Diários de uma ApotecáriaVolume 11 – Capítulo 4 – Capítulo 4: O Pequeno Lin
Capítulo 11.04Maomao analisou o mapa, que agora estava coberto de anotações. — Acho que preenchemos a maior parte dos lugares de que temos certeza. — Eles tinham descoberto o significado de cerca de metade das peças, e o que encontraram mostrava o quanto a cidade havia mudado.
— O Príncipe da Lua está com um visitante e não pode se juntar a nós. Ele está com o Vice-Ministro Lu, do Ministério dos Ritos — informou Onsou quando voltou. A demora para retornar parecia explicada pelo grosso livro que carregava debaixo do braço… ele devia ter ido buscá-lo. Presumivelmente, pertencia ao estrategista esquisitão.
— Vice-Ministro? — Maomao não conhecia muito bem os títulos oficiais. Lembrava vagamente que aquele havia aparecido na prova de serviço das damas da corte, mas esqueceu exatamente do que o cargo tratava. O nome, ela achava, era um que o Doutor You havia mencionado.
— Ele é basicamente a segunda pessoa mais importante do Ministério dos Ritos — sussurrou Chue no ouvido de Maomao. — Qualquer cerimônia que o Príncipe da Lua venha a realizar por aqui vai precisar de alguém importante assim.
— Entendi. — Ela não sabia o que poderia ter levado o Vice-Ministro Lu a visitar Jinshi, mas achou que conseguiriam cuidar daquilo sem ele.
— Caramba, o que está prendendo aquele cara? — perguntou Lihaku, olhando para além do mosquiteiro, na direção do sol poente. — Já faz mais de meia hora. Eu sabia que devia ter ido com ele.
— Você não está errado. O Pequeno Lin é só um visitante. Do jeito que ele é, aposto que algum guarda o parou — disse Chue. Ela e Lihaku eram conhecidos na mansão, então ninguém criava problemas para eles. Mas, se o Pequeno Lin tivesse saído das dependências...
— Talvez eu devesse ter ido — disse Maomao, mas logo percebeu que estava errada.
— Fwaaah — bocejou o velho de monóculo, finalmente despertando de seu sono induzido pelo álcool. — Bom dia... Ah, devo ainda estar sonhando. Estou vendo a Maomao. — Onsou ofereceu ao seu mestre sonolento uma bebida para acordá-lo. Provavelmente seu amado suco.— Hã?! É mesmo a Maomao!
— Aff. Lá vamos nós.
Ops. Ela tinha falado aquilo em voz alta?
Ela queria simplesmente ignorar o estrategista, mas, desse jeito, nunca descobririam o que precisavam saber. Então, em vez disso, colocou uma fileira de bandejas de petiscos entre os dois. — Você não tem permissão para passar desta linha — disse ela.
— Uau! Isso é bem coisa que a minha irmã mais velha, Maamei, inventaria!
Ela devia ter feito algo parecido com o sogro de Chue, Gaoshun.
Maomao mandou colocar o tabuleiro de Shogi diante do esquisitão. — Não faço ideia se devo esperar uma resposta sua, mas vou perguntar mesmo assim. Mais especificamente, minha pergunta diz respeito à capital do oeste de dezessete anos atrás. Se esta é a mansão do clã Yi, e este prédio na diagonal abaixo dela é a residência do Mestre Gyokuen, você sabe o que as outras peças representam? Ah, imaginei que não. Obrigada mesmo assim.
— Hum, o velho ainda não respondeu — disse Lihaku, sem hesitar em usar o apelido “velho” bem na frente do próprio velho.
O velho, porém, parecia não se incomodar. Na verdade, o brilho astuto em seus olhos de raposa ficou ainda mais intenso, e ele estendeu as mãos na direção do tabuleiro. Eram mãos com os calos característicos de um jogador de Shogi.
— Este Peão aqui seria o dojo de Shogi. Aquele logo abaixo dele... havia uma loja que vendia artigos para Shogi e Go.
