Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder — Capítulo 17: Volume 1 – Desamparo

Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder
Cap. 17
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Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder

Volume 1 – Desamparo

Capítulo 17

3.818 palavras~17 min de leitura

Acordo num espanto e sinto o frio me cobrir como um manto de dormência e frieza. Meus dentes tremelicam e se debatem; minha respiração é tensa. Meus olhos buscam força para abrirem por completo e contemplar a floresta branca à frente de mim. Estou nua. Sinto espanto e o coração acelerado ainda recuperando os sentidos e meu rosto é de medo com olhar de quem acabou de sair de uma caverna para ver o mundo à fora. Minha visão é embaçada, mas pude ver que acordei próxima de um pinheiro, num monte de neve acumulada. Ouço um barulho, alguém se aproximou detrás de um arbusto. Erik surgiu e tomei um espanto tão grande que comecei a me debater enquanto balbuciava. Ele agarra meus braços, diz quem é enquanto eu retomava a consciência e o olhava. Pareci uma criança se negando a ir ao médico. Minha respiração foi desacelerando, meus braços se acalmaram e eu retomei, aos poucos, a consciência de quem eu era, foi bem sucinto. Erik fitou-me certo de que me recuperei. Meus olhos e sobrancelhas se estreitam, fito-o e, então, falo brevemente:

— Er... Erik?…

— Isso. Sim, sou eu.

Meus olhos se perdem novamente.

— O-o que houve? — balbucio. — Eu me lembro de sermos surpreendidos e depois… um desmaio…

As mãos dele chegam nos meus ombros, estou confusa demais para perceber. Ele os aquece. Ele observa minha pele pálida estremecer na neve e toma uma iniciativa:

— Aqui. Precisa se aquecer, você… eu não sei exatamente dizer o que houve com suas roupas, na verdade — ele diz antes de rodear seu manto roxo pelas minhas costas e agasalhar-me. Talvez ele estivesse envergonhado de me ver nua pela primeira vez, ou quisesse respeitar meu momento de lucidez após acordar e evitar de se dar ao luxo de ver uma garota como eu sem roupa alguma. Vai saber. Minhas mãos saíram pela pequena fenda na lateral para puxar o manto. Meus lábios quase sorriem com esse gesto delicado dele; assim que inclino a cabeça para baixo vejo meus dedos da mão melados, o roxo já quase secava por conta da neve. Assustei-me, levantei e espalmei a outra mão e, para nossa surpresa, está coberta da mesma cor.

—Erik… o que eu fiz? — minha voz sai trêmula e com temor de ser culpada por algo. Posso não saber o que houve, mas ele sabe. Erik sabe.

Seu olhar desviou de mim. Meus olhos piscam para ele, meus lábios estreitam.

— Erik… por favor me conta o que eu fiz?

Ele claramente está preocupado comigo, sua linguagem facial demonstra mesmo ele não querendo e isto me deixa tão incomodada quanto estar sentada nua na neve. Exigi dele uma explicação.

— Você… você se transformou em algo… em outra coisa…, isto logo após aquela coisa pegar a garota e você, parecia que ela estava para se alimentar da filha. Foi então que você surgiu. Estavam quase na mesma altura. Tinha pele escura, e parecia mais uma criatura mítica que nunca vi, sem rosto algum, apenas com uma boca. Você a desequilibrou e rugiu tão alto que assustou os pássaros de longe, você conseguiu soltar a garota e partiu ferozmente para cima da mãe. Você parecia uma besta. Um animal. A mãe tentava se defender, mas tudo foi em vão, você a arremessou e com uma das mãos atravessou aquele corpo gigante dela com uma das mãos. Você não parou por nada. Temporizador teve que intervir, te jogou para entre as árvores com uma ombrada e soltou uma palma tão forte que a fez se desnortear. Acho que seus ouvidos não aguentaram, hehe… você recuou, voltou-se para as árvores cambaleando enquanto se acalmava e encolhia para o tamanho normal e, depois, vim te socorrer…

