Extra's Descent NovelCAPÍTULO 398 - Assim é como o arrependimento se sente
Capítulo 398Brandon estava sentado na beirada da cama, olhando fixamente para a caixa nas mãos.
“....”
Estava mal embrulhada em papel de Natal, com algumas bordas nem totalmente cobertas, como se quem tivesse feito isso estivesse com pressa ou fosse ruim nisso.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, mas logo desapareceu. Vanessa tinha deixado o presente para ele, insistindo que era importante.
Ele não queria abri-lo.
Acreditava que tinha superado o pior, mas, por causa do jeito que Vanessa apareceu e do lembrete que aquele presente representava, tudo voltou à tona.
Com um suspiro pesado, Brandon lentamente retirou o papel de embrulho.
Suas mãos tremeram um pouco e, por um momento, ele parou, olhando para a pequena pen drive USB dentro da caixa.
Não havia etiqueta.
Mas ele já sabia o que era.
Sabia que vinha de Evelyn.
Seu peito apertou dolorosamente ao conectar a pen drive no laptop e clicar no arquivo. A tela piscou por um segundo antes de aparecer o rosto dela.
Evelyn.
Viva.
Brandon prendeu a respiração ao vê-la.
Evelyn estava no quarto, usando pijama, com o cabelo escuro — roxo — solto ao redor dos ombros.
Ela parecia… viva.
Tão casual, tão normal, como se tivesse gravado aquilo numa noite tranquila, sem imaginar o que ainda viria.
—Será que essa coisa até funciona?
O rosto dela estava perto da câmera, sobrancelhas levantadas de forma cética.
—O que é isso, tipo, a quinta tentativa… Ah, espera. Está funcionando!
Um sorriso inocente se espalhou pelos lábios dela.
Brandon ouvia sua risadinha leve pelos alto-falantes, e isso apertou seu peito.
—Uhm, oi? Você deve estar se perguntando pra que serve isso, mas achei que podia te dar um presente de Natal pra agradecer por me convidar pra festa. Hehe, não consegui pensar em um presente adequado, então achei de fazer isso ao invés.
Brandon não conseguiu evitar sentir a amarga ironia nas palavras dela.
Ela fez esse vídeo como um presente descontraído, sem imaginar que seria a única coisa que restaria dela.
— Sabe, quando você me convidou praquela festa… fiquei um pouco surpresa. Honestamente, eu não costumo ir a muitas reuniões. Acho que você já deve saber disso, né?
Evelyn recostou-se na cadeira, perdida em pensamentos.
— Não sabia bem o que pensar a respeito. Queria dizer, não sou exatamente do tipo 'festiva'. Mas… de alguma forma, foi bom, fazer parte de algo assim.
Ela deu uma pausa de novo, mexendo distraidamente na manga do pijama.
— E só queria te agradecer por isso. Por se lembrar de mim. Você é um tio bom.
“....”
As sobrancelhas de Brandon se franziram. Tio? Que porra?
Ela hesitou novamente, os dedos traçando a borda da caneca na mesa, o olhar perdido.
— Tenho pensado bastante… sobre tudo. Vida, morte, essas coisas. Me tocou muito depois que fomos ao funeral da Big Sister Yi Jihyeon. Tinha tanta gente lá, tantas pessoas que se importavam com ela. E isso me fez pensar….
sobre mim?
Ela riu de novo, mas dessa vez, soou vazia.
— Será que, se eu morresse, alguém iria ao meu funeral….
Sua voz morreu no ar, e por um momento, ela simplesmente encarou a câmera com uma expressão indecifrável.
— Esquece, desculpa. Não era o objetivo desse vídeo. Só meus pensamentos saindo sem filtro. Hehe.
Ela riu suavemente, mas isso não tocou seus olhos.
As mãos de Brandon apertaram a borda do laptop.
Como ela podia falar assim? Como podia estar tão consciente, e ainda assim tão indiferente à própria vida?
A ideia dela questionar se alguém iria ao seu funeral doía em seu coração de maneiras que ele não sabia como lidar.
Ela balançou a cabeça, sorrindo de forma amarga.
— Chega de papo. Estou viajando demais.
Ela se inclinou para a frente, mudando seu tom para algo mais prático.
— Deixei alguns arquivos nessa pen drive para você. Tudo que você queria saber sobre controlar seu afinidade com [Permafrost]. Como direcionar eficientemente os canais de mana e tal. Sei que tem sido desafiador para você, mas esses arquivos devem ajudar caso eu não possa estar lá para te ajudar.
