Guardiões — Capítulo 1: Livro 1 – Capítulo 1 - Primeiros Passos

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Cap. 1
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Livro 1 – Capítulo 1 - Primeiros Passos

Capítulo 1

2.196 palavras~10 min de leitura

O clima era agradável. Realmente, era agradável. O problema era: os dois rapazes não reconheciam aquele clima.

“Minha cabeça dói”, disse Saiga.

Quando ele conseguiu recobrar a consciência e finalmente se levantar ainda se sentindo tonto ele se sentiu ainda mais confuso. Aquele lugar era diferente. Não de uma forma que era diferente do que eles dois estavam antes, mas diferente de todo lugar que já haviam estado, e eles já estiveram em muitos lugares.

“Minha cabeça!”, Garand gritou se levantando bruscamente enquanto apertava as têmporas com muita força.

“Cara, relaxa, cê vai acabar estourando a pouca coisa boa que tem nessa tua cabeça”, Saiga reclamou ainda se sentindo tonto.

“Tá me dizendo pra acalmar o facho? Eu tô com uma enxaqueca tão grande!”

Saiga olhou ao redor tentando analisar a situação que estavam: uma enorme floresta, uma mata extremamente densa. O sol penetrava entre as aberturas das folhas das árvores e com muita dificuldade alcançava o chão. Pássaros cantavam e o vento balançava as folhas criando uma sensação de leveza que só se tem quando se está de férias na casa dos avós longe do peso das cidades, mas ainda era extremamente assustador.

“Onde a gente tá?”, Garand perguntou resmungando, se levantando usando o antebraço de Saiga como apoio. “Não lembro de nada, é como se alguma coisa tivesse batido com força em mim”.

“Eu lembro de estarmos no trabalho…”, Saiga apoiou o queixo com a mão, apertando tanto os olhos para pensar que eles poderiam entrar fundo na sua cabeça sem dificuldades.

“Cê ouviu algum cara falando contigo?”

“Hein?”, Saiga deu um passo para trás em surpresa.

“Pensei que tava sonhando. Eu senti uma pancada forte e ouvi alguém falar comigo antes de acordar. E minha cabeça ainda tá doendo.”

Eles se encararam por alguns segundos. Uma longa encarada estranha.

E bateram o punho com força na palma da outra mão:

“A gente morreu!”, Saiga gritou.

“Tu virou uma mulher?!”, Garand se espantou.

“Mas hein?”

“Ué?”

Mais uma encarada estranha. Mais uma longa encarada estranha.

“É, a gente morreu, isso mesmo”, Garand concordou, fazendo uma pose idiota como um pensador que descobriu o sentido da vida.

“Cê tá de tiração comigo?”, Saiga coçou a cabeça, frustrado. “Eu também lembro dessas coisas. Ainda sinto uma certa dor no peito, alguma coisa bateu em mim também.”

“E o cara que falou contigo?”

“É, certamente alguém falou comigo. Ou todo mundo falou comigo. Eram tantas vozes misturadas, eu não lembro muito bem, mas sei que era uma multidão me dando dicas e escolhas.”

Garand olhou para cima tentando encontrar uma chance de ver uma brecha entre as folhas que não tivesse um forte feixe de luz. Falhou miseravelmente quase queimando os olhos.

“Mas isso ainda não responde o motivo de cê ter virado uma mulher.”

“Não gostou?”, Saiga questionou dando um giro. Seu corpo, realmente, havia mudado por completo: antes um homem baixinho de cabelo preto e corpo atlético, agora parecia mais uma adolescente levemente masculina, como uma garota que anda muito com garotos. “Parece com as personagens que eu criava nos jogos.”

Ele deu uma olhada dos pés à cabeça de Garand, mostrando uma expressão de deboche escancarada. “Em comparação, cê continua o mesmo.”

“Não tem nada de diferente mesmo?”, ele deu um giro, assim como Saiga, mas menos gracioso, já que do contrário do seu amigo, Garand continuava sendo o mesmo rapaz loiro de pele clara com um corpo forte e bem definido, mas um pouco mais alto que antes. “Que chato, eu não consegui nenhum avatar?”

“Acho que a gente devia se preocupar mais com onde a gente tá”, Saiga bufou, curvando o corpo. “Não consigo tirar da minha cabeça que a gente morreu e essas vozes que ouvimos foi Deus nos mandando para outro mundo. Esse lugar me dá uma sensação esquisita demais. Até o ar parece estranho de se respirar.”

“Eu não quero acreditar que a gente morreu”, Garand deu um passo forte para frente. “Eu tenho coisas pra fazer! A Sapphire não deve nem saber disso! Caramba, como será que a gente morreu?!”

