Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 11 – Capítulo 11: A Dissecção
Capítulo 9.11O tempo havia começado a esquentar e as petasites já haviam desabrochado seus botões comestíveis quando Maomao e os aprendizes de medicina foram levados a um local escuro e úmido.
— Finalmente chegou a hora da coisa séria, hein? — disse Tianyu com toque impertinente. Ele era o único que conseguia agir sem demonstrar intimidação; os outros aprendizes estavam todos pálidos. De vez em quando, eles lançavam olhares para Maomao que pareciam dizer: O que você está fazendo aqui?, mas se continham e não falavam nada. Maomao já tinha suportado muitos olhares daqueles enquanto dissecavam animais juntos. Não ia deixar que isso a incomodasse agora.
Bem, não era exatamente verdade que ninguém dissesse nada.
— Alguém está recebendo um tratamento bem especial — comentou Tianyu. Por mais despreocupado que parecesse, ele tinha nervos de aço. Quando dissecavam animais de criação, ele era o mais calmo de todos. Talvez não aprendesse as lições teóricas com a mesma facilidade dos outros estudantes, mas sua compostura fazia dele um praticante mais talentoso do que os demais. Na verdade, ele era muito bom.
— Se é assim que você quer chamar isso... — respondeu Maomao.
— Ooh. Estou com inveja.
Maomao começava a achar que Tianyu não conseguia ficar calmo se não estivesse conversando com alguém. Durante as aulas práticas, a maioria dos outros aprendizes ficavam nervosos demais para falar com qualquer pessoa, muito menos com Maomao, mas Tianyu parecia tagarelar com ela sem parar.
— Se o meu tratamento fosse realmente tão especial assim, talvez eu pudesse ganhar um daqueles jalecos brancos.
— Ooh, acho que isso não vai ser possível, Niangniang.
É Maomao! Será que ele fazia isso de propósito? Tanto faz; daria muito trabalho corrigi-lo, então ela deixou passar.
Para ser justa, Maomao entendia o ponto de vista de Tianyu. Tratamento especial, hein? Acho que não posso culpar ninguém por pensar isso. Em circunstâncias normais, Maomao jamais estaria percorrendo aquele corredor escuro e úmido na companhia dos médicos. Quanto ao destino daquele corredor... era a sala onde os criminosos executados eram colocados para repousar. Os médicos usavam uma passagem especial para que ninguém os visse indo até lá.
No entanto, aquela não era a primeira vez que Maomao passava por ali. Não, a primeira tinha sido quando foi verificar se Suirei realmente estava morta. Suirei, que agora vivia com a ex-concubina Ah-Duo.
Bem que ela poderia ter aprendido cirurgia também.
Certa vez, durante a viagem para a capital do oeste, ela ajudou Maomao a tratar alguns guardas feridos e demonstrou uma calma impressionante, mesmo quando o tratamento envolveu, entre outras coisas, amputar o braço de um homem. Ela teria se saído muito bem aqui.
Acho que as circunstâncias do nascimento dela tornariam isso impossível, pensou Maomao. Embora isso nunca tivesse sido oficialmente reconhecido, Suirei era neta do antigo imperador. Ela também era membro do exterminado clã Shi, então, apesar de sua vida ter sido poupada, estava destinada a viver nas sombras pelo resto da vida.
Que desperdício. Não havia nada que Maomao pudesse fazer além de lamentar. Qualquer outra coisa estava muito além de seu alcance. Alguém poderia pensar, então, que talvez Suirei devesse ter permanecido morta, mas isso seria um insulto. Era impossível esquecer que outra garota havia feito uma apresentação única na vida para que Suirei pudesse continuar vivendo.
[Kessel: Minha querida Loulan… <3]
— Então, quem está bancando sua participação nisso aqui? — perguntou Tianyu. Bem direto.
— Está me acusando de nepotismo? — perguntou Maomao, lembrando-se da mesma suspeita que recaiu sobre ela quando entrou para a equipe do departamento médico.
— Não. Acho que é algo maior do que isso. Intuição masculina.
Esse filho da...
Como Tianyu conseguia parecer tão desligado e, ao mesmo tempo, ser tão perspicaz? Seria um problema para todo mundo se ele descobrisse que Jinshi estava envolvido nisso.
— Vou contar para a En'en — disse Maomao em vez disso.
— Ela não está aqui. Como você vai contar? — respondeu Tianyu. Então essa tentativa de desviar o assunto não funcionou. Ainda assim, rendeu exatamente o tempo de que ela precisava. Eles haviam chegado ao destino.
— Aqui — disse o doutor Liu, apontando para uma porta no fim do corredor. Ela se abriu com um rangido pesado, liberando uma nova onda de ar úmido e abafado.
Sinto cheiro de álcool, pensou Maomao. Normalmente isso a confortaria, ela gostava de bebidas alcoólicas, mas naquele momento simplesmente não estava com vontade de beber.
Deitado sobre uma maca, bem no centro da sala, havia um homem completamente nu, de barriga para cima. Marcas de corda cercavam seu pescoço. Era um criminoso executado por enforcamento, e o cheiro de álcool provavelmente vinha do fato do corpo ter sido limpo com ele.
