Diários de uma Apotecária — Capítulo 11.03: Volume 11 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O Grande Lin

Diários de uma Apotecária
Cap. 11.03
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Diários de uma Apotecária

Volume 11 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O Grande Lin

Capítulo 11.03

5.617 palavras~24 min de leitura

No dia seguinte, Chue praticamente arrastou Maomao até uma grande sala em algum lugar do anexo. O lugar estava cercado por mosquiteiros, e havia um tapete espesso no chão.

Bem ao estilo de Anan, pensou Maomao. Não havia mesas, apenas algumas cadeiras baixas. Chá e petiscos haviam sido dispostos sobre o tapete, nada muito refinado; o enxame havia limitado esses luxos. Mas, quando não se tem escolha, não se pode exigir muito.

No centro da sala havia um tabuleiro de Shogi. Olhando fixamente para ele estavam um velho imundo que Maomao reconhecia e outro que ela não conhecia. O primeiro, é claro, era o estrategista esquisitão, mas e o segundo?

Deve ser o parceiro de Shogi dele.

Ela ouviu dizer que o homem tinha mais de oitenta anos. Devia ter sido imponente em sua época, mas agora estava curvado, e seu corpo tremia visivelmente. Uma bengala resistente estava à sua direita, enquanto, atrás dele, um homem de meia-idade, aparentemente seu cuidador, observava com preocupação.

— Eu trouxe ela! — anunciou Chue, levantando a mão com entusiasmo. Naturalmente, Maomao havia resistido à ideia de vir até ali, mas Chue a arrastou. Lihaku inclusive as acompanhou como seu guarda-costas.

O estrategista esquisitão ergueu os olhos do tabuleiro. — Ma... Maom… — Mas foi interrompido por algo que soou como uma pancada em um travesseiro. Era a bengala, que tinha sido fincada com força no tapete, tão violentamente que Maomao temeu que pudesse ter quebrado se não fosse pelo tapete espesso.

— Estamos no meio de uma partida! — berrou o outro homem, a força de sua declaração chocante diante de sua aparência senil. Então ele pegou uma de suas peças e a moveu para a frente, batendo-a no tabuleiro com um perfeito clique.

O velho de monóculo estreitou os olhos e voltou sua atenção ao tabuleiro, concedendo a Maomao apenas um aceno com a mão.

— Oooh, essa foi uma boa jogada — disse Chue, que pelo menos fingia estar prestando atenção.

— Se você diz! Para mim, não significa nada. Você sabe o que está acontecendo ali, senhorita Chue? — perguntou Lihaku com uma risada amigável.

— Ah, só pareceu a coisa certa a dizer. Sabe, por causa do jeito que ele bateu a peça no tabuleiro. — Ela não fazia a menor ideia do que aquela jogada significava; simplesmente disse o que lhe pareceu adequado. Como sempre.

— Agora, vamos, senhorita Maomao. Vamos pegar um pouco daquele chá! A senhorita Chue precisa dele se vai comer um lanche.

Maomao e os outros se sentaram no tapete. O verão na capital do oeste era mais quente do que na região central, mas pelo menos não era tão úmido. Os mosquiteiros eram, na verdade, telas contra gafanhotos, pois alguns dos insetos ainda estavam por ali.

Dá para sentir o dinheiro, pensou Maomao, passando os dedos pelo tapete. Era fresco como seda, mas macio como lã, e tinha um padrão delicadamente tecido, além de bordados. Até as telas eram feitas de gaze de seda, que se movia e cintilava a cada brisa que passava.

Maomao se sentou em uma das cadeiras baixas e pegou um pãozinho, um rolinho de tangerina frito coberto com leite condensado.

Acho que não importa o quão sofisticado seja o tapete. Ainda dá para derrubar migalhas nele.

O estrategista enchia a boca enquanto jogava, devorando os petiscos com tanto entusiasmo que seu ajudante, já acostumado a sofrer, mal conseguia mantê-los disponíveis.

— Onsooooo! Você consegue! — gritou Chue.

Onsou? Esse é o nome dele? Maomao nunca o tinha ouvido antes — nunca tivera motivo para isso — e, mesmo que tivesse, provavelmente teria esquecido. Parecia provável que ela ainda veria bastante de Onsou no futuro, então teria que tentar se lembrar.

— Ha, ha! O velho Onsou. Não é fácil ser ele, hein? — disse Lihaku, sem parecer muito preocupado. Como soldado, ele parecia reconhecer o homem.

Quando Onsou viu Maomao, ordenou que uma criada próxima preparasse petiscos suficientes para compensar a falta. Obviamente, ele estava acostumado com aquilo. Depois de colocar uma quantidade suficiente de doces diante do estrategista, ele veio até Maomao. — Sinto muitíssimo. Sei que ele vive aparecendo para incomodá-la. — Ele se curvou diante dela, profundamente arrependido. O ângulo da reverência era impecável; claramente, não era a primeira vez que ele precisava pedir desculpas em nome do estrategista.

