Diários de uma Apotecária — Capítulo 11.01: Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Frutas Secas

Diários de uma Apotecária
Cap. 11.01
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Diários de uma Apotecária

Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Frutas Secas

Capítulo 11.01

7.250 palavras~32 min de leitura

Maomao estava diante de um dos fogões, cozinhando. Com medo de se envenenar caso não conseguisse respirar um pouco de ar fresco, ela inspirou profundamente, soltou o ar e então enrolou um pano de mão em volta do nariz e da boca.

Já fazia cinco dias desde o enxame, e finalmente estavam quase livres dos gafanhotos ao redor do consultório médico. Havia alguns sobreviventes… pelo menos até Maomao encontrá-los, momento em que ela os esmagaria sob os pés.

— Ainda precisamos dessas plantas venenosas? — perguntou Lihaku enquanto mexia uma panela grande.

— Sim. Pode haver uma segunda onda. — Maomao picou algumas das ervas em questão com um cutelo e as jogou na panela. — O senhor precisa cobrir a boca, Mestre Lihaku.

— Ah, é só um pouquinho de fumaça, não é? — Ele franziu a testa, sem querer ter aquele trabalho.

— Lembra do que aconteceu quando não tivemos cuidado perto do armazém incendiado? Lembra de chamuscar a cabeça?

— Argh... — Lihaku cobriu obedientemente o nariz e a boca.

[Noelle: ela está se referindo ao caso do armazém no pátio externo que ela investigou com ele e ele não deu muita ideia e acabou pegando fogo kkk isso é do livro dois se não me engano]

— Senhorita Maomao! Senhorita Maomaaaao! — Chue apareceu, anunciada por seus passos característicos, que faziam um distinto toc-toc. Ela carregava uma caixa grande. — Trouxe os remédios e as bandagens extras que você pediu!

— Obrigada. — Maomao examinou o conteúdo da caixa. — É só isso?

— Infelizmente. — Chue fez uma expressão de desculpas. Apesar do tamanho da caixa, não havia muita coisa dentro. Certamente não chegava nem perto da quantidade que Maomao tinha pedido. — Os suprimentos estão escassos em todo lugar. Acho que vamos ter que nos virar com o que temos.

— Sim, claro. Você tem razão.

Os gafanhotos podiam ter ido embora, mas isso não significava que eles podiam relaxar. As pessoas estavam ansiosas, e esse tipo de ansiedade podia levar a surtos de violência. Algumas pessoas estavam feridas, e muitas outras estavam com a saúde debilitada. Os remédios já pareciam estar sempre em falta, mas com uma epidemia por perto, é claro que não teriam o suficiente.

Maomao entregou um pilão e um almofariz a Chue, incentivando-a a trabalhar também. Chue obedeceu, arregaçando as mangas com resignação.

Não acho que vamos ficar sem comida de verdade. Mas existem outros problemas.

Os insetos não tinham alcançado todos os mantimentos armazenados nos silos de grãos, mas havia escassez de frutas e verduras, o que significava que todos teriam uma alimentação desequilibrada no futuro próximo.

O verdadeiro problema vai ser daqui a alguns meses. Os suprimentos precisariam ser rigorosamente controlados até a próxima colheita.

As pessoas podiam ser complexas e difíceis. Simplesmente dizer a elas que tudo ficaria bem e que deveriam relaxar não resolveria. Assim que percebessem que não haveria o suficiente para todos, começariam a estocar comida. Logo haveria escassez, e então as pessoas começariam a passar fome.

Maomao disse: — Tenho certeza de que nosso querido governador interino está bem ciente de tudo isso...

— Pensando bem, Mestre Gyoku-ou é um homem de ação — respondeu Chue, com ênfase.

— Um homem de ação?

Por vários motivos, Maomao não era exatamente uma grande fã de Gyoku-ou, mas uma das marcas da maturidade dela era a capacidade de separar a antipatia pessoal de uma avaliação objetiva.

— Ele enviou provisões e distribuiu comida pela capital do oeste e pelas cidades vizinhas, onde quer que não houvesse comida suficiente. Ser rápido para agir é algo que vale muito.

Uma resposta rápida logo no início ajudaria muito a tranquilizar a população.

— Começou a distribuir imediatamente, hein? Generoso! Eu achava que os poderosos tentariam guardar tudo para si mesmos — disse Lihaku, impressionado.

— Pois é né? Mas ele enviou carruagens cheias de provisões, todas cuidadosamente calculadas com base na população e na extensão dos danos de cada região. — Chue nunca deixava passar nada, não é mesmo? Ela parecia ter verificado tudo isso pessoalmente.

Espera. Será que é... Seria tudo aquilo que Rikuson vinha preparando havia tanto tempo? Ele tinha enviado muitos relatórios a Gyoku-ou. Se o governante tivesse se baseado neles, tudo faria sentido. Se for isso mesmo... Isso mostraria que Gyoku-ou não deixava o orgulho atrapalhar suas decisões e estava disposto a usar qualquer coisa e qualquer pessoa que pudesse, até mesmo aqueles que vieram da região central. Talvez a razão dele ter ordenado que Rikuson permanecesse na vila em vez de voltar diretamente para casa fosse justamente para conseguir uma visão melhor do que estava acontecendo de fato no local.

Maomao não podia oferecer a Gyoku-ou sua aprovação irrestrita, não quando ela sabia como ele tinha usado Jinshi como uma conveniente peça de oposição, mal o tratando como um verdadeiro parente imperial. Ainda assim, ela precisava admitir que, como um daqueles políticos que consideravam seu primeiro dever proteger sua terra natal, Gyoku-ou estava se mostrando bastante eficiente.

Conheço alguém que bem que poderia aprender uma ou duas coisas com ele. Ela se perguntou o que Jinshi achava da maneira como Gyoku-ou o tratava. A audácia disso não parecia incomodá-lo.