— O Mestre Lakan tem uma memória de ferro para coisas que conseguem despertar seu interesse — explicou Onsou, prestativo.
— Hã. É mesmo? — respondeu Maomao, tão desinteressada quanto era possível.
— Este Dragão é um restaurante. Se você vencesse o dono em uma partida de Shogi, sua refeição era de graça. Mas, depois de três refeições gratuitas, ele parou de me servir.
O estrategista estava tagarela de verdade agora. Começava a ficar claro que os lugares indicados pelo Grande Lin estavam, em sua maioria, relacionados de alguma forma ao Shogi.
Maomao não conseguiu evitar o pensamento: Se ao menos esse cara se comportasse como uma pessoa normal...
— Este Cavalo, não tenho certeza. Este General de Ouro promovido também. — Aqueles dois locais eram os únicos que pareciam escapar ao estrategista.
— Um deles parece ser um santuário. O outro fica em algum lugar do distrito residencial, então talvez seja onde os registros das partidas foram encontrados pela primeira vez — disse Chue, circulando os locais no mapa.
— Então acho que o santuário é o único outro lugar suspeito — disse Lihaku.
Justo quando parecia que finalmente estavam prestes a encontrar algumas respostas, o estrategista começou a olhar ao redor, percorrendo a sala com os olhos.
— O que houve, senhor? — perguntou Onsou.
— Onde está o Pequeno Lin? — exigiu o estrategista.
— Ele foi buscar um mapa antigo.
— Hum.
Era muito estranho o estrategista demonstrar interesse por outra pessoa.
Eu até esperaria que ele perguntasse pelo Grande Lin, talvez, mas o Pequeno Lin... pensou Maomao. Então repetiu para si mesma: “Pequeno” Lin...
Ela bateu no tabuleiro de Shogi, fazendo todos olharem para ela, surpresos. — O que foi? — perguntou Lihaku.
Maomao se levantou de um salto e lançou um olhar irritado ao estrategista esquisitão. Havia pessoas no mundo que possuíam talentos raros, mas os desperdiçavam. — O “pequeno” de Pequeno Lin — disse ela, mantendo o olhar fixo no esquisitão. — Posso entender que significa “ruim”? É por isso que você o chama assim?
— Bem, sim. Maomao, eu realmente não sei a diferença entre pessoas boas e más. Ele só me parece um mentiroso.
Ainda franzindo a testa, Maomao voltou a se sentar. — Por que você não disse isso?
— Bem, o que isso tem a ver comigo?
Ah, sim. Aí estava o estrategista que ela conhecia.
Todos os outros na sala ficaram em silêncio, atônitos. Então uma voz hesitante veio da entrada. — Cof cof. Perdoem-me por interromper enquanto estão em conferência… — Pelo uniforme, o recém-chegado era um dos subordinados do estrategista esquisito.
— Sim? O que foi? — perguntou, não o esquisito, mas Onsou.
— Parece que há alguém no escritório administrativo que afirma estar procurando por um membro desaparecido de sua família. — O soldado lançou um olhar furtivo para o Grande Lin, que ainda dormia em um canto da sala. — A descrição corresponde à de um velho que o Mestre Lakan trouxe para cá ontem...
O silêncio ficou ainda mais atônito, e então outro soldado apareceu à porta. — Mestre Lakan, houve um incêndio no santuário oeste. Já enviei uma equipe de combate a incêndios para cuidar disso.
Os subordinados do estrategista realmente eram pessoas extremamente competentes. Nem precisavam que o chefe mandasse que fizessem o que era apropriado e necessário.
O familiar desaparecido era o Grande Lin. O santuário em chamas era justamente aquele que tinham acabado de concluir que valia a pena investigar.
Era quase satisfatório, de uma maneira bastante perversa, terem sido enganados tão completamente.
Ninguém sabia quem havia colocado aqueles acontecimentos em movimento. Naquele momento, tudo o que sabiam era que, fosse quem fosse, parecia estar dois passos à frente.
