Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 12 – Capítulo 12: O Segredo dos Números
Capítulo 9.12Jinshi se espreguiçou bem, sua merecida recompensa por terminar uma parte do trabalho. Estava sozinho em seu escritório. Não, isso não era exatamente verdade, de trás de uma divisória ouvia-se o barulho de alguém remexendo papéis. Quem seria? Baryou, aquele que sofria de transtorno de ansiedade social.
Jinshi estava quase terminando o trabalho, mas havia uma coisa que queria perguntar a Baryou.
— Baryou, posso te perguntar uma coisa?
— Sim, senhor. O que foi? — respondeu uma voz fina de trás da divisória.
— Como esse amor começou?
— Hã? Como começou qual amor?
— Se eu disser Chue, você vai entender?
Amor podia parecer um assunto estranho para se falar, mas, apesar da divisória e de sua personalidade reservada, Baryou era, de fato, um homem casado. Casado justamente com alguém que havia entrado recentemente para servir como uma das damas de companhia de Jinshi: Chue. A principal condição de Jinshi ao escolher suas damas era que nenhuma delas sequer lhe lançasse um olhar amoroso. Chue certamente atendia a esse requisito.
— Sim, ela dificilmente parece humana, não é? — respondeu Baryou. Outra afirmação que parecia propensa a causar mal-entendidos.
— Hã... Mas ela não é sua esposa? Vocês têm filhos, não têm?
Jinshi tinha que admitir: era difícil imaginar como uma mulher com uma personalidade tão forte conseguia conviver com Baryou. A curiosidade o levou a perguntar sobre a história de amor dos dois, mas ele definitivamente não esperava a resposta que recebeu.
— Foi uma espécie de manobra da parte da minha mãe e da minha irmã mais velha, Maamei. Elas olharam para mim, olharam para Basen e escolheram a maneira mais segura de dar continuidade à linhagem familiar.
Jinshi ficou sem palavras.
— Eu aceitei, com a condição de que elas cuidassem de toda a criação das crianças, e assim o casamento foi decidido. Nós só nos vemos pessoalmente uma vez a cada duas semanas e não conversamos muito, mas devo dizer que nos damos muito bem.
— É... Quer dizer, se você diz...
Os irmãos Ba pareciam ser completos opostos um do outro. Jinshi conseguia entender por que alguém consideraria o excepcionalmente frágil Baryou uma escolha melhor do que o excepcionalmente forte Basen. Era um casamento político do começo ao fim.
— Elas disseram que não havia como saber quanto tempo eu viveria e me mandaram tratar de produzir herdeiros o quanto antes. Chegaram até a querer que eu colocasse isso acima do exame do serviço civil.
Baryou havia sido aprovado no concurso público dois anos antes, o que significava que ele só havia prestado o exame depois de ter tido filhos.
— Ela certamente é... única, mas, com Suiren mantendo-a na linha, tem sido uma ajudante bastante confiável — disse Jinshi. Aquilo até o fazia lembrar da época em que Maomao trabalhava para ele.
— Ela vem do clã Mi, embora seja de um ramo secundário.
Isso explicava muita coisa. Enquanto o clã Ma fornecia guarda-costas para a família imperial, o clã Mi mantinha uma rede de informações que servia diretamente ao Imperador e seus parentes. Ambos protegiam a família real, um à luz do dia, o outro nas sombras. Fazia sentido que, às vezes, casassem membros entre si para fortalecer os laços entre os dois grupos.
— Vejo que sua vida também não é nada fácil — comentou Jinshi.
— Eu diria que o senhor tem muito mais problemas do que eu, Mestre Jinshi. Tanto em termos de aparência quanto de posição social. Quanto a mim, minha irmã só mandou que eu me deitasse quieto à noite, e minha esposa cuidaria do resto.
Mais uma vez, Jinshi ficou sem resposta. Baryou tinha acabado de dizer algo bastante atrevido e, em seguida, acrescentou uma informação que Jinshi tinha certeza de que preferia não ter ouvido. Como a vida seria mais fácil se ele conseguisse aceitar um casamento político com a mesma naturalidade que Baryou.