Isso aqui é um achado. A velha madame teria dado tudo por alguém capaz de pedir desculpas daquele jeito. Onsou já não era jovem o suficiente para ser chamado de rapaz, mas sabia ser humilde sem parecer patético ou incompetente. Exatamente o tipo de pessoa necessária para apaziguar clientes furiosos depois que alguma cortesã inexperiente os tivesse desagradado. Os reclamões de verdade, aqueles que não podiam ser satisfeitos nem com um pedido de desculpas sincero, sempre poderiam ser expulsos pelos homens de serviço.

Será que ele estaria interessado em uma nova profissão? Eu poderia apresentá-lo.

Ser o responsável oficial pelos pedidos de desculpas de um bordel não era fácil para os nervos, mas ainda devia ser melhor do que ser assistente pessoal do estrategista esquisitão.

Jinshi ainda não estava ali… talvez nem viesse.

Se ele não tomar cuidado, as pessoas podem acabar ficando ainda mais irritadas com ele por estar em um lugar como este. Em momentos de crise como esse que enfrentavam, havia pouco tempo para Shogi ou banquetes. Aquela partida só estava sendo permitida porque era organizada pessoalmente pelo estrategista esquisitão.

— Com certeza esse cara não parece um farsante — comentou Maomao. Qualquer um capaz de fazer o estrategista esquisitão prestar tanta atenção a uma partida de Shogi precisava ser um jogador e tanto.

— Não — concordou Onsou. — Esse é o Grande Lin, em carne e osso.

— “Grande Lin”... Então ele é famoso ou algo assim?

— Antigamente, dizem que jogadores de Shogi vinham de todos os cantos para jogar contra ele, até mesmo da região central. Ele era tão bom assim. Se não tivesse passado por tempos difíceis, provavelmente seria ainda mais conhecido hoje.

— O que aconteceu? — perguntou Maomao, interessada pela observação.

— Ah... Cof, cof. Bem, como tenho certeza de que acabaria contando isso a você mais cedo ou mais tarde, é melhor tirarmos isso do caminho de uma vez. Tem relação com aquela informação útil que o Mestre Lakan mencionou. — Onsou baixou a voz, atento ao velho mal-humorado. — O Grande Lin já foi um burocrata de certa fama. Ele conhece muito bem a história da capital do oeste.

— Eu consigo acreditar nisso — disse Maomao. Os anos talvez tivessem feito com que ele parecesse menos obviamente carismático, mas o grito estrondoso de antes a convenceu de que ele estava longe de ter perdido a força.

— Se eu dissesse que o destino dele foi decidido dezessete anos atrás, você saberia do que estou falando?

— Você está se referindo à situação do clã Yi? — Os olhos de Maomao se arregalaram.

— Sim, exatamente. Os Yi confiavam plenamente no Grande Lin e, mesmo depois dele se aposentar da vida oficial, continuou compilando a história deles. Quando os Yi foram exterminados, porém, muitos funcionários acabaram envolvidos no expurgo, especialmente aqueles em quem os Yi mais confiavam. O Grande Lin saiu vivo, mas os choques sucessivos daqueles acontecimentos o levaram à senilidade.

— Essa é uma informação útil — disse Maomao. Aquilo sugeria que o Grande Lin poderia saber coisas que Maomao e Jinshi estariam muito interessados em descobrir. Então, porém, Maomao fez um som de confusão. — Espere. Você parece conhecer muito bem a queda dos Yi, Onsou. Até mesmo o Mestre Gaoshun não sabe muita coisa sobre isso. — Ela olhou para ele e estreitou os olhos.

— Ah, desculpe, você não sabia? A destruição deles aconteceu exatamente na época em que o Mestre Lakan estava hospedado na capital do oeste. Eu só ouvi as histórias, isso é tudo.

Maomao lançou um olhar furioso ao estrategista esquisitão enquanto ele jogava Shogi. Eu não ouvi. Por outro lado, ela nunca perguntou… mas, ainda assim, aquilo a deixou irracionalmente irritada.

— Sendo o Mestre Lakan quem é, é claro, a maior parte de suas lembranças consiste em salões de Go e dojos de Shogi. Dada a tendência dele de esquecer qualquer coisa que não seja de seu interesse pessoal, não sei se ele pode oferecer o tipo de informação que o Príncipe da Lua espera. Neste caso específico, suspeito que ele só se lembre do que se lembra porque considera o próprio Grande Lin uma pessoa marcante.

— Não me surpreende — disse Maomao. Fazer perguntas detalhadas ao estrategista sobre os Yi provavelmente seria inútil, mas isso eles já sabiam.

