Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 9 – Capítulo 9: A Ideia de Jinshi
Capítulo 8.09Pergunta: O que você faz quando tem trabalho demais e isso está se tornando um problema?
Resposta: Você faz outras pessoas trabalharem por você.
Óbvio. Simples. Mas difícil de colocar em prática. Ainda assim, Maamei tinha sido diligente em nome de Jinshi e, quando ele voltou de sua viagem, encontrou muito menos trabalho acumulado do que temia. A solução de Maamei tinha sido bastante elegante: como o título de Jinshi era, em princípio, principalmente honorário, ela simplesmente devolveu todos os diversos trabalhos, tarefas e afazeres aos departamentos que os haviam empurrado para ele inicialmente.
Incluindo a questão dos insetos.
— Deixe o Diretor das Águas ou o Mestre da Agricultura lidarem com isso; foi a avaliação dela. O primeiro era responsável pelo controle de enchentes, enquanto o segundo supervisionava tanto a moeda quanto os cereais. Jinshi já havia tentado passar o assunto para eles antes, mas ambos o rejeitaram com um — Não é nosso trabalho. Estamos ocupados, desculpe.
Ele tentou explicar isso a Maamei, mas ela não quis saber. — Eles disseram o quê? Rebate na mesma moeda! Você está acima deles, Mestre Jinshi, mesmo que seja só de forma provisória. O quê? Vai ficar tentando imaginar o que eles pensam porque é jovem ou algo assim? Está preocupado em ferir os sentimentos deles? Deixe que usem um daqueles velhos acomodados, os que aparecem ao meio-dia, tomam chá e vão embora de novo. Se disserem que estão ocupados, que não têm tempo livre? Garanto que é só porque passam a noite inteira ocupando as mãos com as mulheres do distrito dos prazeres. Vá procurá-los nos bordéis e entregue o trabalho lá mesmo. Aposto que os departamentos estão cheios desse tipo de gente.
Não havia como vencer Maamei em uma discussão. Basen e Baryou pareciam querer intervir, mas não ousavam contradizer a irmã.
Maamei era uma mulher extremamente capaz, mas era apenas isso: uma mulher.
Por causa do seu gênero, ninguém estava disposto a lhe dar qualquer cargo oficial. Mas, se Basen era nota um em uma escala de eficiência no trabalho e Baryou era nota cinco, Maamei era um sólido três. As pessoas não sabiam o que estavam perdendo. Ela não produzia tanto quanto Baryou, mas, quando estava presente como sua assistente, funcionava como um multiplicador de força, tornando-o duas ou três vezes mais eficiente. Se tivesse nascido homem, quase certamente teria sido o assistente de Jinshi. Mas, considerando o quanto ela sabia falar, talvez fosse melhor mesmo que fosse mulher.
— Também tenho um aviso para você, Mestre Jinshi, já que está ficando com uma visão limitada — acrescentou ela.
— S-Sim? Qual? — Ele tremeu um pouco, mesmo sem querer.
— Pessoas normais considerariam receber uma montanha de insetos mortos como algo próximo de assédio. Principalmente quando essa entrega é feita a uma jovem.
Isso deixou Jinshi sem palavras. Tudo o que ele conseguiu fazer foi encolher os ombros e dar um tapa na própria testa.
— Divida o trabalho — disse Maamei. — Faça uso de qualquer pessoa que puder. E, para quem não puder usar, dê alguma tarefa sem importância, só para mantê-los fora do seu caminho.
Com isso, ela expulsou Jinshi do escritório, ordenando que usasse sua influência, ou seu charme, se necessário, para tirar aqueles papéis de sua mesa.
Ela insistia que as pessoas reagiriam de forma diferente se ele aparecesse pessoalmente, mas ele não estava nada animado com a ideia. As pessoas tendiam a atribuir muito significado à sua presença à porta delas. Na época em que era um “eunuco” no Palácio Interno, ele teria usado a estratégia de Maamei sem hesitar, mas, como irmão mais novo do Imperador, ele relutava. Ainda assim, era melhor do que não ter nenhuma forma de avançar, então foi.
— Meu charme, essa foi boa... — resmungou ele.