No entanto, ele se irritava com a própria incapacidade de agir abertamente. Ele queria ajudar, mas estava de mãos atadas por sua posição de hóspede e visitante. Ainda assim, ele fazia o que podia, como enviar Lihaku com Maomao para a vila agrícola ou fazer aquele estrategista esquisito montar uma equipe para exterminar os insetos. Jinshi era como um pato: remando como um condenado debaixo d’água.

Jinshi nunca parecia excessivamente apegado ao próprio poder. Sim, às vezes ele agia como um homem de autoridade, mas quando foi que ele realmente usou sua posição de irmão mais novo do Imperador?

Talvez durante a rebelião do clã Shi, mas essa é praticamente a única ocasião de que consigo me lembrar.

Naquela ocasião, Jinshi usou sua posição abertamente. Maomao não estava em posição de criticá-lo… ela tinha sido uma das razões para ele ter feito o que fez, mas, de qualquer maneira, aquele foi o momento em que o irmão mais novo de Sua Majestade se mostrou mais visível ao público, reprimindo uma rebelião.

Maomao sabia que, depois disso, Jinshi começou a cumprir os deveres de sua posição na vida. Ele ficou tão ocupado quanto durante seu tempo como “eunuco” (talvez até mais ocupado), mas grande parte de seu trabalho era composta por coisas que lhe eram impostas. Quanto aos projetos que escolhia levar adiante por vontade própria...

Só consigo pensar nos preparativos para enfrentar o enxame.

As pessoas diziam que ele estava se preocupando demais; diziam que ele estava aumentando os impostos de maneira irracional; tanto o povo comum quanto os burocratas o encaravam com desdém, mas, mesmo assim, ele tinha feito aquilo.

Ele deveria ter se mostrado mais. Como fazia quando era eunuco. Desde que voltou à posição de irmão mais novo do Imperador, Jinshi mal tinha usado sua arma mais poderosa: a sua aparência.

Talvez ele tenha se segurado para não ser inundado de pretendentes. Sem a proteção de ser um “eunuco” e agora com o incentivo adicional do poder de ser o irmão mais novo do Imperador, não faltariam mulheres que desejassem se tornar sua rainha.

Pretendentes, hein...

Maomao se lembrou da pequena piada de Rikuson. Ela só podia supor que Chue tivesse relatado isso a Jinshi, junto com todo o resto. Que dor de cabeça.

— Senhorita Chue, você contou tudo? — perguntou Maomao. Deliberadamente, ela não disse o que estava pensando — que Rikuson tinha perguntado, lá na vila, se poderia pedir sua mão em casamento.

— Não sei ao certo a que relato você se refere, mas não se preocupe. Tudo isso é mantido em sigilo absoluto do nosso ilustre estrategista — disse Chue.

Maomao parou por um instante. Então ela tinha contado a Jinshi. Lihaku lançou um olhar para as duas; ele não fazia ideia do que elas estavam falando, mas continuou mexendo a panela.

— Se foi só uma piada, então não tem problema, certo? — disse Chue.

— Certo. E foi só uma piada.

— Certo. Mas algumas pessoas podem levar isso a sério.

Aquilo tinha sido premeditado! Chue sabia exatamente do que ela estava falando. Maomao imaginou Jinshi no seu pior momento. Nossa, ela ia ouvir uma bronca e tanto sobre isso na próxima vez que se encontrassem. Por outro lado, talvez tudo acabasse bem...

— Prontinho, mocinha! — disse o charlatão, mostrando a ela um prato grande e raso, cheio de fileiras de comprimidos. Cada comprimido tinha mais ou menos o tamanho de um grão de arroz e era extremamente uniforme, mostrando que ele tinha usado um molde para fazê-los. Maomao se lembrou de quando conheceu o charlatão: ela ficou chocada ao descobrir que ele produzia as bolinhas de remédio à mão, fazendo com que cada uma tivesse um tamanho ligeiramente diferente.

— Muito obrigada. Se puder cuidar destes agora, por favor.

— Claro! Pode deixar comigo. — O charlatão estava de ótimo humor, embora fosse difícil dizer qual dos dois era o médico e qual era o assistente.

Sem mencionar que, em algum momento, Tianyu tinha desaparecido. Quando Maomao foi procurá-lo para tentar fazê-lo ajudar, ela o encontrou dissecando um antigo animal de criação no refeitório. Na província de I-sei, esperava-se que os adultos soubessem abater animais, então um médico que também soubesse fazer isso não chamava atenção. Maomao chegou até a pensar que talvez Tianyu tivesse se tornado médico justamente porque gostava de dissecar coisas.

— Isto é prática. Não quero perder o jeito. — ele disse, balançando uma das patas do animal de forma provocadora na direção de Maomao. Sendo um idiota, como sempre.

O Doutor You e os outros estavam ocupados tratando os feridos e doentes na cidade. Todos que estavam destacados na residência principal e no escritório administrativo estavam com as mãos ocupadas tentando lidar com as consequências da praga. O estrategista excêntrico, em particular, estava sempre com falta de pessoal, então ele requisitou algumas pessoas do anexo como reforços, deixando o local mais silencioso do que o normal.

Maomao avaliou o anexo enquanto caminhava de volta ao consultório médico. Um número mínimo de pessoas tinha ficado para proteger Jinshi. A presença de pessoas animadas como o charlatão e Chue fazia o lugar parecer movimentado, mas eles eram apenas duas das poucas vozes que podiam ser ouvidas pelo anexo. O movimento do mercado tinha desaparecido, e não havia risadas de crianças brincando. De vez em quando, vozes alteradas podiam ser ouvidas durante alguma discussão insignificante, mas era só isso.

Queria poder sair e dar uma olhada na cidade, pensou Maomao.

Infelizmente, não era hora para um passeio. Mesmo que o tempo estivesse muito bom.

O médico charlatão também olhou pela janela enquanto apertava o molde. Ele estava verificando a posição do sol. — Acho que está na hora do lanche — murmurou, ele com saudade. Normalmente, na hora do lanche, ele iria para a cozinha e, de algum jeito, daria um jeito de conseguir alguma comida.

