Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.16: Volume 10 – Capítulo 16 – Capítulo 16: Um Momento de Paz

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.16
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 16 – Capítulo 16: Um Momento de Paz

Capítulo 10.16

2.411 palavras~10 min de leitura

Por algum tempo depois disso, os dias de Maomao foram tranquilos.

Isso não quer dizer que não houvesse trabalho. Os medicamentos do consultório precisavam ser repostos usando ingredientes que pudessem ser encontrados na capital do oeste, e ela precisava se certificar de que eles funcionavam como esperado. Ela também tentou conseguir alguns instrumentos médicos para compensar a falta de equipamentos que tinham.

O estrategista maluco também apareceu no anexo mais de uma vez. Maomao vinha tentando evitá-lo e aos problemas que ele causaria, mas, antes que percebesse o que estava acontecendo, o charlatão já o estava conduzindo para dentro e convidando-o para tomar chá. Ela só pôde colocar a cabeça entre as mãos.

O único outro acontecimento digno de nota foi que a pata de Basen começou a botar ovos. Ele ficou muito irritado com Maomao quando ela tentou comer um deles, ele insistia que criaria o filhote, mas, como o ovo não tinha sido fecundado, nenhum filhote sairia dali. Quando Maomao lhe explicou isso (lembrando muito suas aulas no palácio interno), ele ficou vermelho igual a um tomate. E aquele homem diz ser um adulto? Meu Deus.

Ela levou um susto quando avistou Gaoshun e Taomei caminhando de braços dados pelo pátio. Seu olhar demorou um pouco mais do que deveria, surpresa e se perguntando se eles se davam melhor do que ela imaginava, quando os olhos da predadora brilharam. Gaoshun foi subitamente empurrado para longe pela esposa, que continuou andando como se nada tivesse acontecido. Ser tímida era uma coisa, mas o marido mais jovem acabou sendo lançado dentro de um lago. Uma tragédia.

[Noelle: ai que fofos genteeee o Gaoshun sempre meigo amei]

Os dias se transformaram em semanas, e logo já fazia um mês inteiro desde que o Irmão do Lahan tinha partido em sua jornada. Maomao continuava examinando a queimadura de Jinshi, mas achava cada vez mais difícil ignorar a vontade de arrancar um pouco de pele de suas costas.

— Parece que as coisas estão indo bem — disse Jinshi certa vez. Ele segurava uma carta amassada que, quando a mostrou a ela, continha um relatório detalhado sobre o estado de algumas terras agrícolas.

[Noelle: gente e o governador tá sumido disso tudo né? Estou até com medo desse irmão da imperatriz quando ele aparecer kkkkkk]

— Com o Irmão do Lahan, quer dizer? — perguntou Maomao, examinando a caligrafia, que era organizada e cuidadosa, embora tendesse um pouco para a direita. A carta precisava poder viajar por pombo, então, infelizmente, relatar a situação atual consumia todo o pouco espaço disponível. O Irmão do Lahan nem sequer tinha espaço para assinar o próprio nome. A carta terminava com o nome da aldeia onde ele estava quando a escreveu, e só.

É uma pena ele não ter espaço para assinar, pensou Maomao. Ela conseguia imaginá-lo em alguma planície distante, com os dentes cerrados em torno de um lenço enquanto tentava suportar a agonia. Será que algum dia chegaria o dia em que eles descobririam como ele realmente se chamava? Ninguém sabia. Ninguém sabia.

— Sim, é isso mesmo. Eu sabia que isso seria útil. — Jinshi olhou para a gaiola do pássaro e sorriu. O pombo arrulhou. — Eles podem funcionar apenas em uma direção, mas poder transmitir informações com tanta rapidez é uma grande vantagem.

Ele também os usava em suas comunicações com a Imperatriz Gyokuyou. Como não tinha voltado a tocar no assunto da sobrinha dela ultimamente, Maomao presumiu que a Imperatriz estava cuidando do assunto.

Ela olhou para o pombo, que bicou alguns grãos de painço e voltou a arrulhar. — Então você enviou alguns desses pássaros com o Irmão do Lahan?

