GuardiõesLivro 2 – Capítulo 14 - Uma Viagem Tranquila
Capítulo 14Quando no outro mundo o objetivo dos dois estrangeiros era certo: viver uma vida tranquila no campo. Na verdade era o objetivo de Garand — sonhava com o dia em que poderia largar seu emprego e viver ao lado de Sapphire em um cantinho isolado, longe de tudo e todos tendo apenas a companhia um do outro. O fato de Saiga desejar o mesmo era graças a sua paixão pela natureza do universo, seja a grama verde do campo, o céu que multicolore de formas quase infinitas, a brisa que vem forte. “Ah…”, Mauser suspirou.
“Ah…”, Garand e Saiga suspiraram.
E quando mais uma forte corrente de ar bateu contra a carroça, balançando a grama e trazendo o doce frescor das planícies:
“Ah…”, os três suspiraram em relaxamento.
“Eu sempre quis algo assim”, disse Mauser sentada com zero preocupações em sua mente. “Depois de tanta tortura agora eu posso sentir essa delicia que é a liberdade de fora da vila.”
Saiga, deitado com a cabeça apoiada no colo de Mauser e recebendo um cafuné apenas sorria com os olhos fechados. “Eu também… Não que eu tenha passado oito anos de terror, mas você entendeu. Isso é muito bom mesmo.”
“A gente devia largar todo esse negócio de Guardião e só morar aqui”, Garand comentou bocejando.
“Mas e a Sapphire e o nosso mundo?”
Garand deu um salto quase caindo e arregalando os olhos. “Isso! É isso que eu preciso fazer!”, e seu corpo fraquejou, puxando as rédeas do cavalo e arrastando o corpo num giro para trás. “Mas eu tô tão molinho… Saiga…!”, e de um jeito manhoso ele se jogou para o chão da carroça, deitando por cima do amigo.
“Cara, você tá mortinho de sono, sabia?”, Saiga o empurrou, jogando ele para o outro lado e se levantando. “Se não aguenta o tranco, deixa na minha mão que eu guio esse cavalo.”
“Você sabe fazer isso por acaso?”, Mauser perguntou.
“Eu já subi em um cavalo quando teve um evento com animais na minha cidade…”, ele pensou, apoiando o queixo com o polegar enquanto puxava as rédeas. “Na real era um pônei… potro? Não sou muito bom com nome de bicho, mas era algo assim, sabe? Um cara me ensinou que é só ser bonzinho e eles vão seguir o caminho certo.”
“Só presta atenção no mapa e na trilha”, Garand tentou se aproximar de Mauser para deitar em seu colo também, mas seu rosto foi empurrado com os pés da garota bem devagar para o outro lado. “Mas o que essa menina tá fazendo com a gente mesmo?”
“Eu quero carona”, ela disse sem pensar. “Alias, gostei do senhor Saiga, então é uma boa companhia de viagem.”
“É, mas somos os Guardiões que vão acabar com as guerras, então uma menininha não devia estar conosco”, o loiro reclamou com a cara afundada no chão de madeira. “E falando sério, você nem deve saber que merda é um Guardião, né?”
“Olha a boca”, Saiga comentou na frente.
“Eu sei o que são os Guardiões sim, seu boçal”, ela reclamou. “São lendas que o ancião Tanegashima contava quando éramos crianças. Até hoje em dia ele conta pra dar esperança… Mesmo que todos já tenham perdido há algum tempo.”
“Então somos tipo o que, lenda urbana do mundo em que vivemos?”, Garand apoiou a cabeça com o braço ainda deitado. “E que intimidade é essa? Eu pensei que você não fosse tão inteligente.”
E uma briga se iniciou. A carroça balançava como em um terremoto enquanto os dois lutavam de um lado para o outro. Saiga apenas sorriu:
“Eu queria deixar para falar sobre essas coisas quando estivessemos a sós, Garand, mas acaba que com toda a situação que passamos até agora muita coisa nem precisou de explicação.”
