Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 13 – Capítulo 13: A Tribo dos Leitores do Vento
Capítulo 10.13Chue levou Maomao até onde a suspeita estava sendo mantida. Maomao conseguia ouvir alguém gritando: — Eu já disse! Isso tudo é um grande mal-entendido! — A voz parecia um pouco estridente demais para ser de uma mulher, mas, quando Maomao viu a suspeita, entendeu.
— É só uma criança — disse ela.
A criança tinha talvez dez anos, olhos estreitos e a pele mais clara, mais característica de uma moradora da Província de Kaou do que de alguém da capital do oeste. E, embora seus traços parecessem infantis e masculinos, os longos cabelos presos atrás da cabeça sugeriam que aquela pessoa era, de fato, uma menina. Em geral, os homens da capital do oeste, até mesmo os meninos, usavam lenços na cabeça ou prendiam os cabelos em longas tranças. Provavelmente foram a máscara e os cabelos compridos que fizeram com que a confundissem com uma mulher adulta.
— Eu não sou só uma criança! — disse ela, estufando as bochechas, o que não ajudou em nada a sua situação.
Naquela sala, junto da criança suspeita, estavam Gaoshun, Taomei, Basen e outro guarda que Maomao via com frequência, mas cujo nome não sabia.
— Maomao — chamou Taomei, estreitando os olhos de cores diferentes.
— Lady Taomei? O que está fazendo aqui? — perguntou Maomao. Ela não parecia o tipo de pessoa que normalmente estaria presente em um interrogatório… o que não significava que ela não parecesse ser muito boa nisso.
— Primeiro, acharam que ela era uma mulher. Depois, decidiram que era um menino, e então meu segundo filho anunciou que ele conduziria o interrogatório. Imagine o que aconteceu quando ele percebeu que estava lidando com uma menina.
— Ah — disse Maomao. Ela conseguia imaginar. — Então por que o Mestre Gaoshun está aqui?
Basen não era muito bom em lidar com mulheres. E quão ruim ele era? Ruim o suficiente para que houvesse receios de que ele nunca conseguisse deixar descendentes para a posteridade.
— Se você não se sente desconfortável em ficar sozinha com Taomei e Basen, Xiaomao, posso ir embora — disse Gaoshun, embora o vinco entre suas sobrancelhas estivesse mais profundo do que de costume. Maomao decidiu só deixar rolar.
[Noelle: Gaoshun todo preocupado com o caos que sua família pode causar para Maomao kkkkkk]
— Mãe... — resmungou Basen. Lá estava ele, conduzindo um interrogatório sob o olhar atento dos próprios pais. Aquilo sim era proteção exagerada.
A menina era apenas uma criança. Será que isso ainda era demais para o Basen lidar?
Ele parece lidar bem comigo e com a senhorita Chue. Ela conseguia entender no caso de Chue; ela era uma espécie de criatura rara. Talvez Basen considerasse Maomao parte da mesma categoria. Isso fez com que ela franzisse um pouco a testa.
— O interrogatório não está indo bem? Quer que a senhorita Chue cuide disso? — perguntou Chue, aproximando-se com um sorriso radiante.
— Não, senhorita Chue. Sua ajuda não será necessária — disse Taomei.
— Ah, que pena. Mas eu sou tão boa com crianças. — Chue desenrolou uma fileira de bandeirinhas da manga.
— Desculpem, mas, se me permitem perguntar, até onde chegou o interrogatório? — perguntou Maomao, interrompendo a conversa entre nora e sogra. Os membros do clã Ma tinham todos personalidades muito marcantes, e Maomao temia ficar de fora se não tomasse a iniciativa de se inserir na conversa. O pato de Basen podia ser visto enfiando o bico pela porta para dar uma olhada no que estava acontecendo, mas não chegou a entrar. Ela tinha medo de Taomei.
[Noelle: Até o pato sabe quem é perigoso e não quer ir para panela kkkkkkkkkkk]
— Perdoe-me. No momento, esta criança… o nome dela é Kulumu.
