Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder — Capítulo 19: Volume 1 – A Estalagem do Cabrito

Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder
Cap. 19
0%
Ecor: O Cavaleiro Atemporal e os Objetos de Poder

Volume 1 – A Estalagem do Cabrito

Capítulo 19

4.765 palavras~21 min de leitura

Bardos são conhecidos por suas composições e canções geralmente marcantes de aventuras e lendas perdidas, no Comércio Balinith é comum os ver compor, vocalizar e cantarolar para viajantes que buscam melodias para acalmar os ânimos. O elfo bardo estava perto da tenda que adquiri meu livro de combate, ele locuciona canções de eras passadas para o tempo atual. Sua altura ligeiramente baixa é compensada pela voz chamativa.

— Ó aventureiros distantes, pessoas distantes. Aproximem-se, acomodem nesta chama próxima enquanto a noite há de chegar e relaxem seus ouvidos com minhas canções. — Ele brandiu os dedos nas cordas rapidamente. Suas vestes quase impressionam a clientela com o couro importado do Norte e a boina caída com a pena na lateral.

O druida, que antes cantava devido a excesso de consumo de álcool, também estava ali perto para ouvir a canção. Não havia muitos, apenas o suficiente para que a canção fosse ouvida e prestigiada no fim. Cheguei perto o suficiente para escutar sua voz, como foi-me dito preciso evitar atenção indesejada. O livro permanecia grudado nos meus braços na mesma posição de antes, Erik retornou para com os outros e avisei que logo me juntaria também. O bardo tomou para si o sentimento de liderança e colocou seu alaúde para tocar enquanto citava uma canção; canção esta que eu desconhecia, já ouvira muitas dos que já puseram os pés no reino, todavia a política de censura os impedia de cantar as suas melhores. Felizmente, aqui sua língua é livre.

— Ouçam os que se mostram atentos e vislumbrem os que se dizem ter fé — ele brandiu com força por um momento. Então, sua canção iniciou melancolicamente.

Tempos de trevas estão a chegar, criaturas ferozes virão de todo lugar!

Pela Mão dos Deuses, soterrado no mundo ele ficou, mas seu arauto da fome retornou.

Ai de nós, ai do mundo, se ele regressar!

E pela fome e desprezo o mundo será consumido.

Oh, mas não temam nobres presentes! Sabem a quem recorrer.

De espírito bondoso e olhos esperançosos, nunca há de perecer.

Para os confins do inferno a Ira dos Deuses há de retornar quando a força de Holocrom ele encarar!

Sua morte fora apenas um deslize.

Para que um novo ativo retorne e do caos nos amenize…

Quando a canção acabou eu estava entre os ouvintes, como mais uma entre eles. A música cessou e as palmas surgiram, o bardo inclinou mostrando gratidão retirando sua boina. Todos se maravilharam, mas eu ne intriguei: o que era Holocrom?

Após a apresentação, o bardo sentou-se num tronco ali perto afinando seu instrumento como de costume. Aproveitei e consegui sua atenção, evitando chegar muito próxima para que ele não me conheça. Elogiei a canção e dialoguei sobre o significado e questionei a quem exatamente ele se referia como Holocrom.

— É brincadeira, não? — ele ri; logo percebe que falo sério. Ele pigarreia e continua: — Bom, me refiro ao nosso protetor. O grande Holocrom! — ele dizia com orgulho na voz. O elfo retirou dos bolsos internos da jaqueta um broche dourado, meio oxidado pelo tempo— O Mestre do Misticismo.

Pego seu broche observando o semblante moldado, braços abertos como sinal de boa vinda e acolhimento, pés juntos e cabeça elevada. Detrás uma gigante aureola com enorme estrela com as pontas cruzando para fora. As escrituras ao redor da aureola estão, agora, ilegíveis, porém nítidas que são alguma espécie de runa. Devolvi o broche em seguida.

— É bem bonito. — Comento.

— Infelizmente ele não é visto tem muito tempo. — disse guardando o velho broche. — Nenhuma nação viu sua presença novamente. Ou se quer deu um sinal. Mas cá entre nós eu acredito que ele voltou…

— Oh… o que o faz pensar isso? — comecei a sussurrar junto a ele.

Ele sinaliza para chegar mais perto.

— O gigante da montanha se movimentou. E dizem por aí que o despertar da Praga é um presságio de que ele logo se revelará. Ou ela.

