Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.04: Volume 10 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Primavera Chega Para Basen (Parte 1)

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.04
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Primavera Chega Para Basen (Parte 1)

Capítulo 10.04

2.747 palavras~12 min de leitura

— Quá, quá! — disse uma voz.

Basen olhou para o pato branco à sua frente, de bico amarelo, olhos úmidos e penas fofas.

— Acho que aqui nos despedimos, pato.

Nos últimos meses, Basen recebeu diversas ordens secretas do Príncipe da Lua. Uma delas dizia respeito justamente a um pato branco doméstico como aquele. Era um animal de criação comum: fácil de cuidar e que botava ovos com frequência.

Na verdade, criar patos era a missão que lhe haviam confiado.

No começo, Basen achou que o Príncipe da Lua estava zombando dele. Apesar de todos os seus defeitos, ele vinha de um clã que, havia gerações, era responsável por proteger a família imperial, e agora esperavam que ele cuidasse de aves aquáticas? Por um momento, chegou a pensar que o Príncipe da Lua o tinha abandonado.

Mas não era esse o caso.

— A criação de animais livrará este país de muito sofrimento, e estou certo de que você cumprirá essa missão com dedicação. — Se o Príncipe da Lua depositava tanta confiança nele, Basen não tinha como recusar. Isso aconteceu perto do fim do ano anterior.

Assim que soube qual seria sua missão, ele percebeu que a primeira coisa a fazer era procurar alguém que entendesse mais de criação de patos do que ele.

Foi por isso que, logo no começo do ano, ele passou muito tempo visitando um determinado lugar…

A noroeste da capital havia um lugar chamado Vila da Ameixa Vermelha. Era um refúgio para aqueles que deixavam suas casas e famílias na esperança de se tornarem viajantes. Normalmente, essa palavra fazia as pessoas imaginarem monges submetidos a treinamentos rigorosos, mas ali era um pouco diferente. Muitos pareciam acreditar sinceramente que sua prática os transformaria em verdadeiros imortais.

Criar animais era uma das facetas desse treinamento. Quando Basen ouviu isso pela primeira vez, achou que tinha escutado errado.

— Achei que monges e monjas fossem todos vegetarianos.

— Os imortais vivem por um tempo sem fim. Uma pessoa não pode sobreviver só de vegetais.

A resposta veio de imediato, em um tom completamente casual. Conforme Basen ouviu dizer, o lugar era administrado por um velho. Se ignorasse as roupas sujas e cobertas de penas, dava para perceber que ele tinha uma pele saudável e mantinha a postura perfeitamente ereta. Talvez sua vida não fosse realmente eterna, mas era evidente que sabia muito sobre como viver por muitos anos.

O Basen de antigamente teria discutido o assunto, mas gostava de pensar que aprendeu uma ou duas coisas ao longo dos últimos anos. Decidiu colocar aquele velho na mesma categoria daquela excêntrica apotecária e não pensar mais nisso.

Ele acabou descobrindo que estava certo. Treinar viajantes era apenas um pretexto da Vila da Ameixa Vermelha; na realidade, eram um grupo de pesquisadores. Grande parte de suas práticas contrariava os preceitos normalmente seguidos por monges e monjas, mas as pesquisas eram tão valiosas que todos os seus superiores simplesmente fingiam não ver.

— Os patos podem botar até cento e cinquenta ovos por ano. Eles são onívoros, então comem praticamente qualquer coisa, e podem começar a botar ovos já aos seis meses de idade. Não são tão diferentes das galinhas, mas, se você pretende alimentá-los com gafanhotos, acho melhor escolher patos, porque eles são fisicamente maiores. Se você oferecer apenas um único tipo de alimento desde que eles nascem, eles acabarão comendo exclusivamente aquilo, mas isso pode prejudicar o crescimento deles, então não recomendo. O único problema dos patos é que eles não chocam os próprios ovos com tanta frequência quanto as galinhas, então...

Basen se perguntou por que pessoas que pesquisavam uma área específica eram sempre tão falantes. Até aquela apotecária, Maomao, conseguia falar sem parar quando o assunto despertava seu interesse, e o burocrata Lahan era exatamente igual.

[Noelle: Parando pra refletir aqui, não se vê muito assim ovos de pato para vender como os de galinha por aí, quando eu vejo, geralmente é caipira…]

A Vila da Ameixa Vermelha ocupava uma área extensa, grande parte dela coberta por campos agrícolas. Nenhum dos "viajantes" usava trajes religiosos; todos vestiam roupas apropriadas para trabalhar ao ar livre. O vapor de suas respirações se espalhava pelo ar frio enquanto trabalhavam nos campos.