Eu não tinha palavra alguma para aquilo, não podia me dar ao luxo de supor qualquer outra coisa além deste fato dito aqui e agora por Erik. Oh, Erik. Em minha mente eu estava em dívida com ele por ser tão prestativo e querer me proteger. Seus olhos continuam me observando com preocupação extensa e genuína, ele balançava a cabeça como se procurasse algum hematoma ou ferida. Ele me perguntou, claro. Eu o garanti de que não tinha nada do que ele supôs. No olhar de preocupação, soltou um sorriso pequeno para mim; eu o retribuí gentilmente, não apenas para o aclamar, mas para mostrar a mim mesma de que estou bem mesmo abalada com a notícia. Ajudou-me a levantar, sucintamente minhas pernas ficaram bambas. É engraçado sentir a neve entre os dedos são como areia, não apenas macia mas também fria e fofa de se pisar. Observo meus pés tomarem controle do meu equilíbrio novamente. Ele serviu como meu apoio por um tempo até retornarmos para os outros; vi Shaw e Temporizador retirando com cautela o Objeto de Poder, ele está fundido nas pulsantes veias que circulam a mãe da Aurora; ela está caída, a cabeça apoiada no pinheiro que a arremessei está tão abalada e sem forças quanto um recém-nascido e pela forma que ela geme está claro que provavelmente não peguei tão leve na força dos golpes. Assim que bati os olhos nela quase me petrifico, seu trapézio esquerdo está rasgado com marca de mordida e expelia sangue roxo, continuamente, assim como a que está na minha mão; ali próximo do peito feito de galhos e carne está com uma grande abertura, o local onde a atravessei a minha mão.

As grandes mãos do Cavaleiro Atemporal tomam cuidado ao se mexerem, ele banha as veias com uma certa magia que desconheço a fim de desfazer a fusão inoportuna. Aurora estava do lado observando o processo enquanto Shaw descasca pouco a pouco a colagem entre a pele e o tecido. Aurora se virou para mim e, quase de instantâneo, a cumprimentei com um “oi” grata por vê-la bem seguido de um sorriso. Entretando a pequena se mostrou assustada ao me ver, recuou do meu toque até, sem perceber, usar Shaw para se esconder de mim. Seu rosto mal aparenta querer me ver e Shaw percebeu. Meu sorriso murchou, supus que ter me visto criar tanto caos na minha forma já oculta a assustou.

— Ei — a chamei com voz baixa e suave. — Sou eu…

Estiquei meu braço, estava próxima do Objeto e ele reagiu, a aura dele e a minha começaram a se atrair como imãs e senti minha magia ser atraída. Temporizador observou, pediu gentilmente que eu me afastasse, provavelmente tanto para me manter segura quanto para o Objeto e Aurora. Que gozado, num momento estou quase de mãos dadas com a garota para protegê-la e agora ela não quer nem ficar próxima, ou olhar para mim. Senti um tremendo desamparo, minha consciência quase ficou contra mim por ter assustado a garota e falhado na minha promessa; logo supus que a mãe dela não mais viveria por muito mais tempo depois do que fiz.

— Me larguem… — diz a mãe. — Não me levarão para aquele lugar novamente…

Temporizador virou a cabeça para ela enquanto ainda fazia a cirurgia de remoção.

— Não iremos levá-la a lugar nenhum. O casaco é tudo o que queremos.

— Foi o que disseram nas outras vezes… — sua respiração pesada é acompanhada de chiados no peito. — Quase conseguiram me levar naquela vez, malditos…, mas resisti, enquanto eu respirar… não mais voltarei para O Castelo!

