Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa — Capítulo 11.1: Volume 6 – Volume 6 (parte 1)

Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa
Cap. 11.1
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Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa

Volume 6 – Volume 6 (parte 1)

Capítulo 11.1

28.675 palavras~125 min de leitura

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0. Frente a Frente

(00/03)

Yuki voltou para seu apartamento.

(01/03)

Ela acendeu as luzes.

Seu lar — um único cômodo de seis tatames — revelou sua aparência de sempre, inalterada.

No entanto, havia algo ali dentro que irradiava uma presença estranha.

Não — era duvidoso até mesmo chamar aquilo de “algo”.

Pois, embora emanasse uma sensação de existência ilimitada, sua forma oscilava de maneira instável.

<Aquilo> possuía uma aparência idêntica à de Yuki.

Cabelos longos e desalinhados, um rosto sem vida, um agasalho gasto — e uma aura semelhante à de um fantasma.

Estava sentado no chão, de pernas cruzadas, com a postura arrogante de um executivo da yakuza.

Mesmo estando dentro de casa, havia tirado os sapatos — e, ainda assim, eles não estavam na entrada.

Esse detalhe indicava que ela não possuía um corpo físico.

Que era uma <Fantasma>.

Ainda assim, por mais que Yuki forçasse a visão, não conseguia apagar <aquilo> do seu campo de visão.

Como se zombasse de seus esforços, o fantasma curvou os lábios.

"É inútil. Minha existência já é meio independente de você. Encher a cara não vai me fazer desaparecer."

Até a voz era exatamente igual à de Yuki.

"Quem diabos é você?", Yuki perguntou.

"Eu já te disse antes, não disse? Eu sou você."

"Por que eu consigo ver algo como você? Por que você apareceu?"

"Acho que você entende isso melhor do que qualquer um, não entende? Quem me chamou... foi você mesma."

Yuki ficou em silêncio.

Porque aquilo acertou em cheio.

Assim como aquilo disse — na verdade, ela já tinha uma ideia.

Durante o tempo em que encontrou o fantasma do lado de fora do apartamento e voltou para casa, Yuki vinha se lembrando.

Lembrando do que havia feito.

Tamamo.

Uma jogadora de beleza tão marcante que qualquer um não podia deixar de olhar.

Yuki havia abandonado sua posição como mestra de Tamamo, cortando os laços com uma desculpa conveniente.

Mais tarde, elas se reencontraram no clímax de <Royale Palace> (“Palácio Real”).

Yuki foi levada a uma situação em que só poderia sobreviver matando Tamamo com as próprias mãos.

“Me envolvi com alguém de forma superficial… por isso fui punida.”

Pensando assim, ela fez o que precisava ser feito.

E agora — entregando-se a um sentimentalismo como se tivesse algum valor — ela estava vendo aquilo.

Yuki fechou o olho esquerdo.

Ela olhou para sua versão fantasma apenas com o olho direito.

Pensando normalmente, aquilo era absurdo.

O olho direito de Yuki já havia perdido a visão; deveria ser impossível enxergar qualquer coisa.

E, ainda assim, a figura da fantasma era refletida naquele campo de visão.

Ela estava vendo com um olho que não deveria ver.

E sentia sua presença com clareza.

Durante <Palácio Real>, Yuki adquiriu uma forma de enxergar que não dependia da visão.

Além disso, possuía uma habilidade inata de perceber presenças.

Se esses dois fatores funcionassem de maneira distorcida —

Ela poderia perceber a existência de alguém que, na verdade, não estava ali.

O gatilho foi Tamamo.

A execução foi feita pelos sentidos sobre-humanos de Yuki.

Esse era o contexto que deu origem àquele fantasma.

"Resposta correta", declarou a fantasma.

Por ser ela mesma, parecia capaz de ler seus pensamentos.

"Graças a você ter refinado suas habilidades, eu consegui me manifestar assim. Sou até grata por essa técnica."

Mas o fantasma continuou:

"Não consigo deixar de desprezar sua mentalidade. Chocada por ter matado uma discípula? Ah, por favor. Não aja de forma tão patética. Isso não combina com você."

Yuki não respondeu.

"O que aconteceu com você? Antes você era uma pessoa mais simples. Desde quando começou a pensar tanto, de forma tão complicada? Foi aquilo? Aquele 'Doutora' (Hakushi) te influenciou mal? Ou foi Mishiro? Ou talvez a própria Tamamo? De qualquer forma... isso é pura afetação. Relaxa um pouco."

O fantasma então encarou Yuki diretamente.

"Lembre-se. Lembre-se de que tipo de pessoa você era originalmente."

Como se informações estivessem sendo despejadas em sua mente através daquele olhar, a consciência de Yuki foi guiada para o passado.

(02/03)

Para Yuki, o momento que poderia ser chamado de o início de sua vida.

Era, naturalmente, o Nono Jogo — <Candle Woods> (“Floresta dos Tocos”).

O jogo de batismo que fez de Yuki quem ela é hoje.

No entanto, em termos materiais, sua vida existia muito antes disso.

Antes de <Floresta dos Tocos> — naquela época, Yuki apenas vivia sem propósito, interpretando o papel de discípula inútil da Doutora.

E — ainda antes disso.

Quando se tratava do período anterior ao encontro com a Doutora, aquilo já estava além até mesmo do esquecimento.

Yuki evitava ao máximo lembrar daqueles dias.

Ela podia aceitar o período como discípula como uma fase de transição até o presente.

Mas o seu “eu” daquela época era, para dizer o mínimo, imperdoável.

Uma existência que ela nem sequer queria permitir dentro de sua própria consciência.

Mas agora — tendo chegado a esse ponto — não havia mais escolha senão encarar o passado.

Que tipo de pessoa ela tinha sido.

O quão insensível ela havia sido.

(03/03)

1. Corrida de estreia (primeira vez)

(00/25)

Setsuna acordou no topo de um andaime construído bem alto no ar.

(01/25)

Era o topo de uma estrutura imensa — algo como uma torre de vigia, um posto de observação, ou talvez um farol.

O andaime tinha cerca de quinze metros de largura. As bordas eram completamente cercadas por corrimãos. O material era principalmente madeira, e não havia teto. Consequentemente, nada bloqueava a luz, e o sol iluminava todo o local.

Foi em um andaime como esse que Setsuna despertou.

Parecia que ela não era a única que havia acordado. Havia muitas outras garotas ali. Quase todas já estavam de pé; algumas olhavam ao redor inquietas, outras estavam encostadas no corrimão relaxando — cada uma passando o tempo à sua maneira.

Contando rapidamente, havia cerca de cinquenta pessoas.

Todas tinham mais ou menos a mesma idade que Setsuna — garotas jovens — e, além disso, todas vestiam exatamente a mesma roupa.

Setsuna puxou o tecido da roupa que vestia e o examinou.

Era um uniforme de educação física.

Tecido branco com uma textura característica, com detalhes pretos na gola e nas mangas. No peito, no pedaço de pano costurado na frente, estavam escritos dois caracteres: seu próprio nome, Setsuna.

Na parte de baixo ela usava bloomers.

Um tipo de roupa que já havia desaparecido das escolas há muito tempo e que hoje em dia só é usado por atletas.

Neste país, existem basicamente duas situações em que alguém usa um uniforme de educação física.

A primeira é durante a aula de educação física na escola.

A segunda é quando alguém está envolvido em algum tipo de atividade ilegal.

Setsuna sabia que, desta vez, era a segunda situação.

Setsuna se levantou e caminhou até a borda do andaime.

Segurando o corrimão, ela observou o cenário ao redor.

E então — não conseguiu esconder sua surpresa.

Do lado de fora do andaime, bem abaixo, havia um campo denso de estacas afiadas.

Não eram pequenas como as usadas em arranjos de flores.

Eram enormes, grandes o suficiente para atravessar um corpo humano inteiro.

Elas estavam espalhadas de forma irregular, lembrando um grupo de árvores coníferas.

As estacas cercavam o andaime por todos os lados.

Se estendiam por uma distância maior que o diâmetro do próprio andaime — pelo menos trinta metros — sem nenhuma abertura.

Depois disso, havia uma floresta de coníferas de verdade.

Parecia que o andaime havia sido construído em uma clareira dentro da floresta, mas apenas o perímetro imediato estava coberto por aquela maldade artificial.

Ela já tinha recebido uma explicação antes, mas mesmo assim não conseguiu evitar o choque.

Setsuna teve certeza.

Isto é um jogo de assassinato real.

(02/25)

Um jogo de assassinato realizado no submundo.

Se alguém o completasse, receberia uma quantia absurda de dinheiro.

Esse foi o resumo da explicação que Setsuna recebeu da agente.

Ela havia participado com um sentimento de descrença — não é possível que algo assim exista — mas depois de ver aquilo com os próprios olhos, não tinha escolha a não ser acreditar.

Ainda havia dúvidas sobre a veracidade da quantia absurda de dinheiro, mas isso não era o mais importante.

Porque o que Setsuna realmente esperava era a parte do jogo de assassinato.

"Com licença."

Alguém chamou por ela.

Quando virou a cabeça, viu duas jogadoras.

Uma parecia uma universitária.

A outra parecia uma aluna do ensino fundamental.

Ao olhar para elas, Setsuna pensou:

Talvez sejam irmãs.

Seus rostos eram parecidos e estavam abraçadas com força.

A mais baixa — provavelmente a irmã mais nova — estava enterrando o rosto no peito da outra enquanto a abraçava.

A que parecia ser a irmã mais velha acariciava gentilmente a cabeça dela.

Por causa da posição das duas, não era possível ver os nomes escritos em seus uniformes.

"Podemos conversar um pouco?" disse a irmã mais velha.

"Ah... sim."

Setsuna ficou um pouco nervosa por ser abordada por uma estranha, mas respondeu.

"Obrigada. Eu estava com vontade de falar com alguém. Estou muito ansiosa..."

Dizendo isso, a garota olhou para a irmã menor que estava abraçada a ela.

Não se sabia se ela estava com medo ou simplesmente não conseguia falar, mas permaneceu em silêncio.

"Bom... é claro que dá ansiedade", respondeu Setsuna. "É um jogo onde vidas estão em risco."

"Então realmente é isso... Você já participou antes?"

"Não. É minha primeira vez. Mas dá pra perceber só de olhar."

Setsuna olhou para o campo de estacas à frente.

"...Pelo que observei", disse a irmã mais velha. "Acho que temos que atravessar aqueles troncos."

O rosto de Setsuna ficou tenso.

Ela percebeu que sua expressão tinha ficado sombria.

Sim — o impacto das estacas era tão grande que ela nem tinha prestado atenção nisso antes.

Entre as estacas havia vários troncos de madeira espalhados.

Alguns eram grossos, outros finos, mas todos estavam cortados na mesma altura.

Comparados à densidade das estacas, estavam relativamente espaçados.

A distância entre um tronco e outro era menor que um metro.

Ou seja, parecia possível saltar entre eles com um salto em distância parado.

Além disso, Setsuna já havia notado o que parecia ser o destino final.

Bem longe — tão longe que seria necessário saltar dezenas de troncos para chegar — havia outro andaime.

Assim como este, também era feito de madeira.

Mas, diferente deste, não era uma plataforma isolada.

Dele saía um caminho.

Setsuna seguiu o caminho com os olhos, mas ele desaparecia dentro da floresta.

Estacas.

Troncos.

Um andaime distante.

O que esses elementos significavam?

"Provavelmente é um percurso de obstáculos sobre troncos", disse a irmã mais velha. "Um jogo em que precisamos atravessar esse percurso perigoso."

"Se for isso... não é brincadeira", respondeu Setsuna. "Ninguém faria algo assim."

"Talvez não tenhamos escolha."

"O que quer dizer?"

"Tem mais uma coisa que me preocupa. No centro do andaime..."

Ela se virou.

"É mais rápido você ver."

Setsuna e as irmãs caminharam até o centro.

Ali havia um grande monitor LCD instalado no chão.

Algo estava sendo exibido nele, mas—

"...Tem alguém dormindo", disse Setsuna.

De fato.

Uma jogadora estava dormindo em cima da tela.

Ela era alta, tinha cabelos longos e pele pálida como a de um fantasma.

No uniforme dela estava escrito Yuki.

Seu corpo cobria quase toda a tela.

"Quando eu olhei antes não estava assim", disse a irmã mais velha. "Será que ela rolou enquanto dormia?"

Setsuna olhou ao redor.

A única pessoa ainda dormindo era aquela garota chamada Yuki.

Pensando que ela era muito dorminhoca, Setsuna a moveu de lugar.

Mesmo assim ela não acordou.

Agora finalmente era possível ver a tela.

Nela havia um cronômetro.

Ele estava contando regressivamente.

Restavam cerca de três minutos.

"Acho que significa que o jogo começa quando chegar a zero."

Setsuna concordou.

Talvez fosse apenas um sinal para começar o jogo.

Ou talvez algo mais acontecesse.

Mas certamente alguma coisa iria acontecer.

Então elas esperaram.

(03/25)

De repente—

CLANG

Um som de algo caindo ecoou.

Setsuna não conseguiu identificar de onde veio.

Então olhou ao redor.

Demorou alguns segundos para perceber o que havia mudado.

Não porque fosse algo pequeno.

Mas porque a mudança era grande demais.

Os corrimãos tinham desaparecido.

Todos os corrimãos que cercavam o andaime tinham sumido.

"...Você viu isso agora?" perguntou Shizuku.

"O que aconteceu?" perguntou Setsuna.

"Os corrimãos... caíram. Junto com o chão debaixo deles."

Setsuna olhou para a borda.

Não havia nenhum vestígio dos corrimãos.

Ela então olhou novamente para o cronômetro.

O cronômetro, que tinha chegado a zero, agora mostrava:

14:50

Ele continuava diminuindo.

"...Será que o jogo começou?" disse Setsuna.

Shizuku balançou a cabeça.

"Não sei."

A situação ainda não permitia uma conclusão clara.

É verdade que sem os corrimãos ficava mais fácil saltar para os troncos.

Mas isso sozinho não confirmava o início do jogo.

Ninguém se movia.

Todos apenas observavam.

O tempo continuava passando.

Quando o cronômetro passou de 12 minutos—

O evento decisivo aconteceu.

Num instante—

O chão do andaime começou a desaparecer.

Assim como os corrimãos antes.

A borda estava sendo raspada para dentro.

E então—

Desabou.

Algumas garotas estavam naquela parte.

Algumas conseguiram correr para o centro.

Outras não tiveram tanta sorte.

Os gritos continuaram por alguns segundos.

E então—

O som de madeira quebrando.

E o som horrivelmente real de carne sendo perfurada.

Depois disso—

Silêncio.

Um silêncio pesado e nauseante.

Mesmo com pessoas morrendo, ninguém gritava.

Era como se, se gritassem, aquilo se tornaria real.

Depois de um tempo, alguém murmurou:

"São três metros..."

A voz tremia.

"Passaram três minutos... então três metros..."

Setsuna entendeu imediatamente.

O andaime tinha 15 metros.

O cronômetro tinha 15 minutos.

A cada 3 minutos, 3 metros da plataforma desapareciam.

Até que nada restasse.

Portanto, antes disso acontecer—

Era necessário pular para os troncos.

Esse era o jogo.

(04/25)

Yuki acordou no topo de um andaime construído bem alto no ar.

(05/25)

"Mu..."

Gemeu baixinho, enquanto se sentava.

A luz do sol invadia seus olhos ainda grudados de sono.

Parecia estar ao ar livre.

Ela estava deitada sobre um chão de madeira.

Havia muitas outras garotas ao redor, e o ambiente estava levemente caótico.

Yuki franziu a testa, sem entender o que estava acontecendo.

"Ah, finalmente acordou...!"

Uma voz veio de perto.

Ao olhar, viu uma mulher bonita.

Por algum motivo, ela vestia um uniforme de educação física, e no peito estava escrito < Setsuna >.

Seria esse o nome dela?

A mulher chamada Setsuna falou com extrema urgência:

"Rápido! Anda logo!"

"O jogo já começou! Se você não se apressar, vai morrer!"

Sinceramente, a urgência não combinava com aquelas palavras.

Antes de tudo, Yuki ainda não entendia por que estava em um lugar como aquele.

Que jogo?

"Que jogo?" Yuki expressou sua dúvida de forma direta.

"...Tch...!"

Como se tivesse ouvido algo inconveniente, Setsuna fez uma careta.

Um segundo depois, assumindo uma expressão séria—

"Escuta, Yuki-san."

Ela disse.

"Presta atenção. Eu vou explicar só uma vez. Não temos tempo. Ouve uma vez e entende, ok?"

Sem entender muito bem, Yuki respondeu:

"Sim."

"Estamos participando de um jogo de sobrevivência. Este é o ponto de partida. O jogo já começou. A partir de agora, assim como aquelas pessoas..."

Setsuna apontou para fora do andaime.

Sobre troncos que se estendiam à frente, várias garotas saltavam de um para outro.

"Temos que pular pelos troncos e chegar até aquele outro andaime. Porque este aqui vai desabar em alguns minutos. Precisamos escapar antes disso. Entendeu?"

Mesmo com a mente ainda meio entorpecida, Yuki absorveu a explicação sem dificuldade.

"Ah..."

Deixou escapar um som de compreensão.

"Eu vi algo assim em um drama recentemente."

"Ótimo que você entende rápido. Agora, vamos."

Puxada pela mão por Setsuna, Yuki se levantou.

Foi então que percebeu que também estava vestindo um uniforme de educação física.

"A propósito... por que uniforme de educação física?", perguntou.

"Não me lembro de quando trocamos de roupa."

"...Eu explico depois! Só cala a boca e me segue agora!"

Ela foi repreendida com um olhar ameaçador.

Yuki obedeceu e ficou em silêncio.

Yuki observou os troncos posicionados ao redor do andaime.

Os diâmetros variavam — alguns eram grossos, outros finos.

Setsuna mirou no mais grosso de todos — provavelmente o mais fácil de alcançar — e recuou alguns passos.

Tomando impulso suficiente para cobrir a distância entre o andaime e o tronco—

Setsuna saltou.

A distância foi ligeiramente insuficiente para aterrissar diretamente em cima.

Ela bateu a cabeça na borda, e seu corpo colidiu com a lateral — ainda assim, conseguiu se agarrar ao tronco.

Segurando-se com firmeza, subiu com esforço.

Quando finalmente alcançou o topo com segurança, soltou um grande suspiro, como se tivesse escapado por pouco.

Que pessoa desajeitada, pensou Yuki.

Já em pé, Setsuna fez um gesto com a mão: < Vem >.

Yuki obedeceu.

Seguindo os mesmos passos de antes, ela saltou—

—diretamente para o mesmo tronco onde Setsuna estava.

"...!????"

A uma distância tão próxima que podia sentir sua respiração, Setsuna arregalou os olhos.

Mesmo sendo um tronco grosso, o espaço era apertado para duas pessoas.

Yuki e Setsuna se agarraram instintivamente, balançando para frente e para trás, até finalmente recuperarem o equilíbrio.

"Ei... o que você está fazendo!? Yuki-san!"

"Ué... não podia?"

"Cada uma vai por um caminho diferente! Não sobe no mesmo tronco que eu!"

Ah, é assim?, pensou Yuki.

"Dava pra perceber, não dava!? Fica apertado com duas pessoas!"

"Mas você disse pra eu te seguir..."

"...Eu disse! Mas entende o contexto...!"

Depois de gritar tanto, a voz de Setsuna já estava rouca.

Desculpa, pensou Yuki — embora também achasse que a explicação dela tinha sido ruim.

"De- de qualquer forma..." disse Setsuna. "Não podemos perder tempo. Vamos pular logo. Esse tronco também vai quebrar quando o tempo zerar."

Setsuna bateu de leve no tronco com a ponta do pé.

Havia também uma tela LCD presa ao tronco, exibindo uma contagem regressiva.

Restavam cerca de quinze segundos.

Provavelmente significava que ele desabaria quando chegasse a zero.

"Entendi", respondeu Yuki.

"Então... quem vai primeiro?"

(06/25)

Recuperando-se, Yuki e Setsuna começaram o desafio dos troncos.

Embora tenham tido um pouco de dificuldade no início, depois tudo fluiu tranquilamente.

Os troncos estavam dispostos em quantidade e densidade suficientes para que os saltos não fossem difíceis. Se pulassem com calma, era improvável falhar. De fato, olhando ao redor, poucas jogadoras caíam no meio do percurso.

"Imagino que... isso seja apenas a primeira fase", comentou Setsuna.

Mantendo uma distância em que ainda podiam conversar, Yuki e Setsuna avançavam.

"Cursos assim... provavelmente existem vários pela frente. Afinal, aquele andaime ali tem um caminho continuando..."

Yuki olhou para o andaime de destino.

De fato, havia um caminho se estendendo a partir dele. Isso indicava que ainda haveria mais desafios depois de chegar lá.

Entendo — sendo a primeira barreira, a dificuldade é apropriada.

Yuki e Setsuna avançaram sem problemas.

Foi tão tranquilo que Yuki nem chegou a ficar entediada a ponto de pegar no sono novamente — isso não aconteceu.

Embora fosse um percurso simples, houve alguns momentos tensos.

Em certa ocasião, ela pisou em um tronco por onde alguém já havia passado. O cronômetro já estava ativado, restando apenas dez segundos. Ela rapidamente saltou para outro tronco e escapou do perigo.

Em outro momento, seu cabelo longo acabou se prendendo na casca de um tronco. Deixando alguns fios para trás, decidiu amarrá-lo dali em diante.

Recebendo esse tipo de estímulo moderado, Yuki continuou avançando—

E então, o terceiro problema surgiu bem antes do objetivo.

"...Não tem caminho", disse Setsuna.

O andaime final do primeiro percurso — o trajeto pelos troncos.

Ao redor dele... quase não havia mais troncos.

Yuki entendeu imediatamente o motivo.

Dezenas de jogadoras já haviam passado por ali antes delas. Como os troncos se quebravam automaticamente após serem pisados, era natural que acabassem.

Em outras palavras, o oposto de uma trilha: quanto mais utilizado, mais difícil se tornava de atravessar.

Olhar para baixo confirmava essa hipótese.

Misturados às estacas, era possível ver grandes destroços de troncos quebrados.

Originalmente, havia muitos ali.

"Não temos escolha a não ser dar a volta..."

Dizendo isso, Setsuna olhou para o lado direito do andaime.

Ainda restavam alguns troncos naquela direção.

Dar a volta aumentaria a distância, mas certamente seria mais seguro.

Mas—

"Que preguiça", disse Yuki.

"Não dá pra atravessar assim mesmo?"

Ela observou atentamente os poucos troncos restantes à frente.

E, embora escassos, parecia possível atravessar com esforço.

"Se for assim, assim e assim... acho que dá."

Yuki indicou o trajeto com o dedo.

"Não, não..." Setsuna balançou a cabeça.

"Pode até ser possível, mas não precisamos nos arriscar à toa..."

Yuki ignorou o aviso.

Como o cronômetro do tronco estava perto de zerar, ela saltou para o próximo.

E disse para Setsuna:

"Setsuna-san, você pode ir pela direita."

"De qualquer forma, não parece que dá pra duas pessoas irem juntas."

"...Você está falando sério?"

Parecia meio dramático, mas Yuki respondeu:

"Sim."

"Entendi... Tome cuidado."

Assim, por enquanto, as duas se separaram.

Setsuna foi pela direita.

Yuki seguiu em frente.

Yuki olhou para o primeiro tronco do percurso.

Seriam necessários quatro saltos.

Aproveitando ao máximo a largura do tronco e tomando impulso com apenas um passo—

Yuki saltou.

Primeiro salto: sucesso.

Segundo salto: ficou um pouco curto, e ela bateu na lateral, como Setsuna antes.

E então — o terceiro.

O mais difícil.

Prevendo que não alcançaria apenas com o impulso, Yuki girou o corpo no ar e esticou os braços.

Por pouco, conseguiu agarrar a borda com a ponta dos dedos.

Usando ao máximo o atrito dos dedos, puxou o corpo para frente, raspando os sapatos contra o tronco, até conseguir subir.

O quarto salto era praticamente simbólico, devido à curta distância.

Quando chegou ao andaime, Setsuna ainda não estava lá.

Natural — afinal, Yuki escolheu o caminho mais curto.

Pouco depois, felizmente, Setsuna também chegou em segurança.

Soltando um suspiro profundo—

"...Impressionante", disse ela.

"Obrigada", respondeu Yuki.

"Ugh..."

Ao olhar para o chão do andaime, Setsuna fez uma careta.

No centro havia um cronômetro, igual ao do início.

A contagem regressiva já estava em andamento.