Eles transferiram a conferência para os aposentos de Jinshi, onde os três — Maomao, Chue e Lihaku — agora estavam ajoelhados, humildemente. Tinham pensado que o estrategista poderia acompanhá-los, mas o Grande Lin acordou de seu cochilo, então a partida de Shogi havia recomeçado.
— Só posso oferecer minhas mais humildes desculpas — disse Maomao. Ela e os outros estavam com a testa encostada no chão em uma demonstração absoluta de arrependimento, e Chue até vestia um manto branco, como se estivesse pronta para abrir a barriga a qualquer momento.
— Er, Chue... Não há necessidade disso — disse Jinshi. Com evidente alívio, Chue prontamente voltou a trocar de roupa.
Em resumo, “Pequeno Lin” não existia. Havia, sim, um homem que alegava ser parente do Grande Lin, mas era outra pessoa, alguém que não se parecia tanto assim com o Pequeno Lin.
“Pequeno Lin” sequestrou o Grande Lin durante o enxame de insetos e depois se aproveitou do fato de que o Grande Lin não estava lúcido para se passar por um parente e tentar se aproximar do estrategista esquisitão.
Ele tinha enganado Maomao e todos os outros completamente. Era um cuidador tão dedicado ao Grande Lin que parecia fazer aquilo havia muito tempo. E, pior ainda, parecia conhecer a capacidade do estrategista de perceber mentiras. Sabia que, enquanto o velho tivesse um adversário digno para jogar Shogi, ele se concentraria nisso em vez de perceber a farsa do Pequeno Lin.
Se ele não conhecesse as características especiais daquela criatura, então tinha tido uma sorte extraordinária e, se conhecesse, era um estrategista de primeira.
O Grande Lin agora estava com sua verdadeira família. O homem que apareceu procurando por ele estava acompanhado de uma jovem — talvez sua esposa ou filha — que era a verdadeira cuidadora do Grande Lin. Maomao e os outros ficaram aliviados ao descobrir que o Grande Lin não havia sido maltratado e abandonado como o Pequeno Lin dissera, mas, pelo estado das roupas dos visitantes, a parte sobre a família ter passado por tempos difíceis era verdadeira.
Agora estavam com o Grande Lin, cuidando dele enquanto ele jogava Shogi.
Maomao estava frustrada. Sabia que ter o estrategista esquisitão por perto faria com que eles se desviassem do assunto a cada oportunidade. Ela pretendia explicar a situação a Jinshi de maneira completa e detalhada e só então chamar o estrategista para ouvir sua versão.
Se o velho simplesmente tivesse nos contado, pensou ela, mas era impossível prever o que ele faria. Ela nem sequer tinha certeza do que o alertara de que o Pequeno Lin era um vilão. Ele tinha feito um trabalho excelente ao parecer completamente inofensivo.
Ele cuidou tão bem do Grande Lin. Será que realmente tem experiência como cuidador? Caso contrário, seria difícil explicar como tinha enganado todos eles tão completamente. Se tudo não passava de uma atuação, era uma atuação muito boa. Até Chue tinha caído no golpe… algo que Maomao não esperaria, mesmo que alguém conseguisse enganar a ela e Lihaku.
— Até você foi enganada por ele, Chue? — perguntou Jinshi.
— Sim, e estou morrendo de vergonha! Na minha família, uma surra não seria suficiente para compensar um erro desses! — Ela fingiu chorar copiosamente.
A família da Chue é tão cruel assim? Maomao se perguntou. Ela tinha imaginado que devia ser um lugar bastante permissivo para produzir um espírito livre como Chue… mas aquilo era tudo o que tinha sido. Uma suposição.
— O que está feito está feito — disse Jinshi. — Mas, por favor, descreva essa pessoa para mim.
— Você não o viu, Mestre Jinshi? — perguntou Maomao.
— Só de relance. Eu estava com um visitante e precisei voltar direto para o meu quarto.