— ...e, como pode ver, estou extremamente ocupado com minhas pesquisas. Receio não poder atender ao seu pedido — disse o velho, finalmente chegando ao fim de sua longa explicação.

— Perdão. Não tenho certeza se entendi — respondeu Basen.

— Quero dizer que eu não posso ensiná-lo, mas minha discípula, a quem atualmente confiei esse trabalho, pode. Você a encontrará naquele galpão. Até logo.

— E-Ei, espere!

O velho saiu apressado com uma agilidade que não combinava nem um pouco com sua idade. Sem outra opção, Basen caminhou até o galpão, de onde saía vapor de tempos em tempos. — Com licença? Gostaria de aprender sobre criação de patos… — A porta mal parecia presa às dobradiças e, quando ele a abriu, um ar fétido atingiu seu rosto.

— S-Sim, claro. O Laoshi me avisou. — A voz soou nervosa. Basen conseguiu distinguir uma pequena figura em meio à névoa.

— É... é você! — exclamou Basen. A pequena figura era uma jovem de roupas simples. O tecido de suas vestes nem sequer era tingido, muito menos bordado, e o cabelo, preso apenas por um pedaço de cordão, não tinha grampos nem enfeites. Ainda assim, mesmo sem um traço de batom ou pó para clarear a pele, ela parecia muito mais cheia de vida do que da última vez que ele a tinha visto. — Concubina Lishu?

— E-Eu... não sou mais uma concubina, M-Mestre Basen.

[Kessel: O bem venceu… Soldados e soldadas do GEPL, o Grande Exército de Proteção à Lishu… nós vencemos. Obrigado!]

Diante dele estava uma princesa efêmera. Um membro do clã U que havia entrado duas vezes no Palácio Interno como concubina de um imperador.

— O que está fazendo aqui? — perguntou Basen. Assim que as palavras saíram de sua boca, ele desejou ter dito algo mais sensato. Sua irmã, Maamei, certamente lhe daria uma bronca se soubesse.

Lishu já foi uma concubina de alto escalão, mas acabou banida do Palácio Interno. Era verdade que havia sido manipulada pela mulher conhecida como a Dama Branca, mas isso não mudava o fato de que ela provocou uma enorme confusão na corte. Lishu foi obrigada a se retirar do mundo.

Ninguém contou a Basen para onde ela tinha ido ou o que estava fazendo. O Imperador apenas lhe disse que, se desejasse vê-la novamente, deveria concentrar seus esforços em realizar grandes feitos. Sem saber o que fazer, Basen passou recentemente a fazer doações em dinheiro e mantimentos para diversos templos, na esperança de aliviar um pouco o próprio coração, e nem sequer lhe disseram em qual templo ela poderia estar escondida.

[Noelle: Tadinho gente kkkk]

Ele ficou tão atônito com aquele reencontro inesperado que mal conseguia organizar os pensamentos.

— B-Bem, como você sabe, eu fui banida do Palácio Interno. Eu não podia voltar para minha família nem para o templo onde vivia antes. Sua Majestade interveio por mim para que eu pudesse vir para cá, para a Vila da Ameixa Vermelha — explicou ela.

— Sim, mas... de todos os lugares possíveis...

As roupas de Lishu estavam manchadas de sujeira, cobertas não apenas de lama, mas também de esterco de animais. O pior de tudo era que, naquele galpão, só havia Basen e Lishu, e ele se torturava pensando se era apropriado ficar sozinho com uma jovem dama.

[Kessel: Omodeuso, que arte linda!!!!! Que fofos!!!!!!!!!! Lishuuuuu!!!]

— A senhorita não tem mais damas de companhia? O que aconteceu com aquela dama de companhia que costumava servi-la? — perguntou Basen, abalado ao ver em que condições Lishu vivia agora, quase tão abalado quanto por tê-la bem ali, diante dele.

— Está falando da Kanan? Eu a liberei de seus deveres comigo. Ela ainda tem toda uma vida pela frente; não deveria desperdiçá-la aqui ao meu lado. Pedi a Sua Majestade que encontrasse um bom casamento para ela. — Lishu sorriu e baixou o olhar, enquanto seus longos cílios tremulavam.

Basen cerrou o punho.

— Então você... Está aqui sozinha?

