugeriam que ele estivesse inspecionando alguma fazenda. Mas por que um homem enviado de tão longe, da capital, estaria encarregado justamente das áreas mais afastadas de seu novo posto?

Talvez ele esteja verificando as colheitas para garantir que ninguém esteja sonegando impostos. Ou talvez... Talvez ele saiba da praga de insetos.

Uma praga de gafanhotos atingiu o oeste da capital real, o que significava que havia uma boa chance dos insetos terem vindo de regiões ainda mais a oeste. E sempre era mais fácil lidar com um enxame quando ele ainda não era tão numeroso.

Insetos não me interessam tanto assim... mas acho que desta vez não vou conseguir escapar.

Por um instante, Maomao se pegou pensando em outra jovem, alguém que gostava muito mais de insetos do que ela.

[Kessel: Shisui… </3]

— Como sempre, estou confiando em seus cuidados, Mestre Médico. — Jinshi sorriu ao recebê-los. Eles estavam na mais luxuosa sala de hóspedes do anexo. Havia um espesso tapete de lã de carneiro finamente bordado, e as cortinas pareciam feitas de seda; cintilavam e brilhavam sempre que o vento as fazia ondular. Maomao nunca conseguia deixar de se perguntar qual seria o valor de mercado das acomodações de Jinshi.

Aquilo parece delicioso... Pensou ao notar um prato de frutas sobre a mesa. Havia uvas suculentas, recém-resfriadas, ainda cobertas por pequenas gotas de condensação. Elas prometiam explodir na boca, cheias de suco doce.

Será que ele precisa que verifiquem se estão envenenadas?

Infelizmente, Maomao não estava ali para provar a comida de Jinshi. Essa tarefa cabia à sua dama de companhia, Taomei. A barulhenta Chue não estava presente naquele dia, e Maomao também não viu Baryou, embora tivesse suas suspeitas sobre o que havia do outro lado das cortinas que balançavam suavemente. Suiren e Gaoshun permaneciam junto à parede.

O charlatão continuava completamente intimidado diante de Jinshi.

— A-Ah! V-Vamos começar, então...

Como sempre, ele mal conseguia falar, e, como sempre, seu exame era praticamente só uma formalidade.

Tianyu também não estava presente. Tinham considerado arriscado levá-lo para uma visita daquelas, já que havia grandes chances dele acabar ofendendo alguém importante. Ele era perspicaz o bastante para estranhar Maomao e o charlatão realizando aquele exame, mas, se teve alguma suspeita, guardou-a para si mesmo nesse momento. Será que ele sabe interpretar o clima? Ou alguém do lado do Jinshi conversou com ele? Maomao preferia nem pensar nisso.

Também não faz diferença para mim. Ela tinha outras coisas para fazer. Por enquanto, deixaria de lado a questão de por que Jinshi tinha sido enviado para aquela residência. O estrategista excêntrico não estava no mesmo prédio, e isso era o que realmente importava.

— Certo, senhorita. Vou voltar agora — disse o charlatão.

— Sim, senhor.

O charlatão foi embora sem a menor hesitação. Seu guarda-costas, Lihaku, foi junto.

Jinshi diminuiu um pouco o seu brilho. — Chá, por favor. — disse ele.

— Claro, senhor — respondeu Taomei, indo prepará-lo.

— Aqui está. — Suiren trouxe uma cadeira para Maomao, que se sentou. Ela não era mal-educada a ponto de pegar uma das uvas naquele momento, mas tentou transmitir telepaticamente a Suiren que gostaria de levar algumas de lembrança.

— Está conseguindo se adaptar ao novo local de trabalho? — perguntou Jinshi.

— Sem dificuldades, senhor. As pessoas continuam sendo as mesmas, então é só uma questão de me acostumar ao ambiente. — Era uma resposta sincera. O que ela realmente queria era descobrir que tipos de medicamentos existiam na capital do oeste. Quando fizeram o inventário do que havia sido consumido durante a viagem de navio, descobriram que a maior parte tinha sido remédios para enjoo e antitérmicos. A rota pelo sul foi tão quente quanto o auge do verão e, somada à pouca circulação de ar na embarcação, provocou muitos casos de tontura. A insolação era tratada com água, não com remédios, mas Maomao suspeitava que, enquanto ela estava ausente, o charlatão diagnosticou muitos daqueles casos como resfriado e distribuiu antitérmicos. Isso explicava tudo.

Por ironia do destino, o tratamento funcionou. Os remédios receitados pelo charlatão tinham um gosto tão horrível que os pacientes precisavam beber muita água para conseguir engoli-los e, no fim das contas, acabavam curando a insolação.

Ele realmente tem uma sorte absurda… Melhor ainda, ela ouviu dizer que eles receberiam novos suprimentos comprados na capital do oeste para compensar o estoque consumido. Eu queria tanto ter ido junto fazer essas compras… Ela estava morrendo de curiosidade para saber exatamente que medicamentos eram vendidos ali.

