Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder — Capítulo 20: Volume 1 – Ele Está Aqui

Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder
Cap. 20
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Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder

Volume 1 – Ele Está Aqui

Capítulo 20

4.100 palavras~18 min de leitura

Temporizador vai os rapazes conversarem, N’Burgo estava bêbado, mas não o suficiente para se perder na própria mente e se enrolar com a língua. Ele observou a porta da qual passei como se esperasse meu retorno com uma leve ansiedade, seus dedos inquietos na mesa deixam isso claro. Os rapazes pediram uma bebida para Erik, afinal ele não é deste mundo e N’Burgo o convenceu de provar uma das bebidas. As garçonetes de tabernas de lá para cá com suas vestimentas em tons terrosos levam as bebidas e comidas de clientes, seus passos rápidos são eficientes, as mãos calejadas seguram com firmeza e equilíbrio a bandeja e o toque final é o decote com o cabelo preso às pressas. Uma delas traz a bebida para a mesa dos rapazes, ela tendo certeza de que é apenas aquilo, limpa suas mãos no avental já sujo e se retira.

Erik observou a diferença de sua bebida para as que Shaw bebia com N’burgo ostentando sua vida de minerador e de sua aclamada carreira, já há escavado de tudo um pouco em sua longa vida. Temporizador apenas observa. Shaw fitou Erik por um momento notando sua relativa falta de coragem para beber o copo. O copo em si não há diferença, as a bebida é que o assusta, sua cor vermelha cuja espuma salta para fora o assusta tal como um coelho se assusta ao ver um predador. O copo é acompanhado de um frasco de tamanho mediano, está roscado, sua textura é similar a uma madeira com a ponta se curvando como uma raiz e Erik busca tentar abri-lo sem quebrar o recipiente. Shaw contesta.

— Não é assim que se abre — Shaw o olhou tentar.

— Eu sei como se abre uma tampa. Obrigado.

— Não é o que eu vejo.

Erik suspirou.

— O giro tá certo! Isso aqui é que tá muito preso, eu não quero quebrar.

— Não é deste lado que se abre. Tem que girar do outro lado.

Erik largou a tentativa de abrir com o dente e ouviu Shaw por um momento.

— Espera… — Erik girou para a direita. A tampa abriu-se com facilidade. — Não… não, não, me recurso a aceitar que se abre para a direita.

— Para de chorar. — Shaw bufou se voltando para sua cerveja

Erik não se conformou.

— Shaw, as tampas se abrem para a esquerda e se fecha para a direita — Erik diz apontando para o recipiente que continha a cor azul. Ele deve misturar os líquidos, mas não sabe, pois preferiu bater boca com Shaw sobre o quão invertido este mundo é para o que era habitual a ele.

Temporizador olha mais uma vez para a porta. Ele está me esperando, certamente. Está inquieto com minha demora, vê meu cajado apoiado na mesa e observa como se fosse um chamado para ir atrás de mim, e está extremamente tentado a o fazer. O Cavaleiro Atemporal se desprendeu do mundo e passou a ponderar, ele sabe que ainda estou um pouco chateada com ele por indiretamente negar meu pedido de um treino mais árduo, mais puxado, ele sabe que terei de enfrentar perigos mais vastos sozinha em algum momento. Ele nem sempre estará lá para ser a rocha na qual me apoiarei. Terei de aprender a nadar no mar do perigo que virá mais a frente e nisto ele sabe que tenho razão. “Ela tem razão… Temo que meu medo prende a mim e ela, ela de desabrochar e ver do que é capaz, de tantas maravilhas… Por que tanta demora?”

Me afastei de perto do Carniceiro mantendo a calma, mas o desespero já se mostrou presente no meu olhar sem mesmo eu perceber, olhos arreglados e fixos no malfeitor horrendo diante de mim como se eu visse a própria mão direita da morte. A vibração da sua presença é arrepiante, minha espinha se contorceu e minha respiração acelerou. Minhas palavras quase se engasgam na garganta. “Você!…”, eu disse com esforço.

Minhas mãos instintivamente agarram o ar nas minhas costas procurando o que deveria ser a haste do meu cajado. No mesmo instante percebo meu desarme e dou alguns passos para trás.

