Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa — Capítulo 9.1: Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 1)

Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa
Cap. 9.1
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Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa

Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 1)

Capítulo 9.1

28.676 palavras~125 min de leitura

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Mesmo em um mundo de excluídos, há aqueles que não conseguem se encaixar.

— O jogo terminou.

O agente de Maguma entregou a notícia.

Maguma estava a bordo de um navio de resgate enviado pelos organizadores no oitavo dia de Cloudy Beach, seu quadragésimo terceiro jogo. Como havia concluído a partida sem ferimentos visíveis, foi guiada diretamente para uma cabine. Ela estava dormindo quando o som de passos se aproximando a acordou. Ao abrir os olhos, viu seu agente sentado bem à sua frente.

Aquelas quatro palavras foram a primeira frase a sair da boca dele.

— É mesmo? — respondeu Maguma.— Gostaria de saber o resultado?

— Me diga.

— Essay bateu as botas — disse o agente, com total casualidade. — Pelo visto, ela atacou a Yuki, mas acabou perdendo a vida no confronto que se seguiu.

— Hã. E a Yuki?

— Ela sobreviveu. Inclusive, embarcou neste navio há poucos instantes e não parece ter sofrido nenhum ferimento grave. Imagino que esta notícia traga um alívio para você.

— …O que você quer dizer com isso?

— Ora, você não tinha ido com a cara dela, Maguma?

— Não fala desse jeito… — Maguma pressionou a mão contra a testa. — Só sinto que temos uma certa sintonia porque já nos esbarramos um bom número de vezes e nossos estilos de jogo são parecidos. Só isso. Não estou nem aí para quem sobrevive. Eu, eu mesma e eu — esse é o meu lema.

No entanto, Maguma não podia negar que, se tivesse que escolher, estaria torcendo para Yuki vencer Essay. Afinal, Maguma sentia uma profunda aversão pela estratégia que Essay havia adotado e que tinha vindo à tona durante o jogo.

— Entendo — respondeu o agente.

— Bem, não é como se eu não estivesse preocupada com a Yuki. Mas, se ela conseguiu sobreviver, então isso não deve ter sido um problema para ela.

— ?

— O olho direito dela. — Maguma deu leves toques abaixo do próprio globo ocular. — Parecia um pouco mais esbranquiçado em comparação com a última vez que nos vimos, então fiquei curiosa. Mas ela nunca tocou no assunto, então presumo que não seja nada sério.

(0/18)

Um veículo completamente preto avançava pela estrada escura do início da noite.

— Obrigada, como sempre — disse Yuki, do banco do passageiro.

Sem carro e sem costume de usar táxi, ela raramente andava de carro.

As únicas vezes em que isso acontecia eram quando sua agente a levava para o local de um jogo… ou para a casa do artesão de próteses.

Dessa vez, um jogo tinha acabado de terminar.

Depois de sobreviver a Cloudy Beach, ao jogo seguinte e a mais dois depois disso, Yuki agora somava quarenta e sete vitórias no total.

Como havia saído ilesa do último jogo, estava indo direto para casa, em vez do hospital.

Durante o trajeto, decidiu agradecer.

A agente, ao volante, lançou um olhar confuso.

— …De onde veio isso?

— Eu só estava pensando no quanto sou grata — respondeu Yuki. — Ninguém consegue viver sozinho, né? Até alguém super talentoso pode virar inútil se mudar de ambiente. Não é só habilidade… o lugar e as pessoas ao redor importam muito também. Eu não cheguei até aqui sozinha. Foi por sua causa. Se você não fosse minha agente, eu não seria quem sou hoje. Então… obrigada. De verdade.

Ela ficou até sem fôlego depois de falar tudo aquilo.

Esperou uma resposta.

Mas o silêncio se estendeu.

A expressão da agente continuava totalmente inexpressiva, impossível de ler.

Por um segundo, Yuki achou que estava sendo ignorada.

Então—

— Fico feliz em ouvir isso — disse a agente. — Mas receber agradecimentos do nada me faz suspeitar que há algum motivo escondido.

— …Você percebeu?

— Claro. — Ela deu de ombros. — Tem algo difícil de falar?

— Eu tô com um probleminha…

— Oh?

— Alguém anda me observando na escola ultimamente.

A agente inclinou a cabeça, como se a palavra escola fosse estranha para ela.

Logo depois, pareceu lembrar.

— Sim, você comentou que estava estudando.

— Uhum. À noite.

Pouco depois de virar jogadora de death games — mais precisamente após Candle Woods — Yuki começou a frequentar o ensino noturno.

Ela acreditava que ter o mínimo de educação era necessário para sobreviver melhor nos jogos.

No começo foi horrível.

Seu nível acadêmico mal passava do de uma criança pequena.

Mas, insistindo, conseguiu acompanhar.

Já fazia mais de um ano que estudava.

— Você quer dizer que alguém está te monitorando? — perguntou a agente.

— Sim… mas não só isso. Já mexeram na minha mochila e na minha mesa algumas vezes. Acho que algum colega tá tentando investigar meu passado…

— Você fez algo que levantasse suspeitas?

— Não exatamente… mas eu tenho vida dupla, né? Estudante e jogadora. Às vezes sumo por causa dos jogos… não posso fazer exames médicos por causa do Tratamento de Preservação… e, mesmo que ferimentos graves se curem, cortes e arranhões não. Então eu sempre apareço cheia de cicatrizes.

Ela ergueu a mão esquerda.

Dos cinco dedos, três eram próteses: o médio, o anelar e o mínimo.

Tinha recebido há cerca de seis meses.

— Eu tento esconder na escola… mas fica estranho. Parece forçado.

— Então até agir normalmente te deixa suspeita?

— Exato.

— Tem ideia de quem seja?

— Nenhuma. Já tentei pegar a pessoa, mas é esperta que nem uma raposa…

— Se mexeram na sua mochila e mesa… existe chance de terem achado algo relacionado aos jogos?

— Não. Nunca levo nada comprometedor.

Jogadores eram obrigados a manter sigilo absoluto.

Nada de contar para civis.

Então Yuki agia como uma estudante comum.

Nunca falava do trabalho.

Nunca saía pulando pela janela para evitar escadas lotadas.

Nunca treinava como usar a caneta como arma durante a aula.

— Por isso… se só me vigiarem na escola, tudo bem. Mas…

— …Vai ser problema se começarem a te seguir fora dela — completou a agente.

— Aliás… o que acontece se uma pessoa normal descobrir sobre os jogos?

— Precisamos agir imediatamente para fazê-la esquecer, antes que espalhe rumores.

— Então… matar é a única opção, né…?

Yuki interpretou assim.

Mas—

— …Não. Não é necessário chegar a esse ponto. Literalmente fazemos a pessoa esquecer. Temos tecnologia para apagar memórias.

Yuki arregalou os olhos.

Os organizadores já tinham tecnologia absurda — Tratamento de Preservação, cirurgias avançadas…

Mas manipular memórias?

Isso era outro nível.

Ao menos ninguém inocente precisaria morrer.

Ela suspirou, aliviada.

Mas a agente continuou:

— Porém isso não significa que você pode relaxar. Se isso acontecer, você terá que abandonar a escola para evitar novos riscos.

— …Imaginei.

O maior medo dos organizadores era a exposição pública.

Eles jamais permitiriam que ela continuasse estudando se houvesse perigo.

Ela precisava resolver isso rápido.

— Tenho que fazer alguma coisa…

— Quer minha ajuda?

— Quero. Por favor.

(1/18)

Yuki Sorimachi era uma jogadora de death games.

Sob o nome de jogadora Yuki — escrito com caracteres diferentes do seu nome real — ela apostava a própria vida repetidas vezes em competições mortais.

Escapar de salas cheias de bombas dentro de um limite de tempo.

Fugir de um assassino armado por horas.

Matar outros jogadores para sobreviver.

Tudo isso era transmitido para um público.

E, em troca…

Ela recebia prêmios ridiculamente pequenos.

Era assim que ganhava a vida.

Sem rodeios:

Ela fazia parte do submundo.

Alguém que não merecia elogios.

Claro, escondia sua identidade na escola.

Era proibida de falar dos jogos.

Mas, mesmo se pudesse, ela não teria vontade.

Sempre desviava das perguntas dos colegas.

Mesmo assim…

Não importava o quanto tentasse esconder quem era…

Algumas coisas eram impossíveis de ocultar.

E algumas pessoas…

Percebiam coisas que não deveriam perceber.

(2/18)

O curso noturno de certo colégio oferecia refeições durante o intervalo entre o segundo e o terceiro período.

Cerca de 70% dos alunos aproveitava esse benefício.

Dentro do refeitório, cujas janelas davam para a paisagem escura da noite, os estudantes se sentavam diante de bandejas com refeições balanceadas: sopa de missô e três acompanhamentos.

Alguns devoravam a comida às pressas.

Outros comiam devagar, conversando com amigos.

Entre eles, havia um grupo de garotas.

Uma delas, Hitomi Honezuka, mantinha o olhar fixo sobre a mesa.

Mas não estava olhando para a comida.

Seus olhos estavam grudados no celular ao lado da bandeja.

Depois de terminar de checar todas as redes sociais, ela ergueu o rosto e olhou para as duas garotas sentadas à sua frente.

— …O que vocês acham daquela garota? — perguntou Hitomi.

As duas pausaram no meio da garfada.

Eram gêmeas idênticas.

Mesmo cabelo, mesmas roupas, mesmos acessórios, mesma expressão despreocupada… até o ritmo de mastigar era igual.

Para qualquer estranho, pareciam duas cópias exatas da mesma pessoa.

Mas Hitomi, que as conhecia há tempos, sabia:

À esquerda estava Hiyori Amano.

À direita, Kazami Amano.

— “De quem—”

— “—você tá falando?”

Metade da frase veio de Hiyori.

A outra metade, de Kazami.

As duas falavam como se compartilhassem um único cérebro.

— Só pode ser uma pessoa da nossa sala, né? A Yuki Sorimachi, óbvio.

As gêmeas fizeram cara de entendimento.

Hitomi olhou ao redor do refeitório.

Confirmou que Yuki não estava ali.

Então perguntou:

— Quem vocês acham que ela é?

— Hmm… sei lá. Talvez namorada de um yakuza? Ela é meio intimidadora.

— Ou talvez ela mesma seja uma gangster.

— Ou uma ladra fantasma! Ela é linda demais, né?

As respostas eram completamente idiotas.

Mas isso já era esperado delas.

E, sendo sincera, provavelmente o resto da turma daria respostas parecidas.

A própria Hitomi só conseguia imaginar teorias absurdas, tipo:

— uma mercenária que voltou de uma zona de guerra

— ou um deus da morte reencarnado nos tempos modernos

Esse era o nível de mistério que cercava Yuki Sorimachi.

Tudo começou há pouco mais de um ano, quando Yuki se transferiu para a escola.

Assim que terminou de escrever o nome no quadro e se apresentou…

Hitomi teve certeza.

Aquela garota não era normal.

Parecia um fantasma.

Mas não só isso.

Ela carregava uma aura… como se existisse além da fronteira que separa pessoas comuns de pessoas… diferentes.

Isso ficava claro tanto na presença dela quanto nas atitudes.

Primeiro:

Yuki não tentava se aproximar de ninguém.

Respondia quando falavam com ela, mas nunca iniciava conversa.

E sempre se fechava quando perguntavam idade, trabalho ou o motivo de estudar à noite.

Segundo:

Ela faltava duas ou três vezes por mês.

Faltar não era estranho no curso noturno.

Mas a frequência regular com que Yuki sumia era bizarra.

Às vezes voltava no dia seguinte.

Às vezes passava vários dias fora.

No mês passado, ficou mais de uma semana desaparecida.

O que ela fazia todo esse tempo?

Terceiro:

Ela quase sempre voltava machucada.

Bandagens no rosto, braços, pernas…

De onde vinham aquelas feridas?

Tudo naquela garota despertava a curiosidade de Hitomi.

— E você, Hitomi? O que acha? — perguntou Kazami.

— Não faço ideia — respondeu. — Por isso comecei a investigar.

— Como assim?

— Seguindo ela na escola. Mexendo na bolsa quando ela sai da sala. Perguntando discretamente pros professores. Já fiz praticamente tudo.

— …Você foi TÃO longe assim?!

— Por quê?!

As gêmeas pareceram incomodadas.

Reação normal.

Se não fossem amigas de confiança, Hitomi jamais teria contado.

— Eu só tô curiosa. Vocês não estão também?

— …Até que sim…

— Descobriu algo?

— Se tivesse descoberto, não tava perguntando pra vocês. Nada suspeito na bolsa. Nada de drogas. Professores não sabem de nada. Ela nunca traz nada ligado à identidade dela pra escola.

— Hmm…

— Então tô pensando em levar a investigação pra fora da escola.

Hitomi tomou um gole do leite com o canudo.

— Hoje vou seguir ela depois da aula. Por mais esperta que seja, ninguém consegue esconder completamente quem é no mundo real.

As gêmeas ficaram visivelmente desconfortáveis.

— …Mas isso não é—

— —ilegal?

— Parece que eu me importo?

Provavelmente era ilegal, sim.

Se fosse pega, estaria ferrada.

Mas ela já tinha passado do limite faz tempo.

“Já que comecei, vou até o fim.”

Era quase como uma coceira impossível de ignorar.

Ela sentia que descobrir quem Yuki realmente era… era sua missão.

(3/18)

As aulas da noite terminaram.

Yuki Sorimachi juntou suas coisas rapidamente, levantou e saiu da sala.

Como sempre.

Sem amigos.

Sem conversa.

Sem enrolação.

Hitomi precisou agir rápido.

Mas, em vez de seguir Yuki direto, correu para o banheiro.

Precisava do disfarce.

Trocou de roupa numa velocidade digna de mágico de palco.

Colocou máscara e boné.

Saiu.

Quando alcançou Yuki, ela estava trocando os sapatos no armário da entrada.

Depois saiu do prédio e começou a caminhar pela avenida principal.

Hitomi foi atrás.

Na rua havia poucas pessoas, por ser noite.

Mas ainda era bem mais arriscado que dentro da escola.

Por isso ela tomou cuidado:

Passos leves.

Respiração controlada.

Distância grande o suficiente para quase perder Yuki de vista.

Mesmo assim—

Yuki estremeceu.

Antes que ela olhasse para trás, Hitomi mergulhou nas sombras.

O coração disparou.

Quase o dobro do normal.

O suor gelado junto com o ar frio da noite drenava o calor do corpo.

Como ela percebeu…?

Era igual na escola.

Sempre que Hitomi olhava fixamente para ela…

Yuki sentia.

Mesmo à distância.

Isso não era normal.

Era prova definitiva.

Yuki Sorimachi não era uma pessoa comum.

Passos ecoaram ao longe.

Ficaram mais fracos.

Ela não tinha sido descoberta.

Hitomi suspirou aliviada.

Mas agora Yuki estava desconfiada.

Se tivesse algo a esconder… com certeza seria cuidadosa no caminho pra casa.

Então…

O que fazer?

Desistir por hoje?

Hitomi pegou o celular.

21:45.

Guardou de novo.

(4/18)

Depois de confirmar que não havia ninguém atrás dela, Yuki voltou a encarar a frente e continuou caminhando pela estrada principal.

Não havia ninguém à vista, mas ela tinha certeza de ter sentido um olhar fixo diretamente em suas costas, ainda que a uma certa distância. Quem quer que estivesse observando-a quase certamente estava naquela estrada. Devia ter se escondido no instante em que ela se virou para trás.