Yuki percebeu que ele começou a correr no momento em que Setsuna chegou.

Yuki olhou para trás, para o caminho de troncos.

Até onde conseguia ver, não havia mais ninguém.

Parecia que elas eram as últimas.

Provavelmente, o cronômetro começava assim que a última jogadora chegava.

Ou seja — aquele lugar também não era seguro.

"Vamos seguir?"

Sem saber quem começou, as duas disseram quase ao mesmo tempo e avançaram pelo caminho.

Era largo o suficiente para caminharem lado a lado, com corrimãos nas laterais.

Dos dois lados, havia estacas, como antes.

Parecia impossível sair dali.

Ou seja, abandonar o jogo no meio não era uma opção.

Além disso, ao longo do caminho também havia cronômetros instalados em intervalos regulares.

"Esse lugar também vai desabar?" perguntou Yuki.

"Acho que sim", respondeu Setsuna. "Os caminhos e andaimes vão se destruindo, então somos forçados a seguir em frente. Esse deve ser o conceito do jogo."

Como um jogo de rolagem lateral forçada, pensou Yuki.

(07/25)

Seguindo pelo caminho, havia outro andaime amplo.

Pelo que Setsuna viu, era do mesmo tamanho do anterior.

Mais adiante, havia outro ainda.

Como sempre, estacas estavam posicionadas abaixo.

Mas o que conectava os dois andaimes não eram troncos.

Eram redes de arame farpado.

Três ao todo, esticadas verticalmente.

Como uma aranha subindo uma parede, parecia que teriam que atravessá-las.

Das jogadoras que chegaram antes, cerca de metade já estava enfrentando as redes.

A outra metade formava filas, esperando sua vez.

No total, restavam pouco menos de quarenta pessoas.

Como originalmente havia cerca de cinquenta, isso significava que mais de dez já haviam morrido ou avançado.

Entre elas, havia rostos conhecidos.

"Ah... vocês estão bem."

Era Shizuku.

Ela estava na fila junto com a irmã.

"Sim, por enquanto", respondeu Setsuna.

"Oh... e a pessoa atrás é..."

O olhar de Shizuku se voltou para Yuki.

Parecia lembrar da garota que estava dormindo sobre o cronômetro.

"Sim, atravessamos juntas", disse Setsuna.

"Ela ainda estava dormindo quando o andaime começou a cair... então eu a acordei."

"Obrigada", disse Yuki, fazendo uma leve reverência.

Shizuku sorriu de forma sem graça.

"Deve ter sido difícil..."

"A propósito, essa fila... é pra esperar?", perguntou Setsuna.

"Parece que sim. Acabou acontecendo naturalmente. Como são redes, se muita gente subir de uma vez, pode quebrar... ou travar lá na frente."

"Entendo..."

Mas então Setsuna percebeu algo.

"Mas... por que vocês estão na fila? Vocês não chegaram primeiro?"

Shizuku e sua irmã haviam começado antes.

Era natural pensar que também chegaram antes.

"Bem... é que..."

Shizuku hesitou.

Nesse momento, Setsuna sentiu um olhar.

A irmã de Shizuku estava olhando para ela com medo.

Seus olhos estavam inchados, e no uniforme — onde estava escrito < Kanade > — havia marcas de lágrimas.

Parecia ter chorado bastante.

Não parecia ferida... mas algo devia ter acontecido.

Setsuna ficou curiosa, mas decidiu não perguntar.

"Então... até mais."

Assim, ela e Yuki entraram na fila.

"Ela é sua conhecida?", perguntou Yuki.

"Sim."

"Parecia uma pessoa normal."

"Na verdade, acho que é mesmo. Ela e a irmã... parecem não ter entrado nisso por vontade própria."

"Ei... então tem gente assim também."

Finalmente chegou a vez delas.

Setsuna foi primeiro, Yuki atrás.

Segundo obstáculo — rede de arame farpado.

Diferente dos troncos, aqui havia um caminho contínuo, então a dificuldade era menor.

Se segurassem bem, era difícil cair.

Mas ainda assim, não era fácil.

Afinal, era arame farpado.

Cheio de pontas afiadas.

Não dava pra segurar com força — era preciso se apoiar com cuidado, usando os dedos.

Com atenção para não se cortar, as duas avançaram.

Por um tempo, nada aconteceu.

Até que—

O problema surgiu.

A jogadora à frente de Setsuna parou.

Parecia travada.

Vozerios começaram a surgir adiante.

Setsuna tentou ver o que estava acontecendo, mas não conseguiu.

"Deu algum problema?" perguntou Yuki.

"...Espera um pouco. Não balança a rede", disse Setsuna.

"Ah... foi mal."

Sem muito remorso, Yuki se desculpou.

Que pessoa despreocupada, pensou Setsuna.

Elas esperaram.

Mas a situação só piorava.

As vozes se tornavam cada vez mais altas.

Parecia uma discussão.

"Parece que alguém travou lá na frente..."

Aparentemente, uma jogadora havia machucado a mão no arame e não conseguia continuar.

A pessoa atrás tentava forçá-la a seguir — mas de forma agressiva, o que só piorava a situação.

A discussão escalou.

Setsuna suspirou internamente.

Ela odiava conflitos.

Só de ouvir aquilo, seu estômago já se revirava.

"...Huh?"

Disse Yuki.

"Essa voz... não é daquela pessoa?"

"Eh?"

"Shizuku... ela está tentando acalmar, né?"

Setsuna ouviu com atenção.

De fato, havia uma terceira voz — mais calma.

Era Shizuku.

Ela imaginou a situação.

Talvez quem estivesse travada fosse a irmã dela — Kanade.

Mas não tinha como ter certeza.

"...Tô entediada", disse Yuki.

Setsuna ignorou.

E apenas desejou:

Que aquilo acabasse logo.

(08/25)

Enquanto Yuki e Setsuna conversavam, o congestionamento finalmente se desfez.

Parecia que algum tipo de acordo havia sido alcançado.

Sem escorregar da rede — e sem cair junto com o andaime pelo tempo esgotado — as duas conseguiram superar o obstáculo do arame farpado.

Seguindo pelo caminho após o andaime, surgiu o terceiro obstáculo — tirolesa.

Cabos se estendiam de pontos altos para pontos mais baixos, pelos quais era possível deslizar pendurado em uma roldana.

Havia cinquenta deles — provavelmente correspondendo ao número inicial de participantes.

À primeira vista, não parecia perigoso.

Mas as jogadoras rapidamente entenderam o verdadeiro significado.

Era, basicamente, uma loteria.

Alguns cabos provavelmente se romperiam no meio do trajeto.

Ou talvez as roldanas quebrassem, lançando a pessoa no abismo.

Ou seja — havia “falhas” preparadas de propósito.

As jogadoras tentaram identificar quais eram, mas era impossível.

Todos pareciam exatamente iguais.

Era um jogo puramente dependente da sorte.

À medida que o tempo do andaime se esgotava, uma a uma se entregavam ao acaso, escolhiam um cabo e saltavam.

Como esperado, várias caíram.

Yuki e Setsuna não estavam entre elas.

O quarto obstáculo era um trampolim.

Vários trampolins gigantes estavam instalados entre os andaimes, e o objetivo era quicar e alcançar o outro lado.

Yuki passou com facilidade.

Já Setsuna teve dificuldades, indo de um lado para o outro antes de conseguir.

O quinto obstáculo foi uma trave de equilíbrio.

O sexto, escalada.

E o sétimo — piscina de correnteza — foi o mais difícil até então.

Entre os andaimes havia uma piscina com uma corrente extremamente forte.

Além disso, a água transbordava pelas bordas.

Ou seja, se fosse arrastada pela corrente, a pessoa seria jogada para fora.

Com o uniforme encharcado e pesado, Yuki conseguiu atravessar nadando.

Ofegante, ela observou as outras jogadoras descansando.

Cerca da metade havia tirado o uniforme.

Pode tirar?, pensou.

Devia ter feito isso também...

Ao completar esse obstáculo, restavam vinte e cinco participantes.

Segundo Setsuna, eram cerca de cinquenta no início — ou seja, metade havia sido eliminada.

E mesmo as restantes estavam visivelmente desgastadas.

Os desafios contínuos não afetavam apenas o corpo —

A mente também estava sendo destruída.

As expressões haviam se tornado sombrias.

Uma escuridão desagradável.

Algo vai acontecer, pensou Yuki.

E então — aconteceu.

(09/25)

Oitavo obstáculo — ponte suspensa.

Três pontes ligavam os andaimes.

Assim como no arame farpado, havia múltiplas opções.

Mas, diferente de antes — todas estavam em péssimo estado.

Pontes rudimentares feitas inteiramente de material vegetal.

As tábuas estavam cheias de espaços e desgastadas.

Os corrimãos, feitos de cipós, estavam quase se desfazendo.

E as cordas que sustentavam tudo pareciam extremamente frágeis.

Mesmo com o vento leve, rangiam de forma inquietante.

As jogadoras já haviam aprendido o suficiente para entender.

Era preciso atravessar com cuidado, sem fazer a ponte desabar.

As três pontes eram, na prática, “vidas extras”.

Se todas caíssem, não haveria mais como atravessar.

E quem não tivesse passado... perderia o jogo.

Não era chamativo como os outros desafios —

Mas tinha potencial para eliminar todas.

As jogadoras discutiram e decidiram:

Atravessar uma de cada vez.

Era a escolha mais lógica.

Com galhos, sortearam a ordem.

A primeira foi Kanade.

Mas—

"...!!"

Ela balançou a cabeça desesperadamente.

E se agarrou à irmã, Shizuku.

"...Desculpem. Até ela se acalmar... podem adiar a vez dela?"

Shizuku pediu, acariciando a cabeça da irmã.

"Não tem problema, certo? Quem vai antes pega a ponte em melhor estado... por favor."

Nem todos gostaram da ideia, mas aceitaram.

Provavelmente algo parecido já tinha acontecido antes.

Com isso, decidiram a ordem e começaram.

A quinta pessoa derrubou a primeira ponte.

Rápido demais.

Um murmúrio se espalhou.

A segunda ponte resistiu mais, mas caiu na décima oitava pessoa.

Restava apenas uma.

E então — Kanade foi chamada novamente.

Mesmo mais calma, ela avançava tremendo.

Todas observavam.

Quando chegou ao meio da ponte—

O vento soprou forte.

A ponte balançou violentamente.

As cordas rangiam.

Yuki pensou: acabou.

Mas não caiu.

Kanade se segurou.

E sobreviveu.

Mas—

Ela não se moveu.

Sentou-se ali mesmo.

Paralisada pelo medo.

E então disse:

"Eu não consigo..."

"Não dá... não consigo mais andar."

Talvez fosse físico.

Talvez fosse medo.

Mas o resultado era o mesmo.

O progresso havia parado.

"Tá de brincadeira..."

Alguém murmurou irritada.

"Kanade!"

Shizuku chamou do outro lado.

"Não consegue andar?"

Kanade assentiu.

"Então... pode engatinhar. Não precisa andar..."

Mas ela negou.

Imóvel.

"ANDA LOGO!"

Alguém gritou.

"Não temos tempo!"

O cronômetro continuava correndo.

"Quer morrer sozinha? Não leva a gente junto!"

"Para com isso!" Shizuku rebateu.

Mas a situação não mudava.

O tempo passava.

E estava ficando impossível.

"......"

Não vai dar, pensou Yuki.

Palavras não vão funcionar.

Alguém precisa agir.

E esse alguém—

Era ela.

Sem hesitar—

Yuki avançou.

Antes que alguém pudesse impedir—

Ela pisou na ponte suspensa.

(10/25)

Setsuna viu tudo.

Do outro lado do andaime, ela testemunhou claramente toda a sequência.

Do “ponto seguro” que havia garantido ao tirar o décimo segundo lugar, observava atentamente.

Yuki — pisou na ponte suspensa.

Sem fazer barulho, como uma fantasma.

Sem balançar a ponte.

E ainda assim — com a velocidade de uma rajada de vento — ela avançou.

Num instante, chegou ao centro.

Antes que Kanade, sentada ali, percebesse sua presença—

Yuki empurrou seu ombro.

Com força.

Para o lado esquerdo.

Naquela ponte, não havia nada que impedisse uma queda.

Apenas corrimãos frágeis de cipó.

Se alguém perdesse o equilíbrio, não havia como parar.

E, naturalmente—

Kanade caiu.

No momento da queda, seu rosto estava vazio.

Provavelmente, ela nem entendeu o que havia acontecido.

Por isso—

Ela não gritou.

Apenas o som de um corpo caindo.

E então—

O som grotesco das estacas perfurando carne.

Em menos de um minuto—

Kanade desapareceu da ponte.

Ninguém disse nada.

Nem uma palavra.

Como se todas tivessem ficado iguais a ela naquele último instante—

Vazias.

Se alguém tivesse empurrado Setsuna da mesma forma, ela também teria morrido ali.

Aproveitando esse silêncio absoluto—

Yuki atravessou a ponte completamente.

Ela ignorou a ordem definida.

Mas ninguém reclamou.

Não era uma situação em que alguém pudesse reclamar.

"Obrigada."

Yuki falou normalmente.

"...Obrigada", respondeu Setsuna, com dificuldade.

"Foi por pouco."

Disse Yuki, olhando para trás.

Não parecia alguém que havia acabado de matar outra pessoa.

Era como se tivesse esmagado um inseto.

"Yuki... san."

Nesse momento—

Todos, exceto Yuki, congelaram.

Shizuku falou.

"Sim?", respondeu Yuki, como sempre.

"......"

Shizuku apenas a encarou.

Setsuna pensou.

O que vai acontecer agora?

As possibilidades eram inúmeras — e todas ruins.

O pior cenário era completamente possível.

O silêncio se prolongou.

"Algum problema?", disse Yuki.

Mas havia algo implícito ali.

—A culpa foi da sua irmã, não foi?—

"...Não. Não é nada."

No fim, Shizuku disse apenas isso.

Ela não parecia com raiva.

Nem triste.

Apenas— incapaz de aceitar.

O que havia acontecido era absurdo demais.

Irreversível demais.

E ela não conseguia lidar com isso.

Logo depois, a próxima pessoa começou a atravessar.

A terceira ponte suportou o peso.

Uma por uma, as jogadoras restantes passaram.

Ninguém mencionou Kanade.

Como se fosse proibido falar sobre aquilo.

Para Setsuna, aquilo parecia…

A essência de algum mundo.

Ignorar o inconveniente.

Fingir que não aconteceu.

Setsuna olhou para Yuki.

Ah—

Essa pessoa vai sobreviver.

Alguém capaz de empurrar outra pessoa no momento decisivo.

Alguém que luta — e vence.

Alguém que aceita isso como algo natural.

Ela… é diferente de mim.

(11/25)

Todas terminaram de atravessar a ponte.

Exceto pelas duas que caíram junto com as pontes e Kanade—

Não houve mais mortes.

Como de costume, havia um caminho à frente.

As jogadoras seguiram juntas.

Ninguém culpou Yuki por quebrar a ordem.

Que sorte, pensou Yuki.

Elas chegaram ao último obstáculo.

Era óbvio — havia um grande arco escrito <GOAL>.

Mas, logo abaixo, havia portas alinhadas.

E não era possível passar sem atravessá-las.

As jogadoras tentaram abrir.

Mas estavam trancadas.

Quinze portas.

Todas numeradas.

Nenhuma abria.

Pareciam frágeis — dava até pra arrombar.

Mas no momento em que alguém sugeriu isso—

Armas surgiram nos pilares.

Apontadas diretamente para elas.

Controle remoto.

Sistema anti-trapaça.

As garotas recuaram imediatamente.

"...Alguém tem chave?"

Silêncio.

"Alguém viu algo parecido com chave nos obstáculos?"

Nada.

"Então devem estar ali dentro..."

Disse Yuki.

À frente havia uma praça.

Do mesmo tamanho dos andaimes anteriores.

E parte do chão era um grande buraco.

Uma piscina.

Mas não de água.

Era uma piscina de bolas coloridas.

Gigante.

Muito maior que qualquer uma que Yuki já tinha visto.

Grande o suficiente para todas entrarem.

Ou seja—

As chaves estavam ali.

Talvez no fundo.

Talvez dentro das bolas.

De qualquer forma—

Seria um trabalho enorme procurar.

E havia um cronômetro.

46:02

Mais uma vez—

Tempo limitado.

"Espera..."

Alguém disse.

"Mas são só quinze portas..."

Ou seja—

Apenas quinze sobreviveriam.

Simples assim.

"Vamos sem ressentimentos?"

Disse uma voz.

A mesma de antes.

"Sacrifícios são inevitáveis. Então, sem rancor."

"O que isso quer dizer?" perguntou Yuki.

"Quer dizer que roubar a chave de alguém também vale?"

"...Cada uma interpreta como quiser."

Resposta vaga.

"Todas prontas?"

Ninguém respondeu.

Então ela bateu palmas.

"Então— comecem!"

(12/25)

As jogadoras avançaram de uma vez para a piscina de bolas.

Yuki, Setsuna — e até mesmo Shizuku, ainda em estado de choque — entraram, ainda que com passos lentos.

Ao entrar, Yuki percebeu imediatamente a profundidade.

A água… não — as bolas chegavam até sua cintura.

Era mais fundo do que parecia.

Ou seja, havia muito mais bolas do que o esperado.

Isso tornava tudo ainda mais difícil.

Pensando nisso, Yuki pegou uma bola colorida e a observou.

Se havia chaves escondidas ali dentro, deveria haver algum mecanismo.

E ela estava certa.

Havia uma linha no meio da bola.

Como uma cápsula de gachapon.

Ela aplicou força e abriu.

Nada dentro.

Jogou fora.

Enquanto pegava a segunda, olhou ao redor.

A maioria estava fazendo o mesmo.

Algumas abriam as bolas.

Outras apenas sacudiam.

Entendi, pensou Yuki.

Se a chave estiver solta, dá pra sentir pelo peso ou pelo som.

Mas… também pode estar presa por dentro.

Se for assim, só sacudir pode fazer alguém perder a chave.

Era uma questão de eficiência versus risco.

Yuki pensou por um instante—

E decidiu um método intermediário.

Segurava uma bola vazia em uma mão.

Na outra, a bola a ser testada.

Comparava o peso.

Depois, sacudia levemente.

Se sentisse algo diferente — abria.

Se não — descartava.

Assim, diminuía o risco de perder uma chave…

Sem desperdiçar tempo demais.

Era o método mais eficiente.

E então—

Yuki começou a trabalhar rapidamente.

Depois de alguns minutos—

"...Ah."

(13/25)

Esse foi o fator decisivo.

O maior elemento que moldou a experiência peculiar de Yuki naquele jogo.

Sem esse “milagre”, mesmo alguém como Yuki…

Não teria deixado de perceber.

Era algo que, de certa forma, podia ser chamado de sorte.

Ou talvez…

Algo como a própria “vontade do jogo”.

Como se o destino a tivesse escolhido.

Como se estivesse sendo convidada.

Para aquele mundo.

De qualquer forma—

Yuki, poucos minutos após começar—

Encontrou uma chave.

(14/25)

“—Ah.”

Setsuna ouviu alguém murmurar.

Ao olhar na direção da voz, viu Yuki.

Ela estava segurando uma chave.

Era uma chave de aparência completamente comum, tanto no tamanho quanto no formato. Não havia chaveiro nem nada do tipo. Como Yuki a segurava pela parte serrilhada, Setsuna conseguiu ver o número <6> gravado na cabeça da chave — provavelmente correspondente ao número da porta.

“Não me diga que ela já achou…” — Setsuna não foi a única a pensar isso. A própria Yuki encarava a chave, meio atônita, enquanto as outras jogadoras ao redor faziam o mesmo.

Como se quisesse escapar daqueles olhares concentrados, Yuki se encolheu um pouco, fez uma leve reverência e disse:

“…Com licença, vou na frente.”

E então saiu da piscina de bolas.

“E-espera, espera, Yuki-san!”

Sem pensar duas vezes, Setsuna a chamou.

“Antes de ir, por favor me diga! Onde e em que estado estava a chave?”

“Hã? Ah…”, respondeu Yuki. “Hum… estava dentro de uma bola verde. Não estava presa, e fazia barulho quando sacudia, então percebi na hora.”

Essa informação é enorme, pensou Setsuna.

Talvez nem todas as chaves estejam em bolas verdes… mas o fato de estarem dentro das bolas provavelmente é certo. Isso significa que não há mais necessidade de abrir cada uma para conferir.

Yuki se dirigiu até a porta.

Nesse momento, duas… três jogadoras começaram a segui-la. Não parecia que iam tentar roubar a chave. Quando Yuki percebeu a presença delas, virou-se e perguntou: “Aconteceu algo?”, e todas recuaram com sorrisos constrangidos.

Ainda havia quatorze chaves na piscina, e ninguém queria se meter com alguém como Yuki — ainda mais depois do que ela havia feito na ponte suspensa.

Mesmo assim, quando Yuki inseriu a chave na porta <6> e a abriu, uma das jogadoras tentou entrar logo atrás.

Foi então que—

Um disparo seco ecoou.

Uma das armas instaladas no arco disparou. A parte de trás da cabeça da jogadora foi completamente destruída, e, incapaz de se sustentar, ela caiu no chão.

Não foi apenas um tiro — foi como se tivesse sido esmagada por uma bala. Uma destruição brutal.

O sangue que jorrou se transformou instantaneamente em uma substância branca ao entrar em contato com o ar.

—<Tratamento de Preservação>.

As jogadoras haviam passado por modificações corporais previamente, fazendo com que o sangue solidificasse imediatamente. Setsuna já tinha ouvido sobre isso pela agente e havia visto corpos perfurados por estacas se transformarem daquela forma.

Mas ver de perto… era a primeira vez.

O disparo veio sem aviso.

Embora houvesse um “alerta” anterior ao fixar o alvo ao verificar as portas, parecia que quanto mais clara a intenção de violar as regras, mais severa era a punição.

As outras jogadoras que tentavam seguir Yuki se dispersaram rapidamente.

A própria Yuki olhou para a jogadora caída por um instante, mas logo se recompôs e atravessou o arco.

A porta se fechou automaticamente.

Como a chave ficou na fechadura, alguém tentou abri-la novamente, observando com cautela a arma. Mas não abriu.

Parecia que, uma vez fechada, a porta não podia mais ser aberta.

Nem mesmo a chave podia ser retirada.

As jogadoras desistiram e voltaram para a piscina.

Resumindo: trapaça não é permitida.

Setsuna voltou a procurar uma chave.

Sacudir a bola, jogar fora. Sacudir, jogar fora. Repetindo aquele movimento monótono até se tornar entediante.

Tão entediante que seus pés começaram a se mover sozinhos, andando em círculos na piscina como um cachorro perseguindo o próprio rabo.

Após alguns minutos, ela sentiu algo diferente.

Não vinha de uma bola.

Vinha do seu pé.

Algo bateu nele.

Não parecia ser uma chave — era grande demais. Mesmo assim, Setsuna pegou o objeto para verificar.

Era uma faca dentro de um coldre.

“…!?”

Setsuna ficou chocada.

Por reflexo, afundou o objeto de volta na piscina.

Então observou ao redor.

As outras jogadoras estavam focadas nas bolas. Ninguém parecia ter visto.

O que significa isso?

A mente de Setsuna se encheu de confusão.

Por que há uma faca aqui?

Uma armadilha? Não… se fosse, estaria exposta.

O fato de estar em um coldre indica: use isto.

Para quê?

A resposta era óbvia.

Vinte e duas jogadoras. Quinze chaves.

A oferta não cobre a demanda.

Um confronto é inevitável.

Ou seja—

Uma ferramenta para isso.

Setsuna olhou ao redor novamente.

Todas estavam com bolas. Nenhuma arma visível.

Será que era a única? Ou ela foi a primeira a encontrar? Ou… todas já tinham encontrado, e isso fazia parte de um acordo tácito de “sem ressentimentos”?

“….”

Discretamente, Setsuna ergueu a perna direita dentro da piscina.

Passou o pé pelo coldre.

E equipou a faca.

“Achei!”

No mesmo instante, alguém gritou.

O coração de Setsuna disparou.

Uma jogadora segurava uma chave, avançando pela piscina.

Setsuna sentiu como se a faca em sua perna estivesse queimando.

“Perseguir…?” — o pensamento passou pela sua mente.

Mas desapareceu logo em seguida.

Impossível.

Atacar alguém com uma faca… ela não conseguia sequer conceber isso.

Mas para as outras garotas, parecia diferente.

Uma sombra surgiu atrás da jogadora que saía da piscina.

Outra participante.

Na mão, não uma chave, mas um objeto parecido com um grande cortador.