— Sim. Consegui pegar alguns emprestados por meio daquela garota — Kulumu, era esse o nome dela?

— Quantos você enviou com ele? — perguntou Maomao casualmente.

— Três. Ele parecia capaz de cuidar deles. Podemos mandar mais enviando um cavaleiro rápido até o último lugar onde ele esteve.

Jinshi abriu um mapa da Província de I-sei. Suiren apareceu e desenhou círculos ao redor das aldeias de onde haviam recebido cartas.

O Irmão do Lahan realmente está trabalhando duro, pensou Maomao. Jinshi tinha lhe dado a tarefa aparentemente impossível de chegar a todas as aldeias em dois meses, mas o Irmão do Lahan já estava quase no caminho de volta. Esse cara realmente sabe fazer o trabalho.

Ela também suspeitava que ele não percebia que era justamente sua capacidade de fazer bem o trabalho que fazia as pessoas empurrarem tantos trabalhos para ele. Se fosse esperto, diminuiria o ritmo em uns vinte por cento, em vez de dar tudo de si todas as vezes.

— Maomao.

— Sim, senhor?

Jinshi parecia ter se acostumado a usar o nome dela. Ela se lembrava de como, durante muito tempo, ele simplesmente a chamava de “você”.

— Eu... Hum. Parece que sua carga de trabalho diminuiu ultimamente.

— Sim, eu diria que sim. — As tarefas mais urgentes tinham sido resolvidas. Eles tinham preparado medicamentos suficientes para durar algum tempo e até conseguido as ferramentas de que precisavam.

— Talvez você pudesse se dedicar a outras coisas.

— Ah! — Maomao bateu palmas ao se lembrar. — A colheita do trigo está chegando. Acha que eu poderia ajudar com isso, senhor?

Isso não parecia ser o que Jinshi esperava. — A colheita do trigo? Por quê?

— Senhor! Estou muito curiosa para saber se cresceu alguma cravagem.

— Cravagem? — Pelo jeito, ele não reconhecia a palavra.

— É um tipo de doença em que o trigo fica preto. Em termos simples, é tóxico para o consumo.

— Sim, isso parece bem simples.

— Quando o trigo for moído, será tarde demais para identificar, então gostaria de examiná-lo agora.

A cravagem podia ser usada para induzir abortos e era comum encontrá-la em grande quantidade em farinha de baixa qualidade, então era melhor ter certeza. Ao mesmo tempo, ela poderia ver exatamente o tamanho da colheita.

— Entendo. Muito bem. Vou preparar uma carruagem para você.

— Isso não será necessário, senhor. Um passarinho me contou que o Mestre Rikuson fará uma inspeção em breve, e pensei que talvez pudesse viajar com ele.

A espécie específica do passarinho? O médico charlatão, que por acaso tinha ouvido isso de algum lugar. Maomao confirmou a veracidade do rumor com Chue.

— Rikuson...

— Sim, senhor. Há muitas coisas sobre as quais gostaria de conversar com ele. Pensei que poderia ser uma boa oportunidade.

Ela acabou não vendo Rikuson novamente depois daquele primeiro dia na capital do oeste. Ela precisava conversar com ele pessoalmente.

Jinshi pareceu brevemente indeciso, mas então disse:

— Tudo bem. Vou avisar Rikuson que você irá com ele.

— Muito obrigada, senhor.

[Noelle: Tá querendo ser enforcada de novo mulher ? lkkkkkkkkkkk]

Havia outra coisa que ela queria fazer nessa viagem: colher ervas medicinais nas planícies pelo caminho. Algumas das amostras que tinha coletado na viagem anterior haviam apresentado resultados promissores. Era melhor se apressar e buscar uma cesta para colocá-las.

— Se não se importa, Mestre Jinshi, eu preciso ir!

— Ei!

Jinshi parecia querer dizer mais alguma coisa, mas Maomao o ignorou. Ela saiu trotando, praticamente saltitando enquanto ia preparar tudo.

Alguns dias depois, Maomao partiu para a aldeia agrícola.