— Não precisa se preocupar. Tenho uma senhora idosa que cuida de mim.

— Só uma?

— Sim. Afinal, não preciso mais de roupas pesadas nem de adornos elaborados para o cabelo.

Para Basen, as palavras de Lishu carregavam um ar de autodepreciação, e, ainda assim, sua expressão era tão límpida quanto um céu sem nuvens. Basen nunca foi bom em adivinhar o que uma mulher estava pensando e, naquele momento, não fazia ideia do que dizer ou fazer. Lishu continuava tão reservada e encantadora quanto antes, e parecia trabalhar com afinco apesar de estar vivendo muito abaixo da posição que um dia ocupou. Seus dedos finos estavam cobertos de lama.

— Este não é lugar para alguém como você, Lady Lishu. Vou falar com eles, convencê-los a lhe dar um trabalho melhor! — disse Basen. Foi a melhor solução que ele conseguiu imaginar.

Lishu, porém, balançou a cabeça.

— N-Não, obrigada. Sou grata pela preocupação, m-mas estas circunstâncias...

— Sim? O que tem elas? — A pergunta de Basen foi praticamente interrompida por uma sequência de grasnados. Ele se virou e deu de cara com várias dezenas de patos. — Guh?!

[Noelle: O pobi nem cogitou em casamento, tão inocente ainda… kkk]

A pergunta de Basen foi praticamente interrompida por uma sequência de grasnados. Ele se virou e deu de cara com várias dezenas de patos.

As aves cercaram Basen, inclinando a cabeça enquanto o observavam com curiosidade. Ele não conseguia se livrar da sensação de que estavam avaliando cada movimento seu.

Então os patos foram até Lishu, esfregando-se nela. Ela acariciou suas asas. — N-No começo, eu tinha certeza de que nunca conseguiria criar patos — contou ela. — Mas cuidei destes fofinhos desde que saíram dos ovos, e eles me veem como a mãe deles. O Laoshi m-me disse que os patos são assim mesmo...

Quando ouviu as palavras patos, saíram dos ovos e Laoshi, Basen finalmente percebeu que Lishu era a discípula de quem o velho estava falando!

— Lady Lishu... Quer dizer que você...?

— Sim. Recebi a tarefa de lhe ensinar sobre a incubação de ovos de pato. — Sua gagueira desapareceu; talvez ela se sentisse mais à vontade cercada pelos animais. — Cof... Mestre Basen?

— S-Sim? O que foi? — respondeu ele, endireitando involuntariamente a postura, como se estivesse diante de um superior.

Lishu lançou-lhe um olhar e então ergueu um pouco a saia.

— E-Eu sei que já faz um tempo, mas... como estão os seus ferimentos?

Basen tinha se esquecido completamente de que, da última vez que Lishu o viu, ele era praticamente um amontoado de cortes, hematomas e ossos quebrados.

— Ah, estou acostumado a me machucar um pouco. Não precisa se preocupar comigo — disse ele. Por dentro, ele estava radiante por ela se preocupar com ele, mesmo que aquilo fosse apenas uma demonstração natural de consideração. Ao mesmo tempo, sentia-se um pouco envergonhado. Percebeu que Lishu nunca o tinha visto exatamente em sua melhor forma.

— Mas você sofreu tudo aquilo por minha causa... E eu nem sequer pude agradecer...

— Lady Lishu… — Basen se sentia estranho, ao mesmo tempo tranquilo e inquieto por estar ao lado daquela jovem. Ele sacudiu a cabeça. Não, isso não serve! Ele tinha um objetivo ali. — Bem, Lady Lishu. Se puder ter a gentileza de me instruir.

— S-Sim, claro — respondeu ela, embora sua voz soasse quase decepcionada.

[Kessel: Por que todo homem nessa novel é burro?!?!?]

Existia uma antiga história segundo a qual, muito tempo atrás, quando uma praga de gafanhotos assolou a região, os patos a combateram devorando todos os insetos. Era apenas uma lenda, não um modelo sério de política agrícola, mas lendas frequentemente guardam um fundo de verdade. Os patos realmente comiam insetos. Como eram onívoros, costumavam comer restos da comida dos humanos, mas, durante as pragas de gafanhotos, também se alimentavam deles. Alguns até preferiam insetos e os procuravam ativamente.

Além disso, aumentar o número de animais de criação só traria benefícios aos agricultores. Por isso, decidiram distribuir patos pelas vilas agrícolas, mas havia um problema.