Mesmo vendo pela primeira vez, Setsuna reconheceu imediatamente.

Um taser.

A garota atacou pelas costas.

Um choque.

A chave foi roubada.

Sem interferência de outras, a ladra abriu a porta e chegou ao objetivo.

A vítima caiu no chão, contorcendo-se de dor.

Quando o efeito passou, levantou-se.

E virou uma ladra também.

Outra jogadora encontrou uma chave.

Ela tentou fugir, mas foi bloqueada.

Sem armas, virou uma briga brutal.

Cabelos puxados. Arranhões. Socos. Chutes. Insultos.

Incapaz de assistir aquilo, Setsuna desviou o olhar.

Eu não consigo fazer isso.

Só posso encontrar uma chave por conta própria.

Pensando assim, mergulhou ainda mais na busca.

Mas não encontrou.

O tempo passou.

20 minutos.

15 minutos.

Uma chave após outra sendo encontrada.

E, a cada vez, um confronto feio.

Sem participar de nenhum, Setsuna continuou procurando.

E então—

Quando restavam pouco mais de 10 minutos—

Ela encontrou.

(15/25)

Ela soube imediatamente.

Sem nem precisar sacudir.

Assim que pegou a bola, ouviu um leve som… e sentiu o peso diferente.

Setsuna conteve a empolgação.

Calma.

Calma.

Calma.

O importante começa agora.

Encontrar a chave foi só metade do objetivo.

A outra metade… era muito mais perigosa.

Ela olhou rapidamente ao redor.

Cerca de dez jogadoras ainda estavam na piscina.

Se descobrissem que ela tinha uma chave, todas se tornariam inimigas.

Isso não podia acontecer.

Ela afundou a bola na piscina.

E a abriu dentro d’água.

Pelo tato, confirmou.

Era uma chave.

Afastando as bolas, deu uma rápida olhada.

Número <8>.

Ela escondeu a chave dentro do uniforme.

E continuou fingindo procurar.

Pegava bolas. Sacudia. Jogava.

Enquanto se movia lentamente até a borda.

Quando chegou perto o suficiente, analisou a área das portas.

Ninguém à espreita.

Olhou para as jogadoras.

Ninguém suspeitando.

Dá pra fazer.

Ela se convenceu.

Tomou sua decisão.

No mesmo instante em que lançou uma bola—

Ela correu.

Saiu da piscina.

Atravessou a praça.

Tirou a chave do uniforme.

Em poucos segundos—

Inserir na porta <8>.

Abrir.

Escapar.

Ela conseguia ver claramente esse futuro.

Sem falhas.

Perfeito.

Era o que ela acreditava.

Mas—

(16/25)

Por que isso acabou assim?

Shizuku vinha pensando nisso o tempo todo.

Até ontem, meu mundo era pura paz.

Uma irmã meio avoada, uma mãe inteligente que sempre dizia “Shizuku puxou a mim”, um pai meio bobo que respondia “Então a Kanade puxou a mim”… aquela vida divertida dos quatro deveria continuar para sempre.

Por que isso virou assim? Quem está errado? O que está errado?

Shizuku pensava, mas nenhuma resposta surgia.

Foi então que ela encontrou uma arma na piscina de bolinhas.

Era uma pistola.

Aquela coisa, surpreendentemente leve como um brinquedo, parecia mostrar o caminho.

Eu devo usar isso.

Mas o momento foi ruim.

Quando Shizuku encontrou aquilo, a pessoa em quem ela mais queria usar já havia alcançado o objetivo.

Então, o que eu faço? Quem eu escolho?

O coração de Shizuku buscava um culpado.

E então, ela chegou a uma certa conversa.

“A Yuki-san ainda estava dormindo mesmo quando o andaime começou a cair…”

“Eu a acordei, e fomos juntas.”

O olhar de Shizuku se voltou para quem disse aquilo.

Setsuna.

Isso mesmo.

Se aquela pessoa não tivesse acordado a Yuki, isso não teria acontecido.

Assim como Yuki, ela também deve ser considerada uma das principais culpadas.

Não só caçar e matar Yuki depois que esse jogo acabar… ela também deve ser eliminada aqui.

Assim, minha paz será restaurada.

Com isso, o coração de Shizuku se reconstruiu.

A partir dali, ela passou a observar cuidadosamente o comportamento de Setsuna.

Eventualmente, ao perceber que ela parecia ter encontrado uma chave, Shizuku fingiu não notar e escapou do seu campo de vigilância.

Provavelmente para enganar as outras jogadoras, Setsuna fingiu procurar uma chave por um tempo, e então saiu correndo da piscina.

Shizuku imediatamente apontou a arma e disparou várias vezes.

O terceiro tiro atravessou a perna direita dela.

(17/25)

“...!!”

Setsuna soltou um som que nem parecia uma voz.

Sem conseguir manter o equilíbrio, ela caiu.

Uma dor pulsante, diferente da queda, começou a atacar repetidamente.

Setsuna apalpou o próprio corpo e encontrou a origem.

De sua perna direita, uma espécie de material branco estava saindo.

Graças ao <Tratamento de Preservação>, o sangramento havia parado… mas doía.

Uma dor ardente — Setsuna sentiu o verdadeiro significado dessa expressão na própria pele.

O ferimento era pequeno, do tamanho de um dedo — mas ela entendeu que era um tiro.

Ela foi baleada.

Por quem?

O olhar de Setsuna se voltou naturalmente para a piscina.

E então — ela viu Shizuku, com a arma apontada, se aproximando.

“…Isso está errado.”

Shizuku murmurou.

“Não era para termos vindo a um lugar assim. O natural era voltarmos em segurança. Era assim que deveria ser.”

O tom da sua voz lembrava Kanade.

Não apenas porque são irmãs.

Mas porque seu estado mental era o mesmo — desgastado, à beira do colapso.

Shizuku desviou a arma de Setsuna e apontou para os jogadores na piscina.

Depois de intimidá-las para evitar interferências, alternando a mira entre Setsuna e as outras, ela se posicionou de forma que pudesse reagir a qualquer um.

“Você encontrou uma chave, Setsuna-san.”

Disse Shizuku, olhando para a chave que caiu ao lado dela quando foi baleada.

“Posso pegar? Junto com a sua vida.”

Dizendo isso, ela colocou o dedo no gatilho.

Ao encarar o cano da arma, a dor pulsante na perna de Setsuna invadiu sua consciência.

Ela até teve a sensação de que um laser invisível já estava apontado para ela.

Setsuna olhou para a faca na sua perna.

Ela também tinha uma arma — mas… não adiantava.

Ela não sabia usar aquilo, nem tinha determinação para isso.

Por isso, ela estava procurando uma chave.

Além disso — sua perna está ferida, e o oponente tem uma arma.

Como ela poderia vencer?

Ela não conseguia ver nenhuma saída.

As palavras de Shizuku só reforçavam isso.

Isso mesmo.

Ela foi arrastada para esse jogo.

Entre ela e alguém que entrou por vontade própria, quem merece viver?

Isso nem precisava ser pensado.

Além disso… você não entrou nesse jogo querendo um kaishaku (alguém para acabar com seu sofrimento)?

Você não estava cansada desse mundo cheio de conflitos?

Então isso não é exatamente o que você queria?

Deixe que ela te mate aqui.

Setsuna fechou os olhos.

Com uma expressão prestes a chorar, tentou rezar para Deus.

Mas, naquele momento—

A mão de um fantasma tocou a nuca de Setsuna.

(18/25)

Ela com certeza viu.

Aquela figura.

A jogadora fantasmagórica — Yuki.

Cortando o vento, com os cabelos esvoaçando, correndo pela ponte suspensa… naquele mundo de imagens, Setsuna viu sua figura.

Mas, naquela cena, quem Yuki empurrava não era Kanade.

— Era Setsuna.

Por algum motivo, era ela mesma na ponte, e Yuki empurrava aquele corpo como havia feito antes.

Setsuna caindo da ponte.

Yuki olhando para baixo.

Instantaneamente, a sensação daquele momento voltou de forma vívida.

Ela, que eliminou o obstáculo sem hesitar — ao ver aquela figura, Setsuna pensou: ela é diferente de mim.

Pessoas assim… são as que conseguem atravessar o mundo com sucesso.

Ela também sentiu algo como inveja.

E—

Se eu pudesse ser assim…

Ela pensou isso, com certeza.

Ah—é isso.

Aquela figura.

Aquele comportamento!

Aquela presença que elimina tudo e permanece sozinha sobre uma terra devastada.

Uma figura pura e inocente, que não pensa em coisas complicadas e confusas.

Assim…

Eu também quero agir perfeitamente.

No mundo da imaginação, Setsuna estendeu a mão para ela.

E, no mundo real…

sua perna deu um passo à frente.

(19/25)

Quando percebeu, ela estava correndo.

Abriu os olhos, se levantou e avançou imprudentemente na direção de Shizuku.

Mas… que estupidez.

Correr de frente contra alguém com uma arma é a pior estratégia possível.

E, para começo de conversa, ela nem conseguia correr direito.

No segundo passo — no momento em que colocou peso na perna direita ferida — gakun, Setsuna caiu.

Seu corpo inclinou, bateu no chão e rolou várias vezes pela praça.

No meio disso, ela ouviu um disparo.

Ela atirou.

Setsuna se preparou para a dor atravessando seu corpo, mas…

Nada.

Errou.

Mais tiros vieram — dois, três — mas nenhum acertou.

Talvez porque ela estava rolando?

Ou porque estava se movendo?

Pensando bem… da primeira vez também, só acertou no terceiro tiro.

Isso mesmo.

Dizem isso o tempo todo.

Mesmo que um amador tenha uma arma, não sabe usá-la direito.

Então o quê?

O oponente tem uma arma? Ela está ferida?

E daí?

É uma luta entre amadoras.

Ainda há chance!

Apoiando as mãos no chão, Setsuna se levantou.

Aprendendo com o erro anterior, ela avançou como um animal, usando as duas mãos e a perna esquerda.

Graças ao rolamento, a distância entre ela e Shizuku já havia diminuído bastante.

Menos de dez metros.

Shizuku apontou a arma para a Setsuna que se aproximava—

mas não atirou imediatamente.

Provavelmente decidiu mirar melhor.

Mas antes que pudesse concluir a mira, Setsuna já estava perto o suficiente e saltou.

No ar, ela puxou a faca.

Shizuku reajustou a mira para acompanhar Setsuna.

Por causa disso, seu corpo inclinou levemente para trás—

e Setsuna atingiu esse corpo com o joelho ao aterrissar.

Contato direto.

Distância zero.

Um confronto onde qualquer uma pode matar ou morrer a qualquer momento.

Setsuna cravou a faca no pescoço de Shizuku.

Shizuku pressionou a arma contra a testa de Setsuna.

Setsuna virou o rosto, tentando escapar da linha de tiro—

mas, dessa vez, a sorte não ajudou.

"...!!!!!!"

Uma dor e um calor como uma chapa de ferro em brasa pressionada contra seu rosto a atingiram.

Provavelmente, a bala raspou seu crânio.

Por causa do sangue ou das lágrimas, metade de sua visão ficou turva.

Seu cérebro está intacto?

Esse ferimento é fatal?

Ela não sabe.

Mas… por enquanto, seu corpo ainda se movia.

Ela também não perdeu a vontade.

A faca cravada no pescoço de Shizuku—

Setsuna afundou ainda mais.

Quando já não era possível ir mais fundo, Shizuku caiu para trás.

Pela posição, Setsuna acabou por cima dela.

Setsuna puxou a faca—

e desferiu um segundo golpe no peito.

Cabeça, abdômen, braços, pernas—

ela começou a esfaquear tudo indiscriminadamente.

“—Morra.”

Quando percebeu, estava dizendo isso.

“Morra! Todo mundo que me machuca, morra!!”

Ela continuou atacando sem parar.

Quase não sentia cansaço.

Provavelmente porque estava completamente fora de si.

Mesmo quando Shizuku parou de resistir…

Mesmo quando já era evidente que estava morta…

Setsuna não parou de golpear.

Porque sentia que, se diminuísse o ritmo por um segundo sequer, voltaria a ser quem era antes.

Eventualmente, uma rajada de vento passou pela praça—

e tocou o ferimento no lado direito do rosto de Setsuna.

Uma dor aguda a trouxe de volta à realidade.

E então, ela se lembrou da situação.

Olhou para a piscina.

As outras jogadoras estavam completamente atônitas.

Isso mostrava o quão brutal havia sido a luta entre Setsuna e Shizuku.

Não parecia que iriam atacar—

mas, ainda assim, Setsuna pegou a arma da mão de Shizuku e as ameaçou, por precaução.

Onde está a chave?

Ela procurou.

Olhou ao redor—

nada.

Alguém pegou?

Quando pensou isso—

ouviu um tilintar.

A chave caiu de dentro de sua roupa.

Parece que, sem perceber, ela a havia enfiado no uniforme.

Setsuna pegou a chave.

Rastejando pelo chão, foi até a porta—

e atravessou a porta <8>.

(20/25)

Do outro lado da porta, uma estrada larga se estendia.

Apenas uma estrada larga. Não havia nada ali. Nenhum obstáculo, nenhuma estaca, nenhum cronômetro.

Ao olhar para trás, a porta <8> pela qual havia acabado de passar se fechava automaticamente. As letras <GOAL> escritas no arco apareciam invertidas desse lado.

A realidade de que havia alcançado o objetivo começou a brotar lentamente dentro de Setsuna.

“Q-Que aconteceu com esse seu rosto…?”

Ao ouvir isso, Setsuna se surpreendeu.

Virando-se, viu Yuki.

Ela estava ali, encostada no arco do objetivo, sentada como se estivesse esperando.

“Setsuna-san… certo? Acho que sim.”

Yuki falou com certa dúvida.

Metade do rosto de Setsuna estava coberta por aquela substância branca do <Tratamento de Preservação>, o que dificultava reconhecê-la. Ainda assim, pelo olhar de Yuki, parecia que ela havia identificado pelo nome no uniforme.

“Sou eu, Setsuna.”

Ao responder, a pele do rosto repuxou, causando dor.

“Então… já terminamos o jogo, né?”, perguntou Setsuna.

“Sim… provavelmente. Afinal, passamos pelo arco do objetivo.”

Yuki olhou para trás.

“Mas fiquei aqui esperando, só por precaução. Vai que não fosse o fim de verdade.”

—Vamos seguir por essa estrada?

Setsuna olhou à frente.

Ao longe, era possível ver algo parecido com a saída do campo. Depois de uma cerca de ferro, a estrada continuava como um caminho na floresta, com alguns carros estacionados.

“Não sei… mas todo mundo está indo pra lá.”

Yuki respondeu, quase como uma atendente de pachinko.

Parecia que ainda tinham que avançar um pouco.

Setsuna começou a caminhar ao lado de Yuki. Como sua perna direita não funcionava direito, pediu:

“Desculpa… pode me ajudar? Machuquei a perna…”

E passou a se apoiar nela.

Enquanto caminhavam juntas, seu coração começou a se acalmar.

A excitação foi diminuindo… e seu “eu” mais fraco voltou à tona.

Ela se lembrou do que havia feito.

“Yuki-san…”

“Sim?”

“Tem algo que eu quero confessar… você pode ouvir?”

“O quê?”

“Na praça… eu matei a Shizuku-san.”

Yuki não respondeu.

“Virou uma disputa pelas chaves… naquela piscina tinham várias armas escondidas… e… aconteceu um conflito. Esse ferimento foi por causa disso…”

“Hmm…”

“Eu fiquei com medo…”

A voz de Setsuna tremia.

“Medo de morrer. Quando chegou a hora… meu corpo se moveu sozinho.”

Pensando bem… o que ela estava fazendo?

Mesmo querendo morrer… quando a situação realmente apareceu, ela recusou… e matou outra pessoa.

Além disso… alguém comum, que só tinha sido arrastada para aquilo.

“O que eu faço…?”

Ela não esperava resposta.

Sabia muito bem.

Não há nada que possa fazer.

Alguém tão indecisa assim… não tem lugar nenhum para chegar.

Este mundo é um inferno.

Mas ela não tinha coragem de morrer.

Então—

não havia salvação para ela em lugar algum.

“Setsuna-san”, disse Yuki.

“Sim…”

“Talvez eu esteja falando isso meio tarde, mas… posso dizer uma coisa?”

“Pode…”

“Esse negócio de matar ou morrer… o que você tá falando desde antes?”

“…Hã?”

“Você fala como se isso fosse um jogo de morte de verdade.”

(21/25)

Ela nem conseguiu se surpreender.

Parecia que tinha ouvido algo completamente fora de contexto.

“Ha…?”

Foi tudo que conseguiu dizer.

“Eu já estava pensando nisso desde a parte do arame farpado…”, continuou Yuki. “Você está levando isso a sério demais, Setsuna-san. Você devia se acalmar. No fim das contas, isso é só um jogo.

Setsuna percebeu que sua boca abria e fechava sem sair som.

“Então isso é o que chamam de ficar sem palavras…”, pensou, estranhamente calma.

“Mas… é real…”

Demorou, mas conseguiu falar.

“Isso… é real…”

“Imagina”, Yuki riu.

Foi a primeira vez que Setsuna viu seu sorriso.

“Não tem como fazer algo assim no Japão moderno.”

“Eh… então… Yuki-san… o que você achava que isso era?”

“Algum tipo de projeto, né? Um programa de TV, ou coisa de vídeo, streaming… embora seja a primeira vez que vejo uma produção tão elaborada.”

“…Produção…”

Isso não fazia sentido.

Por mais insensível que alguém fosse, não dava pra chamar aquilo de “produção”.

“Mas… Yuki-san… você viu várias pessoas morrerem, não viu? As que falharam nos obstáculos… as que foram empaladas…”

“Eu vi, mas… elas foram mesmo perfuradas? Não tinha sangue. Só aquela coisa branca. Olha você também, Setsuna-san… você diz que está ferida, mas só tem isso aí.”

“Não… isso é efeito do <Tratamento de Preservação>…”

Ela parou no meio da frase.

…Eu expliquei isso pra Yuki?

“Além disso… foi você mesma quem disse, Setsuna-san. Que isso era só um jogo de sobrevivência.”

Pensando melhor…

Será que ela explicou direito que era um jogo de morte?

Ela lembrava de ter dito “jogo de sobrevivência”… mas, naquela situação, não entrou em detalhes.

Setsuna olhou para Yuki.

Ela não tinha um arranhão sequer.

Durante todo o jogo, não havia sofrido nenhum dano.

Ou seja…

Nunca teve a chance de perceber que aquela “coisa branca” era sangue.

Nunca enfrentou perigo real.

Agora fazia sentido.

Por não achar que sua vida estava em risco… ela agia de forma tão despreocupada.

“Mas mesmo assim…” — pensou Setsuna—, pelo clima das outras pessoas… ela não deveria ter percebido?

Que pessoa insensível…

E ainda assim—

Ela teve que admitir.

Essa garota venceu o jogo sem sequer entender a situação em que estava.

…Espera.

Então aquilo…

Quando Yuki empurrou Kanade na ponte…

Foi porque achava que ela não morreria?

Que só seria eliminada?

Então…

O que sou eu… que fui influenciada por isso e sobrevivi…?

“Setsuna-san?”

Com uma expressão levemente preocupada, Yuki se inclinou para olhar seu rosto.

“Você está bem? Setsuna-san… você está viva?”

Com essa única frase—

Tudo quebrou.

Setsuna começou a rir.

Como uma represa rompendo, risos e lágrimas transbordaram.

Mesmo com a dor no rosto, ela não conseguia parar.

Alegria, tristeza, absurdo, desespero—

Tudo se misturava.

E não havia como conter.

Do fundo do coração, ela pensou:

“Se alguém assim está vivendo… então não faz sentido eu morrer.”

(22/25)

Assim, o jogo chegou ao fim.

Um jogo composto apenas por iniciantes — <Maiden Race> (“Corrida de estreia”).

Número de participantes: cinquenta.

Sobreviventes: treze.

Das quinze chaves escondidas no obstáculo final, duas não foram encontradas, resultando em tempo esgotado.

Treze entre cinquenta — mesmo sendo um jogo só de iniciantes, o resultado registrou uma taxa de sobrevivência consideravelmente baixa.

Além disso, não foi apenas a taxa de sobrevivência que foi baixa; também foi difícil considerar a taxa de continuidade como alta.

Apenas duas pessoas permaneceram nesse mundo mesmo após sobreviverem.

Uma delas: nome de jogadora, Yuki.

Ela, que completou o jogo acreditando que era apenas um <jogo>, e mesmo após descobrir a verdade, decidiu continuar como jogadora.

“Talvez eu tenha talento”, pensou.

Embora tenha sido de uma forma um pouco irregular, a avaliação do agente que a recrutou aparentemente não estava errada.

E a outra é—

(23/25)

O agente de Yuki estava dirigindo um carro.

(24/25)

Um carro percorria uma estrada noturna.

Era um carro preto, que parecia prestes a se dissolver na escuridão a qualquer momento. Segurando o volante estava uma mulher com uma atmosfera fria, semelhante a uma Yuki-onna.

A mulher não possuía um nome verdadeiro.

Isso porque, ao se tornar uma agente, seu registro familiar foi apagado. Ainda assim, como não apagou suas memórias, ela se lembrava de seu nome original: Yukino Nanami.

E o nome de jogadora que usou quando participou do jogo foi—Setsuna.

Setsuna havia se tornado uma agente.

Mudando o rosto, apagando o nome, tornando-se uma pessoa completamente diferente, ela passou a existir como alguém que sustenta o mundo dos jogos pelas sombras.

Se perguntassem o motivo, era simples: ela precisava de trabalho.

Através daquele jogo—<Maiden Race>, Setsuna recuperou sua estabilidade. Ela conseguiu redesenhar a linha que normalmente deveria existir no coração de uma pessoa—mas que estava desaparecendo dentro dela.

Ainda assim, o fato de estar afastada da sociedade e desempregada não mudou.

Quanto ao seu futuro, Setsuna escolheu o caminho de agente. Já estava cansada de participar dos jogos, mas pensou que, ao menos, poderia continuar envolvida com aquele mundo.

Algum tempo depois de se tornar agente, ela soube que Yuki continuava atuando como jogadora.

Imediatamente, se voluntariou para ser sua agente exclusiva.

Ela queria ficar ao lado dela.

Queria observar até o fim o destino daquela que a havia abalado profundamente—daquela que expulsou o “espírito” que a possuía.

O carro parou em um sinal vermelho.

Batucando levemente no volante, a agente suspirou.

Um suspiro carregado de preocupação.

A jogadora sob sua responsabilidade—Yuki—parecia bastante desgastada.

A agente havia acabado de deixá-la em casa após a conclusão de seu sexagésimo segundo jogo, mas aparentemente ela havia “esquecido” que matou sua própria discípula, Tamamo.

Ou talvez estivesse apenas fingindo esquecer.

De qualquer forma, isso indicava que a situação era grave o suficiente para exigir tal atitude.

Algo impensável para a Yuki de quando a agente a conheceu pela primeira vez.

Mas isso apenas provava que ninguém permanece invencível para sempre.

Ela gostaria de ter dito algo inteligente como Yuki fazia naquela época… mas não conseguiu pensar em nada significativo.

Limitou-se a cumprir seu papel—deixá-la nas proximidades de casa—e agora estava voltando.

Mesmo sabendo que era inútil, pensamentos continuavam surgindo:

Será que ela vai se recuperar?

Será que continuará como jogadora…?

Enquanto pensava nisso, seu celular tocou.

Ao olhar, viu o nome de Yuki na tela.

O sinal já estava verde e o carro em movimento, mas, priorizando responder imediatamente em vez de obedecer à lei que proíbe uso de celular ao dirigir, ela atendeu na hora.

“Sim.”

“Ah… agente.”

A voz de Yuki veio do outro lado.

Só por aquela palavra, ela percebeu: havia pânico.

“Hum… sobre aqueles comprimidos para dormir… você tem?”

Comprimidos para dormir… provavelmente os usados antes de participar de um jogo.

As jogadoras eram sedadas antes de serem levadas ao local.

“Tenho, sim — respondeu a agente.”

“Ah… ainda bem…”

“Aconteceu alguma coisa?”

Não houve resposta.

Em vez disso, do telefone vinha um som de folhas sendo empurradas—como alguém atravessando um matagal.

O que está acontecendo…?, pensou a agente.

Depois de alguns instantes, a voz de Yuki voltou:

“…Por favor!”

“Vem me buscar agora! Eu—me faz dormir, agora mesmo!”

2. Sala de Neve (62.5ª Vez)

(00/44)

O tempo volta um pouco.