Yuki tentou procurar qualquer sinal de alguém seguindo-a.

Ela ainda estava sendo observada — ou pelo menos era o que acreditava —, mas já não tinha tanta certeza, pois a presença daquela pessoa parecia ter enfraquecido. Talvez o perseguidor tivesse desistido por hoje. Ou talvez apenas tivesse ficado mais cauteloso e continuasse a segui-la com ainda mais cuidado.

Então finalmente chegou a esse ponto…, pensou Yuki.

O colega de classe que vinha observando-a estava intensificando sua vigilância.

Na escola, Yuki conseguia esconder sua verdadeira identidade, mas fora dela isso era impossível. Ela não podia permitir que alguém a visse encontrando seu agente ou sendo buscada para participar dos jogos. E seria um desastre absoluto se seu perseguidor descobrisse onde ela morava.

Quem quer que fosse aquela pessoa já tivera a audácia de vasculhar sua mochila e sua mesa na escola. Havia grandes chances de que não hesitasse em invadir seu apartamento enquanto ela estivesse fora.

E existiam coisas demais em seu apartamento capazes de revelar a existência dos jogos.

As roupas guardadas no armário.

O caderno onde registrava os resultados das partidas.

A caderneta bancária mostrando uma quantia absurda de dinheiro para uma simples estudante.

Se o perseguidor colocasse as mãos em qualquer uma dessas coisas… seria o fim.

Yuki teria de se despedir de sua vida como estudante.

Ela queria desesperadamente capturar seu stalker antes que isso acontecesse. Porém, se fosse algo tão simples, já teria conseguido há muito tempo.

A pessoa que a seguia era extremamente habilidosa.

Yuki percebeu isso desde a época em que vinha sendo observada dentro da escola. Ela não ficou parada esperando; tentou inúmeras vezes identificar o perseguidor, mas ele jamais cometera um único erro.

Como participante de jogos mortais, Yuki já havia sido perseguida muitas vezes antes. Ainda assim, as habilidades daquela pessoa estavam em outro nível.

Não era um amador.

Parte dela sequer conseguia entender por que alguém tão experiente em espionagem estaria em sua escola.

Naquele dia, as capacidades do perseguidor continuavam impecáveis. Mantendo sempre uma distância considerável, tornava impossível para Yuki correr até ele e pegá-lo em flagrante.

Entrar em um beco talvez obrigasse a pessoa a diminuir a distância, mas mesmo assim dificilmente chegaria perto o bastante para que Yuki pudesse agir.

E então ela chegou à conclusão de que não conseguiria capturar o stalker sozinha.

Yuki tirou o celular do bolso e enviou uma mensagem para seu agente.

"Desculpe entrar em contato tão tarde.”

“Estou sendo seguida pela pessoa de quem falei antes.”

“Pode vir até minha localização?"

Ela sabia que aquele era um pedido bastante absurdo, mas, para sua surpresa, a resposta chegou poucos segundos depois.

"Muito bem. Estarei aí dentro de uma hora.”

(5/18)

No fim das contas, Hitomi voltou a perseguir Yuki.

Desistir só porque o alvo demonstrou suspeitar que estava sendo seguido seria coisa de covarde. Continuar era a decisão certa.

A partir dali, Sorimachi Yuki certamente estaria ainda mais cautelosa, então as chances de revelar algum segredo eram mínimas. Ainda assim, mais cedo ou mais tarde ela teria de voltar para casa.

Pelo menos o endereço dela… Hitomi queria descobrir isso antes que a noite terminasse.

Infelizmente, Yuki parecia ter percebido seu plano.

A garota entrou em um beco afastado da avenida principal e começou a vagar sem rumo pela região. Às vezes parava no meio de um cruzamento; em outras, repetia o mesmo trajeto várias vezes.

Seu comportamento deixava claro que ela não queria voltar para casa.

Ela devia estar tentando despistar quem a seguia.

Hitomi já estava preparada para uma operação demorada, então continuou perseguindo Yuki pacientemente, sem entrar em pânico nem por um instante.

Ela conferiu o horário no celular.

Já estava quase onze da noite.

Mais de uma hora havia se passado desde o início da perseguição.

Yuki examinara os arredores várias vezes, mas em todas elas Hitomi conseguiu se esconder habilmente. Embora ainda não tivesse descoberto nenhuma pista sobre a verdadeira identidade de Yuki, ao menos conseguira manter uma distância adequada sem ser notada nem perder a garota de vista uma única vez.

Hitomi já havia seguido Yuki diversas vezes na escola, mas nenhuma daquelas missões durara tanto assim.

Ela mesma estava surpresa com sua persistência inabalável.

Será que eu sempre tive talento pra isso?, pensou.

Hitomi levou a mão ao peito.

Mais cedo, seu coração parecia prestes a explodir de tanto bater rápido, mas agora já havia voltado ao normal.

Ela estava calma.

Calma mesmo enquanto cometia o ato ilegal de perseguir outra pessoa.

Pensando bem, aquela sensação já vinha acontecendo havia algum tempo — enquanto observava Yuki pelas costas na sala de aula ou enquanto vasculhava sua mesa durante as trocas de sala, por exemplo.

Normalmente, situações assim deveriam ser desesperadoras.

Mas, por algum motivo, Hitomi sempre se sentia estranhamente tranquila.

Por quê?

Seria aquilo que chamavam de “estar no fluxo”?

Mas então por que ela entraria nesse estado justamente enquanto perseguia uma colega de classe?

Será que eu realmente tenho talento para ser detetive?

No instante em que esse pensamento cruzou sua mente—

"—Olá?"

Uma voz a chamou por trás.

Hitomi girou imediatamente.

Uma mulher de terno preto estava parada logo atrás dela.

A visão a deixou abalada.

Ela estava tão focada em seguir Yuki que nem sequer percebeu a aproximação da mulher.

"Q-quem é você?", perguntou Hitomi por reflexo.

"Eu…" A mulher parou por um instante para pensar. "Digamos que sou uma amiga da pessoa que você está seguindo."

Mentira descarada, pensou Hitomi na mesma hora.

Não havia chance de alguém com aquela presença intimidadora ser apenas “uma amiga”. Ainda assim, Hitomi concluiu que a mulher certamente tinha alguma ligação com Yuki.

A mulher continuou:

"Julgando pelo seu porte físico… suponho que você seja mesmo colega de classe da Yuki."

Ela observou Hitomi de cima a baixo.

Mesmo usando máscara e boné como disfarce, Hitomi não conseguia esconder seu corpo. Bastou um olhar para a mulher perceber que ela era uma estudante.

"Não sei quais são suas intenções, mas independentemente disso… deixe-me ver seu rosto direito."

A mulher estendeu o braço em direção a Hitomi.

Droga…

A mulher emanava a mesma aura de Sorimachi Yuki.

A aura de alguém pertencente a um mundo completamente diferente.

Ela também existia além da linha que separava pessoas comuns de pessoas extraordinárias.

O que vai acontecer comigo?

Hitomi se lembrou do que as gêmeas Amano haviam dito no refeitório.

Se Sorimachi Yuki realmente for namorada de um mafioso… ou uma ladra fantasma…

O que acontece com alguém que tenta descobrir sua identidade?

O que ela vai fazer comigo

Hitomi permaneceu imóvel, congelada pelo medo.

Sua mente ficou em branco.

Uma sensação estranha tomou conta dela, como se o mundo inteiro tivesse virado de cabeça para baixo—

—e, ainda assim, por algum motivo, seu coração permanecia calmo.

Hitomi segurou o braço estendido da mulher.

Com a outra mão, agarrou a camisa social dela junto da gravata, puxando-a enquanto girava o próprio corpo.

Ela abaixou o centro de gravidade e impulsionou os braços para frente, erguendo a mulher no ar.

Era uma projeção de ombro do judô.

“WHAM!”

Sem conseguir assumir uma postura defensiva, a mulher foi arremessada violentamente contra o asfalto e desabou no chão no instante em que Hitomi a soltou.

Ela perdeu a consciência imediatamente.

Ao ver a mulher caída de cabeça para baixo, Hitomi entrou em pânico.

O-o que foi que eu fiz agora?

Eu… eu joguei ela no chão?

Joguei mesmo.

Ainda consigo sentir isso nas minhas mãos.

E de que outra forma ela estaria desacordada agora?

Eu definitivamente arremessei ela.

Meu corpo se moveu sozinho.

Nunca pratiquei judô nem li um único mangá de artes marciais… mas, de alguma forma, executei uma projeção de ombro antes mesmo que minha mente entendesse o que estava acontecendo.

Como isso é possível?

Desde quando eu sei lutar?

O som de passos trouxe Hitomi de volta à realidade.

Ela percebeu imediatamente que pertenciam a Yuki.

A garota estava se aproximando.

Hitomi arrastou rapidamente a mulher para a beira da estrada antes de fugir às pressas do local.

(06/18)

“WHAM!”

Yuki se virou imediatamente.

Atrás dela havia uma bifurcação na estrada. O som tinha vindo dali.

Ela disparou em corrida e dobrou a esquina—

—apenas para encontrar uma mulher caída à beira da rua.

Era sua agente.

Yuki correu até ela.

A mulher estava inconsciente. Seu terno apresentava marcas de arrasto, indicando que alguém a movera depois que ela caiu no meio da rua. O barulho de antes devia ter sido o corpo dela atingindo o asfalto.

Yuki enfiou a mão no bolso e tirou o celular.

Seu aplicativo de mensagens já exibia uma única mensagem enviada pela agente:

"Encontrei sua perseguidora."

Ou seja, sua agente havia abordado o stalker e tentado descobrir sua identidade… apenas para acabar sofrendo um contra-ataque.

A situação estava clara.

Como sua agente estava desacordada, talvez tivesse sofrido uma pancada na cabeça. Tempo era essencial.

Yuki abriu outro aplicativo para chamar uma ambulância quando, de repente—

Uma mão agarrou seu pulso.

"Wah!", gritou Yuki, assustada.

Sua agente havia recuperado a consciência.

"B-bom dia", disse Yuki, mesmo sendo plena madrugada.

Após alguns segundos de silêncio, a mulher respondeu:

"...Boa noite."

"Você está bem?"

"Por enquanto…"

A agente segurava a própria cabeça, sinal de que ainda sentia dor. Sem mudar de posição, perguntou:

"Você estava pensando em chamar uma ambulância?"

"Bem… sim."

"Isso não pode acontecer. Legalmente falando, nós, agentes, não existimos. Consultar um médico está fora de cogitação."

Sério?, pensou Yuki.

Pelo visto, a organização precisava manter até mesmo mortes e ferimentos dos agentes longe dos olhos do público.

Yuki guardou o celular.

"Peço desculpas, Yuki. Sua perseguidora me derrotou."

"Parece que sim…

Yuki observou os arredores, mas não havia mais sinal de ninguém.

A stalker já devia ter fugido fazia tempo.

"Mas você chegou a ver ela, certo? Como era?"

"Sim… Bem… Ela estava usando máscara e boné, então não consegui ver seu rosto. Porém, pelo porte físico… acredito que provavelmente seja uma garota."

"Bom, isso já reduz pela metade."

Yuki falou em tom de brincadeira, mas sua agente não demonstrou o menor sinal de humor.

"Estou envergonhada de mim mesma", disse a mulher em voz baixa. "Não quero dar desculpas… mas ela era extremamente habilidosa. Me arremessou com muita facilidade. Existe alguma especialista em judô entre suas colegas de classe?"

"Não que eu saiba…"

Então sua agente não havia sido chutada nem espancada.

Ela tinha sido projetada contra o chão.

Não era possível executar uma técnica daquelas sem treinamento intenso — ainda mais contra uma agente dos jogos.

Yuki não sabia exatamente o quão forte sua agente era, mas, considerando que trabalhava organizando jogos mortais, certamente devia ser bastante capaz.

Só uma profissional conseguiria derrubar uma mulher daquelas com tamanha facilidade.

Da mesma forma, quem quer que fosse sua perseguidora também precisava ser uma especialista em perseguição.

Agora Yuki estava ainda mais curiosa sobre sua identidade.

A agente levou a mão ao queixo.

Parecia estar tentando fazer pose de pensadora, mas como a palma da mão estava arranhada, ela acabou soltando um:

"Ai…"

"Você… não pode voltar nesse estado, né?", disse Yuki. "Por favor, passe a noite no meu apartamento."

"Não quero incomodar."

A agente balançou a cabeça.

"Não se preocupe com isso. Por coincidência, eu comprei um colchão extra para visitas outro dia…”

(07/18)

Pouco tempo depois, Yuki voltou para casa — um apartamento velho e decadente, perfeito para uma ladra fantasma.

Ela entrou no conjunto habitacional levando consigo a mulher de terno.

Então, ao passar pelas caixas de correio na entrada, parou diante da correspondente ao Apartamento 107 e espiou rapidamente o interior da abertura.

Das sombras, Hitomi observava cuidadosamente toda a cena se desenrolar.

(08/18)

Depois que as duas desapareceram dentro do apartamento, uma sombra próxima começou a se mover.

Era Hitomi.

Ela havia continuado sua perseguição com a maior calma possível, mas agora seu coração disparava. Eu consegui. Eu realmente consegui. Enganei ela. Descobri onde ela mora sem que percebesse.

Após nocautear a mulher de terno, Hitomi fugira do local. Porém, ela não havia abandonado sua operação. Apenas fingira ir embora e as seguiu secretamente, pois deduzira que Yuki voltaria para casa para prestar os primeiros socorros à mulher, que parecia ser algum tipo de acompanhante. E a previsão de Hitomi acertou em cheio. Yuki Sorimachi baixara a guarda e não percebeu a presença dela. A garota guiara Hitomi diretamente até seu apartamento.

Descobrir o endereço de Yuki era um enorme avanço. Era algo completamente diferente de vasculhar a bolsa e a mesa dela. Não havia dúvidas de que o apartamento de Yuki esconderia segredos que ela não queria que viessem à tona. Hitomi teria a munição necessária para destruir a fachada de Yuki—

De repente, Hitomi estremeceu com o rumo dos próprios pensamentos.

Em um piscar de olhos, ela havia elaborado um plano para invadir a residência de outra pessoa. Aquilo era loucura. Estava ultrapassando todos os limites. Embora perseguir alguém e mexer em seus pertences já fossem atos ilegais, invadir a casa de alguém era algo de um nível completamente diferente — algo que poderia colocá-la em sérios problemas com a polícia. Além disso, ela não tinha aprendido a lição mais cedo? O que aconteceria com Hitomi se descobrissem que ela era a colega stalker de Yuki? Ela certamente não sairia impune. Na verdade, poderia acabar enfrentando algo muito mais assustador do que uma simples punição da lei. Invadir o apartamento de Yuki estando ciente deste risco seria como uma mariposa voando direto para a chama. Estava mais do que claro que desistir naquele momento seria a decisão mais sensata.

Mas, ainda assim — por que uma parte de Hitomi se recusava a abandonar aquilo?

(9/18)

Hitomi voltou para casa. Como morava bem longe do apartamento de Yuki, já passava da meia-noite quando finalmente chegou. Apesar do frio cortante, o corpo inteiro de Hitomi parecia febril.

Mesmo depois de destrancar a entrada do conjunto residencial, subir as escadas, alcançar seu apartamento, abrir a porta, entrar no quarto e acender as luzes, o fogo dentro dela se recusava a se apagar.