— Se ao menos o Grande Lin ainda estivesse em pleno domínio de suas faculdades, provavelmente poderia contar muita coisa sobre aquela época. Pelo que ouvi, ele tem momentos de lucidez... mas apenas momentos.

— Momentos — repetiu Maomao. Ela realmente já tinha ouvido dizer que pessoas sofrendo de senilidade às vezes recuperavam subitamente a lucidez. Onsou parecia sugerir que deveriam tentar encontrar o Grande Lin durante um desses momentos.

— Exatamente — disse Onsou. — Ah, o Mestre Lakan está me chamando. Preciso ir. Podemos conversar mais sobre isso depois. Ele voltou apressadamente para perto do estrategista, dessa vez, o esquisitão estava sem suco.

Maomao olhou ao redor da grande sala de estar. Viu o estrategista, Onsou e o Grande Lin, junto do cuidador do Grande Lin. Depois havia ela mesma, Chue e Lihaku. Jinshi e sua comitiva ainda não davam as caras.

Talvez eu não tenha escolha desta vez, pensou Maomao. Se Jinshi não aparecesse, ela e os outros teriam que tentar conseguir as informações por conta própria. Seria inútil tentar qualquer coisa, porém, antes que a partida de Shogi terminasse, então ela decidiu pegar mais petiscos.

— Senhorita Maomao, este pão frito é o melhor! — informou Chue.

— Quantos desses você já comeu, senhorita Chue?

— Estou verificando se estão envenenados — respondeu ela, com a expressão completamente séria.

— Eu mesma posso fazer isso, obrigada.

Os petiscos fornecidos eram realmente muito saborosos, mas a tragédia era que não havia vinho nenhum. Sim, sim, havia escassez de alimentos; tinham sorte de poder comer alguma coisa, etc. Teriam apenas que aguentar e suportar.

Enquanto o estrategista bebia seu suco recém-reposto, Onsou voltou até os espectadores. — Talvez você possa ficar com isto — disse ele, entregando algo a Maomao.

— O que é isso? — perguntou ela.

Ele entregou a ela um livro. Feito de papel de pergaminho, era uma coletânea de contos. Ela teria preferido uma enciclopédia de ervas medicinais ou talvez um tratado médico, mas aquela também não era uma escolha ruim.

— Também posso trazer quaisquer outros livros de que precise. Ou talvez prefira jogos de tabuleiro e cartas? — disse Onsou. Ele estava sendo tão prestativo com Maomao e os outros que ela começava a ficar desconfiada.

— Obrigada pela consideração, mas vamos ficar bem — disse ela, de maneira incisiva.

— Eu... Bem... Tem certeza disso? — Onsou parecia claramente desconfortável. — O Mestre Lakan e o Grande Lin começaram a partida há duas horas e... bem.

— Sim?

— Acho que podemos esperar que ela continue por pelo menos mais quatro horas.

— Q-Quatro... horas...

— Talvez queira saber que o Príncipe da Lua esteve aqui pouco antes de você, mas já foi embora. Disse que estava muito ocupado com o trabalho. Devo chamá-lo quando a partida terminar.

Para Jinshi, não existia tempo livre. Se trabalhar até o fim da partida era a coisa sensata a fazer, por que Maomao não poderia ir embora também? Havia muitos medicamentos que o Doutor You pediu que ela preparasse.

— Acha que eu poderia sair daqui? Você pode me chamar quando a partida terminar — disse ela, recolhendo uma bandeja de frutas e pãezinhos. Eles deixariam o médico charlatão, ultimamente atormentado pelos problemas de uma vida sem petiscos, muito feliz.

— Sinto muito, mas não. Se você sair agora, o Mestre Lakan perderá a concentração. E, se ele fizer alguma jogada... pouco ortodoxa, o Grande Lin ficará cansado e adormecerá.

Argh! Que saco. Maomao realmente se preocupava que, depois de mais quatro horas de Shogi, o homem de oitenta anos simplesmente pudesse desabar. Mais um motivo para eu não poder ir embora...

Ela teria que ficar e garantir que o velho não desabasse. Fez o melhor acordo possível, mandando trazer seu almofariz, pilão e ingredientes medicinais, e ficou trabalhando com Chue e Lihaku enquanto os velhos jogavam.

Será que esse homem vai aguentar? perguntou-se enquanto triturava algumas ervas e observava o Grande Lin, cuja mão tremia toda vez que movia uma peça. De vez em quando, o homem que cuidava dele pressionava um algodão úmido contra os lábios do Grande Lin. Em outras ocasiões, ele ajudava o Grande Lin a se levantar e então o levava ao banheiro.

Parece que ele está acostumado a cuidar de alguém.