— Humm... Não tenho certeza se vai ter lanche hoje também — disse Chue, fungando. — Eles estão enchendo os armazéns e preocupados com os alimentos básicos. Acho que nossos pequenos prazeres vão ter que esperar.

— Claro, Claro... — disse o charlatão, que já estava há vários dias suportando uma vida sem lanches.

Se perder a hora do lanche é o pior dos problemas dele, então ele tem bastante sorte, pensou Maomao enquanto começava a preparar alguns remédios.

Ela estava tão concentrada em sua mistura que quase não percebeu o cair da noite. Estava apenas limpando os instrumentos quando alguém bateu com força na porta do consultório.

— Quem está aí? — perguntou Lihaku. Ele abriu a porta e encontrou uma jovem mulher, branca como um fantasma. Talvez uma das damas de companhia.

— O-Onde está o médico? — perguntou ela.

— O médico? Quer dizer, eu? — O charlatão se aproximou com uma expressão vazia. A mulher obviamente tinha vindo correndo o mais rápido que podia, e ele lhe ofereceu um copo de água.

— V-Venha comigo! — exclamou ela. — Por favor! A jovem... A jovem senhorita!

Jovem senhorita? Maomao se perguntou. Ela não tinha ouvido falar de nenhuma senhorita. Por outro lado, aquela era a residência de Gyokuen, então tinha certeza de que, fosse quem fosse aquela pessoa, devia ser parente dele. Mesmo com apenas alguns guardas restantes, ninguém de procedência suspeita seria admitido no anexo.

Era óbvio pelo comportamento da mulher que aquilo era uma emergência, mas Maomao não achava que levar o charlatão até o local fosse ajudar muito a pobre criada. Sabendo que não podia deixar uma das próprias parentes de Gyokuen sem atendimento, Maomao levantou a mão. — Se me permite. O Mestre Médico está aqui exclusivamente para cuidar do Príncipe da Lua. Não podemos simplesmente deixar que você o leve para algum lugar. Não há outros médicos nesta residência?

Era a maneira mais indireta de recusar que ela conseguia imaginar.

— Todos saíram! Por favor! Se ninguém ajudá-la, a jovem senhorita... Ela vai...!

Imaginei.

Uma exceção especial tinha sido feita para aquele anexo porque um membro da família imperial estava hospedado ali, mas os outros médicos, incluindo o Doutor You, estavam todos sendo obrigados a trabalhar no atendimento às pessoas comuns da cidade. Se até eles precisavam ir servir na cidade, quanto mais ocupados não deviam estar os médicos locais?

— Poderia pelo menos nos dizer o que está acontecendo com sua senhorita? — perguntou Maomao, fazendo a mulher beber a água que o charlatão tinha trazido. Ela bebeu tudo de uma vez e então soltou o ar lentamente. — Para começar, quem é sua senhorita? — Maomao detestava pensar em quanto tempo aquilo levaria, mas precisava começar do princípio.

Depois de um momento, a mulher disse: — Ela é neta do Mestre Gyokuen.

— Quantos anos ela tem?

— Oito.

— E os sintomas?

— Bem, ela nunca comeu muito, mas, desde o enxame de gafanhotos, ela praticamente parou de comer. A única coisa que ela aceitou comer nos últimos dias foi fruta, mas hoje ela reclamou que o estômago doía e vomitou várias vezes.

Dor de estômago e vômitos? Esses sintomas podiam significar praticamente qualquer coisa.

— Que tipo de fruta ela comeu hoje? — perguntou Maomao. Era possível que a menina tivesse sofrido uma intoxicação alimentar por comer alguma fruta estragada, mas, mesmo em uma emergência como aquela, Maomao tinha dificuldade em imaginar uma “jovem senhorita” comendo alguma coisa podre.

— A mãe dela deu a ela frutas secas.

— Passas, por acaso?

A mulher balançou a cabeça. — Não. Algo que trouxeram da capital, eu não reconheci.

— Da capital... — Maomao inclinou a cabeça. A província de I-sei produzia mais frutas secas do que a capital. O que havia na província de Kaou que não existia por aqui?

— Tinha uma casca marrom-avermelhada e parecia ter sido polvilhada com um pó branco — disse a mulher.

Os olhos de Maomao se arregalaram. A dama de companhia parecia estar descrevendo um caqui seco. — Certo. Vamos ver sua senhorita imediatamente. Onde ela está? — Maomao correu para pegar os instrumentos e remédios nas prateleiras do consultório e os enfiou em uma bolsa.

— M-Mocinha! Você não pode simplesmente sair correndo sozinha! — gritou o charlatão.

— Se a deixarmos assim, no pior dos casos, ela pode morrer!

— M-M-Morrer?! — O charlatão tremia visivelmente. Lihaku pegou a bolsa de Maomao, enquanto Chue parecia ter desaparecido nesse meio-tempo. — Mas... Mas eu não posso deixar o consultório...

— Eu vou. — Maomao não podia ter certeza absoluta, mas estava quase certa de que o charlatão não seria capaz de tratar a menina. Ela achou que teria de lidar com aquilo sozinha… mas então outra pessoa se manifestou.

— Sozinha você não vai, Niangniang. Você nem é médica.

Quem poderia ser senão o homem com aquele sorriso indolente? Tianyu estava encostado em uma das colunas do consultório médico, com uma bolsa cheia de suprimentos já nas mãos.

— Eu vou com você. Pelo menos tenho o título de médico.

Ele parecia muito interessado naquele caso, mas sua presença deixou Maomao mais ansiosa, não menos.

— Você vem comigo?

— Não, Niangniang. Você vem comigo.

Maomao ficou em silêncio por um momento. Ele tinha razão: de acordo com a hierarquia, ela estava ali apenas para ajudar. E precisava admitir que Tianyu era melhor que o charlatão quando se tratava de exercer a medicina de verdade.

— Senhorita Maomao, senhorita Maomao! — Chue tinha reaparecido nesse meio-tempo. — Eu avisei o Príncipe da Lua.

