Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 14 – Capítulo 14: O Passado e o Possível
Capítulo 10.14A bela sala estava impregnada do aroma intenso do chá. O chá, servido (ploop-ploop-ploop) de um bule de estilo estrangeiro, era vermelho como uma rosa. Este chá era mais escuro no sentido mais literal da palavra, observou Maomao enquanto apreciava o aroma. Às vezes, as pessoas tomavam esse tipo de chá com açúcar ou leite de vaca, mas Maomao recusava ambos — ela não suportava chá adoçado.
— Então, o que você acha de tudo isso? — perguntou Jinshi, que conseguia parecer elegante até enquanto misturava um pouco de leite em sua bebida com uma colher. Era a maneira certa de fazer aquilo para evitar que seu estômago passasse mal. Suiren tinha aquecido o leite para facilitar a digestão dele.
Maomao estava sentada do outro lado da mesa, de frente para ele, e tomou um gole do próprio chá. Tem certeza disso? Este é mesmo o lugar certo para essa conversa?
Taomei tinha levado Maomao diretamente aos aposentos de Jinshi, mas, não importava como ela olhasse para aquilo, havia acabado em uma festa do chá. Suiren não parecia se opor, o que significava que tinham sua aprovação tácita, mas Maomao não conseguia deixar de se perguntar.
— Aqui, para você — disse a senhora idosa com um sorriso, empurrando uma xícara de chá na direção de Maomao. Ela sentiu que não podia recusar, então decidiu apreciar apenas um gole enquanto conversava com Jinshi.
— Devo avisá-lo, senhor, que minha opinião...
— ...é apenas especulação e pode não estar totalmente de acordo com os fatos reais. Sim, sim. Garanto que vou analisar tudo de maneira objetiva e não aceitar tudo o que disser sem questionar. Isso faz você se sentir melhor?
— Sim, senhor — disse Maomao. Era tudo o que ela podia dizer. Jinshi olhou para Taomei. Será que aquele tom diligentemente formal era uma deferência à presença dela? — Por onde gostaria que eu começasse?
— Pela tribo dos Leitores do Vento. Reúna tudo para mim, até mesmo as coisas que já ouvi antes.
— Muito bem, senhor. — Aquilo pelo menos facilitava as coisas: ela seria poupada do esforço de tentar não se repetir. — Ouvimos falar dos Leitores do Vento pela primeira vez através de Nianzhen, o antigo servo da aldeia agrícola que visitamos. Ele disse que a tribo foi destruída em um ataque cujo objetivo era conseguir esposas e escravos para seu povo. A tribo dos Leitores do Vento era responsável por algum tipo de ritual e, segundo Nianzhen, estava sob a proteção do clã Yi.
Isso Maomao já tinha contado a Jinshi, então ele continuou tomando seu chá e beliscando um lanche enquanto ouvia. O lanche, por sinal, era um biscoito de estilo estrangeiro que combinava muito bem com o chá exótico.
— Podemos especular que, fosse lá qual fosse o ritual, de alguma forma ele ajudava a impedir o surgimento de pragas de insetos. Talvez fosse uma prática chamada revira de outono, que consiste em revirar a terra não apenas para melhorar a qualidade do solo, mas também para destruir os ovos de insetos nocivos. Acho que o irmão mais velho do Lahan saberia os detalhes.
— Você quer dizer o Irmão do Lahan. O clã La é cheio de indivíduos extremamente talentosos, não é? Pensar que eles têm dois agricultores praticamente profissionais. — Então chegamos a esse ponto: até Jinshi o chamava de Irmão do Lahan.
Mas eu tenho a impressão de que o Irmão do Lahan aprendeu a cultivar a terra por meio da coação.
Com sua conhecida dedicação, ela sabia que ele devia ter se empenhado para aprender os segredos do solo. Se ele tivesse nascido em uma família comum, talvez ele tivesse se tornado um empreendedor de sucesso mais comum.
— Onde está o Irmão do Lahan? — perguntou Jinshi.
— Recebemos uma mensagem dizendo que ele deve retornar à capital do oeste amanhã. Ele praticamente terminou de ensinar os moradores a cultivar a terra — informou Basen.
Ah, é. Nós o deixamos lá, não foi? pensou Maomao. Ela se perguntou se ele tinha conseguido ensiná-los a cultivar batatas.
— Quando ele voltar, manda ele vir falar comigo.
— Sim, senhor.
Basen se retirou. Havia uma pena de pato perdida em suas costas.
