Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de PoderVolume 1 – Um Comércio e Tanto
Capítulo 18O sangue da mãe da Aurora ainda assombra meu olhar, a perturbação em minha mente é tamanha a ponto de me deixar cabisbaixa quase o dia todo. Quase matei uma pessoa e isto é uma linha quase cruzada que eu não teria noção que iria fazer; minha amnésia permanece e mesmo com as inúmeras explicações de todos ainda é difícil para mim acreditar que virei uma criatura sem controle. Sei que permanecer com isto na mente só me perturbaria ainda mais, e no que me ajudaria? É como um chiclete grudado no cabelo, mesmo que tire a maioria ainda vai restar uma boa quantidade e isto leva tempo para retirar, eu sei disto e irei que arcar com esta desventura como consequência.
No amanhecer partimos para mais ao Sul de Ecor, mais para baixo até acharmos a Trilha de Prata que nos guiará para o Comércio, Marionete desejou sorte a nós, pois ainda ficará ali para coletar dados para o reino e disse que mandaria lembranças para a rainha por mim. Eu assenti antes de partir e acenei para ele com um leve sorriso desanimado e olhos caídos. Após isso fomos para a floresta novamente, junto aos grilos, mosquitos e a fauna, logo deixaremos aqueles pinheiros cobertos de neve para trás e isto me desanimou. Gosto de neve. Gosto de pinheiros. Peguei uma semente de um dos pinheiros e guardei-o.
Ao longo da caminhada percebi que Aurora nos perseguia de longe, durante a festança na Vila a vi isolada numa mesa e supus que ela voltaria a viver pelas montanhas, mas vendo agora ela não tem por que voltar para lá; a única opção que ela viu fora seguir-nos a distância e pegar um pouco da nossa comida enquanto dormíamos, ela não tem noção que sabemos de sua presença e esperamos que ela venha falar conosco no seu tempo, talvez eu possa, até mesmo, achar uma brecha para falar com ela novamente. Eu vejo nosso pequeno dragão ir até perto dela durante a noite e vejo que, mesmo estranhando de início, ela vem de dando bem com Grume.
O turbilhão destes pensamentos passa sem parar em minha mente, meu olhar cego se vai para algum horizonte que minha mente me faz crer que existe apenas para escapar do afogamento dos acontecimentos que ocorreram. É incontornável e deprimente ao mesmo tempo. Não posso me lastimar, precisarei agir em algum momento e enfrentar as consequências que causei. Aurora é um deles. Ela não para de vir a minha mente, neste momento em que estou num lago calmo tomando banho seu olhar de espanto para mim me faz mergulhar até acima dos lábios; o banho na Vila é bem inferior a este; a água morna e relaxante traz uma calmaria que necessitava. Para distrair-me pensei nas suspeitas do Temporizador sobre a bala disparada. Talvez o Sir tenha atirado e morrido pelos ferimentos da queda…, mas ele queria se vingar bem mais daquele urso mágico do que com a mãe da Aurora. Ele não teria muitos motivos para fazer o que fez e seus ferimentos não foram arrastados.
— Sei no que está pensando.
— O quê?
— Ele mesmo disse que a levaria para achar seus amigos e se vingar do urso… ele nunca encontrou a mãe daquela garota para dar aquele tiro. Ele surgiu naquele momento apenas achando que a garota era a tal lenda da rainha que morava li e só agiu para lhe defender. Não foi ele.
Sombra materializou-se para mim, juntou-se no banho comigo de forma largada e com os braços esticados na borda. Ela inclina a cabeça. Seus olhos brancos e vazios me contemplam.
— Não tem como você saber… — viro com a cabeça estreitando as sobrancelhas.
— Pense. Um velho como aquele se lastimando por anos se isolou por sentir vergonha ao invés de aceitar a derrota e voltar para a casa. Seu orgulho o levou ao caminho da vingança, uma oportunidade na qual surgiu por sua causa. Ele queria o urso. Pela idade suas habilidades com aquela arma não deveriam ser as melhores e somando a queda que vocês levaram ele não teria a força necessária para manusear aquilo.
— Mas ele ainda apareceu para matar Aurora achando que ela seria a tal Rainha… se ele queria o urso por que quis me proteger daquele jeito?
— Se você vê uma oportunidade de pescar um peixe maior, você não recua. Além do mais ele estava a poucos metros depois da arma. E reforço: ele queria o urso.
Isto me deixou pensativa.