Ela trabalhava rápido, isso era inegável.

— E o que ele disse? — perguntou Maomao. Mesmo que ela e Tianyu estivessem dispostos a ir ver a paciente, não poderiam sair dali sem a permissão de Jinshi. A dama de companhia também observava Chue atentamente.

— Ele disse que vocês podem ir! Só não deixem de discutir o tratamento de maneira muito, muuuuito detalhada com a paciente!

Lihaku parecia estar se preparando para acompanhá-los; ele estava ordenando que outro soldado cuidasse do charlatão.

Maomao se virou para a criada preocupada e disse: — Mostre-nos para onde precisamos ir.

A dama de companhia os conduziu até uma casa próxima ao anexo. Quando foram levados ao quarto da paciente, encontraram uma mulher de vinte e poucos anos ao lado da cama, Maomao presumiu que fosse a mãe da criança. Ela tremia violentamente. Os traços bem definidos de seu rosto eram a imagem de uma beleza ocidental clássica.

Uma menina estava deitada na cama, com o rosto sem cor. Ela se parecia com a mãe, mas alguma coisa, talvez a maneira como estava deitada, fazia com que parecesse magra e fraca.

Maomao e Tianyu pediram a Lihaku que esperasse na porta e então entraram no quarto. Chue queria acompanhá-los, mas, dessa vez, precisou ficar em casa.

— M-Minha filha! Por favor, ajude minha filha! — A mãe parecia não ter tido nem tempo de pentear os cabelos; eles estavam grudados em suas bochechas em mechas desordenadas.

— Sim, senhora — disse Tianyu. Ele se aproximou para puxar as cobertas da paciente, mas a mulher exclamou: — O que está fazendo?!

— Não posso examinar a paciente se não consigo vê-la — respondeu ele. Até aí, ele estava certo… mas aquelas casas de famílias nobres davam muita importância à castidade. Elas resistiam à ideia de um homem olhar para o corpo de uma mulher, mesmo que a mulher fosse uma criança de oito anos.

Estava claro pela expressão de Tianyu que ele não tinha interesse algum em uma criança como aquela, mas isso passou despercebido pela mãe. Algumas pessoas pareciam pensar que os médicos eram onipotentes, que podiam descobrir a condição de um paciente, fosse ela qual fosse, apenas tomando seu pulso.

Maomao olhou para Tianyu.

— Está bem — disse ele. — Haveria algum problema se minha assistente tocasse na paciente?

— N-Não, acho que tudo bem...

Maomao fez uma reverência e então puxou as cobertas. Ela pegou uma colher da bolsa de instrumentos e verificou o interior da boca da menina. Abriu as pálpebras da paciente e examinou seus olhos.

— Gostaria de abrir a roupa da paciente. Tudo bem? — perguntou Maomao. Ela estava falando com a mãe, mas lançou um olhar furioso para Tianyu, que ergueu as mãos e se virou.

Maomao desamarrou a roupa e apalpou o abdômen da paciente. Estava visivelmente inchado. Ela deslizou os dedos pela pele e, quando encontrou algo que parecia duro e redondo, pressionou delicadamente. A menina gemeu.

— O-O que foi isso? — perguntou a mãe.

— Há gases presos no estômago. Existe um corpo estranho no intestino dela que está impedindo que eles escapem. — Exatamente como pensei. Maomao desconfiou disso no instante em que a dama de companhia disse que a menina tinha comido caqui seco.

— Um corpo estranho? — Os olhos da mãe se arregalaram. Ela parecia vasculhar a memória em busca de qualquer coisa incomum que sua filha pudesse ter engolido.

— Disseram-me que ela não comeu nada além de frutas nos últimos dias — disse Maomao. — E hoje ela comeu fruta seca, caqui seco, certo?

— Isso mesmo. Mesmo quando parecia estar sem apetite, ela comia coisas doces. Por causa daqueles gafanhotos horríveis, não conseguimos mel nem frutas frescas, então dei a ela alguns caquis secos que ganhamos de presente. Você não acha que eles estavam envenenados, acha?!

— Não, não é veneno — disse Maomao, afastando gentilmente a mãe enquanto ela tentava se aproximar ainda mais da filha. — Comer caquis demais pode causar pedras no estômago. Quantos caquis ela comeu?

Depois de um momento, a mulher respondeu: — Três.

— Três? — Um bom trabalho para uma criança pequena. Mas, na opinião de Maomao, não era o bastante para causar um bezoar gástrico. Será que é possível? Três caquis poderiam fazer isso? Talvez tenham ficado presos nas fibras das outras frutas?

Ela pensou no assunto, tentando descobrir se havia alguma coisa que estava deixando passar. Uma gota de suor começou a escorrer pela testa da paciente, e Maomao a limpou distraidamente com um pano.

Hã?!

Então percebeu por que a paciente parecia tão abatida. Ao contrário dos cabelos fartos da mãe, os da menina eram finos e desgrenhados, e estavam ficando brancos na raiz.

Cabelos brancos?

Dizia-se que uma experiência aterrorizante podia deixar os cabelos brancos… e não havia dúvida de que testemunhar um enorme enxame de gafanhotos seria um choque e tanto para uma criança de oito anos.

Bem, aquela era hora de agir, não de pensar. Mas como explicar aquilo à mãe? Não podiam simplesmente seguir em frente.

— Quando há um corpo estranho no estômago, existem três métodos principais de tratamento — começou Maomao.

— S-Sim?

Maomao olhou para Tianyu. Ele ainda estava de costas, mas, mesmo assim, ela o viu assentir. Ele deixaria aquela parte por conta dela. — Primeiro, podemos dar água à paciente para ajudar a levar o objeto pelo sistema digestivo e, por fim, eliminá-lo.

A mãe assentiu.

— O segundo método, por outro lado, é administrar um medicamento líquido via retal para estimular a evacuação.

Via retal: em outras palavras, pelo ânus.

— Água! Tragam água! — ordenou a mãe, em pânico, a uma criada antes mesmo de ouvir qual era a terceira opção.