“O Castelo”, isto despertou um alerta involuntário em Temporizador que elevou prontamente a cabeça assim que ouviu-a falar, o mento tornou-se tenso assim que ele repetiu o nome do lugar. Ele sabe de algo, mas ao mesmo tempo se mostrou tão interessado que largou o que estava fazendo quase exigindo que ela falasse o que sabia sobre aquele local. Foi quando ela percebeu que não éramos mesmo o que ela pensou de nós. A raiva cega passou e ela viu, agora, com clareza destemida sobre nossos rostos e comentou brevemente sobre o lugar; um lugar isolado próximo das Terras Vermelhas, sombrio e distinto. Tal local é tão misterioso e assustador que muitos o evitam por seus perigos, Temporizador, pelo visto, quer saber mais e parecia exigir mais. Seu modo de falar mudou brevemente de calmo para algo quase bruto. Isto me assustou.

— Você fora prisioneira por quanto tempo? — ele diz com voz histérica e apressada.

— Aquele lugar não deveria existir e os Deuses sabem disso.

— Vamos preciso de algo. Diga algo de útil!

— Não sigam para este caminho. Serão pegos, torturados, usados, e esquecidos igual a mim…, mas consegui fugir e este casaco se tornou minha saída… minha ligação com ele fez eu ser a primeira a escapar... E jamais retornarei para as mãos daquele monstro!…

Todos olhávamos para a mãe que se esforçava para manter seu peito circulando ar e sangue sendo bombeado. A curiosidade nos afetou tanto quanto afetou Temporizador, ele aproximou-se dela.

— Ainda posso ver aqueles cabelos crespos me observando… com aquela pose fria e estática…

— O nome, diga o nome!

— Não sabem do que ele é capaz, fujam para longe… Ele… Ele…

BANG!

Temporizador permaneceu estático por um momento, o tiro ecoou pouco antes de acertar a cabeça da mãe, sua nuca explodiu e parte voou para o capacete do Temporizador. Eu podia ver claramente sua frustração, meu olhar de pavor e espanto pelo tiro é acompanhado com as duas mãos tapando minha boca, Aurora, assim como todos nós, se espantou e mostrou-se em amargor profundo após chamar pela mãe e vê-la não mexer um músculo se quer. A dor a consumiu, correu para os braços dela chamando-a enquanto as lágrimas caem. Sua voz é trêmula e com soluço a cada chamado. Erik virou o corpo na direção de onde o tiro veio — na floresta após o lago congelado —, trocamos olhares quase como se ele quisesse minha aprovação para ir ao local, eu assenti com firmeza.

Temporizador apertou os punhos com força sentindo o couro de suas luvas e socou a árvore com força o bastante para ela rachar e cair; seu banco de informações se foi, sua busca ainda continua e desta vez sem norte algum, mas agora sabe por onde começar.

Aurora está em prantos. A neve logo se transformou em chuva…

Quando nos reunimos com Erik, ele mostrou a cena em questão: o Sir que me acompanhou estava jogado e morto contra a árvore, é como se ele tivesse sido jogado contra o pinheiro e o sangue explodido com gotículas espalhadas marcando a neve com sua tinta da mesma forma que a pólvora marcou quando sua arma fora usada e largada. Os passos seguem para o lado contrário e depois desaparece. Temporizador se aproxima da cena, Erik dá espaço, e rapidamente averigua como está a brutalidade da morte, o pescoço de Sir Gloriann abert0, a cabeça inclinada observa o horizonte escondido entre as folhas das árvores esbranquiçadas e alguns pertences seus espalhados a alguns metros de distância marcando onde ele caíra. Observei atentamente, o tiro fora dado a alguns metros depois do corpo, supus quem seria o culpado de tal coisa, claro, mas não faz sentido ele acertar a mãe ao invés de mim. Por quê?

— Há algo errado. — falou Temporizador cético do que deduziu.

— Como assim? — Erik diz sem entender. — Merovak matou o homem, pegou sua arma e atirou.

— Não. Ele não tinha como saber que estávamos aqui.

O Cavaleiro bateu de leve sua mão cerrada no peito de Erik, ele o entregou algo. Uma bala. A bala que ele retirou do corpo da mãe da Aurora. Erik a agarrou, sentiu seu metal mixado de cobre e chumbo na ponta coberto de sangue. Eu cheguei perto para observar, ele esticou o braço para ambos vermos.