Maomao olhou para Jinshi para saber se podia continuar.
— Pode continuar — disse ele.
— Sim, senhor. A tribo dos Leitores do Vento usava pássaros de alguma maneira, mas o antigo servo não sabia exatamente como. Mas a pessoa suspeita que capturamos hoje, Kulumu, afirma que os Leitores do Vento não foram exterminados e que transmitiram o segredo de seus pássaros, e é assim que seus descendentes ganham a vida atualmente. Como o senhor suspeitava, eles parecem criar pombos-correio. Eles também podem ter criado outros tipos de pássaros.
Kulumu parecia acreditar que o talento para criar pássaros consistia principalmente em criar animais de estimação para vender a pessoas ricas, mas isso não era verdade.
— Dependendo de como os pássaros são criados, acredito que eles poderiam ser usados para ajudar a encontrar insetos. Mas acredito que os pássaros mensageiros sejam a principal atividade do clã. — Isso era simplesmente a conclusão a que Jinshi já tinha chegado.
— Eu acho que a maior força dos Leitores do Vento era a capacidade de usar pássaros para se comunicar. Embora eu precise enfatizar que isso é apenas um palpite, não ficaria surpresa se eles servissem como uma rede de informações.
Jinshi não demonstrou nem um sinal de surpresa.
— E quanto aos sobreviventes da tribo?
— Novamente, isso é apenas especulação, mas acho que eles podem ter sido protegidos por pessoas que reconheciam o valor de suas habilidades. — Maomao falou devagar, escolhendo as palavras com cuidado.
— E quem você acha que os protegeu?
Depois de um momento, ela disse: — Não tenho certeza. Talvez o clã Yi, ou alguma outra força.
— Por que os Yi fariam isso?
Maomao sabia tão bem quanto Jinshi que sua resposta criava algumas inconsistências. Se os Yi tivessem realmente protegido os Leitores do Vento, a tragédia de cinquenta anos antes jamais teria acontecido.
— Permita-me mencionar a mãe do antigo imperador, a imperatriz regente, senhor.
— Você tem minha permissão.
— É porque ela destruiu o clã Yi.
— Humm.
Maomao percebeu que aquilo fazia sentido para Jinshi. A imperatriz regente governava o país por procuração, controlando o filho como marionete. Ela parecia ter sido uma pessoa ponderada e lógica; havia motivos claros para ela ter ampliado o palácio interno e proibido a derrubada de árvores nas florestas. Mas, quando se tratava da aniquilação do clã Yi, havia muita coisa que continuava sem explicação.
— Você está sugerindo que o clã Yi tentou manter os Leitores do Vento para si, sem contar à família imperial sobre eles, e, quando descobriram que eles eram, na prática, uma rede particular de espionagem, o clã foi punido por isso.
— Acho que é uma possibilidade, senhor.
Era apenas a hipótese de Maomao. Ela a oferecia a Jinshi apenas como algo a ser considerado ao tomar suas decisões.
— Entendido. E quanto à possibilidade de alguém além do clã Yi estar abrigando essa tribo?
— Lembrei que a Dama Branca usava pombos para se comunicar. Talvez ela tenha aprendido isso em Shaoh — e não é impossível que esse conhecimento tenha chegado até ela, ou até Shaoh, vindo dos Leitores do Vento.
— Então a arte dos Leitores do Vento encontrou um lar em Shaoh. O que nos deixa com a pergunta: ela chegou lá antes de a tribo ser destruída ou depois? — Agora, aquela não era uma pergunta muito agradável.
— Na minha opinião, teria que ter sido antes da destruição deles — disse Maomao.
— Então foi traição?
— Sim, senhor. Eles praticaram subterfúgio.
Maomao pensou mais uma vez no motivo pelo qual os Leitores do Vento tinham sido destruídos. A tribo era formada por algum tipo de sacerdotes, sim, mas suponha que eles também fossem espiões a serviço do clã Yi. Se os Leitores do Vento tivessem traído seus mestres, faria sentido que os Yi simplesmente assistissem enquanto outra tribo os massacrava.
Então eles reuniram os últimos Leitores do Vento nas cidades, onde poderiam mantê-los sob vigilância, e garantiram que seus conhecimentos fossem transmitidos à próxima geração… e depois os eliminaram.
As respostas de Kulumu tinham colocado aquela ideia na cabeça de Maomao, e ela não conseguia mais tirá-la de lá. Seria fácil justificar a transferência dos Leitores do Vento para a cidade: os Yi simplesmente queriam protegê-los. Quando, na verdade, queriam mantê-los por perto.