— Ku... Kulumu?
— É escrito assim — disse Taomei, desenhando os caracteres sobre a mesa.
— Entendi, obrigada — disse Maomao. O nome não parecia muito típico da região da capital imperial. Se fosse para comparar, soava mais como algo de Shaoh, ou até mesmo de mais a oeste.
— Diga a ela! Diga que eu sou apenas uma bela jovem cujo único crime foi tentar recuperar o pássaro que criei!
Bela jovem? Todos olharam para Kulumu. Fosse como fosse, ela certamente tinha uma opinião muito elevada sobre si mesma. Naquele momento, porém, dizer isso só parecia provável de desviá-los ainda mais do assunto.
— Ela afirma que a única coisa que quer é seu pássaro de volta e que não tem qualquer intenção maliciosa, e nos informou, sem deixar margem para dúvidas, que, por isso, devemos devolver o animal a ela e deixá-la ir — explicou Taomei.
— Que garotinha exigente — disse Chue. Era exatamente o que Maomao estava pensando.
— Quem se importa?! Eu criei aquele pássaro! Aqui, olhem isto! Dá para ver que ele gosta de mim!
— Não tenho certeza de que dá.
O pássaro se recusava a olhar para Kulumu. Mesmo a uma distância tão curta, a criatura parecia estar usando uma estranha máscara.
— Eu já disse que preciso disso! — Kulumu colocou uma máscara que combinava com sua roupa preta. Finalmente, a coruja se virou em sua direção. — Hehe, estão vendo? Eu a criei desde que ela saiu do ovo. E fiquei vestida assim o tempo todo.
— O que significa que ela responderia a qualquer pessoa vestida desse jeito. Não apenas a você — observou Maomao.
Kulumu ficou de queixo caído. — Não, é verdade! Você precisa acreditar em mim! Como você pode não confiar em uma criança tão doce e inocente?! — Ela parecia prestes a começar a chorar. — Eu até sei qual é a comida favorita dela!
— Ora, mas você é mesmo uma gracinha. É frango — disse Taomei, pegando um pedaço de carne com os hashis e estendendo-o para a coruja, que pulou até ele e o bicou avidamente.
Kulumu pareceu ainda mais escandalizada.
— Acontece que você não precisa de um pijama preto, desde que tenha comida.
Por trás da máscara, Kulumu soltou o que parecia um soluço sufocado.
Basen, enquanto isso, estava simplesmente parado ali, sem dizer uma palavra. Sua mãe estava cuidando de tudo. Na verdade, ele se parecia muito com Gaoshun, que estava ao seu lado, obviamente rezando para que nada acontecesse.
— N-Não... Eu... Eu criei ela! Ela é minha! — insistiu Kulumu.
— E você pode provar isso para nós? — perguntou Maomao.
— E-E-Eu gostaria de poder...
— Nossa, senhorita Maomao, você é tão impiedosa com crianças quanto é com todo mundo — disse Chue, que, a essa altura, estava apenas fazendo comentários sarcásticos enquanto Taomei oferecia mais frango. Ao que parecia, Chue estava sendo respeitosa com a sogra, apesar da liberdade que parecia tomar com o sogro e o cunhado.
— É fácil criticar, mas até mesmo crianças podem causar um incêndio, como diz o ditado. Quando você fica rondando a casa de uma pessoa poderosa, vai acabar se metendo em problemas, mesmo sendo criança, não vai? — disse Maomao.
— Justo. — Chue pegou o frango e estava prestes a colocá-lo na própria boca.
— Ah, senhorita Chue, frango cru é perigoso. Se vai comer, cozinhe ele primeiro.
— Ops! Foi mal.
Chue podia ser uma gulosa de estômago de ferro, mas até ela provavelmente deveria evitar carne de porco e frango crus.
— Eu estou falando sério... Eu criei ela! Eu m-mesma choc... choquei o ovo — disse Kulumu.
— É mesmo? E onde conseguiu o ovo? Como o chocou? E como a coruja escapou? Conte para nós — pediu Maomao.
