GuardiõesLivro 2 – Capítulo 15 - Cidade Nova
Capítulo 15“Parados aí”, disse um guarda, um homem alto e vestido em uma armadura de cavaleiro, uma pena vermelha em sua cabeça diferente de outros cavaleiros ao redor que não possuíam nem alguma.
“Ah, olá, senhor cavaleiro”, disse Saiga puxando as rédeas do cavalo, parando na entrada da grande muralha da cidade que se aproximavam. “Uma bela tarde, não é mesmo?”
“De onde você vem?”, falou com uma voz grave se aproximando a passos lentos da carroça. “Quem está com você aí dentro?”
“Bem…”, a expressão de Saiga, um sorriso de lado virando o rosto com vergonha, já entregava completamente.
“Eu vou te matar, desgraçado!”, e seguido da furiosa voz de uma mulher veio um soco potente que parecia ter destruído o crânio de alguma criatura grande.
“Minha cabeça!”, e um homem entrou em desespero gritando numa mistura de batidas fortes na madeira e um som de esguicho.
“...”, Saiga suava frio, tossiu com dor na garganta. “São meus filhos.”
O guarda, com uma clara infelicidade sendo expressa por todo seu corpo, assim como alguém que fala “Eu não sou pago o suficiente para isso”, apertou os olhos e abaixou a cabeça:
“Informem apenas de onde estão vindo e a razão de entrada no reino de Solmaria.”
“Ah, sim, claro”, Saiga puxou o mapa e pesquisou ele com atenção. “Viemos da Flor do Leste…”
O guarda, ao ouvir o nome da locação de onde o grupo saiu, se mostrou mais atento, a testa franzindo. Não entrou em guarda, mas era possível ver os olhos cerrados por baixo do capacete. Saiga deu atenção para isso, mas continuou:
“O motivo de virmos aqui é por causa da queda do Grande Xamã, então queremos aproveitar um pouco de liberdade, né…?”, um sorriso idiota. Um sorriso muito, mas muito idiota. O suor frio escorrendo pelo rosto, quase implorando que aquele nobre cavaleiro aceitasse essa desculpa esfarrapada e malfeita.
A encarada mais decisiva da vida de Saiga, até mais decisiva do que as que recebia no outro mundo. “Me deixa passar, por favor”, ele pensava. E após uma longa tortura psicologica, o guarda bufou. Da bolsa de couro que carregava na cintura ele puxou três pequenas pedras com o símbolo de “Entrada” gravado nela. “Vou precisar de nomes e ver o rosto dos outros dois”, ele falou. Saiga, como um trem a vapor, soltou todo o ar dentro de si e finalmente relaxando. Com uma voz fraca e aguda, falou:
“Saiga, Garand e Mauser, senhor”, e na ordem em que falava Mauser e Garand apareceram por trás com os rostos completamente surrados — as faixas de Garand agora estavam rasgadas, dando abertura para seus ferimentos voltarem a sangrar.
O guarda registrou seus nomes em uma prancheta com uma clara decepção, dando um sinal para abrir os portões e permitindo a entrada do grupo. Saiga o cumprimentou com um sorriso sem graça enquanto adentrava com o cavalo, mas ouviu, mesmo que de relance, o cavaleiro dizendo “Boa sorte”, mas decidiu ignorar. E então ali eles estavam: O Reino de Solmaria. Segundo as escrituras de Tanegashima, era um reino extremamente seguro pelas políticas agressivas do rei, então era quase impossível alguém fazer algo perigoso. “No fim é só se manter na linha, hein”, Saiga disse em voz baixa. Imaginava que talvez fosse um governo corrupto, mas a entrada e saída do reino era livre ao que parecia, então não conseguia tirar dali o que realmente fazia aquele lugar funcionar do jeito que funcionava — exceto pelas falas de Mauser, Solmaria sendo o reino que ajudaria Flor do Leste apenas em troca de permissão para explorar a região.
“Ho, aqui!”, uma voz masculina gritou ao canto. Era um homem em um grande estábulo. Saiga virou o cavalo, se aproximando. “Vocês não podem passar mais daqui de carroça, terei que pedir que você descarregue o que tem e deixe o cavalo e a carroça por aqui.”
Saiga concordou com a cabeça, afinal as ruas estavam realmente mais estreitas na medida que andavam. Se moveu até a estrada do estábulo e posicionou a carroça em uma área demarcada, dando tapas na madeira para os outros descerem.