— A bala usada não é feita para o tipo de arma que este homem portava, foi modificada. Merovak precisaria conseguir um contrabandista em específico para isto. Além do lugar, também. Tenho uma ideia de onde…

Por algum motivo eu imaginava o que viria depois.

— O Comércio Balinith. — Shaw completa.

— O Comércio Balinith.

O Comércio Balinith, imagine uma pequena vila de comerciantes, enfileirados num pequeno corredor onde, no fundo, há uma cabana para viajantes relaxarem por um tempo com bebidas e comida; vende-se de quase tudo por lá, é um ótimo negócio se você quer arriscar seu dinheiro com peças e itens de pessoas estranhas e difíceis de confiar. Alguns viajantes vão por descanso, sobreviventes buscam a troca e ladrões buscam informações. Comércio clandestino é quase um apelido para aquele lugar, um lugar que certamente se esguia das Leis do Sul postas. Eles têm razão, lá será um provável lugar para achar pistas e sinto que haverá mais coisas lá do que esperamos.

— Bom, para o Comércio então! — Erik anunciou veemente.

Temporizador virou a cabeça para a arma, mais uma vez.

— Para o Comércio… — ele diz, pendorando.

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Nosso retorno fora concebido por espanto dos moradores, certamente é a primeira vez que veem alguém sair do norte da floresta ainda vivo. Também levávamos o corpo do velho enrolado nos trapos usados para cobrir o corpo da mãe de Aurora como um corpo mumificado. Erik conseguiu umas roupas para mim e enterramos o Sir ao lado da estalagem que ele ficara por muito tempo se martirizando até ter a coragem de finalmente sair da sua própria caverna solitária. Enterraram-no com o trapo, suas vestes, e a arma fora posta acima do tufo de terra por mim, lamentei por sua morte e por ele não mostrar a todos que duvidaram que ele nunca conseguiria chegar tão longe, mas sabemos a verdade, ele morrera tentando, mas nunca conseguira sua vingança contra o urso.

Mais uma vez fugi para a estalagem em busca de abrigo quente do frio, o sol retornava para a região e finalmente a maldição de neve cessará para com esta vila, mas até lá o frio permanecia. O X entalhado na madeira em seu túmulo é marcado para significar a passagem do corpo se desprendendo deste mundo para o Plano Acima, onde ele se encherá de bebidas, batalhas e glória, é poético e triste também. Esse conhecimento popular ponderou na minha mente até eu topar com metade da vila comemorando o fim do inverno. Berravam e aclamavam pelo meu nome, senti confusão; eu não fui a responsável pela morte da mãe da Aurora, mas pelo visto eles não querem se importar com isto. Puxaram-me como uma celebridade da qual nunca haviam visto e me colocaram no céu, jogaram-me três vezes no céu com suas taças erguidas e falas alegres enquanto eu evitava que me jogassem alto demais. A música alegre contagia o salão com as pessoas cujos pés se remexiam na pista onde, ali perto, o jaz Sir costumava sentar-se.

Depois de divertir-me brevemente com os urras inesperados, sentei-me no balcão onde o barman e proprietário residia preparando alguns copos para os festeiros e pinguços, para ele é ótimo ver a cidade se mexer depois de tanto tempo. Logo a notícia se espalharia e notei que isto poderia ser grave, afinal isto atrairia o Carniceiro para cá, na estalagem, com tal notícia. Balbuciei comigo mesma em preocupação e Erik logo veio fazer companhia a mim, sentou-se na direção contrária por um instante admirando os outros festejarem e Shaw competir com os cidadãos locais quem bebia um barril cheio mais rápido. Ele fora puxado e não os conhecia, mas aceitou o desafio e logo, sob efeito do álcool, pegou afinidade com tais pessoas. Eles estavam de cabeça para baixo num banco com outros segurando os pés enquanto eles sugaram do canudo transparente a bebida dourada.

— Olha pra ele, fazia um tempo que eu não o via assim, se divertindo…

Olhei por cima do ombro.