— Além do mais — ela falou reforçando —, como um velho daquele conseguiria um tiro certeiro daquela distância? Como ele sabia onde estávamos? Por que esperou até o final para atirar?… Não faz sentido…
Mais uma vez estreito as sobrancelhas, inconformada dela ter percebido melhor a situação do que eu. Sombra tentou me dar consolo dizendo que ainda estou aprendendo, posso ter realizado meu sonho de ser aventureira, mas só porque me tornei uma não quer dizer que já ganhei as habilidades de uma rastreadora. Isto só me fez perceber o quanto experiente Sombra é, talvez ela seja bem mais velha do que penso e com mais experiência. Quantos outros portadores ela teve que guiar antes de mim? Outras pessoas, culturas, lugares. É de passar a noite toda pensando e supondo bastante debaixo das estrelas, estrelas essas que nos guiam para onde vamos. E claro, com o mapa do Erik.
Minha vontade de perguntar sobre Sombra apenas cresceu, desde que ela apareceu na minha cabeça nunca senti necessidade de saber mais sobre ela além de aceitar que virei seu “avatar”, a sua portadora e que agora estou nas mãos dela, que ótimo. Se vamos ser como uma só então quero saber mais sobre ela, o que exatamente ela veio fazer e me guiar para quê?
— Escute garota, indo para o Comércio deve nos dar uma boa pista ou reposta para isso tudo. Talvez encontre até mesmo algo que lhe ajude nesta jornada — Seus olhos se fecharam completamente e relaxou na água.
Era minha chance de perguntar, mas… talvez pudesse ser inconveniente? Senti minha coragem de perguntar se dissipar completamente e me retraí, terminei meu banho afundando para dentro da água.
Lavei-me devidamente e pulei para um arbusto a qual minhas roupas estavam próximas. Ainda estava amanhecendo e minha rotina rela de acordar cedo permanecia. Os outros ficaram em seus cobertores na rala grama mais para dentro da floresta. Grume permaneceu ali no lago por um tempo, boiando como uma bola cheia de ar feita de couro e escamas com asas. Logo, logo ele sai. O frio da manhã é trazido pelo vento, rapidamente fico pronta e busco minhas braceleiras. Há apenas uma ali. E tenho uma vaga ideia de onde pode estar. Após a minha transformação meu “uniforme de aventureira” fora completamente rasgado. Até achar alguma alfaiataria estou usando roupas improvisadas.
Olho para uma árvore ali perto e vejo-a mexendo no meu acessório com uma curiosidade afiada, ela tateia, remexe e sente a textura do bracelete improvisado. Solto um sorriso tímido.
— Você gostou do bracelete? — eu digo, Aurora se espanta por um momento e me observa brevemente, seu olhar retorna ao bracelete.
Ela morde os lábios e engole seco, suas mãos curiosas buscaram se controlar e sua cabeça inclinou para baixo como se imaginasse que tivesse feito algo de errado.
Ela balança a cabeça num “sim”, um sim tímido e calado.
Gentilmente explico a ela como se coloca, pacientemente tomo o bracelete com cuidado de sua mão e o envolvo no fino pulso da garota. Ela demonstra felicidade ao mesmo tempo que busca esconder procurando apagar o sorriso que forma nos seus lábios, mesmo que a força. Diferente dela, deixo o meu exposto. Talvez as coisas melhorem…
Após mais caminhadas meu treinamento com o cajado tem mostrado certos resultados, mas ainda sofro com as pancadas na cabeça pelos meus erros e falta de atenção me passando a impressão que mesmo eu aprendendo ainda sinto que não evoluo. Erik diz-me que logo retornarei com minhas vastas habilidades de combate que outrora eu tivera…, é difícil acreditar nestas palavras quando se tem três galos na cabeça e uns hematomas pelo corpo devido ao treinamento. Todavia, assim busco praticar.
Nossos passos nos levaram a encontrar um rebanho de Galquers, criaturas nativas bípedes, corredoras, com o rosto que lembra cervos e uma longa cauda colorida e plumosa lembrando um pavão e grossas pernas com o corpo cheio de penas. Eles nos viram, levantam seus pescoços com os rostos em nossa direção naquela abertura para o campo verde em que estavam e correram para dentro da floresta, suas pernas mexeram rapidamente guiando nossos olhos para a Trilha de Prata à frente. Meus olhos piscam.
— Lá está! — com entusiasmo na voz eu aponto para o início da trilha.
