Fragmentos do MultiversoVolume 1 – Capítulo 5 – Capítulo 5: Confiança e Amor
Capítulo 5— Ok, agora eu só preciso achar todos esses ingredientes… — Anuk diz enquanto caminha pela estrada, segurando uma folha de papel.
A Academia normalmente fornece recursos para os estudantes, entre eles, as principais refeições do dia: almoço e jantar. Porém, para seus estudantes, a Academia também fornecia dinheiro para que comprassem o próprio alimento, caso achassem melhor.
Depois de conseguir conversar com a secretaria, Anuk escolheu um lugar grande: um dos dormitórios especiais, que eram praticamente casas dentro do campus e podiam acomodar diversas pessoas.
“O Aki reclamou pra caramba, mas o que eu podia fazer? Preciso estar prevenido para tudo.” — Anuk pensa consigo mesmo, lembrando das palavras do amigo.
— Você ficou maluco? O que você vai fazer com uma casa?
— Não o que eu vou fazer, mas sim o que nós vamos fazer!
— Nós?
— Sim, eu peguei uma casa justamente caso mais pessoas queiram dividir o mesmo lugar. Vai que a gente precisa de um espaço pra um grupo grande? Não podia ser um simples dormitório!
— Você realmente não existe. — Aki diz enquanto balança a cabeça negativamente, com um rosto indignado.
Agora, Anuk está em busca de comprar alimentos com o dinheiro da escola para abastecer a casa.
— Esse aplicativo da escola é surreal! Tem tudo o que a gente precisa. Provavelmente é um dos melhores aplicativos do governo, e olha que é um app do governo! — Anuk diz enquanto mexe em seu celular.
O aplicativo da escola funciona como uma ficha técnica do estudante. Lá, são mostrados todos os direitos do aluno e até alguns benefícios, dependendo de seu rank. Porém, havia algumas opções acompanhadas por um ícone de cadeado que Anuk não entendia muito bem como desbloquear.
“Bem, suponho que seja aumentando o meu rank.”
De repente, cortando seus pensamentos e sua concentração no aplicativo, sons de sirenes e disparos podem ser ouvidos não muito distantes dali.
“Isso é…?”
Sem pensar muito, Anuk dispara em direção ao barulho.
Como já imaginava, encontra uma grande movimentação no local: policiais fazendo uma barreira em frente a uma joalheria, em uma típica cena de negociação.
— Abaixem as armas para ninguém se ferir! — A voz do policial era forte, mas cautelosa e preocupada.
Dentro da joalheria, era possível ver os assaltantes com um grupo de reféns amarrados. Algo que parecia ter saído de um filme, detalhe por detalhe.
Mas, vindo de Arcadia, aquilo não era incomum de se ver. Afinal, aquela cidade era conhecida como a cidade do impossível, onde tudo podia acontecer.
Ao ver aquela cena, Anuk congelou.
Era um crime real acontecendo bem diante de seus olhos. Pessoas estavam em perigo. Ele já tinha ouvido falar nos noticiários sobre a criminalidade e visto cenas parecidas em filmes, mas nunca havia presenciado algo de verdade.
“Eu preciso ajudar!”
Esse pensamento tomou conta da cabeça do garoto instantaneamente.
Um forte dever. Um forte senso de justiça.
Não importavam os riscos. Ele só queria ajudar.
Porém…
“P-Por quê? O que está acontecendo?”
Anuk olhou para baixo.
Seu corpo não respondia.
Ele queria, sim, muito ajudar. Mas, quando tentava dar um passo, parecia que sua perna estava presa a uma âncora. Não conseguia avançar sequer um centímetro.
Ainda desacreditado com o que estava acontecendo, Anuk olhou para o próprio corpo.
Suas pernas estavam bambas e suas mãos não paravam de tremer.
O choque de estar em uma verdadeira cena de crime — e, pior ainda, em uma situação que continuava acontecendo diante dele — era um sentimento inexplicável.