— O que foi? O gato arrancou a sua língua? Se ele não arrancou, deixa que eu arranco. — Merovak cerrou as mãos e se aproximou com alguns passos. Meu corpo se coloca em modo de ataque (e percebo isto apenas depois). Merovak deu alguns passos e parou ao ver meu posto, ele parecia surpreso. Inclinou a cabeça como se estivesse me estudando, ou se divertindo ao me ver naquela pose — Vejo que aprendeu pelo menos a posar minimamente ao invés de apenas fugir.

Meus dentes e rosto se mantive fechados e minha respiração sai bufante pela boca. A raiva começou a consumir meu sangue, quase fervendo, procurei contê-lo de acordo com o treinamento. Ele deve servir finalmente, não? Meus olhos se tornaram fixos nele como uma espécie de hipnose.

— Não. Não vou fugir desta vez... — falei veemente. Há tom de raiva na minha fala calma, trêmula. Sei que ele percebeu, mas não me deixei intimidar mais do que já me sentia, pois mais uma vez estou diante do monstro que matou meu pai, minha melhor amiga..., não darei passo atrás.

— Que fofo. Então quer dizer que a filha perdida está atrás das relíquias — ele diz passando por mim de braços juntos nas costas.

— Quer dizer os Objetos, isso não lhe interessa! — meu corpo o acompanha sem baixar a guarda.

— Oras, deixe disto — passou um outro Merovak nas minhas costas passando em sentido oposto. Assustei-me virando de imediato.

— Estão perdidas — e outro. E mais outro. Todos em diferentes direções, apenas passeando, brincando com meu estado em alerta como se quisessem que eu enlouquecesse em procurar qual é o real e quais são suas sombras. — O que planeja fazer ao juntá-las?…

“Não vai achar todas…”

“A última principalmente…”

“Quer mesmo bancar a salvadora?…”

“Está só desperdiçando tempo…”

“Logo a praga vai tomar TUDO…”

— N-não. Vamos impedir você. EU vou!

— Será mesmo?

Sua voz ecoa atrás de mim. Por reflexo desfiro um golpe com força, apenas para acertar uma enorme rocha que estilhaça o meio soltando alguns cacos no chão. Solto grunhidos de dor momentâneos. Mais uma vez sinto a perdição tomar conta de mim, os pulmões trabalhando dobrado na minha respiração áspera.

— Por que matou a mãe da Aurora?! — minha voz ecoa na floresta. Os pássaros sumiram.

— Aquela criança com vocês tinha mãe?

— É claro que tinha, idiota. Ela cuidava da mãe.

Merovak surge debaixo na fumaça da sua sombra, se elevando como uma criatura mística sendo invocada.

— Acha que a matei, por quê? Só por eu ser um “vilão”? Não tem como provar, nem mesmo armas de fogo eu manuseio — ele ri, estica os braços com as mãos espalmadas num gesto de deboche. Ele está certo, não temos provas de que foi ele, apenas uma bala. — Não entenda mal, quer bancar a detetive vá em frente, mas faça as deduções corretas primeiro. Ou nunca vai chegar no culpado verdadeiro.

Minhas mãos ainda massageiam minha região do metacarpo.

— Eu sei que foi você, filho da puta.

Mais uma vez desfiro um golpe. Merovak o desvia com a mão facilmente, qualquer outro ataque era inútil de acertá-lo.

— Vai ficar nisto? Tenho compromissos — ele debochou mais uma vez. — E vocês estão com algo que quero.

O que ele poderia querer que temos? Até onde consigo raciocinar eu sou seu único algo, então por que não me atacar agora? Estou sozinha, desacompanhada e desarmada. Presa fácil. Sua espada, a lâmina que usou para tentar me matar está nas suas costas ainda. Chacoalhava querendo ser desembainhada em busca do meu sangue, como um ser vivo, quase consciente. Merovak está brincando comigo, talvez queira ver o que tenho a oferecer de ameaça visto que ele julgou-me saber lutar apenas pela pose de combate que fiz mais cedo em sua frente. Claro, brincar com a presa.

Respirei o mais fundo que pude par acalmar a ansiedade.

— Nós não temos… — por um instante repensei. Só há uma coisa que ele pode querer que nós temos: O próprio Objeto de Poder, o casaco. Minha expressão mudou assim exponencialmente.

— Ah. Percebeu, enfim?