— Vamos vestir aventais. Mas tentem não sujá-los, se puderem — disse o doutor Liu. Maomao pegou o avental que lhe entregaram e o vestiu. Também recebeu um lenço branco, não para prender o cabelo, mas para cobrir o rosto, escondendo tudo abaixo dos olhos. O doutor Liu continuou: — Eu vou fazer as incisões. Vocês vão me observar e gravar na memória cada órgão, cada camada de tecido. — Ele já segurava um bisturi de dissecação. — Quero que se lembrem de absolutamente tudo o que virem aqui. — Seu tom era francamente ameaçador.
Eles já tinham sido avisados de antemão para não fazerem anotações. O simples fato de o doutor Liu estar ali, ensinando aquilo, já era algo que supostamente não deveria acontecer. A única coisa que poderiam levar daquele lugar era aquilo que conseguissem guardar na memória.
Então tudo se resume a um conflito entre a moral pública e o avanço da medicina. O compromisso encontrado pelos médicos era simplesmente não fazer nada às claras.
A pequena lâmina afiada deslizou facilmente pelo abdômen avantajado do cadáver. Não foi o suficiente para fazer o sangue jorrar, mas, ao mesmo tempo, a carne já não estava rígida; aparentemente, o doutor Liu escolheu um corpo cuja rigidez cadavérica já tinha desaparecido. Ele abriu o cadáver e começou a mostrar os órgãos internos, que eram muito mais fáceis de observar do que os dos animais recém-abatidos. Ainda assim, trabalhar com um cadáver humano parecia muito mais próximo da realidade. Os estudantes já estavam acostumados a lidar com animais, mas, mesmo assim, alguns levaram a mão à boca.
— Este é o coração. Em hipótese alguma vocês devem cortar os grandes vasos sanguíneos ligados a ele. — disse o Dr. Liu. Em seguida, ele continuou a explicar os órgãos. — O estômago, o intestino delgado e o intestino grosso. Eles compõem o trato digestivo. Vocês já devem reconhecê-los; fizemos linguiça suficiente usando intestinos.
Na verdade, eles tinham feito isso por ordem dele. O doutor Liu dizia que os animais não deviam ser desperdiçados. As linguiças tinham ficado deliciosas, mas parecia que alguns aprendizes jamais conseguiriam comer outra novamente.
— Aqui estão os órgãos reprodutores. Vou chamá-los assim que executarem uma prisioneira. Como é óbvio, os órgãos reprodutores das mulheres têm uma forma bastante diferente. — A essa altura da vida, Maomao já não se surpreendia nem se escandalizava com a visão da genitália masculina. — Alguém consegue me dizer de que doença este homem sofria? — perguntou o doutor Liu.
Como exatamente devemos descobrir isso? Maomao pensou. O homem estava morto havia dias, então a cor da pele já não era um indicativo confiável de sua condição. Ela achava conseguir distinguir algumas manchas e, embora fosse a primeira vez que observava órgãos humanos de perto, acreditava que podia fazer um palpite.
Como ninguém parecia disposto a responder, ela arriscou:
— Era uma doença no fígado, senhor? — Maomao não queria chamar muita atenção, mas alguém precisava responder ou ficariam presos ali para sempre.
— Em que você baseia essa conclusão? — perguntou o doutor Liu.
— Tenho a impressão de que a cor do fígado dele está pior do que a dos animais com que trabalhamos. Também há algumas manchas amareladas na pele, e a icterícia costuma ser um bom indicativo de problemas no fígado.
Yao apresentava o mesmo sintoma.
— Está aprovada. Este homem bebia até perder o controle e ficava violento. Arrumou briga com outro cliente em uma taverna e acabou matando o homem. A própria mãe tentou impedi-lo, e ele também a matou. Na verdade, ele tinha acabado de sair da prisão por um crime anterior e já não tinha direito a outra chance.
Por isso foi enforcado.
— Isso ficaria mais evidente se pudéssemos compará-lo a um fígado saudável, mas este apresenta uma inflamação bastante visível. O consumo excessivo de álcool costuma ser o responsável, embora, às vezes, o sangue também possa estar contaminado. Por isso, tomem cuidado para não sofrer cortes ou ferimentos nas mãos ao trabalhar com algo assim. O veneno pode entrar no corpo pela ferida e deixá-los doentes.
[Noelle: Nesse último trecho ele está falando da hepatite pessoal, ela é tão perigosa e mais do que o HIV, pois se um instrumento contaminado com ela, o vírus vive até 3 dias por aí, ao contrário do HIV que morre em 24 horas…. Por isso cuidado com objetos cortantes!]
O tom intimidador do doutor Liu foi suficiente para calar até Tianyu. Na verdade, seus olhos estavam arregalados enquanto examinava atentamente o órgão. Quando estavam realmente trabalhando, ele demonstrava um lado sério que ninguém esperava.
