Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 10 – Capítulo 10: Baitang
Capítulo 8.1O aroma de remédio pairava pelo quarto. Maomao contemplou sua criação, satisfeita por ter conseguido prepará-la em seus próprios aposentos em apenas alguns minutos desde que voltou do trabalho. Agora ela finalmente poderia fazer alguns experimentos.
Acho que isso deve servir. Sua invenção incluía dois tipos de ervas: algumas para impedir que qualquer substância venenosa entrasse em um ferimento e outras para revitalizar o corpo. Ela as misturou, adicionou óleo para evitar que ressecassem e, por fim, adicionou um pouco de cera de abelha para produzir uma pomada. Assentiu, satisfeita, enquanto arregaçava a manga esquerda e preparava sua faca. Limpou-a com álcool para garantir que estivesse limpa, depois brandiu a lâmina e...
— Aiiiii! — alguém gritou. Era Yao. — Maomao, o que você está fazendo?!
— Não tenho certeza se entendi a pergunta. — Ela pousou a faca, com um corte recente visível em seu braço esquerdo. Ela estava apenas testando um novo remédio em seu quarto. Algo perfeitamente normal para Maomao, mas devia ter sido uma visão perturbadora para Yao. — Não se preocupe — disse ela. — Tenho remédio bem aqui.
Ela não mencionou que a grande questão era justamente descobrir se ele funcionaria ou não. Tentativa e erro: era assim que se avançava no desenvolvimento de novos medicamentos.
Admito que seria bom se houvesse outra pessoa em quem eu pudesse testar essas coisas, pensou ela. Ela praticamente conseguia imaginar a expressão de desaprovação do pai. De vez em quando, conseguia usar uma de suas fórmulas em algum soldado de aparência robusta, mas, salvo algumas preciosas exceções, eles não voltavam depois que ela os ajudava. O que eles precisam é de um bom acidente de treinamento, daqueles violentos, pensou ela. Não era um pensamento muito gentil, é verdade. As pessoas ficavam irritadas quando ela tentava criar ratos e, certa vez, quando teve a brilhante ideia de raspar os pelos de Maomao, a gata, para testar uma poção de crescimento capilar, os outros moradores da Casa Verdigris ficaram tão indignados e revoltados que ela não teve escolha a não ser abandonar o plano. (Não era como se ela fosse desperdiçar os pelos raspados! Ela os transformaria em pincéis de escrita!)
[Kessel: MAOMAO (a humana)!!!! TADINHA DA MAOMAO (a gata)!]
Por todos esses motivos, a única opção de Maomao era experimentar em seu próprio corpo. E agora Yao estava completamente chateada.
— Sua idiota! Sua grande idiota! — disse ela.
— O que aconteceu? — perguntou En’en, atraída pelos gritos de Yao. Ela foi recebida pela visão de Yao segurando o braço esquerdo de Maomao e parecendo muito descontente.
— Diga alguma coisa para ela, En’en! — exclamou Yao.
— Sobre o quê? — En’en devia estar no meio do preparo do jantar, porque segurava algumas folhas de acelga-chinesa. Talvez estivessem fazendo algum tipo de sopa. En’en preparava uma deliciosa e encorpada sopa baitang fervendo peixe e ossos de porco. Maomao decidiu que mais tarde se serviria de uma tigela.
— Sobre isto! Olhe só para este braço! — Yao ergueu o braço esquerdo de Maomao em um gesto dramático.
— Estou vendo. Eu diria que ela está testando os efeitos de medicamentos.
— É isso mesmo? — exigiu Yao.
— Sim — confirmou Maomao. En’en tinha olhos afiados. Provavelmente havia deduzido o que Maomao estava fazendo, mesmo sem nunca ter presenciado aquilo.
— Se você sabia disso, por que não a impediu? — perguntou Yao. — Eu achava que seu braço nunca parecia melhorar. É porque você continua abrindo novos ferimentos! — Maomao havia notado que Yao nunca comentava sobre seus curativos. Acontece que não era porque ela não a tinha percebido; ela estava apenas tentando ser delicada e evitar mencionar o assunto.