— Ela?

— Sim! — ele afirmou em tom normal, novamente. — Holocrom pode ser qualquer um. Ele é escolhido e na sua morte, seu espírito escolhe outro para seguir seu legado e proteger os Objetos de Poder das mãos d’A Ira dos Deuses.

— Quer dizer, das mãos de Acrônim…

— SSSHHHH! — ele também sinaliza com a mão. — Não fala este nome! Ele ainda pode ouvi-lo.

Seu corpo mostrou medo, um genuíno medo a ponto de olhar suas laterais como precaução. Relatou ele que usam outros modos se se referir à criatura por medo de, ao recitarem seu nome, serem amaldiçoadas e mortas no retorno dele. É complicado imaginar as monstruosidades que tal monstro maquiavélico fez eras atrás a ponto de um elfo como este de borrar quase que apenas com sua própria sombra ao recitar o nome d’A Ira dos Deuses, elfos são conhecidos por sua audácia contra o inimigo e sua coragem quase inabalável. Pelo visto não é o caso deste aqui. Suas mãos pareciam tremelicar e sua testa começou a expelir suor cujo nervosismo ficou nítido nos olhos assim que notei.

Ele olhou para a floresta, meu rosto se vira também com meus olhos curiosos procuro o que exatamente ele estava vendo lá dentro, talvez uma sombra, um vulto? Algo chamava sua atenção, agora a minha também para o vazio entre os arbustos no horizonte da nossa visão.

— Tome cuidado, há perigos nestas sombras tão vis que nem mesmo Ecor conseguirá mantê-la longe, princesa.

Princesa? Não havia mencionado que eu era princesa, como ele adivinhou?

— O-o quê?… E-eu não sou uma…

— Tudo bem, princesa. Não vou contar a ninguém. Elfos tem olhos astutos. Lembre-se disso.

Despediu-se e vagou para dentro do comércio.

A barraca que Temporizador permaneceu o atendeu, um robusto homem de capacete de ferreiro saiu das sombras limpando as mãos grossas. Ele vestia apenas um avental acinzentado quase como se quisesse exaltar sua volumosa barriga, sua calça tão suja que mal sabe-se direito qual sua cor original. As botas com solas desgastadas se tornaram parte da vestimenta tradicional de trabalho deste vendedor. Limpou o que conseguiu dos dedos e jogou o lenço em algum canto da sua estalagem. Ele balbuciava algo sobre o que havia nos estoques até que, então, avistou Temporizador na bancada. As saudações foram recíprocas, mas o vendedor com mais entonação e ânimo na voz. Suas mãos direitas esticaram e as mãos tocaram um no pulso do outro causando uma palma.

— Bull. É bom revê-lo. — Temporizador cumprimentou-o ao chacoalhar o braço.

— Heh! Não sei se fico animado ou irritado ao te ver. Sabe que sempre me traz coisas interessantes. Ao mesmo tempo que nunca traz problemas para minha humilde instalação de venda — ele cruzou os braços após o sarcasmo, inclina a cabeça esperando seu amigo explicar a situação da vez.

Shaw mostrou-se presente por um instante, apenas. Bull o cumprimentou com continência de dois dedos.

— Que o traz aqui desta vez?

Temporizador empurrou levemente o tecido embrulhado na direção de Bull. Desconfiado ele agarrou o embrulho, colocou na mão direita e grunhiu enquanto abria delicadamente com a mão esquerda. Está leve e isto se tornou sua primeira suspeita, ele tem uma grande reputação a zelar e desconfiar do que trazem a ele é do costume de todo vendedor. Quando a última ponta do tecido revelou a bala, Bull estremeceu. Fechou a mão com a bala e inclinou para Temporizador.

— O que é isso? — rosnou. — O que deu em você trazer isto na minha estalagem?

— Bull escute… — Temporizador levantou brevemente as mãos como se pedissem para que ele se acalmasse.

— Sabe o que aconteceria se autoridades vissem esta atrocidade?

Bull mostrou novamente a bala. Ele procurava esconder de outros. Temporizador precisava explicar para seu companheiro vendedor, mas sua superstição estava maior que sua razão e viu a bala como mau presságio. Conhecendo-o, logo ele ficará paranoico e expulsará o Cavaleiro de sua tenda como já ocorreu. Em meio balbucio Temporizador o agarrou pelos braços quase o tirando do chão do outro lado do balcão, sacudiu-o, mandou se calar e ouvir o que ele tinha a dizer.