O outro homem devia ter mais de quarenta anos: um filho, ou talvez, mais provavelmente, um neto. Parecia que a sobrevivência contínua do Grande Lin se devia àqueles cuidados pacientes.

Quando Onsou passou novamente para verificar como estavam, Maomao fez um sinal para que se aproximasse. — Quem é o homem que está com o Grande Lin? — perguntou ela.

— Algum parente distante. O Grande Lin não tem mais familiares próximos. O Mestre Lakan sempre se refere a ele como Pequeno Lin.

— Pequeno Lin?

Pequeno. Isso certamente poderia se referir a uma criança, mas, com a mesma frequência, significava alguém mesquinho, um sujeito desprezível. Mesmo que fosse simplesmente uma forma de fazer par com “Grande Lin”, ainda não era uma maneira particularmente educada de chamar alguém. Nesse aspecto, era muito a cara do estrategista excêntrico.

E assim o tempo precioso continuou escorrendo pelos dedos de Maomao.

Uma hora depois, eles haviam enchido uma bandeja com comprimidos redondos. Onsou, que parecia menos nervoso perto deles do que perto do estrategista, trabalhava arduamente para ajudá-los na tarefa. Maomao sacudiu a bandeja para alinhar as fileiras e, justo naquele momento, o Grande Lin tombou para a frente.

Assustada, Maomao correu até os jogadores.

— Ah! Maomao — disse o estrategista esquisitão com um sorriso. Ela o empurrou para o lado, tirando-o do caminho, e foi cuidar do outro velho.

Antes que pudesse sequer chegar até ele, alguém gritou: — Não há nada de errado! — Era o Pequeno Lin, que apoiou o Grande Lin e se inclinou quando o velho começou a sussurrar alguma coisa.

— Sim... Sim — disse o Pequeno Lin. Maomao não conseguia ouvir o que o Grande Lin dizia, mas o Pequeno Lin estava anotando tudo. Maomao deu uma espiada, apenas para descobrir fileiras de escrita cujo significado ela não conseguia compreender.

Por fim, o ditado do Grande Lin pareceu terminar. O Pequeno Lin massageou gentilmente suas costas e umedeceu seus lábios com o pano de algodão.

— Terminou, Pequeno Lin? — perguntou o estrategista esquisitão, lançando um olhar para Maomao.

— Ele está exausto. Devemos deixá-lo descansar — respondeu o Pequeno Lin, aparentemente indiferente ao tom do estrategista.

Ele deitou o homem idoso com cuidado e então começou a registrar o estado do tabuleiro de jogo.

— Cuidar de alguém não é fácil, hein? — disse Chue enquanto pegava outro pãozinho — desta vez do prato do estrategista — e o enfiava na boca. Ela parecia completamente indiferente ao assunto. Maomao ficou preocupada com Gaoshun e Taomei quando eles chegassem à velhice.

— Maomaaaooo! — chamou uma voz melodiosa. O estrategista começou a abrir caminho até ela.

Maomao franziu a testa, enojada. — Por favor, não chegue mais perto. Você está fedendo como um cachorro que ficou na chuva.

— Uau, isso... realmente parece ofensivo quando você fala desse jeito — comentou Lihaku.

Para o bem ou para o mal, porém, o homem em questão era imune a praticamente qualquer coisa que Maomao pudesse dizer. — Ouvi dizer que você gosta de petiscos salgados, então fiz questão de ter muitos, muitos deles à disposição! Que tal um pouco de vinho? Quer? Posso conseguir para você!

— Vinho… — Por apenas um segundo, Maomao sentiu algo puxar seu coração, mas então balançou a cabeça vigorosamente.

A carranca em seu rosto devia estar realmente terrível, porque Chue interveio. — Se está oferecendo, a senhorita Chue adoraria um vinho de frutas especialmente preparado! Além disso, como tecnicamente temos um trabalho a fazer aqui, talvez você pudesse me contar sobre o velho ali.

Ah, Chue. Prazer antes dos negócios. Ao lado dela, Lihaku pôde ser ouvido dizendo: — O vinho pode esperar, obrigado.

Enquanto isso, o estrategista olhou para Chue, perplexo. — Você quer dizer o Cavaleiro?

Ele comparou o homem não a uma pedra de Go, mas a uma peça de Shogi. Em outras palavras, aquele era alguém que se destacava para ele por ser particularmente marcante. Como sempre, ele era um perspicaz avaliador de caráter, ainda que em nada mais.

— Se quiser saber sobre meu tio-avô, permita-me explicar — disse o Pequeno Lin, aproximando-se. O Grande Lin dormia tranquilamente.