Justo. O irmão mais novo do Imperador normalmente não ficaria parado conversando com um plebeu qualquer.
— Mas já terminou de receber seu visitante, senhor?
— Sim. Quando mencionei que o Senhor Lakan estava por aqui, o homem pareceu um pouco indisposto e foi para casa. Pelo visto, o Senhor Lakan e o Vice-Ministro Lu não se dão muito bem. O vice-ministro estava me orientando sobre o que deveríamos fazer a respeito das cerimônias que planejamos para esta visita.
Tem alguém que se dê bem com o velho esquisitão? Quem realmente sabia lidar com aquele esquisitão de monóculo?
— Quero saber tudo sobre esse homem. Como ele agia, como ele era — disse Jinshi, não para Maomao, mas para Chue.
— Sim, senhor. Ele era um homem completamente normal. Seus traços faciais sugeriam um pouco de sangue estrangeiro, mas, fora isso, não tinha absolutamente nenhuma característica marcante. Talvez ajude se eu disser que ele era muito parecido com o Irmão do Lahan?
Ahh...
Maomao achou que aquilo realmente fazia sentido. Não era de admirar que aquele sujeito tivesse conseguido se misturar tão facilmente. Ele não tinha os rompantes do Irmão do Lahan, mas compartilhava sua capacidade de simplesmente cuidar da própria vida sem nunca chamar muita atenção. E os dois tinham exatamente o mesmo ar de quem estava sempre tendo que aguentar alguma coisa.
— Tem uma coisa neles que realmente se destaca — disse Maomao.
— Ah, sim, com certeza — disse Chue.
Então as duas disseram em uníssono: — O jeito como você não consegue se lembrar do rosto deles!
— Mas eu vou tentar! — disse Chue. — Vou ver se consigo fazer um retrato. Ela imediatamente tirou um pincel e começou a pintar, e logo tinha um retrato que capturava a principal característica do Pequeno Lin: não ter nenhuma característica realmente marcante. Maomao presumiu que o retrato seria mostrado à família do Grande Lin.
— Certo. E que tipo de homem você acha que ele era? Pode me dar suas opiniões pessoais; qualquer coisa serve. — Dessa vez, o olhar de Jinshi também alcançou Maomao e Lihaku.
— Se me permite, senhor — disse Lihaku. — Concordo em grande parte com a senhorita Chue. Esse cara era completamente comum. Mas também parecia saber muito bem o que estava fazendo com o Grande Lin.
— Você quer dizer que ele estava acostumado com o papel? A atuação dele era realmente tão boa?
— Era mais do que isso. É que... não sei se a maioria das pessoas saberia lidar tão bem com um velho. Você normalmente nem pensa em homens cuidando dos parentes idosos, não é? Geralmente é a esposa ou a irmã.
Maomao assentiu. Em Li, os homens estavam acima das mulheres na hierarquia social. Esse impulso parecia ainda mais forte aqui na Província de I-sei, onde mulheres ou noivas eram frequentemente vistas como nada mais do que ferramentas. Bastava observar o fato de que não foi o homem que veio procurar o Grande Lin quem cuidava dele, mas a mulher que o acompanhava.
— E o que você acha, Maomao?
— Concordo com os outros. No entanto, se ele realmente estava procurando as cartas e os papéis antigos do Grande Lin, assim como nós, então acho que podemos presumir que ele fazia isso havia muito mais tempo do que nós. — Ou o próprio Pequeno Lin, ou talvez um cúmplice, vinha vigiando o Grande Lin.
— Sim, isso seria razoável — disse Jinshi.
Ele não parecia estar procurando ativamente pelo esconderijo, mas sim observando para ver se outra pessoa o encontraria. Parecia uma maneira muito indireta de conseguir aquilo que dizia querer. Se ninguém encontrasse os papéis, tudo bem. O Pequeno Lin simplesmente não queria que fossem descobertos.