[Noelle: É Baryou, sabíamos que você era bem passivo, mas não desse nível 😅]
[Kessel: Um homem sábio.]
A conversa deles foi interrompida pelo som de alguém caminhando pelo corredor; o corredor em frente ao escritório de Jinshi havia sido projetado justamente para fazer os passos ecoarem.
— Ah, falando na minha irmã, ela acabou de chegar — disse Baryou. Então acrescentou: — Se algum dia o senhor não souber como lidar com Chue, basta perguntar a ela.
Os passos eram de sapatos femininos e, como Jinshi fazia questão de manter a maior parte das damas da corte à distância (assim tinha menos problemas), era natural supor que fosse Maamei se aproximando.
— Obrigado, mas esqueça a Chue — respondeu Jinshi. Ele apenas estava curioso sobre como o amor surgia; infelizmente, a pergunta não lhe rendeu nenhuma resposta útil.
Ouviu-se uma batida na porta e, de fato, Maamei apareceu, com uma pilha de documentos em uma das mãos e utensílios para chá na outra.
— Olá, voltei... O que houve com vocês dois? — ela perguntou ao vê-los encarando ela.
Jinshi não tinha a menor intenção de perguntar sobre Chue naquele momento; se não tomasse cuidado, havia até o risco de Maamei entender tudo errado, e ele jamais ouviria o fim daquilo. Baryou e Basen não eram os únicos intimidados por aquela mulher formidável. Em vez disso, tentou pensar em alguma forma de distraí-la.
— Você está tentando pensar em uma maneira de me distrair, não está? — disse Maamei, lançando-lhe um olhar penetrante.
— Eu? Não, claro que não. Só estava me perguntando se já tínhamos uma resposta sobre aquilo que lhe pedi para investigar.
O que ele havia pedido a ela era sobre o cordão preso à recente carta de Gyoku-ou. Confuso com aquela folha repleta de números, Jinshi recorreu a uma especialista.
— Ah, está falando do Mestre Lahan. Por coincidência, recebi uma carta dele agora mesmo.
Quando o assunto era números, pensava-se em Lahan. Tinha sido a solução mais óbvia e, nesse caso, parecia também ter sido a correta. Jinshi abriu a carta, que realmente explicava a verdade por trás daqueles números.
— Posso ver? — perguntou Maamei, aproximando-se.
Jinshi colocou a carta sobre a mesa. Até Baryou pareceu curioso o suficiente para sair de trás de sua divisória. — O que é isto? Um livro de registros contábeis? — perguntou Maamei.
— Ao que tudo indica sim — respondeu Jinshi.
Lahan tinha enviado a ele uma cópia do que parecia ser algum tipo de registro contábil relacionado aos impostos cobrados sobre as colheitas. Uma determinada porcentagem dos impostos arrecadados na capital do oeste era enviada ao governo central. O cordão parecia ter sido feito com várias folhas desgastadas, provavelmente registros da mesma região ao longo de vários anos.
— Talvez seja isso — disse Maamei.
Parecia ser referente ao primeiro semestre do ano anterior. A capital do oeste não produzia muitas colheitas, mas havia algumas. Trigo, uvas, algodão e beterraba-açucareira, por exemplo. A lã de ovelha também era um dos principais produtos exportados da região.
Como Maamei indicou, os registros coincidiam com os misteriosos números que haviam recebido. Os números, com dois a quatro dígitos, representavam a quantidade colhida; bastava multiplicá-los pela alíquota do imposto para obter o valor arrecadado.
— Hã? Olhem aqui... Os números estão diferentes. — O dedo de Maamei parou sobre os dados do trigo. Ali, e apenas ali, o número do registro era maior. — Se os números são diferentes, isso significa que alguém adulterou o registro. Mas isso não faz sentido...
— Concordo. Também não entendo — disse Jinshi. Se o número do registro fosse menor, seria simples. A irregularidade ficaria evidente. — Mas o número informado é maior. — Ou seja, alguém havia declarado mais do que realmente havia sido colhido. — Eles estão pagando impostos a mais de propósito?
Jinshi não conseguia entender por que fariam isso. Isso só poderia prejudicá-los.