— Agora se acalme e me escute. — Ele o devolveu para o chão firme. — Preciso que me diga onde que isto pode ter sido forjado. Não vou vender a você, sei como o Conselho o perseguiria por portar este tipo de coisa, mas preciso que verifique sua composição para achar de onde veio esses minerais. — O Cavaleiro Atemporal pegou a bala e entrou nas mãos de Bull. — O recompensarei pelo incômodo assim que o trabalho for feito. Peço apenas isto, meu amigo.

A mão de Bull hesitou por um breve instante. Pegou a bala e levou para dentro de sua tenda, disse que daria a resposta apenas mais tarde. Temporizador sentiu alívio, os ombros flexionados relaxam junto com o suspiro de alívio. Teve sorte de convencê-lo a ajudar, ele precisa saber de onde veio a bala, e Bull é o único que poderá responder com seu maquinário buscando dentro da própria composição da bala. Agora deverão esperar. Temporizador olhou para Shaw, ele percebe o que seu olhar quer dizer e sim ele também espera que Bull consiga achar a origem do mineral para que seus objetivos continuem. Será de grande ajuda.

Erik comenta sobre o lugar, comenta sobre as tendas e suas vendas, sobre as pessoas que buscam se reunir em um lugar que, ao mesmo tempo em que sabem que é de má índole é o mais seguro e conhecido. Um lugar onde podem relaxar por uns momentos antes de retornar à batalha no dia seguinte e fazer a diferença e proteger os seus. Erik está contente, seu rosto mostra um sorriso e um conforto que, ao que pareceu, não sentia a um tempo. De braços cruzados ele caminha junto ao Cavaleiro e Shaw. Temporizador indaga onde estou, Erik aponta para mina direção: dentro duma pequena multidão ao redor da fogueira ouvindo histórias de viajantes.

— Ayla...! — o Cavaleiro Atemporal tentou chamar a mim, Erik interveio cortando sua vontade.

— Opa, calma grandão. — Erik colocou-se na frente. — Olha eu sei que você está preocupado com o que pode acontecer se a reconhecerem, mas ela precisa viver um pouco. Viver o mundo aqui fora.

O corpo inclinado de Temporizador recuou, ponderou por uns instantes, inclina a cabeça levemente e seu rosto vira para a direção do seu outro companheiro, Shaw, como se esperasse por sua opinião também. Shaw suspirou e respondeu com braços cruzados:

— Bom... ela sempre quis ser aventureira, não?

Temporizador bufa.

— Sei que quer proteger ela, mas ela está certa em querer um treino mais árduo do que Shaw já ensina a ela. O Carniceiro ainda nos persegue, lembra?

Pelo visto foram dois votos a um, seus ombros soltam a tensão escondida: “Apenas chamem-na para que ela venha comer algo conosco.”

Fizeram bem me chamar para juntar-me a eles, meu estômago já não aguentava mais e as frutinhas de antes não faziam mais efeito como de início. Temporizador abrira a porta com sua grande mão enquanto o braço mantém a porta aberta para nossa passagem. Ele é o último a entrar.

— Acho que posso riscar mais outra coisa da minha lista de locais para se visitar… — um sorriso de canto se formava com meu rosto estupefado.

Da porta do salão permaneci por poucos instantes, mas para mim pareceu algumas horas ao vislumbrar o salão no interior da taberna que acompanha o Comércio Balinith, a melodia tocada por músicos amadores acolchoava a sensação de boas-vindas, o som é animador e convidativo, mas simples. Três pessoas no palco pequeno cujos instrumentos repercutiam para os ouvidos de clientes quase até o andar de cima se embebedando, conversando, apostando e brigando. Canecas voando, risos de fundo e o cheiro nada agradável de comida boa e vômito vindo dos banheiros maltrapilhos. Meu sorriso se mostrou tímido, mas exposto, pois sempre quis entrar numa taberna e me sentir como nas histórias em que os companheiros se reuniam pós-batalhas vencidas para embebedar uns aos outros e aproveitar a vida até não se lembrarem direito do que houve.

— Cuidado com a cabeça. — Alertou Temporizador, agarrando uma das canecas voadoras com um reflexo impressionante. Ele a deixa na mesa mais próxima. Senti-me vislumbrada, ao mesmo tempo horrorizada.