(01/44)

“E então? Conseguiu se lembrar direitinho?”

Instigada pela Fantasma, Yuki abriu os olhos.

O que seus olhos refletiram foi um simples apartamento de seis tatames.

A mesma cena de antes.

Seu eu Fantasma, com exatamente o mesmo rosto de Yuki, usando exatamente o mesmo uniforme esportivo e exibindo um largo sorriso, permanecia bem diante dela, recusando-se a desaparecer.

Yuki não respondeu.

Mas ela realmente estava se lembrando.

Lembrando de quem foi no começo.

Sim...

Minha carreira começou de um jeito realmente estranho.

“Você era uma pessoa insensível, não era? Mais do que é agora ?”, disse a Fantasma.

“...E daí?”, respondeu Yuki.

“Estou dizendo que vou devolver você àquela pessoa.”

A Fantasma abriu os braços.

“Entregue seu coração para mim. Se fizer isso, poderá voltar a ser quem era naquela época.”

Yuki franziu a testa.

Ela não conseguia entender completamente o que a Fantasma queria dizer.

“Isso significa que eu vou assumir o seu lugar. Vou jogar no seu lugar, por essa você de coração partido. Diferente de você, eu não fico me perdendo em pensamentos estranhos. Eu mato, destruo, acumulo recordes de vitórias e pronto. Vou avançar muito melhor do que você.”

“Você pretende roubar minha consciência?”

“Roubar" é mesmo a palavra certa? Você me trata como algum tipo de monstra misteriosa, mas eu sou você mesma. Um problema do seu coração... Bem, acho que já é tarde demais para fingir que não percebeu a verdadeira natureza deste jogo... Mas ainda assim, sou mais insensível, mais direta e mais forte do que você é agora. Não quer voltar a ser eu?”

Não diga bobagens.

Yuki respondeu sem hesitar.

“E para qual propósito você acha que eu me tornei essa pessoa sensível, complicada e fraca de que está falando? Foi pelos noventa e nove jogos. Eu refinei meus sentidos por causa disso. Qual seria o sentido de voltar ao passado agora? Isso seria inverter completamente as prioridades.”

Yuki odiava aquele tipo de atitude desafiadora.

Porque ela já tinha visto inúmeras jogadoras morrerem daquele jeito.

As primeiras a morrer são aquelas que param de pensar nas coisas difíceis.

As que perdem sua sensibilidade morrem.

Se eu voltasse a ser quem era naquela época...

Provavelmente não sobreviveria nem a três jogos.

Mas o Fantasma apenas respondeu:

“É mesmo?”

E se recusou a aceitar.

“Você tem alguma prova disso? Talvez voltar seja melhor do que imagina. Não é assim que o mundo funciona? As pessoas que vivem como se jamais tivessem sido feridas possuem riqueza e status. Não seria melhor desse jeito?”

O Fantasma inclinou a cabeça.

“Pelo menos uma vantagem eu posso garantir. Seu coração ficaria mais leve. Em um nível impossível de comparar com agora.”

Yuki quis rebater.

Mas parou.

Ela é eu.

Discutir não adianta.

Se fosse possível vencê-la numa discussão e fazê-la desaparecer, ela nunca teria aparecido em primeiro lugar.

A Fantasma existia porque uma parte do coração de Yuki desejava aquilo.

“Então... o que vai fazer?”

Seu eu ilusória perguntou.

“Quero uma resposta clara. Vai me entregar tudo? Ou continuará sendo quem é agora?”

“......”

Yuki pensou.

Essa escolha era importante.

Sem dúvida.

Ela sentia que aquilo definiria seu futuro de forma decisiva.

Mesmo sem raciocinar ou intuir conscientemente, ela sabia disso como se fosse um fato absoluto.

Ela podia dizer não.

Mas isso não resolveria nada.

Também era verdade que uma parte dela queria voltar.

E não apenas por causa do incidente com Tamamo.

Haveria muitos acontecimentos dolorosos dali para frente.

Os noventa e nove jogos.

A perda da visão de um dos olhos.

O acúmulo de danos físicos, como aconteceu com sua mestra.

Ela conseguia imaginar quantos futuros ansiosos a aguardavam.

Em algum lugar do seu coração...

Ela desejava voltar a ser quem era.

Aquela pessoa insensível que nem percebia estar participando de um jogo de assassinato.

A pessoa mais forte.

Alguém que talvez nem percebesse que matou alguém, mesmo depois de fazê-lo.

Yuki pensou cuidadosamente.

E durante todo esse tempo, a Fantasma não a apressou.

Provavelmente não estava buscando convencê-la aos poucos.

Queria uma resposta genuína vinda do coração.

Yuki aproveitou completamente essa oportunidade.

Pensou por tanto tempo que parecia que o sol havia nascido, se posto e retornado ao mesmo lugar.

Quando chegou ao ponto em que pensar mais não mudaria sua conclusão, ela encarou os olhos da Fantasma.

“Não.”

Respondeu.

“Eu não vou voltar a ser você. Não tenho intenção de viver com facilidade.”

“...Entendo.”

Como se dissesse "que teimosia", a Fantasma balançou a cabeça.

“Que pena.”

“Saia da minha frente.”

“Infelizmente, não funciona assim.”

Seu eu Fantasma se levantou.

Então girou os ombros.

“Se fosse possível resolver isso pacificamente, essa era minha intenção... Mas já que não consegui seu consentimento, não tenho escolha.”

A Fantasma esticou os braços.

Como se estivesse aquecendo um corpo que deveria ser apenas uma ilusão.

E então disse:

“Isso só significa que vou tomar seu corpo à força.”

(02/44)

A Fantasma caminhou em direção a Yuki.

Dando um passo, depois outro. Como o cômodo tinha apenas seis tatames, em mais alguns passos ela já estaria ao alcance de suas mãos.

No breve instante antes de ela se aproximar, Yuki pensou.

À força... foi isso que ela disse agora há pouco? Não me diga que ela realmente consegue fazer isso? Mas ela deveria ser apenas uma ilusão...

Embora não conseguisse afastar aquela dúvida, preparou-se diante do fato de que algo com forma humana estava avançando sobre ela com clara intenção de lutar.

Como se quisesse demonstrar isso para Yuki, a Fantasma fechou lentamente o punho.

Recuando o braço e dando a Yuki tempo suficiente para assumir uma postura defensiva...

Ela desferiu um soco em seu rosto.

Primeiro, aconteceu exatamente o que era esperado.

O punho da Fantasma atingiu o braço que Yuki havia colocado diante do rosto para se proteger — e atravessou-o.

Não havia nada de surpreendente nisso.

Era o normal.

Afinal, ela era uma Fantasma. Não havia como erguer um braço e bloquear um ataque desses.

No entanto, no instante seguinte, quando o soco da Fantasma atingiu seu rosto, todos os cantos do corpo de Yuki foram tomados pela confusão.

Ela sentiu claramente o impacto.

Cambaleou para trás.

Colidiu contra a parede do quarto.

Caiu instintivamente no chão e, por alguns momentos, não conseguiu se levantar.

“O que foi?”, perguntou a Fantasma.

Olhando para Yuki caída, ela continuou:

“Não me diga que você achou que eu daria um soco que não acertasse?”

Ainda sem conseguir organizar seus pensamentos, Yuki tocou o local atingido — próximo à sobrancelha.

Doía.

Não havia sangue, mas ela tinha sido atingida sem dúvida alguma.

O que é isso? O que ela fez comigo?

Não.

Errado.

Eu mesma fiz isso.

Estou sentindo como se tivesse levado um soco.

Pense bem.

Normalmente eu nem deveria conseguir ver um Fantasma.

Uma parte da minha mente já está fora do meu controle.

Ela consegue me atacar a partir do mundo espiritual!

A Fantasma voltou a caminhar em sua direção.

Yuki levantou-se às pressas.

Meu Deus...

Ela já tinha passado por muitas experiências estranhas, mas ser socada por uma ilusão era a primeira vez em sua vida.

Provavelmente também seria a última.

Mas...

Ainda assim.

Se era assim que as coisas funcionavam, Yuki também tinha uma forma de responder.

À força?

Tudo bem.

Essa era justamente sua especialidade.

Yuki assumiu uma postura de combate, cerrando ambos os punhos.

Sem demonstrar intimidação diante daquela posição, nem sequer cautela, sua versão Fantasma continuou avançando sem diminuir o ritmo.

Quando ela entrou na distância adequada, Yuki revidou com um direto de direita no rosto da Fantasma.

Mas...

O ataque atravessou.

Sem qualquer sensação de impacto.

Com o rosto exatamente onde o punho de Yuki passava, a Fantasma abriu um largo sorriso.

Então, desta vez, acertou um soco no plexo solar de Yuki.

Esse golpe atingiu em cheio.

Yuki desabou.

“O que você está fazendo? Não existe nada aí.”, zombou a Fantasma.

“...Existe uma história tão absurda assim?!”

Yuki gritou enquanto segurava o estômago dolorido.

“Isso não é justo! Fantasma!”

“Gritando desse jeito... os vizinhos vão ouvir, sabia?”

A Fantasma soltou uma risada abafada.

“Não é justo, você diz? Nada disso. Isso é habilidade. Não reflete o fato de que a antiga eu era mais forte?”

Dizendo isso, ela moveu a perna.

Um chute.

Yuki rolou instintivamente pelo chão e desviou do golpe.

Em seguida, assim que se levantou, correu em direção à entrada do apartamento.

Foi praticamente um julgamento instintivo.

Os ataques dela acertam. Os meus não.

Então só havia uma escolha.

Fugir.

Era só isso.

Naquele momento, Yuki não tinha margem para pensar nas consequências.

Sem nem perder tempo calçando os sapatos, esticou os braços ao máximo para destrancar rapidamente a fechadura e a corrente da porta.

Então abriu a porta tentando não diminuir a velocidade nem por um instante.

Ela saiu para o corredor do apartamento.

Não havia ninguém.

Logo deixou o prédio e correu pela estrada noturna.

Quando olhou para trás por um momento, viu a Fantasma perseguindo-a.

A velocidade dela era exatamente a mesma de Yuki.

Então nossa capacidade de correr é igual...

Pensando nisso, continuou fugindo com todas as forças.

Enquanto corria, sua mente já se voltava para o futuro.

O que eu faço agora?

Não posso ficar correndo para sempre.

Preciso dar um jeito naquela Fantasma.

Antes de tudo...

O que ela pretende fazer comigo?

Ela usou as palavras "tomar o seu corpo".

Mas o que isso significa exatamente?

O que acontece depois?

Em que condição eu perco?

Se eu desmaiar fisicamente?

Ou, ao ser atacada, meu coração acabará parando pelo mesmo princípio que me faz sentir danos ilusórios?

Eu não sei.

Mas provavelmente é seguro assumir uma coisa:

A "eu" que está pensando aqui agora desaparecerá.

O que era ainda mais desconhecido era a condição de vitória.

Como eu derroto ela?

Já faz muito tempo que as pessoas ao meu redor me chamam de fantasma, mas eu não possuo nenhum meio de atingir uma ilusão.

Nem sequer consegui entrar na mesma luta que ela.

Era uma situação que só podia ser descrita como um evento de derrota em um jogo.

“......”

Espere.

Um jogo?

“Ei, não fique distraída.”

E então ela ouviu uma voz ao seu lado.

Quando olhou, sua Fantasma estava correndo exatamente ao seu lado.

Ela já havia entrado em postura de ataque, girando o corpo no ar.

No instante antes de receber um chute giratório, Yuki viu algo.

Havia uma escadaria atrás da Fantasma.

O mapa do bairro e o caminho que ela havia percorrido vieram à sua mente.

Aquelas escadas eram um atalho.

A Fantasma podia chegar até ali percorrendo uma distância menor e alcançá-la.

No momento em que essa lógica se completou em sua cabeça, Yuki recebeu um golpe brutal no lado esquerdo do corpo.

Ela rolou pelo chão e bateu contra o guard-rail na beira da estrada.

Aquela rua ficava numa área elevada.

Além da proteção havia um pequeno barranco.

Passando por entre as grades, Yuki se lançou para baixo.

Escorregou pela parede de contenção do barranco — aquela estrutura com padrão parecido com uma barra de chocolate, cujo nome ela havia aprendido recentemente.

Por fim, aterrissou na estrada abaixo.

Quando ergueu os olhos para o topo do barranco, viu a Fantasma saltando por cima do guard-rail.

Yuki voltou a correr às pressas.

Ela havia apanhado novamente.

Mas também havia obtido algo valioso.

Embora tivesse sido alcançada, não fora por algum poder misterioso e irracional.

Yuki confirmou a lógica.

A Fantasma simplesmente usara o atalho das escadas.

Isso mesmo. Lógica.

Essa era a palavra-chave.

Aquela Fantasma era uma existência criada por sua própria mente.

Modelada a partir da versão invencível que ela já foi um dia.

Nada além disso.

Como a própria Fantasma havia dito, ela não era um monstro sobrenatural capaz de qualquer coisa.

Nossa velocidade de corrida é igual.

Mas ela pode me alcançar usando atalhos.

A antiga eu é mais forte.

Então, se virar uma luta corpo a corpo, vou apanhar sem chance de reação.

Tudo isso fazia sentido dentro da cabeça de Yuki.

Como a Fantasma afirmava, ela era justa.

Só porque era uma ilusão não significava que podia fazer qualquer coisa.

Existiam regras.

Existiam limitações.

Ela se movia obedecendo à lógica que Yuki havia criado inconscientemente.

Se é assim...

Uma estratégia começou a tomar forma dentro da mente de Yuki.

Antes de qualquer coisa, ela precisava ganhar tempo.

Precisava atrasar a Fantasma.

Pelo que conseguia imaginar, havia apenas um método para isso.

Esse seria o primeiro estágio do plano.

E o segundo estágio...

Bem.

Se tivesse que dizer, dependeria de outra pessoa.

Mas certamente daria certo.

Porque ela já havia conseguido fazer isso antes.

Desde que essa pessoa não ficasse irritada ao vê-la naquele estado lamentável, com o coração enfraquecido e sendo atormentada por uma Fantasma.

Yuki tirou o celular do bolso.

Infelizmente, a tela estava rachada.

Provavelmente por causa da queda de antes.

Mas o aparelho ainda funcionava.

Ela conseguiu ligar para a Agente.

“Sim.” — a voz atendeu imediatamente.

“Ah... Agente-san…”

Sem sequer cumprimentá-la, Yuki foi direto ao assunto.

“Sobre aqueles remédios para dormir... você ainda tem?”

Talvez a urgência em sua voz tenha sido perceptível, porque a Agente respondeu de forma curta:

“Tenho. Mas…”

“Ah, graças a Deus…”

“Aconteceu alguma coisa?”

No exato momento em que Yuki tentou responder, sentiu uma intenção assassina.

Ela conseguiu reagir rapidamente ao chute alto da Fantasma, que já estava ao seu lado sem que percebesse.

Abaixando o corpo para desviar, mergulhou num grande arbusto ao lado da calçada.

Enquanto atravessava os galhos produzindo um som de folhas sendo esmagadas, gritou:

“Por favor!”

“Venha me buscar imediatamente!”

“Eu... me faça dormir agora mesmo!”

(03/44)

Embora Yuki tenha usado a expressão "venha me buscar" por conveniência, isso era impossível.

Não era realista tentar recolher Yuki de carro enquanto ela corria pelas ruas e sua posição mudava constantemente.

Por isso, decidiram que a Agente esperaria em algum lugar próximo.

Primeiro, Yuki enviou sua localização atual por um aplicativo de mensagens.

Depois de recebê-la, a Agente sugeriu um ponto de encontro, e decidiram que Yuki correria até lá.

Aliás, a Agente também informou onde estava naquele momento, mas não ficava tão longe dali.

Pensando bem, isso era natural.

Ainda não haviam se passado nem quinze minutos desde que a Agente deixara Yuki em casa.

Por causa da experiência extraordinária de ver uma Fantasma aparecer, Yuki sentia como se três dias inteiros tivessem passado.

Mas, na realidade, a Agente ainda estava por perto e podia retornar imediatamente.

Yuki correu em direção ao ponto de encontro.

Continuar fugindo da Fantasma não era tão difícil... pelo menos por enquanto.

A capacidade de corrida da Fantasma era exatamente igual à dela.

Se tomasse cuidado para não permitir atalhos...

Se organizasse a situação de modo que a lógica não favorecesse a Fantasma...

Então não havia motivo para ser alcançada.

O problema surgiu cerca de dez minutos depois do início da fuga.

Resumindo:

A Fantasma não se cansava.

Talvez a lógica fosse que ácido lático não se acumulava em membros que eram apenas ilusões.

Ou que pulmões imaginários não precisavam de oxigênio.

Seja como fosse, enquanto Yuki se cansava fisicamente, a Fantasma continuava correndo sem qualquer desgaste.

Pouco a pouco, Yuki foi ficando exausta e encurralada.

Quando finalmente encontrou o carro da Agente, suas pernas já estavam tão destruídas que ela mal conseguia caminhar em linha reta.

“Yuki-san! Aqui!”

Dizendo isso, a Agente correu até ela.

Em suas mãos havia uma cápsula de remédio para dormir e um copo descartável com água.

Para a Yuki daquele momento, era algo desejável a ponto de parecer que uma mão sairia de sua garganta para agarrá-lo.

Esse era o primeiro estágio de sua estratégia.

Como atrasar uma Fantasma criada pela própria mente?

Simples.

Fazer Yuki perder a consciência.

Sem uma mente desperta para pensar, não haveria como enxergar uma Fantasma.

Era uma solução simples e direta.

Claro, isso não o eliminaria.

Mas compraria tempo.

Forçando suas pernas já próximas do limite, Yuki olhou para trás.

A Fantasma estava lá.

Como a velocidade de Yuki diminuía gradualmente, a distância entre elas também diminuía.

Provavelmente ela não conseguiria chegar até o carro.

Por isso a decisão da Agente de sair do veículo havia sido bastante ousada.

Mesmo assim, Yuki duvidava que conseguiria alcançá-la correndo.

A distância entre Yuki, a Agente e a Fantasma diminuía rapidamente.

No meio disso tudo...

Espere.

Yuki teve um pensamento.

Mesmo que a Fantasma a alcançasse...

O que ele poderia fazer?

Por ser incorpóreo, não deveria conseguir tocar na Agente.

Não poderia impedir fisicamente a entrega do remédio.

Talvez pudesse interferir atrapalhando Yuki, que era quem receberia a cápsula.

Mas seria capaz de fazer mais do que isso?

Do ponto de vista da Fantasma, eliminar a Agente era obviamente desejável.

Mas isso era realmente possível?

Se fosse...

Como?

Yuki acabou pensando nisso.

E, inconscientemente...

Uma nova lógica se completou.

Como esperado.

Um passo antes de alcançar Yuki, a Fantasma entrou em contato com a Agente.

Saltando com ambos os pés calçados em tênis...

Desferiu uma voadora contra ela.

Pegada completamente de surpresa, a Agente foi lançada para trás e caiu.

Embora ainda segurasse o remédio para dormir, deixou o copo escapar.

Traçando um arco no ar, o copo rolou pelo asfalto.

A água se espalhou lentamente pela rua.

“Yu... Yuki-san...?” disse a Agente com a voz misturada à dor.

“Eu... eu sinto muito! Não fui eu! É verdade!”

Provavelmente, no mundo real, quem havia atingido a Agente fora a própria Yuki.

Como Yuki estava descalça e suas pernas estavam exaustas demais para chutar, talvez tivesse sido um soco.

De qualquer forma, ela havia feito alguma coisa.

Caso contrário, a Agente não teria sido arremessada.

A certa distância dali, a Agente ergueu a mão.

Yuki estendeu a sua.

O significado foi compreendido instantaneamente.

A Agente lançou a cápsula em sua direção.

Yuki encarou o pequeno remédio.

Ela sempre teve certa aversão a cápsulas.

Quase nunca conseguia engoli-las sem água.

Mas aquela não era uma situação para fazer exigências.

Era hora de superar isso.

Hora de crescer.

Yuki decidiu engolir o remédio.

Mas...

Sua mão foi detida.

A Fantasma havia agarrado seu pulso.

Colado atrás dela, a Fantasma a segurava firmemente.

Yuki podia sentir os dedos apertando seu braço.

Podia sentir até mesmo sua respiração em sua nuca.

Se não conseguia mover a mão, então tentaria levar a boca até a cápsula.

Foi então que percebeu.

Sua boca também estava bloqueada.

A outra mão da Fantasma a cobria completamente.

Naturalmente, na realidade, Yuki provavelmente apenas mantinha a própria boca fechada.

Mas o resultado era o mesmo.

Ela não conseguia tomar o remédio.

Yuki torceu o corpo, tentando se libertar.

Mas foi inútil.

A força da Fantasma era muito maior que a dela.

Não era apenas uma questão de mãos ou boca.

Seu corpo inteiro mal conseguia se mover.

Yuki chegou a considerar secretamente um plano de emergência.

Bater a cabeça contra o asfalto até desmaiar.

Mas, naquela situação, nem isso era possível.

Droga!

Ela pensou com todas as forças.

Faltava tão pouco...

Só mais um pouco!

Tentou até reunir todos os palavrões possíveis em sua cabeça.

Mas...

Não conseguiu.

Porque suas forças estavam desaparecendo rapidamente.

“Yuki-san.”

Quando percebeu, a Agente estava próxima novamente.

“Perdoe minha presunção... Tomei a liberdade de agir por conta própria.”

A Agente continuou:

“Como você sempre utilizou apenas medicamentos orais, imaginei que fosse isso que desejava. Mas…”

Ela ergueu uma das mãos.

Nela não havia nem a cápsula nem o copo descartável.

“Eu carrego não apenas medicamentos orais, mas também coisas como esta. Julguei que, dadas as circunstâncias, esta seria uma opção melhor.”

Em sua mão havia uma seringa.

Já vazia.

Competente demais...

Yuki quis dizer isso com todas as suas forças.

Mas não conseguiu falar.

Então tentou transmitir o sentimento através da expressão.

Até cair completamente no mundo do sono, tudo o que conseguiu fazer foi suavizar levemente os cantos dos olhos.

Se a mensagem chegou ou não à Agente...

Provavelmente, ela nunca saberia.

(04/44)

A Agente colocou Yuki, já adormecida, no banco traseiro do carro.

Em seguida, sentou-se no banco do motorista e levou a mão ao local do peito onde havia sido atingida por Yuki.

Doía.

E doía bastante.

Ela tinha levado um golpe surpreendentemente forte.

Mas, julgando pelas palavras de Yuki, aquilo certamente não havia sido uma ação desejada por ela.

Toda a culpa era da Fantasma que a estava atormentando.

Durante a ligação anterior, a Agente já havia ouvido um resumo da situação.

Ao que parecia, Yuki estava vendo uma Fantasma com exatamente a mesma aparência que ela.

Essa Fantasma a culpava.

A atormentava.

E tentava tomar seu corpo.

Era uma história difícil de acreditar.

Mas, considerando o olhar desesperado de Yuki e o ataque sem sentido que ela havia desferido contra a própria Agente, a situação não se explicaria sem algo daquela magnitude.

Difícil de acreditar.

Mas compreensível.

Comparado às circunstâncias da própria Agente, que trabalhava para uma organização responsável por produzir jogos mortais, aquilo até parecia mais plausível.

Afinal, o incidente do Royale Palace havia deixado Yuki mentalmente instável.

Além das circunstâncias, a Agente também havia ouvido sobre a estratégia que Yuki pretendia executar.

O primeiro estágio era simples:

Colocar Yuki para dormir junto com a Fantasma.

E o segundo estágio...

A Agente pegou o celular e fez uma ligação.

O destinatário era alguém cujo número ela havia registrado apenas por precaução.

Na verdade, seria a primeira vez que ligaria para essa pessoa.

Será que ela atenderá uma ligação de um número desconhecido a esta hora da noite...?

Pensando nisso, a Agente levou o celular ao ouvido e escutou o toque chamar.

“Sim. Alô.”

Felizmente, a ligação foi atendida quase imediatamente.

Era uma mulher de voz suave.

Misturado à sua voz, podia-se ouvir através do telefone o som de pequenos sinos:

rin... rin...

Ambos simbolizavam exatamente quem ela era.

“Desculpe ligar tão tarde da noite, Rinrin-san.”

Disse a Agente.

“Sou a Agente da Yuki. Estou ligando por causa de um assunto urgente.”

Rinrin.

Uma ex-jogadora cega.

E também a pessoa que ensinou a Yuki a habilidade de ecolocalização.

Cerca de meio ano atrás, ela havia enfrentado Yuki em um jogo simulado realizado numa ilha remota.