Hitomi morava em um apartamento tipo quitinete. Diferente do prédio velho e decadente de Yuki, o lugar dela era limpo, organizado e mobiliado com peças de alta qualidade. Se mostrasse uma foto do apartamento para qualquer pessoa na rua, dez entre dez diriam que ela era filha de uma família rica.

E, de fato, Hitomi era filha de uma família rica.

Seus pais tinham muito dinheiro, mas a expulsaram de casa e mandaram que vivesse sozinha depois de uma longa sequência de faltas na escola e vida desregrada. Muitos anos haviam se passado desde que seus pais cortaram contato com ela, e agora Hitomi mal conseguia se lembrar de como eles eram.

No começo, eles lhe deram uma grande quantia em dinheiro, então ela não teve dificuldades para viver sozinha. Mas sabia que não poderia continuar levando aquela vida luxuosa para sempre. Pelo menos para conseguir um diploma do ensino médio, ela havia se matriculado numa escola noturna.

Esse era o tipo de garota que ela era: uma imprestável idiota, envergonhada demais para contar aos outros sobre sua origem.

Então como explicar o que ela tinha feito naquela noite?

E não era só naquela noite. Ultimamente, havia algo estranho nela. Desde que começara a perseguir aquela garota fantasma, Hitomi sentia como se tivesse sido possuída por uma presença alienígena, como se estivesse aos poucos se transformando em outra pessoa.

Hitomi decidiu se deitar na cama.

Tentou se acalmar, mas foi inútil. Enquanto seguia Yuki, parecia estar sonhando. Agora, porém, não conseguia evitar cair em um estado de ansiedade extrema.

Não demorou para que suas emoções negativas se voltassem para Yuki Sorimachi.

Se eu conseguir expor quem ela realmente é…

Se eu fizer isso, essa ansiedade vai desaparecer.

Esse pensamento reacendeu a determinação de Hitomi.

Amanhã.

Vou invadir o apartamento dela amanhã.

(10/18)

No dia seguinte, Hitomi faltou à escola.

Quando o sol já havia se posto completamente — mais ou menos no horário do intervalo entre a primeira e a segunda aula da escola noturna —, Hitomi entrou em ação. Primeiro, entrou em contato com as gêmeas Amano, que provavelmente estavam no meio da refeição fornecida pela escola, e confirmou que Yuki Sorimachi tinha ido às aulas naquele dia. Ou seja, seu apartamento estava vazio.

Assim como na noite anterior, Hitomi colocou um boné e uma máscara antes de seguir para o apartamento de Yuki.

Naturalmente, o prédio de Yuki continuava exatamente onde estava ontem. Hitomi sabia que ela morava no apartamento 107, já que na noite anterior a garota havia espiado o interior da caixa de correio com aquele número.

Hitomi entrou no conjunto residencial e verificou a localização do apartamento. Como esperado, a porta estava trancada, então ela deu a volta até a janela dos fundos do apartamento 107.

Em seguida, tirou uma chave de fenda da bolsa e a enfiou na fresta entre o vidro e a moldura da janela. Golpeou repetidamente o mesmo ponto, criando uma rachadura no vidro. Depois começou a atacar outra área, fazendo a rachadura se expandir ainda mais.

Quando a abertura ficou grande o suficiente, Hitomi removeu o vidro com as próprias mãos, alcançou o interior do quarto, destrancou a janela por dentro e a abriu.

Na noite passada, ela havia pesquisado como quebrar uma janela. Diziam que aquele método era o mais eficiente e silencioso.

Por causa da própria falta de habilidade, Hitomi acabou fazendo um pouco de barulho durante o processo, mas provavelmente nenhum dos moradores ouvira nada. E mesmo que alguém tivesse escutado, dificilmente imaginaria que era o som de uma janela sendo quebrada.

Ainda que algum vizinho tivesse chamado a polícia, levaria vários minutos até chegarem ali.

Tempo mais do que suficiente para vasculhar o apartamento de Yuki.

No instante em que o vidro se quebrou, Hitomi percebeu que não sentia qualquer hesitação, apesar de ter acabado de se tornar uma criminosa de verdade — culpada por invasão de propriedade e dano ao patrimônio.

Era a mesma sensação que tivera durante a madrugada, enquanto elaborava o plano, e também quando saiu mais cedo para comprar as ferramentas necessárias.

Embora fosse a primeira vez que cometia algo assim, ela não sentia o menor nervosismo.

Seu coração permanecia calmo, como se estivesse ouvindo sua música favorita.

Será que eu também tenho talento para ser uma ladra...?

Hitomi entrou no apartamento.

A luz dos postes do lado de fora atravessava a janela quebrada, iluminando fracamente o interior. Assim como o apartamento de Hitomi, aquele também era uma quitinete, mas parecia infinitamente inferior ao dela.

E isso não se devia apenas ao aspecto decadente do lugar, mas também à bagunça do ambiente e aos móveis reduzidos ao mínimo necessário.

Yuki Sorimachi era uma garota bonita, mas em contraste absoluto com sua aura sobrenatural, seu quarto tinha uma aparência estranhamente comum e habitada.

Tudo indicava que ela levava uma vida desleixada.

Mas um segredo desse nível não era suficiente para satisfazer Hitomi.

Ela procurava algo muito mais importante.

Seus olhos percorreram rapidamente o quarto, em busca do lugar mais provável para esconder algo assim.

Então seu olhar parou no armário.

O armário era embutido na parede do apartamento.

A intuição de Hitomi gritava que era ali.

Como se estivesse sendo puxada por um poderoso ímã, ela avançou até a porta do armário e agarrou a maçaneta antes mesmo que sua mente pudesse reagir.

Mas antes que pudesse abri-la—

“—Já chega.”

(11/18)

Uma mão fria envolveu o pulso de Hitomi. Foi como se ela tivesse sido tocada por um fantasma. A temperatura da pele revelou imediatamente a identidade da recém-chegada, mas Hitomi ainda assim virou-se na direção do braço estendido.

Ali estava a garota fantasma, Yuki Sorimachi.

“O qu—?!” — Hitomi ficou sem fala por um segundo. “Por que você está aqui?”

“Quero dizer, eu moro aqui”, respondeu ela.

“Você não estava na escola? Não teria como ter corrido para cá tão rápido…”

“Desculpe estourar sua bolha, mas aquela era minha dublê”, disse Yuki. “Imaginei que tentaria entrar de fininho aqui enquanto eu estivesse fora, então fiz com que ela assistisse às aulas no meu lugar... Você pediu aos seus amigos para checarem se eu estava na escola? Pelo visto, eles não notaram que era outra pessoa.”

Certo — essa garota tinha uma assistente. Sendo o caso, Hitomi deveria ter considerado a possibilidade de a outra mulher assumir o lugar dela. Por que não pensara nisso? Por que não instruíra os gêmeos Amano a se certificarem rigidamente da situação na escola?

Com a mão livre, Yuki arrancou o chapéu e a máscara de Hitomi.

“Hitomi Honezuka, esse é o seu nome?” Aparentemente, Yuki se lembrava dela da escola. “Senti você me seguindo até em casa ontem. Como conseguiu subjugar ela, imaginei que eu mesma teria que cuidar de você, então a atraí para cá de propósito... Você me deu muito trabalho, mas acabou vacilando no final. O fato de ter faltado à escola do nada basicamente me confirmou que era você quem estava me perseguindo. Deveria ter pensado em conseguir um dublê também.”

Hitomi ficou sem palavras. A ideia de dar o bote enquanto Yuki estava fora dominara sua mente, impedindo-a de cogitar que a oportunidade pudesse ser uma armadilha. Mesmo se eu descobrisse a identidade dela, o que eu planejava fazer depois? Você é uma idiota, Hitomi, amaldiçoou-se internamente.

“Enfim…” Yuki apertou mais o pulso de Hitomi. “Só tenho um pedido: afaste-se.”

Devido ao aperto firme de Yuki, Hitomi conseguia sentir a própria pulsação.

“Não vou perguntar por que está metendo o nariz onde não é chamada. Não me importo que me siga por aí, revire minha mesa, quebre minha janela e invada meu apartamento. Estou disposta a deixar tudo isso passar. Mas não ouse dar mais nenhum passo. Se recusar a recuar, terei que resolver as coisas do meu jeito. E usarei todos os meios necessários.”

Todos os meios necessários — o que exatamente aquilo significava? Hitomi não sentiu necessidade de pedir detalhes.

“Faça um favor a si mesma e aceite estes termos.”

O tom de Yuki não era opressor nem dócil. Ela simplesmente fizera uma proposta. Não havia nada para ler entrelinhas. Hitomi entendeu que Yuki não precisava dizer mais nada. A garota tinha a habilidade e a confiança para eliminá-la tão facilmente quanto varrer a poeira do chão.

Isso era abundantemente claro para Hitomi.

Sentiu como se tivessem lhe estendido uma mão de salvação. Isso é ótimo. Agora posso finalmente desistir. Estarei livre do que quer que estivesse me possuindo ultimamente.

Hitomi ergueu a cabeça e encarou Yuki Sorimachi. Ela de fato havia se resolvido a pronunciar palavras de rendição.

“No entanto... Foi então que aquilo a possuiu mais uma vez.”

“Tudo bem”, disse Hitomi. “Sinto muito por tudo. Só deixei que minha curiosidade sobre você levasse o melhor de mim.”

Hitomi largou a maçaneta. Deu alguns passos para trás, distanciando-se do armário.

“Desde que entenda”, disse Yuki, afrouxando o aperto de sua mão direita.

Hitomi aproveitou a brecha. Puxou a mão antes que Yuki a soltasse completamente, arrastando a garota para frente pelo braço. Com a outra mão, Hitomi agarrou o ombro de Yuki e a empurrou ainda mais na mesma direção, fazendo-a cair exatamente como previra. Para facilitar a queda de Yuki, Hitomi pressionou o cotovelo contra as costas da garota. Novamente, conforme o previsto, Yuki perdeu o equilíbrio e desabou no chão.

Hitomi havia empurrado Yuki para o lado. Com o obstáculo removido, avançou rapidamente em direção ao armário, quando de repente —

“Nada disso!”

Yuki agarrou as pernas de Hitomi. Deitada no chão, esticara o braço direito e o prendera ao redor do tornozelo de Hitomi. Resistindo às tentativas da garota de puxá-la de volta, Hitomi agachou-se e tentou arrancar a mão de Yuki, mas Yuki usou a mão esquerda para impedi-la.

A mão esquerda de Yuki.

Quando tocou a mão de Hitomi, ela percebeu que a textura dos dedos da garota estava totalmente errada. Soltou a primeira coisa que lhe veio à mente —

“O que aconteceu com os seus dedos?”

Um segundo após aquelas palavras preencherem o ar, Yuki ficou visivelmente abalada. Sua expressão era de puro pânico.

No segundo seguinte, Yuki desapareceu no ar.

Outro segundo depois, uma dor aguda atingiu a têmpora esquerda de Hitomi. Ela desabou no chão e, enquanto seu mundo girava de lado, viu Yuki abaixando a perna. A garota havia se movido para o flanco esquerdo de Hitomi e desferido um chute. Hitomi tentou se sentar, fazendo uma careta enquanto sua cabeça latejava pelo corte sofrido, mas Yuki já a esperava com um soco direto de direita.

Naquele instante, Hitomi notou que Yuki deixara o próprio flanco direito levemente vulnerável.

Hitomi contra-atacou a investida de Yuki com um chute. Acertou em cheio o lado direito de Yuki, neutralizando completamente o soco da garota e empurrando-a para trás. Com o espaço limitado do pequeno estúdio, Yuki colidiu contra a parede com força total. Diferente da mulher de terno da noite anterior, ela se apegou à consciência e ergueu o olhar rapidamente. Contudo, pela forma como pressionava a costela com uma expressão de agonia, era claro que não conseguiria voltar à ofensiva de imediato.

Hitomi desviou o olhar de Yuki e caminhou até o armário.

“...Por que você é tão persistente?!”, gritou Yuki por trás.

Hitomi berrou do fundo do estômago:

“ — Isso é o que eu quero saber!!

Ela agarrou a maçaneta e a puxou com força, revelando o conteúdo do armário de Yuki.”

(12/18)

O armário estava cheio de uma coleção eclética de roupas.

Um uniforme de maid. Uma fantasia de coelhinha. Um vestido branco. Roupas de ginástica. O blazer de um uniforme escolar. Um maiô, um cheongsam e um chapéu com robe de bruxa.

No fundo, por algum motivo, estava pendurado um—

Naquele momento, Hitomi compreendeu completamente quem Yuki Sorimachi era.

Naquele momento, Hitomi lembrou completamente quem ela mesma era.

(13/18)

Tudo voltou para Hitomi.

As memórias do seu primeiro jogo.

De todos os jogadores, Hitomi acreditava que tinha o motivo mais fútil para participar: uma amiga a havia convidado. Depois de ser demitida do emprego anterior, Hitomi procurava um novo lugar para trabalhar e entrou em um jogo sem pensar muito.

Embora tivesse ficado chocada ao descobrir que jogos mortais realmente existiam, depois de experimentar um, percebeu que era surpreendentemente fácil. Hitomi concluiu o jogo sem dificuldades e ganhou um prêmio em dinheiro que parecia absurdamente grande para alguém que, até então, mal conseguia sobreviver.

As memórias de quando ela mergulhou no caminho de uma jogadora.

Hitomi e sua amiga tinham talento. Sempre que levavam algo a sério, eram invencíveis. As duas também eram abençoadas pela sorte. Encontraram cedo alguém disposto a ser mentor delas e compartilhar experiência.

Hitomi e sua amiga acumularam vitória após vitória e ganharam fortunas no processo.

Elas viram muitos jogadores morrerem, incapazes de alcançar o mesmo sucesso, e isso fez nascer nelas a crença de que talento e sorte eram tudo. O sucesso dependia de ter sorte o bastante para encontrar oportunidades boas demais para serem verdade.

Sempre que Hitomi via crianças voltando sozinhas do cursinho tarde da noite ou trabalhadores de escritório usando ternos gastos, lançava um olhar para eles e, mentalmente, os elogiava por seus esforços incansáveis.

As memórias de uma experiência aterrorizante.

Sua amiga morreu.

Embora isso não fosse uma possibilidade inesperada no mundo dos jogos mortais, naquela época Hitomi ficou completamente incrédula. Era assim que ela tratava tudo aquilo de maneira leviana.

Aparentemente, sua amiga havia perdido no trigésimo jogo.

Hitomi aprendeu então uma dolorosa lição sobre a “Barreira dos Trinta”, o fenômeno misterioso no qual as chances de morte dos jogadores aumentavam drasticamente por volta do trigésimo jogo.

As memórias de quando ela deixou de ser uma jogadora.

Com seu trigésimo jogo se aproximando, Hitomi concluiu que seria impossível superar a Barreira dos Trinta.

Somente aqueles que estavam determinados a seguir o caminho de um jogador até a morte conseguiam ultrapassar aquele obstáculo. Uma jogadora indecisa como ela sofreria as consequências caso o enfrentasse de frente.

Por isso, decidiu parar.

Após se aposentar, pediu ao seu agente que mexesse em suas memórias.

Ela se sentia culpada por continuar viva enquanto sua amiga havia morrido. Sua visão sobre dinheiro havia se distorcido por causa dos enormes prêmios que recebeu. E, mesmo depois de tudo, ainda sentia um apego persistente aos jogos — oportunidades quase boas demais para serem verdade.

