Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesavolume 7 – 0. Apartamento Tochinoki (63,5ª vez)
Capítulo 12(00/03)
Ao som de batidas na porta, Yuki acordou.
(01/03)
Ela pulou da cama.
Com a intenção de afastar o sono e verificar ao redor, Yuki balançou a cabeça de um lado para o outro.
Era um quarto de apartamento. Com apenas o mínimo de móveis, um aspecto simples, não era exatamente arrumado, mas também não se podia chamar de bagunçado, uma atmosfera que, de alguma forma, transmitia um ar de desgaste. Até mesmo cada mancha nas paredes correspondia às memórias de Yuki, deixando claro que aquele era, sem dúvida, o seu lar. Aluguel: 35.000 ienes. Quarto 107 do Tochinoki-so. Era ali que ela morava.
Ao olhar para o lado do travesseiro, ela viu um vestido de noiva dobrado. Era um traje de jogo. A sua memória mais recente — o sexagésimo terceiro jogo — tinha voltado para a mente de Yuki. Aquela tinha sido uma batalha difícil. Jogadoras lutando entre si para arrancar um vestido de noiva , mas...
Os seus pensamentos foram interrompidos.
Toc-toc. O som de alguém batendo na sua porta ecoou novamente.
Assim como nas outras instalações, a porta do quarto não era muito bem feita. Se alguém batesse pelo lado de fora , um grande barulho iria ecoar no quarto. O motivo de baterem em vez de tocar a campainha provavelmente era justamente esse: fazer mais barulho. Assim como fizeram com Yuki agora, a intenção era acordar o inquilino a força se ele estivesse dormindo.
Até onde Yuki sabia, apenas uma pessoa poderia ser capaz de algo tão cruel.
"Já vou, Já vou! Estou indo!"
Dizendo isso, Yuki se dirigiu até a porta.
A rotina que ela seguia após um jogo teve que ser ajudado.
(02/03)
Quando ela abriu a porta, havia uma senhora lá.
Yuki não sabia a idade dela. Para Yuki, que ainda tinha pouca experiência de vida, quando alguém passava de uma certa idade passava a ser reconhecido apenas como “idosos”. O rosto dela dava a impressão de estar carrancudo, mas Yuki sabia que ela não estava de mal humor; aquele era apenas o seu estado natural.
"Boa noite, proprietária…"
Yuki a cumprimentou primeiro.
A mulher velha — proprietária— assentiu em resposta.
"Você cortou o cabelo?"
A proprietária falou com uma voz áspera, como se cada palavra fosse arranhada por cascalho.
Com isso, Yuki levou a mão à lateral da cabeça, percebendo a mudança até a parte de trás.
"Sim, bem... eu decidi cortar."
Respondeu, tocando o próprio cabelo.
"Entendo. Venha comigo."
Após dizer isso, a dona da pensão começou a caminhar pelo corredor do apartamento. Yuki seguiu aquela pequena silhueta conforme foi instruída.
Essa pessoa era a proprietária deste apartamento — Tochinoki-so. Yuki não sabia o seu verdadeiro nome. Provavelmente estava no contrato de aluguel, mas ela não se lembrava. A mulher morava no próprio Tochinoki-sou e vivia sozinha. Yuki nunca tinha visto nenhum parente visitá-la, então supunha que ela estivesse sozinha no mundo — embora não tivesse certeza.
À medida que as pessoas envelhecem, tendem a se dividir em dois tipos: os idosos da luz e os idosos das trevas. No caso daquela mulher, ela claramente pertencia ao segundo grupo. Tanto nas palavras quanto nas ações, era rude em todos os sentidos. Ainda assim, Yuki já estava acostumada com esse tipo de gente, e como sua grosseria não era do tipo maldoso, ela não desgostava da proprietária.
Depois de caminharem por um tempo, a proprietária parou.
Yuki também parou.
Em um canto do corredor, outras três pessoas estavam enfileiradas.
Eram residentes do Tochinoki-sou. Todas jovens mulheres, mais ou menos da idade de Yuki, encostadas na parede. As três tinham expressões sombrias — provavelmente porque sabiam o que estava prestes a acontecer. Sua aparência lembrava, de certa forma, prisioneiras aguardando uma execução por fuzilamento. Yuki tomou seu lugar na ponta direita da fila, tornando-se a quarta prisioneira.
A proprietária encarou cada uma das quatro e então—
"Hmph."