— Nossa, que tempo maravilhoso! — disse Chue, espreguiçando-se. Ultimamente parecia que Chue acompanhava Maomao aonde quer que ela fosse. — Acho que não precisava ter me preocupado com a chuva, afinal! — Ela se inclinou para fora da carruagem para dar uma boa olhada: o tempo realmente estava ótimo.

Maomao sentiu o cheiro da grama na brisa enquanto deixava a carruagem sacolejante levá-la adiante.

— O tempo deve continuar limpo por algum tempo. Fora da estação chuvosa, a Província de I-sei não recebe precipitação digna de nota — disse Rikuson, sentado no banco à frente delas. Ele usava uma roupa fácil de se movimentar, apropriada para visitar uma aldeia agrícola.

— Parece perfeito para a colheita do trigo — disse Chue. Se chovesse durante a colheita, o trigo poderia começar a brotar, o que reduziria sua qualidade. E, se não pudesse ser devidamente seco, poderia simplesmente apodrecer.

— É mesmo. Mas o tempo pode ser imprevisível. Já ouvi falar até de tempestades de granizo acontecendo na época da colheita.

— Granizo pode ser bem difícil de prever, não é? — disse Maomao. Ela não era especialista em agricultura; aquelas intervenções simpáticas, mas inofensivas, eram o máximo que ela podia oferecer. Se o Irmão do Lahan estivesse ali, provavelmente estaria cerrando o punho e discorrendo sobre os inúmeros trabalhos da temporada de colheita.

Maomao olhou para o banco do condutor: Basen segurava as rédeas. Lihaku teria sido igualmente bom como guarda, mas, como Basen a tinha acompanhado da última vez, ele faria o mesmo novamente. Sua pata também estava ali. A essa altura, ela era praticamente o mascote deles.

Maomao olhou para Rikuson. — O que te levou a querer fazer um levantamento das aldeias agrícolas, Rikuson? — perguntou ela. Essa era a pergunta que ela queria fazer pessoalmente. Ela suspeitava que Jinshi já tivesse lhe dado a resposta indiretamente, mas queria ouvi-la da própria boca de Rikuson.

Rikuson olhou ao redor, lançando — pelo que pareceu a Maomao — um olhar particularmente demorado para seus subordinados que seguiam atrás da carruagem. Então, ele disse: — Há vários motivos. Qual deles gostaria de ouvir, Maomao?

Conforme ela havia pedido, ele se dirigiu a ela sem nenhum tratamento de cortesia ou título. No passado, ele havia sido excessivamente respeitoso com ela. Chue parecia intrigada, no entanto, com o fato deles falarem em termos tão familiares.

— Todos eles — disse ela, com firmeza.

— Muito bem. O primeiro tem a ver com as pragas de insetos. Tenho contato com o senhor Lahan e costumo contar com seus conhecimentos e sua experiência. Ele me alertou que, caso houvesse uma praga em Li, provavelmente viria do norte ou do celeiro a oeste.

De fato, uma praga de gafanhotos de pequena escala tinha ocorrido nas regiões férteis do noroeste no ano anterior. O assustador nesses insetos era que, se fossem deixados à própria sorte, causariam uma destruição cada vez maior.

— Por motivos que não vou fingir conhecer, tive a honra de ser enviado para a capital do oeste, onde sou tratado essencialmente como um burocrata. O termo mais educado para o que faço talvez seja trabalho de escritório, mas, de maneira menos favorável, eu poderia ser chamado de garoto de recados. Parte dos documentos com que lido por acaso trata das colheitas, então acabei me interessando pela disponibilidade de estoques e provisões.

— Mas você realmente precisa ir pessoalmente fazer essas visitas?

— Esse é o segundo motivo. — Rikuson ergueu dois dedos.

Os olhos de Maomao se arregalaram. Ela não tinha certeza do que ele queria dizer.

Rikuson sorriu, quase se desculpando. — Acho que talvez você já saiba disso: os números dos relatórios frequentemente não correspondem às quantidades reais?

Ele estava falando das tentativas de adulterar as quantidades colhidas? De fato, parecia que coisas assim estavam acontecendo nas aldeias agrícolas.