— Senhorita, isto é algo que Maomao faz de propósito. Não é simples autolesão; ela está tentando desenvolver medicamentos eficazes. Não achei que houvesse motivo para impedi-la.
— Ela tem razão. Tenho um objetivo — disse Maomao. — Remédio e veneno são dois lados da mesma moeda. É preciso equilibrar a fórmula para que ela se torne um e não o outro, mas a única forma de saber o que você criou é testando.
Qualquer estudante de medicina deveria compreender a importância das experiências. O consultório médico inclusive mantinha vários tipos de animais domésticos justamente para testar medicamentos, fato que sempre deixava Yao com uma expressão muito conflitante, embora, no fim das contas, ela nunca dissesse nada. Ela sabia que era necessário.
Maomao considerava aquilo semelhante. Não era algo sobre o qual Yao tivesse realmente o direito de discutir. Mas Yao, com a expressão carrancuda, não estava disposta a recuar.
— Não me importa! Isso não é desculpa para continuar fazendo uma coisa dessas! — Ela não soltava o braço de Maomao. — Amigas não deixam amigas fazerem... isso consigo mesmas!
Maomao e En’en a encararam de olhos arregalados.
— Amigas. É mesmo — disse En’en. — Amigas não deixariam... Acho que sim… — Ela lançou a Maomao um olhar com um leve traço de inveja.
— É... Amigas… — Maomao repetiu a palavra. Pensando bem, ela vinha passando bastante tempo com elas fora do trabalho recentemente, compartilhando refeições, saindo juntas ou apenas conversando. Eram coisas que, sem dúvida, poderiam ser classificadas como atividades entre amigas.
À medida que primeiro En’en e depois Maomao repetiam a ideia em voz alta, o rosto de Yao ficava cada vez mais vermelho.
— F-Foi só um lapso! Eu quis dizer colegas! Colegas de trabalho! Qualquer um impediria um colega de trabalho de fazer experimentos médicos horríveis em si mesmo. Não impediria, En’en?
En’en parou por um instante para pensar.
— Para ser perfeitamente sincera, não acho que tentar impedir Maomao adiantaria. E, além disso, se isso serve a um propósito maior, talvez devêssemos deixá-la fazer o que quiser.
Maomao assentiu.
— Muito bem! Então eu também posso fazer a mesma coisa! — disse Yao.
— De jeito nenhum! — En’en explodiu, deixando a acelga-chinesa cair no chão. — Não permitirei sequer um arranhão em sua pele linda e impecável, Lady Yao! Isso é inadmissível! Nem ouso pensar em uma coisa dessas! Se a senhorita fizer algo assim, eu farei dez vezes, não, cem vezes, mais ferimentos no meu próprio corpo! A senhorita conseguiria conviver com isso?!
En’en segurou Yao pelos ombros e começou a sacudi-la. Parecia extremamente séria e falava tão rápido que estava entrando em frenesi. Maomao não pôde deixar de pensar que aquilo não parecia uma forma muito delicada de tratar sua “senhorita”, mas concluiu que En’en simplesmente não conseguia se conter. Quanto mais você se importava com alguém, mais queria opinar sobre seu comportamento, especialmente quando esse comportamento envolvia se machucar.
Yao finalmente soltou o braço de Maomao, então ela aplicou um pouco de pomada no corte e refez o curativo. Depois, recolheu a acelga-chinesa que En’en havia deixado cair.
— Hum... Vocês estão sentindo cheiro de algo queimando? — perguntou, farejando o ar.
— Deixei a panela no fogo — respondeu En’en. Houve um breve silêncio. Então as três correram para a cozinha.
Os pãezinhos de porco que En’en estava preparando haviam queimado completamente. Ela tinha feito uma quantidade múltipla de três, o que levou Maomao a pensar, ou pelo menos esperar, que En’en a havia incluído na conta, mas era impossível sentir qualquer vontade de comer aquela comida carbonizada.
— Vou limpar tudo mais tarde — disse En’en, desanimada. Ela parecia menos incomodada por ter desperdiçado comida do que pela perspectiva de ter de raspar toda a crosta queimada.
Isso realmente vai dar trabalho, pensou Maomao.