Kulumu fungou profundamente mais uma vez e então começou a falar. — O o-ovo, eu... eu consegui de alguém. De um caçador que era amigo do meu pai. Ele disse que não precisava dele, mas meu pai não quis comprá-lo.
— Um caçador?
— É. Ele estava caçando com falcões e encontrou o ovo nesse ninho, então trouxe de volta. Ele achou que meu pai poderia chocá-lo e criá-lo para vender para algum ricaço.
— Ah...
E aquele pássaro foi o que saiu do ovo.
— Então como você chocou o ovo?
— M-Meu pai sempre mantém o quarto bem aquecido. Ele usa bastante combustível e, se fica quente demais, nós abrimos a janela. E, umas cinco vezes por dia, ele vira os ovos. Eu não podia usar o combustível, então mantive o ovo bem perto de mim. Sabe, como uma mãe-pássaro faria. Ele eclodiu depois de uns cinco dias.
— Humm...
— Tenho certeza de que ela está certa. Ovos de pato são chocados da mesma maneira — comentou Basen. Ele sabia o que estava falando; ele cuidou daqueles patos havia tempo suficiente. Maomao só conhecia vagamente os métodos para chocar ovos, mas aquilo parecia estar correto.
Dessa vez, Basen se virou para Maomao. — E então? O que você acha?
— Acho que parece plausível. É detalhado demais para ser uma história que ela inventou na hora.
— Concordo. É interessante descobrir que patos e corujas são chocados da mesma maneira.
Interessante, mas, infelizmente para Basen, irrelevante. Por que ele estava tão obcecado por patos ultimamente, afinal?
Sim, tudo isso é basicamente plausível...
Mas alguma coisa ainda a incomodava. — Então você criou essa coruja com a intenção de vendê-la?
— N-Não, não criei!
— Imaginei que não. — Maomao puxou um punhado da roupa preta de Kulumu.
— Você estava esperando devolvê-la à natureza, não estava?
Depois de um instante, Kulumu respondeu: — Sim... Eu até a ensinei a pegar ratos e insetos para que ela pudesse caçar sozinha.
— Mas então venderam ela sem você saber.
— Sim! Pelo meu pai idiota! — Ela cerrou os punhos. — Quando ele viu o rosto incomum e a cor engraçada dela, esperou até eu sair e a vendeu. Ele nem me perguntou! Eu não tinha um parceiro para ela, então ia deixá-la voltar para a floresta. Esse era o objetivo de toda essa fantasia sufocante!
Kulumu estava obviamente furiosa, mas aquela estava longe de ser uma história incomum. Em Li, o chefe da família geralmente tinha o direito de fazer o que quisesse com os bens das mulheres e das crianças.
Talvez fosse mais surpreendente se você vivesse em algum lugar onde as mulheres tivessem uma posição mais forte, pensou Maomao. As filhas eram comumente tratadas como ferramentas a serem usadas em casamentos políticos ou como uma forma de conseguir um dote. Vender uma menina para o distrito dos prazeres era, essencialmente, a mesma coisa.
— Entendo. Talvez eu possa fazer algumas perguntas enquanto organizo meus pensamentos? Essas perguntas se baseiam inteiramente nas minhas suposições, então me corrija se eu estiver errada.
— Está bem. — Kulumu fungou e assentiu.
— Seu pai não é um falcoeiro, mas ganha dinheiro domesticando falcões e outras aves incomuns e vendendo-as para pessoas ricas, certo?
Kulumu assentiu. — Ele também caça. Mas os animais de estimação rendem mais.
— E para quem ele vendeu a coruja? Foi para a filha do Mestre Gyoku-ou, o dono desta casa?
— Não! Ela é a filha adotiva dele. O Rei Rouxinol não tem uma filha biológica dessa idade. — Kulumu tinha parado de fungar; sua voz estava surpreendentemente clara e firme.