— Receio que, no caso da sua filha, eu não possa recomendar isso. É bem provável que ela simplesmente vomite toda a água que beber.

— Então você vai usar a segunda possibilidade? — perguntou a mãe. Ela não parecia gostar da ideia de inserir o medicamento no traseiro da menina… mas, se aquilo funcionasse, poderiam se considerar sortudos.

— Não. Pelo que senti durante o exame, não acho que estimular a evacuação vá eliminar o objeto.

— Você também não pode fazer a segunda coisa? Então qual é a terceira? — A mulher a encarou e, embora seu olhar não fosse tão intenso quanto o de Taomei, ainda assim era intimidador.

— Abrimos o estômago dela e removemos a obstrução manualmente.

Na mesma hora, o rosto da mulher endureceu e ela bateu com força em uma mesa próxima. — Você acha isso engraçado?! Quer abrir o estômago da minha filha?! Não vai encostar um dedo nela!

A mãe, naturalmente, recusou a sugestão. Ela lançou a Maomao seu olhar mais assustador, com os olhos faiscando.

Era mais ou menos o que eu esperava.

— Está nos ordenando que tentemos repetidamente o primeiro e o segundo método para remover a obstrução? — perguntou Maomao.

— Estou, e é melhor fazerem isso rápido!

— Receio que não possa fazer o que está pedindo de consciência tranquila. É muito provável que a paciente apenas morra. Se insiste em usar esses métodos, terá que fazê-lo sozinha.

Maomao manteve a voz calma e firme. Sentia pena da menina que estava deitada, sofrendo na cama, mas não podia simplesmente administrar um tratamento aleatório. Se a menina morresse, haveria sérias consequências. Por outro lado, se ignorasse a mãe e simplesmente insistisse em um tratamento chocante, faria com que fossem expulsos dali.

Havia apenas uma escolha: ela precisava convencer a mãe.

— Preciso avisá-la de que não acho que haja tempo para consultar outro médico. Se possível, quero fazer a cirurgia aqui mesmo, agora. — Ela olhou para a mãe, cujos olhos se desviaram para Tianyu.

— Você é um médico de verdade, não é? O que essa... sua assistente está dizendo não pode estar certo, pode?

— Concordo com a opinião dela — respondeu Tianyu, em seu tom mais sério. — Um simples bezoar gástrico poderia ser tratado com um dos dois métodos que ela descreveu. No entanto, o inchaço do estômago neste caso indica uma obstrução intestinal. Sua filha precisa de atendimento imediato.

Ele parecia muito mais formal do que de costume, mas Maomao continuou tensa mesmo assim. Ela estava preocupada que ele pudesse voltar ao seu típico tom despreocupado a qualquer momento.

— Se abrir a barriga dela... Isso não significa que ela não poderá mais ter filhos? — perguntou a mãe.

— Não vamos tocar no útero. A obstrução está localizada bem longe dos órgãos reprodutivos — disse Maomao, comunicando o resultado de seu exame. Ela tinha sorte do exame físico ter revelado a localização do problema. Se mantivessem a calma e trabalhassem com tranquilidade, aquela seria uma cirurgia relativamente simples.

Pelo menos seria para alguém como o Doutor Liu.

Não era como tentar remover lesões ou sequer extrair um osso despedaçado. Maomao tentou parecer firme, para tranquilizar a mãe.

— Quanto dano vai ser necessário causar? Seja lá o que for isso, não é pequeno, certo? — perguntou a mãe, olhando para Maomao com o rosto tomado pela ansiedade.

— Vou fazer uma incisão de nove centímetros na pele. Depois, vou abrir o estômago, remover a obstrução e costurar tudo com linha. Haverá uma cicatriz, mas ela deve desaparecer aos poucos conforme ela crescer.

Maomao não podia garantir que a cicatriz desapareceria… um pensamento terrível para a filha de uma família nobre como aquela.

— Nove centímetros... — A mãe hesitou. Mas Maomao sabia que a vida da filha precisava ser mais importante para ela.

— É esse o tamanho se eu fizer a cirurgia.

— O que isso significa?

Maomao olhou para Tianyu. — Se permitir que o médico aqui faça a operação, acredito que será menos da metade disso.

Por mais que me mate dizer isso.

Tianyu era, de fato, um cirurgião talentoso, como Maomao sabia por tê-lo visto dissecar animais e trabalhar com cadáveres. Ela talvez precisasse passar anos praticando antes de chegar ao nível dele.

Só não deixe isso subir à cabeça, seu...

O Doutor Liu os advertia repetidamente durante as dissecações: quando fizessem uma cirurgia de verdade, não seria em um cadáver. Teriam diante deles um ser humano vivo e respirando. Não haveria espaço para erros, ele alertava, e eles deveriam sempre buscar técnicas cirúrgicas melhores. Não poderiam permitir que um paciente morresse porque estavam presos ao próprio orgulho. Em vez disso, deveriam abandonar a importância que davam a si mesmos e confiar em qualquer pessoa que pudesse ajudar.

Foi por isso que Maomao disse à mulher: — Um médico carrega esse título por uma razão. Se quer a melhor chance de salvar sua filha, não peça para uma simples assistente como eu fazer isso. Seria melhor confiar no médico.

A mãe ficou em silêncio por um longo momento, hesitando. Ela olhou para a filha sofrendo, depois estreitou os olhos e cerrou o punho. — Pode fazer.

Maomao soltou um suspiro de alívio. — Vamos precisar de água quente e bandagens limpas. E poderia mandar acender uma fogueira para nós?

— Sim.

— Se possível, também precisamos de gelo, mas, se não houver, qualquer coisa que consiga resfriar o corpo da maneira mais eficaz possível.

A mãe chamou uma criada e ordenou que preparasse tudo de que Maomao e Tianyu precisariam para a cirurgia. Enquanto esperavam, os dois abriram suas bolsas de instrumentos e tiraram roupas cirúrgicas e aventais brancos, que vestiram.