“E-Eu não posso ser tão fraco assim… Eu não posso estar com medo… não agora.”
Anuk cerrava os punhos com toda a força e dava pequenos golpes contra as próprias pernas, tentando fazê-las se mexer. Sua respiração estava pesada e o suor começava a escorrer por seu rosto.
Aquela era a infeliz realidade.
Não importava o quanto Anuk pensasse ser forte. Saber que qualquer mínimo erro poderia custar a vida de alguém — ou até mesmo a sua própria — o apavorava.
“Não, não, não! Eu não posso pensar assim! Eu não posso simplesmente não ajudar por medo! Tem pessoas ali precisando de ajuda e, se eu não puder fazer nada, como vou conseguir manter minha promessa ao velho? Não, Anuk Rose, você não pode desistir agora! Anda e reage!”
Movido por uma forte determinação, Anuk deu um passo para frente.
Mas aquilo apenas aumentou sua ansiedade.
Mais de mil pensamentos passavam pela cabeça do garoto.
“O que eu posso fazer?”
“Será que eu sou útil?”
“Eu consigo mesmo?”
“Eu quero ajudar, mas como?”
Cada passo ficava cada vez mais pesado. Parecia que a gravidade da Terra havia aumentado para o garoto, como se seu corpo pesasse mais que concreto e o próprio medo o puxasse para trás.
“Respira…”
Ele dizia a si mesmo, tentando manter a respiração controlada.
De repente, um toque em seu ombro fez com que o garoto perdesse totalmente a concentração.
— Se acalme, meu jovem. — Uma voz suave e tranquilizante vinha de trás de Anuk, tentando confortá-lo.
Por alguns segundos, quando se virou para ver quem estava ali, Anuk poderia jurar que tinha visto Sebastian.
Ele piscou algumas vezes, desacreditado com o que seus olhos haviam visto.
Então, a imagem de um policial surgiu diante dele.
“Acho que eu tô ficando maluco…”
— Eu vi você indo em direção ao assalto. Muito corajoso da sua parte, mas você precisa deixar os profissionais cuidarem disso! — O homem explica.
— M-Mas eu quero ajudar! Aquelas pessoas estão em perigo, eu sei que posso…! — Anuk tenta explicar, mas as palavras fogem de sua boca, como se ele não conseguisse falar direito.
— Filho, existem coisas nessa vida que não podemos fazer. Eu sei que é difícil aceitar, mas existem certas coisas em que você precisa saber o seu limite! Você não vai ajudar ninguém se estiver morto. Então pense em como você pode ajudar as pessoas, do seu próprio jeito, com algo que você possa fazer. Nunca desperdice sua vida, pois cada vida tem um propósito. Você pode não ter encontrado o seu ainda, mas talvez seja porque ele ainda não chegou.
Anuk ouve aquelas palavras em silêncio.
Aos poucos, era como se cada uma delas retirasse o peso que estava sobre seus ombros, acalmando-o e trazendo-o de volta para a realidade.
— Então, no fim, não se force além do necessário, ok? — O homem encerra com um sorriso acolhedor de ponta a ponta, tentando transmitir o máximo de confiança que conseguia.
Ao olhar para aquele rosto, Anuk se lembrou de Sebastian.
De seu sorriso.
E de tudo o que aquele sorriso representava para ele.
“Tá tudo bem. Você pode confiar em mim.”
Confiança.
Algo que faltava ao pequeno Anuk. Algo que ele nunca havia sentido por ninguém.
Depois de todos os maus-tratos que sofrera no orfanato, sua insegurança não permitia que confiasse em ninguém. Mas, ao ver aquele sorriso, Anuk tinha certeza de que poderia confiar sua vida àquele homem.
Não importava o que acontecesse. Ele sabia que aquele homem conseguiria resolver a situação.
E era isso que ele almejava: conseguir replicar aquele mesmo sorriso.
“Quanto tempo faz que eu não sinto isso? Cara… eu acho que tava prestes a explodir.”