“Ora, Agente-san. O que aconteceu?”

Apesar do horário, Rinrin respondeu sem demonstrar qualquer irritação.

A Agente explicou toda a situação.

Quando terminou de relatar os acontecimentos, ouviu apenas:

“Entendo.”

“Esse tipo de coisa é comum? Quando alguém adquire ecolocalização, coisas invisíveis... como outra versão de si mesma... tornam-se visíveis?”

“Claro que não.”

Rinrin respondeu imediatamente.

“Se isso acontecesse, eu teria avisado a ela antes.”

“Faz sentido…”

“Mas é uma história que ouvimos com frequência no mundo das jogadoras.”

Disse Rinrin.

“Pessoas que sonham com aqueles que mataram e são culpadas por eles. Jogadoras que passam a acreditar que existem armadilhas espalhadas pelas ruas e acabam incapazes de sair de casa. Há muitas garotas que entram em depressão por motivos assim e não conseguem continuar como jogadoras.”

Ela fez uma breve pausa.

“Você pode considerar o caso dela uma versão mais avançada desse fenômeno. Muitas coisas aconteceram com Yuki. Somando tudo isso ao poder da ecolocalização... talvez o resultado tenha sido esse.”

“...Já que você entendeu tanto da situação, imagino que também tenha percebido o motivo da minha ligação.”

Disse a Agente.

Na verdade, ela já sabia exatamente o que queria pedir.

Mas fez a pergunta mesmo assim.

Porque Yuki havia afirmado:

"Se for a Rinrin, ela entenderá sem precisar de explicações."

“Vejamos…”

Rinrin ficou pensativa por alguns instantes.

Então disse:

“Essa Fantasma se move de acordo com a lógica do inconsciente dela, certo?”

“Parece que sim.”

“Nesse caso, Yuki deve acreditar que precisa de uma Regra capaz de restringir a Fantasma.”

A voz de Rinrin tornou-se mais séria.

“Uma regra que permita escapar da situação atual, em que ela apanha unilateralmente, e arrastar o Fantasma para o mesmo campo de batalha.”

Ela continuou:

“E quando falamos da regra mais poderosa que existe para uma jogadora... só uma coisa me vem à mente.”

Uma pausa.

“Um jogo em que a própria vida está em risco.”

Enquanto organizava seus pensamentos em voz alta, Rinrin prosseguiu:

“Então... ela está buscando a realização de um jogo simulado através de mim?”

“Um jogo entre ela e a própria Fantasma.”

“E pretende derrotá-la dentro desse jogo.”

“Esse deve ser o plano que ela elaborou.”

Outra breve pausa.

“Ou, para ser mais precisa, trata-se de um pedido ao Supplier através de mim... Estou certa?”

“...Resposta correta.”

Disse a Agente.

Era exatamente o que Yuki havia explicado.

Não apenas o pedido.

Até mesmo toda a linha de raciocínio havia sido reconstruída perfeitamente.

Impressionante.

Pensou a Agente.

Certamente existiam coisas que apenas pessoas que sobreviveram por muito tempo como jogadoras conseguiam compreender.

Ela sentiu admiração tanto por Yuki, que havia elaborado uma solução diante de uma situação tão absurda...

Quanto por Rinrin, que havia entendido tudo quase como se lesse sua mente.

“Você poderia aceitar esse pedido?”

Perguntou a Agente.

“......”

Desta vez, nenhuma resposta veio imediatamente.

Ela vai recusar...?

A Agente pensou.

O jogo simulado realizado seis meses antes só havia acontecido porque Rinrin simpatizava com os problemas de visão de Yuki.

As circunstâncias atuais não tinham relação alguma com isso.

Se dissesse que aquilo não era problema dela...

Seria perfeitamente compreensível.

Preparando-se para ouvir uma recusa fria, a Agente aguardou.

Então:

“Tudo bem.”

Disse Rinrin.

“...Você vai aceitar?”

“Sim.”

“Vou cooperar.”

Uma risada suave escapou de seus lábios.

“Hahaha…”

Então continuou:

“Vamos ver…”

“Está na hora de iniciar o Ritual.”

Sua voz parecia quase divertida.

“Um ritual de alto nível.”

“Algo digno de aceitar a imaginação dela como realidade…”

E então Rinrin riu novamente.

Aquela risada fez um arrepio percorrer os nervos da Agente.

“...Muito obrigada.”

Ela respondeu.

Mas, enquanto agradecia, uma sensação de inquietação crescia lentamente dentro dela.

Lembrando-se da batalha travada naquela ilha remota seis meses atrás, a Agente não pôde deixar de pensar:

Embora esse seja exatamente o desfecho que Yuki desejava...

Será que realmente foi uma boa ideia pedir ajuda justamente a essa pessoa?

(05/44)

Durante o trajeto até o local onde seria realizado o jogo simulado.

Yuki sonhou.

(06/44)

Normalmente, isso não acontecia durante os jogos.

Mas talvez por ter adormecido de uma forma um pouco diferente do habitual...

Yuki sonhou.

Não era um sonho fantasioso.

Era mais próximo de uma lembrança.

Um flashback.

Mais de dois anos atrás.

No final de Candle Woods.

Na época em que ela aguardava o encerramento do jogo ao lado de Airi.

Aquele jogo tinha um prazo de uma semana para terminar.

Porém, devido a uma irregularidade, a maioria das participantes acabou abandonando a disputa e a situação deixou de evoluir.

Como resultado, decidiu-se encerrar tudo antecipadamente no terceiro dia.

Até a chegada desse terceiro dia, Yuki e Airi — duas das poucas sobreviventes — permaneciam esperando em um quarto do local, equipado com instalações básicas para viver.

“Desde quando esses jogos mortais existem?”

Foi o que Airi perguntou a Yuki.

No começo, Airi mantinha certa distância dela.

Mas, após passarem um dia... depois dois dias juntas...

As duas haviam começado a conversar um pouco.

“Não sei.”

Respondeu Yuki.

Com um tom mais indiferente do que o atual.

O jeito de falar da Yuki daquela época.

“Mas parece que eles existem há pelo menos dez anos. Pelo menos é o que as outras jogadoras dizem.”

“Também existem muitas jogadoras veteranas, não é?”

“Existem. Não... acho melhor dizer que existiam.”

“Não consigo acreditar que alguém consiga sobreviver a algo assim tantas vezes.”

“Algo como isso é raro.”

Pensando na cena desastrosa de Candle Woods, Yuki respondeu:

“Bem... mesmo assim, devem ser pessoas inacreditáveis.”

“...O que existe de divertido nisso?”

A memória de Yuki não tinha certeza se Airi realmente havia feito uma pergunta tão invasiva.

Por estar dentro de um sonho, talvez aquilo fosse apenas uma reconstrução criada por sua própria mente.

Mesmo assim, Yuki respondeu:

“Depende da pessoa.”

“E no seu caso, Yuki-san?”

“Não é divertido nem um pouco.”

As palavras saíram sem qualquer hesitação.

“É justamente por isso que estou aqui.”

“...?”

Airi fez uma expressão confusa.

Mas Yuki não explicou além disso.

Porque não era algo que pudesse simplesmente contar para alguém.

Acho que sou ruim em sentir felicidade.

Nunca encontrei satisfação em nada.

Continuei vagando... e acabei chegando aqui.

No mundo dos jogos mortais.

Mesmo esse lugar...

Ela nunca o encarou como destino.

Não sentiu nada especial quando entrou nele.

Apenas...

Comparado a todas as outras coisas, parecia se encaixar um pouco melhor nela.

Muito tempo havia passado desde então.

E, ainda assim...

Recentemente, Yuki finalmente havia encontrado coisas preciosas.

Coisas que realmente importavam para ela.

Mas agora...

Ela estava sofrendo de novo.

Por quê?

Por que sempre acaba assim?

Por que eu não consigo ficar em paz?

Será que não existe nenhum paraíso neste mundo?

Nenhum lugar onde eu possa simplesmente descansar?

Dentro do sonho, Yuki estendeu a mão em direção ao teto do quarto.

Mas o teto se distorceu.

Sua mão também.

Como se alguém estivesse mexendo em seu cérebro.

Sua consciência começou a oscilar.

A fronteira entre realidade e ilusão tornou-se vaga.

Ela sentiu o corpo inteiro flutuar.

Ou afundar.

Não conseguia distinguir qual das duas coisas estava acontecendo.

E então—

Quando percebeu...

Yuki havia despertado.

Dentro de um quarto completamente branco.

(07/44)

Era um quarto branco.

Frio, desolado e artificial.

Essas palavras combinavam perfeitamente com aquele lugar.

Não era o branco cru de concreto exposto.

Era um branco escolhido, pintado deliberadamente.

Um branco que cobria todas as superfícies do ambiente.

Foi naquele quarto que Yuki despertou.

“Frio…”

Assim que abriu os olhos, sentiu um arrepio.

Ela entendeu a razão imediatamente.

Yuki estava sem roupas.

Não, para ser mais precisa, ainda vestia a camiseta.

Mas o agasalho que normalmente usava por cima havia desaparecido.

Ao tocar os cabelos, percebeu que o grampo também não estava ali.

Os tênis já não estavam com ela desde antes, mas agora o conjunto de três itens que sempre carregava havia desaparecido por completo.

“Ei. Já acordou?”

Ao ouvir a voz, Yuki virou a cabeça.

Sua Fantasma estava ali.

Encostada na parede.

“...!!”

Instintivamente, Yuki assumiu uma postura defensiva mesmo vestindo apenas a camiseta.

Mas a Fantasma apenas zombou dela.

“Calma.”

Um sorriso torto surgiu em seu rosto.

“Não precisa ficar na defensiva. Nada daquilo com que você está preocupada vai acontecer.”

Ela própria também vestia apenas uma camiseta.

Exatamente como Yuki.

Ao vê-la, Yuki finalmente se lembrou.

Certo.

Para ganhar tempo contra a Fantasma, ela havia sido colocada para dormir.

A Agente deveria ter contatado Rinrin.

E Rinrin deveria ter preparado um jogo simulado.

E agora...

Ela estava ali.

Yuki observou o ambiente novamente.

Era um quarto branco.

De formato quadrado.

Pouco maior do que o quarto de seis tatames de seu apartamento.

Luzes instaladas no teto alto iluminavam tudo de forma intensa, tornando o ambiente ainda mais branco.

Embora fosse um lugar vazio e impessoal, não estava completamente desprovido de objetos.

A primeira coisa que chamou sua atenção foram duas palavras escritas numa das paredes.

— SNOW ROOM (“QUARTO DE NEVE”)

As letras pretas destacavam-se fortemente sobre a parede branca.

Snow Room.

Provavelmente o nome do jogo.

“Veja as regras.”

Disse a Fantasma, apontando com o queixo.

Yuki seguiu a direção indicada.

Logo abaixo das palavras SNOW ROOM, havia explicações.

Mas não em texto.

Em pictogramas.

Três desenhos simples, semelhantes aos usados em placas de trânsito.

O primeiro mostrava duas figuras humanas procurando algo.

Como havia duas participantes — Yuki e a Fantasma — o desenho também possuía duas pessoas.

O segundo mostrava uma delas encontrando roupas dentro de um baú.

Provavelmente o agasalho desaparecido.

O terceiro mostrava a pessoa vestindo essas roupas e atravessando uma porta para sair do prédio.

A outra figura observava a cena com inveja.

“Resumindo, é um jogo de fuga.”

Explicou a Fantasma.

“Em algum lugar deste prédio está escondido um conjunto das suas roupas, incluindo o agasalho.”

“Quem encontrá-lo primeiro e conseguir escapar do prédio vence.”

Ela apontou novamente com o queixo.

Yuki olhou naquela direção.

Havia uma porta.

Uma enorme porta dupla.

Estava completamente fechada.

Não havia maçanetas.

Nem trincos.

Nem fechaduras visíveis.

Parecia impossível abri-la daquele lado.

Dos dois lados da porta havia armas de fogo robustas apontadas para a frente.

Provavelmente dispositivos de punição.

Yuki lembrava-se de ter visto algo parecido em seu primeiro jogo, Maiden Race (“Corrida das Donzelas”).

Eram armas usadas para executar jogadoras que tentassem atravessar portas ilegalmente.

Quase uma decoração obrigatória dos jogos.

Como os shachihoko nos telhados dos castelos.

Ou os shisa nas casas de Okinawa.

No chão, diante da porta, havia uma área marcada por linhas diagonais.

A mensagem era clara:

"Se tentar atravessar sem estar usando o agasalho, será morta a tiros."

Toda aquela preparação deixava evidente que aquela era a saída.

Entendi.

Yuki compreendeu as regras.

Mas...

E daí?

O jogo havia começado.

Tudo bem.

Mas isso não explicava uma coisa.

Por que a Fantasma estava quieta?

Seu objetivo era tomar o corpo de Yuki.

Agora que ela estava acordada novamente, por que não retomava os ataques?

Yuki voltou a olhar para ele.

A Fantasma permanecia encostado na parede.

Uma parede diferente daquela onde estava escrito SNOW ROOM.

Imóvel.

Sem mover um único músculo.

Ao vê-la daquela forma, uma intuição surgiu.

“Ei.”

“O quê?”

“Sai um pouco da frente daí.”

A expressão da Fantasma endureceu levemente.

“Por quê?”

“Só sai.”

“...”

Com uma expressão cada vez mais desagradada, a Fantasma se afastou.

E então Yuki viu.

Na parede atrás dela também havia pictogramas.

Dois deles.

Ambos riscados por uma grande linha diagonal.

Proibições.

Era isso que significavam.

O primeiro proibia danificar o agasalho.

Rasgar.

Queimar.

Destruí-lo de qualquer forma.

O segundo...

Proibia violência.

“......”

Yuki soltou uma pequena risada.

“Ha.”

Agora entendia.

Era por isso que a Fantasma não podia encostar nela.

A ideia de enfrentá-la dentro de um jogo e restringir suas ações através de regras havia funcionado perfeitamente.

Rinrin realmente tinha compreendido suas intenções.

Era algo pelo qual ela era grata.

“Que mecanismo idiota…”

Resmungou a Fantasma.

“Montar um palco tão grandioso só para isso.”

Ele lançou um olhar para Yuki.

“Você quer tanto assim fugir de mim?”

“Quero.”

Respondeu imediatamente.

“Isso me machuca. Ser rejeitada com tanta frieza…”

“Machuca?”

Yuki captou a escolha de palavras.

Aquilo parecia importante.

Essa Fantasma era movido pelo inconsciente dela.

Se conseguisse pressioná-la psicologicamente...

Talvez pudesse enfraquecê-la.

“Fico feliz em ouvir isso.”

Disse Yuki.

“Significa que consegui te causar dano pela primeira vez.”

“Vou continuar usando essa estratégia daqui para frente.”

A Fantasma não respondeu.

Apenas estalou a língua.

“Vamos começar logo, Corpo Original-sama.”

“Sim.”

“Vamos.”

Além da saída principal, havia outras portas.

Uma em cada uma das três paredes restantes.

Eram portas de correr, semelhantes às de salas de aula.

Provavelmente levavam para outras áreas do prédio.

Naquele momento, Yuki ainda não fazia ideia do tamanho daquele lugar.

Nem de quantas dificuldades enfrentaria para encontrar seu agasalho.

A Fantasma começou a caminhar em direção a uma dessas portas.

Então—

Tac.

Um som de passos ecoou.

Yuki arregalou os olhos.

A Fantasma tinha produzido um som.

Isso não fazia sentido.

Ela não existia fisicamente.

E mesmo que existisse, estava descalça.

Não havia motivo para um passo soar daquela forma.

Portanto...

O som não estava sendo produzido por ela.

Estava sendo reproduzido por outra pessoa.

Em algum lugar.

Tac. Tac. Tac.

Os passos continuaram.

A Fantasma afastou-se.

Logo chegou diante da porta.

Era uma porta de correr com maçaneta.

Mas a Fantasma não deveria ser capaz de tocá-la.

Não deveria conseguir abri-la.

Mesmo assim—

A porta abriu sozinha.

Pelo menos foi o que pareceu.

Yuki não acreditava ter sido ela quem a abriu.

Havia a possibilidade de algo semelhante ao que acontecera quando a Fantasma atacou a Agente.

Mas provavelmente não.

A distância era grande demais.

Mesmo desconfiando cada vez mais dos próprios sentidos, ela ainda julgava impossível.

Assim como os sons dos passos, alguém em algum lugar devia estar operando os mecanismos.

De qualquer forma, a Fantasma atravessou a porta aberta.

E desapareceu.

Yuki ficou sozinha no quarto.

Olhou ao redor inquieta.

Foi então que percebeu algo.

Num dos cantos do teto...

Havia uma pequena câmera de vigilância.

(08/44)

Ao mesmo tempo, em outra sala.

A Agente tirou o dedo do botão.

(09/44)

“Finalmente começou.”

Foi isso que a Agente de Yuki pensou ao tirar o dedo do botão de abrir e fechar portas exibido no tablet.

Em seguida, ela ampliou seu campo de visão.

A sala em que estava era desolada de uma forma diferente da sala branca que servia de palco para o jogo.

As paredes e o chão eram de concreto aparente.

No teto, podiam-se ver vigas metálicas cobertas por uma camada de material antichamas semelhante a poeira.

O que havia ali eram apenas algumas cadeiras dobráveis, mesas simples, monitores para supervisionar o andamento do jogo, máquinas de função desconhecida e inúmeros cabos responsáveis por fornecer energia e comunicação a todos aqueles equipamentos.

Além da Agente de Yuki, apenas Rinrin e o Supplier estavam presentes.

Não havia mais ninguém.

Era a sala de controle do jogo.

E ficava em um prédio diferente daquele onde Yuki estava.

“Correu tudo bem?”

Perguntou Rinrin.

“Sim.”

“Parece que sim.”

A Agente voltou os olhos para um dos monitores.

Nele aparecia a sala branca que servia como ponto inicial do jogo.

Uma das portas estava aberta.

Yuki observava o ambiente inquieta e, aparentemente tendo acabado de notar a câmera, olhou diretamente para ela.

Não havia qualquer sinal de estranhamento em seu rosto.

Acho que conseguimos encenar isso direito.

A Agente sentiu um breve alívio.

Como a conversa entre Yuki e a Fantasma parecia ter chegado a uma pausa, ela havia reproduzido sons de passos, aberto a porta remotamente e criado a impressão de que a Fantasma tinha saído da sala.

“Bem então…”

Disse Rinrin.

“Que tal colocarmos a outra participante para começar também?”

Enquanto falava, ligou um microfone.

Era um sistema para transmitir voz para uma sala branca.

Porém, o destinatário não era Yuki.

A Agente deslocou o olhar para outro monitor.

Ali também aparecia uma sala branca.

Praticamente idêntica àquela onde Yuki havia despertado.

Mas havia uma diferença.

A pessoa exibida naquela tela não era Yuki.

E ali estava justamente a característica mais importante daquele jogo.

Para controlar as ações da Fantasma, a equipe havia preparado uma segunda versão idêntica do cenário.

Um palco perfeitamente igual.

Nele colocaram outra jogadora.

Essa segunda área ficava no primeiro andar do prédio localizado diretamente abaixo da sala de controle.

A participante avançaria pelo jogo normalmente.

E o progresso dela seria sincronizado com o de Yuki.

Dessa forma, criavam a ilusão de que a Fantasma realmente existia.

Esse era o truque por trás do jogo de confronto contra a Fantasma:

Snow Room.

Em outras palavras...

Na realidade, tratava-se de uma disputa entre Yuki e uma colaboradora que atuava como substituta da Fantasma.

Rinrin falou através do microfone.

“Sua oponente já começou.”

“Você também pode iniciar o jogo.”

“Entendido.”

A voz da colaboradora ecoou pelo alto-falante embutido do monitor.

“Nem preciso dizer…”

Continuou Rinrin.

“Faça isso seriamente.”

“Utilize todo o poder que possui para avançar no jogo.”

“Se eu perceber qualquer sinal de que está pegando leve, mesmo que seja um pouco…”

“Eu mato você.”

Ela não tem como entender isso...

Pensou a Agente.

Que jeito horrível de falar com alguém que está ajudando por boa vontade.

Era o que ela queria dizer.

Mas a colaboradora respondeu calmamente:

“Claro.”

A Agente não sabia se aquilo significava que ela realmente pretendia dar o melhor de si...

Ou se simplesmente não se importava com a ameaça de morte.

“Ah, e mais uma coisa.”

Disse Rinrin.

“Quando sair da sala, use a porta que está diretamente à sua frente.”

“Caso contrário, a lógica não vai funcionar.”

“Lógica?”

Perguntou a colaboradora.

“O que isso quer dizer?”

“Não há necessidade de investigar coisas desnecessárias.”

“Apenas faça o que foi pedido.”

“...Entendido.”

A verdade não havia sido revelada à colaboradora.

Tudo o que lhe disseram foi que haviam criado um jogo de fuga para treinamento e gostariam que ela o testasse.

Portanto, para ela, o Snow Room era apenas um jogo experimental.

Uma simulação que não colocava vidas em risco.

Ela também foi informada de que existia outra pessoa jogando simultaneamente em uma área diferente e que o progresso dos dois cenários seria sincronizado.

Mas não sabia de mais nada.

Não sabia que sua oponente era Yuki.

Muito menos que o lado de Yuki era um jogo mortal de verdade.

Também desconhecia completamente o fato de que estava sendo usada como substituta da Fantasma que Yuki enxergava.

Ainda assim...

Provavelmente ela suspeitava de alguma coisa.

Afinal, esforço demais havia sido investido para algo que deveria ser apenas um teste.

A atitude da Agente, de Rinrin e de todos os envolvidos era séria demais.

E, acima de tudo...

Porque aquela colaboradora era quem era.

(10/44)

Abrindo uma porta diferente daquela pela qual a Fantasma havia passado, Yuki deixou a sala.

Logo em seguida, a porta se fechou atrás dela.

Era do tipo que fecha automaticamente, comum em hospitais e casas de banho públicas.

Então ela não apenas abre sozinha, mas também fecha sozinha...

Pensando nisso, Yuki observou o ambiente ao redor.

O lugar para onde chegou também era uma sala branca.

Tinha aproximadamente o mesmo tamanho da anterior.

E estava vazia.

Não havia a inscrição SNOW ROOM.

Nem explicações sobre as regras.

Apenas uma câmera de vigilância no canto do teto e uma porta em cada uma das quatro paredes.

Yuki escolheu a porta à sua frente.

Abriu-a.

E entrou na próxima sala.

Mais uma vez...

Outra sala branca praticamente idêntica.

Ao que tudo indicava, aquele prédio era formado por uma enorme quantidade de cômodos semelhantes.

Yuki continuou avançando em linha reta por cerca de três salas.

Mas todas eram iguais.

Portas.

Uma câmera.

E nada mais.

Não apenas o agasalho não aparecia...

Nem sequer havia algo que parecesse capaz de escondê-lo.

O que significa isso...?

Pensava ela.

Quando entrou na quarta sala, percebeu que não havia porta à frente.

Parecia ter alcançado a extremidade do prédio.

Como não podia continuar em frente, virou à esquerda.

E voltou a seguir em linha reta.

Imaginou que, fazendo isso, acabaria chegando a outro canto da construção.

Passando de uma sala de extremidade para outra, atravessando cômodos com apenas três portas, Yuki continuou avançando.

Então—

“Ah.”

Um som escapou involuntariamente de seus lábios.

Porque a Fantasma apareceu diante dela.

Não surgiu do nada.

Um instante depois de Yuki entrar na sala, ele entrou pela porta oposta.

Assim como ela, parecia estar se deslocando de sala em sala.

“Olá.”

Disse o Fantasma.

“E então? Algum resultado? Fez algum progresso?”

“Ainda não encontrei nada.”

Respondeu Yuki.

“E você?”

“Bem…”

A Fantasma deu de ombros.

“Acho que estou na mesma situação que você.”

Sem admitir claramente que também não havia encontrado nada, respondeu de forma ambígua e passou por ela.

Yuki o acompanhou com o olhar.

Observou enquanto ele caminhava ao som daqueles passos artificiais.

A porta abriu sozinha.

Ele saiu.

E a porta voltou a fechar automaticamente.

Os passos continuavam ecoando.

As portas continuavam abrindo sozinhas.

Na realidade, alguém provavelmente estava controlando tudo aquilo do lado de fora.

Mas como exatamente?

Estariam apenas acionando os efeitos aleatoriamente?

Ou haveria realmente alguém caminhando e abrindo portas em outro lugar?

Provavelmente a segunda opção.

Yuki chegou a essa conclusão.

Deve existir outro espaço com a mesma estrutura deste prédio.