Quase por instinto, todos formaram um círculo frouxo ao redor dos petiscos. Chue preparou chá e o serviu aos outros. Maomao colocou pratos individuais diante de cada um deles e, enquanto isso, empurrou os diversos medicamentos e instrumentos farmacêuticos para um lado.

— Posso perguntar o que vocês já ouviram sobre ele? — disse o Pequeno Lin, encarando Maomao e os outros com calma. Ele podia não parecer grande coisa, mas pelo menos sabia ser educado. Onsou disse que sua família passou por tempos difíceis, mas ele pelo menos parecia ter recebido uma criação respeitável. Até falava educadamente com Maomao e Chue.

O tio-avô dele, hein? O Pequeno Lin parecia ter cerca de quarenta anos. Seus cabelos eram pretos, mas pareciam temperamentais, e seus olhos eram claros.

O Grande Lin também tem um pouco de aparência estrangeira. Ele tinha o nariz anguloso que as pessoas com sangue estrangeiro frequentemente possuíam, embora seus cabelos ralos e sobrancelhas fossem brancos, era impossível dizer qual tinha sido a cor deles. Os cabelos que ainda tinha estavam desgrenhados; talvez não gostasse de prendê-los.

Era incomum ver um homem da idade do Pequeno Lin cuidando tão de perto de um tio-avô. Será que ele realmente não tinha outros parentes?

— Ouvi dizer que ele era chamado de uma enciclopédia viva da história da capital do oeste — disse Onsou. Enquanto isso, o estrategista tentava empurrar petiscos para Maomao, então Chue se colocou entre os dois. Evidentemente, ainda havia espaço em seu estômago, pois os quitutes desapareceram rapidamente.

— Sim, antigamente o chamavam assim. Mas agora ele está... bem, vocês estão vendo. Ele estava em pleno domínio de suas faculdades até os acontecimentos de dezessete anos atrás.

— Você quer dizer a repressão do clã Yi, certo? — perguntou Onsou, prestativamente garantindo que Maomao e os outros conseguissem acompanhar. Maomao ficou contente por ter ouvido parte daquela história antes.

Ele realmente sabe como fazer as coisas acontecerem. Onsou não fazia alarde, mas dava um empurrãozinho aqui ou uma ajudinha ali para manter tudo avançando sem problemas. Obviamente, não fazia muito tempo que estava a serviço de um superior que só sabia desorganizar ordens e frustrar planos.

— Sim, isso mesmo. Durante a campanha, ele foi atacado e atingido justamente no lugar errado. — O Pequeno Lin ergueu alguns dos cabelos ralos do Grande Lin, revelando uma cicatriz proeminente. — Na época, meu tio-avô havia sido encarregado de compilar uma história da capital do oeste. Quando os Yi foram subjugados, porém, ele também foi considerado um rebelde. Talvez possamos nos considerar sortudos pelo menos porque o restante da família dele escapou da punição.

Uma ruga se formou na testa do Pequeno Lin, um sinal de como era difícil para ele recontar aquelas coisas.

— Repressão é uma palavra que soa muito nobre, mas não passou de uma violência. Meu tio-avô foi preso, e queimaram não apenas a história que ele havia compilado, mas todos os livros e pergaminhos nos quais ele baseou seu trabalho. Quando finalmente voltou para nós, meses depois, estava... assim. Seus parentes mais próximos o abandonaram. Apenas meu pai o acolheu.

Talvez os sintomas do Grande Lin fossem resultado de ver o trabalho de toda uma vida ser confiscado e destruído, ou talvez de simples violência. Ser abandonado pela própria família talvez tivesse sido ainda pior.

— Havia tanta informação preciosa naqueles registros. Até hoje, lamento a destruição deles! — O Pequeno Lin bateu no tapete de maneira demonstrativa.

É fácil queimar as coisas... Mais difícil é fazer com que deixem de estar queimadas.

A mente de Maomao ainda estava nas estranhas anotações que o Pequeno Lin havia feito enquanto ouvia o tio-avô. O que significavam? Se ele estava tentando reconstruir as histórias a partir dos murmúrios do velho, seria uma tarefa e tanto.

Onsou olhou para Maomao como se dissesse que deixava o restante nas mãos dela.

Quanto ao que o estrategista esquisitão estava fazendo naquele momento, seu rosto havia ficado vermelho e ele estava ficando bêbado. Ele segurava uma garrafa de vidro. Maomao tentava se concentrar na conversa, mas não conseguia evitar olhar para ele.

Parece que ele confundiu o suco com o vinho de frutas. Estava claro para ela que o estrategista havia bebido por engano o vinho que Chue queria. Chue pegou a garrafa dele, mostrou a língua de maneira brincalhona e então começou a beber.

Vamos, deixa um pouco para mim! Maomao tentou enviar a mensagem telepaticamente para Chue, mas não parecia haver muita esperança de que ela chegasse até ela. Resignada, voltou-se para o Pequeno Lin.