— Parem ai! — gritou alguém.

Vem-se lá um anão, barbudo e cheio de marra, aparentemente, puxando o grande cinto como se isso quisesse dizer algo para nós. Claramente não entendi o que ele quis dizer com isso. Deu tropeços e parou em nossa frente como um segurança que retorna para o seu posto, percebemos, de imediato, que o álcool estava começando a surgir efeito nele. Ele funga o nariz com um dos dedos gordos o coçando a ponta do nariz.

— Alto lá! — recitou com sua voz grossa e desdenhosa. — Quem são vocês? — perguntou com as mãos fechadas na cintura.

Suas roupas sujas pareciam jamais ter tocado numa água, camisa grossa coberta por escamas de ferro e ombreiras de ferro e ouro desgastadas e arranhadas. Claramente não é um guerreiro, suas mãos estão com luvas cuja ponta dos dedos desgastou o couro e sua cor marrom.

Mais uma vez ele ajeita o cinturão com suas ferramentas e bolsas nele, sua base nos pés, separados, mostra que ele queria mostrar sua autoridade, sapatos com as pontas dos calçados cobertos por aço Silvinan, um metal extremamente resistente encontrado apenas nas Terras Baldias. Não, este não é um guerreiro.

Tomei a frente e falei:

— Eu me chamo… Ayla! Me chamo Ayla. E este é meu grupo, somos aventur-

— Tá, tá, tanto faz. Meu nome é N’Burgo! — ele me corta. — Saúdo-vos no nosso estabelecimento. Puxem um banco ou uma cadeira. — N’Burgo guiou-nos para sua mesa. A hospitalidade do anão é grosseira e amigável ao mesmo tempo. — Em nome da Estalagem do Cabrito, dou as boas-vindas.

— Estalagem do Cabrito? — Erik comenta.

Em seguida, eu comentei:

— Mas pensei que o nome era…

— Não, não, garota. Eles criam diversos nomes para esta espelunca porque eles não aprovam o real nome daqui. — N’Burgo se esforçou para sentar-se de volta no banco alto. Jogou seus braços na mesa como antes estava e agarrou prontamente seu copo de bebida. Juntamo-nos à mesa circular com ele. Junto a ele uma pessoa, de cabelo longo, ruivo escuro, suas roupas são escuras — sujas e com cores parecendo ser do Sul — com alça vertical para uma possível espada. Estava de cabeça baixa para mesa, com rosto escondido e os braços rodeando sua cabeça. Ao lado estava com um copo de bebida cuja espuma tocava a mesa sinalizando que não fora tomado totalmente, ou se quer foi tomado direito. Quantos será que essa pessoa bebeu?

Arredamos nossas cadeiras com intenções nobres ali, alguns olhavam com desdém para nós, isto me preocupava levemente, claro, eles podem não estar muito acostumado com rostos novos por ali. Tomei a liberdade de pedir algo para tomarmos enquanto ali na Estalagem, minha fome estava gigante como a de um urso. O anão grunhiu e soltou um soluço após beber de forma deliberada; a espuma se alastrava por algumas partes de sua barba. Largou suas luvas na mesa e estalou os dedos. Jogou seu olhar para nós, com desconfiança, e maneou a cabeça levantando uma das sobrancelhas, intrigado.

— Digam, viajantes… o que os traz ao Comércio? — ele inclinou levemente para nós.

— Bom, achamos o local aconchegante — Erik falou com sarcasmo. Shaw bateu em seu ombro com o cotovelo, simbolizando para não falar besteira.

Tomei a fala, então.

— Nós viemos buscando… bom, informações.

Temporizador permaneceu calado.

N’Burgo parou seu movimento de dar mais um gole. Levemente aterrissou o copo de madeira com aros de ferro na mesa forrada de madeira.

— Informações são uma mercadoria valiosa e cara, pequena garota. Sua sorte estar no lugar com mais informações da parte central do Sul. Busca trabalho? Informação de locais para um resgate?

Sua intrigante curiosidade poderia nos ser útil, mas ao mesmo tempo em que dissermos nossas intenções ele poderia virar as caras, pois, aqui no Comércio Balinith ninguém pode ser confiável. Isto inclui o anão. Seu modo educado ao nos receber fora guardado com sua grosseria para conosco, mas ainda assim dispôs a sua mesa para nós. Imaginei que seria diferente a recepção na minha primeira vez, algo como nos livros que já li: “Os aventureiros pisam os pés na taberna, os olhares de todos formam a pior recepção que já receberam enquanto cruzam o local para uma mesa isolada, um dos clientes chega perto deles e os alerta que não costumam ser muito receptivos a novas pessoas como se buscasse briga para com os heróis.”