Talvez não fizesse sentido para ele, mas Lahan parecia ter concluído que os números enviados se referiam aos impostos cobrados sobre a colheita.
— É muito gentil da parte deles pagar mais do que devem, mas isso está cheirando muito mal — comentou Maamei.
— O trigo é o único número que foi adulterado? — perguntou Baryou, examinando os registros de vários anos. — Parece que todas as colheitas foram menores que a média no ano passado.
— Se essa mensagem, ou seja lá o que for, estiver correta, o trigo foi especialmente escasso — disse Jinshi, estreitando os olhos para as fileiras de números. A região da capital do oeste havia sido alertada para tomar precauções contra uma praga de insetos. Se estivessem tentando esconder a verdadeira situação, aquela seria uma forma de fazer isso.
— Em que época o trigo é colhido? — perguntou Jinshi.
— Bem, existe o trigo de inverno e o trigo de primavera, então depende. Mas, no primeiro semestre do ano, seria a colheita do trigo de inverno, no começo do verão — respondeu Baryou.
Isso significava que aconteceu muito depois de Jinshi deixar a região e até mesmo depois de Gyokuen, pai da Imperatriz, ter partido para a capital.
— Estou impressionada por ele ter percebido isso no meio de todos esses números — disse Maamei, cheia de admiração pelo trabalho de Lahan. Era verdade. Notar aquela discrepância era um feito impressionante, mesmo para alguém acostumado a lidar com números diariamente.
— Ele comentou algo sobre isso na última carta — disse Baryou, vasculhando seus papéis. — "Os registros que recebemos traziam o selo de um conhecido meu. Eu me lembrava dele."
— O selo de um conhecido?
A carta de Lahan prosseguia e mencionava um nome que Jinshi também reconheceu. Ele lembrou das pessoas que o acompanharam à capital do oeste no ano anterior. Havia Maomao, Ah-Duo e também Lahan, todos figuras marcantes à sua maneira, mas havia um homem muito mais discreto.
— Rikuson... Ele era o assessor do Grande Comandante Kan, não era? — disse Baryou.
— Sim, acredito que já ouvi esse nome antes — respondeu Maamei.
Rikuson. O braço direito do estrategista excêntrico. O homem que dançou com Maomao durante o banquete na capital do oeste. Atualmente, ele servia como assessor de Gyoku-ou a pedido de Gyokuen.
— E você ouviu algo específico sobre ele, Maamei? — perguntou Jinshi. Tudo o que ele realmente sabia sobre Rikuson era seu cargo. Nem sequer conhecia sua personalidade. A única impressão concreta que guardava era a de um lado dele que não lhe agradou, e era difícil superar aquela primeira impressão.
— Sobre o Mestre Rikuson? Vejamos... Receio que tudo o que sei seja de ouvir falar — respondeu Maamei enquanto preparava o chá. — Antes de servir ao Mestre Lakan, ele era um funcionário civil, mas, pelo que sei, não chegou ao cargo por ter passado nos exames do serviço civil. Ele tinha influência. Vem de uma família de comerciantes e, por causa de seu jeito gentil, sempre foi bastante popular entre as damas da corte. — Talvez fosse justamente dali que Maamei tivesse obtido essas informações.
— E de onde vinham essas influências?
— Receio não saber. Posso investigar, se o senhor desejar.
— Não há pressa. Mas gostaria de saber antes de partir para a capital do oeste.
Maamei, sempre eficiente, colocou alguns doces para acompanhar o chá diante de Jinshi e começou imediatamente a escrever uma carta. Sem dúvida descobriria tudo sobre Rikuson rapidamente. Quando terminou, abanou a folha para secar a tinta e a guardou entre as dobras das vestes.
— Hã... Não poderíamos simplesmente perguntar diretamente ao Sir Lahan? — perguntou Baryou, hesitante, como se achasse que talvez estivesse sendo inconveniente.
Jinshi franziu a testa.
— Sir Lahan já me fez muitos favores. Inclusive este.
— Entendo...
— Se vou contrair outra dívida com ele, prefiro não procurá-lo sem saber absolutamente nada. É melhor reunir o máximo de informações possível e recorrer a ele apenas pelo que eu realmente não conseguir descobrir sozinho. Não acha?