Ela resmungou
"Caras fechadas como sempre. Não conseguem se animar um pouco? Se animar!"
…Ninguém respondeu.
"Ryoei."
Disse a proprietária. Pelo o tom da sua voz, dava para perceber que se tratava do nome de uma pessoa.
"Ryoei Fudo. Vocês conhecem ele. Vocês tem tv no quarto? Ou vocês o conhecem mesmo sem uma ? ”
Assim que sua cara se virou para Yuki, ela perguntou.
"...Ele é um jogador de futebol, certo?"
"Sim. Ele é incrível, aquele cara. No tempo que tinha a sua idade, ele já competia no cenário mundial e era bilionário.”
Se estivermos falando de renda anual eu também ganho um valor razoável, pensou Yuki, mas não disse nada..
"Você sabe como uma pessoa se torna um jogador de classe mundial ?"
"Acredito que sim, ele não se planejou desde que ele era criança ? Desde que ele tinha cinco anos de idade..."
"Sim. Ele pensava em quais habilidades ele teria que desenvolver para jogar em nível profissional desde o começo,e ele aprendeu cada uma delas. Para alcançar grandes coisas, você precisa desse tipo de planejamento"
A proprietária apontou o dedo para cada uma das quatro em sequência, incluindo Yuki.
"Vocês só estão vivendo sem rumo, não é? Posso deduzir só de olhar para as suas caras. Aprendam com o Ryoei, vocês devem se planejar e viver as suas vidas”
Ninguém disse que isso era desnecessário
Esse estranho evento ocorria uma vez no mês. Sem motivo aparente, ela chamava todas e começava a falar sozinha sobre assuntos que não ficava claro se eram sermões ou simples conversa fiada. Não é como se a proprietária tivesse uma ideia clara; ela provavelmente só queria alguém para conversar. Do ponto de vista das moradoras, era um incômodo, mas como bastava ficar ali parada para que tudo acabasse, e a frequência era baixa, ninguém oferecia muita resistência. Dava até para encarar como o preço a se pagar por um aluguel mais barato que o das redondezas.
Depois disso, a fala da proprietária se estendeu por um bom tempo.
Enquanto deixava entrar por um ouvido e sair pelo outro, Yuki observava as outras três com a visão periférica.
À sua esquerda estava uma garota de baixa estatura. Ela tinha uma expressão sombria. Seu nome era Yashiro Endori. O primeiro caractere do seu sobrenome era “En” (borda/conexão), não “Midori” (verde), mas ainda assim ela parecia se apegar à associação com a cor, ela frequentemente usava roupas verdes. Hoje não era uma exceção; ela usava verde dos pés à cabeça. Sua aparência lembrava a de um pequeno pássaro verde, como um rouxinol-do-mato ou um olho-branco, transformado em humano por algum tipo de magia. Não… talvez não fosse nem uma questão de “se”. Quem sabe ela realmente fosse um. Yuki não conhecia os detalhes de seu passado.
Ao lado de Endori estava uma estudante estrangeira loira. Seu nome era Ramona Squire. Era uma universitária hospedada ali. Entre as 5 pessoas presentes, ela era excepcionalmente alta e estava em forma. Provavelmente seria considerada uma grande beleza em condições normais, mas talvez por ter acabado de acordar, seus olhos estavam pesados, e, vestindo roupas de gosto duvidoso — provavelmente compradas em alguma liquidação no comércio local —, não passava nenhuma impressão de elegância ou beleza. Fora o fato de ser uma estudante estrangeira, pouco se sabia sobre seu passado. No Tochinoki-so, havia uma regra — embora não declarada — de não se intrometer na vida dos outros.
Ao lado de Ramana estava uma garota com um olhar intimidador. O nome dela era Akane Tsuwabuki. Ela estava usando vermelho e preto. Sua moto estava estacionada em frente ao apartamento. Como ela frequentemente era vista saindo tarde da noite montada nela, fazendo bastante barulho pela cidade. Yuki presumiu que ela era parte de uma gangue de delinquentes, mas assim como as outras, o seu passado também era desconhecido
Isso totalizou três pessoas.
Adicionando Yuki e a proprietária nessa conta, essas cinco eram as residentes do Tochinoki-so.