Ela não sabia se era um lugar físico ou algum tipo de ambiente virtual.

Mas havia outro.

E dentro dele existia uma jogadora.

Os movimentos dessa jogadora eram convertidos em sons de passos e abertura de portas.

Então a mente de Yuki transformava essas informações na figura da Fantasma.

Em outras palavras...

Existia uma adversária.

Snow Room não era um jogo solo.

Era uma disputa contra a Fantasma.

Mas quem é esse adversário de verdade...?

O pensamento quase seguiu nessa direção.

Mas Yuki o interrompeu imediatamente.

Não.

Isso não importa agora.

O importante era outra coisa.

Esse também era um jogo competitivo.

Se fosse assim, ela não podia agir com calma.

Precisava encontrar o agasalho antes da Fantasma.

Precisava vestir aquelas roupas.

E provar que era ela quem merecia continuar existindo.

“...Dito isso…”

Murmurou Yuki.

Sua voz foi absorvida pelas paredes e pelo chão brancos.

E desapareceu.

A sala em que estava parecia ser um dos cantos do prédio.

Possuía apenas duas portas.

Na verdade, tinha ainda menos elementos do que as salas anteriores.

E, diante de um ambiente assim...

Onde exatamente eu deveria procurar?

Mesmo querendo encontrar o agasalho, não havia nada para investigar.

Nada para abrir.

Nada para examinar.

Nada sequer parecido com um esconderijo.

Yuki sentia que ainda nem havia começado o jogo de verdade.

Nem mesmo a ação de procurar lhe estava sendo permitida.

Tudo o que fazia era caminhar de um cômodo vazio para outro.

Uma sensação de vazio e impaciência acumulava-se em seu peito.

Sem progresso.

Sem pistas.

Sem direção.

Soltando um suspiro para aliviar parte daquela frustração, Yuki deu um passo para sair da sala de canto.

Mas—

Exatamente no primeiro passo seguinte.

Ela sentiu algo estranho sob a sola do pé.

Uma sensação macia e pegajosa.

Como se tivesse acabado de pisar em cocô de cachorro.

(11/44)

Yuki saltou para trás por reflexo.

Seu olhar caiu imediatamente sobre o chão.

Bem diante dela...

Exatamente no ponto onde seu pé havia tocado um instante antes...

O piso estava afundado.

Um interruptor.

Com o corpo inteiro, Yuki se lembrou de algo.

Isto é um jogo.

Instantaneamente, seu próprio instinto de sobrevivência foi ativado.

Ela entrou em estado de alerta máximo.

Os olhos percorreram o ambiente.

Os músculos ficaram tensos.

Esperando um ataque.

Uma armadilha.

Dardos envenenados?

Uma serra circular?

Qualquer coisa.

Mas—

O que aconteceu foi completamente diferente.

Ou melhor...

Quem se moveu foi a parede.

Parte da superfície branca e lisa que cercava a sala deslizou para o lado.

E algo surgiu por trás dela.

Parecia um cofre.

Sem baixar a guarda, Yuki se aproximou.

Mesmo chegando mais perto, a impressão não mudou.

Era realmente um cofre.

Na porta havia algumas palavras escritas.

Q2. Escolha, entre as alternativas abaixo, o nome oficial da Estátua da Liberdade.

A. Liberty Enlightening the World (“A Liberdade Iluminando”)

B. The Statue of Saint Aphrodite (“A Estátua de Santa Afrodite”)

C. Liberty Leading the People (“A Liberdade Guiando o Povo”)

D. Mother of Exiles (“Mãe dos Exilados”)

Penalidade por resposta errada:

Uma corrente elétrica percorrerá seu corpo.

Era uma pergunta simples.

Ao lado do enunciado havia quatro botões metálicos.

A, B, C e D.

A interpretação era óbvia.

Acertar abriria o cofre.

Errar acionaria a penalidade.

“Entendi…”

Murmurou Yuki.

Provavelmente existiam muitos mecanismos como aquele espalhados pelo prédio.

Interruptores escondidos.

Perguntas ocultas atrás de paredes e pisos aparentemente vazios.

O objetivo do jogo devia ser encontrar esses mecanismos e, através deles, chegar ao paradeiro do agasalho.

Agora...

Yuki encarou a pergunta.

Uma questão de múltipla escolha.

Penalidade elétrica.

Mesmo escolhendo aleatoriamente, havia uma chance de uma em quatro de acertar.

Além disso...

Uma parte dela queria testar o quão severa era aquela punição.

Confiando no próprio instinto, pressionou o botão C.

E então—

No instante seguinte—

Uma dor violenta atravessou seu corpo.

“GAH...!?”

Yuki arrancou o dedo do botão.

E caiu no chão.

Contorcendo-se.

Doía.

Doía demais.

Não era apenas o dedo.

Seu corpo inteiro parecia estar sendo queimado por dentro.

A corrente elétrica havia entrado pelo botão.

Passado por seu dedo.

Percorrido todo o corpo.

E finalmente descarregado no chão.

Mesmo em meio à dor, Yuki conseguiu compreender o que havia acontecido.

Ela já tinha sido eletrocutada diversas vezes durante jogos.

Fazia praticamente parte de sua carreira.

Mas aquilo...

Aquilo disputava facilmente o primeiro ou segundo lugar entre as piores descargas que já havia recebido.

Era forte demais.

Ridiculamente forte.

Muito acima do que faria sentido para uma pergunta de aquecimento logo no começo do jogo.

Após algum tempo, a dor finalmente começou a diminuir.

Enquanto recuperava o fôlego, uma lembrança surgiu em sua mente.

Ela havia esquecido um detalhe importante.

O projeto daquele jogo...

Tinha sido criado por Rinrin.

“...”

O rosto de Yuki ficou vazio por um instante.

Então ela percebeu.

Claro.

Eu realmente deveria ter lembrado disso antes de apertar qualquer botão.

(12/44)

“Parece que ela percebeu.”

Disse Rinrin na sala de controle.

Provavelmente estava falando de Yuki, que havia encontrado o primeiro desafio.

Embora fosse cega, Rinrin parecia ter deduzido a situação pelas palavras murmuradas por Yuki através do monitor e pelo gemido que ela soltou ao receber a descarga elétrica.

“Parece que sim.”

Respondeu a Agente.

“Ou talvez seja mais correto dizer que ela finalmente percebeu.”

“...Talvez.”

A Agente voltou os olhos para o monitor que exibia a Colaboradora.

Naquele momento, ela já estava resolvendo o terceiro problema.

Era assustadoramente rápida.

Encontrava interruptores.

Descobria cofres.

Resolvia perguntas.

Tudo em uma velocidade absurda.

Como esperado, ela não é uma pessoa comum.

Pensou a Agente, admirada.

Logo depois, a Colaboradora resolveu a terceira questão também.

A porta do cofre se abriu.

“Fácil.”

Comentou ela.

“Mesmo sendo o começo do jogo, isso não está fácil demais?”

Ela continuou:

“Vocês deveriam aumentar um pouco a dificuldade das perguntas.”

“Ou tornar a penalidade por erro mais severa.”

“Falta desafio.”

Rinrin respondeu imediatamente:

“Não fale comigo com tanta intimidade.”

Sua voz estava visivelmente fria.

“Encare isso como um jogo real.”

“Entre em contato apenas quando for necessário.”

“Ah.”

A Colaboradora respondeu sem se ofender.

“Mas não é importante dar feedback?”

“Afinal, este é um teste justamente para isso, não é?”

Ao ouvir aquilo, Rinrin pareceu ficar ligeiramente sem palavras.

Era verdade.

A justificativa usada para recrutar a Colaboradora havia sido exatamente essa.

Um teste de jogo.

Portanto, era perfeitamente natural que ela enviasse comentários e impressões durante a partida.

“Vou ouvir tudo de uma vez depois.”

Disse Rinrin, tentando contornar a situação.

“Não precisa relatar suas impressões a cada problema.”

“Entendido?”

“Entendido.”

Respondeu a Colaboradora.

Sua voz continuava calma.

Sem suspeitas aparentes.

Mas a Agente não conseguia deixar de pensar.

Aquela mulher estava avançando pelo jogo rápido demais.

E quanto mais observava seus movimentos...

Mais tinha a sensação de que esconder a verdade dela seria impossível para sempre.

(13/44)

Depois de se recuperar da punição elétrica, Yuki voltou sua atenção para o problema.

Q2. Escolha, entre as alternativas abaixo, o nome oficial da Estátua da Liberdade.

A. Liberty Enlightening the World

B. The Statue of Saint Aphrodite

C. Liberty Leading the People

D. Mother of Exiles

Penalidade por resposta errada:

Uma corrente elétrica percorrerá seu corpo.

Em troca de uma quantidade absurda de dor, ela já sabia que a alternativa C estava errada.

As quatro opções haviam se reduzido a três.

Mesmo assim, ela não tinha a menor vontade de tentar outro chute.

Precisava pensar seriamente.

Nome oficial da Estátua da Liberdade...

Yuki não sabia a resposta.

Mas acreditava que podia deduzi-la pela construção das alternativas.

Observando as opções, concluiu que B e D pareciam destoar das demais.

Tinham uma "cara" diferente.

Provavelmente eram distrações.

O verdadeiro dilema parecia estar entre A e C, que possuíam uma estrutura semelhante.

E como C já havia sido eliminada...

Então a resposta correta só podia ser A.

Yuki pressionou o botão correspondente.

Por precaução, colocou um pedaço da própria camiseta entre o dedo e o botão.

Nada aconteceu.

Nenhuma reação.

Parecia ser um sistema semelhante a uma tela sensível ao toque.

Só funcionava com contato direto da pele.

“Minuciosos demais…”

Resmungou.

Sentindo-se irritada, pressionou o botão novamente com o dedo.

Desta vez, nenhuma descarga elétrica veio.

E a porta do cofre se abriu.

Dentro havia apenas um papel.

Yuki o pegou e leu.

Dica 2

Existem vinte e cinco salas neste prédio.

Cinco salas estão alinhadas horizontalmente e cinco verticalmente.

Não parecia uma informação particularmente importante.

Cinco por cinco.

Vinte e cinco salas.

Pelo que havia explorado até aquele momento, ela já suspeitava que o prédio tivesse aproximadamente esse tamanho.

Talvez, por se tratar de uma pergunta fácil, a recompensa também fosse modesta.

Mesmo não sendo uma pista extraordinária, ela não queria que a Fantasma a visse.

Por isso guardou o papel.

O problema era que, usando apenas uma camiseta, ela não tinha bolsos.

Então dobrou o bilhete em uma tira fina.

E o amarrou aos cabelos.

Como um omikuji preso num galho de santuário.

Depois disso, abriu a porta e seguiu para a próxima sala.

Mas—

“Uau…”

Um som de surpresa escapou de seus lábios.

Porque naquela sala já havia um problema revelado.

Assim como na sala de canto anterior, parte da parede havia deslizado, expondo um cofre escondido.

E não apenas isso.

O problema já estava resolvido.

A porta do cofre estava completamente aberta.

Foi a Fantasma.

Ela chegou à conclusão imediatamente.

A Fantasma também havia entendido o funcionamento do jogo.

Yuki se aproximou e espiou o interior do cofre.

Estava vazio.

O conteúdo já havia sido recolhido.

Mas aquilo levantou outra dúvida.

Como isso está sendo reproduzido na realidade?

Observando melhor o cofre, percebeu algo.

Havia uma pequena tampa instalada em sua parte inferior.

Entendi.

Os itens provavelmente eram retirados por ali.

Não apenas os sons de passos e as portas eram simulados.

A abertura dos cofres e a coleta dos objetos também estavam sendo reproduzidas por algum mecanismo.

Enquanto assimilava mais uma peça do funcionamento de Snow Room, Yuki deixou a sala.

Foi então que algo chamou sua atenção.

Ela não havia lido o enunciado daquela questão.

Mas conseguiu ver o número escrito no início.

Q6.

Yuki parou por um instante.

Ela havia resolvido a questão Q2.

E a Fantasma já estava na Q6.

Uma diferença de quatro problemas.

A implicação era óbvia.

Ela está avançando muito mais rápido do que eu.

A sensação de urgência que já a acompanhava desde o início do jogo tornou-se ainda mais forte.

Se continuasse nesse ritmo...

A Fantasma encontraria o agasalho primeiro.

(14/44)

Quando Yuki entrou na sala seguinte, não havia nenhum problema visível.

Apenas chão branco.

Paredes brancas.

Teto branco.

Nada mais.

Yuki começou a andar pelo cômodo.

Parte disso era para procurar um interruptor escondido.

Mas outra parte era para pensar.

Por enquanto estou apenas procurando...

Mas posso assumir que existe um interruptor e um cofre em cada sala?

Ela refletia enquanto caminhava.

O bilhete dizia que havia vinte e cinco salas no prédio.

Mas isso significava que todas continham desafios?

Se fosse assim, haveria vinte e cinco perguntas no total.

Não.

Nem necessariamente.

Talvez algumas salas tivessem duas ou três.

De qualquer forma, o agasalho estaria escondido dentro de um desses inúmeros cofres?

“Não…”

Murmurou Yuki.

“Não deve ser algo tão simples assim.”

Ela tinha certeza disso.

Porque, se fosse esse o caso, o resultado do jogo dependeria apenas de quem abrisse o cofre certo primeiro.

Em outras palavras...

Viraria um simples jogo de sorte.

Pensando pela lógica dos jogos de fuga, era mais razoável considerar tudo aquilo apenas como a primeira etapa.

Enquanto refletia sobre isso, seu pé encontrou algo.

Squish.

O interruptor escondido.

Parte da parede deslizou.

E um cofre apareceu.

Yuki olhou para o número da questão.

“Número 17, hein…”

Disse em voz alta.

A primeira questão encontrada havia sido a Q2.

A segunda era a Q6.

Agora aparecia a Q17.

Ela pensou por alguns segundos.

Mas não encontrou qualquer padrão.

Os números pareciam distribuídos completamente ao acaso.

Yuki começou a resolver o desafio.

Utilizando seus conhecimentos do silabário japonês, conseguiu chegar à resposta.

O cofre se abriu.

Mas, em vez de uma pista importante...

Havia apenas uma caneta hidrográfica.

“...”

Então existiam itens desse tipo também.

Como sempre, usando apenas uma camiseta, ela não tinha onde guardar nada.

Por isso encaixou a caneta atrás da orelha.

Parecendo uma apostadora veterana de corridas de cavalos.

Depois disso, continuou explorando.

Sala após sala.

Problema após problema.

Por enquanto não tenho escolha além de continuar resolvendo tudo o que encontrar.

Era sua conclusão.

Novos interruptores surgiam escondidos no chão.

Novos cofres apareciam.

As dificuldades variavam bastante.

Algumas questões eram simples.

Outras exigiam mais raciocínio.

Mesmo assim, todas permaneciam dentro do alcance das capacidades de Yuki.

Ela resolveu três desafios seguidos sem errar uma única vez.

Os itens obtidos foram:

Primeiro, outro bilhete de dica.

Dica 5

Qualquer jogadora que tente sair do prédio sem vestir o agasalho será morto a tiros.

Não parecia particularmente útil.

Aquilo já era óbvio desde que ela havia visto as armas instaladas na saída.

A segunda recompensa foi um pequeno caderno de bolso.

Provavelmente serviria para anotações.

A terceira foi uma tabela de código Morse.

Isso chamou sua atenção.

Parecia indicar que existia, em algum lugar do prédio, um problema impossível de resolver sem consultar aquele material.

Depois de obter os itens, Yuki retornou aos cômodos onde encontrara os desafios.

Procurou por um segundo interruptor.

Depois um terceiro.

Mas não encontrou nada.

Talvez realmente exista apenas um problema por sala...

Seu palpite se fortaleceu.

Ela entrou em outra sala.

Encontrou mais um interruptor.

Mais um problema.

E, enquanto resolvia a quarta questão encontrada desde o início da exploração...

Murmurou baixinho:

“Mesmo assim…”

Sua mão continuava escrevendo.

Sua mente continuava calculando.

“Pensar que eu estou resolvendo enigmas…”

Uma lembrança distante surgiu.

A Yuki do passado.

A garota que avançava apenas pela força.

Que resolvia tudo correndo para a frente.

Que raramente parava para pensar.

Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

“Eu fiquei mais inteligente.”

Ela ergueu os olhos para o problema.

E concluiu:

“Comparada com antigamente.”

(15/44)

“Você…”

Alguém já havia lhe feito essa pergunta no passado.

“Por que está estudando aqui?”

Quem perguntou foi Hitomi.

Uma colega da mesma escola noturna que Yuki frequentava.

E também uma ex-jogadora.

Foi na própria escola.

Talvez durante a troca de salas.

Ou antes da aula começar.

Yuki não lembrava exatamente.

Mas recordava que, por algum motivo, não havia ninguém por perto.

Por isso puderam ter uma conversa que jamais poderia ser ouvida por pessoas comuns.

“Hã?”

Yuki perguntou de volta.

“Por que você está frequentando a escola?”

Com seu jeito caracteristicamente direto, Hitomi continuou:

“Você ainda continua sendo uma jogadora, não é?”

“Diferente de mim, você não largou esse mundo.”

“Então existe mesmo alguma necessidade de estudar?”

Ah... era isso que ela queria dizer.

“Existe.”

Respondeu Yuki.

“Mesmo para continuar sendo uma jogadora, você precisa ter o mínimo de inteligência.”

Já fazia quase dois anos que ela frequentava aquela escola.

E o motivo era exatamente esse.

Talvez o que aprendia ali não fosse usado diretamente nos jogos.

Mas sentia que, comparada ao passado, agora conseguia lutar usando a cabeça.

“Entendo…”

Murmurou Hitomi.

Então perguntou:

“E o ensino médio?”

“Você não cursou?”

“Ou abandonou?”

Como Yuki havia entrado no meio do ano letivo, Hitomi sabia que ela não tinha seguido o caminho normal dos outros alunos.

“Nem comecei.”

Respondeu Yuki.

“Meus pais eram do tipo laissez-faire.”

“Ou melhor…”

“Eram pessoas que não tinham muito interesse em mim.”

Ela falou sem emoção.

Como se estivesse descrevendo o clima.

“Depois que terminei o ensino obrigatório, basicamente disseram:”

“ ‘Faça o que quiser.’ “

“Então eu levei isso ao pé da letra.”

“Acabei vagando por aí depois de terminar o fundamental.”

“Heh..”.

Hitomi sorriu levemente.

“Igual a mim.”

Havia um toque de empatia em sua voz.

E, em resposta, Yuki também relaxou um pouco a expressão.

Ela havia vivido sem rumo.

Sem objetivo.

Até acabar se tornando uma jogadora.

E isso era tudo o que explicava seu passado.

Não havia uma história grandiosa.

Nenhum drama especial.

Nenhuma tragédia marcante.

Com a personalidade que possuía naquela época, algo assim dificilmente aconteceria.

Talvez houvesse apenas uma coisa.

A herança dos pais.

Yuki havia herdado deles aquele temperamento niilista.

A sensação de que nada importava muito.

Desde que se tornara jogadora, cortara completamente o contato com eles.

E, pelo que sabia, eles também nunca tentaram procurá-la.

Ela própria não tinha intenção de visitá-los.

Provavelmente...

Nunca mais se encontrariam.

E isso não lhe parecia estranho.

Se até com a própria família era assim...

Então, com outras pessoas, era ainda mais.

Durante toda a metade de sua vida que conseguia recordar, houve apenas duas pessoas com quem realmente se envolveu profundamente.

A primeira era seu Mestre.

E a segunda...

Tamamo.

Foi a primeira vez.

A primeira vez que alguém se aproximou tanto dela.

A primeira vez que alguém insistiu tanto em permanecer ao seu lado.

Por isso...

Ela não soube o que fazer.

Não soube como reagir.

Não soube como responder.

Ela simplesmente...

Não sabia.

(16/44)

“...Ah.”

Em uma das salas brancas, Yuki murmurou.

Naquela sala, um problema havia aparecido sem que ela precisasse procurá-lo.

A Fantasma provavelmente havia apertado o interruptor.

Era a segunda vez que ela encontrava uma sala onde o problema já estava presente ao entrar, mas, mesmo assim, Yuki ficou um pouco surpresa.

Porque aquele problema não estava na parede.

Estava no chão.

Além disso, a porta onde o problema estava escrito era maior do que as anteriores.

Em vez de um cofre, parecia uma escotilha que levava para um espaço subterrâneo.

Talvez houvesse um depósito ou uma passagem subterrânea além dela, mas, como a porta permanecia fechada — porque o problema ainda não havia sido resolvido —, ela não conseguia ver o que existia do outro lado.

Yuki se aproximou e leu o enigma.

Q?? Qual é o número desta questão? Digite a resposta usando o teclado numérico.

Penalidade por erro: o teto desta sala cairá.

Yuki franziu a testa tão profundamente que percebeu isso por conta própria.

Ela não entendia nada.

Não, entendia o que estava sendo pedido.

Precisava responder qual era o número daquela questão, preenchendo a parte do Q??.

O que ela não entendia era como chegar à resposta.

A ordem dos números das questões não deveria ser aleatória?

Ser questionada com algo como "Que número de questão é esta?" era extremamente problemático.

Yuki pensou por um tempo.

Talvez a solução fosse por eliminação.

Se houvesse uma questão escondida em cada sala — algo que ainda não estava confirmado —, bastaria encontrar todas elas, anotar seus números e descobrir qual estava faltando.

Era uma hipótese plausível.

Mas, se fosse esse o caso, a Yuki atual não tinha como resolver o problema.

Talvez a Fantasma tivesse chegado à mesma conclusão e por isso o deixara sem resposta.

Após chegar a essa conclusão, Yuki saiu da sala.

Entrou na sala seguinte e começou novamente a caminhar de um lado para o outro, procurando um interruptor no chão.

Mesmo assim, sua mente continuava pensando naquele problema.

Provavelmente era algo importante.

A porta era uma escotilha, não um cofre.

Além disso, a penalidade parecia muito mais severa.

"O teto desta sala cairá."

Ela não sabia exatamente o que isso significava, mas era seguro assumir que errar resultaria em morte.

Uma punição claramente mais pesada do que as anteriores.

Talvez isso refletisse a importância do problema.

Mas, como parecia impossível resolvê-lo naquele momento, ela não tinha escolha além de continuar sua busca.

Enquanto pensava, continuava pisando no chão.

Graças à distração causada pelos pensamentos, terminou a inspeção rapidamente.

Mas não encontrou nenhum interruptor.

“...Hã?”

Algo estava estranho.

Nas salas anteriores sempre havia um interruptor em algum lugar do piso.

Será que desta vez estava na parede?

Ou talvez ela tivesse deixado passar por estar distraída?

Pensando nisso, decidiu examinar o chão novamente desde o começo.

Foi então que a porta da sala se abriu.

Tac... tac...

Passos ecoaram.

Isso significava que a Fantasma havia entrado.

“Oh.”

Ao notar Yuki, a Fantasma a cumprimentou.

“Boa tarde.”

“Obrigada.”

Yuki respondeu enquanto continuava procurando o interruptor.

Assim como Yuki, a Fantasma tinha amarrado anotações e pequenos objetos em seu cabelo.

Parecia estar avançando pelo jogo também.

Claro, aquela figura não passava de algo criado pela mente de Yuki.

Talvez fosse mais correto dizer que seu subconsciente acreditava que a Fantasma também estava jogando.

A Fantasma observou Yuki por alguns instantes.

Então perguntou:

“O que você está fazendo?”

“Ficando aí igual uma idiota, batendo os pés no chão…”

“...Estou procurando um interruptor.”

Yuki respondeu sem interromper sua busca.

A Fantasma soltou uma risada debochada.

“Kukuku…”

Como sempre, havia desprezo naquela risada.

O que há de errado com essa garota? pensou Yuki.

“Tem certeza de que pode perder tempo assim?”, perguntou a Fantasma. “A diferença entre nós está aumentando cada vez mais.”

“...?”

Outra observação cheia de significado.

Mas não parecia apenas provocação.

Havia algo por trás daquelas palavras.

Antes que Yuki pudesse encontrar uma resposta, a Fantasma se moveu.

Passou por ela e saiu da sala.

Foi para a sala que continha o problema.

Pouco antes da porta se fechar automaticamente, Yuki viu a Fantasma se agachar diante do enigma.

Aquilo despertou imediatamente seu interesse.

Não me diga... ela consegue resolver?

Sua curiosidade foi tão grande que ela abandonou a procura pelo interruptor.

Correu até a porta recém-fechada, abriu-a novamente e observou a Fantasma.

Ele parecia estar digitando uma resposta.