— Preciso pedir desculpas pela minha irmã — disse Basen, que o acompanhava como guarda. (Jinshi não era o único que mal conseguia encarar Maamei.) Então, olhando em volta, ele acrescentou: — Mas devo dizer que há certa verdade no que ela fala. Veja quantas pessoas nem se dão ao trabalho de trabalhar.
Muitos deles correram para esconder alguma coisa quando Jinshi se aproximou.
Havia gente encostada nos corrimãos lendo o livro de Go. Jogavam partidas de Go nos intervalos, cercados por outros burocratas observando. Alguns correram para ao menos fingir que não estavam jogando quando viram Jinshi; outros desviaram o olhar. Mas havia quem estivesse tão absortos na partida que nem percebeu sua presença. Ele acabou se vendo concordando com Maamei: eles precisavam fazer a porcaria do trabalho deles. Estava começando a se sentir ridículo por ter trabalhado até perder o sono todo esse tempo.
— Eu sabia que era popular, mas acho que isso pode estar saindo do controle — disse ele.
— Mestre Jinshi, não tenho tanta certeza sobre permitir esse tipo de coisa aqui — disse Basen. Ele observava um quadro de avisos normalmente reservado para decretos imperiais.
— Bem, nós mudamos o local — respondeu Jinshi. Basen observava o panfleto recém-reimpresso sobre o torneio de Go. O envolvimento pessoal de Jinshi havia sido encarado como uma excelente oportunidade para divulgar a competição por toda parte. — Torneio ou não, essas pessoas parecem um pouco... entusiasmadas demais com esse jogo, não acha? — disse Jinshi.
A resposta para sua pergunta estava bem ali, no próprio panfleto.
— Parece que há um valor de dez moedas de prata para desafiar o Grande Comandante Kan — disse Basen, confuso, passando os dedos sobre as palavras.
Jinshi havia achado razoável e decente a taxa de inscrição de dez moedas de cobre, mas aqui entrava o espírito empreendedor. Ele tinha quase certeza de que conseguia sentir a presença do sobrinho do estrategista excêntrico em algum lugar nos bastidores. Lakan jamais teria orquestrado um evento desses sozinho; devia ser, em grande parte, obra de Lahan.
— Ele também vai lançar outro livro — observou Basen. — Uma coletânea de problemas de Go, limitada a quinhentas cópias. Você acha que vai vender?
— Eles claramente acreditam que sim.
Até onde pretendiam levar aquilo? Por outro lado, refletiu Jinshi, talvez Lahan considerasse esse o mínimo necessário para tornar todo o projeto viável.
Um ano antes, o “estrategista raposa” havia comprado o contrato de uma cortesã por um valor suficiente para construir uma boa mansão, e ainda não tinha pago o muro do Palácio Interno que ele havia danificado.
[Kessel: Por que a informação de que o Lakan é caloteiro não me espanta nem um pouco? kkkk!]
— Dez moedas de prata por uma única partida de Go. Não parece um pouco caro? — perguntou Basen.
Um plebeu poderia viver confortavelmente por um mês com essa quantia. Jinshi, que vinha aprendendo a desenvolver seu senso financeiro por insistência de Maomao e Gaoshun, entendia que não era uma soma pequena.
Ainda assim, respondeu:
— Eu diria que é até uma pechincha.
— Uma pechincha, senhor? Não consigo imaginar isso.
Basen tinha razão, se o jogo fosse apenas uma oportunidade de aprender com o Grande Comandante. — E se você vencer o Grande Comandante Kan? Estaria praticamente ganhando dinheiro — disse Jinshi. Basen prendeu a respiração. Que maneira de valorizar a própria reputação! — Aqui diz que o desafiante joga com as pedras pretas e que a partida será disputada sem komi.
No Go, o jogador das pedras pretas faz o primeiro movimento, o que lhe dá vantagem. Para tornar a disputa mais justa, o jogador das pedras brancas normalmente recebe uma quantidade de pontos, chamada komi, como compensação.
— Sabe, tenho a impressão de que o Grande Comandante é relativamente mais respeitoso com pessoas que jogam bem Go — disse Basen.
— Suspeito que seja porque, se tratasse todos com desprezo, logo ficaria sem ninguém para jogar.
De qualquer forma, “relativamente” era a palavra-chave.