O Objeto está numa dimensão de bolso que Temporizador conjurou para manter os Objetos seguros, para que não tentem outras pessoas, ou nós. O que ele quer com um Objeto de Poder? Não posso deixá-lo chegar perto, nem saber onde está guardado. Não posso. Não devo.

— Você não vai pegar.

— Oh por favor…

Tento desferir outro golpe, mas rapidamente sou contida, Merovak rebateu com um golpe paralisante na região perto do meu ombro, usando apenas os três primeiros dedos da mão ele pressionou na minha musculatura e paralisou metade do meu braço. A dor fora tremenda, arqueei meu corpo sentindo como se perfuraram abaixo da minha clavícula abruptamente com extrema precisão e força. Não conseguia conter meu grunhido de dor.

— O que… o que você fez comigo?

— Paralisia de três pontos, princesa — ele me agarra pelo pescoço. Observa-me nos olhos e me joga contra o chão, rachando de imediato. — Ainda falta coisa para lhe ensinarem.

Minha mão esquerda não podia me livrar sozinha daquela imobilização, me senti contida e imaginei que seria assim que animais abatidos em caça se sentiam, tão vulneráveis. Minha respiração é bloqueada parcialmente sentindo a pressão na garganta enquanto vejo O Carniceiro carregar sua outra mão com um punhado de Praga para me contaminar e pegar meu sangue em seguida. A mão espalmada já ansiosa para tocar meu rosto. Meus olhos fitam sua mão, o medo toma conta de mim contorcendo meu corpo dando a falsa esperança de que irei me libertar das garras daquele monstro. Mas não, não me libertei, apenas vi meus últimos segundos de vida antes de ser levada embora. Meu olho esquerdo voltou a arder depois de muito tempo, a esclera se enegreceu, o chão começou a vibrar tirando a estabilidade de Merovak. Provavelmente invoquei magia sem perceber. Ainda assim ele não largou meu pescoço.

— Ora — ele diz, surpreso. —, ela tem seus truques.

De longe, galhos são quebrados, arbustos remexidos e folhas farfalham, ouço pegadas pesadas vindo em nossa direção e meus olhos viram na direção do que quer que estivesse vindo. Para nossa surpresa um urso atacou, pulou socando sua pata gigante no vilão que voou, caiu próximo das árvores.

Tudo aconteceu rápido.

No instante que senti alívio no pescoço, o urso rugiu antes de me agarrar pela boca e fugir. Ele não quer me fazer mal, é nítido pela pressão da sua boca contra meu corpo, ele veio me salvar? Mas de onde ele veio? Minhas forças estavam se recuperando e meu braço ainda estava paralisado, molenga como macarrão. Chacoalhando mais e mais. Quase saindo da floresta, ergo minha cabeça olhando brevemente a face do urso, branco e visivelmente mágico, suas marcas na pelagem brilham deixando rastros levianos durante a corrida até que ao olhar, de cabeça para baixo, vejo algo numa das patas: o remexer embaça, contudo continuou perceptível para mim que aquilo ali é claramente um dos meus braceletes, um dos que deixei com Aurora. Será? Não tenho certeza, não até que o urso se converta, quem sabe, novamente em uma pequena garota de pele pálida e cabelos brancos. Agora ficou claro na mente quem atacou o Sir na nevasca em sua história, Aurora estava de vigia e pensou que ele seria mais um dos seja lá quem fossem. Tentou proteger sua mãe, na forma de urso do caçador e o resto já sei. Minha cabeça estava passando muitas coisas, mas agora tudo que busco é sobreviver e o urso, a Aurora, sabe disto.

“E lá ela se vai. Corra princesa! CORRA!”, berrou.

Do estabelecimento, Temporizador vem com meu cajado em mãos repetindo uma ligeira ideia de um pedido de desculpas formal, possivelmente para mim, gesticulando com tamanha falta de prática que visualmente é estranho. Suas palavras não parecem se juntar, como um quebra-cabeça grande e pequeno ao mesmo tempo. Ele balbucia em diferente tipos e jeito de frases. Ele não sabe como se desculpar, e esta é a verdade. Ele está do lado de fora procurando por mim, que estava procurando por Aurora. Que ironia. Seu discurso é cortado com a chegada de Aurora em forma de urso correndo em sua direção. Lá ele me vê em sua boca.