Por causa da penalidade, Yuki não entrou.

Limitou-se a assistir da entrada.

Em menos de três segundos, a Fantasma terminou.

Apertou a tecla de confirmação.

Yuki ficou tensa.

Mas o teto não caiu.

Em vez disso, um agradável som eletrônico ecoou pela sala.

Provavelmente significava que a resposta estava correta.

A porta então se abriu.

Yuki ficou chocada.

Não deveria se surpreender.

A Fantasma só teria respondido se estivesse confiante.

Mesmo assim, ela não conseguia evitar.

Como ela resolveu aquilo?

O método da eliminação era impossível naquele momento.

Enquanto o problema da sala de Yuki permanecesse oculto, não havia como restringir as opções a uma única resposta.

Ela havia observado toda a sequência.

Mas o momento crucial ficou escondido pelo corpo da Fantasma.

A resposta permaneceu invisível.

Era estranho dizer que algo estava sendo bloqueado por uma ilusão, mas o fato era esse.

Ela não sabia nem a resposta nem o raciocínio usado para chegar a ela.

Enquanto ainda tentava entender, o Fantasma começou a descer pela abertura da escotilha.

Ao ver isso, Yuki pensou:

Droga!

Suas pernas se moveram sozinhas.

Instintivamente decidiu persegui-la.

Mas naquele instante seus olhos encontraram os da Fantasma.

Yuki percebeu imediatamente o brilho hostil em seu olhar.

Também notou que uma das mãos da Fantasma estava apoiada na porta.

As pontas dos dedos, escondidas pela sombra, fizeram um pequeno movimento.

Com apenas essas duas informações, ela compreendeu o que estava prestes a acontecer.

Da mesma forma natural que antes, Yuki parou.

Girou sobre os calcanhares.

E começou a correr de volta pelo caminho por onde tinha vindo.

Então...

Jarajara... jarajara...

Um som violento de correntes se esfregando ecoou.

Parecia o som de algo preso por correntes sendo solto do teto.

No instante em que Yuki atravessou a porta e voltou para a sala anterior—

DOOOOM!

Um estrondo sacudiu todo o seu corpo.

A vibração subiu pelo chão.

Ela perdeu o equilíbrio e caiu.

Apoiando as mãos no piso, virou rapidamente a cabeça para trás.

E viu.

O teto havia caído.

(17/44)

Era uma situação que só podia ser descrita dessa forma.

A sala que continha aquele problema, onde Yuki estava há poucos instantes, agora tinha todo o seu espaço ocupado pelo teto.

Como era a primeira vez em sua vida que via um teto cair, ela teve dificuldade em encontrar palavras para descrever a cena.

Era como se uma enorme placa de pedra plana — algo parecido com um tapete de diatomita ou um azulejo antes de ser instalado no chão, só que gigantesco — estivesse cobrindo completamente o piso da sala.

Várias correntes estavam presas àquela enorme massa de pedra.

Ela permanecia suspensa acima.

Então as correntes se moveram.

Produzindo novamente um som de jarajara... jarajara..., elas se estenderam.

Ao mesmo tempo, a enorme pedra começou a ser içada para cima, retornando lentamente à posição original.

Segurando a porta enquanto observava a cena atentamente, Yuki refletiu.

Era exatamente como a penalidade dizia.

O teto havia caído.

E por que ele caiu?

Obviamente porque alguém errou a resposta.

Aquilo era um plano da Fantasma.

Ele havia inserido outra resposta em um problema cuja porta já estava aberta e que teoricamente nem precisava mais ser respondida.

E, deliberadamente, digitou uma resposta errada.

Assim, ativou a penalidade por erro.

Tudo para esmagar Yuki.

Tudo para matá-la.

O som das correntes cessou.

O teto voltou completamente à sua posição original.

A paisagem da sala branca reapareceu.

Não havia nada ali além da escotilha no chão.

A porta da escotilha estava fechada.

Porém, quando o teto retornou para cima, ela se abriu.

A Fantasma colocou o rosto para fora.

Seu olhar encontrou o de Yuki.

Ao confirmar que ela não havia sido esmagada — e que, na verdade, não tinha sofrido nem um arranhão —, ele soltou uma risada debochada.

“Ahh... que pena.”

Deixando apenas esse comentário de despedida, fechou a porta novamente.

“Droga…”

Tomada pela frustração, Yuki entrou na sala.

Ela se aproximou da escotilha e tentou puxar a maçaneta.

Mas ela não abriu.

Estava trancada.

As portas dos cofres funcionavam de modo que, uma vez resolvido o problema, permaneciam abertas.

Mas aquela porta parecia se trancar toda vez que era fechada.

Pelo comportamento da Fantasma momentos antes, parecia possível abri-la pelo lado de dentro.

Porém, do lado de fora, era impossível.

A menos que se resolvesse corretamente o problema da porta.

Mas...

Como diabos ela faria isso?

(18/44)

"— Como eu esperava, era um quadrado mágico.”

A voz da Colaboradora chegou de outra sala.

Ela, que havia resolvido aquele problema, estava seguindo para o subterrâneo.

Misturada ao som da escada que descia, sua voz continuou:

“Não parecia haver uma regra fácil de entender na sequência dos números das questões. Claro, seria possível anotar os números dos outros vinte e quatro cômodos e descobrir o número faltante por eliminação... porém, nem todas as salas possuem problemas escondidos. Nesse caso, só pode ser isso.”

“Eu já disse para você parar de falar conosco, não disse?”

Interrompendo a explicação da Colaboradora, Rinrin respondeu:

“Que barulhenta.”

“— ? Não, eu estava apenas falando sozinha... Além disso, é verdade, não é? A Rinrin-san já sabe a resposta naturalmente. Não há necessidade de eu explicar.”

Rinrin fez uma expressão desagradável diante da Colaboradora, que simplesmente não conseguia ficar calada.

A Agente observava a cena de lado.

Na verdade, aquela era mesmo a resposta correta.

Foi por isso que a escotilha que levava ao subterrâneo havia se aberto.

A intenção era que ela percebesse isso por meio de uma pista obtida ao resolver outro problema, mas imaginar que chegaria à conclusão sem nenhuma dica...

Quadrado mágico.

Um termo usado para descrever uma matriz quadrada na qual a soma dos números é igual em todas as linhas, colunas e diagonais.

O valor total depende do tamanho da matriz: quinze para uma matriz 3×3, trinta e quatro para uma 4×4 e sessenta e cinco para uma 5×5.

Como o palco do jogo possuía vinte e cinco salas organizadas em um arranjo de cinco por cinco, os números dos problemas haviam sido distribuídos formando um quadrado mágico.

Além disso, graças às propriedades desse tipo de arranjo, era possível deduzir e preencher os números desconhecidos.

Ou seja, não era necessário conhecer todos os outros números para resolver aquele problema.

Na verdade, o cenário já havia sido projetado para tornar isso impossível desde o início.

Como a Colaboradora havia dito, nem todas as salas possuíam problemas escondidos.

Por exemplo, a sala onde Yuki estivera perdendo tempo até poucos instantes atrás não possuía nem interruptor nem problema algum.

Um esforço completamente desperdiçado.

Embora a penalidade por erro fosse severa, a dificuldade do problema em si não era alta.

Era uma questão simples.

Algo que até uma criança do ensino fundamental conseguiria resolver.

Desde que fosse capaz de enxergar a situação como um todo.

A Agente voltou seus olhos para o monitor que mostrava Yuki.

Ela, aparentemente incapaz de enxergar a situação dessa maneira, estava parada diante da porta segurando a cabeça.

“...Ainda bem.”

Ao vê-la, a Agente murmurou.

Claro, não era um “ainda bem” porque o progresso do jogo havia parado.

Ela queria dizer que foi bom Yuki ter escapado da penalidade.

Quando a Colaboradora digitou deliberadamente uma resposta errada, a Agente ficou apavorada.

Como aquela ação era invisível do ponto de vista de Yuki, ela temeu que fosse tarde demais para escapar.

Mas, como esperado de uma jogadora veterana, Yuki pareceu perceber que algo estava errado.

Ela recuou imediatamente e evitou a armadilha do teto que despencava.

No Quarto da Neve, onde a Colaboradora também estava jogando, existiam penalidades por erro.

Contudo, por se tratar apenas de um jogo de teste, todas elas eram simuladas.

Os choques elétricos causavam apenas uma leve dor.

Mesmo quando o teto caía, ele era feito de isopor, então ninguém morreria mesmo se fosse atingido.

Mas isso não seria uma punição de verdade.

Por isso, havia regras definidas previamente:

Penalidades pequenas obrigavam a jogadora a esperar um minuto no lugar.

Penalidades grandes exigiam cinco minutos de espera.

A Colaboradora provavelmente acreditava que o jogo da adversária funcionava da mesma forma.

Ao perceber a presença de Yuki — graças ao movimento da porta —, ela ativou deliberadamente a penalidade para atrasá-la por cinco minutos.

Felizmente, o pior cenário foi evitado.

Mesmo assim, a Colaboradora havia conseguido ganhar vantagem.

Se Yuki continuasse presa ali, a diferença entre as duas aumentaria ainda mais.

Por favor...

Perceba logo a resposta.

O mais rápido possível...

Enquanto observava pelo monitor a garota parada com as mãos na cabeça, a Agente fez sua silenciosa prece.

Não se sabe se esse desejo chegou até ela.

Mas, de repente, Yuki afastou as mãos da cabeça e disse:

“...Entendi!”

(19/44)

“Quadrado mágico!”

Soltando as mãos que seguravam sua cabeça, Yuki exclamou.

Só podia ser isso.

Salas organizadas em formato quadrado.

Dedução de números.

Provavelmente não existia outro conceito no mundo que conectasse essas duas coisas.

Se fosse realmente um quadrado mágico, então ela também poderia resolver o problema.

Afinal, a Fantasma já havia conseguido.

Isso significava que todas as informações necessárias — os números dos problemas espalhados pelas salas — já estavam disponíveis.

Yuki saiu correndo.

Percorreu as salas numa velocidade impressionante.

Com a caneta hidrográfica, anotava os números dos problemas no verso de seu bloco de notas.

Logo depois de começar, percebeu algo.

Ainda havia vários problemas que não tinham sido tocados.

Para resolver aquela questão, a Fantasma provavelmente havia revelado alguns deles pouco antes.

Após terminar sua inspeção pelas salas, Yuki voltou ao local do problema.

Abriu o bloco de notas.

Fixou os olhos em todas as informações que havia reunido.

Então começou imediatamente a resolver a questão.

Usando a caneta, passou a escrever diretamente sobre o chão branco.

Fazia cálculos.

Rabiscava números.

Calculava sem parar.

Aliás, quando se tratava de provas de matemática na escola, ninguém era melhor do que Yuki em transformar a folha de questões em uma bagunça.

Mesmo cálculos que poderiam ser feitos mentalmente ela costumava escrever.

Por isso suas provas sempre acabavam cheias de anotações.

Naquela situação, esse hábito apareceu novamente.

E de forma até conveniente.

Ela estava com pressa.

Além disso, podia usar todo o chão como papel de rascunho.

Quando chegou ao ponto de se perguntar se estava resolvendo um quadrado mágico ou desenhando um círculo mágico, finalmente encontrou a resposta.

“...Deve ser isso...?”

Mesmo depois de circular o resultado, a ansiedade permaneceu.

Ela queria responder o mais rápido possível.

Mas sua vida estava em jogo.

Yuki conferiu os cálculos.

Por causa das propriedades de um quadrado mágico, se a soma de todas as colunas fosse igual, então a resposta deveria estar correta.

Ela verificou tudo mais uma vez.

Depois uma segunda vez, só para garantir.

Provavelmente estava certo.

Ou pelo menos era o que ela acreditava.

Tomando coragem, digitou a resposta.

Então apertou a tecla de confirmação.

E imediatamente saltou para trás, aproximando-se da porta.

Caso a penalidade fosse ativada, queria ter uma rota de fuga pronta.

Mas sua preocupação foi desnecessária.

Um som eletrônico agradável ecoou pela sala.

O sinal de que a resposta estava correta.

Logo em seguida, a escotilha se abriu.

(20/44)

Além da porta, estendia-se um profundo poço vertical.

Como imaginado, ele levava ao subterrâneo.

Será que não havia iluminação lá embaixo?

Além da abertura tudo era escuro, e a partir de certo ponto a escuridão era tão completa que nada podia ser visto.

Yuki soltou a caneta hidrográfica dentro do buraco.

Clang... clang...

Um som seco retornou das profundezas.

Pelo menos não parecia ser um abismo sem fundo.

Como havia uma escada presa à parede do poço, ela decidiu usá-la para descer.

Apoiando-se na luz que vinha da superfície, foi descendo degrau por degrau.

De cima, parecia que ela seria engolida pela escuridão imediatamente.

Mas, do ponto de vista de quem estava lá embaixo, a visibilidade era surpreendentemente melhor do que parecia.

Assim, conseguiu descer sem dificuldades.

Eventualmente, algo frio tocou seus pés descalços.

Ela havia chegado ao chão.

Ao pousar no subterrâneo, Yuki olhou ao redor.

A luz da superfície quase não chegava até ali.

Não era possível enxergar nada.

Ao tocar o piso, sentiu uma textura irregular, semelhante a uma estrada pavimentada com pedras.

As paredes também eram assim.

Era natural demais para uma simples passagem subterrânea, mas ao mesmo tempo bem conservado demais para ser uma caverna.

Por algum motivo, aquilo a fez lembrar das masmorras subterrâneas que apareciam em RPGs.

Na escuridão absoluta, Yuki tomou uma decisão.

Estalou a língua.

O som do clique ecoou pelo ambiente.

Ela ouviu atentamente o eco bater no teto, nas paredes e no chão antes de retornar.

Ecolocalização.

A habilidade que Yuki possuía de compreender o ambiente ao seu redor através do som.

Para a Yuki atual, escuridão não era realmente escuridão.

No jogo recente, Royale Palace, ela havia conseguido até lutar com uma espada enquanto estava cega.

A Fantasma provavelmente estava em algum lugar daquele subterrâneo.

Fazer barulho e revelar sua chegada era arriscado.

Mesmo assim, Yuki concluiu que não poderia prosseguir sem isso.

Após analisar o eco, percebeu que havia apenas um único caminho à frente.

Ela começou a segui-lo.

Depois de andar por algum tempo, encontrou uma bifurcação.

Escolheu uma direção ao acaso e continuou avançando.

Naquele mundo de trevas, apenas os sons de seus estalos de língua e dos pés descalços tocando o chão ecoavam pelos corredores.

Pensando bem, não era a primeira vez que ela caminhava no escuro.

A lembrança do décimo jogo, Scrap Building (“Construção com Sucata”), voltou à sua mente.

E junto dela...

A lembrança daquela irritante garota rica.

Existia alguém assim, não é...?

Yuki pensou.

De certa forma, ela também era uma das pessoas que mais influenciaram sua vida.

Parece que sou melhor em fazer rivais do que aliados.

Se ela me visse agora, o que diria?

Provavelmente ficaria furiosa.

Ou talvez...

Se aparecesse novamente e me desse um tapa na cara...

“......”

Pensando nessas bobagens, Yuki sorriu de forma amarga.

Então chegou a uma bifurcação em T.

O caminho se dividia para a esquerda e para a direita.

Pelo eco, percebeu que o lado esquerdo terminava em um beco sem saída.

Mesmo assim, decidiu seguir por ali.

A primeira impressão que aquele lugar lhe causara — a de uma masmorra de RPG — a levou a fazer isso.

Mesmo um beco sem saída podia esconder alguma coisa.

Após menos de vinte passos, encontrou uma parede.

Estalando a língua novamente, percebeu que havia algo aos seus pés.

Algo parecido com uma grande caixa.

A parte superior tinha formato arqueado.

Ao tocar com as mãos para confirmar, percebeu que era feita principalmente de madeira, reforçada com metal em alguns pontos.

Francamente...

Isso não é um baú do tesouro?

Em masmorras, sempre havia baús em becos sem saída.

Yuki bateu levemente na superfície, tentando descobrir o conteúdo pelo som.

Mas não conseguiu tirar muitas conclusões.

Tentou levantar o baú e sacudi-lo.

No entanto, ele parecia estar fixado ao chão.

Percebendo que não conseguiria descobrir nada por métodos indiretos, decidiu usar o caminho mais óbvio.

Em outras palavras, procurou a região onde normalmente haveria uma fechadura.

Logo seus dedos tocaram algo metálico.

Ela apalpou melhor.

Não havia fechadura.

Nem combinação.

Apenas uma trava simples, semelhante à de uma mochila ou maleta.

Aplicando um pouco de força, a trava se moveu.

Podia ser aberta.

A informação chegou às suas mãos através dos nervos.

Quase por hábito, Yuki soltou a trava e abriu o baú.

No instante seguinte...

Sentiu perigo.

Mais precisamente, ouviu um som cortando o ar.

Fiuuu!

Yuki se jogou imediatamente para trás.

Algo passou raspando acima de seu corpo.

Uma leve corrente de vento tocou seus pés expostos.

Logo depois:

Clang!

O objeto atingiu uma parede.

Então caiu no chão.

Yuki se levantou.

Identificou a direção pelo som.

Pegou o objeto.

Embora estivesse em completa escuridão, reconheceu o que era apenas pelo tato.

Um dardo.

Uma armadilha clássica de jogos de fuga.

“...Como eu imaginava.”

Yuki murmurou.

Ela já havia previsto isso.

Por isso conseguiu reagir instantaneamente.

Armadilhas eram inseparáveis de jogos de fuga.

E masmorras sempre vinham acompanhadas de mecanismos traiçoeiros.

Diferente dos desafios da superfície, onde só havia perigo ao errar uma resposta, parecia que dali em diante existiriam ameaças desse tipo.

Yuki voltou sua atenção para o baú.

Como ainda estava escuro, não conseguia enxergar seu conteúdo.

Fez mais alguns estalos de língua para confirmar que não havia armadilhas adicionais.

Então colocou a mão dentro do baú.

Retirou o objeto que estava ali.

Apalpou-o por cerca de dez segundos.

Percebeu que possuía um interruptor.

Sem hesitar, ligou-o.

Imediatamente, uma luz intensa iluminou os arredores.

Surpresa pela claridade repentina, Yuki fechou os olhos.

Levou alguns segundos para se acostumar.

Quando finalmente conseguiu abri-los novamente, reconheceu o objeto.

Era uma lanterna elétrica.

(21/44)

Em outra sala.

Rinrin levantou-se da cadeira dobrável onde estava sentada.

Sem dizer uma palavra, dirigiu-se para a saída da sala de monitoramento.

“Aonde você vai?”, perguntou a Agente.

“Vou caçar alguns coelhos selvagens”, respondeu Rinrin.

Provavelmente era um eufemismo para dizer que ia ao banheiro.

Não era uma expressão comum, e aquela era a primeira vez que a Agente a ouvia. Talvez fosse uma forma de falar usada entre as jogadoras da época em que Rinrin ainda estava ativa.

Embora não houvesse encanamento naquele prédio, um banheiro provisório havia sido instalado do lado de fora.

Rinrin seguiu para lá, deixando apenas a Agente e o Fornecedor na sala.

O Fornecedor — algo raro entre as pessoas envolvidas nos jogos por ser um homem — era extremamente calado.

Por isso, o ambiente mergulhou em um silêncio quase antinatural.

Mesmo assim, não havia desconforto.

Ambos estavam concentrados nos monitores.

A principal tela observada pela Agente era a que mostrava os movimentos de Yuki.

Assim como na área branca da superfície, câmeras também haviam sido instaladas no subterrâneo.

Como não existia iluminação lá embaixo, até pouco tempo atrás dependiam apenas de câmeras infravermelhas.

Mas agora que Yuki havia conseguido uma lanterna, era possível filmá-la usando luz visível.

Finalmente..., pensou a Agente.

Finalmente porque Yuki tinha conseguido uma fonte de luz.

E finalmente porque havia alcançado o subterrâneo.

Com isso, ela estava novamente no mesmo palco que sua adversária.

A Agente voltou o olhar para o monitor que mostrava a Colaboradora.

Como ela havia descido primeiro, naturalmente estava na liderança.

Já havia avançado por aproximadamente metade da segunda etapa do jogo: a masmorra subterrânea.

Como iluminação, utilizava uma caneta com luz embutida, um item obtido na superfície.

Ela tinha deixado a lanterna passar despercebida.

A lanterna iluminava muito mais do que a pequena lâmpada da caneta.

Nesse aspecto, Yuki possuía vantagem.

Mas, olhando para a Colaboradora, ela não parecia sentir qualquer dificuldade por causa da iluminação.

Comparado à vantagem prática de estar mais avançada no jogo, aquela diferença era insignificante.

“...Acho que essa distância não vai mais ser reduzida…”

A Agente murmurou enquanto encarava a realidade.

Ela não queria dizer algo tão pessimista enquanto Yuki lutava desesperadamente.

Mas era a verdade.

Afinal, não existiam armadilhas na masmorra da Colaboradora.

Assim como as penalidades por respostas erradas na superfície, as armadilhas subterrâneas também eram apenas simulações.

Comparada a Yuki, a Colaboradora podia avançar sem medo.

Mesmo assim, se ainda existisse alguma chance de vitória...

Ela estaria apenas no problema final, escondido nas profundezas do subterrâneo.

A Agente só podia rezar para que a intuição da Colaboradora não funcionasse naquele momento.

Por favor... apenas não perceba aquela única coisa...

Foi o que pensou.

“Mesmo assim, isso é muito elaborado.”

A voz da Colaboradora surgiu através do monitor.

“Preparar até mesmo um espaço subterrâneo como este... é impressionante. Ouvi dizer que existe outro palco igual a este. Quanto será que custou tudo isso?”

Mais uma vez, a Agente pensou a mesma coisa.

Apesar de Rinrin ter advertido diversas vezes, a Colaboradora continuava falando com eles.

Não importava quantas ameaças recebesse.

Ela simplesmente não se intimidava.

“Por favor, fique em silêncio.”

Assumindo o lugar de Rinrin, a Agente pegou o microfone e respondeu.

“Oh. Essa voz é da Setsuna-san, certo?”

A Colaboradora reagiu imediatamente.

Ela conhecia a voz da Agente.

As duas haviam se encontrado pessoalmente quando o convite para o jogo foi feito.

Na ocasião, a Agente havia escondido sua identidade verdadeira e usado o nome Setsuna, um pseudônimo.

“Já que foi a Setsuna-san quem respondeu... a Rinrin-san não está aí?”

A Agente não respondeu.

“Vai demorar para voltar? Foi só ao banheiro ou foi embora para casa...? Já que parece ter um tempinho livre, que tal conversarmos um pouco? Enquanto o demônio está ausente.”

A Colaboradora riu da própria piada.

A Agente não riu.

Permaneceu em silêncio, deixando clara sua recusa.

“Que fria.”

Mesmo assim, a Colaboradora continuou falando.

“Nesse caso, vou continuar conversando sozinha. Nossa... esses mecanismos e armadilhas realmente parecem os de um jogo de verdade. Será que a outra participante está bem...?”

“Por isso eu disse para se concentrar no jogo…”

Mas, no instante em que pronunciou essas palavras, a Agente congelou.

“...O que você acabou de dizer?”

“Eu perguntei se a outra participante está bem”, respondeu a Colaboradora.

“Por que... você se preocuparia com isso?”

Sem perceber, a Agente acelerou a fala.

Ela percebeu imediatamente o erro que havia cometido.

Mas já era tarde.

A Colaboradora soltou uma risada baixa.

“Você realmente quer me perguntar isso? Está praticamente se entregando.”

Era verdade.

Se aquilo fosse apenas um teste inofensivo, sem qualquer risco de vida, aquela reação seria estranha.

Calma.

A Agente tentou se controlar.

“Para ser sincera... eu achei essa história estranha desde o começo”, disse a Colaboradora.

“Pensei que talvez não fosse apenas um teste. Que talvez houvesse algum outro objetivo escondido por trás disso. E parece que eu estava certa, não é?”

A Agente voltou ao silêncio.

Não podia fornecer mais pistas.

“Que tal? Não acha que já está na hora de mostrarmos nossas cartas?”

A Colaboradora continuou.

“Conte para mim o que realmente está acontecendo neste jogo. Em troca, eu também posso lhe contar algo.”

Ela fez uma breve pausa.

“Posso explicar por que cheguei à conclusão de que apenas o jogo da outra participante era real.”

Como esperado...

Ela havia percebido.

Percebido que o jogo do outro lado envolvia vida ou morte.

Que existia uma verdade escondida por trás de tudo aquilo.

Mas quanto exatamente ela sabia?

A Agente se perguntou isso.