De onde viriam todos esses patos que seriam distribuídos? Patos eram seres vivos; não era possível simplesmente estalar os dedos e fazer aparecer mais.

— Assim, veja. Os ovos devem ser mantidos sempre um pouco mais quentes do que a temperatura do corpo humano. Também não basta deixá-los parados; é preciso virá-los de tempos em tempos. — Lishu virou delicadamente um dos ovos para demonstrar. Ele repousava sobre uma cama de palha, sob a qual havia uma camada de terra macia, semelhante a húmus.

— Os ovos não vão chocar se ficarem quentes ou frios demais, então o Laoshi me disse que eu deveria aprender a reconhecer a temperatura apenas pelo toque.

— Apenas pelo toque?

— S-Sim. Eles também precisam de umidade.

— Umidade?

Dentro do galpão fazia um calor abafado, como no verão, embora lá fora estivesse frio o bastante para que a respiração se transformasse em vapor. O ambiente estava tão cheio de névoa que era difícil enxergar.

— Há uma fonte termal aqui perto, e n-nós buscamos água quente lá. — Lishu levantou a esteira de junco que cobria o chão do galpão, revelando um canal por onde corria água, sem dúvida bastante quente. — Quando esfria demais, acendemos fogo no forno. Precisamos vigiar os ovos o tempo todo, então nós três nos revezamos em turnos.

Realmente parecia trabalho demais para uma única pessoa. Mesmo com outras duas ajudando, Basen não conseguia deixar de pensar que aquilo devia ser pesado demais para Lishu, que passou grande parte da vida como uma princesa protegida.

— Tem certeza de que está bem aqui, Lady Lishu? — perguntou ele.

— B-Bem... em que sentido?

— Bem, uma jovem da sua posição não deveria estar aqui. Você poderia estar em algum lugar com damas de companhia cuidando de você. Pode ser uma andarilha, mas isso não muda o fato de que continua sendo uma princesa do clã U.

Basen ouviu dizer que o Imperador tratava Lishu como se fosse sua própria filha. Além disso, ela acabou envolvida nas armações da Dama Branca; na verdade, também era uma vítima. Na opinião dele, ela merecia algo muito melhor do que aquilo.

[Noelle: Nós concordamos contigo Basen….]

— Mestre Basen... o senhor está preocupado comigo?

— P-Preocupado?! Não! É só que isso é um direito seu, milady...

— A-Ah. N-Não, claro. Eu não deveria ter presumido que o senhor se preocuparia com alguém como eu...

— Não foi isso que eu quis dizer!

Basen amaldiçoou a própria boca, incapaz de juntar duas palavras que fizessem sentido. Se o Príncipe da Lua estivesse ali, certamente saberia o que dizer. Basen, porém, só conseguiu encarar a parede do galpão e sentir-se miserável.

— Mestre Basen, o-o senhor está mesmo bem? — Lishu o observava com preocupação. Não, não... quem estava preocupado era Basen.

— Lady Lishu... — Ele começou. — A senhorita já sofreu o suficiente. Agora pode viver a vida que quiser.

Nem o próprio Basen tinha certeza do que estava dizendo. A vida que ela quisesse? E que vida seria essa? A vida dele era cumprir seu dever para com a família imperial e proteger o Príncipe da Lua. O que ele queria nunca entrava na equação. E ainda assim tinha a ousadia de aconselhar Lishu a escolher o próprio caminho? As palavras soaram vazias até para seus próprios ouvidos.

— Mestre Basen… — Lishu parecia incapaz de continuar falando.

Claro que não. Ela devia ter ficado escandalizada demais. Profundamente ofendida pelo “conselho” que Basen deu com tamanha displicência. Ele decidiu aprender o que veio aprender ali o mais rápido possível e, então, voltar para casa.

— E-Eu... ainda não sei o que quero. O que eu queria nunca importou. Nunca me permitiram escolher a minha própria vida.

— Então comece agora.

— Eu vou. E o que eu quero é... é continuar fazendo isso por mais um tempo. — Ela se agachou e virou outro ovo.

Suas roupas estavam sujas, o cabelo era simples e ela não usava maquiagem alguma. Ainda assim, havia em seu rosto algo que Basen nunca tinha visto antes: um pequeno sorriso.

[Kessel: Obrigado Natsu!!!]

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Atenciosamente,

Scan Moonlight Valley

Fim da leitura

Capítulo 10.04 concluído

Volume 10 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Primavera Chega Para Basen (Parte 1)