Treinar pela floresta por muito tempo me fez refletir, perceber quão despreparada ainda estou no quesito de luta, o episódio na neve tornou-se minha confirmação disto. Mesmo com os momentos de treino, sinto que ainda não é um grande avanço, ainda pareço estar nos treinos básicos sem algum avanço. Chamei a atenção para eles sobre esta minha observação, me coloquei na frente deles como quem iria fazer um anúncio, principalmente para o Cavaleiro Atemporal. Erik ficou calado. Temporizador também manteve a língua quieta. Suspirei e soltei as palavras presas na minha língua, citei o momento na neve em que ajudei quase nada, minha evolução não parecia vir de fato e opinei seriamente sobre o meu estado atual de treinamento e requeri um avanço no treino. Derrubar o golem é básico e muito simples para qualquer iniciante inexperiente, você parece sentir dificuldade, mas quando olha para trás vê que é simples.
Minhas mãos apertam a haste simbolizando minha preocupação com a resposta deles, de alguma forma eu sabia que eles não acreditavam que eu daria conta de treinar com o cajado de forma mais árdua e puxada, mas eu queria sentir aquela falsa sensação que daria certo meu argumento.
— Olha, gente... — mordo os lábios, com a face preocupada. Meus olhos ficam frenéticos sem saber para quem olhar. — E-e-eu dou conta, eu consigo… só, p-por favor me deem uma chance! — estiquei os braços esperando que algum deles tomasse a frente para pegar o cajado e me treinar. Mas, ao olhar deles, ainda não estou pronta...
E, de fato, meus argumentos não se mostraram ser o suficiente para eles.
Bufei soltando um suspiro pesado, minha expressão decaiu, a frustração tomou meu rosto nitidamente e puxo o cajado para perto do meu peito.
— Certo. Esqueçam o que eu disse… — virei-me de cara fechada.
— Ayla... — Temporizador tenta falar.
— Vamos. — eu o corto. — Temos que chegar no Comercio.
Temporizador não insistiu, os outros dois também se mantiveram quietos, claramente sabem que não estão no direito de argumentar algo por pensarem a mesma coisa, pois eles notaram depois do que houve na neve, isto os deixou preocupados, preocupados de eu perder o controle novamente se eu me tornar mais forte, pois com a força vem a raiva e o descontrole. Que tola fui. Suas intenções são as corretas, sei disso, mas ainda me veem como uma jovem ingênua e por isso mostrei estar disposta a tentar, contudo ainda temem o monstro que se esconde na minha sombra.
Fiquei de cara fechada o caminho todo usando o cajado como um bastão de suporte de trilha, batendo a bate na Trilha de Prata ouvindo o leve tilintar da haste com as pedras de Prata.
A selva é densa, as folhas das árvores filtrando a luz do sol e com apenas o som ambiente das folhas caídas farfalhando ao piar das aves. Tomei nota de que teria que aprender sozinha se eu quisesse mesmo melhorar, felizmente o Comercio Balinith deve ter algum pergaminho ou livro que ensine a lutar melhor com bastão.
Estava tarde e meu estômago grita por alimento, peguei algumas frutas que coletei pelo caminho da minha bolsa e consegui enganar meu sistema digestivo até a próxima refeição. Em seguida, noto que chegamos ao Comércio, a luz clareou meus olhos e momentaneamente vi apenas um clarão, logo a luz dissipou e uma clareira surgiu pelos meus olhos, uma linda clareira abrigando o Comércio Balinith, tendas improvisadas e diversificadas de diversas cores, pessoas, e humanoides circulavam ao redor, à esquerda alguns grupos treinando em conjunto com suas armas, caindo na grama, risos e momentos em conjunto, uns ensinando os outros. Pássaros aterrissam em alguns pontos das tendas para descansar. À direita, outros treinando sua mira com feitiços, arremessos e flechas. Um genuíno sorriso formou em meu rosto ao observá-los e pareceu de forma instantânea. Aventureiros, verdadeiros aventureiros os encontrei, enfim! Finalmente, após dias incontáveis para ver mais aventureiros minha ansiedade cessou e não me controlei ao demonstrar. Era mais forte que eu. Meu corpo se animou como uma criança, corri para perto do Comércio, os outros me seguiram no susto. Grume estava na minha bagagem e o acordei para contemplar comigo um lugar onde vários aventureiros vão para se encontrar e formar conexões, peguei-o esticando os braços para que ele contemplasse.