— E ele sabe se divertir?

Ambos caímos na gargalhada.

Erik se virou e pôs os braços no balcão como quem quisesse algo para tomar também. O copo arrastado caiu certo em sua mão direita. Ele deu o primeiro gole enquanto eu mantinha as duas mãos no copo de vidro gelado. Eu piscava várias vezes me sentindo intimidada enquanto fitava-o. Meus olhos brilham com fascínio

Ele me olhou um instante de canto, então disse:

— E essa sua cicatriz? — ele me vê acariciá-la, brevemente, logo em seguida.

— Minha mãe viu a cicatriz assim que nasci e… bom, ela viu como uma benção por ser idêntica a cicatriz de uma das nossas deusas, mas acho que você já sabia disso, não é?

Solto um riso tímido para ele quanto remexo a bebida com um canudinho de ferro.

Erik parecia surpreso, mas não se deixou abater pela informação, seus olhos procuraram freneticamente algo para se distrair, ou buscando fugir da minha pergunta. Parecia sem escolha e inevitavelmente cedeu.

— Bom… na verdade eu nunca soube o motivo de sua cicatriz, muito menos você. Com o tempo só passamos a aceitar que ela estava lá por estar.

Eu sorri de canto, mas com a face fixa no copo, pensativa. Antes que eu pudesse dizer algo nossa conversa fora interrompida por uma chegada inesperada, Marionete surge do meu lado com seu modo sem jeito de saudar a mim, Temporizador o trouxe por ele querer falar comigo sobre alguns assuntos em particular.

— De acordo com o registro do proprietário ele acabou se hospedando creio que poucas horas depois de você sair para nosso resgate. Vou deixá-los à vontade.

Enfim, Marionete fala detrás da máscara.

— Bom, éérr… isso mesmo — ele diz sem jeito. — A rainha, bem… a rainha me mandou para investigar possíveis condições que poderiam ser capazes de resistir ao bioma da Praga, então…

Ele me entregou sua prancheta com os requisitos postos e o que ele deve pesquisar na região. Ao que notei ele quem sugeriu fazer esta pesquisa, foleei o resto dos papeis e percebi que, estranhamente, há o mapa de Ecor com marcações. Ele rapidamente pegou de volta, pigarreou e explicou-me a situação atual do reino. Mamãe, a rainha, está fazendo o que pode para manter todos a salvo e seguros, a praga não mais percorreu a cidade, mas os resíduos ainda permanecem no coração da montanha desde o primeiro incidente.

— E há um porém, milady… — Marionete engole seco —, você está temporariamente banida de Homeworld…

Franzo o cenho e estreito os olhos. As músicas pareceram se abafar, os risos e gargalhadas mutadas e a festança se embaçou da minha visão. Aquilo fora a surpresa da noite.

— Como… como assim o que está dizendo? Eu-eu sou a princesa do reino. Eu escolhi fugir apenas para manter minha família salva, entendo que fora algo precipitado, mas eu ainda retornaria para eles. Para meu reino. Eles não podem…

Marionete pôs a prancheta na bancada ao lado da minha bebida e juntou as mãos, encostando a ponta dos dedos, na altura do tronco.

— Infelizmente você se tornou uma ameaça ao reino. Isto enquanto aquele Carniceiro estiver atrás de você; O Conselho votou por seu exílio até acharem como derrotar o inimigo. Até lá não podes mais pisar no reino…

Marionete observou meu semblante abalado, senti dificuldade para respirar e coração partido.

— Sua mãe foi a única a se colocar contra a decisão. Eu sinto muito, milady. Se houver algo que eu possa fazer…

— Não! Está… — baixo meu tom de voz. — Está tudo bem, Marionete.

— Entendo, princesa. Com licença.