Acreditava que, se não esquecesse a existência deles, acabaria voltando a jogar e cairia em ruína.

Ela estava convencida de que precisava cortar sua ligação com os jogos.

Resolveu começar de novo e viver uma vida honesta.

Pelo menos… era assim que deveria ter sido.

(14/18)

Uma mão agarrou o ombro de Hitomi.

Ela caiu no chão.

A próxima coisa que viu foi o rosto de Yuki bem diante dela; a garota a havia desequilibrado. Perdida em transe, Hitomi não conseguiu demonstrar qualquer resistência.

Mesmo que estivesse em condições normais, provavelmente não teria resistido.

Não havia motivo para isso.

— Então… — disse Hitomi. — Você é uma jogadora, hein?

Os olhos de Yuki se arregalaram.

— Você conhece os jogos?

— Sim. Acabei de me lembrar de tudo agora.

Hitomi esfregou a têmpora esquerda, que havia começado a sangrar por causa do chute de Yuki. A luz vinda de fora iluminou o sangue em sua palma.

O líquido havia se tornado levemente branco.

Hitomi entendeu o motivo: era efeito do Tratamento de Preservação.

Antes de participarem de um jogo mortal, os jogadores eram obrigados a passar por um procedimento que eliminava o odor corporal, impedia o corpo de apodrecer e transformava qualquer sangue que saísse das veias em uma espécie de algodão branco.

Desde que Hitomi abandonou sua vida como jogadora, conforme seu corpo substituía suas células, os efeitos do Tratamento de Preservação foram desaparecendo gradualmente — mas, aparentemente, ainda restavam vestígios.

— Eu fui uma jogadora até pouco tempo atrás — explicou Hitomi. — Quase cheguei aos trinta jogos… Mas parei porque achei que não conseguiria continuar sem acabar ficando arrogante.

Com a compreensão surgindo em seu rosto, Yuki murmurou:

— Ah… então você apagou suas memórias…

Aparentemente, a garota sabia que os organizadores tinham a capacidade de manipular memórias.

— Que coincidência estudarmos na mesma escola.

— Pois é.

Hitomi olhou para a mão esquerda de Yuki.

— Você perdeu a mão?

— Mais ou menos.

Yuki puxou a corrente da luz para iluminar o quarto e mostrou sua mão esquerda para Hitomi.

Embora fosse difícil perceber, já que foram feitos para parecer partes normais do corpo, três dedos da garota — do dedo médio ao mindinho — eram artificiais.

Mas a luz também revelou outra verdade.

Os olhos de Yuki, escondidos sob a franja, tinham cores diferentes.

A tonalidade do olho direito era mais fraca que a do esquerdo.

— …Seu olho direito…

— Ah, é…

Yuki levou a mão até o olho em questão.

— Eu esqueci de colocar minha lente colorida. É assim que escondo isso na escola. Estraguei ele num jogo faz tempo. Pelo menos não está causando grandes problemas por enquanto…

Hitomi olhou para o armário.

Diversas roupas estavam penduradas ali dentro. Embora não conseguisse dizer o número exato, provavelmente havia mais de trinta conjuntos.

A garota também havia machucado a mão esquerda e o olho direito.

Esses dois fatos serviam como prova — prova de que Yuki havia enfrentado e superado a Barreira dos Trinta, algo que Hitomi não conseguiu encarar.

— Você é incrível — disse Hitomi, sinceramente admirada. — Tenho respeito por você. Não consigo acreditar que conseguiu continuar jogando mesmo depois de tudo isso.

Yuki ficou em silêncio por um longo tempo.

As palavras de Hitomi pareciam ter tocado algo dentro dela.

Enquanto apagava a luz, Yuki respondeu:

— Acho que saber a hora de parar também é uma habilidade admirável.

(15/18)

Depois que Hitomi saiu, Yuki tentou alongar as costas dentro do quarto, mas rapidamente parou ao sentir dor no lado direito, onde havia levado um chute.

Enquanto refletia sobre o quão forte sua oponente havia sido, Yuki ligou para seu agente.

A chamada foi atendida após um toque.

— Sim?

— É a Yuki. Resolvi a situação.

— Entendo.

Seu agente parecia um pouco distante.

Achando aquilo estranho, Yuki explicou a identidade de sua stalker: Hitomi Honezuka, uma ex-jogadora que teve suas memórias apagadas pelos organizadores e agora vivia como uma pessoa comum.

— Entendo — respondeu o agente. — Isso explica por que ela era tão habilidosa em artes marciais.

Hitomi havia usado um arremesso de ombro para derrotar o agente de Yuki em um único movimento e ainda conseguiu evitar a percepção de Yuki usando técnicas de perseguição impecáveis.

A garota devia ter aprendido aquilo durante seus dias como jogadora.

Mesmo com as memórias apagadas, sua memória muscular permanecia.

Hitomi havia dito que quase alcançou trinta jogos, o que significava que, na época em que estava ativa, era uma jogadora extremamente habilidosa.

— Hum… tem mais uma coisa — disse Yuki. — Não sei como falar isso…

— O que foi?

— Ela viu dentro do meu armário e descobriu que eu sou uma jogadora. Isso vai afetar minha capacidade de continuar indo às aulas?

— …Bem, ela é uma ex-jogadora. Precisaremos confirmar os fatos por conta própria, mas acredito que não haverá problema. Você está livre para continuar frequentando a escola.

— Que alívio. Vai acontecer alguma coisa com a Hitomi?

— Não, nada em especial. Ela simplesmente continuará vivendo como estudante agora que recuperou suas memórias. Ela pode solicitar que os organizadores apaguem suas memórias novamente, mas isso não é da nossa conta.

“Porém…” continuou o agente de Yuki.

— Se possível, eu gostaria que ela esquecesse tudo. Especialmente a parte em que me jogou no chão…

(16/18)

No dia seguinte à briga no apartamento de Yuki, Hitomi foi para a escola.

Durante o intervalo após a primeira e a segunda aula, ela se sentou em uma mesa do refeitório com as gêmeas Amano para comer.

— Quer dizer… garrafas de vidro de cola quase não têm nada dentro, né? — dizia Kazami, a irmã mais velha. — Seria um roubo total se fosse exatamente a mesma bebida da lata. É por isso que tenho certeza de que cola em garrafa de vidro é feita para ser mais gostosa. Senão, por que alguém compraria a versão de vidro?

— Nada a ver — rebateu Hiyori, a irmã mais nova. — Então como você explica as garrafas plásticas de dois litros? Tudo é feito na mesma fábrica, então é exatamente a mesma coisa. Só parece diferente porque a embalagem muda.

Sentada diante delas, Hitomi mexia silenciosamente na comida enquanto assistia à discussão.

— Hitomi…

— O que você acha?

As gêmeas a puxaram para a conversa.

— Não faço ideia — respondeu Hitomi. — Mas ouvi dizer que a cola mexicana é incrível.

— Hã?

— Sério?

Droga, por que fui chamar atenção delas?

Hitomi acabou sendo obrigada a explicar como a cola mexicana supostamente tinha um sabor melhor por usar açúcar puro de cana.

Depois que as gêmeas Amano retomaram a discussão sobre refrigerante, Hitomi olhou ao redor do refeitório.

Yuki não estava em lugar algum.

O que era esperado, já que ela não comia a refeição escolar.

Yuki Sorimachi esteve presente nas duas primeiras aulas.

Ela parecia consciente da presença de Hitomi, mas as duas não trocaram nenhuma palavra.

Provavelmente, Yuki considerava tudo o que aconteceu no dia anterior como algo já resolvido.

Hitomi achava que ao menos deveria pagar pelo reparo da janela, mas sentia dificuldade em tocar no assunto.

Enquanto Yuki não mencionasse aquilo, Hitomi decidiu agir como se nada tivesse acontecido.

A misteriosa sensação de missão que sentiu ao tentar expor a identidade de Yuki Sorimachi provavelmente surgiu porque, inconscientemente, sua mente percebeu que Yuki era uma jogadora.

O mundo que Hitomi havia abandonado a puxou de volta.

Aparentemente, ela ainda possuía um apego persistente àquilo.

Hitomi tinha a opção de abraçar esse apego e voltar a ser uma jogadora.

Mas decidiu não fazer isso.

Embora possuísse talento para ser uma jogadora, não tinha a determinação necessária para seguir até o fim.

Sem determinação, ela não conseguiria trilhar o caminho de uma jogadora.

A escolha mais sábia seria continuar frequentando a escola e encontrar um caminho diferente e mais brilhante.

Hitomi também decidiu manter suas memórias.

Se escolhesse apagá-las, talvez acabasse perseguindo Yuki novamente.

Além disso, ela já havia amadurecido o suficiente para encarar seu próprio passado.

Depois de terminar a refeição, Hitomi olhou para as gêmeas Amano.

As duas já haviam mudado de assunto.

Agora discutiam por que as pessoas sentiam tanta vontade de tomar sorvete quando estavam resfriadas.

— Estou feliz por estar com vocês duas — disse Hitomi.

— De onde veio isso?

— O que isso quer dizer?

— Considerem isso um elogio.

(17/18)

Ao voltar para casa naquele dia, Hitomi de repente se lembrou de que, durante seus tempos como jogadora, teve uma mentora chamada Kirihara.

Assim como Hitomi, Kirihara também havia concluído quase trinta jogos, mas se aposentou após sofrer um ferimento grave e passou a orientar novos jogadores.

Hitomi não via sua mentora desde que teve as memórias apagadas, mas agora que elas haviam retornado, ficou curiosa sobre como Kirihara estava.

“Eu deveria entrar em contato”, pensou.

Não havia momento melhor que o presente.

Mesmo sendo tarde da noite, Hitomi ligou para sua mentora.

Embora Kirihara não estivesse salva em seus contatos, Hitomi havia decorado o número da casa dela.

Riiing… Riiing…

Após alguns toques, a ligação foi atendida.

— Alô?

A voz não era de Kirihara, mas ainda assim era familiar para Hitomi.

— Alô… Hum… Kokone?

— …Sim, aqui é a Kokone.

“Eu sabia”, pensou Hitomi.

“Isso me lembra que as irmãs Amano não foram as primeiras gêmeas que conheci.”

— Você seria a Hitomi? — perguntou Kokone.

Kokone só conhecia Hitomi pelos jogos, então Hitomi presumiu que ela havia usado o nome de jogadora dela, pronunciado da mesma forma que seu nome verdadeiro, mas escrito com caracteres diferentes.

— Sim — respondeu Hitomi.

Kokone disse:

— Faz muito tempo. Por que está ligando tão tarde? Espera… você não apagou suas memórias como jogadora?

— Sim… é uma longa história…

Hitomi decidiu poupar Kokone dos detalhes.

— Enfim, senti vontade de ligar de repente. Pode passar minha mentora?

………………

Kokone não respondeu.

Pela ausência de sons ou vozes do outro lado, não parecia que ela estivesse chamando Kirihara.

Hitomi começou a se perguntar o que estava acontecendo, mas as palavras seguintes de Kokone atravessaram sua mente como uma bala.

— Kirihara… Kanami Kirihara faleceu.

Hitomi ficou completamente atordoada.

— Isso aconteceu no mês passado. Receio que você tenha chegado tarde demais.

— O qu…?

Hitomi levou alguns segundos para conseguir destravar a língua.

— Como? Achei que ela tivesse se aposentado como jogadora.

— Sim.

— Então o que aconteceu?

— Ela foi assassinada.

Hitomi sentiu uma mistura de raiva e frustração na voz de Kokone.

— Gostaria de ouvir os detalhes?

Hitomi não hesitou.

— Sim, por favor.

(18/18)

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(0/22)

Yuki chegou em casa.

(1/22)

Ela havia voltado da escola.

Seu jogo mais recente, Cloudy Beach, durou uma semana inteira. Como Yuki faltou um dia extra de aula para se encontrar com sua mentora, aquele era o primeiro dia em um bom tempo em que ela comparecia à escola. Como já esperava, não conseguiu acompanhar as aulas. Já sentia que estava ficando para trás em várias matérias e sabia que precisaria separar um bom tempo para estudar.

Infelizmente, os estudos não eram seu único problema. Ultimamente, ela vinha sentindo que alguém a observava na escola. Um de seus colegas estava se intrometendo em sua vida. Yuki tomava muito cuidado para agir como uma estudante comum, mas, se esses olhares curiosos a seguissem para fora da escola, isso se tornaria um problema. Pensando que logo precisaria tomar providências por conta própria, ela entrou em seu quarto completamente escuro e puxou a corda pendurada no teto.

A luz fluorescente iluminou seu pequeno apartamento tipo estúdio.

Estava uma completa bagunça. As inúmeras manchas no chão e nas paredes davam ao lugar uma aparência bastante deteriorada. Em proporção ao tamanho reduzido do cômodo, havia poucos móveis. Yuki possuía apenas um conjunto de roupa de cama, uma geladeira e uma pequena mesa. Antes, vários sacos de lixo ficavam espalhados pelo chão, mas agora não havia nenhum, pois Yuki havia aprendido a cuidar corretamente do descarte do lixo. Mesmo assim, o ambiente continuava desorganizado, como mostravam o agasalho jogado no chão, os livros espalhados sobre a mesa, o repelente de insetos e os lenços desinfetantes ao alcance da cama, além de vários objetos de valor guardados sob a mesa para fácil acesso.

Yuki já nem lembrava há quantos anos morava naquele apartamento. Poderia facilmente se mudar para um lugar melhor graças ao dinheiro que havia acumulado, mas o apego que sentia por aquele lar a impedia de ir embora.

Depois de jogar sua bolsa escolar sobre a mesa, Yuki tirou o uniforme estilo marinheiro — que, após um ano usando, já não a deixava envergonhada — e vestiu o agasalho que estava no chão. Em seguida, abriu o armário embutido para guardar o uniforme.

O armário estava completamente cheio de roupas.

Yuki mantinha uma coleção de trajes que havia sido obrigada a usar nos jogos. Cloudy Beach foi seu quadragésimo quarto jogo, o que significava quarenta e quatro roupas diferentes. Ela havia descartado algumas nos primeiros tempos, então não havia exatamente quarenta e quatro ali, mas ainda assim eram mais de quarenta.

Naturalmente, entre elas estava o maiô de Cloudy Beach. Ao vê-lo, lembranças do jogo e de seus acontecimentos vieram à sua mente. Ela havia reencontrado sua mentora após um ano e meio, e depois recebeu uma ligação urgente de sua agente enquanto voltava para casa—

“…Não posso simplesmente ignorar isso”, disse Yuki enquanto guardava o uniforme.

Ela teria que deixar os estudos e o problema dos olhares misteriosos para depois.

(2/22)

Cloudy Beach — ambientado em uma ilha isolada no meio do oceano — foi um jogo extremamente desafiador para Yuki. No clímax, ela enfrentou Essay, um jogador muito superior a ela, e de alguma forma conseguiu sobreviver. Assim, Yuki conquistou sua quadragésima quarta vitória. Estava se aproximando da metade do objetivo herdado de sua mentora: completar noventa e nove jogos.

No entanto, um certo incidente lançou uma sombra sobre sua conquista. Aconteceu enquanto Yuki lutava por sua vida em Cloudy Beach, e só depois de se encontrar com sua mentora em um bar mágico ela soube dos detalhes.

“—Tem certeza disso?”, perguntou Yuki, pressionando o celular contra o ouvido.