Saiga gemeu baixinho, suspirando. Ele também estava tão confuso sobre o que estava acontecendo. Mesmo tentando vasculhar fundo na sua memória, nada vinha; não tinha lembrança nenhuma sobre como supostamente morreu, nada além da dor que sentia no peito, então só considerou que algo bateu com força naquela região, além de nem mesmo saber o que conversou com esse tal “Deus” que falou antes. Certamente, se a possibilidade for minimamente aceitável, ao menos o corpo que ele tinha naquele momento foi escolhido por ele.

“A gente devia se mover”, respondeu.

“O quê?!”

“A gente tá no meio da mata, mas mas se a gente andar um pouco talvez possamos encontrar um rio? Algo assim, com sorte tem alguma pessoa aqui e a gente pode se localizar.”

“Certo, vamos considerar que morremos e viemos parar em um novo mundo, o que vai ser o plot?”

“Plot?”

“É, cara, o plot!”, Garand gesticulava agitado, jogando os braços para cima. “Sempre tem isso nas histórias, né? Tem um sistema de videogame, um rei demônio, um monte de mulher!”

“Eu acho a ideia de um monte de mulher bem divertida”, Saiga babou um pouco encarando o nada com um sorriso imbecil.

“Foco, cara, eu sou casado! A vantagem desse tópico tá só na tua mão!”, suspirou. “E se a gente for atacado? A gente tá aqui por um motivo, né? Tipo, sempre tem aquele papo de ‘escolhido’ isso, ‘escolhido’ aquilo.”

Isso fez Saiga pensar.

“Bom, se a gente for esse tal de escolhido, ainda fica no 50/50 de chance de nos atacarem, né? Como a gente sabe se as pessoas desse mundo vão nos ver como escolhidos?”

“Como a gente vai saber se é escolhido mesmo?”

E Saiga tentou botar à prova. Se agachou com uma expressão tensa. Ficou na mesma posição por um certo tempo, o que irritou Garand, mas antes que ele pudesse reclamar de qualquer forma:

“Hup!”, Saiga, pondo toda a força que tinha nas pernas, deu um salto. E que salto.

Uma corrente de ar criada pela pressão balançou não só as folhas, mas como as árvores em si. Pedras que estavam bem fixadas no chão se desprenderam e voaram por uns bons metros. Garand, para proteger os olhos da poeira que foi levantada, cobriu o rosto na mesma hora. E Saiga? Saiga estava no ar, mas não apenas no ar como alguém que pula 50 centímetros e impressiona os outros. Ele estava a, pelo menos, 15 metros de distância do chão.

Lá em cima ele pôde ver tudo com clareza. Mesmo que tivesse certo medo de altura, a pressão dos céus, os ventos fortes que cobriam seu corpo, a sensação de que estava tão alto quanto realmente estava fez com que ele sorrisse como uma criança. Até que lembrou da sua situação, o fazendo chorar como uma criança quando a gravidade fez o seu trabalho: o levar para baixo. Caiu tão rápido quanto subiu, indo de encontro ao chão com uma força que fez criar uma cratera. Por sorte, conseguiu pensar rápido, usando suas pernas para não ser completamente devorado pela força da queda e se transformar em uma pasta. “Mas se minhas pernas aguentaram, o resto do meu corpo certamente aguenta”, era o que ele pensava, mas talvez nunca quisesse arriscar.

Quando ele finalmente se equilibrou, levantando devagar os joelhos que antes estavam dobrados por uma reação automática, ele encarou Garand.

“Heh…”

“Haha…”

“Hahahahahaha!”, e como dois maníacos ambos começaram a gargalhar alto.

“Minha vez, minha vez!”, Garand gritou enquanto se posicionava assim como Saiga fez antes e saltou com toda a sua força, criando uma reação semelhante à do amigo, mas em menor escala. Eles, de toda forma, ainda se impressionaram.

Eles começaram a saltar várias e várias vezes juntos. Eram duas crianças brincando em uma cama de mola extremamente confortável, mas do contrário: eram dois adultos que esqueceram completamente da situação que estavam.

“Ei, por que você pula mais alto que eu?!”, Garand gritou apontando em fúria para o amigo.

“Obviamente eu sou o mais forte, né?”, deu de ombros como um bebezão que se sente mil vezes melhor por causar inveja nos colegas da escola.

Garand bateu o pé no chão, criando uma pequena cratera. “Eu ainda tenho meu corpo do outro mundo, pareço bem mais forte que esse teu corpo de garotinha, então por que eu não consigo pular mais alto?!”

“Sei lá, talvez tua classe seja outra?”

“Classe? Que nem nos jogos!”, ele gritou como se tivesse descoberto algo, se posicionando como um manipulador de elementos pronto para criar algo maravilhoso. “Sistema!”

…

“Eu disse… Sistema!”

…

Mas nada aconteceu. Ele bateu o pé de novo, afundando ainda mais o chão.

“Cara, eu acho que esse mundo tá bixado demais!”