— Se o senhor o derrotasse, Mestre Jinshi, talvez ele parasse de aparecer no seu escritório só para causar confusão. O senhor não teme que ele volte à sua carga de trabalho habitual quando o torneio terminar?
Jinshi havia convencido Lakan a fazer parte do próprio trabalho em troca de um local para realizar o torneio, e Basen temia que, quando tudo terminasse, Lakan pudesse tentar alguma retaliação. Ainda assim, diante do estrategista, Jinshi suspeitava que nem mesmo as pedras pretas o ajudariam muito. Aquela raposa era um jogador muito melhor do que até mesmo um profissional mediano.
Mesmo assim… Talvez valesse a pena tentar.
— Dez moedas de prata... — ponderou Jinshi. Não era tão caro assim.
Jinshi ainda apreciava a simples sensação de poder voltar para casa antes do pôr do sol. Precisaria se lembrar de agradecer à Maamei.
— Com sua licença, senhor — disse Basen.
Ele estava voltando para sua própria casa. Outra pessoa assumiria a guarda noturna. Basen tinha insistido para permanecer na residência de Jinshi e ficar de prontidão, mas, para ser sincero, Jinshi achava que seria exaustivo ser acompanhado por Basen o dia inteiro, todos os dias, então recusou educadamente.
Suiren o recebeu quando ele chegou ao seu pavilhão.
— O senhor deve querer uma refeição — disse ela com um sorriso.
— Não, prefiro tomar banho primeiro — respondeu Jinshi, mas então parou. Havia algo diferente no ar. Seu incenso favorito queimava, mas o cheiro estava mais doce do que o normal. E os guardas no interior não eram rostos que ele reconhecia. — Temos visita? — perguntou ele.
— Sim, senhor.
Havia poucas pessoas que poderiam aparecer de surpresa na residência de Jinshi.
Ele foi até a sala de estar, enquanto os guardas no corredor se curvaram à sua passagem. Lá encontrou exatamente quem esperava, relaxado e aguardando por ele.
— Não precisam de Vossa Majestade no Palácio Interno esta noite? — perguntou Jinshi, curvando-se diante do Imperador.
— Ultimamente, o supervisor vive tentando me empurrar novas concubinas — respondeu Sua Majestade. Ele segurava uma bebida em uma mão, da qual tomava goles, e um livro na outra, que estava lendo, além de ostentar uma extraordinária barba. Um tabuleiro de Go estava diante dele. Então ele era mais um que tinha embarcado na moda. — Tudo gira em torno de quais garotas ele acha que correspondem ao meu gosto.
Ou seja, mulheres bem dotadas, sem dúvida. Mas o líder de todo o país não escolhia companheiras de cama apenas pelo tamanho do busto. Uma concubina podia corresponder às preferências dele e ainda assim ser politicamente desastrosa, esse parecia ser o cerne da reclamação de Sua Majestade. Mas não era a única preocupação em sua mente. Havia também a recém escolhida Imperatriz, Gyokuyou. O pai dela, Gyokuen, estava atualmente na capital. Ainda não estava claro se ele voltaria para o oeste, de onde veio, ou se permaneceria como um cidadão proeminente daquela cidade, mas a segunda opção parecia mais provável.
— Está desconfortável com a presença do seu sogro por perto? — perguntou Jinshi. Afinal, aquela era a sua residência; ele podia se dar ao luxo de ser um pouco irreverente.
— Ao longo da história, quem usa a coroa sempre precisou estar atento aos sentimentos das pessoas ao redor — disse o Imperador. Ele colocou uma pedra no tabuleiro com um clique e então gesticulou para a cadeira vazia à sua frente, convidando Jinshi a sentar.
Jinshi se sentou, sorrindo para Sua Majestade. O recipiente ao seu lado estava cheio de pedras brancas.
— Mas a vida da Gyokuyou não é mais fácil do que a minha. Se eu tenho que cuidar do meu sogro, ela tem que pensar na sogra dela todos os dias. — Gyokuyou havia deixado o Palácio Interno e agora estava instalada perto da residência da Imperatriz Viúva. Para a nova Imperatriz, provavelmente era uma existência ainda mais tediosa do que a vida que levava no Palácio Interno. — Por falar nisso, quando fui visitá-la outro dia, ela me pediu um favor.
— E qual foi?