A verdade era que o que ele mais queria era conseguir ajudar as pessoas como Sebastian havia feito com ele.
Mais do que ninguém, Anuk sabia o que era sentir aquela dor. Por isso, queria poder ser a luz para alguém, impedir que outras pessoas sofressem como ele havia sofrido.
E, mais uma vez, ele se sentiu salvo pelo mesmo motivo: pelo sorriso de alguém confiante.
“Então essa é a sensação… Realmente é horrível! Ver algo acontecendo na minha frente e não poder fazer nada para ajudar… Você tinha razão, Sebastian.”
Anuk se voltou para o policial.
O homem vestia uma farda comum, porém tinha um semblante único. Seus cabelos curtos e loiros tinham um corte disfarçado, enquanto seus olhos verdes brilhavam em um tom forte, como se fossem duas esmeraldas. Seu rosto era de um homem mais velho, sério, porém amigável, com uma barba por fazer.
— O-Obrigado. Acho que eu precisava ouvir isso…
— Que isso, campeão. Não há de quê. Sei que você vai conseguir ajudar muitas pessoas. É lindo o seu desejo, só veja para não fazer nada imprudente. — O homem responde, passando a mão na cabeça de Anuk e bagunçando seu cabelo. — Agora deixa os profissionais cuidarem disso, tá bom?
— Tá bom, senhor…?
— Ethan. Ethan Morgan, ao seu dispor!
— Obrigado, senhor Ethan. Aliás, eu sou Anuk. Anuk Rose.
— É um prazer, Anuk!
O policial caminha em direção a onde estava ocorrendo toda a operação, enquanto Anuk permanece apenas observando.
“Todos temos um propósito, hein? Parece até que eu tô vendo roteiro repetido.”
Anuk se vira para a direção oposta ao crime e começa a caminhar.
“Preciso esfriar a cabeça. Eu até queria ficar lá pra ver o que poderia acontecer, mas acho que isso mais me incomodaria do que outra coisa. Cara, que saco… Eu achei que talvez já estivesse pronto, mas ainda sou o mesmo covarde de sempre. Como que eu vou fazer a diferença se preciso ser protegido e salvo a todo momento?”
Anuk reflete enquanto caminha pela cidade, sem prestar muita atenção ao seu redor, perdido em meio aos próprios pensamentos.
“Eu não sei como dar o primeiro passo nessa história e ainda sou apenas um garoto medroso como qualquer outro. Eu tô definitivamente muito decepcionado comigo. Mas será que, se eu tivesse ido lá, eu teria conseguido fazer algo? Tipo, eu poderia chegar lá de fininho… Se bem que acho que isso não ia dar certo. Talvez uma abordagem mais direta? … Não.”
Anuk vai pensando em diversas possibilidades de como poderia ter feito tudo aquilo de maneira diferente.
Mesmo sabendo que não havia nada que pudesse ter feito, ele ainda queria encontrar algo que pudesse ter sido útil, alguma coisa que talvez não tivesse percebido no início.
E isso se prolongou até que, de repente, o garoto sentiu um grande choque.
“Ai!”
Uma voz feminina soou, trazendo Anuk de volta à realidade.
O impacto veio como uma surpresa, jogando-o para trás ao colidir com a pessoa e fazendo-o perder o equilíbrio. Consequentemente, ele caiu no chão.
— Ai! — Anuk resmungou.
“Acho que bati a minha cabeça em alguém. Não posso ficar viajando no meio da rua.”
Voltando sua visão para frente, em busca da pessoa que havia atingido, o garoto acaba tendo uma surpresa.
De pé à sua frente estava uma mulher de cabelos dourados e olhos verdes, praticamente da mesma altura que ele. Seus cabelos longos iam até a metade das costas, e seu rosto tinha uma expressão doce e gentil.
Sua beleza era tamanha que deixou Anuk completamente imóvel.
Seus pensamentos sumiram por completo.