Entretanto, Maomao tinha outras prioridades. Ela olhou discretamente ao redor e lançou um olhar para Jinshi. Não sabia muito bem como abordar o assunto, então resolveu mudar completamente de tema.

— Pelo visto, temos um agricultor de batatas entre nós, graças às conexões do Lahan.

Tratando-se de Lahan, se o cultivo de batatas desse certo na Província de I-sei, ela tinha certeza de que seu próximo plano seria exportá-las para Shaoh ou algum outro lugar. Afinal, ficava logo ao lado de I-sei, o que reduziria bastante os custos de transporte.

Jinshi lançou-lhe um olhar curioso.

— Um agricultor de batatas? Ouvi dizer que ele é seu primo.

— Não temos parentesco algum — respondeu Maomao com firmeza, para que não restasse qualquer dúvida.

— Mas ouvi dizer que ele é o irmão mais velho do Lahan.

— Sim, mas o Lahan e eu somos completos estranhos.

Jinshi a encarou por mais um instante, mas resolveu deixar o assunto de lado.

— De qualquer forma, sim, temos um agricultor de batatas aqui. Quando soube que ele era do clã La, imaginei alguém... não sei... mais marcante.

— O senhor chegou a conhecê-lo?

— Só o vi de passagem. Foi quando Lahan o ajudou a embarcar no navio.

Em outras palavras, Jinshi o tinha visto exatamente no momento em que caía no golpe.

— Ele é uma pessoa muito comum, senhor.

— Sim. Muito comum.

Ao que parecia, Jinshi compartilhava da mesma impressão de Maomao. E, como ele já sabia de quem ela estava falando, tudo ficava mais simples.

— Gostaria de acompanhá-lo até as aldeias agrícolas. O senhor acha que poderia me conceder essa permissão?

— As aldeias agrícolas? Isso me ajudaria bastante, mas quem cuidaria de suas funções médicas? — Jinshi deu uma batidinha significativa na lateral do próprio corpo.

Foi você mesmo quem fez isso consigo, pensou Maomao. De qualquer forma, ele já sabia trocar os curativos sozinho, então ela não precisava examiná-lo o tempo todo.

— Um jovem chamado Tianyu foi designado para nossa equipe. Acho que ele consegue cuidar das coisas, senhor.

Ela ignorou o ferimento de Jinshi por enquanto. Apesar de não gostar muito dele como pessoa, Tianyu parecia competente em seu trabalho.

— Hum... Muito bem. — Jinshi pareceu engolir alguma objeção antes de concordar. — Eu já pretendia enviar alguém para observar as fazendas de perto. Há problemas suficientes nas aldeias por causa da praga que se aproxima. Talvez isso seja o ideal.

— Que tipo de problemas? — perguntou Maomao inclinando a cabeça. Jinshi lidava com tantas preocupações diferentes que ela nem sabia a qual ele se referia.

Jinshi olhou para Gaoshun, que desenrolou sobre a mesa um mapa da Província de I-sei. Vários círculos haviam sido marcados com tinta.

— O que são estes? — perguntou Maomao.

— A localização das aldeias agrícolas.

— Há menos do que eu imaginava, considerando o tamanho da província.

— Há muitas áreas de cultivo isoladas, mas algum tipo de problema surge quando elas atingem certo tamanho. Fora a capital do oeste, a população daqui nunca foi muito grande e, como o comércio é intenso, muita gente simplesmente importa seus alimentos.

Naquela terra, solos pobres eram a regra e as fontes de água eram limitadas. Talvez Maomao só conseguisse visitar a aldeia mais próxima.

Será que foi para lá que Rikuson foi?

Ele parecia ocupado demais. Certamente não visitava fazendas apenas para matar o tempo. Devia ter ido ao local mais próximo.

— E estas aqui… — Jinshi pegou um pincel oferecido por Gaoshun e desenhou um círculo maior no mapa. — São áreas de pastagem.

— Pastagens, senhor? — Ou seja, lugares onde o gado se alimentava. Provavelmente não havia muitos bois na capital do oeste. Cabras e ovelhas pareciam muito mais prováveis.

— Algumas pertencem aos agricultores, mas outras são usadas por tribos nômades. Grupos que não possuem assentamentos permanentes.

— Entendo.

Jinshi parecia explicar aquilo menos para Maomao e mais para organizar os próprios pensamentos.

— Você se lembra das ordens que emiti para combater os gafanhotos?

— Lembro. O senhor proibiu a caça das aves que se alimentam das pragas, incentivou o consumo de insetos e ordenou que as aldeias agrícolas aprendessem a fabricar inseticidas.

A própria Maomao participou do desenvolvimento desses inseticidas. Ela criou várias fórmulas usando principalmente ingredientes encontrados na região.