— Então, o que precisamos fazer para alcançar as memórias do Grande Lin? — perguntou ela.

— Meu tio-avô é uma pessoa muito cuidadosa. Por exemplo, ele nunca teria colocado todos os livros dele, que poderiam ser queimados com tanta facilidade, em um só lugar. Se você está procurando registros, tenho certeza de que ele os escondeu em algum lugar.

— Quer dizer que você acha que ele tinha outra biblioteca além daquela que foi queimada?

— Sim, acho.

Se o Grande Lin guardou cópias dos livros em outro lugar, então os registros ainda poderiam existir. Havia apenas um problema.

— Se vocês não encontraram, significa que ninguém sabe onde eles estão.

— Exatamente. Ninguém encontrou essa biblioteca. Até mesmo a ideia de que os livros possam estar todos lá não passa de uma possibilidade.

Era como tentar agarrar a neblina mas, pelo menos, a ideia de uma biblioteca separada parecia plausível.

Maomao olhou para o velho, que respirava tranquilamente. Aquele estrategista esquisito realmente não passava de um espinho em seu caminho mas, de vez em quando, ele conseguia ser útil.

— Então, imagino que vocês aproveitem os momentos de lucidez dele para tentar descobrir onde fica a biblioteca — disse ela. Para fazer uma coisa dessas, seria preciso alguém com muita paciência.

— Você realmente acha que dá para encontrar desse jeito? — Chue perguntou, dizendo em voz alta o que Maomao tentava insinuar.

O Pequeno Lin tomou um gole do chá, como se não soubesse ao certo se deveria contar o que diria a seguir. Então respondeu: — Na verdade, já encontraram uma vez.

Os olhos de Maomao se arregalaram. — Sério?

— Sim. Pelo que entendi, alguém procurou a casa onde meu tio-avô costumava morar, com base nos fragmentos das coisas de que ele se lembrava. E, quando encontraram...

— E aí? O que aconteceu?

— Lá estavam! Registros de partidas que meu tio-avô escondeu há muito tempo, escondidos sob as tábuas do assoalho.

— Registros de partidas — repetiu Maomao. Sinceramente, aquilo parecia ter pouco valor. — Imagino que todos tenham ficado bem decepcionados. Depois de toda aquela procura e tudo mais.

Parecia possível que aqueles parentes tivessem acolhido o Grande Lin, em parte, porque achavam que poderiam receber alguma herança com isso.

— Muito decepcionados. Pelo que me disseram, usaram os registros como lenha no forno.

Pensar que aqueles papéis provavelmente eram tesouros inestimáveis para o Grande Lin. O valor estava nos olhos de quem observava, e isso podia tornar a vida tão cruel.

— Nossa, que desperdício. Eles poderiam até valer alguma coisa se ainda estivessem por aí — disse Chue, que continuava tomando o vinho. Sério, ela podia pelo menos deixar uma xícara cheia.

— Você tem toda a razão — concordou o Pequeno Lin. — Uma vez, alguém chegou a me procurar querendo vender aqueles registros de partidas, depois de descobrir como meu tio-avô era talentoso no Shogi.

— Vender? — perguntou Maomao. Aquilo parecia um esquema que ela conhecia bem.

— Ah, sim. Parece que Go está fazendo o maior sucesso na Província de Kaou, e existe um livro muito popular que reúne partidas. Essa pessoa queria saber se um livro de partidas de Shogi poderia fazer o mesmo sucesso.

Maomao lançou um olhar de relance para o velho fedorento, que agora roncava tranquilamente. De algum modo, o mundo continuava vivendo à sombra dele, embora nem ele nem o mundo soubessem disso.

— A família dele quase ficou desesperada quando descobriu que aquelas partidas poderiam render dinheiro, mas, antes que pudessem decidir o que fazer, veio o enxame... A família descobriu em algum lugar que o Mestre Lakan era um velho amigo do meu tio-avô e, embora eu tenha vergonha de dizer isso, eles o convenceram a pedir ajuda.

O Pequeno Lin estava vermelho até as orelhas, humilhado até mesmo por contar aquela história. Maomao sabia muito bem que existiam famílias menos do que ideais por aí, mas, quanto mais pobre você era, menos espaço havia para sentimentalismo. Se nunca tivessem passado por dificuldades, talvez fossem um grupo de pessoas perfeitamente decente. Talvez fosse o ponto de vista pessoal e distorcido de Maomao que fazia o devoto e atencioso Pequeno Lin parecer, na verdade, o mais estranho de todos.

— Acho que o raro prazer de jogar Shogi com o Mestre Lakan trouxe de volta um pouco da vivacidade do meu tio-avô. Sei que este pode parecer um pedido bastante atrevido, mas, quando a partida terminar, vocês poderiam nos dar os registros escritos dela?