A única coisa que conseguiu pensar foi:
“Ela é… linda.”
A garota, que aparentava ter a mesma idade de Anuk, ainda estava desorientada, esfregando a testa com dor. O impacto havia sido forte.
Enquanto isso, ele permanecia no chão, observando-a como se estivesse completamente congelado, admirando-a.
— Ai, ai, minha cabeça… Eu deveria tomar mais cuidado! — A garota se queixa, voltando agora sua visão para Anuk, que estava no chão. — Ah! Oi! Mil perdões, eu não queria atingir você!
Ela então estende a mão para ajudá-lo a levantar.
Como se estivesse saindo de uma espécie de transe, Anuk balança a cabeça para os lados e aceita a ajuda da desconhecida.
— N-Não, que isso! Eu que deveria me desculpar. Eu tava com a cabeça em outro mundo e não olhei para onde estava andando! — Anuk se explica, tentando manter firmeza nas palavras, mas deixando escapar o nervosismo, com a voz falhando às vezes.
— Acho que nós dois estávamos em outro mundo, então dá pra considerar isso um empate? — Ela diz com um tom doce e alegre, dando pequenas risadas.
— É-É, dá pra considerar um empate!
“Droga, Anuk Rose, você tá parecendo um robô! Qual foi a tua? Parece que tá com mais medo até do que enfrentar a merda de um crime! Reage, homem!”
— Bemm… prazer, meu nome é Charlie! — A menina se apresenta com um sorriso.
— A-Anuk.
“QUE DESGRAÇA!”
Os pensamentos de Anuk estavam prestes a explodir a qualquer momento, de tanta raiva e desespero que ele estava sentindo.
— Então tá, Anuk! A gente se vê por aí! — Charlie diz, se despedindo.
— E-Espera! — Anuk rapidamente responde à despedida da garota, em uma velocidade surpreendente.
Ela olha de volta, surpresa com a atitude do garoto.
“IMBECIL! IMBECIL! VOCÊ NÃO SABE MAIS CONVERSAR? VOCÊ PARECE DESESPERADO! VAMOS, RESPIRA!”
Anuk então inspira devagar antes de continuar.
— Não vai por aí. Tá acontecendo um assalto e a polícia está no local tentando impedir. — As palavras saem, porém com um tom mais desanimado, como se não fosse aquilo que ele gostaria de dizer.
— Ah… Mas aqui é o único lugar que eu conheço pra chegar na Academia! — Charlie explica.
— Espera, você estuda na Academia? — diz Anuk, surpreso.
— Sim. Eu tava indo encontrar uma amiga lá agora mesmo!
— Ah… Eu também! Q-Quer dizer, eu também estudo lá.
— Sério?? Deixa eu adivinhar: primeiro ano, né?
— Como você sabe?
— A gente parece ter a mesma idade. Não precisa ser nenhuma superdetetive pra intuir isso.
“Eu acho que o problema aqui é que eu sou um super bobo.” — Anuk reflete consigo mesmo.
— Bem… eu conheço outro caminho. Normalmente costumo andar pela cidade nos meus tempos livres. — Anuk explica. — Mas eu tava indo ao centro comprar algumas coisas pro meu dormitório!
— Olha, eu não quero passar por um lugar perigoso, senão meu pai me mataria. Então, se não se incomodar, eu posso te acompanhar. Aí nós vamos juntos para a Academia. — Depois de dizer isso, Charlie parece ter uma reação estranha, dando as costas rapidamente para Anuk. — C-Claro, se não parecer estranho e não te incomodar.
— Claro, por que não? Seria ótimo ter companhia!
“Por que parece que ela ficou nervosa de repente?” — Anuk se questiona, confuso com a reação estranha da garota.
— E-Então vamos?
— Vamos!
Os dois jovens seguem contornando a região onde estava acontecendo o crime.
Durante o caminho, os dois param em algumas lojas, onde Anuk vai pegando os alimentos para abastecer sua casa.