Enquanto se preparavam, Maomao contou a Tianyu o que tinha observado durante o exame da paciente, além do que suspeitava ser a causa da obstrução.

— Sério? Você acha que é...?

— Só posso especular, mas sim.

Ela podia ficar atrás dele em dissecação, mas, em termos de experiência examinando pacientes e avaliando sintomas, Maomao tinha certeza de que estava à frente. Ela se permitiu sentir por um breve instante uma pontinha de superioridade diante da surpresa de Tianyu.

— Niangniang, eu vou fazer a cirurgia propriamente dita, mas talvez você possa...

— Eu cuido do anestésico. Cada um faz aquilo em que é melhor. Você tem um bisturi com você?

— Mas é claro. — Tianyu tirou um bisturi perfeitamente afiado. Maomao pegou os medicamentos que tinha trazido.

Uma criança, oito anos, magra.

Sim, eles abririam a barriga dela, mas é claro que queriam minimizar a dor o máximo possível. Maomao tinha vários analgésicos consigo. Papoula, estramônio e meimendro eram as ervas mais conhecidas desse tipo, mas muitos medicamentos para aliviar a dor também eram venenos. Uma dose calculada de forma errada poderia ter consequências graves.

Era estramônio que Maomao tinha consigo; ela estava mais acostumada a usá-lo do que qualquer um dos outros dois. Costuma ser dissolvido em vinho para ser administrado, mas prefiro não fazer isso. Luomen, mentor de Maomao em tudo relacionado à medicina, não aprovava a administração de medicamentos com vinho. Era verdade que isso ajudaria a diminuir a dor, mas também poderia provocar alterações no organismo. Poderia estimular o fluxo sanguíneo e dificultar a interrupção do sangramento. Era melhor evitar, especialmente no caso de uma criança que não estaria acostumada à bebida.

No passado, Maomao tratou uma queimadura sem instrumentos adequados ou sequer um anestésico decente, mas aquele tinha sido um caso especial, no qual ela suspeitava que a dor também proporcionava ao paciente certo tipo de prazer. Ela jamais faria aquilo normalmente. Não, nunca mais faria.

Ela pesou um pouco do medicamento em uma balança. O peso da paciente é... Vamos considerar que seja metade do de um adulto. Ela não queria dar remédio demais à menina e provocar efeitos colaterais. Ela precisaria trabalhar com muito cuidado.

Maomao ajudou delicadamente a paciente a se sentar.

— Dói...

A menina tinha ficado tão quieta que Maomao pensou que ela estivesse dormindo, mas agora ela falou. Maomao sorriu levemente e então ergueu o queixo da paciente. — Tome isto. Vai ajudar.

Ela umedeceu os lábios da menina com o analgésico e a ajudou a bebê-lo. Levaria cerca de trinta minutos para o medicamento fazer efeito. Durante esse tempo, elas poderiam se preparar.

— Trouxe gelo — disse a criada, que chegou com gelo embrulhado em palha. Maomao pegou-o e quebrou alguns pedaços, que colocou em uma bolsa de couro e pressionou contra o estômago da paciente.

Dizem que nunca se deve resfriar o abdômen, mas toda regra tem exceções.

Maomao queria minimizar a quantidade de analgésicos que dava à menina, então, em vez disso, anestesiou a região resfriando-a, assim como tinha feito com Jinshi.

Tianyu poliu sua pequena faca e depois a aqueceu no fogo. Também tinha deixado uma tesoura à mão, além de algo para manter a incisão aberta.

— E a linha? — perguntou Maomao.

— Para a parte externa, seda. Para tudo que ficar por dentro, fio de intestino — respondeu ele.

Fio de intestino: literalmente, linha feita com intestinos de animais, tripa. Maomao retirou cuidadosamente um pacote de tecido com linhas e começou a examinar cada fio. O ideal era que fossem o mais uniformes possível, e eles queriam evitar fios desfiados. Era um momento tenso, avaliando os instrumentos; afinal, estavam prestes a operar uma menina.

Por fim, Maomao precisou fazer um pedido à mãe da criança. Um pedido cruel.

— Às vezes, nós dois não teremos mãos suficientes durante a operação. Alguns dos seus criados poderiam nos ajudar? Alguém que não fique abalado demais ao ver sangue?

— O que... precisa ser feito? — perguntou a mãe da menina.

— Demos anestésicos a ela, mas talvez eles não eliminem toda a dor. Tentei usar os medicamentos com moderação para evitar muitos efeitos colaterais. No entanto, isso significa que talvez alguém precise segurar sua filha enquanto trabalhamos, caso ela comece a se debater por causa da dor.

— Existe alguma chance de eu fazer isso?

— Acha que conseguirá manter a calma ao ver sua filha sentindo tanta dor? Assim que começarmos a cirurgia, não poderemos parar. — Maomao lançou à mulher seu olhar mais intenso. Não importava o quanto a mãe se importasse com a filha: se fosse atrapalhar, Maomao precisava tirá-la dali.

A mãe, porém, surpreendeu Maomao ao aceitar. — Tudo bem — disse ela. — Duas pessoas serão suficientes?

Eu tinha certeza de que ela criaria problemas por causa disso. O rosto da mãe estava pálido; ela devia estar perto do próprio limite. Uma criada lhe ofereceu água.

A mãe chamou mais duas criadas, e Maomao instruiu elas a lavarem as mãos. Depois, passou álcool nas mãos das duas. As recém-chegadas eram duas mulheres robustas de meia-idade, que não pareciam do tipo que se acovardariam diante de um pouco de sangue.

— Certo. Que tal começarmos? — disse Tianyu, que tinha enrolado um pano em volta da boca e outro em torno da cabeça. Eles transferiram a paciente para uma mesa cirúrgica improvisada que as criadas montaram juntando algumas mesas compridas. A paciente estava respirando com muito mais facilidade; talvez os analgésicos estivessem fazendo efeito. Maomao colocou um pano na boca da menina para que ela não mordesse a língua.