Ela estava falando com sua agente. Yuki já havia passado seu número para ela, mas era raro receber uma ligação. Ao atender com curiosidade, sentiu como se um grande golpe a atingisse.

“Não”, respondeu a agente. “Como mencionei, os detalhes ainda não foram confirmados. Ouvi isso de outra agente… que soube do incidente por uma terceira. É apenas um boato, sem evidências concretas.”

“Mas”, continuou a agente, “se os resultados foram realmente tão catastróficos, devemos nos preocupar.”

Segundo ela, oitenta jogadores participaram de um jogo que terminou em desastre. Normalmente, a taxa de sobrevivência era de cerca de 70%, o que significaria cinquenta a sessenta sobreviventes. Porém, na realidade, apenas três saíram vivos. Aquilo não podia ser mera coincidência — era claramente uma anomalia.

“O que causou isso? Foi um acidente… ou outra coisa?”

Yuki estava tão abalada que fez uma pergunta sem sentido.

“Não sei”, respondeu a agente, de forma óbvia. “Só fui informada do ocorrido… Pode ter sido um erro no equilíbrio de dificuldade, ou talvez os jogadores fossem extremamente incompetentes. Ou talvez…”

“—Um dos jogadores fosse um assassino, como em Candle Woods”, completou Yuki.

Esse era o cenário mais assustador. Candle Woods havia se tornado um jogo lendário, pois uma psicopata chamada Kyara enlouqueceu e matou mais de trezentos jogadores. Se esse novo rumor fosse algo parecido—

“Entrarei em contato se receber mais informações”, disse a agente antes de desligar.

Yuki afastou o celular do ouvido e ficou encarando o aparelho em silêncio. O jogo catastrófico não saía de sua mente. Ainda não havia confirmação, nem detalhes concretos. Mesmo assim, seu coração estava cheio de preocupação. Só a possibilidade de algo assim acontecer já era suficiente para causar medo. Não havia garantia de que aquilo não voltaria a ocorrer. Algo semelhante poderia acontecer em seu próximo jogo.

Para Yuki e seu objetivo de completar noventa e nove jogos — não, para todos os jogadores — aquilo era uma situação extremamente preocupante.

Preciso fazer alguma coisa, pensou Yuki.

Preciso descobrir a verdade por trás dessa catástrofe.

(3/22)

“Mesmo assim…”

Yuki abriu os olhos. O teto de seu familiar e desgastado apartamento preenchia sua visão.

Embora sentisse que precisava agir, esse impulso ainda não havia levado a nada concreto. No momento, tudo o que fazia era ficar parada em seu apartamento. Porém, isso não era resultado de preguiça; ela simplesmente não tinha ideia de como começar a investigar aquele jogo desastroso. Pensando bem, Yuki percebeu que sabia surpreendentemente pouco sobre sua própria indústria, além do fato de que os jogos eram realizados para entretenimento. Ela não conhecia o perfil do público, o número total de clientes, o tamanho do mercado, a história da organização responsável, a quantidade de jogos realizados por ano ou o número total de mortes de jogadores. Além disso, não tinha nenhum meio de obter informações sobre jogos dos quais não participou.

O único canal útil que possuía — sua única ligação com os organizadores — era sua agente, mas a mulher não havia entrado em contato desde então. Isso era esperado, já que Yuki só havia descoberto o incidente no dia anterior, mas também não esperava receber novidades nos próximos dias. Apesar de trabalhar para os organizadores, sua agente tinha pouca autoridade. Seu conhecimento sobre o caso provavelmente não era muito diferente do de Yuki. Embora não quisesse desrespeitá-la, Yuki consideraria um golpe de sorte se recebesse outra ligação.

Em seguida, Yuki pensou em recorrer à sua rede de jogadores; poderia procurar entre os nomes que conhecia alguém que tivesse sobrevivido ao jogo catastrófico e perguntar diretamente. Se o princípio dos “seis graus de separação” fosse válido, talvez não fosse em vão. Era uma ideia brilhante, mas havia um grande problema — Yuki não tinha o contato de nenhum jogador. Apesar de já ter certa reputação como veterana de mais de quarenta jogos, ela não mantinha amizade com ninguém fora deles. Isso era consequência de seu estilo de jogo independente. Até poderia tentar contatar Koyomi e Hakushi, mas relutava em fazê-lo, já que Koyomi aparentemente havia se aposentado, e ela não queria depender de sua mentora.

Era um beco sem saída por todos os lados.

Pouco antes da meia-noite, porém, um raio de esperança surgiu em meio à situação.

“…Ah, é mesmo… Eu tinha esquecido dele”, disse Yuki, olhando para sua mão esquerda.

Os dedos médio, anelar e mínimo eram próteses. Ela precisou visitar um artesão de próteses após perder os dedos em Golden Bath, seu trigésimo jogo — lembrança que agora lhe trazia certa nostalgia.

Nunca havia pensado nisso antes, mas aquele artesão provavelmente sabia bastante sobre a indústria. Seu trabalho o colocava em contato constante com diversos jogadores. Era possível que tivesse conhecido algum sobrevivente da catástrofe.

Era melhor agir imediatamente. Yuki pegou o celular e abriu o histórico de chamadas para ligar para sua agente — até perceber que já era tarde da noite. Controlando o impulso, decidiu enviar uma mensagem.

“Desculpa por entrar em contato tão tarde.

Quero visitar o artesão. Você pode me levar?”

A resposta veio imediatamente. O celular vibrou em suas mãos antes mesmo que ela o soltasse sobre a mesa.

“Entendido.

Que horas devo buscá-la?”

(4/22)

Todos os jogadores tinham um agente designado. A carga de trabalho variava: alguns mantinham apenas uma relação distante, limitando-se a convidar jogadores e levá-los aos locais dos jogos, enquanto outros criavam vínculos mais próximos.

A agente de Yuki se encaixava no segundo tipo, mas mesmo assim Yuki se sentia um pouco desconfortável em tratá-la como motorista. Ainda assim, não tinha escolha, pois o destino ficava no meio de uma floresta, inacessível por transporte público. Yuki não possuía carteira de motorista e não podia pedir ajuda a mais ninguém, já que o artesão tinha ligação com o submundo. Chamar sua agente era a única opção.

No dia combinado, a agente a levou até uma mansão no meio da floresta — a residência do artesão de próteses. Por ser um lugar isolado, a entrada ficava destrancada, permitindo que visitantes entrassem livremente. Yuki abriu a porta, atravessou o corredor e bateu na porta da oficina.

Não houve resposta.

“…………”

Sem dizer nada, Yuki entrou.

O local estava exatamente como em sua última visita. Apesar da grande quantidade de objetos, tudo estava extremamente organizado — o completo oposto de seu apartamento.

Não havia ninguém à vista. Mesmo assim, Yuki tinha certeza de que o artesão estava ali. Da última vez, ele havia fingido não estar e se escondido dentro de um saco, apenas para assustá-la depois. Provavelmente tentaria fazer o mesmo novamente.

Dessa vez você não me engana, pensou Yuki.

Ela abriu bem os olhos e começou a procurar. Havia muitos lugares onde alguém de seu tamanho poderia se esconder: dentro de um saco, atrás de prateleiras, dentro de máquinas, sob o piso ou até no teto. Ainda assim, mesmo escondido, deixaria pistas — respiração, som das roupas, calor corporal ou até cheiro. Yuki concentrou seus sentidos para não perder nenhum detalhe—

—quando algo caiu atrás dela.

Yuki se virou. No mesmo instante em que percebeu que era apenas um lápis caindo da mesa, seu cotovelo esquerdo bateu em algo. Um objeto que estava pendurado na parede começou a cair. Ao se prender em seu braço, acabou derrubando outros, como peças de dominó. Ferramenta após ferramenta despencou, até que uma prateleira inteira desabou. Em menos de dez segundos, um canto da sala virou uma bagunça completa.

“…O que você está fazendo?”

A voz veio da entrada da oficina.

Era o artesão. O vapor saindo de seu corpo indicava que havia acabado de sair do banho.

(5/22)

“Bem-vinda.” O artesão fez um gesto para que Yuki se sentasse. A cadeira era alta o suficiente para ela se acomodar confortavelmente.

“Obrigada.” Yuki sentou-se.

Ela observou o homem à sua frente. Seu corpo continuava pequeno, e o rosto, cheio de barba. Tanto o cabelo quanto a barba ainda estavam úmidos.

“Hum… desculpa por… aquilo.” Yuki olhou para o canto bagunçado da sala.

“Achou que eu estava escondido de novo?”

“Sim…”

“Não se preocupe. A culpa é minha, afinal”, respondeu ele com tranquilidade.

“Desculpa…”, repetiu Yuki.

Ela estava envergonhada. Não por ter achado que ele estava escondido, mas por ter esbarrado nas ferramentas. Falhou em perceber o ambiente ao redor. Mesmo não estando em um jogo, havia sido descuidada demais.

“Enfim… veio para a manutenção de rotina?” perguntou o artesão.

Yuki fechou o punho esquerdo sobre o joelho. “Sim, mas também queria perguntar uma coisa. O senhor costuma ouvir rumores da indústria, não é?”

“Faz parte do trabalho.”

Yuki explicou tudo: o jogo catastrófico, o fato de ele ser sua única fonte possível de informação, e seu desejo de descobrir mais.

A reação dele foi inesperada.

“O quê, você também?”

Yuki arregalou os olhos.

O artesão alisou a barba molhada. “Ultimamente, todo mundo que vem aqui me pergunta a mesma coisa. Não é surpresa vocês estarem curiosos.”

Claro, pensou Yuki.

O rumor já havia se espalhado entre jogadores por meio dos agentes. E, naturalmente, outros tiveram a mesma ideia que ela.

“Vou te dar a mesma resposta que dei aos outros”, continuou ele. “Não sei de nada. Trabalho com isso há anos, mas sou só um velho comum. Não sei muito sobre os jogos. Ouvi dizer que houve alguns sobreviventes, mas nenhum deles é meu cliente.”

“…Sério?” disse Yuki, desanimada.

Sua única esperança havia desaparecido.

“O quê? Todo mundo acha que eu sei tudo?” ele riu.

“Não sei os outros, mas eu achava…”

“Duvido que eu saiba mais que vocês. Não faço parte do público, nunca trabalhei com os organizadores e, por ser homem, nunca fui jogador… Isso é tão sério assim? Esse jogo catastrófico.”

“Acho que sim. Pode ser outro Candle Woods… O senhor conhece alguém que saiba mais? Eu ficaria muito grata se pudesse me apresentar…”

“Desculpa, não posso ajudar nisso. Morando aqui, não é fácil fazer contatos. Vocês jogadores são praticamente os únicos que eu conheço—”

Ele parou de repente. Mais rugas surgiram em seu rosto já envelhecido.

Então continuou:

“Na verdade… talvez eu conheça alguém. Não sei se ainda está viva…”

“Quem?”

“Uma ex-jogadora que passou a trabalhar nos bastidores, como eu.”

Ele fez um gesto como se riscasse o braço.

“Ela é tatuadora. Talvez possa ajudar. Só a vejo de vez em quando para manutenção, então não sei se ainda mora no mesmo lugar… Mas quer o endereço?”

Yuki assentiu. Não havia motivo para recusar.

—

(6/22)

Depois de conseguir uma pista sobre para onde deveria seguir, Yuki pediu ao artesão que verificasse seus dedos protéticos. Não havia passado muito tempo desde a última visita, então não existia nenhum problema relevante, mas…

— Oh? — comentou o artesão no meio da inspeção. — O que aconteceu com esse seu olho?

— Hã?

O artesão encarava diretamente o olho direito de Yuki — aquele cuja cor era levemente mais apagada em comparação ao esquerdo.

— Ah, isso? — Yuki esfregou a pálpebra direita. — Está assim desde faz tempo. Eu machuquei ele em Candle Woods… Desde então, a cor ficou um pouco desbotada.

O olho direito de Yuki havia sido cortado em Candle Woods, seu inesquecível nono jogo. Ela havia se aproximado descuidadamente de um oponente que acreditava estar morto, apenas para receber um contra-ataque doloroso. Felizmente, o ferimento não resultou em perda de visão, mas deixou uma cicatriz na forma de uma íris mais pálida.

— Minha visão não tem problema nenhum, então não é algo importante — acrescentou Yuki. — Espera… você só percebeu isso agora? Depois de tantas visitas?

— É… acho que sim — respondeu o artesão, encerrando o assunto.

A expressão extremamente sombria no rosto do homem ficou marcada na mente de Yuki.

(7/22)

Olhando para aquele momento do futuro, a contagem regressiva já havia começado.

A contagem regressiva para uma perda irreversível.

A contagem regressiva para o limite de tempo que ela tinha para concluir noventa e nove jogos.

Na verdade, o cronômetro havia começado ainda antes — desde Candle Woods. Assim como a carreira de sua mentora chegou ao fim, Yuki também teve um futuro de ruína garantido por aquele psicopata.

Mesmo assim, era inútil ficar remoendo o que poderia ter sido.

Ainda que Yuki tivesse percebido a situação naquele momento, seu destino já não estava mais em suas mãos.

Além de visitar a tatuadora indicada pelo artesão, não havia mais nada que ela pudesse fazer.

(8/22)

Nome de jogadora: Kirihara.

Nome verdadeiro: Kanami Kirihara.

Esse era, aparentemente, o nome da tatuadora.

Ela havia atuado como jogadora há mais de dez anos, o que significava que pertencia a uma geração ainda anterior à de Hakushi e Koyomi. Segundo o artesão, Kirihara havia concluído quase trinta jogos antes de perder as duas pernas. Embora tenha conseguido novos membros através do artesão de próteses, ela decidiu se aposentar dos death games.

Como segunda carreira, escolheu se dedicar à tatuagem — um hobby que já praticava antes.

No dia seguinte, Yuki viajou até a residência de Kirihara.

Como Kirihara era colega de profissão e conhecida do artesão, Yuki imaginou que ela talvez morasse no meio de uma floresta. Porém, acabou descobrindo que ela vivia em um bairro residencial comum.

A casa no endereço que haviam lhe passado era uma mansão magnífica.

Era semelhante em tamanho à residência do artesão, mas uma mansão em uma floresta e uma mansão na cidade tinham valores completamente diferentes.

Yuki havia descoberto com o artesão que Kirihara havia completado quase trinta jogos. O prêmio acumulado por essa quantidade de jogos não seria suficiente para construir uma casa tão esplêndida quanto aquela.

O negócio de tatuagens dela era tão lucrativo assim? Ou ela possuía outras fontes de renda?

De qualquer forma, Yuki sentiu inveja.

Mantendo os olhos fixos no telhado da mansão que podia ser visto do fim da rua, Yuki seguiu diretamente para a entrada.

E então, no meio do caminho—

— Yuki.

— …?

Alguém chamou seu nome, fazendo-a se virar.

Parada ali estava uma garota da mesma idade que ela.

Por algum motivo, a garota emanava uma aura extremamente suspeita — como a de um vendedor que fala sobre investimentos usando palavras sofisticadas em um bar, ou a de alguém fazendo pesquisas na rua enquanto pede endereço e telefone por razões duvidosas.

Bastava um olhar para entender que se envolver demais com ela significaria problemas.

A garota ergueu a mão direita, num gesto casual para chamar atenção.

Sem mudar de pose, continuou:

— Quanto tempo, hein?

— …Oi — respondeu Yuki de maneira despreocupada.