“E como é que essa daí lidou tão bem com o fato de sermos de outro mundo?”, falou com deboche empurrando Mauser para longe e se encolhendo no canto como um gato arisco.
“Eu já acreditava nisso quando criança.”, Mauser se ergueu para alcançar um cantil de água, limpando o sangue da boca após mais uma mordida em cheio, dessa vez no braço de Garand. “Só de vocês matarem o Grande Xamã já me convenceu perfeitamente de que se existissem os heróis das histórias que eu ouvia, então são vocês.”
“Uhm…”, Garand olhou para baixo, encarando um buraco na madeira da carroça. “Parece só um…”
“Artifício de roteiro?”, disse Saiga.
“Um artifício de roteiro preguiçoso”, Garand completou.
E no horizonte, iluminado pelo sol, Saiga pôde ver as muralhas de um reino — aquele no qual o grupo se dirigia. Saiga sorriu e gritou “Estamos chegando logo logo.”
Garand levantou os braços comemorando, Mauser apenas sorriu bebendo sua água.
Estavam a pelo menos um dia inteiro de viagem. Na noite do primeiro dia pararam no canto da estrada de terra, amarrando o cavalo em uma árvore e fechando a carroça com a lona. Montar uma fogueira não foi nada fora do comum, na verdade mais simples do que seria devido à capacidade de utilizar magia dos aventureiros. Por fim, não houve nem mesmo a chance de uma interação mais longa: Saiga e Garand estavam extremamente exaustos graças às batalhas do dia. Para a felicidade dos dois Mauser, a jovenzinha, era uma exímia mágica no uso de mágicas de cura, utilizando bem dos símbolos e conceitos daquele mundo. Claro, ainda era assustador para ela o fato de Garand no seu primeiro dia utilizando magia ter conseguido usar mais de cinquenta conceitos em um único feitiço. “Coisa da elite”, ela disse, algo como mágicos simples se sentirem extremamente drenados utilizando apenas sete conceitos pela necessidade de os mentalizar em seguida ser complicado. De todo modo era conveniente e benéfico ter ela no grupo já que os Guardiões estavam tão exaustos e com um baixo nível de mana em seus corpos.
“Como cês acham que vamos ser recebidos?”, Saiga perguntou, a carroça balançando a cada buraco e pedra no caminho.
“Se eles souberem logo de cara que somos os Guardiões, eu quero muita carne e uma cama bem quentinha pra dormir!”, Garand salivava se revirando e balançando as pernas como uma garotinha.
“E como eles vão saber que vocês são os Guardiões, seu imbecil?!”, Mauser gritou jogando o cantil na cabeça de Garand, fazendo um som oco.
“Para!”, ele levantou, pronto para mais uma briga. “Por que você me maltrata tanto?!”
“Você afundou minha cara assim!”, ela se jogou contra ele novamente, agora apertando o rosto dele com apenas uma mão da mesma forma que ele apertou o dela no vilarejo no dia passado.
“Era por que você me cutucou desse jeito!”, e Garand, em resposta, cutucou a cabeça de Mauser até se formar um galo.
“Gente, relaxa um pouco aí”, Saiga fazia uma leve curva para a esquerda. “Você tem que lembrar que a Mauser quem cuidou dos seus ferimentos, Garand.”
Garand abaixou a cabeça, pensativo.
“E você, Mauser, foi o Garand quem te protegeu no nosso primeiro encontro e também foi ele que nos reviveu.”
Mauser abaixou a cabeça, triste.
Eles olharam um para o outro.
“Mauser…”, disse Garand, num tom baixinho.
“Garand…”, Mauser falou com doçura.
E, num momento único, se abraçaram e começaram a chorar gritando “Me perdoa!” como duas crianças que se machucaram no calor do momento. Saiga, na frente da carroça, apenas dava mais uma curva e falava “Ho, pocotó.”
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