Extra's Descent NovelCAPÍTULO 348 - Chuva de Reflexões
Capítulo 348— O quê? —
Os olhos de Bellion se arregalaram de choque ao olhar para a tela. Havia vários cadetes, mas o foco principal era Brandon e Raven. Idealmente, já que os dois tinham feito o exame mais surpreendente.
— O que aconteceu, Marechal? — perguntou um dos oficiais presentes. Eles desconheciam os pormenores da simulação. Além disso, nenhum deles, incluindo Bellion, jamais tinha pisado dentro da Torre Dimensional real.
Porém, Bellion pelo menos tinha conhecimento do que cada andar envolvia e da ordem de cada ID da Torre.
Ele sabia como passar dos andares e as peculiaridades de cada um.
— Alguém pode trazer a lista de ordens dos IDs da Torre? — ordenou Bellion.
— Entendido. — responderam rapidamente os oficiais, que logo trabalharam e, em poucos minutos, entregaram um documento a Bellion, que permaneceu imóvel. Olhou por alguns segundos para o monitor, que exibia Brandon e Raven, e então sua atenção se voltou às folhas que segurava.
Folheando as páginas, logo chegou à página 233.
— ... —
As expressões de Bellion se desfizeram.
— O que aconteceu, Marechal? — perguntou novamente.
— A ordem está completamente errada. O andar em que eles estão não corresponde ao que deveria ser o segundo andar… — disse Bellion, franzindo a testa.
— Como assim, isso é possível? — exclamou o oficial. Era absurdo. Pensar que há tantos bugs assim.
Logo depois, Bellion cerrou os lábios.
— Suspendam a avaliação deles por agora. Trouxe-os aqui. — ordenou.
— Entendido, Grande Marechal. — responderam todos em uníssono.
Gotas de água caíam, uma chuva forte, completamente o contraste do andar anterior, que era completamente deserto.
Mas para os dois, que estavam totalmente cobertos de sangue e provavelmente com a maior sede de suas vidas, aquilo era uma bênção.
— Haaa… — suspirou Raven.
— Huu… — respondeu Brandon.
As bocas de ambos se abriram, e a água da chuva os lavou por inteiro.
Será que era seguro? Talvez não, ou talvez fosse. De qualquer forma, era uma simulação. Se eles morressem, seriam apenas retornados ao mundo real.
Estavam realmente sedentos, e era difícil continuar avançando naquele estado.
De qualquer jeito, assim que terminaram, Brandon respirou fundo, olhou ao redor.
— ... —
O céu estava bastante sombrio, com nuvens que constantemente despejavam uma chuva pesada e fria.
A chuva parecia não ter planos de parar, muito provavelmente um ambiente fixo para o andar.
Além disso…
— Hmm… — pensou Brandon.
Havia vários espelhos, todos do tamanho de um adulto, dispostos à sua frente. Brandon podia jurar que toda aquela cena lhe parecia familiar. Mas ele não conseguia remexer fundo demais na memória para se lembrar.
— O que você acha que esses espelhos são? — perguntou Raven.
Brandon olhou ao redor antes de responder.
— Por que você está perguntando a mim? —
— Porque você parece que sabe o que está acontecendo. —
— Ah, não. Não é isso. É que, por algum motivo, essa chuva… —
De repente, a chuva parecia bastante… opressora.
Toda a atmosfera parecia pesada. Mas, na verdade, essa sempre foi a sensação durante temporadas de chuva. Ainda assim, Brandon não conseguia deixar de pensar nas coisas que tentou enterrar fundo no coração.
Era especialmente difícil sabendo que Raven estava por perto.
Raven era a única razão dos pensamentos pesados em sua cabeça. A única razão pela qual ele aguentava tudo era pelo fato de poder influenciá-lo, de virar o jogo desde que tivesse impacto sobre ele.
Ba… Thump! Ba… Thump!
Naquele momento, seu coração acelerou, e ele sentiu algo preso na garganta.
— Haaa… H-haaa… —
Ficava cada vez mais difícil respirar. Brandon virou-se enquanto Raven explorava os espelhos que tinha diante de si. Pegou algo do inventário do sistema, abriu a tampinha e ingeriu várias pílulas.
— Haaa… Haaa… —
Outros instrutores poderiam estar observando. Mas isso não importava. Era problema dele.
Assim que se acalmou, Brandon respirou fundo mais uma vez e olhou para frente. Raven parecia brincar com seu próprio reflexo.
Além disso, ele acabara de notar a mensagem do sistema.
[Liberar a névoa do labirinto de reflexos.]
— ... —
'Um labirinto, hein?' — pensou Brandon.
Logo depois, Brandon se aproximou de Raven, olhou de relance os espelhos ao redor que mostravam seu reflexo.
— Encontrou alguma coisa? — perguntou.
Raven primeiro tocou na superfície do espelho com os dedos antes de responder.
— Não, mas… —
O olhar de Raven permaneceu fixo à frente.
— Este labirinto é confuso. —
— Ah? —
As sobrancelhas de Brandon se levantaram. Ele escaneou o ambiente, seus olhos passeando de espelho em espelho. Cada caminho parecia idêntico, encharcado de névoa.
— Sem marcas, sem pistas… Parece que querem que a gente adivinhe. —
Raven suspirou, passando os dedos sobre o último espelho antes de se virar para Brandon.