“Talvez não seja algo tão genérico e mal feito? E se for algo tipo, você ser um feiticeiro e saber lançar magias se invocar elas?”

E com um rápido movimento, eles bateram as mãos com força, criando um som extremamente perfeito. “Mano, cê é um gênio!”

Saiga riu como um idiota que quer mais elogios, mesmo negando todos.

E então, mais uma vez, Garand se posicionou como se estivesse pronto para lançar uma magia de verdade. Como os magos das obras que via antes. E respirando fundo:

“[Bola de fogo]!”, e lentamente, na palma das suas duas mãos, duas pequenas bolas de fogo surgiram. Eram minúsculas, mas ainda eram bolas de fogo.

Aquilo paralisou os rapazes. Não de forma negativa, como se estivessem decepcionados. Muito pelo contrário: eles pularam como garotinhas, se abraçando e gritando fino pela conquista que tiveram.

Saiga, tentando acompanhar o amigo, ergueu o braço esquerdo, o deixando o mais alto possível e abrindo sua mão, gritando “[Bola de fogo]!”, esperando conseguir o mesmo. Mas, infelizmente, falhando. Não é como se não tivesse criado uma bola de fogo também, mas ela era quase que centenas de vezes mais fraca que a de Garand. “Talvez você consiga acender um cigarro se tentar muito?”, o amigo perguntou.

“Merda, então minha classe seria tipo, um guerreiro?”, Saiga chutou uma pedrinha do chão usando mais força do que realmente desejava, fazendo com que ela atravessasse uma árvore como um projétil de .50 a queima roupa. Eles se espantaram, dando passos para trás.

“Veja pelo lado bom, cara: cê é um guerreiro que usa magia.”

Ambos concordaram. Eles tinham as mesmas capacidades, mas em medidas diferentes, como uma escala de 0 a 10, onde no canto esquerdo há magos e feiticeiros e no direito há cavaleiros poderosos. “Só não combina muito a garotinha sensível ser a mais forte”, Garand brincou. Saiga, obviamente, se irritou. “Eu não sou uma garotinha, seu babaca”, reclamou virando as costas.

“De toda forma, pode ficar pulando o quanto quiser, eu vou ser o mago poderoso que eu sempre sonhei em ser!”, e se armou, apontando a palma da mão esquerda para a frente. “[Bola de fogo]!”

…

A bola de fogo apenas se formou.

…

Ele levantou a palma da mão e encarou a bola de fogo de perto.

“Uhm, eu esperava que ela fosse [lançar]”, e quando ele terminou a palavra ‘lançar’, a bola de fogo foi atirada com toda a força para cima, perfurando as folhas das árvores, as queimando e criando um forte estrondo assim que penetrou os céus.

…

“Vamos… vamos esperar encontrar algum mago nesse mundo que possa nos ensinar o que fazer sobre magia, ok?”, Saiga comentou.

“Tá… Eu concordo.”

No mesmo momento uma chuva de folhas queimadas começou a cair sobre eles. As cinzas em que algumas foram transformadas fizeram o cabelo preto de Saiga se tornar quase grisalho.

Eles se entreolharam.

“Talvez a gente esteja chamando atenção até demais…”, Saiga murmurou, olhando ao redor de novo, agora mais tenso.

A floresta que antes estava silenciosa com seus ventos e pássaros, agora estava quieta mais uma vez. Quieta de um jeito esquisito, mais uma vez.

Garand pareceu perceber também. Deu um passo para o lado, mais calado, coçando a cabeça.

“A Sapphire…”, ele disse mais baixo dessa vez, como se só naquele momento tivesse lembrado de verdade.

Saiga coçou o pescoço, desconfortável. E mais uma vez, ele deu um salto. E outro. E outro. Deu um total de 4 saltos o mais alto que podia em todas as direções que pôde. Quando decidiu ficar no chão, bateu as palmas das mãos:

“Vamos andar. Tem muitas montanhas ao nosso redor, mas eu vi um pouco de fumaça vindo daquele lado, então talvez a gente encontre algo… algum sinal de que a gente não vai morrer de novo nesse lugar.”

Garand assentiu, mais sério. Ele apertou seus punhos olhando para seus pés.

Saiga suspirou. Antes, nos seus antigos corpos, eles tinham a mesma altura, mas agora ele se via mais baixo que seu amigo usuário de magia, dando um pequeno salto para conseguir fazer carinho na sua cabeça.

E com um sorriso quase infantil de tão esperançoso, ele olhou para Garand enquanto ia na direção que tinha apontado. “Vamos lá, irmão.”

E quase que automaticamente, como se concordasse fielmente com o que Saiga dissesse, Garand o acompanhou. Eles tinham, naquele momento, dado os reais primeiros passos naquele mundo.

Fim da leitura

Capítulo 1 concluído

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