Isso era pouco comparado com quantos apartamentos tinha o Tochinoki-so. O prédio quase sempre tinha poucos moradores.Tinham muitas razões para isso. O fato desse apartamento com várias instalações deterioradas, não ser atraente era um. Outro fato era que a área aonde era localizado o Tochinoki-so não era boa em questão de segurança, e também a política da proprietária, a proprietária só aceitava mulheres como moradoras, além disso todos os quartos eram estúdios, o que limitava cada quarto a apenas uma pessoa. As pessoas que superaram essas condições e finalmente se mudaram acabavam desistindo por causa desse estranho evento recorrente, e as que permaneceram até hoje são apenas essas quatro.
Yuki voltou sua atenção à proprietária. A proprietária tinha se cansado de falar, pois a rouquidão da sua voz estava pior do que o normal, mas assim que ela tentou abrir a boca novamente—
Do lado de fora, o som de motocicletas pôde ser ouvido.
Era um barulho ensurdecedor. O som não havia passado por um silenciador, além disso parecia ser um grupo andando junto, se esse for o caso, então só tem uma possibilidade. Eram os "Red Bears", uma gangue de delinquentes ativa na região.
Ao ouvirem aquele som, Yuki e as outras reagiram de formas diferentes. Aqueles que reagiram com mais intensidade foram Endori e a proprietária.
"...Hmph."
Provavelmente para manter as aparências, a proprietária bufou e disse,
"Por hoje é só. Escovem os dentes e vão dormir."
Caminhando pesadamente pelo corredor, a proprietária se retira. No, no momento em que entrou em seu próprio apartamento, quarto 101, e fechou a porta, às quatro soltaram um suspiro quase ao mesmo tempo.
"...Acabou..."
Yuki disse enquanto olhava para as três.
"...É..." "Sim..." "Isso demorou."
Depois de alguns instantes, Endori, Ramona, e Akane responderam nessa ordem.
Elas eram apenas conhecidas. Como acontece na maioria dos apartamentos, a solidariedade entre os residentes do Tochinoki-so não era muito forte. Era uma relação em que elas trocavam conversas rápidas umas com as outras — por exemplo, logo após a proprietária ter voltado para casa satisfeita.
"Você... cortou seu cabelo?"
Uma das tres perguntou a Yuki.
Quem perguntou foi a estudante estrangeira, Ramona Squire. Por ser uma estudante estrangeira, ela entendia japonês, embora ainda não estivesse acostumada com o idioma.
"Sim, bem."
Então, Yuki respondeu normalmente em japonês.
"Por que?"
Diante da pergunta de Ramona, Yuki ficou presa sem resposta.
No momento, ela não podia simplesmente contar a verdade. Na verdade, eu trabalho como jogadora em jogos mortais. Recentemente matei minha aprendiz e entrei em depressão. Depois lutei contra outra versão de mim mesma, e esse corte foi uma cicatriz honrosa daquela batalha — Não havia como dizer algo assim. E mesmo que dissesse, ninguém acreditaria.
Como ela deveria explicar? Yuki procurou as palavras corretas por um momento e—
"...Foi pelo kejime.."
Ela falou.
"Eu queria fazer um kejime (colocar as coisas em ordem/assumir responsabilidade), então eu cortei. Recentemente eu passei por muita coisa... Ramona-san, você entende o que significa kejime?"
Ramona balançou a cabeça lentamente.
Então, ela tentou dar uma explicação, mas nem Yuki entendeu o significado preciso. Ela pegou seu smartphone e olhou em seu dicionário japonês-inglês, tentando transmitir a nuance de alguma forma.
No meio disso, ela percebeu que o conceito de cortar o cabelo como punição era algo único do Japão. Ela tentou explicar, mas como a compreensão de japonês da Ramona ainda não era perfeita. Mas não estava funcionando muito bem. Yuki gradualmente foi ficando mais irritada, "Hum... isso! Harakiri! Você conhece Harakiri, certo? É como se fosse uma mini versão disso!" Quando finalmente arrancou uma expressão de compreensão de Ramona, as outras duas já tinham sumido
No fim das contas, era kejime.
Explicar isso dessa forma, era o mais apropriado. Todo o resto não era um motivo crucial. Ser uma jogadora, lutar com uma fantasma, ter parte do cabelo queimada por tiros — nenhuma dessas coisas precisavam ser explicadas. Kejime. Esse era o objetivo. Por esse motivo, eu cortei meu cabelo.
E — depois do meu kejime, eu havia me tornado muito mais forte do que antes.
(3/3)
Comentários do capítulo 12
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.