“...”, Ele tinha uma expressão de decepção. “O que vocês estão pensando?”
Garand, carregando a mochila de Mauser e os outros pertences, estava com o rosto inchado, roxo e repleto de manchas de sangue. Mauser, ao lado, com lágrimas de tristeza e arrependimento, apenas conjurava alguns feitiços de cura simples que emitiam luzes douradas pelo corpo do ex-inimigo. Se os olhos de Garand não tivessem se transformado em duas bolas roxas como uvas gigantes, ele também choraria.
“Vamos apenas encontrar um lugar pra ficar”, o ruivo deu meia volta e começou a sair do estábulo. “Eu não vou aguentar isso por muito mais tempo.”
“Huhum…”, o dono do estábulo segurou os ombros de Saiga, enquanto com a outra mão fez um sinal fechando e abrindo. “O pagamento.”
“Pagamento…?”, Garand e Mauser travaram logo atrás do homem enquanto Saiga travava na fala. “Ah, claro… quanto seria o pagamento?”
“Quantos dias planejam ficar?”
“Não temos ideia.”
“São dez moedas por dia.”
“...”
“...”
“...”
“...”
No fim deixaram a carroça e o cavalo sob domínio do reino na parte de fora, uma área onde davam permissão para que o governo daquele lugar usasse daquilo deixado da forma que desejassem. Voltaram para dentro do reino por uma porta pequena debaixo dos olhares de várias pessoas que os viram entrar, sair e entrar de novo. Murmúrios como “Será que são tão pobres que não conseguem nem pagar o estábulo?”, “Ouvi que vieram do norte”, “Pobrezinhos”.
“Mas que desgraçado!”, Garand gritava, o trio andando na rua com frustração. “Dez moedas é muita coisa! O velho Tanegashima só nos deixou treze!”
“Treze moedas dada a situação do vilarejo é bastante coisa”, Mauser resmungava, os braços em volta do pescoço de Saiga que a arrastava como uma bolsa que chega ao chão. “Mas ninguém imaginava que os preços desse lugar fossem tão altos.”
“Ah…”, Saiga, exausto, sentou em um banco de pedra numa praça do reino. O sol quase não atingia o lugar devido às imensas construções de madeira e tijolos gélidos dali, o enorme castelo construído num morro rodeado de diversas outras casas aos moldes de fantasias clássicas como conhecemos hoje. “E a gente nem sabe o que fazer.”
Garand largou os pertences no chão e se jogou no banco, quase deitando usando o braço como apoio. “Como assim?”
“Tipo, o objetivo dos Guardiões é acabar com as guerras, mas a gente faz o quê? Vamos ler livros ou notícias de reinos em guerra? Aí o que, bater nos corruptos e assassinos e aí a paz tá na mão?”
“Sei lá, eu ia deixar essa parte na tua mão”, dentro de uma das mochilas Garand puxou um pedaço de pão e o dividiu dando um pedaço para Saiga.
“Ei, e eu?”, Mauser reclamou. Saiga, um pouco estressado, apenas levou o pão até a boca da garota que relaxou.
“Cara, te contar que eu não tenho quase ideia nenhuma”, o ruivo suspirou triste. “E se a gente tomar controle político de algum lugar? Como eu disse, somos diplomatas, então se conseguirmos alguma posição política alta podemos ter controle sobre algo.”
“Mas fazer isso no mundo todo vai ser praticamente impossível! Não vai dar pra terminar isso em tão pouco tempo como planejamos!”, a boca de Garand soltava farelos molhados de saliva.
Os três, em coro, deixaram lágrimas de infelicidade caírem.
“De toda forma vamos tentar falar com o rei desse lugar. O Tanegashima falou que os anciãos receberam as mensagens dos deuses, então deve ter um ancião aqui nesse reino”, Saiga falava girando o indicador apontado para cima. “E mesmo que não tenha ainda assim vamos conseguir alguma coisa já que eles podem ter o mesmo conhecimento que a Mauser e o pessoal do vilarejo de uma lenda sobre algo assim.”
“Qual o argumento?”
“Vamos chegar e falar algo como ‘Ó, Vossa Majestade, matamos o Grande Xamã e viemos aqui para dar fim a todas as guerras’!”
Os três se encararam e soltaram uma gargalhada desajeitada. “De jeito nenhum que iam aceitar algo assim”, falaram ao mesmo tempo.