Mantive, pois, a descrição como antes dito.

— Estamos atrás de um mineral para... um trabalho. Pensamos que aqui é o melhor lugar para se ter informações de onde achar.

N’Burgo pensou, cutucava as unhas tirando o sujo debaixo delas como se buscasse as palavras certas para nos responder.

— Oras oras, heh… Por que este mineral é tão importante afinal? Já falaram com Bull sobre isto? Há muitas cavernas que podem conter o que procuram. Acreditem, sou um minerador. — N’Burgo bateu no peito com orgulho e engoliu os últimos goles de cerveja.

Finalmente nossos pedidos chegaram.

Após alguns momentos de conversa, bebida e comida descobrimos que N’Burgo trabalha minerando a mais tempo que ele mesmo pode dizer, minas de carvão, minhas de minérios, escavações... provavelmente ele é mais habilidoso com equipamentos do que com palavras. Encostado na mesa está seu equipamento de mineração forjado para vibrar e quebrar rochas e outras estruturas, se parece com um martelo, gigante, quase como um martelo de guerra. Na minha visão parecia um martelo de guerra. Sua mochila veluda de cotelê tem sua cor verde desgastada na base pela sujeita salpicada de restos de poeira e grãos de pedra. Há quase tudo que eu tenho na minha mochila. N’Burgo busca ser gentil nas palavras, mas sua natureza de ser escavador transparece sua arrogância leve mesmo querendo ser engraçado, ri zombando de meu aprendizado lento e que seu filho provavelmente já estaria bem mais avançado do que eu. Resmunguei baixo comigo mesma, busquei não relevar minha angústia mesmo com uma pálpebra dos meus olhos sob um tique nervoso de estresse.

— Rapazes, deveriam estar ensinando a moça o verdadeiro aprendizado da batalha, não ensinando ela a cutucar o inimigo com uma vareta! — ele ri novamente. O Álcool o consumiu. Seu nariz é vermelho e a ponta dos ouvidos também.

Busquei, pois, acalmar-me com suas brincadeiras. Shaw o olhava com discrepância, Erik apenas devorava o resto da minha comida enquanto nos observava, em especial N’Burgo.

— Garota, se quiser mesmo aprender a lutar, precisa de profissionais. Os verdadeiros mestres! — ele escondeu o soluço.

— Como você? — retruquei.

N’Burgo largou o copo.

— É claro — ele apertou os músculos dos braços e completou: — Olha só essas belezinhas aqui. Humf. Força a ponto de carregar uma carroça de suplementos.

Fitar aqueles músculos suados e pequenos se tornou o mesmo que olhar um coco recebendo pressão para rachar e abrir. Senti um arrepio rápido pelo corpo.

— Veja só — ele diz. — Esse seu treinamentozinho não pode lhe dar estes músculos de aço, pode? — ele fez outra pode, se exibindo.

Mal sabe ele que posso carregar um golem.

Temporizador aterrissou sua mão no meu ombro percebendo o desconforto interno em mim. Entendi como um chamado e virei no instante seguinte para ele esperando algo como uma desculpa para sairmos de perto do anão, mas minha chama de esperança se apagou parcialmente. Ele comenta comigo para que eu vá para o pequeno local no fundo da Estalagem do Cabrito, numa alcova quase isolada.

— Mas porque é para eu ir lá?

— Bom, imagino que sua mãe esteja com saudades de você, não? Talvez uma carta a deixe mais calma. Tanto ela quanto você.

Ele tem razão, desde que fora dito-me que fui exilada não teria como visitar minha mãe pessoalmente. Admito que também me senti apreensiva imaginando como minha mãe, a rainha, estaria com a decisão do conselho, uma carta, de fato, deverá acalmá-la sobre meu estado e treinamento. Olhei para Temporizador confusa, inicialmente, porém dei-o uma última olhada decisiva de ir escrever a carta. No caminho fui pensando no que escrever, estalo os dedos, nervosa, e meus olhos levemente caídos olhavam para um suposto horizonte que minha mente imaginou apenas para colocar-me em pensamento do que realmente escrever; passos lentos e calmos fazia com que tivesse mais tempo, porém mais distraída, num momento quase bato com um Tourino — um híbrido de touro, da cabeça até o abdômen, com cervo, da cintura para baixo.