— Já viu coisa mais legal que isso, Grume? Quer dizer... o Comércio é conhecido por não haver muita confiança dos seus negociantes…, mas olha só isto!
Grume grunhiu baixo, piscou lentamente me dando a falsa sensação de que ele me entendia, mas não parecia se animar como eu. Após olhar ao redor por uns instantes no pé da entrada à multidão, suspirei ao ver o que passei a chamar com o tempo de Grandes Ídolos:
— Este é… Keny, o briguento! E aquele… porra, é Jack “Soco-Bruto”! — por uns instantes senti um desmaio a caminho, me sentia numa overdose ao consumir Cogumelos-Shu por ver os grandes aventureiros. Minha boca quase espumava. Passar horas lendo seus contos nas horas de estudo pelas costas de Paracelso valeu a pena. Arquejava ao recitar seus nomes e ao passar por eles apontando para cada um com estes sem entenderem o que merda uma fedelha como eu estava correndo por aí enquanto apontava para eles. — Lina, a bruta… Duknan, o bárbaro dos bárbaros!… Karmet “Compaixão”! Pelos deuses… caralho, caralho, caralho, caralho que incrível!
Eles me viam como uma perturbada, possivelmente uma retardada, sei muito bem disto, naquele momento pouco me importava. Em momento de êxtase em ver os campeões que tanto li e passei a admirar, é de empolgar qualquer um; Temporizador prontamente me retirou de lá antes que acontecesse algo de pior, me puxou me levantando pelo braço como se eu fosse peso pena, escondemo-nos detrás de uma das tendas e de uns tonéis entre carroças.
— Não! Espera, e-eles estão ali eu quero vê-los!
Temporizador me deteve, explicou que devido o Conselho ter me afastado e me classificado como ameaça de risco o anúncio se espalhou pelos cantos. Mas não apenas isto, ele me entrega um papel com meu rosto desenhado dizendo que fui classificada como uma nômade. Pelo visto o “segredo” do meu pai saiu para os ouvidos do conselho. Bufei assim que li o papel e a decepção tomou conta de mim por uns momentos.
— Como eles podem… Eu pensei que isso seria apenas em Homeworld. Como eles podem ter feito isto comigo, me classificado como uma nômade de alto risco?
— Pelo visto eles expandiram com intuito de lhe afastar de qualquer lugar por agora você ser… uma nômade. Ayla, precisa se esconder, se disfarçar. Ou mudar de estilo para que fique diferente — ele colocou as mãos na cintura. Ele inclina a cabeça esperando que eu entenda o que ele quer dizer.
Aperto as sobrancelhas e inclino a cabeça no sentido oposto à dele, buscando entender.
Erik puxa um aparador de cabelo de supetão.
— Tá na mão — ele brinca com um tom sério.
Agora entendi.
— Não… Não! E-eu cortarei meu cabelo! — falo em tom preocupante enquanto acaricio algumas mechas mostrando meu apego. Sem querer solto umas falas em um outro dialeto que nos ensinam quando menor. Geralmente eles são apenas usados em protesto a algo.
— Bem então só resta uma opção.
O Comércio está repleto de pessoas, criaturas antropomórficas e humanoides rodando para lá e para cá cujo objetivo é a troca-troca nas barracas. Trabalhadores em seus estandes colocam seus produtos à venda na bancada de madeira mal limpa e escura. De itens médicos até à necessidade mais bizarra que se imagina envolvendo tentáculos, garras e… sanguessugas? A diversidade linguística por aqui é fascinante principalmente por seres de pescoço largo, ou pelos pequenos que escondem suas asas transparentes debaixo de um cobertor veludo para acolchoar. O dinheiro aqui percorre muito rápido, e o item, ou informação, desejado mais ainda dependendo o quanto você está disposto a pagar ou trocar por isso. O que se encontra aqui dificilmente vai encontrar em outro canto. Pelo menos a maioria. O que você tem de atenção lá fora deve ter o dobro no Comércio ou suas Moedas de Troca — como também são chamadas — são levadas e você nem percebe.
Fomos a um dos estandes mais no centro, enfaixada com algumas bandanas e remendada com alguns trapos, Temporizador elevou um pouco os braços e os colocou calmamente no pouco espaço que há no balcão esperando ser atendido. Ele não exigia mais espaço, pois o negócio é mais importante do que gastar tempo exigindo uma melhor acomodação para os braços, mas para alguém alto e robusto como ele certamente faria bem. Ele os manteve retraídos, quase que com timidez, colocou ali na frente um pano branco enrolado formando um nó bem acima.