— Considerando a... vulnerabilidade de sua nova posição, ela quer uma provadora de comida. Ela mencionou o quanto ficaria satisfeita se fosse alguém que ela já conhecesse.
Jinshi resistiu ao impulso de franzir a testa. — E o que você fará com a garota?
— Ora… que garota?
Jinshi não caiu na provocação. O Imperador sacudiu o livro na direção dele, claramente se divertindo. Jinshi tinha certeza de que Sua Majestade estava zombando dele. Assim como Gyokuyou, ele também tinha um lado brincalhão.
— Eu a teria considerado, se ela não fosse de origem tão distinta — Ele pousou o livro, que, nem é preciso dizer, era aquele do estrategista excêntrico.
Lakan não se alinhava a nenhuma facção da corte, mas também não formava um grupo próprio. No palácio, era praticamente senso comum deixá-lo em paz, a menos que fosse absolutamente necessário. Ele sempre permaneceu solteiro e até havia adotado um filho, então ninguém imaginava que tivesse uma filha biológica. Lakan, por sua vez, dizia que não estava tentando escondê-la; as pessoas simplesmente, e por conta própria, interpretaram mal seu comportamento.
Segundo Jinshi ouviu dizer, mesmo antes de Maomao entrar no Palácio Interno, a dona do bordel costumava recebê-lo com um balde de água fria quando ele aparecia correndo e gritando: — O papai está aqui! — A maioria das pessoas acreditava que ele ia até lá para ver sua cortesã favorita e que era apenas um velho rabugento e inconveniente que já não tinha permissão para entrar.
De certa forma, era algo impressionante. Só quando ele atravessou as paredes do Palácio Interno à força e, mais tarde, começou a aparecer regularmente no consultório médico para interromper o trabalho de todos, é que as pessoas começaram a considerar: Ah, então ele tem uma filha? Embora Maomao se recusava terminantemente a reconhecer isso, qualquer coisa que ela escolhesse fazer no palácio poderia afetar a própria estrutura de poder da corte. Gyokuen já estava deixando a situação fugir do controle. Se a filha de Lakan se tornasse dama de companhia da Imperatriz, isso não melhoraria as coisas.
— Vou conceder um nome de clã a Gyokuen. Sua posição vai subir. Eu odiaria jogar ainda mais lenha na fogueira. — Mesmo enquanto alegava sentir-se intimidado pelo sogro, o Imperador já estava planejando os próximos passos. Não eram pensamentos que ele expressaria a qualquer outra pessoa; era quase como se estivesse falando consigo mesmo.
Suiren trouxe uma bebida para Jinshi em um recipiente de vidro transparente. O líquido vermelho-sangue parecia belíssimo através do recipiente translúcido.
— Este vinho é bastante ácido — comentou o Imperador, que já tinha uma taça ao lado.
— É assim que eu gosto do meu vinho — respondeu Jinshi.
— Não estou dizendo que não gosto. Mas ouvi dizer que os vinhos mais doces estão na moda ultimamente.
Ao ouvir as palavras "vinhos mais doces", a imagem de Maomao franzindo a testa surgiu na mente de Jinshi.
— Algum problema? — perguntou o Imperador.
— Não, nenhum. — Jinshi percebeu que corria sério risco de sorrir e rapidamente reprimiu a expressão.
O Imperador lhe lançou um olhar curioso, mas apenas girou a taça.
— Essa súbita paixão pelo Go faz a gente esquecer, mas há uma grande quantidade de mercadorias estrangeiras chegando aos mercados.
— Sim, senhor.
Jinshi estava ciente disso. Uma grande variedade de produtos importados havia chegado do oeste junto com a sacerdotisa. Provavelmente ajudava o fato de os impostos terem sido reduzidos novamente por algum tempo.
— Sabe qual deles é o mais popular?
— Receio que não, senhor.
O Imperador sorriu. Ele jamais poderia agir de forma tão descontraída durante seus deveres oficiais e parecia compensar isso sempre que estava sozinho com Jinshi.
— Vinho de uva.
— Vinho de uva? — Jinshi inclinou a cabeça. — Não está falando daquele da capital do oeste, está? — A região ao redor da terra natal de Gyokuyou é excelente para o cultivo de uvas. Na verdade, o vinho que estavam bebendo agora veio daquela região.