Pelo modo como falava em “mostrar as cartas”, era evidente que ainda não tinha descoberto tudo.

Mesmo assim, a Agente decidiu permanecer em silêncio.

Qualquer palavra poderia arruinar tudo.

“Uma recusa, então?”

A Colaboradora interpretou o silêncio dessa forma.

“Nesse caso... vejamos. Talvez eu deva revelar mais uma carta primeiro. Quem sabe isso faça você mudar de ideia.”

Ela respirou fundo.

Então continuou:

“A pessoa contra quem estou jogando neste momento é alguém conhecida pelo nome de jogadora Yuki.”

“Estou certa, não estou?”

(22/44)

A Agente ficou cada vez mais abalada.

Como ela sabe disso?

Era possível entender suspeitar que existisse algum objetivo oculto por trás do jogo.

A própria Agente achava que a explicação de que aquilo era apenas um teste soava um pouco forçada.

Mas não deveria haver motivo algum para o nome de Yuki aparecer.

“Para dizer a verdade, eu sabia disso desde o começo.”

A voz da Colaboradora alcançou os ouvidos da Agente, que permanecia atordoada.

“No momento em que a Rinrin-san veio me procurar com essa proposta, eu já imaginei que se tratava de algo relacionado à Yuki.”

“...? Como...?”

A curiosidade venceu.

Quebrando sua própria determinação, a Agente respondeu.

“Porque eu já tinha ouvido falar da Rinrin-san através da Yuki. Acho que foi há cerca de meio ano…”

“...Você se encontrava com a Yuki? Particularmente?”

“Sim. Ela nunca comentou isso com você?”

Não.

A Agente nunca tinha ouvido falar disso.

Era a primeira vez que descobria aquilo.

Mesmo sendo a assistente exclusiva de Yuki, ela nunca interferia em seus relacionamentos pessoais.

“Esse foi o único erro de cálculo de vocês”, disse a Colaboradora.

“E também foi um erro fatal. Rinrin-san e Setsuna-san presumiram que aquele era o meu primeiro encontro com vocês. Mas, na realidade, eu já conhecia a relação entre a Rinrin-san e a Yuki. Sabia que Yuki havia sido treinada por ela no passado.”

“......”

“Quando ficou claro que a Rinrin-san tinha vindo me procurar pessoalmente, deixou de ser possível acreditar que aquilo era apenas uma coincidência. Afinal, o único elo entre nós duas é a Yuki. O mais natural era concluir que o assunto tinha relação com ela.”

A Agente não conseguiu responder.

Não podia ordenar que ela parasse de falar.

Mas também não podia incentivá-la a continuar.

Ficou imóvel, como uma estátua, apenas ouvindo.

“Porém, quando escutei a proposta, senti que algo estava estranho.”

A Colaboradora continuou:

“Vocês queriam que eu participasse de um jogo de prática? Sinceramente... eu pensei: ‘Não pode ser.’ ”

Ela soltou uma pequena risada.

“Pode soar arrogante da minha parte, mas eu não acredito que vocês chamariam alguém do meu nível apenas para isso. Além disso, toda a configuração do jogo era estranha. Por que construir dois cenários separados e conectá-los dessa forma? Bastava colocar as jogadoras no mesmo local. Qual o motivo de esconder a oponente a esse ponto?”

Naturalmente, a Agente já tinha consciência dessas falhas.

O problema era que nunca havia encontrado uma mentira convincente para explicá-las.

“E acima de tudo, era extremamente estranho que o nome da Yuki nunca fosse mencionado.”

A voz da Colaboradora tornou-se mais séria.

“A adversária provavelmente era a Yuki... então por que esconder isso? Era uma situação cheia de perguntas.”

“Então por que...?”

A Agente murmurou.

Em sua memória, a Colaboradora havia aceitado participar quase imediatamente.

Ela não demonstrara nem o menor sinal de desconfiança.

“Porque decidi não perguntar.”

A resposta veio sem hesitação.

“Pela atmosfera da Rinrin-san e da Setsuna-san, parecia que existiam circunstâncias especiais envolvidas. Achei que seria indelicado insistir. Então decidi apenas observar e tirar minhas próprias conclusões.”

Ela fez uma breve pausa.

“E quando organizei meus pensamentos, decidi que, em algum momento, iria confrontar vocês com eles.”

“E esse momento é agora.”

A Agente sentiu um arrepio.

“Não me diga que... você ficou falando sem parar o tempo todo apenas para preparar isso?”

“Sim.”

A Colaboradora respondeu imediatamente.

“Eu estava esperando por você, não pela Rinrin-san. A Rinrin-san não parecia o tipo de pessoa que ouviria o que eu tinha a dizer. Eu precisava de um momento em que ela estivesse longe da sala.”

Nesse instante, a Agente compreendeu.

Ela jamais deveria ter pegado o microfone.

Precisava admitir.

Tinha baixado a guarda.

Esqueceu que estava lidando com uma ex-jogadora.

Alguém que havia sobrevivido em um mundo onde perder significava morrer.

“Bem então…”

A Colaboradora falou.

Sua voz permanecia calma.

Calma demais.

“Que tal eu contar a você qual foi a minha dedução?”, disse ela.

(23/44)

“Como premissa... por enquanto, assumi que minha oponente era a Yuki.”

A Colaboradora continuou sua explicação.

“Caso contrário, quaisquer que fossem as circunstâncias, elas não importariam. Não havia desvantagem em partir dessa hipótese. Eu parecia estar enfrentando a Yuki. Mas então surgiu a questão: por que separar os locais? Qual seria a vantagem disso? Existe algum problema em nos encontrarmos? Ou, talvez, por alguma razão, ela esteja em um lugar onde não podemos nos encontrar diretamente?”

Ela prosseguiu:

“Pensei em várias possibilidades, mas uma delas se encaixava melhor do que todas as outras. A hipótese de que o jogo do outro lado era o verdadeiro.”

A Agente sentiu o coração apertar.

“O que eu estou jogando é apenas um teste. Mas o que a Yuki está jogando é o jogo real, aquele em que a vida está em risco. Se for assim, separar os cenários faz sentido. Esconder as circunstâncias também faz sentido. Afinal, se eu descobrisse que poderia acabar matando a Yuki, existiria a possibilidade de eu recusar a proposta. Ou mesmo que aceitasse, poderia jogar sem dar tudo de mim.”

Acertou em cheio.

Foi o que a Agente pensou.

“Podemos assumir com segurança que a vida dela está em jogo.”

A Colaboradora continuou.

“Então surge a próxima pergunta: por que a Yuki chegou a essa situação?”

Ela cruzou os braços.

“Não parece ser um jogo administrado pela organização oficial. Jogos com apenas duas participantes são raros. Também não existem uniformes. E as pessoas que vieram me procurar pareciam agentes comuns, vestidos de preto.”

Ao visitar a Colaboradora, a Agente havia evitado usar seu terno preto habitual justamente para esconder sua identidade.

Além disso, por não querer obrigá-la a usar roupas iguais às de Yuki, permitiu que jogasse com suas próprias roupas.

Até mesmo o item de fuga havia sido alterado.

Em vez de uma camisa esportiva, usaram uma coroa.

Tudo havia sido disfarçado como uma caça ao tesouro.

“Não há dúvidas de que este é um jogo privado.”

A Colaboradora falou.

“Mas então por que ele foi organizado?”

Ela fechou os olhos por um instante.

“A primeira resposta que me veio à mente foi vingança.”

A Agente prendeu a respiração.

“Imagine. Eu participo pensando que é apenas um teste. Sem saber de nada, acabo matando outra pessoa. Existe uma crueldade especial nesse tipo de cenário. Pareceria que alguém que guarda rancor tanto de mim quanto da Yuki decidiu nos destruir da maneira mais perversa possível.”

O coração da Agente falhou uma batida.

Realmente, olhando apenas para os fatos, aquela conclusão parecia inevitável.

Mas então a Colaboradora balançou a cabeça.

“Porém, provavelmente não é isso.”

“É uma hipótese convincente, mas havia um problema. Nem a Rinrin-san nem a Setsuna-san demonstravam qualquer malícia. Não pareciam estar tentando me enganar.”

Ela inclinou levemente a cabeça.

“Claro, existe a possibilidade de que vocês também não conheçam toda a verdade. Mas, nesse caso, aquela atmosfera pesada não faria sentido.”

Então sorriu.

“E acima de tudo, existe uma razão decisiva.”

Ela apontou para si mesma.

“Minha intuição de jogadora.”

“Mesmo agora, velha e enferrujada, ainda me orgulho de conseguir sentir quando um perigo está se aproximando de mim.”

Sua voz tornou-se firme.

“E eu não senti nada disso.”

“Portanto, não acredito que esta seja uma história movida por malícia.”

Ela fez uma pausa.

“É um jogo em que vidas estão em risco.”

“Mas é um jogo criado com boas intenções.”

A Agente ficou imóvel.

“Talvez pelas boas intenções de vocês duas.”

“Ou talvez tenha sido a própria Yuki quem pediu isso.”

“Mas então…”

A Colaboradora lançou sua quarta pergunta.

“Qual é o objetivo de tudo isso?”

Ela abriu os braços.

“Construir instalações desse tamanho. E ainda por cima duas delas.”

“Quanto dinheiro e esforço isso exigiu?”

“Qual seria a finalidade de organizar um jogo simulado tão elaborado?”

Sua expressão ficou séria.

“Será que aconteceu algo tão grave com a Yuki a ponto de justificar um investimento desse nível?”

Ela fechou os olhos por um momento.

“Quando pensei nisso…”

“Lembrei-me da discípula dela.”

“O qu...?”

A voz da Agente falhou.

“Você também sabe sobre isso?”

“Sim.”

A resposta veio imediatamente.

“Foi a própria Yuki quem me contou.”

A Colaboradora soltou uma pequena risada.

“Ela é terrível em relacionamentos humanos, afinal.”

Depois continuou:

“Pensei na possibilidade de que algum problema sério relacionado àquela garota tivesse acontecido.”

“E então voltei a analisar este jogo.”

Ela ergueu um dedo.

“Foi aí que notei algo curioso.”

“O progresso dos dois lados é sincronizado.”

“As portas abrem e fecham ao mesmo tempo.”

“Cada passo parece corresponder ao do outro lado.”

“É um nível de detalhe absurdo.”

Sua voz ficou mais baixa.

“É como se alguém estivesse desesperadamente tentando convencer a participante de que existe outra jogadora se movendo naquele espaço.”

Ela fez uma pausa.

Uma pausa longa o suficiente para prender a atenção da Agente.

Então disse:

“Nesse caso…”

“Embora seja uma teoria um pouco absurda…”

A Colaboradora sorriu.

“Que tal a hipótese de que ela está vendo um fantasma?”

O silêncio tomou conta da sala.

“Por exemplo…”

Ela continuou.

“Em um jogo recente, Yuki enfrentou diretamente sua discípula.”

“Ela sobreviveu.”

“Mas apenas porque matou a própria discípula.”

A Agente congelou.

“Incapaz de suportar a dor da perda, Yuki passou a enxergar a fantasma dela.”

“E agora está tentando disputar um jogo contra essa fantasma.”

“Um jogo criado em um mundo de fantasia.”

“Uma forma de encontrar encerramento à sua própria maneira.”

A Colaboradora soltou uma risada.

Parecia divertida com a própria teoria.

Então concluiu:

“...Ou será que essa dedução é romântica demais?”

(24/44)

Nem um pouco, pensou a Agente.

Na verdade, a Colaboradora havia chegado incrivelmente perto da verdade.

Ela se desviou apenas no final.

Mas, em termos gerais — justamente nas partes mais difíceis de serem deduzidas — sua conclusão estava praticamente correta.

“E então?”, perguntou a Colaboradora.

“O quão perto eu cheguei do centro da questão?”

A Agente hesitou.

O que devo fazer?

Depois de ouvir tudo aquilo, sentia que deveria responder alguma coisa.

Ao menos uma palavra.

Mas sua função naquele momento era administrar o jogo simulado.

Para cumprir essa função, deveria negar tudo até o fim?

Mesmo que negasse, a Colaboradora continuaria jogando?

Provavelmente.

Mas, se admitisse a verdade, o resultado talvez fosse o mesmo.

Então o que deveria fazer?

Qual era a resposta correta?

“Se... isso realmente fosse verdade…”

A Agente tentou perguntar.

O que você faria?

Mas não conseguiu terminar a frase.

“O que vocês estão fazendo?”

No instante em que ouviu aquela voz, a Agente sentiu como se sua morte tivesse sido decretada.

Rinrin havia voltado.

Ela caminhava rapidamente em direção aos monitores.

Sua expressão era exatamente a mesma de sempre.

Mas, por trás dela, a Agente quase conseguia enxergar a imagem de um demônio.

Ou talvez do próprio diabo.

Tendo finalmente compreendido um pouco dos sentimentos de Yuki, a Agente soltou imediatamente o microfone e se afastou.

Então Rinrin o pegou.

“Qual é a sua intenção?”

Ela perguntou à Colaboradora.

Parecia já ter entendido toda a situação.

Provavelmente parte da conversa podia ser ouvida mesmo do lado de fora da sala.

“Minha intenção?”

A Colaboradora repetiu.

“Você estava sondando ela.””

Rinrin lançou um olhar para a Agente antes de continuar.

“Tenho certeza de que eu disse para não se meter onde não foi chamada.”

Sua voz permaneceu calma.

Mas havia uma ameaça clara por trás dela.

“Você quer morrer?”

“Ah…”

A Colaboradora fingiu surpresa.

“Isso não era permitido?”

Então deu uma risadinha.

Eu pretendia levar o jogo a sério até o fim.

“Pensei que descobrir a identidade da minha adversária ou entender o que realmente está acontecendo poderia me dar alguma vantagem.”

Ela apoiou o rosto na mão.

“Afinal, me disseram que eu seria morta se relaxasse nem que fosse um pouco.”

“Naturalmente, achei que deveria aproveitar qualquer oportunidade disponível.”

“De qualquer forma, peço desculpas por ter ultrapassado os limites.”

Desculpas falsas.

Foi o que a Agente pensou.

Ganhar vantagem não era o verdadeiro motivo.

A Colaboradora simplesmente queria exibir sua linha de raciocínio.

Queria mostrar que havia chegado à verdade.

E também queria confirmar suas suspeitas.

Era só isso.

“Não se preocupe.”

A Colaboradora continuou.

“Eu vou continuar jogando.”

“Continuarei encarando o jogo com toda a seriedade.”

“Mesmo que minha adversária seja a Yuki.”

Rinrin permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então respondeu:

“Tudo bem.”

Sua voz era fria.

“Mas esta será a última vez.”

“Não haverá uma próxima.”

“Como desejar.”

Dentro do monitor, a Colaboradora apenas deu de ombros.

Ao observar aquele gesto, a Agente teve um pensamento.

Talvez tivesse sido um erro escolher aquela pessoa.

Mesmo sendo, sem dúvida, a adversária mais adequada para Yuki.

Ainda assim...

Talvez ela fosse inteligente demais para ter sido convidada.

(25/44)

Yuki avançava pelo calabouço.

(26/44)

Mesmo depois daquela zarabatana, armadilhas continuaram atacando Yuki sem parar.

Às vezes, fios capazes de rasgar carne estavam estendidos pelo caminho. Outras vezes, novas zarabatanas disparavam projéteis. Em certos trechos, chamas jorravam das paredes; em outros, partes do teto desabavam.

Provavelmente aquilo significava que o jogo estava entrando em sua fase final.

A atmosfera havia se tornado muito mais perigosa, mas, ainda assim, armadilhas carregadas de intenção assassina eram justamente a especialidade de Yuki.

Ela desviou de todas sem sofrer sequer um arranhão.

Enquanto seguia em frente, acabou encontrando uma parede.

Mas não era apenas uma parede comum.

O material era idêntico ao das paredes ao redor, porém havia uma fenda no centro.

Era uma porta.

Contudo, não havia maçaneta nem fechadura. Em vez disso, algo já bastante familiar estava preso à superfície.

P. Se ☆△○+△☆□=□△□☆, qual número deve ocupar ○?

Penalidade por resposta incorreta: Seu braço será decepado.

Abaixo do enunciado havia um buraco.

Era grande o bastante para que uma pessoa enfiasse o braço inteiro.

Quando iluminou o interior com a lanterna, Yuki viu um teclado numérico instalado lá dentro.

A mensagem era clara:

Enfie o braço aqui e responda.

Ao redor do buraco havia uma escultura representando um rosto humano.

Sua expressão era inquietante — parecia zangada, ou talvez assustada.

A abertura ficava exatamente na boca da estátua.

Se alguém colocasse o braço ali, pareceria que o rosto estava devorando-o.

"...A Boca da Verdade, era esse o nome...?"

Yuki murmurou.

Devia ser isso mesmo.

Uma escultura existente em alguma igreja de Roma, acompanhada da lenda de que qualquer mentiroso que colocasse a mão dentro de sua boca teria o membro arrancado.

Yuki nunca tinha ido a Roma, mas, por se tratar de uma obra famosa, já havia visto réplicas dela em diversos lugares.

Também não foram poucas as vezes em que enfiou a mão ali sem pensar.

Mas desta vez ela não tinha a menor vontade de repetir a experiência.

Penalidade por resposta incorreta: Seu braço será decepado.

Era melhor assumir que esta versão era fiel à lenda.

Provavelmente havia uma guilhotina instalada dentro do compartimento e, se errasse a resposta...

Snip.

Adeus braço.

Felizmente, Yuki sabia a resposta.

Ela enfiou o braço esquerdo no buraco e tocou o teclado.

Uma vez lá dentro, não conseguia enxergar as teclas, mas os números estavam em relevo, permitindo identificá-los pelo tato.

Com rapidez, porém sem descuido, digitou 8 e pressionou Enter.

A guilhotina não caiu.

Em vez disso—

“Gugogogogo…”

Com um som pesado, a parede começou a deslizar lentamente para o lado.

Como seu braço ainda estava dentro do compartimento, Yuki acabou sendo puxada junto pela movimentação e rapidamente o retirou.

Pouco depois, a porta se abriu completamente, revelando um novo corredor.

Yuki seguiu adiante.

Assim que ultrapassou a passagem, ouviu novamente:

“Gugogogogo…”

A porta estava se fechando automaticamente.

Sem esperar que terminasse de fechar, ela continuou avançando.

Logo surgiu outra porta.

Assim como a anterior, havia uma pergunta e uma escultura humana.

A segunda questão.

Yuki respondeu corretamente e seguiu em frente.

Depois vieram a terceira.

A quarta.

E assim ela continuou atravessando o calabouço mergulhado na escuridão.

Enquanto caminhava, porém, seus pensamentos vagavam.

Era perigoso se distrair em um ambiente repleto de armadilhas invisíveis, mas ela não conseguia evitar.

Pensava na verdadeira protagonista oculta daquele jogo.

A pessoa que estava atuando como substituta da Fantasma.

Quem diabos é?

A primeira candidata que lhe veio à mente foi Rinrin.

Mas isso era impossível.

Rinrin era completamente cega.

Ela não era adequada para um jogo onde era necessário ler perguntas, e mesmo que existissem adaptações como braile ou orientação por voz, isso daria uma vantagem excessiva a Yuki.

Não fazia sentido.

Sua Agente e sua Supplier também estavam fora de questão.

Nenhuma delas era sequer uma jogadora profissional.

Não possuíam capacidade suficiente para servir como representante da Fantasma.

Entre todas as conhecidas de Yuki, não existia uma única candidata plausível.

Ou seja...

Elas haviam chamado alguém de fora.

Assim como prepararam aquele cenário de jogo, também prepararam outra jogadora.

Mas quem?

Não poderia ser uma jogadora comum.

Por mais estranho que fosse admitir isso, estavam colocando alguém contra a Fantasma — uma existência capaz de ameaçar uma veterana com sessenta e duas vitórias.

A pessoa precisava estar no mesmo nível de Rinrin.

Alguém que satisfizesse esse requisito.

Alguém que Rinrin provavelmente escolheria.

Mas quem?

Seria uma jogadora de elite ainda na ativa, como Airi ou Maguma?

Ou talvez alguma veterana aposentada, como Hitomi ou Koyomi?

Por um instante, Yuki chegou a imaginar que Mishiro ou sua discípula tivessem retornado do inferno.

Mas, no fim, seus pensamentos convergiram para uma única possibilidade.

Yuki lançou uma pergunta que jamais alcançaria seu destinatário.

"...Não me diga que é você, certo?"

"Doutora Hakushi."

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Hakushi chegou ao problema final.

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Nas profundezas do calabouço, havia um baú do tesouro.

Era pintado de dourado.

Refletindo a luz da caneta-lanterna da Hakushi, brilhava intensamente.

Ela já havia encontrado vários baús ao longo do percurso, mas era a primeira vez que via um daquele tipo.

Era claramente diferente dos demais.

Presumivelmente, aquele era o baú que continha o objetivo final — a coroa necessária para escapar.

Diante dele, Hakushi permaneceu parada.

“O que está fazendo aí parada?”

A voz de Rinrin chegou ao seu ouvido através do fone.

“Ande logo e continue o jogo. Não me diga que está enrolando.”

As palavras eram duras.

Por causa daquilo que acontecera antes, os comentários de Rinrin pareciam ainda mais carregados de espinhos.

“Estou levando isso a sério”, respondeu Hakushi.

“Parece ser a última etapa, então achei melhor agir com cautela. Qualquer jogadora faria o mesmo, não acha?”

“...Hmph.”

Rinrin soltou um bufar, provavelmente de propósito para que fosse ouvido.

Hakushi fez um esforço para conter o riso.

Provavelmente só existe uma pessoa viva neste ramo que ainda consegue falar comigo desse jeito, pensou.

Rinrin.

Uma jogadora de uma geração ainda mais antiga que a de Hakushi, uma verdadeira veterana entre as veteranas.

Aquele era o primeiro encontro entre as duas, e elas nunca tiveram uma relação direta de mestre e discípula.

Mesmo assim, a diferença de gerações criava naturalmente uma hierarquia entre elas.

Por isso, Hakushi se via obrigada a usar linguagem respeitosa.

E, em contrapartida, Rinrin mantinha aquela postura autoritária o tempo todo.

Já fazia muito tempo desde a última vez que alguém falara com ela daquela maneira.

E, estranhamente, Hakushi achava aquilo divertido.

Só isso já fazia valer a pena ter aceitado participar daquela história.

Quando recebeu a visita de Rinrin e Setsuna, Hakushi ficou genuinamente surpresa.

Desde sua aposentadoria, situações assim quase nunca aconteciam.

Embora ostentasse o extraordinário recorde de noventa e cinco jogos concluídos, seu nome era surpreendentemente pouco conhecido.

Desde os acontecimentos de Candle Woods, a maioria das jogadoras havia sido substituída por uma nova geração, e sua fama praticamente desaparecera.

Além disso, uma das visitantes era justamente Rinrin.

Uma pessoa que, aparentemente, já havia orientado Yuki no passado.

Se era assim, Hakushi imaginou que o assunto certamente envolvesse Yuki.

Mas, ao ouvir a explicação, disseram apenas que precisavam de alguém para testar um jogo.

Era algo pacífico demais.

Naturalmente, ela suspeitou que existisse algum motivo oculto.

Mesmo assim, decidiu não fazer perguntas e aceitar a proposta.

Foi por isso que agora estava ali.

Hakushi aproximou-se do baú dourado.

Observando-o melhor, percebeu que possuía exatamente o mesmo tamanho dos outros baús encontrados pelo caminho.

As únicas diferenças eram sua pintura dourada e uma frase escrita na parte frontal.

P. Some todos os caminhos mínimos da entrada subterrânea até aqui e insira o resultado.

Penalidade por resposta incorreta: A área ao redor do baú irá desabar.

Ao ler a penalidade, Hakushi estreitou os olhos.

Então iluminou os arredores com sua lanterna.

Observou algo que estivera diante dela o tempo todo, mas que evitara analisar com atenção até então.

O chão ao redor do baú era feito de vidro.

Quando direcionou a luz para baixo, conseguiu enxergar um enorme espaço vazio sob a superfície.

Um fosso.

Provavelmente uma armadilha de queda.

Se errasse a resposta, todo aquele piso de vidro se quebraria e Hakushi despencaria no abismo.

“...Se isso acontecer, acabou para mim.”

Era difícil estimar a profundidade usando apenas a pequena lanterna.

Mas uma coisa era certa:

Se caísse, provavelmente não conseguiria voltar.

O corpo de Hakushi já não possuía força para algo assim.

Fim da leitura

Capítulo 11.1 concluído

Volume 6 – Volume 6 (parte 1)