— O Rei Rouxinol? — perguntou Maomao. Ela nunca tinha ouvido aquela expressão antes. Filhas adotivas não eram exatamente incomuns, de qualquer maneira. Maomao não esperava que aquilo fosse o ponto que faria Kulumu se irritar.
— É o nome do personagem principal de uma peça. Ele resolve os problemas mais difíceis com rapidez e elegância! A história foi baseada em um antigo duque. Alguém deu esse apelido ao Gyoku-ou porque o nome dele significa Rouxinol de Jade.
Kulumu podia parecer jovem, mas Maomao começava a perceber que ela era uma criança bastante esperta, com um vocabulário muito desenvolvido para a sua idade.
— O Mestre Gyoku-ou certamente parece popular na capital do oeste.
— Acho que sim. Ajuda o fato dele ser o filho mais velho do Mestre Gyokuen, que transformou esta cidade no que ela é, mas ele é muito amigável. Ele até conversa com pessoas comuns.
— É mesmo? — Maomao achava que aquele homem, Gyoku-ou, não fazia muito sentido para ela. Mas, naquele momento, havia perguntas mais importantes a fazer. — Então sua coruja foi vendida à filha do Mestre Gyoku-ou, mas depois escapou e começou a viver aqui nesta casa, certo?
— Mais ou menos isso.
— Como você descobriu que a coruja tinha escapado?
— Ah, bem, o culpado veio até mim e pediu desculpas.
— O culpado? — Maomao lançou um olhar para Chue. Taomei e Basen pareciam igualmente surpresos.
— Posso não parecer grande coisa, mas tenho contatos com a família Gyoku. Eles até me ensinaram a escrever.
— Uau! E aqui você só parece apenas uma criancinha imunda — murmurou Chue.
— Quem você está chamando de imunda?! Eu sou uma mulher linda, como eu disse! — rebateu Kulumu. Ao que parecia, ela já tinha superado a crise de choro.
— Eu ficaria muito interessada se pudesse explicar. Se me permite dizer, você não parece alguém cuja posição normalmente lhe daria acesso a esta mansão. — Taomei tinha colocado de outra maneira, mas essencialmente estava dizendo a mesma coisa que Chue. Gaoshun só conseguia lançar um olhar suplicante para a esposa e a nora, implorando silenciosamente para que não fossem tão rudes.
— Eu era muito próxima da mãe do Gyoku-ou, a esposa do Mestre Gyokuen. Ela é parente do meu pai. Foi assim que começamos a vender pássaros para gente rica. Eu cheguei a ver a filha do Gyoku-ou, ou sei lá quem ela é, quando entregamos o pássaro. Tentei pedir que ela o devolvesse, mas parecia que ela não sabia o que fazer. Acho que ela não podia simplesmente devolver algo que recebeu do meu pai.
— Então foi a filha quem deixou o pássaro escapar — sugeriu Maomao. Ela precisava admitir que não tinha os melhores sentimentos pela jovem, que foi enviada para a capital imperial como parte de uma manobra política, mas aquilo não era culpa da garota. Na verdade, ela não parecia ser uma pessoa ruim.
— Não sei dizer. Tudo o que recebi foi uma mensagem: Ela escapou. Desculpe. Eu sabia que o que queriam dizer era que queriam que eu pegasse. Como eu disse. Inocente.
— Não sei quanto a isso. Você deu um baita susto aos moradores desta casa — disse Maomao.
— Grr — rosnou Kulumu, soando como um cachorro selvagem.
— Acho que já entendemos, senhorita Maomao — disse Chue.
— Sim. Até certo ponto...
— Mas isso não é o bastante para você, não é, senhorita Maomao? Tem mais alguma coisa que quer perguntar.
Chue estava certa. Maomao não estava principalmente interessada em saber por que Kulumu estava rondando a mansão.
— Tudo bem. Talvez você possa compensar o transtorno que causou respondendo a algumas perguntas.
— Sim, acho uma ótima ideia — disse não Kulumu, mas Taomei.