— O vinho da capital ocidental tem aquela aspereza característica. Mas esse novo é mais doce. Pelo que ouvi dizer, é muito bom.
— É realmente de tão alta qualidade? — Jinshi tomou um gole da bebida. O vinho da capital do oeste era amargo, sim, mas isso não era sinal de baixa qualidade. Ele também sabia que deveria ser mais doce; o vinho que ele havia bebido na própria capital do oeste quase parecia conter mel.
A menção ao vinho trouxe uma lembrança de volta à sua mente. Quando tinha sido? Por volta da época em que Maomao entrou para seu serviço pessoal após deixar o Palácio Interno. Ele girou a bebida na taça.
— O senhor acredita mesmo que ele seja produzido no exterior? — perguntou ele.
— Ainda não o provei pessoalmente, mas meus conselheiros dizem que é divino.
— Talvez seja melhor você não experimentar.
Jinshi lançou um olhar para Suiren. Quando ela se aproximou, ele sussurrou algo em seu ouvido. Ela era uma dama de companhia extremamente competente e compreendeu imediatamente o que ele queria. Ela saiu da sala e voltou pouco depois trazendo um embrulho.
— O que é isso? — perguntou o Imperador, acariciando a barba.
Jinshi mostrou-lhe o que havia dentro: uma taça de metal. — Recebi isto de presente. Em algum momento do ano passado. — Seus pensamentos retornaram à primavera anterior.
○●○
— Acho que talvez seja melhor o senhor não beber esse vinho — disse a jovem apotecária taciturna enquanto recolhia os utensílios usados na refeição. Jinshi acabou de servir para si uma bebida após o jantar.
— E por quê? Eu vi você examiná-lo em busca de veneno. — Ele girou o líquido dentro da taça.
A apotecária havia deixado recentemente o Palácio Interno para retornar ao distrito dos prazeres, embora Jinshi posteriormente a tivesse contratado como dama de companhia e provadora de comida, convencendo-a com a promessa de um excelente salário.
— Sim, senhor, examinei. Até onde pude perceber, não há veneno. Mas, se quer minha opinião, ele é bastante ácido.
— Então está perfeito.
Na verdade, Jinshi preferia vinhos ligeiramente azedos ou ácidos aos que eram simplesmente doces. Suiren certamente havia escolhido uma bebida de acordo com suas preferências, e aquele vinho veio diretamente da capital do oeste.
— O problema está na sua taça, senhor.
— Minha taça? — Ele olhou para o recipiente metálico que estava segurando. — Você acha que ela pode estar envenenada?
— Não.
— Então o que é?
A apotecária pegou a bebida de sua mão. — Se me permite. — Ela mergulhou um hashi no vinho e colocou apenas uma gota na boca. Passou um longo momento analisando o sabor e então deixou a sala. Jinshi presumiu que ela tinha ido cuspir o vinho e enxaguar a boca.
Ela voltou pouco depois trazendo a garrafa.
— Agora ele está envenenado — disse ela.
— O que quer dizer com "agora"?
— Está visivelmente mais doce do que quando provei antes — respondeu ela. — Se ficar aí por mais algum tempo, provavelmente ficará ainda mais doce.
— Não sei o que você quer dizer com isso, mas posso tentar adivinhar o que está acontecendo?
— Por favor, tente — disse a apotecária com um aceno de cabeça. Sua expressão permaneceu impassível.
— Presumo que o vinho não seja tóxico por si só. Mas, quando combinado com alguma outra coisa, torna-se tóxico.
O mais leve dos sorrisos surgiu no rosto da apotecária. Parecia que ele estava certo.
— Metais tendem a se dissolver quando expostos a substâncias altamente ácidas. Suspeito que esta taça seja feita de chumbo. E, pelo que ouvi, quando o chumbo se mistura ao vinho ácido, ele o torna mais doce. Dizem até que, no oeste, às vezes misturam chumbo ao vinho deliberadamente para adoçá-lo. — E as pessoas que o bebiam frequentemente ficavam muito doentes.
— No fim das contas, só posso lhe transmitir a opinião do meu pai, mas ele tinha a forte convicção de que o chumbo provavelmente estava por trás dos casos de envenenamento. — Seu pai havia sido o antigo oficial médico do Palácio Interno e era um médico extremamente talentoso. Em determinado momento, inclusive, estudou no oeste.