— Você acha seguro presumir que havia algo tão prejudicial naqueles materiais que ele queria eliminá-los, mesmo correndo um risco considerável? — perguntou Maomao.
— A ponto de deliberadamente entrar em contato com o Senhor Lakan?
— Quando você não consegue prever o que alguém vai fazer, quando essa pessoa finalmente age, o resultado pode ser devastador.
— Ahh. — Jinshi assentiu rapidamente. Lakan realmente tinha o dom de atrair desgraças.
Então, seja lá o que for, ele não quer que seja encontrado. Contas secretas, talvez? Não, espere. O que isso teria a ver com a compilação de uma história?
— Fico imaginando o que poderia valer um risco desses — disse Lihaku.
— Talvez tenha a ver com a rebelião dos Yi — sugeriu Chue.
— Se ele não quer que seja encontrado, então acho seguro concluir que o que está lá dentro não é algo que ele quer descobrir, mas algo que ele já sabe — disse Maomao.
Se ele fez questão de queimar a biblioteca, deve ser algo que realmente não quer que venha à tona. Maomao se pegou pensando por que o Pequeno Lin poderia ter ateado fogo aos livros de propósito. Ele não considerou a possibilidade de que a destruição não fosse completa caso Maomao e os outros chegassem imediatamente?
E se ele apenas fingiu queimá-los?
Se os livros fossem queimados, seus perseguidores poderiam desistir, mas também poderiam tentar desesperadamente decifrar quaisquer fragmentos de texto restantes. Afinal, não havia garantia de que o fogo consumiria tudo.
E se ele simplesmente tivesse levado o que precisava?
O que o Pequeno Lin precisava, então? Maomao pensou tanto nisso que sua cabeça começou a girar.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu de repente. — Maomao! Eu veeenci!
— É, ótimo.
Se ao menos ele tivesse avisado sobre o Pequeno Lin como uma pessoa normal faria... Mas não adiantava ficar com raiva. O estrategista esquisitão tinha dito a ela que não falou nada sobre o Pequeno Lin ser um sujeito mau porque ninguém havia perguntado. Bom, então ela tentaria perguntar algumas coisas a ele.
— Como você soube que aquele homem era um impostor?
— Porque observá-lo era como assistir a uma peça interessante.
Maomao parou. Não, ela ainda não fazia ideia do que qualquer coisa que ele dizia significava. O que Lakan saberia sobre assistir a uma peça? Para ele, todos os atores provavelmente pareceriam pedras de Go.
— Todo mundo no palco está mentindo, mas alguns atores são melhores nisso do que outros. Quanto mais naturais forem as mentiras, mais interessante é a peça — disse o estrategista.
— Quanto mais natural, mais interessante...
Aquilo fazia certo sentido para ela. Uma peça era algo fundamentalmente falso, e os atores eram pessoas especializadas em transmitir essas falsidades ao público. Quanto melhores mentirosos fossem, melhores atores se tornavam e mais envolvente era o drama. A ideia de que alguém poderia ser um mentiroso e um vilão porque observá-lo dava a sensação de assistir a uma boa peça de teatro era o tipo de conclusão que apenas o estrategista excêntrico poderia ter.
— Ahhh. É, desse jeito até faz sentido — disse Chue, quando finalmente entendeu. Talvez fizesse sentido porque ela, assim como o estrategista, vivia de acordo com a própria intuição.
— Faz? Talvez você possa me explicar — disse Maomao.
— Sim, claro! Explicação da senhorita Chue chegando! Essa era uma pessoa que não estava interpretando um papel… ela havia se tornado aquele papel. Às vezes você vê isso entre vigaristas e espiões.
— Espiões?
— Ah, sim! Alguns agentes chegam a se casar com alguém do lugar para não levantar suspeitas quando entram em outro país. Mas, para o cônjuge, eles estão ali todos os dias. O espião precisa ser um verdadeiro marido ou uma verdadeira esposa para aquela pessoa. Não pode simplesmente fingir que é, precisa ser. A única coisa é que existe algo mais importante para ele do que o parceiro. Alguns espiões podem até ter filhos! Enquanto ninguém descobrir o que eles são, a família nunca vai perceber a diferença.