Então fizeram as criadas segurarem os braços e as pernas da menina. Maomao ajeitou um avental para cobrir tudo, exceto o local da operação.

Lá fora, estava completamente escuro, e trouxeram várias luzes para que pudessem enxergar onde deveriam cortar. Para Maomao, era quase como se as chamas dançassem em resposta à respiração da paciente. Inspirava, expirava.

Era verdade: trabalhar em um ser vivo era diferente de trabalhar em um morto. Por mais que tivessem resfriado a pele, haveria sangue. A lâmina da faca de Tianyu era fina como uma navalha.

Os instrumentos são uma parte importante da medicina, pensou Maomao. O Doutor Liu podia insistir o quanto quisesse para que deixassem o ego de lado; ainda assim, irritava Maomao não ser tão habilidosa quanto Tianyu. Se pudesse conseguir alguns instrumentos que ajudassem a diminuir essa diferença, ela queria fazê-lo.

A paciente parecia bastante grogue por causa dos medicamentos, com os sentidos devidamente anestesiados. Isso foi um alívio para Maomao, que limpava o sangue que jorrava enquanto Tianyu trabalhava.

— Aqui está — disse Tianyu, com os dedos tocando o intestino delgado inchado. Ele fez delicadamente uma incisão com o bisturi e então introduziu uma pinça pela abertura. Até as criadas, que tinham observado sem hesitar enquanto abriam o estômago da menina, recuaram.

— Tem alguma coisa aí dentro?

— Você acertou, Niangniang.

Com a pinça, Tianyu retirou uma bola de fibras de frutas não digeridas e uma quantidade considerável de cabelos que saíam do intestino. Eles continuaram saindo enquanto ele puxava, pendendo de maneira grotesca.

Maomao ofereceu uma bandeja a Tianyu, e ele deixou cair nela o emaranhado de cabelos e fibras. Ainda havia cabelos no intestino, então Tianyu voltou a introduzir a pinça. Maomao tinha o nariz e a boca cobertos, mas, mesmo assim, o cheiro era nauseante, uma mistura acre de sangue, álcool e sucos gástricos. As criadas se viraram o melhor que puderam, mas continuaram segurando os braços e as pernas da menina, fiéis até o fim.

— Não achei que um bezoar gástrico formado exclusivamente por sementes de caqui seria suficiente para causar uma obstrução intestinal — disse Maomao. A falta de apetite da paciente provavelmente podia ser explicada pelo hábito de comer o próprio cabelo. Isso não era exatamente incomum… algumas pessoas comiam coisas que não eram alimentos como resposta ao estresse. Nesse caso, a menina tinha comido mais cabelos do que de costume por causa do estresse provocado pela praga de gafanhotos, e piorou a situação com frutas fibrosas e depois caquis. Tudo isso junto formou a obstrução.

Tianyu decidiu que tinha retirado todo o cabelo que conseguia e deixou a pinça de lado. Provavelmente ainda havia fios lá dentro, mas não conseguiriam retirar todos. O restante poderia ser resolvido bebendo bastante água e, talvez, tomando alguns laxantes para ajudar a fazê-los passar pelo intestino.

Maomao entregou a agulha e a linha a Tianyu. Ela usou um gancho para manter a incisão aberta, facilitando a visualização dos intestinos, e limpou o sangue que continuava a escorrer. Cada vez que Tianyu terminava um ponto, ela trocava pela tesoura e cortava a linha. Ele continuou curvado sobre a paciente enquanto o suor escorria por sua testa.

Quando teve certeza de que tinham dado o último nó, Maomao sentiu uma onda de exaustão. Ela queria poder simplesmente colocar a paciente de volta na cama, mas aquilo ainda não tinha acabado. Ela limpou o local da cirurgia, tomando cuidado para não pressionar com força. Tianyu tinha sido a estrela da cirurgia em si, mas agora caberia a Maomao cuidar da paciente, já que o procedimento tinha terminado.

Ela vai precisar de mais analgésicos, com certeza, e devo preparar algum remédio para febre. Algo para impedir uma infecção também; isso será crucial. E preciso explicar a eles o que ela deve comer e como cuidar dela agora que a operação terminou.

Em outras palavras, ainda havia muito a fazer. Ao mesmo tempo, Maomao queria fazer algumas perguntas à mãe da paciente.

As criadas que tinham segurado a menina pareciam quase tão exaustas quanto os médicos. Felizmente, a criança não tinha lutado em momento algum, mas, mesmo assim, elas estavam exaustas.

— Sabe, Niangniang — disse Tianyu, que já tinha tirado a roupa cirúrgica ensanguentada. Ele pegou a pinça e ergueu o objeto que tinham extraído. — Os sucos gástricos fazem o cabelo mudar de cor? — O emaranhado de cabelos estava descolorido em alguns pontos, ficando amarronzado.

— Talvez um pouco. Suco cítrico consegue fazer isso, afinal.

Maomao olhou novamente para o cabelo da paciente. Ele era fino porque ela o arrancava e comia. As raízes estavam brancas.

Maomao pegou a bandeja com a obstrução e abriu a porta.

— J-Já terminaram?! — perguntou a mãe da menina. Ela estava ali, com o rosto sem cor. Devia ter ficado esperando na porta o tempo todo. Lihaku estava simplesmente sentado em uma cadeira; ele estava acostumado a ficar esperando.

— Sim, a cirurgia foi um sucesso — disse Maomao. — Poderia entrar para que possamos lhe dar algumas instruções?

— Sim, claro. — A mãe e uma criada entraram. Era a criada que tinha chamado Maomao e Tianyu. Quando ela e sua senhora entraram, as outras duas criadas, aquelas que tinham segurado a menina, deixaram o quarto.

— Quem você quer que dê as instruções? — perguntou Maomao a Tianyu.

— Hmm... Parece trabalhoso. Faça você. Cada um faz aquilo em que é melhor, certo? De qualquer forma, tenho a impressão de que você percebeu alguma coisa que passou despercebida por mim.