Jinshi pousou a taça de chumbo sem dizer uma palavra.
— Não tenho certeza se você desenvolveria sintomas de envenenamento agudo ao beber desta taça uma ou duas vezes, mas se a usasse regularmente, poderia ser perigoso. — A apotecária tomava cuidado com suas palavras; não gostava de fazer afirmações baseadas apenas em especulação.
— E, se o veneno surtisse efeito, que tipo de sintomas eu teria? — perguntou Jinshi.
A apotecária pensou por um instante. — O senhor se lembra do pó clareador tóxico do Palácio Interno?
— Claro. Como eu poderia esquecer?
— Ouvi dizer que ele continha uma mistura de chumbo e vinagre.
Em outras palavras, Jinshi desenvolveria sintomas muito semelhantes aos das pessoas que haviam sido envenenadas pelo pó tóxico. Ele assentiu, demonstrando que havia entendido.
— Talvez o senhor devesse investigar os hábitos de consumo de vinho da pessoa que o ensinou a apreciá-lo — disse ela. Se essa pessoa também usasse uma taça de chumbo, provavelmente lhe ofereceu o mesmo recipiente de boa-fé. Caso contrário, existia a possibilidade de haver más intenções envolvidas.
Não seria a primeira vez que alguém tentava matar Jinshi. Ele precisaria investigar quem estava por trás daquela taça e o que essa pessoa pensava quando a entregou a ele.
— Posso acrescentar mais uma coisa, senhor?
— Sim?
A apotecária observou o vinho ainda dentro da garrafa.
— O senhor parece acreditar que esse vinho é amargo por natureza, por causa da terra onde foi produzido. — Ela balançou a garrafa suavemente. — Mas eu acho que ele começou a se transformar em vinagre por causa da longa viagem até aqui.
Jinshi permaneceu em silêncio.
Ela estava dizendo que o vinho que ele bebia com tanto prazer estava, na verdade, estragado.
— Acho que, com métodos de transporte mais adequados, seria possível trazê-lo até aqui sem alterar tanto suas características. — Afinal, a capital ocidental ficava longe, e a viagem era longa e quente.
— Estranho, então, que ele tenha um gosto tão bom para mim — disse Jinshi, confuso.
A expressão de Maomao endureceu.
— O cansaço reduz a sensibilidade do paladar, tornando a pessoa menos perceptiva ao amargor...
Jinshi não disse nada.
— Além disso, eu prefiro bebidas alcoólicas mais secas.
Nada como ter sua provadora de comida fazendo exigências indiretas. Infelizmente para ela, Jinshi sempre preferiu sabores mais ácidos. Ou pelo menos era o que ele dizia a si mesmo.
— Acho que vou continuar bebendo vinho de uva por mais algum tempo — disse ele.
— Muito bem, jovem mestre — respondeu Suiren amavelmente, ganhando um olhar carrancudo da apotecária.
○●○
— Ora! Essa história eu ainda não conhecia — disse o Imperador, esvaziando a taça. Ao seu lado estavam alguns doces que Suiren havia preparado.
— Então você está dizendo que o vinho que se tornou tão popular recentemente é...
— Tecnicamente estragado, ou talvez falsificado.
Esse álcool vinha de um país estrangeiro, a viagem certamente seria mais longa do que a proveniente da capital do oeste. Seria difícil preservar o vinho completamente inalterado e, considerando que uma quantidade suficiente dele havia sido importada para inundar os mercados da cidade, era quase certo que algumas garrafas estavam estragadas. Era preciso adoçá-lo para conseguir vendê-lo, o que implicava que o vinho que circulava pela cidade era venenoso.
Alternativamente, alguém poderia estar produzindo vinho de forma local e fazendo-o passar por produto importado; nesse caso, estaria cometendo fraude. As importações envolviam impostos consideráveis e, mesmo com as taxas alfandegárias reduzidas, ainda havia os custos de transporte a considerar, além do valor da escassez. O vinho importado alcançava preços muito mais altos do que aquele produzido na capital do oeste.
Sempre havia a possibilidade de que algumas garrafas boas e sem contaminação tivessem chegado até ali, mas não era o cenário mais provável.