Maomao manteve um olho em Taomei enquanto perguntava: — Sua família cria pássaros. Vocês costumam usá-los como meio de comunicação?
— Hoje em dia, não. Acho que antigamente usávamos, e conhecemos umas pessoas que criam pombos.
Maomao cruzou os braços, pensativa. — Então vocês já praticaram falcoaria?
— Sim, praticávamos. Meu pai desistiu porque achou que ganharia mais dinheiro vendendo coisas para gente rica. A gente costumava caçar coelhos, e até raposas às vezes. É justamente por isso que ele não queria aquele ovo… você precisa de falcões ou gaviões para caçar animais grandes o bastante para valer a pena. É melhor ter o quê por perto, não é? Um animal de estimação ou alguma coisa que consiga caçar? Mas é mais fácil criar animais de estimação.
Ela estava certa; uma coruja só conseguiria caçar ratos ou, no máximo, coelhos pequenos.
— Nesse caso, vocês poderiam treinar os pássaros que criam para caçar apenas animais específicos?
Kulumu franziu a testa. — A gente nunca fez isso, mas acho que não é impossível. Às vezes, as pessoas alimentam os pássaros com uma coisa específica desde o dia em que nascem, para influenciar a dieta deles. Ou você pode dar recompensas específicas de acordo com aquilo que eles caçam para você. Veja, na falcoaria, quando o pássaro traz uma presa, você troca a presa por comida. Eles podem aprender o que faz com que recebam seus petiscos favoritos e, então, começar a procurar mais essas coisas.
Sim, Kulumu era esperta mesmo. Apesar da voz estridente, ela era muito mais madura do que Chou-u, que tinha a mesma idade.
— Isso significa que talvez fosse possível ensinar os pássaros a caçar gafanhotos — refletiu Maomao.
— Gafanhotos? — Basen perguntou imediatamente. Fosse lá o que ele estivesse pensando, aquilo fez com que se virasse para o pato, cujo bico ainda aparecia pela fresta da porta.
— Gafanhotos? — repetiu Kulumu. — Você precisaria de um pássaro que não fosse muito grande, como esse carinha aqui. E eles preferem carne, então seria mais prático ensiná-los a trocar gafanhotos por comida.
— Entendo. Então, mais uma pergunta — disse Maomao. Ela respirou fundo e então soltou as palavras de uma só vez: — Você faz parte da tribo dos Leitores do Vento?
Aquilo fez Kulumu recuar por um instante. — Como você sabe esse nome?
Maomao cerrou o punho. — Então você sabe sobre eles!
Kulumu, a mulher que se autoproclamava bonita, cruzou os braços e murmurou: — Hum… — E então disse: — Não sei se chegaria a tanto. Ouvi dizer que meu bisavô costumava ser chamado assim quando todo mundo ainda vivia nas planícies. Minha avó mencionou isso algumas vezes para mim, mas não diria que sei muita coisa sobre eles.
— Poderia nos contar o que sabe?
— Hmm. Não sei… — Kulumu ficou muito satisfeita ao descobrir que tinha algo que Maomao queria. — Não posso contar de graça… — Ela deu um sorrisinho malicioso. Ela queria dinheiro!
Um par de olhos predatórios brilhou atrás dela. — Por falar em liberdade, talvez você prefira ser entregue às autoridades? — Taomei estava sorrindo. Por alguma razão, Basen, que nem estava envolvido naquilo, se encolheu, e até a coruja bateu as asas e estremeceu. Gaoshun usava a expressão impassível de um monge contemplando o Vazio, enquanto Chue parecia estar fingindo ser uma árvore.
Kulumu fez uma careta. Não era de admirar que até Gaoshun vivesse maravilhado com a própria esposa.
Maomao tossiu de forma significativa. — A negociação já acabou. Você responde às nossas perguntas e nós não a entregamos à autoridade. Também há a questão do tratamento que você receberá daqui para frente...
— Sim. Por exemplo, ainda estamos decidindo o que acontecerá com esta coruja — disse Taomei, retomando o assunto.