“Mesmo assim ainda temos que arrumar um lugar pra dormir”, Saiga comentou.
“Eu não quero dormir na rua”, Garand reclamou mordendo um pedaço do pão.
“Nem eu”, Mauser tremia só de pensar na possibilidade.
“Eu também não, mas não acho que o dinheiro que temos vai nos manter por mais de dois dias considerando o preço das coisas que vimos andando até aqui”, Saiga apoiou o queixo com o polegar. “Só se a gente sair e ir dormir na floresta aqui do lado usando os sacos de dormir…”, sentiu um arrepio na espinha pelos olhares maliciosos dos companheiros. “Ou a gente vai até o rei mais cedo e tenta conversar com ele de uma vez.”
“Mas e a nossa bagagem? Não vale deixar tudo na carroça, o reino vai levar tudo”, Garand levantou um ótimo ponto.
A praça começava a ficar mais movimentada. Mais e mais pessoas das mais diversas classes andavam por aí na medida que algumas lojas abriam e barracas se estabeleciam. Mais ao fundo, um grupo de pessoas utilizando sobretudos de cor cinza chamaram a atenção do trio, mas eles apenas consideraram um bando de esquisitões — eles mal dando noção de que eram os únicos três sem teto com uma enorme bagagem no meio de uma praça.
“E se a gente só alugar algo por hoje e vocês irem amanhã falar com o rei? Já tá ficando bem tarde mesmo”, Mauser terminava sua refeição limpando a boca nas costas da blusa de Saiga.
“Como assim ‘vocês irem amanhã’?”, Garand levantou com raiva apontando para a menina.
“Ué, os Guardiões são vocês, eu não tenho nada haver com isso!”, ela deu de ombros com um sorriso presunçoso. “Eu vou ficar tranquila na cama de algum estabelecimento enquanto vocês vão resolver suas coisas de Guardião!”
“Ora, sua…!”, Garand já estava pronto para iniciar outra briga quando foi impedido por Saiga que o pressionou com um olhar vazio e cansado.
“Olha, ela meio que tem razão, além de que ela que tá cuidando da gente nos curando enquanto não temos energia pra usar nenhum feitiço”, ele se levantou, Mauser ainda apoiada nos seus ombros sendo arrastada. “Vamos aproveitar que ainda é cedo e arrumar uma pousada ou algo assim, nos estabelecemos e dormimos até amanhã bem cedo quando tivermos a chance de ir até o castelo e ter pelo menos uma audiência com o rei.”
Garand rosnou de raiva encarando os dois. Na sua mente “Esses dois tão se unindo contra mim!” era o único pensamento que se tinha, mas ele engoliu o orgulho e voltou a carregar a mochila. O sol já se punha, o céu sendo dividido entre um dourado pendendo para o laranja de um lado enquanto do outro um forte roxo dominando até mesmo as nuvens. Toda construção estava completamente lotada, desde lojas até bares. Para cada fachada que encontravam os preços da noite eram fora da curva. Se não pesquisassem direito, gastariam todo o dinheiro em uma única noite de sono, mas não teriam dinheiro para comida ou para outros dias debaixo de um teto. Em certo ponto perceberam que já estavam bem alto, quase no topo do morro do reino, se aproximando do castelo. Muitas luzes apagadas, com exceção das lanternas carregadas pelos guardas fortemente armados. No fim, realmente, só poderiam estar lá em um horário mais nobre. De toda forma, naquele momento tiveram uma visão perfeita de todo o reino, as luzes debaixo acesas até o fim da muralha. Sons das músicas, pessoas comemorando seja lá o que fosse que estivessem comemorando. Mesmo que o ar frio batesse contra o corpo dos viajantes naquele momento, não se sentiam oprimidos, mas confortáveis.
“Heh…”, claro, se não for levado em consideração os preços dos quartos naquele nível do reino.
Decidiram voltar para baixo até finalmente encontrarem uma taverna com um preço acessível e banheiros abertos para os clientes. O único problema foi que o único quarto que podiam pagar tinha apenas uma cama — um único quarto já poderia ser considerado um grande problema visto que um membro do grupo era uma menina ainda nova, o que fez Garand sugerir que deixassem ela dormindo na rua, quase desenvolvendo outra briga. O acordo foi de que Mauser dormisse na cama enquanto os rapazes dormissem nos sacos de dormir.
A primeira noite confortável do grupo naquele novo mundo. A primeira noite confortável da sua real primeira aventura.
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