— Exatamente. Essas ordens foram enviadas para toda Li, inclusive para a Província de I-sei. No entanto… — Ele interrompeu a frase.

Maomao achou que conseguia enxergar o erro de cálculo que Jinshi enfrentava.

— Mesmo que os agricultores usem inseticidas, eles só os aplicam em suas plantações.

— Exatamente.

E a Província de I-sei tinha poucos campos cultivados e vastas extensões de pastagens. Os agricultores não exterminaram os insetos nas áreas cobertas de capim. Sem contar que havia grandes chances de os nômades sequer terem recebido essas ordens.

E, mesmo que tivessem… Eles jamais espalhariam produtos químicos onde seu rebanho pastava, muito menos sairiam matando gafanhotos um por um.

Jinshi e Maomao permaneceram em silêncio.

Os gafanhotos que escapassem do extermínio gerariam uma nova geração muitas vezes maior.

Mesmo assim, Maomao ainda estava intrigada. — Com licença, senhor, mas no ano passado não houve uma pequena infestação de insetos no oeste de Li? Ela também atingiu a capital do oeste?

— Não houve nenhum relatório de infestação vindo da Província de I-sei — respondeu Jinshi, parecendo igualmente intrigado. — É verdade que esta região sobrevive principalmente do comércio e cultiva relativamente pouco, então os prejuízos agrícolas seriam modestos...

— Mas deveria ter havido algum.

Ela recordou o outono anterior. Jinshi lhe enviou uma caixa cheia de gafanhotos, algo que quase podia ser considerado assédio, e ela mediu centenas deles. Na época, Lahan especulou que talvez tivessem vindo de Hokuaren levados pelos ventos sazonais. E qual era a região mais próxima de Hokuaren? A Província de I-sei.

Será que os gafanhotos simplesmente passaram direto por pura sorte? Ou... essas pessoas estão escondendo alguma coisa?

Maomao observou atentamente o rosto de Jinshi. Ele não parecia preocupado demais. Ao contrário, mantinha uma expressão tranquila, como alguém que apenas confirmava algo que já suspeitava. Informações que ele já possuía. Ela tentou encontrar alguma pista no rosto dos outros presentes, mas Suiren, Taomei e Gaoshun não deixaram transparecer absolutamente nada.

Será que a Província de I-sei está tentando esconder uma má colheita? Ela se perguntou. Então soltou um suspiro. Talvez seja por causa do irmão da Imperatriz Gyokuyou.

Gyoku-ou, o homem que agora administrava a capital do oeste em nome do pai. Parecia haver algum tipo de história entre ele e a Imperatriz Gyokuyou, mas Maomao sempre tratou aquilo como algo que não dizia respeito a uma simples apotecária.

Será que tudo isso tem relação com o motivo de Rikuson estar nas aldeias, voltando coberto de lama?

Maomao começou a ficar inquieta. Quanto mais pensava na questão, mais ela se enrolava em seus próprios pensamentos. Ainda assim, odiava deixar uma dúvida sem resposta. O melhor seria agir logo.

— Sei que é um pedido repentino, mas o senhor permitiria que eu partisse para as aldeias agrícolas amanhã?

— Por mais que eu queira colocá-la em ação o quanto antes, amanhã talvez seja cedo demais — respondeu Jinshi. — Hum...

Foi então que Gaoshun interveio. — Príncipe da Lua — disse ele.

— O que foi, Gaoshun?

— Se Xiaomao for partir, o melhor é esperar mais alguns dias.

— Por quê? Para termos tempo de preparar tudo?

— Não, senhor. Porque Basen deve chegar dentro de alguns dias.

Maomao sentiu que fazia muito tempo desde a última vez que ouviu aquele nome. Basen. Ela se lembrou de que ele estava viajando por terra rumo à capital do oeste.

— Acho que ele seria o guarda-costas ideal para Xiaomao — disse Gaoshun.

— Muito bem. Usaremos esse tempo para fazer os preparativos — respondeu Jinshi, e com isso, o assunto foi resolvido. Maomao soltou um discreto suspiro de alívio e estava prestes a voltar para o consultório médico, onde o charlatão e Tianyu a esperavam, quando Jinshi voltou a falar. — Só um instante.

— Sim, senhor?

— Meu estômago está me incomodando. Talvez você possa examiná-lo? — Ele sorriu para ela.

Eu já devia esperar por isso.

— Estarei aguardando na sala ao lado. — Depois de dizer isso, ele saiu. Talvez já tivessem sido avisados com antecedência, porque Suiren e os demais permaneceram onde estavam.

— Muito bem.

Após um instante, Maomao tirou um conjunto de bandagens limpas. Mas no fundo, ela desejava que Basen chegasse o mais rápido possível.

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Fim da leitura

Capítulo 10.03 concluído

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