— Está bem, entendi... Minha avó me contou que, há muito tempo, uma das tribos nômades foi atacada e a maior parte de seus membros foi morta. Ela disse que as mulheres foram levadas como esposas e as crianças foram vendidas como escravas.
Isso estava de acordo com o que Maomao tinha descoberto. Mas alguma coisa a incomodava.
— Ouvi dizer que os Leitores do Vento usavam pássaros. Isso significa que o método deles para chocar e criar esses animais não desapareceu com eles?
— Desculpe, acho que não me expressei muito bem. Os Leitores do Vento foram exterminados. Pelo menos, a metade deles foi.
— A-a metade? — Maomao e os outros encararam Kulumu, boquiabertos.
— É claro. Os Leitores do Vento sempre vagavam pelas planícies, fazendo algum tipo de ritual ou coisa parecida. Então por que todos eles iriam para todos os lugares juntos, em um grande grupo? É melhor se separar, não é? Ainda mais porque eles podiam usar pássaros para conversar uns com os outros e coisas assim. Tá, eu não sei com certeza se foi exatamente a metade. Talvez um terço, ou até um quarto. Meu bisavô estava com um deles.
— O que aconteceu com o restante deles? — perguntou Maomao. — Todo mundo trata os Leitores do Vento como se tivessem desaparecido. E o ritual não pôde continuar, pôde?
— Hum... Tenho que dizer que realmente não sei. Meu bisavô era da parte da tribo que sobreviveu, eu acho, mas morreu quando minha avó tinha uns dez anos. Ela disse que ele ensinou um monte de coisas sobre pássaros para ela, mas, naquela época, eles já não eram mais nômades. Ele já vivia na cidade. Ela disse que nunca precisaram se preocupar com comida, porque ele tinha um cliente fixo que comprava os pombos que ele criava.
— Um cliente fixo?
— Acho que sim. Provavelmente alguma pessoa importante de algum lugar, foi o que ela disse, mas foi só isso que me contou. Acho que ela mesma não sabia muita coisa.
Todos ficaram em silêncio absoluto.
— Hã? Ei, uh... Eu falei alguma coisa errada?
— Não — disse Maomao lentamente. — Não, na verdade, muito obrigada. — Pela primeira vez, ela realmente entendeu o que significava a expressão “um raio caindo do céu”.... Não, aquilo não era exatamente verdade… ela tinha pensado que Kulumu talvez tivesse alguma ligação indireta com a tribo dos Leitores do Vento, mas nunca esperou chegar tão perto do cerne da questão.
— Então, posso levar minha amiga para casa ou não? Encontrei o lugar perfeito para soltá-la.
— Você finalmente conseguiu recuperá-la e vai soltá-la? — perguntou Maomao.
— Esse sempre foi o plano. Foi isso que minha avó me ensinou.
Maomao encontrou o olhar de Taomei. Ela assentiu uma única vez, e Maomao entregou a ave enjaulada a Kulumu, que abriu um enorme sorriso.
[Noelle: Gaoshun que manda? Não, Taomei é dona da porra toda kkkk]
— Talvez você possa responder a uma última pergunta?
— Sim? O quê? — Kulumu estava muito animada agora que tinha sua coruja de volta; Maomao conseguia ver seus dentes da frente enquanto ela falava.
— Você disse que seu pai era parente da mãe do Mestre Gyoku-ou. Posso presumir que a mãe dele também fazia parte da tribo dos Leitores do Vento?
— Não posso afirmar isso com certeza. Mas ela parecia gostar muito de pássaros, e definitivamente sabia como lidar com eles.
Se a mãe de Gyoku-ou fosse uma Leitora do Vento, muitas peças daquele quebra-cabeça começariam a se encaixar.
Esta é uma informação valiosa… Mas, se Maomao acreditasse no que Kulumu tinha contado, aquilo também criaria várias contradições. Por exemplo, se a tribo dos Leitores do Vento não foi completamente exterminada, por que não continuaram o ritual depois do ataque?