Brandon piscarou, quase sem digerir as palavras enquanto o nó de dor no peito apertava mais forte.
Ela tinha deixado arquivos. Era mais do que apenas o vídeo.
Ela deixou seu conhecimento, seus ensinamentos. Mesmo depois de tudo, ela pensou em como ajudar e orientar ele.
— Tem também umas coisas sobre minha pesquisa na área de esgrima. Sei que tem se esforçado para melhorar. Você sempre foi alguém que se esforçava—Ah!
De repente, Evelyn pulou da cama, e o vídeo cortou abruptamente.
—Desculpa, tinha um bug aqui no meu quarto….
Ela se sentou de novo, ajeitando o cabelo casualmente, como se nada tivesse acontecido.
—Enfim, onde eu tinha parado? Ah, sim. Os arquivos.
Seu tom voltou ao usual, calmo.
Brandon quase ouvia a professora em suas palavras.
É estranho como ela sempre parecia tão composta, mesmo ao falar de algo tão complexo quanto canais de mana ou esgrima.
Mas, quando o assunto era dinâmica social, ela geralmente era desastrada.
—Tem tudo o que você precisa aí dentro, Brandon. Sei que você vai descobrir. Você sempre descobre.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios dela, e por um breve instante.
Ele sentiu falta daquele sorriso. Não era caloroso nem emotivo demais—era apenas... Evelyn. Sutil. Silenciosa.
—Mas também precisa cuidar de si mesmo. Você sempre tentou passar por cima de tudo, sempre machucado em cada luta. Não precisa carregar tudo sozinho, tá? Tem gente que se preocupa com você. Deixe-os ajudar.
As palavras dela atingiram ele mais forte do que ele esperava.
Sua visão ficou embaçada, mas ele piscou para afastar as lágrimas. Não podia chorar. Não agora.
Ele não queria.
Depois de tudo, uma única lágrima nunca tinha escapado.
Evelyn inclinou a cabeça levemente, com uma expressão suavizada quase maternal.
— Às vezes, me lembro de mim mesma. Achava que tinha que fazer tudo sozinha também. Que, se não, ia decepcionar as pessoas, e tinha medo de que me deixassem….
Suas palavras morreram no ar, enquanto ele soltava uma risada pequena, quase autodepreciativa.
— Acho que nem sei muito dar conselho nisso. Fiz minhas próprias besteiras.
Brandon engoliu em seco.
Ela nunca falava de si mesma de verdade. Sempre focada em ajudar os outros, em orientá-lo.
E agora, era a coisa mais próxima que tinha de ouvir seus pensamentos mais íntimos.
Seu rosto ficou mais sério enquanto ela continuava.
— Mas, sério, cuide de si mesmo. E, se precisar conversar… bem, acho que não vou ser muita ajuda. Mas há outros por aí. Não os ignore.
Seu tom ficou mais suave, e ela olhou diretamente para a câmera, como se pudesse enxergá-lo, como se soubesse exatamente o que ele estava passando.
— Acredite em você, Brandon. Sempre acreditei. Você é mais forte do que imagina, mas não precisa ser forte o tempo todo. Pode contar com os outros. Pode deixar as pessoas entrarem na sua vida.
Brandon não resistiu mais.
Suas mãos tremeram enquanto cobria o rosto, o peito arfando em silêncio com soluços contidos.
As palavras dela, os conselhos dela— tudo tão simples, tão natural. Mas agora, eram tudo o que ele tinha dela, sua mentora, a figura maternal inesperada no seu coração.
Evelyn se inclinou mais perto da câmera, com uma expressão suave.
—Tenho orgulho de você, Brandon. Não sei se já disse isso antes, mas digo. Você evoluiu bastante.
Ela fez uma pausa, os olhos brilhando levemente.
—Nunca se esqueça disso. Não importa o que aconteça, onde a vida te levar…. Eu sempre irei me orgulhar de você.
Ela sorriu novamente, com uma expressão calorosa.
—Feliz Natal. Estou ansiosa pela festa.
A tela piscou novamente e o vídeo cortou, deixando Brandon ali, sozinho na quietude.
Ele ficou olhando para a tela em branco, sua mente fervilhando com tudo que ela tinha dito, tudo que ficou sem dizer.
Goteira. Goteira…!
Pela primeira vez desde a morte dela, Brandon permitiu que as lágrimas escapassem.
Não apenas de dor, mas por tudo que não falou, tudo que não fez.
Ele chorou pela mentora — e figura maternal — que encontrou em Evelyn, pelo vazio que ela deixou na sua vida.
Goteira. Goteira…!
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