Aurora tirou-me da sua mandíbula e pôs-me no chão encostada na parede do estabelecimento. Seu focinho me cheirou como se tivesse vontade própria, se afastou um pouco enquanto ronronava, quase zumbindo, solta sopros enquanto se coloca em movimento constante parecendo estar ansiosa por alguma coisa, Temporizador correu para me socorrer de imediato vendo o estrago que Merovak fez com meu braço.

— O que houve? — disse o Cavaleiro Atemporal

— Ele está aqui. — Digo grunhindo de dor no braço.

Temporizador examina meu braço

Minha respiração volta ao normal, meu rosto se volta para Aurora. “Eu estou bem, garota. Eu estou bem.” Seus gestos e rosnar ainda é de preocupação.

— Aurora… — ela atente ao meu chamado. — Vamos, nós temos… temos que avisar aos outros. Depressa!

BRUM

Este fora o som do primeiro estrondo. Depois um segundo. Os pássaros tomam voo da copa das árvores que se agitam, não um simples agitar. Ah não. É algo pior, as árvores chacoalham até o tronco sendo movidas por uma força maior como se estivessem sendo empurradas. O som de galhos e madeira estalando chegam em nossos ouvidos, tocos se contorcendo ao longe indicando que algo se aproxima, grande e feroz.

Temporizador fitou a aproximação do que quer que aquilo fosse. Fiquei com falta de ar de repente, garganta seca. Após uns segundos o terror nos saudou com uma explosão para fora da floresta. Uma explosão da Praga. Faminta e veloz ela consume a grama rala e sem cor serpenteando o chão com seus tentáculos púrpuros salpicados de tom vermelho-alaranjado, ferrugem. O chão deformou e tremeu. Temporizador se desesperou e mandou ir para dentro. Correu brevemente para minha frente e conjurou um feitiço, uma meia-redoma quase do tamanho da Estalagem do Burrico, o dourado contrastou com o roxo que não atravessou a proteção, entretanto está empurrando de pouco a pouco Temporizador para trás. Ele não irá aguentar.

O estrondo fora mais alto que qualquer rugido, alguns foram para fora da Estalagem dando meia-volta para ver o ocorrido. Lá a praga está se esforçando para quebrar a defesa. A ameaça é tamanha que os vendedores do Comércio Balinith começaram a fugir, uns teleportam e outros simplesmente largam sua mercadoria prezando a própria vida. Clientes fizeram o mesmo.

N’Burgo está entre os que saíram para fora ver o que houve. Shaw invocou sua espada. Erik suspirou e num gole só terminou a bebida que ele debateu com Shaw mais cedo e correu para ajudar Temporizador.

De repente, a pressão parou. A praga parou de se espalhar depois de ter chegado em uma ou duas barracas com sua extensão. Temporizador ergueu o rosto e evaporou aos poucos o escudo dourado. Está parada, imóvel. Como? A praga está sempre em movimento mesmo que em um ritmo lento como um caracol. Não faz sentido a menos…

— Vejam! — disse uma voz vinda do alto. Lá estava Merovak na ponta mais alta da Estalagem. — Testemunhem a falta de visão dos que fogem perante a mudança inevitável, a mudança para a perfeição. Sem mentiras e segredos, um mundo no qual não terão mais medo.

Ele estende os braços na direção das tendas e de algumas poucas pessoas que foram contaminadas. Ele continuou:

— E para os sobreviventes… — ele espalmou uma das mãos na altura do peito. — Testemunhem seu destino ir buscá-los.

A Praga se mostrou instável. Espirrou poros e zapeou alguns raios em suas extremidades pontudas dando vida a seres, seres feitos da própria matéria que compõe a Praga. Apenas com o movimento de Merovak, deu-se vida a estas criaturas. Ele a controla…, como ele a controla? DE início pensei que ele era apenas um receptor, uma linha se saída apenas para que a praga se espalhasse mais. Estive enganada com minhas suposições este tempo todo. O resto dos clientes saíram para fora e se apavoraram com o ambiente em caos. Seus olhos se viram na mesma direção que os nossos, para o inimigo, para aqueles monstros sem vida e cristalizados. Temporizador se colocou em minha frente como se dissesse que ele me protegerá enquanto minha condição for debilitante. Aurora também se colocou pronta para o combate assim como o resto.