Ele desvia de mim por pouco. Ergue o braço para ver minha pequinês em comparação a ele, ele fungou para mim com seu rosto enrugado, senti o ar expelido de sua narina bater no meu rosto. Ele veste um kilt verde com listras vermelhas escuras e uma bandoleira que cruza seu robusto corpo. Ele é da raça animalesca, na qual eles se reproduzem entre diversos tipos de espécies para sobrevivência de sua aldeia, decidindo o mais forte para liderar. Mas, este Tourino tirou-me umas risadas ao ver sua barriga de pochete.

Segui meu caminho atentamente desta vez.

Na mesa, sentei-me de frente para outro que escrevia alguma carta, de cabeça baixa e com a mão rápida no papel e pena — para minha surpresa aqui eles ainda usam pena e tinta. Na parede há pequenos nichos com a arquitetura parecendo ser para pombos usarem de ninho, mas não havia nenhum. Na mesa, encostado na parede, um pequeno kit organizador de escritório com pequenos papéis, duas penas e uma tinta que aparentemente não acabava e o redor do vidro com melado, seco. Ao lado os envelopes para selar e enviar, no meio uma lâmpada incandescente de luz mediana. Quem diria. Ao começar a escrever me senti como nos filmes de cristal antigos que mamãe colocava para nós assistir, com os heróis escrevendo sua carta de despedida para sua amada antes do confronto final com o vilão. Minha formulação sobre o que dizer eram certas, mas nunca cheguei a enviar uma carta para alguém, de repente me senti num empasse. Como se envia a carta? Não há mais pombos correios há décadas e nunca soube como se faz agora, minhas mãos pararam de escrever assim que apertei os lábios ao notar este fato. Não queria voltar até Temporizador e dizer que não sei enviar a carta mesmo com meus olhos tendo o procurado com uma interna busca de socorro, tomei coragem e perguntei ao rapaz à frente.

— Psst! Ei... — falei baixo. Ele me olhou de canto — Oi… Você sabe como enviar carta?

Ele me olhou confuso, apertou a sobrancelha e estreitou os olhos.

— Sei — ele diz, desconfiado. — …você não sabe?…

Me pegou.

— Pfff, não…, é claro que eu sei. Hehe… Foi só uma pergunta boba. — Gesticulei com a mão como se estivesse abanando algo no ar.

Ele fitou-me mais uns segundos. Com vergonha, volto ao papel e finjo ainda estar escrevendo. Após uns segundos o rapaz envelopou sua carta, aproximou-se dos nichos e colocou um dentro deles suavemente. Seu rosto também seguiu o caminho parecido, sussurrou o nome de alguém e se afastou. Observei atentamente como uma mera estudante em uma aula experimental que necessitava de alto foco. O papel chacoalhou e implodiu com a magia consumindo-o rapidamente, pequenas faíscas salpicadas de brilho laranja quase florescente se moveram de forma sinuosa pela base. Surge um brilho na base daquele pequeno nicho, mais tarde soube que isto significava que a carta estava a caminho e assim que ela sumir a carta haverá chegado ao seu destinatário. Assim que o garoto se remexeu para sair da alcova voltei minha cabeça para baixo me fingindo de idiota. Ele seguiu sua vida simples assim.

Noto a distância segura e paro de fingir, agarro um dos envelopes e o preparo com um selo de cera pouco antes reproduzir o mesmo ritual que fora feito pelo rapaz, mas meu coração arde de nervosismo imaginando que a carta poderia não chegar, que ela poderia empacar no meio do caminho. Entrega de magia nunca foi meu forte entendimento, é implícito, pois, eu mal sabia como mandar uma carta.

Após o envio continuamos na mesma mesa. Eu estava foleando algumas páginas do livro sem querer buscar algo em específico, matando o tédio. Erik prestou atenção em meu comportamento e, por sua vez, comentou em cima disto, viu ele que eu estava levemente contente. É claro que sim. Me tornei Aventureira; conheci Temporizador; vim ao Comércio Balinith e avistei vários ídolos gigantes que já pisaram em nossas terras. Protetores, magos, e diversos outros e agora consegui um livro que contém ensinamentos tão valiosos quanto um diamante.