— Sério, repolhos? — Charlie diz em um tom provocante, olhando para o vegetal com uma expressão de desconfiança.
— Sim! Eles são muito saudáveis. Você não imagina quantas receitas dá pra fazer com isso!
— Tá bom, velho de trinta anos!
— Disse a criança que tá brigando comigo por causa de verduras! — Anuk rebate no mesmo tom debochado, sem conseguir esconder o sorriso.
— Ahhhh, eu sou a criança? Só porque não gosto de repolho? — Charlie vira o corpo na direção oposta do garoto, cruzando os braços enquanto tenta conter uma risada.
— Então me explica por que você não gosta de repolho.
— Não sei… Eles são roxos demais! — Charlie responde, mantendo a brincadeira.
Anuk a encara por alguns segundos, tentando processar a resposta.
— Roxos? Sério? Não tinha uma desculpa melhor? — Ele pergunta, já deixando escapar algumas risadas.
— Sim, roxos! Algum problema com o meu motivo? — Ela se aproxima do rosto do garoto, prendendo os olhos nos dele com uma expressão divertida e desafiadora.
Por um instante, Anuk fica sem reação.
Charlie segura o olhar por mais alguns segundos antes de se afastar, voltando a caminhar como se nada tivesse acontecido.
— Nãooo, nada contra, senhorita “anti roxos”. Espero que você não encontre nenhuma pessoa roxa na sua vida!
— Ei, eu conheço esse jogo! Acho que era pra eu estar feliz com isso!
Os dois continuam rindo enquanto fazem as compras.
Aos poucos, porém, Anuk percebe que já não estava pensando tanto no que havia acontecido mais cedo.
O medo.
A sensação de impotência.
Aquela vontade frustrada de ter feito alguma coisa.
Tudo parecia um pouco mais distante agora.
“Ela é divertida.”
— Então… você realmente sabe cozinhar tudo isso? — Charlie pergunta, observando Anuk carregar as sacolas de compras.
— Sim. Tive que aprender a cozinhar desde cedo. Meio que virou um hobby e eu me divirto muito fazendo isso.
— Aí que chique! Então um dia você vai ter que cozinhar pra mim, hein?
— Ah é? E quais são as suas expectativas quanto às minhas habilidades?
— Pelo que você diz, altas!
— Bem, acho que vou ter que ralar se quiser te agradar!
— E trate mesmo de dar o seu máximo. Quero ver o seu melhor! — Ela diz, sorrindo para ele enquanto anda de costas para poder encarar o rosto do garoto.
— Sim, senhora! — Anuk responde, rindo.
“Ela é engraçada…”
Anuk continua observando Charlie enquanto caminham.
Fazia pouco tempo que a conhecia, mas a garota conversava com ele com tanta naturalidade que, às vezes, parecia que os dois se conheciam havia anos.
“Eu não consigo imaginar que alguém como ela exista…”
Seus olhos acompanham o sorriso da garota.
“Linda, engraçada, divertida…”
Charlie continua falando alguma coisa, gesticulando enquanto caminha. Anuk não consegue evitar um pequeno sorriso.
“Ela faz tudo parecer mais tranquilo quando eu tô com ela.”
Por alguns segundos, ele se esquece completamente das compras, da Academia e até mesmo do que havia acontecido no assalto.
“Além disso… o jeito dela, por algum motivo, me acalma.”
Charlie olha para ele e sorri novamente.
Anuk permanece em silêncio.
“Ela é tão gentil e descontraída… Mesmo com alguém que acabou de conhecer.”
Seu olhar permanece preso naquele sorriso.
Era difícil explicar o que sentia naquele momento.
Para Anuk, aquele sorriso parecia carregar algo que ele não conseguia encontrar em nenhum outro lugar. Como se fosse uma pequena luz dourada capaz de afastar, mesmo que por alguns instantes, toda a escuridão ao seu redor.
E, enquanto caminhava ao lado dela, era exatamente assim que Charlie parecia para ele.