Isso colocaria em dúvida o propósito do que Nianzhen, o servo, estava fazendo.
Depois havia a questão de por que os Leitores do Vento sobreviventes tinham desaparecido.
Sim, havia muitas perguntas.
Consigo pensar em uma possibilidade.
Suponha que alguém tenha feito as pessoas acreditarem que os Leitores do Vento tinham sido destruídos e, então, utilizado seus talentos para outros fins.
Pessoas capazes de transmitir informações rapidamente teriam uma vantagem estratégica.
Se fosse possível reunir um povo que havia sido “exterminado” e mantê-lo em um único lugar, haveria inúmeros usos para ele. Aquilo fazia sentido quando Maomao pensava no bisavô de Kulumu, que já vivia na cidade. Também explicaria sua morte bastante prematura.
Depois que o conhecimento necessário fosse transmitido, as pessoas que se lembrassem do passado só seriam um empecilho.
— Ei! Eeeeei! Senhorita? Já posso ir para casa?
Maomao saiu de seu devaneio quando Kulumu a cutucou. Ela devia ter ficado perdida em seus pensamentos.
— Desculpe. Poderia nos dizer como podemos entrar em contato com você? Talvez eu consiga apresentá-la a um cliente que ficaria muito interessado nos seus pássaros.
— Credo... Por que você está com uma cara tão assustadora?
Ao que parecia, Kulumu não estava caindo na tentativa de Maomao de sorrir.
Ela tentava parecer amigável, mas seu rosto transmitia: Nem morta que eu vou deixar essa fonte preciosa de informações escapar das minhas mãos.
— Ho ho. Não se preocupe, nós jamais maltrataríamos uma criança. Venha, agora, não gostaria de nos apresentar ao seu papai? — perguntou Taomei, com os olhos brilhando. Kulumu estremeceu e então assentiu.
Taomei é forte demais, pensou Maomao. Ela era uma mulher extraordinária, de uma maneira diferente tanto de Suiren quanto da madame.
Ficou terrivelmente silencioso.
Chue estava se contendo, e Basen tinha adotado a expressão cuidadosamente contemplativa de seu pai. Maomao se perguntou se era assim que Gaoshun tinha sido moldado no homem que era hoje. Naquele momento, ele estava parado ali, fazendo o que parecia ser sua melhor imitação de uma parede.
Eles mandaram Kulumu para casa acompanhada por um dos criados, e então Taomei chamou Maomao.
— Por acaso ainda há alguma coisa que você não está nos contando? — perguntou ela. Seu tom era educado, mas a mensagem era inconfundível: Se sabe de alguma coisa, desembucha.
— Tenho minhas suspeitas, senhora, mas não passam disso. Suposições, repletas de conjecturas absurdas. Hesito até em dar voz a elas.
Luomen tinha ensinado a Maomao que ela precisava assumir a responsabilidade pelas próprias palavras. Ela não estava prestes a tirar conclusões concretas apenas com base em suposições não comprovadas.
— Talvez, mas meu… nosso… mestre não está procurando conclusões cristalinas. Faz parte da natureza dele absorver tudo o que puder. Talvez pudesse compartilhar seus pensamentos conosco, para ajudá-lo a considerar como se preparar para o que está por vir. — Ela voltou aqueles olhos predatórios para Maomao. Fale logo!, diziam eles.
— Muito bem, senhora. — Ela sabia que Taomei levaria tudo o que dissesse para “o mestre deles”, Jinshi.
— Não me conte. Acho que você deveria falar diretamente com ele.
— Realmente não acho que haveria problema em simplesmente conversarmos aqui. — Ela tinha certeza de que Taomei não distorceria suas palavras ao contar a Jinshi sobre elas.
— De forma alguma. Meu marido estava justamente dizendo que o Príncipe da Lua poderia aproveitar uma oportunidade para relaxar um pouco.
— Como é?
O sorriso de Taomei era quase travesso. Maomao lançou-lhe um olhar furioso, mas não podia fazer mais nada além disso.
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