— Não sei não, garota. — Shaw comentou. Ele toma um gole de cerveja. — Quando a esmola é muita o Santo desconfia…

— Perdão? — eu disse. Ele não percebeu, mas não entendi o que seu comentário quis dizer.

— Ah! Não liga pra ele. Se quer saber, na minha opinião, foi bom você sair daquele lugar, você logo vai avançar com seus poderes que não vai ter nada que você não possa fazer!

Erik comeu suas batatas tranquilamente, Shaw manteve sua língua, sedenta por álcool, confinada. Temporizador olhava algo nas mãos, uma bússola pequena, desgastada e usada, algumas engrenagens rolavam por detrás do vidro como um relógio. Me pergunto o que é de verdade. Bússolas não são assim. Sombra orientou para perguntar em outro momento a ele. Sombra lembrou-me, também, da pequena Aurora do lado de fora. Coitada. Deve estar faminta e não sei quantas horas permanecemos aqui dentro e seu comportamento antissocial a impedia de vir mais para perto devido aos anos na montanha, condicioná-la a socializar não será tarefa simples. Senti desespero e culpa no mesmo instante, agarrei o primeiro prato de comida que há na mesa e corri para forra dizendo que voltarei em breve. Não levei nada mais que o prato e um copo de madeira com a minha bebida — não alcoólica. Fui tão rápida que pareceu ser num estalo, passo pela porta como quem está em desespero para chegar ou sair de um lugar, desço os degraus e procuro-a aos arredores, pela faixada, perto das tendas, nas mercadorias encaixotadas nos fundos da Estalagem. Chamava pelo seu nome quase que em vão, ao certo ela estaria pelos cantos da floresta, mas a noite escura poderia a assustar e forçar procurar algum lugar mais luminoso, ou abrigo. Me arrisquei e caminhei cruzando a alta grama até as margens da entrada para a densa floresta, fora da Trilha de Prata. O escuro é dominante. Com prato e copo nas mãos, chamo Aurora na esperança de que a garota esteja onde imaginei que estivesse. Aos pés de uma árvore coloco sua janta esperando uns instantes para ela aparecer.

— Se você não vier — digo num tom leve de falsa ameaça, mas sem conseguir esconder a preocupação. —, eu vou comer sua janta!

Os barulhos de grilos e gafanhotos estridulando foram as únicas respostas que recebi, e apenas vagalumes aparecem ao meu chamado. Que baita tolice. De repente sinto algo, uma presença no fundo da floresta. Aperto minhas mãos cerradas por um instante, a respiração calma é seguida de um aperto nos lábios enquanto fito a floresta na intenção de cruzá-la. Chamo Aurora mais uma vez. Sem resposta.

Entro na floresta.

As raízes brotavam no chão dificultando minha passagem como se quisessem que eu topasse para cair de cara na grama rala, a escuridão da noite se intensificou assim que entrei, faixas de luzes cruzam em diagonal iluminando pouco do ambiente de forma natural. Os vagalumes apareciam aos poucos tornando o ambiente menos assustador, procurei aos arredores com cuidado até estar em lugar nenhum e ainda assim em algum lugar, sem saber a distância que percorri. Já não via mais o Comércio Balinith.

Meus olhos se remexem observando ao meu redor. Bufei franzindo o cenho.

— Mas que ótimo...

Senti-me perdida e não lembrava da rota que fiz. Talvez eu pudesse escalar para achar um caminho, mas as árvores são enormes e quase sem apoio para subir, pode ser uma baita queda. Mais uma vez chamo por Aurora.

— Vamos! Não estou com paciência para isso, Aurora, venha logo!

Ouço passos, galhos rachando e um vento surgindo como se quisesse me puxar. Isto me assusta, não esperava algum animal grande tão perto do Comércio, folhas de arbustos farfalhando como se houvesse algum terremoto. Recuo alguns passos. Viro-me para correr de volta ao caminho que, então, lembrei, porém o destino reservou alguns planos e bato o rosto em algo, senti a força do impacto ricochetear e me lançar para trás no mesmo instante como um mero saco de batatas quase me jogando no chão com tamanho desequilíbrio que senti. Levanto meu olhar, engulo seco e, com pavor no olhar, vejo-o… lá está ele…

— Princesa… a quanto tempo! — disse Merovak.

Fim da leitura

Capítulo 19 concluído

Volume 1 – A Estalagem do Cabrito