O mingau e a sopa formaram uma refeição mais simples do que o habitual, mas a sopa baitang de En’en era magnífica, como Maomao confirmava a cada gole. Ela já havia pedido a receita uma vez, mas En’en se recusou a contar. Apenas olhou para Yao e sorriu. Maomao decidiu que seria mais prudente não insistir no assunto.
Mas ainda gostaria de saber o que leva nela. Diferentemente de Yao, Maomao não tinha preconceito contra ingredientes simples, então pouco importava para ela o que estivesse envolvido.
Yao parecia um pouco decepcionada com a falta de acompanhamentos, mas, ao ver como En’en já estava desanimada, teve a consideração de permanecer calada. Para Maomao, era uma relação senhora-serva extremamente funcional, principalmente porque Yao era o objeto do afeto intenso de En’en, ainda que esse afeto não fosse necessariamente correspondido.
Ela pegou uma vieira com os hashis e a colocou na boca. Ainda estava cheia de sabor. — A propósito, Yao, você queria alguma coisa comigo? — Afinal, toda aquela sequência de acontecimentos que culminou na comida queimada começou quando Yao apareceu no quarto de Maomao. Ela era tímida demais para visitá-la sem um bom motivo, ou ao menos uma boa desculpa.
— Ah, é mesmo. Eu tinha esquecido — disse Yao pousando os hashis, que ainda seguravam um pedaço de carne de porco entre eles. Em seguida, tirou uma folha de papel das dobras de suas vestes.
— Recebi um cronograma.
— Que tipo de cronograma?
Os médicos do consultório médico frequentemente precisavam estar presentes durante festivais e cerimônias, então todos os meses era elaborado um cronograma mostrando quando algum médico seria necessário para determinado evento.
Quando Yao abriu o papel, Maomao viu duas palavras muito familiares:
— Uma festa no jardim!
Exatamente. O tormento de todas as concubinas do palácio interno nesta época do ano, quando o inverno já se aproximava.
— Parece que há principalmente isso e as cerimônias de fim de ano — comentou En’en, espiando por cima dos ombros delas.
— Mas não está um pouco tarde para uma festa no jardim? — perguntou Maomao. Ela tinha a impressão de que, no ano anterior, a festa aconteceu pelo menos um mês antes. A essa altura, já não deveria haver flores para admirar.
— Está, sim — confirmou En’en. — Mas, se eu tivesse que adivinhar, diria que esta festa é apenas uma fachada. — Seus dedos tocaram as palavras no papel. Ela sempre parecia muito bem informada sobre o que estava acontecendo. — Acho que é uma oportunidade para apresentarem o novo “portador do nome”. Aquele cuja apresentação vem sendo adiada.
— Você quer dizer o “Jade”?
Jade, ou gyoku: como em Gyokuen, pai da Imperatriz Gyokuyou. Já fazia mais de seis meses desde que ele havia sido convocado à capital de sua residência habitual nas regiões do oeste de Li. Normalmente, ele teria sido apresentado formalmente de imediato, mas isso foi adiado pela tentativa de envenenamento da sacerdotisa de Shaoh.
Yao e En’en pareceram um pouco desconfortáveis. Elas não sabiam que a sacerdotisa ainda estava viva. Pelo menos En’en certamente não sabia. Talvez Yao suspeitasse de algo, mas, se En’en, obcecada por Yao como era, soubesse da verdade, não havia como prever o que ela poderia fazer.
— Eles voltaram a recrutar soldados no oeste. Como ficam perto da fronteira, a capital do oeste tende a fazer o que quer sem pedir opinião ao palácio. Embora talvez a presença do Mestre Gyokuen ajude um pouco a situação.
De onde ela tira todas essas informações? Maomao se perguntou. Ela nunca deixava de se surpreender com o quanto En’en parecia saber.
— Recrutar soldados? — perguntou Yao.
— Sim, senhorita. Se a autoridade central simplesmente ampliasse o exército, talvez tudo ficasse bem, mas o governo tem demorado a agir. Dizem que querem esperar até depois dos exames de serviço militar do próximo ano.