Falam que ignorância é uma bênção. A descrição de Chue, porém, era detalhada demais... Quase parecia sugerir... não. De qualquer forma, o ponto era que o Pequeno Lin havia, para todos os efeitos, se tornado um verdadeiro membro da família do Grande Lin.
— Ei, Maomao, por que não jantamos juntos? — disse o estrategista excêntrico. Ele ainda parecia relaxado e muito satisfeito consigo mesmo, completamente alheio ao clima na sala. Atrás dele, o verdadeiro parente do Grande Lin os observava. De fato, ele parecia estar levando uma vida difícil, quase tudo o que o Pequeno Lin tinha contado parecia ser verdade, exceto sua própria identidade. Onsou deu algum dinheiro ao homem em nome de seu mestre.
Então disse ao estrategista: — Mestre Lakan, o senhor já tem um compromisso para jantar com o Mestre Gyoku-ou. E precisamos usar o tempo até lá para terminar alguns trabalhos.
Sim, aquele homem era mesmo um trabalhador incansável.
— Aww, eu não quero! — gemeu o velho. Patético. Ele se agarrou a um poste e se recusou a sair enquanto Onsou tentava arrastá-lo. Crianças fazendo birra se comportavam com mais dignidade.
— Senhorita Maomao, uma palavra sua ajudaria aqui. Diga a ele “Divirta-se!” ou alguma coisa assim.
— Eu não quero, senhorita Chue.
— Você prefere que ele fique aqui, senhorita Maomao?
Maomao franziu a testa e conseguiu murmurar “Divirta-se” com a voz mais baixa possível.
O rosto do estrategista se iluminou. — Eu vou! Eu vou me divertir!
Maomao observou Onsou começar a levá-lo embora. — Só mais uma pergunta — disse ela, antes que ele saísse do alcance de sua voz.
— Sim? O que foi? Pode perguntar qualquer coisa ao seu papai!
Ela queria muito, muito quebrar aquele monóculo, mas se obrigou a ignorar o impulso. — Como o Mestre Gyoku-ou parece para você?
Ela sentia que a resposta para aquela única pergunta guardava a chave de tudo. Até Jinshi engoliu em seco, curioso para saber o que o estrategista diria.
Mas o que ele disse foi: — Gyoku-ou? Quem é esse?
— O homem com quem você vai jantar hoje! Aquele que mantém você abastecido de suco de frutas! — disse Maomao.
— Ahh! Ele — disse o esquisitão, batendo palmas. — Acho que ele já deve ter pensando em ser ator. Parece estar a caminho de se tornar um herói.
— Hã? — Maomao começou a sentir que estava desperdiçando seu tempo com aquela linha de perguntas. Um herói, nesse caso, era um papel masculino no teatro, geralmente um guerreiro ou, às vezes, um apostador cavalheiresco.
Maomao só ficou com ainda mais perguntas do que antes; começou a sentir algo equivalente a uma indigestão mental. Não ajudou quando Chue disse: — Senhorita Maomao, talvez já esteja na hora de você deixar que o Mestre Lakan se aproxime um pouquinho mais. Você saberia que tudo é calculado, mas poderia ser um pouco mais gentil.
— Acho que, no momento em que qualquer um de nós se aproximasse mais do que já estamos, ele nunca mais me deixaria em paz, e então nenhum dos dois conseguiria trabalhar. É isso que você quer?
— Ah! Sim. Entendi seu ponto. — Chue bateu palmas, mas parecia estar fingindo. Maomao só conseguiu lançar à animada dama de companhia um olhar irritado quase tão sombrio quanto aquele que tinha lançado ao estrategista.
[Noelle: Que início de volume 11 em gente? Cirurgia, enganação e ciúmes kkk]
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