Uma luz que fazia tudo ao redor parecer um pouco mais leve.
Mesmo que ainda incomodasse um pouco Anuk o fato de não ter ajudado, sua nova companhia fazia com que ele não pensasse tanto nisso.
— Então, pra que você precisa de tanta comida? — Charlie pergunta, vendo a lista de compras de Anuk.
— Ah, é porque eu peguei uma casa na Academia, então preciso de suprimentos para o mês inteiro!
— Nossa, você deve conhecer muitas pessoas pra ter escolhido um dormitório do tipo casa.
— Na verdade, é só eu e um amigo!
— Sério? — Charlie pergunta, surpresa.
— Sim, mas é aquilo… sempre bom estar preparado.
Ao ouvir isso, Charlie dá uma pequena risada contida.
— Pode dizer, eu sei que é estranho. — Anuk diz, também começando a rir.
— Na verdade, não achei estranho. Só engraçado… e talvez fofo.
— Você tem um conceito estranho do que é fofo.
— É, talvez você tenha razão!
Os dois adolescentes começam a rir daquilo enquanto continuam andando pela cidade.
— Mas eu até que conheço alguém assim, igualzinho a você — Charlie explica.
— Que pega casas pra duas pessoas quando poderia pegar um dormitório comum?
— Não, que tenta estar pronto pra tudo!
— Engraçado você dizer isso, porque eu também conheço alguém assim!
— Ela tem uma frase muito marcante.
— Seria algo como…
— “Se prepare pra tudo, pois assim, mesmo que o mundo tente te derrubar, você não vai ser pego de surpresa.” — Os dois dizem em uníssono, como se estivessem conectados e soubessem exatamente o que o outro iria dizer.
Após isso, eles caem novamente na risada.
— Não sei quem é a pessoa que você conhece — diz Anuk —, mas espero que ela seja mais tranquila do que a que eu conheço!
— Pode acreditar, ela não é nem um pouquinho tranquila!
— Enfim… chegamos! — Anuk fala enquanto estica o braço, como se estivesse apresentando a Academia.
— Nossa, foi bem rápido, né? Eu nem vi o tempo passar.
— Eu falei que sabia de um bom caminho!
— Realmente, você tinha razão! Bem, agora deixa eu ir, porque minha amiga tá me esperando e ela pode acabar surtando por eu ter demorado demais!
— Tudo bem então. Até mais! — Anuk se despede.
— Tchau! — Charlie responde, andando em direção à direita da Academia.
O garoto encara a menina enquanto ela se distancia cada vez mais, com uma expressão desanimada e decepcionada, mas ainda mantendo um leve sorriso.
“Queria ter dito pelo menos que gostaria de encontrar ela de novo… Bem, eu sou um idiota completo. A Max tem razão.”
Enquanto Anuk se dirige para sua casa, Charlie, que estava no meio do caminho, para para atender seu telefone.
— Onde você tá? — Uma voz estressada soa pelo aparelho.
— Eu já tô chegando. Eu tive uns… contratempos!
— Que espécie de contratempo é esse pra fazer você se atrasar?
— Um bem inesperado, mas divertido… — Charlie diz, olhando para o caminho de onde veio, procurando algo no meio da paisagem.
— Tá, tá. Seja lá o que foi, vindo de você, deve ter sido realmente importante. Eu tava preocupada de ter acontecido algo, já que você nunca se atrasa. Vê se da próxima vez você me avisa, ok?
— Pode deixar!
— Vejo você daqui a pouco então?
— Já estou chegando. Fica tranquila!
— Ok então, até!
— Até, Max!
Charlie desliga o telefone ainda olhando para o horizonte.
Ela procura por alguns minutos, mas sem sucesso.
Seu rosto perde um pouco do brilho.
Ela respira profundamente e permanece olhando para o horizonte, agora apenas parada em silêncio.
Então, depois de alguns segundos, volta a seguir seu caminho.
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