— Guerreiros! — alguém berrou com veemência. — A postos. Este é nosso local de descanso, nosso pedaço! Vamos mostrar a estes pedaços de vidro do que os aventureiros são capazes!

Temporizador mandou ir para dentro da estalagem e me esconder e para Aurora cuidar de mim. Tentar argumentar com ele foi em vão. Aurora ruge e bufa. Mesmo com meu braço debilitado, não pude apenas ficar vendo, preciso ir ajudar. Ali perto está meu cajado largado que Temporizador tinha intenção de me devolver. Pego com minha mão boa e me preparo para batalha.

— Vamos Aurora — faço uma tipoia improvisada para o outro braço. — Eles precisam de nós!

Guerreiros brandem suas armas, feiticeiros zapeiam com a manipulação de tipos de magia específicas cuja faíscas espocam de seus dedos em movimento padronizado com as mãos. Alguns outros aventureiros agem em conjunto e trabalham tão bem que parecem apenas um! Olho para Shaw e Erik, vejo-os se debater com o inimigo para trabalhar coordenadamente… Que grande decepção eu vi. Senti um entristecimento e inveja pela maioria em comparação a nós, deveríamos estar como eles também e trabalhando como equipe, como um. Chego ajudando um aventureiro de estatura pouco mais baixa, sua espada fora jogada de sua mão e zapeio o rosto de vidro e deformado do adversário. Ele me agradece. Isto me tira um genuíno sorriso tímido. Aurora procura proteger a mim o máximo que pode. Mas de surpresa um monstro de vidro pula em mim: os dentes serrilhados, afiados, boca circular como um triturador desejam escamar meu rosto como um peixe, o cajado é a única coisa que o impede disso. Mais uma vez meu olho esquerdo arde.

— Minha nossa, garota! Saio por um tempo e as coisas estão assim? — Sombra surge, o espanto é evidente na sua voz.

— Eu… Eu não fiz nada! Será que dá para me ajudar?!

— Abra bem os olhos! — Sombra diz quase berrando em meu ouvido.

— O que!

— Faça até eles arderem. Agora!

Um feixe é invocado dos meus olhos, um laser como no Dia da Criação. Já fazia tempo. Assim que o feixe vermelho acerta o inimigo, ele chacoalha a cabeça, meus dentes cerram e ele cai do meu lado. Pisco esperando, brevemente, a ardência sumir. A cabeça está derretida, a Praga derretida feito lava, espalhando-se pelo chão tornando aquele pedaço, agora, infértil, assim como outros cantos que ela já atingiu. Que monstruosidade…

— Então é assim que ela funciona… — arfo, sem acreditar que aprendi a controlar um poder sem precisar do cajado.

Temporizador está enfrentando os maiores, os pesos pesados e, para ele, não parecia tão simples, aquilo rivaliza com vidro temperado, forte, rígido, mas não impossível de quebrar. Ele vê-me no meio da confusão buscando ajudar quem posso. Sua distração custou sua vantagem e por muito pouco ele não fora jogado no chão com os braços gigantes do seu adversário, o Cavaleiro Atemporal conseguiu segurar aqueles punhos no extremo reflexo ao virar seu rosto novamente. A pressão do golpe, pouco acima dos ombros, afundou a base dos seus pés em milímetros achando o chão com as mãos gigantes e cerradas do adversário tremendo enquanto aplica força para o esmagar. Mais e mais. Temporizador sente o chão ceder aos poucos à pressão e se não agisse isto o desestabilizaria e isso custaria sua vida depois, quem sabe. Em pouco movimentos, ele o atrai e cabeceia no seu crâneo de vidro cujo choque o cambaleou até cair para trás tombando e levantando uma poeira no ar.

Temporizador avista alguns dos vendedores que não fugiram a tempo sendo vitimados pelas criaturas, eles apontam alguns de seus itens como uma possível arma contra seu inimigo, uma espada, um talismã e um livro talvez. O Cavaleiro não ficou parado, investiu na direção deles e acabou rapidamente com a ameaça, mais fácil do que o inimigo anterior certamente, contudo não é o último. Assim como eu ele brandiu a mão nas costas como se procurasse sua suposta arma, mas não há nada ali. Ele está surpreso, mas não abalado, pois, parecia já ter previsto essa possibilidade. Estalou os dedos, cerrou os punhos e voltou para luta.