Quem era aquela pessoa?

Pelo jeito como a garota a cumprimentou, elas já haviam se encontrado antes. O fato dela chamar Yuki pelo primeiro nome em vez do sobrenome indicava que não era alguém das aulas noturnas, nem da época do ensino fundamental.

Devia ser alguma jogadora de um jogo passado.

Mesmo assim, Yuki não conseguia se lembrar dela.

Depois de mais de quarenta jogos, era impossível recordar o rosto e o nome de todas as pessoas que já encontrou.

— Sua cara tá dizendo que você tá olhando pra uma estranha — comentou a garota após alguns segundos de silêncio, dando de ombros. — Meu nome é Keito. Já faz mais de um ano, então não me surpreende você ter esquecido.

— Keito…?

— Lembra? Nós participamos de Scrap Building juntas. Seu décimo jogo.

De repente, as memórias voltaram de uma vez.

Keito.

Ela realmente estava naquele jogo — o mesmo em que Yuki conheceu Mishiro, a adversária destinada a se tornar sua “Parede dos Trinta”.

Enquanto Yuki conseguia se lembrar perfeitamente de Mishiro, havia esquecido completamente dos outros jogadores daquele jogo fatídico.

— Ah… é mesmo. — O tom de Yuki mudou ao perceber. Ela apontou um dedo para Keito. — Verdade, você tava lá. Então continuou jogando, hein?

— Mais ou menos. Não jogo tanto quanto você… Ouvi alguns rumores. Você já passou da marca dos quarenta, né?

Sem entender de onde ela havia tirado aquela informação, Yuki respondeu:

— É… acho que sim.

— Imagino que você esteja aqui pelo mesmo motivo que eu. Faz sentido alguém como você acabar farejando o lugar certo.

— Hã? Do que você tá falando?

— Ah, qual é. Você ouviu falar das tatuagens, não ouviu? É por isso que tá indo pra casa da Kirihara, certo?

Keito lançou um olhar para o telhado da mansão — o mesmo que Yuki observava até poucos instantes atrás.

Realmente era para lá que Yuki estava indo, mas…

— É pra lá que eu tô indo… mas o que tem as tatuagens?

— ………?

— ?

As duas garotas ficaram se encarando em silêncio por vários segundos.

Keito foi a primeira a quebrar o clima.

— Yuki… você sabe daquele jogo que terminou em desastre, né?

— Sim. É justamente por isso que estou aqui: quero investigar… Um conhecido recomendou que eu viesse.

— …Ha-ha. Então você veio até aqui sem fazer ideia de nada, huh? Você é mesmo uma garota de sorte, Yuki.

— ???

— A verdade é que eu venho investigando aquele jogo catastrófico por conta própria, como jogadora… — Keito fez um gesto como se raspasse o braço, exatamente igual ao que o artesão havia feito no dia anterior. — Pelo que descobri… as tatuagens são uma parte importante da história.

(9/22)

Keito explicou tudo enquanto caminhavam em direção à mansão de Kirihara.

Assim como Yuki, Keito havia descoberto sobre a catástrofe através de sua agente. Assim como Yuki, ela também ficou alarmada com a situação e começou a investigar — mas era aí que os caminhos das duas se separavam.

Diferente da solitária Yuki, Keito possuía um grande círculo de amigos jogadores e conseguiu usar seus contatos para encontrar uma sobrevivente do jogo.

A jogadora estava aterrorizada, mas, após muito esforço, Keito conseguiu arrancar algumas informações dela.

— O jogo se chamava Garbage Prison. Como o nome sugere, acontecia em uma instalação correcional — explicou Keito. — Os jogadores precisavam escapar enquanto evitavam serem detectados pelos guardas designados pelos organizadores. Era um típico jogo de fuga. Descobri as regras nos mínimos detalhes e, sinceramente, o jogo não parecia difícil o suficiente pra terminar com tão poucos sobreviventes.

Keito fez uma pequena pausa antes de continuar.

— Mas aqui vem a parte importante: uma das jogadoras tinha tatuagens nos dois braços. E pouco antes do jogo acabar, ela enlouqueceu e massacrou quase todos os outros participantes.

Yuki imaginou a cena.

Um grupo de prisioneiros caídos no chão de uma prisão úmida enquanto uma tempestade rugia do lado de fora.

Entre eles, apenas uma garota permanecia de pé, firme, com padrões magníficos cobrindo os braços—

— Por que aquela jogadora faria algo assim? — perguntou Yuki.

— Faço ideia não. Pelo que ouvi, o jogo nem tinha elementos competitivos… A única explicação que consigo imaginar é que ela simplesmente seja esse tipo de pessoa.

Esse tipo de pessoa.

Em outras palavras, alguém que não hesitava em matar pessoas — exatamente como aquele psicopata de antigamente.

— Espero que não… — Yuki cobriu a boca com a mão.

Um maníaco homicida.

O tipo mais perigoso de pessoa naquela indústria que reunia criminosos de todo tipo.

Da última vez que Yuki encontrou alguém assim — Kyara, em Candle Woods — mais de trezentas pessoas perderam a vida.

Não havia garantia alguma de que a história não pudesse se repetir.

— Concordo. A situação não parece nada boa — disse Keito. — Mas olha pelo lado positivo. A jogadora responsável pelo desastre tinha tatuagens. Isso é uma pista enorme. Pensa comigo: todo jogador precisa passar pelo Tratamento de Preservação. Isso significa que ela não poderia ter sido tatuada por um tatuador comum. Ou ela mesma se tatuou, ou visitou alguém familiarizado com a indústria.

Antes de participarem dos jogos, todos os jogadores eram obrigados a passar pelo Tratamento de Preservação — um procedimento de modificação corporal.

A operação fazia com que o sangue se transformasse instantaneamente em uma substância branca e felpuda ao entrar em contato com o ar.

Como tatuagens envolviam risco de sangramento, apenas um tatuador que conhecesse o procedimento seria seguro para realizar o trabalho.

— Então foi por isso que você veio aqui — comentou Yuki.

— Exatamente. Saí procurando algum tatuador ligado à indústria e acabei encontrando o nome da Kirihara. Claro, existe a possibilidade da assassina ter feito as tatuagens antes de virar jogadora… ou serem temporárias. Mas, assumindo que não, há uma grande chance dela ter passado pela Kirihara.

Se isso fosse verdade, então Kirihara provavelmente poderia oferecer mais informações sobre a jogadora tatuada.

Era uma perspectiva esperançosa.

Enquanto conversavam, Yuki e Keito finalmente chegaram à mansão de Kirihara.

O terreno era cercado por uma grade de ferro quase duas vezes mais alta que Yuki. Havia também um interfone próximo ao portão.

Duas garotas estavam paradas diante dele.

As duas tinham feições muito parecidas, então provavelmente eram gêmeas.

Pareciam ter idade de ensino médio.

Ambas usavam vestidos de cores discretas, semelhantes a uniformes de empregada. Permaneciam perfeitamente eretas, como se tivessem barras de aço implantadas na coluna.

Nenhuma delas parecia ser a tatuadora Kirihara.

Seriam filhas dela? Tinham aparência jovem o suficiente para isso.

Mas as roupas sugeriam que poderiam ser funcionárias da mansão.

Talvez fossem as duas coisas.

— Com licença, podemos falar com vocês? — chamou Keito.

— Sim. —

— Sim.

As gêmeas responderam quase ao mesmo tempo. Ambas tinham vozes bastante sérias.

— Vim fazer uma visita, mas… nenhuma de vocês é a Kirihara, certo?

— Não, não somos. —

— Kirihara está lá dentro.

Depois de responderem alternadamente, as gêmeas olharam para a mansão.

— Meu nome é Haine. —

— Meu nome é Kokone. —

— Somos servas desta residência. —

— Se puderem, informem o motivo da visita.

Yuki encarou as duas garotas.

Haine estava à esquerda e Kokone à direita, mas eram absolutamente idênticas.

Se trocassem de lugar enquanto Yuki se distraísse por um segundo, ela certamente as confundiria.

Secretamente, Yuki decidiu não tirar os olhos delas nem por um instante.

Enquanto isso, Keito explicou a situação para as gêmeas.

— Pedimos desculpas, mas poderiam esperar um pouco? — respondeu Haine. — Parece que Kirihara ainda está dormindo…

— Já tentei ligar várias vezes, mas ela não atende.

Kokone pegou o celular e fez outra ligação.

Sem resposta.

Ela guardou o aparelho com uma expressão preocupada.

Yuki olhou rapidamente o telefone de Keito e percebeu que eram doze e quarenta e cinco.

Aparentemente, Kirihara era uma verdadeira coruja noturna.

— Vocês duas não têm chave? — perguntou Yuki.

— Conseguimos abrir o portão, mas apenas Kirihara pode destrancar a porta principal. Ela não gosta da ideia de outras pessoas possuírem uma chave de sua residência…

Yuki considerou aquilo apenas a cautela natural de uma ex-jogadora.

Numa indústria onde vidas tinham tão pouco valor, até um rancor insignificante poderia levar alguém a matar — ou ser morto — sem hesitação.

Era impossível saber quais inimigos alguém poderia ter criado sem perceber, nem quando algum deles apareceria para acertar as contas.

Esse princípio era ainda mais verdadeiro agora que o nome de Kirihara havia surgido como testemunha importante ligada ao jogo catastrófico—

— …………

Um cenário horrível tomou forma na imaginação de Yuki.

Ela virou o rosto para Keito, que coincidentemente também olhava para ela naquele instante.

— Não é impossível — disse Keito. — A jogadora tatuada matou quase oitenta pessoas naquele jogo. Ela não hesitaria em ir tão longe para apagar qualquer pista relacionada à própria identidade.

Yuki voltou-se para as gêmeas.

Nenhuma delas parecia compartilhar o senso de urgência de Yuki e Keito; apenas encaravam as duas sem entender.

— Hum… poderiam abrir o portão? — pediu Yuki. — Vocês têm a chave, certo?

— Hmm? Claro, mas não poderemos entrar na casa.

— Tudo bem. Nós vamos arrombar a entrada.

As gêmeas arregalaram os olhos.

— Kirihara pode não estar dormindo — continuou Yuki. — Se eu estiver errada, pago pelos danos. Então, por favor.

A explicação de Yuki carecia de detalhes, mas as gêmeas — aparentemente nada comuns — pareceram entender a urgência da situação.

— Entendido — disse uma delas antes de abrir o portão.

Yuki, Keito, Haine e Kokone atravessaram rapidamente o jardim e chegaram diante da mansão.

A porta principal era extremamente reforçada e sofisticada. Não parecia algo que conseguiriam abrir facilmente.

— Yuki. — Keito apontou para uma janela no segundo andar. — Tá vendo aquilo? A janela não está trancada.

Yuki estreitou os olhos.

A pequena trava em formato de meia-lua estava aberta.

A janela realmente estava destrancada.

Existiam poucas situações em que faria sentido uma janela permanecer fechada, mas sem trava.

Por exemplo—

alguém saindo da mansão por aquela janela e depois fechando-a para disfarçar a fuga.

— Vamos entrar por ali — disse uma das gêmeas.

As duas haviam trazido uma escada de algum lugar.

Gentilmente, posicionaram-na abaixo da janela, permitindo que Yuki subisse até o segundo andar.

Yuki apoiou a mão no vidro e olhou para dentro.

Não conseguia ver o interior por causa da cortina fechada, mas confirmou que a trava realmente estava aberta.

A janela estava destrancada.

Ela deslizou a janela para o lado, afastou a cortina e entrou no cômodo após confirmar que não havia perigo.

Era um escritório.

As quatro paredes estavam cobertas por estantes de livros.

Yuki colocou a cabeça para fora da janela e chamou as outras três.

Reprimindo a vontade de explorar mais profundamente, ela esperou até Keito e as gêmeas entrarem cerca de um minuto depois.

Então as quatro seguiram para o corredor.

— Por ali — disse uma das gêmeas. Yuki já não conseguia distinguir qual delas era qual.

— O quarto da Kirihara fica naquela direção. Se ela ainda estiver dormindo…

A garota interrompeu a frase abruptamente.

O nariz dela se moveu levemente.

— …Vocês perceberam também, né? — disse Yuki.

Ela então olhou para Keito, que tinha uma expressão pesada.

Parece que ela também havia percebido o problema.

Desde o instante em que entrou na mansão, Yuki sentiu um cheiro específico.

Um cheiro sinônimo de perigo.

Um cheiro raro até mesmo para alguém da indústria dos death games.

O cheiro de sangue.

(10/22)

As quatro garotas entraram no quarto e encontraram um corpo caído de bruços no chão.

Yuki não era estranha à visão de cadáveres.

Ela já havia visto corpos cortados por serras elétricas ou reduzidos a pedaços minúsculos.

Antes de entrar na mansão, Yuki tinha certeza de que não se abalaria nem um pouco caso encontrasse o cadáver de Kirihara, assumindo que ela realmente tivesse sido assassinada.

Mas agora, toda aquela confiança desmoronava como areia.

Não era porque a cena fosse particularmente chocante.

Embora o corpo estivesse coberto de cortes e hematomas, era só isso.

Yuki conhecia inúmeros jogadores que morreram de formas muito mais grotescas.

O que destruiu sua compostura foi a visão do vermelho cobrindo o chão do quarto.

Era sangue.

Sangue líquido.

Sangue normal, sem os efeitos do Tratamento de Preservação.

O fluido do corpo de Kirihara havia se espalhado até as bordas do tapete, cobrindo todo o piso do quarto e até escorrendo para o corredor.

Bastava um olhar para entender que não havia mais salvação.

Aquele era um cadáver real.

Era assim que parecia quando alguém morria sem os efeitos do Tratamento de Preservação?

— Só pra ter certeza absoluta… — Yuki virou-se para as gêmeas.

Pelos rostos pálidos delas, a resposta era óbvia, mas ainda assim perguntou:

— Essa é mesmo a Kirihara, certo?

As duas assentiram silenciosamente.

Yuki examinou a parte inferior do corpo.

Ela havia ouvido que Kirihara possuía pernas protéticas.

Ao tocar nervosamente as pernas da mulher por cima da saia, sentiu uma textura rígida.

Não havia dúvidas.

Era trabalho do artesão.

Yuki afastou-se do corpo.

Também se afastou das gêmeas, que claramente estavam abaladas, e sussurrou no ouvido de Keito:

— Ei… pergunta séria. Não é piada nem nada.

— O quê? — respondeu Keito, abaixando a voz.

— A gente… deveria chamar a polícia numa situação dessas?

(11/22)

Obviamente, a resposta era não.

Embora o incidente não tivesse relação direta com os jogos, a vítima, Kirihara, era uma ex-jogadora. Se a notícia de sua morte vazasse, isso poderia gerar problemas.

Keito entrou em contato com uma agência ligada aos organizadores dos jogos e, como se tivessem brotado do jardim, um grupo de homens vestidos de preto apareceu imediatamente, expulsando o grupo de Yuki do quarto.

As gêmeas foram levadas para outra sala para serem interrogadas, deixando apenas Yuki e Keito no corredor.

— Ah, fala sério, Yuki — disse Keito, levando a mão à testa. — Dá pra parar com essas bobagens quando tem literalmente um cadáver na nossa frente?

— Desculpa… — Yuki pediu desculpas sinceramente.

Ela havia falado totalmente sério, mas aparentemente acabou atingindo o senso de humor de Keito.

Momentos atrás, Keito estava desesperadamente tentando não cair na gargalhada diante das gêmeas.