Maomao parecia exatamente igual, ela observava atentamente o cadáver dissecado, absorvendo tudo o que via e tomando o cuidado de não perder uma única palavra dita pelo médico, por mais intimidante que ele fosse.
Quando a "aula especial" terminou, os estudantes trocaram de roupa e seguiram para a casa de banhos. Ela ficava ao lado de um templo. Imaginava-se que, originalmente, tivesse sido um local destinado à purificação dos religiosos, mas, naquela altura, o estabelecimento aceitava tranquilamente o dinheiro de clientes comuns.
Os banhos não eram mistos, eram separados por gênero, e, no meio do dia, havia pouca gente por ali. Mesmo assim, o vestiário parecia apertado. Ainda assim, as prateleiras alinhadas lado a lado comportavam facilmente umas quinze mudas de roupa. Havia várias casas de banho na capital, e, embora aquela não fosse a mais luxuosa, era limpa e muito bem conservada.
— Ufa… — A água estava bem quente e havia pouquíssimos banhistas. Para Maomao, aquilo era o paraíso.
Os estudantes tinham sido dispensados para ir para casa depois do banho, então ela aproveitaria para lavar o cabelo hoje. Ela lavou a sensação pegajosa da umidade e da escuridão que ainda parecia aderida ao corpo. Como era importante ter momentos assim, em que bastava mergulhar na água quente e não pensar em absolutamente nada.
É uma pena que não tenhamos podido anotar nada, pensou ela. Mas, se fizessem isso, suas anotações se tornariam livros proibidos por si só.
Naquele dia eles apenas observaram, mas, no futuro, Maomao e os outros teriam de realizar a dissecação com as próprias mãos. Maomao ficou surpresa com o quanto permaneceu calma e racional diante de um cadáver. Talvez seja porque eu nunca o tinha visto antes. Porque ele era um criminoso. Porque eu podia dizer a mim mesma que a morte dele foi consequência dos seus próprios atos.
Será que teria conseguido fazer o mesmo se fosse alguém que conhecia? Ou talvez ajudasse o fato deles não estarem cortando uma pessoa viva, mas apenas algo que um dia tinha sido uma pessoa.
Maomao pensou no livro escondido de Luomen. Ele tinha dito que, na última página, estava sua professora. Ela não parecia muito velha, pelo menos não nos desenhos dele. Não consigo imaginar o que ele sentiu enquanto fazia aquelas ilustrações. O que a professora de Luomen significava para ele?
Enquanto Maomao soltava mais um suspiro, algumas jovens entraram na casa de banhos.
— Você acha que eles me aceitariam? — perguntou uma delas.
— Claro! Com certeza — respondeu a outra.
Maomao escutou a conversa, curiosa para saber do que estavam falando.
— Ouvi dizer que faz tempo que eles não abrem inscrições. Sabe... para mulheres do palácio interno?
— Justamente por isso! Devem estar com pouca gente. Agora é a sua chance!
Uma seleção para mulheres do palácio interno? Maomao franziu a testa, pensativa. Jinshi não tinha dito que a filha de Gyoku-ou, sobrinha da imperatriz Gyokuyou, entraria no palácio? Mesmo que tivessem encontrado uma maneira de adiar isso. Então eles realmente aceitam voluntárias.
Uma jovem daquela posição não poderia estar cercada apenas por damas de companhia vindas da capital do oeste. Além disso, ela era filha de alguém extremamente importante e influente.
— Todo mundo fala do Príncipe Herdeiro, mas o Imperador só tem dois filhos por enquanto. Ainda há muitas oportunidades para encontrar o seu lugar. Afinal, nunca se pode ter filhos demais, não é?
Nossa! Aquela jovem tinha ambição. Ela pretendia não apenas entrar no palácio interno como dama do palácio, mas também se tornar uma das companheiras de cama do Imperador e até a mãe de uma futura geração imperial.
Se é para sonhar, então sonhe alto.
Mesmo assim, Maomao imaginava que as coisas acabariam sendo bem diferentes do que a jovem esperava. Ela assentiu levemente, fazendo gotas de água escorrerem de sua franja encharcada. Isso me lembra… Ela sabia que partiriam para a capital ocidental antes da chegada da nova concubina, mas ainda não tinha ouvido uma data exata. Aliás, nem sequer sabia quem mais viajaria com eles.
Vou perguntar a ele da próxima vez, pensou ela, e então se levantou com esforço da banheira e se dirigiu ao vestiário.
Entre em nosso servidor no Discord para conversar sobre essa obra, além de conhecer os nossos outros trabalhos: Servidor da Scan Moonlight Valley
Ainda não leu o Mangá Spinoff da Xiaolan, a nossa queridíssima melhor amiga da Maomao? Clica aqui e confira: Memórias da Xiaolan
Interessado em outras obras da Natsu? Que tal conhecer sua segunda obra mais famosa? Confira o mangá de: Você Não Pode Mentir Para a Santa!
Quer ler algo parecido? Existe uma novel inspirada em Diários de uma Apotecária, com diversos elementos parecidos, confira aqui: O Corvo do Palácio Interno
Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
Comentários do capítulo 9.11
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.