— Acho que não vejo por que não — disse Maomao. O estrategista esquisito não parecia ser alguém que se importaria com isso.

— Então, supondo que os murmúrios do meu tio-avô levem a outro esconderijo de papéis ou registros antigos de partidas?

— Nós daremos todos os registros de partidas para vocês.

— Lady Maomao — disse Onsou, visivelmente preocupado.

— O estrategista esquisito não tem nenhum interesse especial em registros de partidas antigas, tem? — perguntou ela.

— Não, mas, se ele por acaso disser alguma coisa...

— É só colocar a culpa em mim.

— Com toda certeza! — Onsou obviamente só queria conseguir um compromisso verbal firme de Maomao. O homem era meticuloso.

Restava apenas a questão, a questão crucial, de onde aqueles livros e papéis poderiam estar.

— Você ainda tem aquelas coisas que anotou antes? Podemos vê-las, por acaso? — perguntou Maomao educadamente.

— Aqui. Também tenho todas as anotações que fiz até agora — disse o Pequeno Lin. Ele tirou uma coleção que não era composta por folhas de papel nem mesmo por tiras de madeira para escrita, mas por pedaços de pergaminho.

— Estes também parecem registros de partidas — disse Maomao, intrigada. Os pedaços continham inscrições como “S59” e “+B83”. Até Maomao, que não tinha o menor interesse em Shogi, reconheceu aquilo como uma notação que mostrava como as peças haviam se movimentado durante uma partida de Shogi. Aquela notação usava algarismos estrangeiros que não eram utilizados na Província de Kaou, talvez para facilitar a leitura.

Isso realmente significa alguma coisa? Maomao conteve um gemido. Em vez disso, virou-se para Onsou e perguntou: — Você tem outro tabuleiro de Shogi e algumas peças que possamos pegar emprestadas? — Quando não se entendia alguma coisa, não havia nada melhor do que tentar na prática.

Onsou providenciou os materiais e, com um clique-clique-clique, Maomao começou a alinhar as peças.

— Vejamos... S59 seria… — Ela tentou colocar as peças nas posições indicadas pelas anotações, mas, cada vez mais, suspeitava de que aquilo era uma tentativa inútil. Ela estava prestes a colocar um dos Peões quando parou.

— Agora, isso é engraçado — Chue interrompeu, olhando para o tabuleiro. — Está dizendo que aquele Peão deveria se mover para a segunda fileira.

— Hã! Até eu sei que essa é uma jogada ilegal. — Agora Lihaku também estava entrando na conversa.

— E também há três Dragões. Isso não é normal. Talvez nem todas essas anotações sejam da mesma partida — disse Onsou, observando o tabuleiro. — Será que isso faria mais sentido para mim se eu soubesse mais sobre Shogi?

— O senhor não entende bem do jogo? — perguntou Maomao.

— Sei jogar, mais ou menos, mas, por favor, lembre-se de quem é o meu chefe. Não estou interessado em transformar um passatempo em mais um trabalho. — Onsou estava com os olhos mortos.

— Rapaz, eu sei bem como é isso! — disse Lihaku, sem parecer muito melhor.

— Por que isso, Mestre Lihaku? O senhor não serve diretamente ao estrategista... Na verdade, acho que não tem muito a ver com ele, não é? — perguntou Maomao. Lihaku era um soldado, isso era verdade, mas via o estrategista muito menos do que Onsou.

Em vez de responder, Lihaku disse: — Olhe o contorno. Não lembra um mapa da capital?

— A capital?

— Uma cidade disposta em uma grade perfeita, com o trono no topo. Está bem ali!

— Ah... Acho que entendi o que você quer dizer.

Resumindo, Lihaku não conseguia olhar para um tabuleiro de Go sem enxergar a capital. Como este é um tabuleiro de Shogi, não é exatamente a mesma coisa, mas ainda assim. Ela entendeu o que ele queria dizer. Como soldado que passava boa parte do tempo protegendo a cidade imperial, ele via muitos mapas do lugar.

— Vamos começar alinhando todas as peças das anotações — disse Maomao. Seguiu-se uma série de cliques enquanto ela colocava as peças no lugar, mas elas acabaram ficando nitidamente concentradas em uma parte do tabuleiro.

— Isso parece uma partida de Shogi para vocês?

— Não muito — disse o Pequeno Lin. Ele parecia ser a pessoa mais capaz de jogar Shogi que ainda estava acordada, com o Grande Lin e o estrategista ambos no mundo dos sonhos. Não estava claro quanto Chue sabia sobre o jogo, então Maomao desconsideraria a opinião dela.

— Se não é uma partida de Shogi, o que você acha que é? — perguntou Maomao, erguendo a mão em um gesto de completa derrota.