Ela conseguiu segurar o riso até elas serem levadas embora, mas, por causa disso, não conseguiu discutir o que realmente importava.

— As gêmeas confirmaram a identidade dela, e tenho certeza de que aquelas pernas eram próteses — disse Yuki. — Era mesmo a Kirihara. Mas por que o sangue dela era vermelho? Achei que ela fosse uma ex-jogadora…

— Ela não abandonou a indústria faz bastante tempo? As células humanas se renovam a cada alguns anos, então os efeitos do Tratamento de Preservação provavelmente desapareceram há muito tempo.

— Faz sentido…

Assim como tatuagens, os efeitos do Tratamento de Preservação não eram eternos.

— Considerando o timing, isso não pode ser coincidência — disse Keito. — Tenho certeza de que isso foi obra da jogadora tatuada.

— Mas por quê? Pra silenciar ela?

— Provavelmente. No mínimo, Kirihara conhecia o nome e o rosto daquela jogadora. Talvez até soubesse número de telefone e endereço. De qualquer forma, é óbvio que existia algo que ela não queria que viesse à tona.

Pelo estado do corpo e pelo testemunho das gêmeas, o crime devia ter acontecido na noite anterior.

Que timing horrível, pensou Yuki.

— Aquela jogadora é realmente perigosa… — murmurou Keito. — Yuki, o que você pretende fazer agora?

— Hã? …Não faço ideia.

Yuki sequer havia pensado nisso.

O surgimento de uma vítima real praticamente confirmava a existência da jogadora tatuada.

Porém, todas as pistas relacionadas à identidade dela haviam desaparecido.

— Se você não se importar, gostaria de pedir sua ajuda — disse Keito. — É perigoso demais deixar aquela assassina andando livre por aí. Não sabemos quando outro jogo como Garbage Prison pode acontecer de novo… Em Candle Woods houve trezentas vítimas, certo? Não é impossível que a jogadora tatuada cause um desastre ainda pior.

— É… acho que você tem razão.

— Por isso, antes que isso aconteça, estou pensando em matá-la.

É minha vez de rir agora? pensou Yuki por um instante.

Mas Keito mantinha uma expressão completamente séria.

Ela estava falando sério.

Muito mais séria do que Yuki esteve ao fazer a pergunta sobre a polícia.

— Vou caçá-la e matá-la fora dos jogos. Isso vai impedir que o número de vítimas continue aumentando.

— Hã? Espera… o quê? — Yuki ficou sem palavras por alguns segundos. — Isso não seria um crime?

— …Lá vem você com essas bobagens de novo.

Keito encarou Yuki com os olhos semicerrados.

— Nós vivemos fora dos limites da lei. Vai mesmo questionar isso agora? Além disso, estamos lidando com alguém que não tem qualquer problema em matar.

Keito lançou um olhar para o rastro de sangue escorrendo do quarto.

— Olha, eu não sou corajosa o bastante pra entrar num jogo sabendo que existe uma maníaca homicida à solta. Preciso resolver isso, ou posso dar adeus à estabilidade do meu trabalho.

Acho que faz sentido, pensou Yuki.

A ideia de matar um jogador perigoso fora dos jogos nunca tinha passado por sua cabeça.

Se a jogadora tatuada fosse uma psicopata como Kyara, ela provavelmente continuaria matando jogadores enquanto estivesse viva.

Eventualmente, até Yuki e Keito poderiam virar vítimas.

Pensando dessa forma, partir para o ataque parecia uma estratégia bastante prática.

— Que curioso… —

— Poderia explicar os detalhes?

Duas novas vozes se juntaram à conversa ao lado delas.

As gêmeas haviam retornado.

Parecia que o interrogatório tinha terminado.

— Desejo ajudá-las. —

— Preciso encontrar essa jogadora tatuada.

As gêmeas continuavam sérias tanto na expressão quanto no tom de voz, mas até alguém como Yuki conseguia perceber o fogo queimando dentro delas.

— Entendo como vocês se sentem — disse Keito. — A ajuda de vocês será muito bem-vinda. Vamos perseguir a assassina juntas.

Keito e as gêmeas assentiram umas para as outras e então voltaram o olhar para Yuki.

Não era necessário perguntar o que aqueles olhares significavam.

Yuki pensou por alguns segundos antes de responder:

— Tô fora.

(12/22)

Yuki voltou para casa.

Ela havia ido até a mansão de Kirihara de trem, então naturalmente pegou o trem novamente para retornar.

O vagão balançava de um lado para o outro enquanto seguia pelos trilhos.

Hoje em dia, a pose clássica de quem anda de trem era segurar uma alça com uma mão e um smartphone na outra. Yuki também queria agir assim, mas, em vez disso, apenas segurava a alça com a mão direita enquanto mantinha a esquerda enfiada no bolso.

Ela tentava esconder os dedos médio, anelar e mindinho da mão esquerda — as partes artificiais de seu corpo — o máximo possível dos outros.

Embora fosse impossível perceber à primeira vista que eram próteses, e ela não sentisse exatamente vergonha disso, Yuki acreditava que escondê-los evitaria problemas desnecessários.

Por causa disso, com uma das mãos inutilizável, não lhe restava muito além de mergulhar nos próprios pensamentos.

Ela pensou no convite que Keito havia feito na mansão de Kirihara.

Yuki recusara porque sentia que aquela estratégia não combinava com ela.

Ela sabia melhor do que ninguém o quão assustador um psicopata podia ser, mas não acreditava que planejar ataques fora dos jogos fosse o caminho certo.

Talvez um dia precisasse recorrer a métodos daquele tipo para completar noventa e nove jogos.

Mas, no momento, Yuki não queria depender de táticas tão sujas.

Ela havia descoberto a verdade por trás do jogo catastrófico, além do fato de que a culpada possuía tatuagens como característica marcante.

Por enquanto, sua investigação havia chegado a um ponto morto.

Yuki decidiu que, dali em diante, passaria a observar cuidadosamente os braços dos outros jogadores.

Ela então pensou nas servas da mansão.

Haine e Kokone.

Devido à urgência da situação, Yuki não teve chance de perguntar sobre o passado das duas.

Ainda assim, imaginava que suas circunstâncias deviam ser especiais para trabalharem como empregadas naquela idade — ainda mais servindo uma ex-jogadora que se tornara tatuadora.

Devia ter sido insuportável descobrir que sua mestra havia sido assassinada para esconder um segredo.

Yuki sentia pena de pessoas das indústrias periféricas acabarem envolvidas naquele desastre.

Depois, pensou na jogadora tatuada.

Que tipo de pessoa ela era?

No mínimo, estava claro que se tratava de uma assassina cruel, alguém que não hesitava em matar para proteger a própria identidade.

Ela era realmente uma psicopata como Kyara?

Se Yuki encontrasse aquela jogadora em algum jogo futuro… conseguiria escapar dela?

Da última vez, Yuki conseguiu superar Kyara graças à ajuda de sua mentora.

Mas Hakushi havia abandonado o mundo dos death games.

Se um encontro semelhante acontecesse agora, Yuki teria de depender completamente de suas próprias habilidades para sobreviver.

Ela realmente conseguiria?

Enquanto esses pensamentos fluíam por sua mente, o trem parou.

Yuki desceu e caminhou até a catraca.

No instante em que abriu a carteira para pegar seu cartão de transporte—

— Ah…

— várias moedas caíram no chão.

Ela não havia percebido que o zíper do porta-moedas estava aberto.

Tentando manter a calma, Yuki recolheu as moedas e saiu da estação.

Depois disso, percorreu a estrada familiar até seu apartamento.

Ao chegar, percebeu um carro estacionado em frente ao prédio.

Era o carro de sua agente.

A pintura negra brilhava sob o sol do começo da tarde.

Yuki estranhou a presença dela ali naquele horário.

Era cedo demais e pouco tempo havia passado desde seu último jogo para receber outro convite.

Sua agente teria descoberto algo novo sobre a catástrofe?

Mas, se fosse esse o caso, uma simples ligação bastaria. Não havia motivo para vir pessoalmente.

Enquanto se aproximava do veículo sem encontrar uma resposta satisfatória, a janela do motorista se abriu.

Sua agente estava lá dentro.

Ela cumprimentou Yuki com um:

— Olá.

— …Olá.

A agente observou o rosto de Yuki e estreitou os olhos.

— Me desculpe, Yuki.

Yuki não fazia ideia do motivo daquele pedido de desculpas.

— Eu deveria ser sua braço-direito… e, ainda assim, permaneci completamente sem saber até receber uma ligação do artesão.

— ……?

Do que ela estava falando?

Uma ligação do artesão?

Os dois haviam trocado contatos?

Aquilo já foi surpreendente por si só, mas as palavras seguintes da agente chocaram Yuki ainda mais.

— É sobre o seu olho direito.

A agente tocou abaixo do próprio olho direito enquanto falava.

— Nós marcamos um exame ocular pra você. Poderia vir comigo?

(13/22)

Em uma certa rua comercial, um homem estalou a língua em irritação.

— O quê? — Shion lançou um olhar mortal para ele.

Como ela estava claramente furiosa e havia rosnado de maneira bastante agressiva, não havia chance do homem não ter percebido.

Mesmo assim, ele não reagiu.

Apenas passou por ela franzindo a testa.

Eles estavam no meio de uma galeria comercial.

As diversas placas e mercadorias expostas deixavam o corredor estreito ainda mais apertado.

Havia bastante movimento, então as pessoas normalmente precisavam ser cuidadosas para evitar esbarrões.

Porém, existiam certos indivíduos que simplesmente se recusavam a sair do caminho sob qualquer circunstância — e ainda estalavam a língua de maneira audível quando estavam prestes a colidir com alguém.

Shion acabara de encontrar um desses idiotas que faziam questão de irritar os outros.

Ela soltou um suspiro carregado de raiva.

Quer morrer, velho desgraçado? Qual é o teu problema? Estalar a língua desse jeito é praticamente pedir briga, né? Então vem. Vou te dar exatamente o que quer. Por que não reage? Tá com medo de apanhar de uma garotinha? Não fica pagando de hostil se não tem coragem de continuar, seu merda. Se isso não fosse no meio da cidade, eu já teria cortado tua garganta.

Na verdade… isso também não me impediria—

Shion coçou a cabeça e reprimiu o impulso.

Sua agente havia aconselhado que ela mantivesse discrição por enquanto.

Os rumores sobre Garbage Prison — assim como os rumores sobre Shion, a assassina responsável pelo desastre — já haviam se espalhado amplamente pela indústria.

Devia haver inúmeros jogadores tentando encontrá-la naquele exato momento.

Causar confusão em pleno centro da cidade basicamente revelaria sua localização.

Por isso, Shion era forçada a exercer autocontrole — algo que havia feito muito menos vezes na vida do que uma pessoa comum.

De alguma forma, ela conseguiu se acalmar.

Shion parou diante de uma loja.

Uma loja de croquetes.

O lugar era administrado por uma única senhora idosa e mantinha o mesmo preço de cinquenta e oito ienes por croquete há muitos anos.

O sucesso contínuo da loja era prova de quão delicioso o produto era.

Shion frequentava aquele estabelecimento desde pequena.

Ela fez o pedido para a velha senhora — que parecia exatamente igual à primeira vez que Shion esteve ali — e, enquanto esperava o croquete terminar de fritar, observou o próprio reflexo no vidro do restaurante ao lado.

Na opinião dela, possuía um rosto extremamente comum.

Um rosto simples, sem nada de sofisticado, mesmo considerando sua idade de quatorze anos.

O tipo de rosto que, se aparecesse no noticiário associado a um crime brutal, faria as pessoas comentarem:

“Uma garota com cara tão inocente assim?”

Como Shion não gostava muito de olhar para si mesma, tentou desviar o olhar imediatamente.

Mas, um segundo antes disso, percebeu algo no reflexo que não conseguiu ignorar.

Uma garota estava passando atrás dela.

Em uma rua comercial movimentada, pessoas cruzando umas pelas outras não era nada incomum.

O bairro estava cheio de moradores e visitantes de todas as idades e gêneros, então o fato de ser uma garota também não tinha nada de especial.

O problema era outro.

O rosto daquela garota era absolutamente familiar para Shion.

Seu rosto—

e suas roupas.

Não havia erro.

Shion já havia passado por aquela garota mais cedo naquela mesma rua.

Alguém que cruzara com Shion anteriormente agora estava, mais uma vez, passando atrás dela.

Claro, isso sozinho não significava nada.

Era perfeitamente possível que a garota tivesse entrado em alguma loja, terminado o que precisava fazer e estivesse apenas voltando pelo mesmo caminho.

O mais provável era que fosse apenas uma pessoa comum.

Mesmo assim, Shion não conseguiu evitar a desconfiança.

E se aquela garota não fosse uma pessoa comum?

E se ela tivesse retornado para seguir Shion?

(14/22)

Shion havia cometido um erro em seu último jogo.

Garbage Prison.

O jogo deveria ser apenas uma escape room ambientada em uma prisão.

Porém, durante a partida, outro jogador acabou vendo Shion cedendo ao seu velho hábito.

Shion matou a testemunha para encobrir o ocorrido, mas acabou sendo flagrada por outro participante.

Quanto mais tentava apagar os rastros, mais a situação saía de controle—

até que ela foi obrigada a matar todos os outros jogadores do jogo.

Ela tentou eliminar todos sem exceção, mas alguns poucos conseguiram escapar.

Como resultado, as histórias sobre Garbage Prison se espalharam como fogo pela indústria.

As pessoas já haviam começado até a chamar o jogo de “o segundo Candle Woods”.

E eles não estavam totalmente errados, pensou Shion.

Mesmo não sendo discípula daquela mulher, ainda possuía uma ligação com ela.

Não era difícil imaginar que os outros jogadores reagiriam fortemente ao retorno de uma psicopata.

Alguns provavelmente já estavam planejando assassinar Shion antes que os danos aumentassem.

Foi exatamente por isso que Shion tomou a iniciativa.

Ela eliminou todos que conheciam detalhes sobre sua identidade, começando por Kirihara, e desde então vinha mantendo um perfil discreto.

Pelo menos…

era isso que ela pretendia fazer.

(15/22)

Com o embrulho de papel na mão, Shion mordiscava o croquete enquanto caminhava.

Ela deixou a rua comercial para trás e entrou em uma área com menos movimento.

Agora que os arredores estavam mais silenciosos, Shion passou a procurar sinais de presença ao redor — e imediatamente percebeu várias pessoas se aproximando dela.

Então ela não tinha imaginado coisas.

Estava realmente sendo seguida.

Havia pelo menos três pessoas atrás dela.

Ela não sabia se tinham intenções hostis, mas era mais seguro assumir que sim.

Provavelmente estavam se escondendo porque ainda era começo da noite.

Certamente não ousariam causar confusão no centro da cidade, onde não faltavam testemunhas.

Mas em breve o sol iria se pôr, e o número de pessoas nas ruas diminuiria.

Quando isso acontecesse, chegaria a hora perfeita para os marginais entrarem em ação.

Shion amassou o papel vazio do croquete e o enfiou no bolso.

Então começou a pensar.

Como tinham encontrado ela?

Ela havia apagado todos os rastros ligados à própria identidade.

Nas quase duas semanas desde Garbage Prison, seguiu as instruções da agente e manteve um perfil discreto.

Escondeu as tatuagens.

Seu rosto era comum.