Jinshi parecia concordar com ela; ele assentia enquanto tomava seu chá. Maomao também tomou um gole; sua garganta estava seca.
— Então os Yi estão envolvidos, e Shaoh também. É só isso? — perguntou Jinshi.
— Não… há mais um grupo. — Kulumu tinha dito outra coisa que chamou a atenção de Maomao. — Kulumu disse algo que dava a entender que a esposa do Mestre Gyokuen, mãe do Mestre Gyoku-ou, era descendente dos Leitores do Vento.
Jinshi não fez rodeios. — É isso mesmo.
Então ele já investigou isso.
Então, por que se dar ao trabalho de perguntar sobre as especulações dela? Atrás de Jinshi, Chue ergueu dois dedos e sorriu. Deve ter sido ela quem conseguiu a informação.
— Parece que a esposa do senhor Gyokuen teve um papel considerável em ajudar os negócios dele a prosperar. Afinal, informação vale tanto quanto ouro nas negociações comerciais. Para ter acumulado tantos recursos ao longo dessas várias décadas, ele deve possuir um poder que os outros não têm.
E agora seu neto estava em primeiro na linha sucessória para o trono imperial. Se Gyokuen era um homem que construiu tudo por conta própria, havia se tornado maior do que qualquer outro homem do país.
— Ninguém tem uma palavra ruim para dizer sobre essa esposa dele. Todos dizem que ela era inteligente e calorosa. — Aquilo fazia sentido; Kulumu tinha dito que ela também era bondosa. Era curioso, considerando que ela tinha um filho um tanto suspeito.
Na opinião dela, Maomao não precisava se aprofundar mais do que isso… mas havia mais uma coisa que ela precisava perguntar. — Posso mencionar algo um pouco fora do assunto da tribo dos Leitores do Vento?
— O que é?
— É sobre a aldeia agrícola que visitamos. O Mestre Rikuson esteve lá pouco antes de nós.
— Ah, isso. — Jinshi desviou o olhar dela por um instante, aparentemente pensando. — Também mandei investigar Rikuson. Sei que ele foi verificar a agricultura local. Embora pareça ter sido bastante difícil para ele, ele esteve muito ocupado aqui na capital do oeste. A visita, porém, serviu para confirmar algo que suspeitávamos desde os dias em que ele estava na região central.
— Desde aquela época, senhor?
— Sim. Os relatórios da Província de I-sei não mostravam nenhum dano significativo à colheita do ano passado, mas era difícil ter certeza sem verificar pessoalmente. Então Rikuson encontrou o problema sobre a mesa. Ou melhor, eu o coloquei lá.
— O senhor fez isso?
— Você duvida de mim?
— Não exatamente. Só fiquei curiosa.
Rikuson não parecia estar em sua melhor forma quando chegaram à capital do oeste. Era difícil para Maomao não se perguntar no que ele tinha se metido. Talvez ela estivesse apenas paranoica?
— Deixe a senhorita Chue explicar por que ele não estava em sua melhor forma! — disse Chue, avançando com um bufar entusiasmado. Ao que parecia, “senhorita Chue” usava seu pronome em primeira pessoa até mesmo na presença de Jinshi.
— Chue — disse Taomei, como uma ave de rapina encarando um pardal atrevido.
Caramba, Taomei é assustadora...
— Tudo bem. Deixe-a falar — disse Jinshi.
Com a permissão devidamente concedida, Chue soltou um suspiro profundo. — A senhorita Chue já investigou isso. No caminho de volta da aldeia, o senhor Rikuson foi atacado por bandidos! Sabe quais, senhorita Maomao? Aqueles pobres coitados que tiveram os braços quebrados pelo senhor Basen.
— Sim, eu me lembro. Obrigada.
Eu me lembro de que a “senhorita Chue” me usou como isca!
— É claro que se lembra. Bem, você também se lembra de que os bandidos que atacaram a senhorita Chue e seus amigos foram presos e levados para a prisão. Mais tarde, os líderes dos bandidos também foram capturados — um de nossos informantes teve a gentileza de nos contar o que queríamos saber. Também descobrimos que um de nossos guias tinha levado o senhor Rikuson à aldeia agrícola alguns dias antes.
Em suma, o guia passou informações sobre seus clientes aos bandidos, que atacavam pessoas que não estavam acostumadas a viajar pelas planícies. O mesmo guia foi responsável pelos ataques tanto a Maomao quanto a Rikuson. Chue, prevendo a ligação com os bandidos, tinha encenado um pequeno espetáculo para ele.