— S-Sim, claro.
Lahan não era exatamente um exemplo de virtude, mas não se envolvia em negócios escusos; ele os considerava deselegantes. Ainda assim, quanto menos favores Jinshi lhe devesse, menos fraquezas teria para serem exploradas.
— Vou deixar o restante da papelada aqui — disse Maamei, colocando-a ao lado do chá. Era sua maneira nada sutil de dizer a ele para voltar ao trabalho.
— Muito bem, obrigado. Em troca, dê uma olhada nisso, quando puder. — Jinshi lhe entregou um documento; ela não era a única que sabia empurrar trabalho para os outros.
Os olhos normalmente estreitos de Maamei se arregalaram. Ela releu o papel várias vezes, certificando-se de que não estava enganada.
— Isso é verdade? E justamente quando não havia necessidade do senhor ir pessoalmente à capital do oeste, Mestre Jinshi?
— Nem mais uma palavra. Eu sei muito bem dos perigos.
Nações estrangeiras e desastres naturais não seriam seus únicos inimigos.
— Posso perguntar o que o senhor pretende fazer se alguém tentar assassiná-lo em um lugar tão distante? — perguntou Maamei. Essa era sua maior preocupação.
— Estarei viajando com médicos e guerreiros cuidadosamente selecionados exatamente por esse motivo.
— Sim, ouvi dizer que o senhor ordenou ao doutor Liu que conseguisse médicos mais capacitados. E quanto ao seu guarda-costas?
— Quanto aos soldados...
— São justamente os soldados que me preocupam! O senhor tem certeza de que estará seguro com... com quem escolheu?
Jinshi puxou os próprios cabelos. Maamei lançou-lhe um olhar que deixava claro o quanto considerava aquele gesto deselegante.
— "Escolhi" — repetiu Jinshi. — Isso dá a entender que eu tive escolha.
— O que estou dizendo é...!
— Ora, ora! — eclamou Baryou, olhando os documentos ao lado de Maamei. — Ele realmente vai com o senhor? O Mestre Lakan?
— Sim. Pedi ao senhor Lakan que viesse comigo.
— Você fez o quê? — O rosto de Maamei se contorceu de um jeito que Jinshi jamais imaginaria ser possível. Uma expressão tão aberta de repulsa não era típico dela. — Posso perguntar no que o senhor estava pensando? Ele vai causar um desastre! Isso é terrível! No momento em que o senhor virar as costas, vai encontrar a espada dele cravada nelas!
— Eu sei. Eu sei.
— E seus guardas... Todos eles são homens do Mestre Lakan até a alma! Eles podem matá-lo e fazer parecer um acidente!
— Ele realmente me odeia tanto assim? — Jinshi estava convencido de que, desde a partida de go, o estrategista havia passado a nutrir ao menos um mínimo de respeito por ele.
— Quem vai manter esse homem sob controle? É isso que eu quero saber. O senhor pode levar o Mestre Lakan, mas certamente não consegue controlá-lo. Por outro lado, se o Mestre Luomen estivesse entre os médicos...
Ah, Maamei. Ela sabia exatamente como as coisas funcionavam.
— Não posso pedir ao senhor Luomen que venha. A idade dele não permite uma viagem tão longa. Principalmente com a perna naquele estado. De qualquer forma, ele seria o último recurso.
Na verdade, tudo aquilo já estava decidido havia muito tempo. Depois do que Jinshi havia feito, ele precisava ir para a capital do oeste.
— Então quem? — perguntou Maamei, mas interrompeu a si mesma. — Não pode estar falando...
A intuição dela era excelente; não havia necessidade de explicar. Se Lahan não podia ir e Luomen também não, sobravam poucas opções. Uma, em especial, era ao mesmo tempo a melhor e a pior.
— Você está falando da Maomao. — O rosto de Maamei se contorceu.
Jinshi lhe ofereceu um sorriso sem graça, mas não conseguiu encará-la nos olhos.
[Noelle: Quem diria em gente? Mas eu ainda espero que o Lahan também vá para nos dar entretenimento kkk]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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