— Só um momento! — disse uma voz vinda do fundo, uma voz expressando tédio num tom grave e meio abafado.
Pelo atendimento, o Cavaleiro ficou à espera.
Shaw pôs-se de costas e encostou as costas no pilar do estande à direita de braços cruzados esperando o que quer que Temporizador esteja procurando, acabar. Sua expressão séria não mudou além dele ter estreitado suas sobrancelhas, ele percebeu que o encarei por um tempo debaixo do meu capuz e em resposta ele soltou um suspiro, de olhos fechados, sem se mexer.
Notei então que Erik havia sumido, olhei para ambas as direções do Comércio e não o via, um mar de pessoas se formava limitando minha visão para apenas as bordas acima de mim.
— Mas como… Erik! — eu o chamava. — Erik!
— Aonde você vai? — perguntou Shaw mantendo a pose e os olhos fechados.
— Irei procurar o Erik, ou vocês também vão me tirar daqui do meio para manter-me sob tutela rigorosa?
Shaw bufou. Apenas disse para me manter ao redor do Comércio e não ir longe. Compreensível.
E assenti.
Passear pelo comércio enquanto procuro por Erik se tornou interessante, meus olhos não paravam quietos e minhas mãos se remexeram umas nas outras por um tempo. Procuro não barrar nas pessoas enquanto fito as mercadorias de longe através de filamentos entre os clientes, mais uma vez me sinto uma estranha ali apesar de que ninguém me encarava, provavelmente devido ao capuz que estou usando como a segunda medida protetiva para evitar alardes desnecessários já que, recapitulando, fui posta pelo governo como perigosa por ser uma nômade de alto risco com um assassino me perseguindo, é claro que isso não daria em nada se eu me revelasse e eu claramente não seria expulsa dos locais, não é? Vendedores procurando cliente me dirigem a palavra apenas para serem negados por mim seguido de um forte puxão do capuz cobrindo meu rosto ainda mais. Meu rosto tensiona à medida que mais vendedores me procuram. Meu passo é célere, minha preocupação aumenta. De repente sinto uma mão agarrar meu ombro de supetão.
— Ah! — me assusto, viro no mesmo instante para quem me tocou. — Credo, por que assustar?
— Desculpa — Erik ri timidamente. — Bem, eu não queria chegar a esse ponto de te assustar, hehe…
— Bom, desculpas aceitas… — por algum motivo fiquei envergonhada. Meus olhos fogem dos dele. — Por onde esteve! — dei-lhe um soco no ombro. — Eu estava procurando por você.
Cruzo meus braços enquanto Erik massageia os dele.
— Tá bom, tá bom. É que, bom, eu… eu… — Meus olhos o evitam, quase como birra. — Vem comigo!
Erik garra minha mão, puxou-me com veemência me surpreendendo, é a primeira vez que ele fez tal coisa, senti meu rosto corar e por uns instantes o mundo parou quando senti seu toque me levar para o outro lado do Comércio Balinith cruzando o mar de pessoas e seres como se ele estivesse procurando algo, mas o que poderia ter aqui que atrairia a minha atenção? Deixei-me levar por seus caprichos.
Um druida cantarolava ali numa fogueira com pouca gente a ouvi-lo e não muito distante chegamos aonde Erik quis me trazer; a tenda é distinta com joalherias percorrendo parte do teto, a luz filtrava a cor das toalhas que cobrem o lado de dentro. Depois do balcão há diversos itens curiosos, livros e poções em estantes improvisadas, caixotes com ingredientes, e alguns anéis conjuradores para magias específicas. É intrigante, é curioso. No fundo, ao lado da estante, há algumas armas empoeiradas juntas e com aspecto de nunca terem sido mexidas ou se quer tocadas desde seu forjamento. Meus olhos se esticaram com o vislumbre daquilo tudo. No momento de admiração esbarrei com um ladino ao meu lado no balcão que estava terminando de negociar com a dona do lugar. Suas vestes escuras tapavam metade do seu rosto e grunhiu assim que sentiu que pisei no seu pé sem querer, seus olhos ferozes se viram para mim, raivosos e penetrantes. Minhas mãos se levantaram na altura do peito, espalmadas, com meu rosto soltando um sorriso amarelo sem jeito enquanto meu corpo se encolhia grudando no braço de Erik. O ladino fechou seu livro recém comprado, bufou mais uma vez, e foi embora.