— É, a peça do Rei está voando para todo lado — disse Lihaku.

— A senhorita Chue pensou a mesma coisa! Esse General de Jade realmente anda por aí.

Maomao concordava com seus companheiros. O General de Jade, que normalmente se movia um quadrado lento de cada vez, tinha avançado até o centro do tabuleiro.

— Jade — murmurou Maomao, encarando o tabuleiro. — Gyoku.

O Rei, o líder adversário, estava bem no centro, no lado norte do tabuleiro. Várias outras peças também pareciam estar estranhamente fora de posição.

— Mestre Lihaku — chamou Maomao.

— O quê?

— Se você imaginasse este tabuleiro de Shogi como sendo a capital, como ele ficaria? — Ela virou o tabuleiro para que ele pudesse vê-lo.

— Hmm... Acho que esta peça do Rei teria que representar o trono. O que significaria… — Ele apontou para os grupos de peças. — Esses lugares onde as peças estão todas amontoadas teriam que ser o mercado ou o distrito dos comerciantes, ou talvez uma área residencial.

— E o General de Jade?

— Hã... Talvez um inimigo? Um inimigo político? Ou talvez seja a casa de um burocrata particularmente poderoso? — Ele não parecia muito certo.

Sim! Isso faria sentido!

Maomao olhou para Chue. — Senhorita Chue, você tem um mapa da capital do oeste?

— Ha ha! — Lihaku riu. — Você diz umas coisas tão estranhas. Quem carregaria um...

— Aqui está! — Chue tirou um mapa, desenhado em pergaminho, das dobras de suas vestes.

— Por que você tem isso?! — exclamou Lihaku, fazendo a piada que o Irmão do Lahan não estava ali para fazer.

— Porque eu sou a senhorita Chue! — declarou ela. De fato, Maomao sabia que ela era. Era justamente por isso que havia perguntado. E, no fim, tinha feito bem em perguntar.

Maomao abriu o mapa e o comparou com o tabuleiro de Shogi. — Está vendo o General de Jade aqui? Se compararmos com o mapa da capital do oeste, não parece que ele corresponde exatamente a este anexo?

Os outros quase deram um pulo. Todos se amontoaram ao redor, olhando do mapa para o tabuleiro e depois de volta para o mapa.

A capital do oeste, assim como a capital imperial na região central, havia sido planejada em um padrão de grade, com setores distintos. Mas as divisões não eram tão organizadas quanto as da capital imperial, então eles não perceberam a semelhança.

— Então isso faria da peça do Rei...

— O escritório administrativo ou a residência do Mestre Gyokuen, talvez. Mas eu apostaria no escritório. É onde ficava a mansão que o clã Yi ocupava dezessete anos atrás — contou o Pequeno Lin.

Era muito útil ter alguém da região por perto, alguém que pudesse informá-los sobre acontecimentos do passado.

— Isso explicaria todos os dragões por aqui — disse Maomao. — Se bem me lembro, havia uma loja com a palavra Dragão no nome.

Desenhos de dragões de verdade deveriam ser proibidos para todos, exceto os membros da família imperial, mas, às vezes, a palavra “dragão” aparecia no nome de uma loja. Era considerado um símbolo de boa sorte.

— E estes aqui? — perguntou Chue, apontando para os dois Peões enfileirados.

— Pela posição, parecem estar ao longo da via principal — disse Maomao.

— Talvez representem uma livraria ou uma papelaria? Sabe, algum lugar onde você compraria coisinhas.

— Humm. Não me lembro de nenhum lugar assim — murmurou Lihaku.

Peça por peça, Maomao tentou descobrir o que as peças de Shogi representavam.

Então Chue disse: — A senhorita Chue teve uma ideia. Talvez um mapa atual não possa nos ajudar.

Ela tinha razão. Em dezessete anos, lojas podiam abrir e fechar, com alguns negócios falindo enquanto outros, novos, começavam.

— Se me permitem, posso buscar um mapa antigo! Por favor, cuidem do meu tio-avô por um momento — disse o Pequeno Lin, levantando-se. O Grande Lin ainda estava dormindo.

— Então vou chamar o Príncipe da Lua. Lady Maomao, por favor, cuide do Mestre Lakan — disse Onsou, também se levantando.

— Cuidar do Grande Lin, entendi — disse Maomao.

— Não! Preciso que fique de olho no Mestre Lakan! — Onsou estava desesperado, mas mesmo assim foi embora. Maomao e os outros se perderam na comparação entre o tabuleiro de Shogi e o mapa moderno. As comparações pareciam estar indo muito bem.

Tão bem que todos deixaram passar algo crucial.

Fim da leitura

Capítulo 11.03 concluído

Volume 11 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O Grande Lin