[Tempo restante: 18:04]
Brandons estreitou os olhos ao ver o cronômetro: 18 horas. Restavam três andares e cada um seria mais difícil que o anterior.
Mesmo assim, eles seguiriam pelo labirinto de espelhos. Quanto mais avançavam, mais forte a chuva caía.
Brandon continuava em movimento, com foco aguçado, mesmo sob a tempestade, que parecia cada vez mais intensa. A chuva batia forte contra seus ombros, e cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Mas esse não era o principal problema.
Os reflexos.
— ... —
…Eles estavam distorcendo.
Como se refletissem o fundo de sua alma, seus sentimentos escondidos, suas emoções.
Uma versão torcida de si mesmos.
Porém… Brandon não podia negar que aquilo não se aproximava nem um pouco da verdade.
Por outro lado, Raven não tinha o mesmo entendimento.
— Isso é cruel… —
As expressões de Raven se tornaram frágeis, seus olhos vasculhando os espelhos, cada um refletindo versões distorcidas de si mesmo.
A atmosfera opressiva puxava seus sentimentos tentando extrair suas inseguranças.
Brandon conseguiu ver uma dessas reflexões, Raven, que parecia triste.
— Isso tudo não é real, certo? — perguntou, virando-se para Brandon.
— ... —
Mas Brandon permaneceu em silêncio.
Ele não era ingênuo a ponto de não perceber que seus próprios reflexos carregavam uma pequena parte de verdade.
De repente, uma das reflexões chamou sua atenção.
— ... —
Ele mesmo, sozinho, de pé acima de um Raven destruído. Um calafrio percorreu sua espinha, e ele apertou os punhos, forçando-se a desviar o olhar.
— Ignore isso —
ele sussurrou, mais para si mesmo do que para Raven.
Continuaram trilhando o caminho.
Mais uma reflexão apareceu, e a atmosfera ficou ainda mais pesada. Sem perceber, Raven começou a se afastar de Brandon.
Uma discrepância não dita.
Na próxima reflexão,
— ... —
— ... —
Eles pararam.
No espelho, não tão distante deles, apareceu a imagem de Brandon matando Raven.
— Ignore —
Brandon murmurou mais uma vez, enquanto a chuva caía forte, molhando suas madeixas e escurecendo seu rosto.
— ... Sim. — disse Raven, hesitando.
Gotejando, gotas de chuva caíam, envolvendo-os em silêncio. Apenas o som das gotas permanecia enquanto seus corações ficavam pesados.
Brandon e Raven seguiram em frente, a chuva implacável e os reflexos ficando cada vez mais sombrios.
Porém, nos minutos seguintes…
— ... —
Raven parou, os olhos arregalados. No espelho, Brandon se afastava, deixando Raven sozinho em um deserto. O medo de abandono de Raven veio à tona.
— Não olhe —
pediu Brandon, com a voz tensa.
— Por que sempre mostram assim pra gente? — sussurrou Raven, recuando.
— Continue andando —
disse Brandon, sem sequer olhar para trás. Os reflexos ficavam cada vez piores. Não refletiam mais a alma deles — refletiam sua imaginação.
Exatamente o que eles estavam pensando naquele momento. Mas, claro, Raven não tinha ideia disso.
Pelo menos…
Ele não deveria ter tido.
Mais uma reflexão,
Raven, de pé sobre Brandon, com uma arma na mão, enquanto Brandon jazia no chão, derrotado, com os olhos vagos.
Não dava pra negar.
Se as reflexões que Brandon tinha visto de si mesmo eram frutos da imaginação, então as reflexões de Raven também estavam ali, contempladas na sua mente naquele instante.
Não foi assim desde o começo.
Mas quanto mais forte chovia, mais escura ficava a neblina de pensamentos deles.
— Isso não é real… —
Raven murmurou, desviando o olhar.
Ele percebeu a tensão de Brandon e sentiu o crescimento da distância entre eles.
Próxima reflexão,
— ... —
— ... —
Raven, sozinho, cercado por espelhos quebrados. Seus olhos pareciam vazios, como se sua alma estivesse partida.
O olhar de Brandon se voltou, vendo-se cercado por diversos corpos.
Mas,
— Brandon —
— ... —
Eram seus próprios corpos.
O silêncio entre eles cresceu, alimentado pela chuva e pelas dúvidas.
— Ignore. Ignore. Ignore… —
repetia Brandon, evitando o olhar de Raven.
— É… —
Até que, finalmente, pararam. Em frente, estavam duas grandes espelhos, que pareciam portais.
Então, a mensagem do sistema apareceu na visão periférica de Brandon.
[Escolha um portão e entre.]
Brandon escaneou. O portão direito mostrava um futuro em que eles chegariam ao terceiro andar.
No lado esquerdo, aparecia um futuro em que ambos estavam cercados por monstros. Brandon percebeu, de relance, que estava em um nível que não poderia enfrentar.
Os reflexos não podiam ser mais evidentes.
Os espelhos não mentiam. Apenas mostravam a verdade, e Brandon sabia disso.
Os dois trocaram olhares e assentiram rapidamente, uma concordância silenciosa.
— Direito. —
— Esquerda. —
Suas vozes se chocaram, duas respostas opostas.
[Tempo restante: 16:54]
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