Será que alguém espera um ataque de um dos países vizinhos? Se fosse esse o caso, faria sentido começar a recrutar tropas, até mesmo nas regiões centrais, mas, se não houvesse uma ameaça imediata, então talvez existisse algum outro motivo impedindo o governo de agir. De qualquer forma, não cabia a uma assistente médica como Maomao questionar essas coisas.
— En’en, posso perguntar uma coisa?
— Sim, senhorita?
— Podemos confiar naquelas pessoas do oeste?
Maomao lançou um olhar rápido ao redor. A pergunta foi um pouco direta demais. Mas não havia mais ninguém no refeitório, e as portas e janelas estavam todas fechadas por causa do frio. Ela duvidava que alguém as tivesse ouvido.
— Jovem senhorita... — disse En’en.
Mas Yao respondeu: — Eu sei. É por isso que estou perguntando aqui. — Yao era muitas coisas, mas não era burra. Ela havia esperado até que as três estivessem sozinhas. — Ouvi falar da Imperatriz Gyokuyou — continuou Yao. — Dizem que ela nunca age com arrogância, apesar de ser tão bonita. Que era gentil e atenciosa até mesmo com os servos do palácio interno. Imagino que você saiba mais sobre isso do que eu, Maomao.
— A Imperatriz Gyokuyou certamente não é do tipo que colocaria um país de joelhos por causa de seus caprichos. Além disso, Sua Majestade não é o tipo de homem que deixaria uma mulher enrolá-lo completamente em seu dedo. — Então Maomao, percebendo que tinha ido um pouco longe demais, acrescentou: — ... foi isso que ouvi do médico do palácio interno. — O charlatão teria de assumir a culpa por essa.
Yao e En’en sabiam que Maomao havia trabalhado no palácio interno, mas não sabiam que ela esteve no Pavilhão Jade. Por outro lado, talvez En’en soubesse e simplesmente entendesse que a vida de Maomao seria mais fácil se ela não comentasse o assunto. Se qualquer uma delas perguntasse, Maomao não teria problema em falar sobre isso. Até lá, porém, não via motivo para tocar no assunto.
— Não é do tipo que colocaria um país de joelhos... — repetiu Yao pensativamente, levando uma colherada de mingau à boca. — Eu sei que algumas mulheres do passado foram acusadas desse tipo de coisa, mas será que eram realmente tão ruins assim? — Ela deixou o mingau escorregar de volta para a colher.
Maomao entendeu onde ela queria chegar. — Por mais íntegra que a Imperatriz Gyokuyou seja, eu não saberia dizer nada sobre sua família. — Por exemplo, Maomao não sabia quase nada sobre o homem chamado Gyokuen. E a mobilização de tropas na capital do oeste podia ser uma perspectiva assustadora, dependendo de como fosse interpretada. Considerando o que havia acontecido recentemente com o rebelde clã Shi, Maomao queria acreditar que eles não fariam nada tão tolo, mas a possibilidade sempre existia.
Yao tinha uma tendência a agir por impulso, mas às vezes demonstrava uma percepção surpreendente.
— Concordo — disse ela. — Espero sinceramente que a Imperatriz Gyokuyou seja mais do que apenas uma ferramenta refinada.
— Lady Yao... — disse En’en, agora preocupada. A própria Yao era um peão de seu tio. E se ela acreditasse que a Imperatriz Gyokuyou havia alcançado a posição mais elevada do país apenas para ajudar sua família a conquistar mais poder e prestígio? O que pensaria da Imperatriz então?
Yao pegou mais uma colherada de mingau, e desta vez ela conseguiu levá-la à boca.
[Noelle: Sobre o nome do capítulo: É uma base de sopa tradicionalíssima na China, feita ao ferver vigorosamente ossos de porco, boi ou carcaças de frango por muitas horas. Quando vamos fazer a tradução sempre olhamos o contexto que foi colocado dentro do capítulo, como podem perceber em diferentes ocasiões, aqui, não poderia ser diferente, apesar que sempre esperamos que ele seja impactante, este, acredito que foi para mostrar um momento, o jantar das garotas, a convivência e o relacionamento delas se unindo cada vez mais na história.]
[Kessel: Cada vez mais amigas!]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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