⸗⸗⸗

Temporizador permaneceu na festança, comemorando à sua maneira, claro. Calado, contemplando o ambiente e batendo a sola de um dos pés no ritmo da música. Sua contemplação em ver Erik ajudar Shaw bêbado é como a parte final de uma pintura sendo renderizada um detalhe que diz que a festa fora bem animada, talvez até demais. Ele estava no balcão, mas algo faltava, ele percebeu, Marionete saiu para sua pesquisa então não era ele o que faltava; sentiu minha presença na escada acima em um dos quartos. Sou eu quem ele percebeu estar faltando ali embaixo tentando apreciar o momento de beber pela primeira vez. “O que houve”, ele pensou olhando para as escadas em curva levando ao andar de cima.

Ele sentiu algo de estranho, levantou-se de seu assento e caminhou para além das escadas. Seu passo calmo deixou com que ouvisse melhor o corredor silencioso deixando uma parte do barulho para trás. Maior parte dos quartos está fechado, então evitou de verificar, apenas um o chamou atenção: a luz fraca debaixo da porta revelou minha localização com alguns berros para alguém que estivesse ali dentro. Quase como uma briga. Inclinou sua cabeça para perto da porta, seu corpo queria entrar logo, mas resistia em fazer alguma besteira. Ele ouvira soluços de choro, bateu três vezes chamando meu nome. Sem resposta. Ele entrou olhando cima à baixo o lugar me procurando.

— Ayla… — lá estou eu, ele mostrou espanto na voz por trás do capacete. Estou caída no chão num canto entre a mobília e a cama, soluçando como uma criança que foi severamente repreendida pelos pais. Estou largada, meus ombros caídos se apoiam ao lado da cama assim como minha cabeça elevada, o rosto banhado em lágrimas.

O Cavaleiro Atemporal fecha a aporta e salta para perto de mim, ele pareceu desesperado, com medo e preocupado tudo de uma vez. O que ele poderia fazer? Suas grandes mãos abertas não sabem como me acolher e se mantém no ar como um pássaro prestes a bater asas. Continuei soluçando, meus olhos estavam fechados.

— Sai…, me…me deixa aqui… — mordo os lábios.

— …Ayla… o que houve, por que está chorando? O que aconteceu?

Apertei os olhos só de lembrar, mais lágrimas caíram.

— Não, não, não… Não chore mais…

Serenamente usou o tecido de sua luva para limpar algumas lágrimas minhas. Ele gentilmente pegou minhas mãos molengas, coube a maior parte da minha mão ali dentro. Meus lábios tremiam como de um bebê. Evitei contato visual, meus olhos estavam tão cheios de lágrimas que mão conseguia enxergar com nitidez, ele sabe que eu estava desolada, mas se manteve firme e queria ouvir o que eu tinha a dizer, mas que, também, eu precisava me acalmar.

— Venha. Aqui.

Ele me colocou na cama, sentada. Meu rosto permanecia cabisbaixo, fungava o nariz com enquanto tento segurar o choro. O Cavaleiro pergunta novamente o que houve, minhas falas saem finas quase como um murmuro, falando parcialmente como uma criança. Expliquei no meu ritmo o que houve. Houve momentos que minha fala quase não saía, Temporizador compadeceu-se com meu estado, sentou-se no meu lado e envolveu-me num grande abraço comigo inclinando e apoiando a cabeça no seu peito metálico na falsa esperança de me sentir melhor, mas a dor persistia profundamente como uma agulha penetrando minha carne.

— Ayla, eles não tinham o direito…

Senti-me desamparada por uns momentos, graças à preocupação de Temporizador senti um reconforto, mas não o bastante para me recompor, pois a notícia ofuscou meus pensamentos me perdendo em lágrimas, minha voz mantinha a falha. A luz da lua partia aos poucos do quarto, em breve já seria o amanhecer. Temporizador se priorizou em mim acima de tudo naquele momento.

— Ei… olhe para mim — ele levantou meu queixo. Eu ainda mordia os lábios trêmulos enquanto soluçava segurando o choro. — Você verá sua mãe novamente. Eu prometo.

Fim da leitura

Capítulo 17 concluído

Volume 1 – Desamparo