Por mais habilidoso que fosse como cirurgião, Tianyu ainda era Tianyu.

Assim que a mãe e sua criada entraram, Maomao se certificou de que a porta estava fechada e então mostrou a bandeja às duas. — Isto é o que estava preso no intestino da sua filha.

As outras duas mulheres estremeceram ao ver o emaranhado de frutas não digeridas e cabelos.

— Por que não nos contou que sua filha tem o hábito de comer o próprio cabelo?

A mãe não conseguiu encarar os olhos de Maomao.

Maomao deu sua própria resposta. — Nenhuma pessoa de alta posição suportaria a ideia de alguém saber que sua filha faz algo tão deselegante, não é? Tudo bem. — Ela teve vontade de provocá-las um pouco mais por causa disso, mas teria que deixar por ali. O problema era que elas não podiam permitir que algo assim acontecesse novamente. — Comportamentos anormais, como comer o próprio cabelo, são frequentemente causados por estresse. Aconteceu alguma coisa com sua filha que possa explicar isso?

— Não — respondeu a mulher lentamente. — Não, eu só a criei da maneira que qualquer... qualquer mãe criaria.

Mentira. Maomao pegou o emaranhado com a pinça. Os cabelos claros e escuros formavam um padrão manchado. — O cabelo da sua filha é naturalmente ruivo, não é? Você o tem tingido de preto — essa é a fonte do estresse. Ou estou errada?

A mãe estremeceu; ela apertou os lábios e um dos olhos começou a tremer. Sua dama de companhia olhou para o chão.

— Se não resolvermos a causa, isso vai acontecer novamente. Quantas vezes pretende que o estômago da sua filha seja aberto?

— Não é como se eu gostasse de fazer isso — disse a mãe baixinho. — Mas a menina tem o cabelo castanho-claro, e tanto o pai dela quanto eu... Nós dois temos cabelos pretos...

— Mesmo dois pais de cabelos pretos podem ter um filho de cabelos castanhos. Isso deve acontecer com bastante frequência aqui na Província de I-sei. Há sangue estrangeiro correndo por aí o suficiente.

Depois de um longo momento, a mulher disse: — Meu pai não vai ver dessa maneira.

O pai dela? Seria Gyoku-ou. O que ele tinha a ver com aquilo?

— Meu pai odeia todo sangue estrangeiro. A Província de I-sei faz parte de Li, então ele acredita que ela deveria ser governada por um Linese de cabelos pretos. Eu sempre pensei da mesma forma.

Até a própria filha dele dar à luz uma neta de cabelos claros.

— Meu pai ficou transtornado por causa da neta. Eu tinha ouvido, porém, que a cor do cabelo de um bebê pode ficar mais escura com a idade, então disse a ele que ela teria cabelos pretos eventualmente. Mas isso nunca aconteceu.

Então, as raízes brancas não eram de cabelos que haviam ficado brancos de medo, mas porque a mãe não teve tempo de tingir novamente o cabelo da filha durante o enxame. Considerando que a criada não dizia uma palavra sequer, Maomao suspeitou que ela pudesse estar ajudando a tingir o cabelo da paciente.

Odeia estrangeiros, hein? Era uma filosofia difícil de sustentar quando se vivia em um centro de comércio. Por outro lado, às vezes, a familiaridade era justamente o que gerava desprezo.

Maomao pensou em sua Imperatriz de cabelos ruivos. Gyokuyou e seu meio-irmão podiam ser ambos filhos de Gyokuen, mas a família não era homogênea, como aquela história mostrava.

— Se ela não parar de comer o próprio cabelo, então sugiro raspar a cabeça dela até que ela se acalme — disse Maomao. Parecia ser a maneira mais rápida.

— Raspar a cabeça?! O que ela é, uma freira?

— Se você deixar o cabelo continuar crescendo, ela vai ficar com algumas áreas quase carecas, e isso vai ficar melhor? Além disso, se ela continuar danificando as raízes, eventualmente o cabelo vai parar de crescer por completo. — Enquanto falava, Maomao começou a tirar medicamentos da bolsa. Antiinfecciosos, antitérmicos, analgésicos. — No momento, é mais importante garantir que ela passe em segurança pelas horas e pelos dias após a cirurgia. Vou lhe dar instruções detalhadas. Se você sentir que não as entende, posso anotar os pontos importantes. Ela precisa de alguém para acompanhar sua recuperação pós-operatória. Não precisa ser eu e este médico, se você não gostar de nós, mas certifique-se de conseguir algum médico para examiná-la. Preciso avisá-la de que, mesmo que a cirurgia tenha sido um sucesso, o estado dela pode piorar se ela não receber o tratamento adequado depois.

Se o ferimento se abrisse ou infeccionasse, por exemplo, haveria problemas.

— Por enquanto, ela ainda está dormente, então está calma, mas, conforme o efeito dos analgésicos passar, vai começar a doer. Não deixe que ela toque no local da cirurgia. A dor pode mantê-la acordada e ela pode ter febre. Tenho medicamentos aqui para essas duas possibilidades, que você pode usar conforme necessário.

Houve um momento enquanto a mulher assimilava tudo aquilo, então ela disse: — Entendo. — Seu lábio tremeu enquanto ela se aproximava da cama onde a filha dormia. Ela afagou seus cabelos finos, com o mais discreto sinal de alívio no rosto.

Finalmente, Tianyu se manifestou. — Eu mantive a incisão com metade do comprimento que minha assistente disse!

E era verdade: ele havia cortado pouco mais da metade do que Maomao o ameaçou. Além disso, os pontos eram tão delicados quanto a incisão; se tudo corresse bem, a cicatriz seria praticamente invisível. Maomao não conseguiu conter um lampejo de irritação enquanto anotava suas instruções.

Será que ela vai mesmo seguir estas instruções?

Ela tinha suas dúvidas… mas estava muito, muito ansiosa para acabar logo com aquilo e ir embora.

Fim da leitura

Capítulo 11.01 concluído

Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Frutas Secas