Parecia não ter fim aqueles monstros e certamente poderiam vir mais caso eu pensasse alto. Mantive este meu pensamento inocente em mente por ler tantas histórias épicas e sempre piorar depois que os protagonistas falam algo do tipo. Segui meu caminho salvando aqueles que se mostravam quase mortos em campo, alguns gentis e outros rudes, como o caso daquele Tourino. Ele observou-me impressionado, com olhos vidrados, boquiaberto. Entreguei a ele seu machado gigante e ele retornou à luta.

Merovak vê o confronto, as investidas e a descoberta de como derrotar seus lacaios. Cansou-se daquilo, desceu aterrissando brutalmente no chão, da poeira ele marcha linearmente derrotando aqueles que cruzam seu caminho com um único golpe — Shaw e Erik foram incapacitados —, ele brande sua arma, e espanta os outros a sua volta mirando em apenas uma pessoa. A pessoa na qual ele persegue e deseja matar mais que o resto de Ecor. Eu.

Temporizador avistou o perigo.

Merovak invoca uma magia atirando raios da ponta de sua espada na minha direção, instintivamente bloqueio em saber como com o cajado em mãos. Talvez seja um novo modo que aprendi por pura sorte. O raio vermelho é forte, denso, tão denso que escorre magia bruta no chão como respingos queimando a grama rala. Desta vez o inimigo investiu, senti um leve atordoar e fiquei de joelhos por um instante e este fora a brecha que O Carniceiro precisava, saltou e lançou a ponta da espada na minha direção. Um braço surgiu na minha frente, grande e robusto, Temporizador se opôs ao ataque usando a armadura envolvendo seu braço como um escudo. Inteligente. O confronto iniciou, rapidamente Merovak se move com rapidez, fluidez; Temporizador se move com brutalidade, rispidez. Ele mal toca em Merovak, que desvia dos punhos massivos do Cavaleiro Atemporal e bloqueia com sua espada ataques diretos. O confronto irritou o Cavaleiro, avançou com força seu punho arrastando todo o ar e acertando o nada. Porém, o golpe criou uma onda de choque cujo movimento trouxe o ar junto e empurrou Merovak para trás alguns poucos metros. O tilintar das adagas do inimigo soou pelos nossos ouvidos, registramos Temproizador quebrar algumas das adagas do Carniceiro apenas com a onda de choque criada pelo ar de seus punhos. Quão forte ele realmente é? Se o momento não fosse de urgência minha mente desenvolveria diversas teorias e comparações com heróis extremamente fortes conhecidos das histórias, heróis que ergueram morros, pedaços de muralhas e que criaram enormes crateras.

— Exibido… — Merovak debochou ao recuperar-se, arfando. — Minha espada não atravessou sua armadura. Me pergunto como é possível, a menos que você tenha… Ah Temporizador, que sagaz. Me dá a garota e vocês… bem ficam livres e voltem a fazer seja lá o que estivessem fazendo com suas vidas pífias

— Saia. Último aviso — eles se encaram. — Não irei repetir.

Merovak, mediante à ameaça, estala o pescoço e firma as mãos.

— Nem eu.

De supetão, Merovak apareceu num estalo na nossa frente e laçou um golpe com sua espada encantada de magia negra, um devastador e fatal. Temporizador caiu ao meu lado, incapacitado. Temporizador, um grandioso homem e Cavaleiro, vi-o cair para um vilão desses com um golpe fatal. O desespero emanou de nós, metade do trabalho estava feito, agora o batedor terminará sua caça, certamente, o resto será apenas diversão para ele. Será assim que a história acabará para mim?

—Não… Não pode ser — vi Temporizador desacordado.

— Sua vez — ele avançou contra mim.

Onde estaria Sombra neste momento? Ela sempre sabe o que fazer para me salvar, para me manter na linha com seu jeito irônico e calmo. Estou sozinha, não é? Dando meus últimos suspiros para ser uma aventureira como meus heróis, tentando ser como eles; protegendo-os como posso e com um braço a menos, mas não será mais o suficiente, não é? Suas investidas é tão rápida que não tive tempo de reação, meu suspiro e piscar de olhos foram automáticos antes da sua espada vir cortar-me bem no peito. Ela vem de cima, brilhante e emanando magia negra enquanto parecia ansiar por morte como se fosse uma vontade dela, até que…

Fim da leitura

Capítulo 20 concluído

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