— Certo. O que desejam da mercadoria da Rosengold? — disse cuspindo numa escarradeira próxima. A mulher apoiou seu braço esquerdo no balcão e inclinando seu corpo como se realmente quisesse nos ouvir. Seu semblante é de uma mulher chegando na metade da vida, as bandagens e o turbante declaram-na como uma antiga clériga aposentada. Seu cordão está a mostra. Usa roupas leves de tecido em cor desbotada e escura; braços grossos contêm algumas poucas e sutis tatuagens. Ela nos cumprimenta com um simpático sorriso e olhos escuros afiados.
— Olá — eu disse quase sem jeito.
— Eu saí a poucos minutos, mas você ainda tá com aquele livro que comentei antes? — disse Erik apontando para a estante de forma tímida. — O que estava naquela prateleira ali.
Rosengold puxou debaixo o livro mencionado, grosso e empoeirado foi colocado e empurrado na minha direção. As mãos experientes da vendedora são robustas, um dos pulsos carrega pulseiras de macramê, de madeira e joias. Suas unhas pintadas são gastas nas pontas.
— Quero saber se vai levar dessa vez, rapaz. Há vários compradores que poderiam adquirir essa belezinha aqui, sabia? — sua voz é macia, porém firme como um nó. Seus olhos cansados mirou-nos ponderando se haverá compra do item. Ela parecia ter catarata em um dos olhos.
— Bem... o que é isto? — eu disse me aproximando.
— Bom, veja você mesma, garota. — Ela dá um tapinha na capa.
O título é breve com letras legíveis, mas ligeiramente pequenas. Minhas mãos aproximaram o livro sem eu perceber, meus olhos vislumbraram o acabamento e os detalhes em relevo da capa “Movimentos e técnicas de luta com armas”. “Uau...” falei quase sussurrando para o livro.
— Este é o último. — disse a vendedora com braços cruzados ansiosa para alguma negociação. — Estão atrás de coisa perigosa, não é? Os jovens de hoje em dia só buscam se aventurar sem o devido preparo, heheh. Sua sorte é que este era um dos últimos.
Minhas mãos manobraram o livro velho como uma criança tateando um brinquedo que dificilmente irá largar depois. Negociamos e trocamos algumas Moedas de Troca. Foi-se 5 moedas de prata. Nosso andar calmo deu-me oportunidade de ver melhor o livro. Meu rosto entusiasmado é contagiante, Erik me olhava meio de lado com um sorriso tímido, seus olhos me veem de cima a baixo.
— Isto é incrível. O acabamento é de fato muito bom mesmo que seja velho — eu folheava de trás para frente, por um breve momento vi algo sobre movimentos com bastões e cajados. Fechei o livro e encarei a capa por uns minutos. — Aquela vendedora tem bastante coisa a venda…
Erik viu-me sorrir mais uma vez ao olhar.
— Ele mudou de novo — ele disse. Fiquei sem entender — Seu olho esquerdo. Sempre está mudando conforme você se expressa. Agora ele está um azul claro enquanto o outro continua castanho.
Minhas mãos encontram na minha bochecha perto dos olhos, coço minhas sardas em nervosismo por não ter percebido antes. Algumas folhas caem em nossa frente com o vento soprando na nossa lateral. Nosso andar é quase sincronizado. Abraço o livro contra meu peito.
— Érr... obrigada. Digo, por achar este livro na intenção de dá-lo a mim.
— De nada — diz Erik com generosidade no tom. — Olha, eu sei que o Temporizador pode parecer meio distante agora, mas depois daquilo na neve ele está buscando formas para fazer você evitar aquilo. Não te culpo por querer aprender mais, ele só acha que você pode sair do controle de novo se avançar muito no treinamento com ele.
— Oh... — falo em tom é baixo e com desânimo.
— Mas! — ele intervém com tom animador. — Nada impede de você ter aulas extracurriculares, não é?
Ele coloca as mãos nos bolsos dando de ombros. É claro que ele quis dizer algo com este gesto, esse movimento dele de ter procurado algo em específico que me ajudasse a aprender os golpes que quero. É a forma dele de mostrar que se importa comigo.
Sinto minha bochecha arder levemente e um sorriso bobo se formar, ajeito o cabelo debaixo do capuz.
— Obrigada.
Dou um beijo na sua bochecha, rapidamente.
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