— Foi realmente uma coincidência completa o fato da senhorita Chue e seus amigos terem sido atacados...
Ei, não minta para nós!
Maomao precisou apertar os lábios para garantir que aquela resposta não saísse de sua boca.
— ...mas, no caso do senhor Rikuson, parece que havia alguém além do guia puxando as cordas.
— Alguém que queria interferir na visita dele à aldeia? — perguntou Jinshi.
— É possível. Ou talvez tenha sido apenas uma velha intimidação. A outra possibilidade que a senhorita Chue consegue imaginar é que tenha sido o contrário, e o senhor Rikuson quisesse parecer uma vítima. Por outro lado, é claro, talvez tenha sido apenas um ataque comum de bandidos. Se preferir acreditar nisso.
Chue tinha um talento surpreendente para traçar conclusões por implicação. Ela falava apenas dos fatos, sem misturar suas próprias opiniões.
Mesmo que ela realmente me use como isca.
Será que Maomao guardava ressentimento por isso? Talvez um pouquinho.
— Entendido — disse Jinshi, fazendo um gesto para que Chue se afastasse. Ela se endireitou e fez uma reverência perfeita.
Pelo que acabei de ver, quase parece que...
Quase parecia que o próprio Jinshi não tinha certeza absoluta de quem Rikuson realmente era. Tudo o que Maomao tinha ouvido, porém, fazia com que pensasse que ele era, pelo menos, um homem leal ao próprio trabalho.
Jinshi tomou um gole de chá, refletindo sobre tudo o que tinha acabado de ouvir. Maomao também bebeu um pouco, embora seu chá já estivesse frio.
O sabor deste chá deveria me fazer querer alguma coisa doce, mas… O que ela realmente queria era algo salgado. Mal o pensamento passou por sua cabeça, e uma bandeja de petiscos apareceu à sua frente, trazida por Suiren, que encontrou o olhar de Maomao enquanto a colocava sobre a mesa. Havia uma pilha de biscoitos de arroz simples.
— Faça-me companhia — disse Jinshi, pegando um dos biscoitos. — Não seria apropriado eu comer tudo isso sozinho.
— Se não se importa, então… — disse Maomao, com um dos biscoitos praticamente já na boca. Ouviu-se um estalo barulhento quando ela o mordeu. Não parecia ser uma etiqueta particularmente refinada, mas o biscoito salgado estava tão bom.
Vou poder levar alguns comigo, não vou? Alguns biscoitos para levar de lembrança para o médico charlatão também seriam bons. Ahh, mas ainda tem o Tianyu para me preocupar.
Ela conseguiria despistar o charlatão facilmente, mas seria mais difícil enganar Tianyu. Melhor se certificar primeiro.
— Príncipe da Lua. Posso fazer uma pergunta?
— Sim? O que é? — Jinshi ergueu uma sobrancelha. Ela tinha usado o nome “Príncipe da Lua” porque Taomei e os outros estavam ali, mas ele não parecia gostar muito disso.
— O que devo fazer quanto à minha posição em relação a um dos novos médicos, Tianyu? Diferentemente do cha... quer dizer, do médico-mestre, se eu vier aqui com muita frequência, será difícil impedir que ele ligue os pontos.
— É um bom ponto. Vamos ver — disse Jinshi, mas então fez uma pausa.
Foi Suiren quem continuou, com um sorriso:
— Ele foi informado de que você conhece o Príncipe da Lua há algum tempo, desde que treinava etiqueta nos aposentos dele. Fique tranquila.
— Treinava etiqueta?
— Sim. Não é exatamente mentira.
— Acho que não...
A descrição, francamente, fez Maomao se sentir um pouco enjoada. “Treinar etiqueta” servindo a um homem elegante normalmente significava se preparar para ser sua esposa.
— Não é mentira — reiterou Suiren, ainda sorrindo.
Maomao deu outra mordida no biscoito de arroz, não se sentindo nem um pouco tranquilizada pela explicação de Suiren.
[Noelle: queria saber o que o Tianyu pensa sobre isso kkkkkkkkkkk]
Jinshi parecia estar pensando em alguma coisa enquanto comia. — Talvez devêssemos acelerar as coisas — ele ponderou.
Perguntar o quê ele achava que deveria ser acelerado provavelmente daria início a uma conversa muito longa, então Maomao decidiu não perguntar.
[Noelle: essa autora tentando iludir a gente depois de dez livros kkkk]
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