— E qual é o terceiro motivo? — Rikuson tinha dito que havia vários motivos, e Maomao não achava que apenas dois pudessem ser considerados vários.

— O terceiro motivo? — Sua boca ficou aberta por um instante. Então ele disse: — Há muito tempo, ouvi falar de uma forma especial de cultivo. Algo que reduziria a quantidade de insetos nocivos.

— Você está se referindo a revira de outono. Então foi por isso que você conversou com Nianzhen.

— Isso mesmo. Agora você entende? — O sorriso de Rikuson era gentil. Maomao achou que ele parecia mais magro do que da última vez que o tinha visto.

— Quem te falou sobre a revira de outono? — perguntou Maomao.

— Minha mãe e minha irmã mais velha. Minha mãe era uma comerciante que fazia negócios por terras muito distantes, e minha irmã a ajudava. Aprendi bastante com elas quando era mais jovem. — Rikuson olhou pela janela da carruagem, mas não parecia estar prestando atenção à paisagem.

— Faz sentido — disse Maomao.

O que mais preciso perguntar?

Ela ficou pensando nisso por tanto tempo que, quando percebeu, já haviam chegado à vila, com a carruagem balançando ao reduzir a velocidade. Maomao colocou a cabeça para fora da janela. O trigo brilhava dourado nos campos, parecia que a colheita seria abundante. Ela também viu folhas verdes, o que indicava que os moradores da vila haviam plantado batatas.

Muito bem. Que tal nos dedicarmos ao trabalho agrícola por um tempo? A coleta de ervas poderia ficar para a volta. Maomao tinha acabado de saltar da carruagem, animada e pronta para começar, quando viu um cavaleiro veloz se aproximando por trás. Isso, por si só, não era tão extraordinário, mas, pela expressão do homem, estava claro que havia algo errado.

Será que ele foi atacado por bandidos?

Não, não era isso.

O cavalo parou diante de Maomao e seu grupo, com a língua pendendo para fora da boca enquanto cambaleava para um lado. Seu cavaleiro usava o uniforme de um soldado.

Acho que o reconheço. Era um dos guardas que costumavam acompanhar Jinshi. Isso significava que ele provavelmente ocupava uma posição razoavelmente alta — então o que estava fazendo, se matando de cansaço para alcançá-los?

— O que está acontecendo? — perguntou Maomao.

Ela estendeu água para ele, mas o homem balançou a cabeça. Sua boca se abriu e fechou algumas vezes; ele não disse uma palavra, apenas lhe entregou um pedaço de papel.

Que diabos?

O papel, dobrado o máximo possível, parecia ser uma carta do Irmão do Lahan.

— O Príncipe da... Lua... disse que, se você visse isto... entenderia...

Entenderia o quê? perguntou-se Maomao, perplexa, enquanto abria a carta.

Havia uma única linha percorrendo a página. Ela sequer tinha sido desenhada com um pincel; parecia desleixada, como se o Irmão do Lahan tivesse usado um pedaço de carvão como instrumento improvisado para escrever. Mas não era só isso: a linha tinha sido violentamente riscada outra vez. A carta nem sequer dizia de onde vinha, mas não havia dúvida de quem a tinha enviado.

O Irmão do Lahan tinha precisado tanto transmitir algo a eles que encontrou tempo, em meio a algum tipo de caos, para enviar um pombo com aquela mensagem.

Eu sei o que é isso, pensou Maomao. Ela percebeu que reconhecia os rabiscos escuros. Eram semelhantes ao desenho que a garota Jazgul tinha lhe dado no ano anterior, depois da visita da sacerdotisa Shaohnesa.

Naquela época, Maomao não tinha entendido o que aquilo significava.

Mas agora eu entendo.

A linha era o horizonte que se estendia diante dela. E a mancha era uma nuvem escura.

Ela olhou para o céu, que ainda estava límpido e azul, e disse:

— Eles estão chegando.

[Noelle: genteeee até arrepiei aqui, bem a vibe : Winter is coming ! ansiosa para ver o que vai acontecer!]

Fim da leitura

Capítulo 10.16 concluído

Volume 10 – Capítulo 16 – Capítulo 16: Um Momento de Paz