— O mesmo veneno do pó facial — disse Sua Majestade pensativamente, girando a bebida na taça e acariciando a barba. — Falando nisso, soube que, depois de proibir aquilo no palácio interno, você também proibiu sua venda nos mercados, correto?
— Sim, senhor. Pareceu a medida mais apropriada.
— E se os antigos ingredientes daquele pó tivessem se tornado os adoçantes deste vinho?
Jinshi prendeu a respiração, os olhos se arregalando. Como não tinha percebido aquilo? Fazia todo o sentido. — Vou iniciar uma investigação completa — disse ele. Ele pousou a taça e deu uma mordida em um dos doces assados para se acalmar. Esses docinhos se destacavam pela massa macia; por dentro, continham frutas secas. Eles tinham um leve aroma de álcool. Cada mordida era reconfortantemente quente e doce.
Suiren devia saber que o Imperador viria. Ela havia sido ama de leite dele tanto quanto de Jinshi, e certamente queria lhe oferecer alguns doces especiais para saborear.
— Os doces da Suiren são sempre maravilhosos, não importa quantas vezes eu os coma — disse o Imperador, claramente satisfeito. Ele enfiava uma das guloseimas na boca; mal a colocava lá e tomava um gole de sua taça de vinho recém-reabastecida. Passou a mão pela barba para remover as migalhas e então pegou uma pedra preta de Go com a mão livre. — Acho que não jogamos Go desde antes de você entrar no Palácio Interno — disse ele, devolvendo a pedra à tigela com carinho.
O antigo imperador morreu quando Jinshi tinha treze anos, e Jinshi se tornou príncipe herdeiro. Naquele mesmo ano, ele desafiou o Imperador para uma partida de Go e, quando venceu, conquistou o direito de entrar no palácio interno como o “eunuco” Jinshi. Tudo para poder abandonar sua posição como príncipe herdeiro.
— Desde então, passei a acreditar que um homem não deve apostar em uma partida de Go — disse o Imperador.
— Receio que agora não possa voltar atrás.
— Eu já lhe disse, se desejar se tornar Imperador, terei o prazer em lhe conceder o título quando chegar a hora. — Ele ainda não havia cumprido sua parte do acordo com Jinshi.
— Eu não desejo isso. — Ele nem sequer queria ser príncipe herdeiro. Mas, na época, Sua Majestade não tinha filhos, e os outros descendentes do antigo imperador haviam morrido muito antes. Ele foi forçado a criar um novo substituto.
— Nunca me arrependi tanto de perder uma partida quanto naquele dia — disse o Imperador.
— Ah, duvido muito que isso seja verdade.
A Imperatriz Gyokuyou tinha um filho, o Príncipe Herdeiro, e também havia dado a Sua Majestade uma filha por quem ele era completamente apaixonado. A concubina Lihua também tinha um filho. Qual seria o sentido de restaurar Jinshi à condição de príncipe agora? Mesmo que existisse algum motivo para isso, certamente provocaria grande alvoroço.
A festa de outono no jardim se aproximava, ocasião em que se esperava que Gyokuen finalmente fosse apresentado com seu novo nome. Se não fosse pelo problema envolvendo a sacerdotisa de Shaoh, o Imperador já teria feito isso. Ele não podia se dar ao luxo de irritar ainda mais o sogro, e Jinshi não podia se dar ao luxo de desagradar o avô do próximo imperador.
Ele não queria se tornar o motivo de uma guerra civil; ainda assim, também precisava evitar as faíscas que já estavam voando. Do jeito que as coisas estavam, Jinshi tinha trabalho demais e meios de menos para realizá-lo. Ele precisava de mais poder.
— Talvez eu possa fazer um pedido a Sua Majestade?
— Não está planejando mais alguma ideia absurda, está? Estou avisando, nada de mais apostas.
— É algo pequeno — respondeu ele, pegando a tigela de pedras pretas. Ou tentando pegar. O Imperador também parecia querer jogar com as pedras pretas e não a soltava. — Se eu vencer, gostaria que me emprestasse seu tutor de Go, o Sábio, por algum tempo.
Lançando um olhar inquisitivo para Jinshi, o Imperador soltou a tigela.
[Noelle: Lá vem resenha em kkkk]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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