Não existia nada que a denunciasse como uma assassina enlouquecida—

Foi então que percebeu que fugir devia ser sua prioridade imediata.

Shion ligou para sua agente.

Depois de um número absurdo de chamadas, poucos segundos antes da ligação cair na caixa postal, alguém finalmente atendeu.

— Aloooou? — disse uma voz preguiçosa do outro lado da linha.

Era sua agente.

— Sou eu — falou Shion, apressada.

— Ah, Shion. O que você quer agora?

— Tem pelo menos três pessoas me perseguindo.

— Sério? Que problemão, hein.

— Vem me buscar. Preciso desaparecer daqui.

— Que preguiça.

— …O quê?

— Shion, você não disse que ia parar de ser jogadora?

Shion realmente havia dito isso.

Com sua identidade exposta, ela não podia mais continuar vivendo no mundo dos death games.

Por isso, logo após Garbage Prison, declarou à agente sua intenção de se aposentar.

A agente continuou:

— Isso significa que voltamos a ser estranhas uma pra outra. Dá teu jeito sozinha.

— Isso é um problema relacionado aos jogos. Não pode me ajudar uma vez?

— Não quero.

— Para de brincadeira.

— Eu poderia dizer o mesmo pra você. Trabalhei igual uma condenada esse tempo todo pra te apoiar, e você me retribui cuspindo em mim. Já cansei disso.

Era verdade que sua agente havia dado bastante suporte em sua vida cotidiana.

Foi graças a isso que Shion conseguiu sobreviver sozinha aos quatorze anos sem precisar entrar num orfanato ou viver na escola.

— Você sabia que agentes recebem um bônus especial quando seu jogador alcança trinta jogos? — perguntou a agente. — Eu ia te pagar um churrasco gourmet quando isso acontecesse, mas agora esses planos foram pro lixo. Que pena.

— …Vai se foder!

Shion elevou a voz, mesmo sabendo que aquilo era um erro.

— Me liga quando decidir voltar a ser uma jogadora.

E então a agente desligou.

Apenas os bipes permaneceram na linha.

Shion reprimiu o impulso de jogar o celular no chão e simplesmente o guardou no bolso.

(16/22)

— Ela percebeu que estamos seguindo ela — disse Keito enquanto lia a nova mensagem no celular.

Ela estava dentro de um carro.

Não era um dos carros pretos usados pelos agentes, mas seu veículo particular.

Havia comprado o automóvel com o dinheiro dos prêmios dos jogos — um gasto insignificante para alguém que já havia alcançado o nível de veterana dos death games.

Keito mantinha a mão direita no volante e a esquerda segurando o celular.

A mensagem na tela era um relatório de uma amiga informando que o alvo, Shion, havia percebido estar sendo seguida.

A garota fizera uma ligação desesperada — provavelmente pedindo ajuda à agente.

Porém, claramente as negociações fracassaram, já que Shion levantou a voz, encerrou a chamada e agora olhava inquieta para a estrada repetidamente.

A amiga de Keito acreditava que a garota tentaria pegar um táxi.

— Teria sido perfeito se conseguíssemos seguir ela até a casa… — murmurou Keito.

Assim como decidira dez dias atrás na mansão de Kirihara, Keito vinha perseguindo a jogadora tatuada: Shion.

Ela reuniu um grupo de vinte jogadores aliados e um número equivalente de armas antes de continuar a busca.

O grupo conseguiu localizar Shion praticamente por pura sorte.

Eles haviam obtido imagens de Garbage Prison através de um certo canal, revelando o nome de jogadora e a aparência da garota.

Também descobriram que uma menina com nome semelhante havia cometido um assassinato fora dos jogos anteriormente.

Quando investigaram a área onde o crime ocorreu, aconteceu um milagre:

Uma das amigas de Keito avistou Shion.

A garota parecia ter apego ao lugar, já que nunca se mudou dali.

Keito então ordenou que a amiga a seguisse enquanto ela mesma corria até o local em seu carro.

Idealmente, o plano era seguir Shion até sua residência, esperar do lado de fora e atacá-la durante a noite.

Resolver tudo discretamente — exatamente como ela fizera com Kirihara.

Porém, agora que Shion percebeu a perseguição, obviamente não voltaria para casa.

Já que parecia procurar um táxi, devia estar planejando fugir da cidade.

— Não temos escolha além de agir agora.

A voz veio do banco do passageiro.

Sentada ali estava Haine, a serva da mansão de Kirihara, vestindo o mesmo vestido de tons apagados.

— Concordo plenamente.

Dessa vez a voz veio do banco de trás.

Era Kokone, a outra serva.

Nos últimos dez dias, Keito esteve trabalhando junto das gêmeas.

— Mesmo que isso aumente o risco de chamar atenção, devemos seguir com o plano — disse Haine.

— Concordo — respondeu Keito.

Se Shion escapasse agora, provavelmente nunca mais teriam outra chance.

Seria irracional agir no meio de uma multidão, mas precisavam avançar assim que uma abertura mínima aparecesse.

Keito enviou novas instruções por mensagem para suas amigas.

Depois largou o celular, segurou o volante com as duas mãos e acelerou rumo ao local.

Shion — a jogadora tatuada.

A garota havia matado oitenta jogadores em um único jogo recente.

Mas jogos eram ambientes fabricados.

No mundo real, as coisas seriam diferentes.

Dentro dos jogos, todos começavam em condições iguais.

No mundo exterior, nada impedia alguém de manipular as circunstâncias antes da batalha.

Clack.

Um som metálico ecoou do banco do passageiro.

Haine removeu o carregador de uma pistola.

(17/22)

Pela primeira vez na vida, Shion pegou um táxi.

Ela queria chamar um na rua, mas era difícil imaginar um motorista parando para uma garota de quatorze anos.

Então foi até um táxi estacionado.

O motorista franziu a testa ao vê-la, mas, depois que Shion demonstrou que podia pagar, ele mudou completamente de atitude e permitiu que ela entrasse.

Ela queria ordenar que ele acelerasse imediatamente, mas isso claramente despertaria suspeitas desnecessárias.

Então apenas mencionou o nome de um cursinho na cidade vizinha, tentando parecer uma garota rica atrasada para as aulas.

Não sabia se conseguira convencer o motorista, mas ele ligou o carro sem dizer nada.

Afundada no banco traseiro, Shion começou a pensar no que faria dali em diante.

Voltar para casa não era mais uma opção.

Precisava desaparecer em algum lugar.

Mas isso era realmente possível para uma garota de quatorze anos?

Ela tinha dinheiro, mas absolutamente nenhum status social.

Nem sequer conseguiria reservar um quarto de hotel sozinha.

Sua única alternativa seria encontrar algum homem disposto a sustentá-la sem fazer perguntas?

Shion ficou ansiosa em relação ao futuro.

Mas, no fim das contas, não precisava se preocupar—

porque sua tentativa de fuga durou muito pouco.

Enquanto o táxi aguardava no sinal vermelho, alguém bateu na janela.

Várias pessoas cercavam o carro.

Todas usavam capacetes e máscaras para esconder a identidade, mas, pela altura e pelos olhos visíveis, Shion percebeu que eram garotas da sua idade.

Mesmo confuso, o motorista abriu a janela ao lado dele.

— FECHA ISSO AGORA! — gritou Shion.

Tarde demais.

Uma das figuras misteriosas enfiou o braço inteiro pela janela—

junto com o objeto que segurava.

Uma pistola equipada com silenciador.

— ……!!

Shion chutou violentamente a porta do carro.

O impacto lançou uma das agressoras para trás.

Shion viu a arma cair da mão dela.

Por um segundo, pensou em pegá-la—

mas percebeu outra arma apontada em sua direção pelo canto do olho.

Então escolheu correr.

Shion disparou pela rua, atravessou para a calçada e mergulhou num beco sem olhar para trás.

Sério? No meio da cidade?

Eles achavam mesmo que ninguém perceberia tiros disparados dentro de um carro?

Ou esperavam que os organizadores apagassem todas as evidências depois?

Mais importante:

como conseguiram alcançá-la tão rápido?

Estavam seguindo ela de carro?

Shion se arrependeu de não ter prestado atenção suficiente ao redor.

Tão concentrada nesses detalhes inúteis, demorou para perceber o próximo erro que cometera.

Ela fugira para um beco vazio.

O correto teria sido correr para uma multidão.

Deveria ter buscado um local movimentado cheio de testemunhas—

mas fez exatamente o contrário.

Praticamente convidou os agressores a matá-la.

Shion entregou a eles exatamente o que queriam:

uma situação onde poderiam acabar com ela sem deixar testemunhas.

Click!

O som veio atrás dela.

Shion reconheceu instantaneamente.

Um tiro.

Ela não apenas sabia o som que uma bala fazia ao sair de uma arma com silenciador—

como também sentiu uma dor ardente atravessar seu ombro.

O impacto jogou seu corpo para frente, fazendo-a girar e cair no chão como um pião perdendo força.

Click! Click!

Mais tiros ecoaram.

Por sorte, Shion rolava pelo chão naquele momento, conseguindo evitar os dois disparos seguintes.

As balas passaram tão perto de seu rosto que ela sentiu o ar quente provocado pela velocidade delas.

Ao levantar a cabeça, viu duas agressoras mascaradas.

As duas seguravam pistolas.

Atrás delas, outras duas ou três reforços chegaram correndo.

Aquilo já era informação visual suficiente para destruir completamente a vontade de Shion de lutar.

— EU VOU SAIR DA INDÚSTRIA! — gritou Shion. — NÃO VOU MAIS PARTICIPAR DE JOGO NENHUM! ENTÃO—

— Não importa. Atirem nela.

A ordem veio da pessoa parada no fundo da fileira de reforços.

Embora o capacete escondesse o rosto, Shion percebeu pela voz que era uma garota.

E aquela voz parecia a de uma golpista profissional.

— Não podemos confiar no que ela diz. Já chegamos até aqui, então vamos acabar logo com isso.

Antes que apontassem as armas novamente, Shion voltou a correr.

Click! Click! Click!

Desviando desesperadamente da chuva de balas, conseguiu virar a esquina.

Mas, no instante seguinte, tropeçou nas próprias pernas e caiu.

Pior ainda:

atingiu diretamente o ombro ferido.

Um grito escapou de sua garganta.

Ela perdeu imediatamente as forças para se levantar.

Através do chão, ouviu os passos dos perseguidores se aproximando.

Ela falhou completamente em escapar.

Na verdade, nem sequer escapou.

Apenas se escondeu temporariamente nas sombras, ganhando meros segundos.

Mas às vezes…

apenas alguns segundos eram suficientes para decidir entre vida e morte.

O celular no bolso do peito vibrou.

Uma ligação.

Sem sequer pensar em quem poderia ser, Shion arrancou o aparelho do bolso com violência e o levou ao ouvido.

— Aloooou.

O tom da voz do outro lado era completamente incompatível com a situação.

Era sua agente.

— O que você quer? — perguntou Shion secamente.

— Que grosseria. Não foi você quem pediu minha ajuda agora há pouco?

— O que você quer?

Shion não tinha forças nem para elevar a voz.

Apenas repetiu a mesma frase.

— Achei que talvez você tivesse mudado de ideia, então resolvi ligar. E então? Já tá pronta pra voltar a ser jogadora?

Naquele instante, Shion percebeu duas vozes da agente sobrepostas.

Uma vinha do celular.

E a outra—

— Esta é sua última chance.

— vinha do outro lado do beco.

— Você foi convidada para Halloween Night. Seus preparativos estão completos?

(18/22)

Um disparo ecoou pelo beco.

Os jogadores mascarados — incluindo Keito e as gêmeas — congelaram imediatamente.

Isso porque o tiro não havia passado por um silenciador.

Ou seja: não tinha vindo de nenhuma das armas delas.

O tempo pareceu parar por alguns segundos.

Então alguém surgiu virando a esquina.

Não era Shion.

Era uma pessoa usando um terno preto — uma agente dos jogos.

A agente segurava uma arma de fogo, provavelmente a origem do disparo, apontando-a para o céu como um árbitro prestes a iniciar uma corrida.

— Quanto tempo — disse a agente calmamente.

Os jogadores continuaram imóveis diante da aparição inesperada.

A primeira a recuperar os movimentos foi Keito, líder do grupo vigilante.

— …Nós nunca nos vimos antes…

Keito olhou para a pistola em suas mãos.

Ela não conseguia decidir se deveria apontá-la para a pessoa à sua frente.

— Você é… a agente da Shion, certo?

— Correto.

— Então? O que você quer com a gente?

— Vim impedir vocês, obviamente.

— Impedir o quê? — Keito ergueu uma sobrancelha escondida sob o capacete. — Estamos só resolvendo um pequeno desentendimento. Nada que precise da interferência dos organizadores.

Keito já havia preparado aquela desculpa de antemão.

Apesar de tudo ter começado por causa de um jogo e envolver jogadores, seu argumento era simples:

seria estranho os organizadores meterem o nariz numa briga pessoal.

Porém—

— Isso não vai colar — respondeu a agente, firme. — Afinal, minha jogadora acabou de entrar em um jogo.

— …O quê?

— Ela acabou de declarar verbalmente sua intenção de participar. Nós, organizadores, temos o dever de garantir que ela chegue em segurança ao local do jogo. Está completamente dentro das minhas funções eliminar qualquer pessoa que tente feri-la.

Depois de explicar a situação num tom educado até demais, a agente apontou a arma para Keito.

— Então é isso… Se quiserem continuar, eu não me importo.

O som de sapatos arrastando pelo chão ecoou pelo beco.

Alguns jogadores do grupo estavam recuando.

Merda, pensou Keito.

Entrar em um jogo — ou seja, voltar oficialmente a ser uma jogadora — significava que Shion agora estava sob proteção direta dos organizadores mesmo fora dos jogos.

Atacar Shion equivaleria a desafiar os próprios organizadores.

Isso era impossível.

Ao perceber que o grupo havia perdido a vontade de lutar, a agente soltou uma risadinha.

— Bem então, se cuidem!

Ela acenou com a mão livre e foi embora.

Assim que desapareceu de vista, o silêncio voltou ao beco, como se o tempo tivesse congelado mais uma vez.

Só alguns instantes depois o ambiente voltou a se mover.

Os jogadores começaram a murmurar entre si.

A chegada inesperada da agente.

A caçada fracassada.

A sensação amarga de deixar a vitória escapar bem diante deles.

Tudo isso deixou o clima pesado.

Shion havia implorado para ser deixada em paz, alegando que sairia da indústria.

Keito ordenara que atirassem para matar porque não podia confiar completamente nela.

Mesmo assim, acreditava que Shion provavelmente falava a verdade.

A garota devia entender que havia inúmeros jogadores querendo sua morte.

Por causa disso, era improvável que outro desastre como Garbage Prison — ou um novo Candle Woods — voltasse a acontecer.

Então, embora Shion tivesse escapado, o grupo havia basicamente alcançado seu objetivo.

Era por isso que Keito — e provavelmente os outros também — não parecia frustrada.

— …… — …………

Mas havia duas pessoas ali cuja atmosfera era diferente:

Haine e Kokone.

As duas tinham um rancor pessoal contra Shion e claramente estavam profundamente abaladas pelo fato dela ter fugido.

Keito entendia perfeitamente o sentimento delas.

Mesmo assim, não podiam ficar ali.

Agora eram criminosas.

Tinham acabado de disparar armas de fogo no meio da cidade.

Precisavam sair dali o quanto antes.

Keito estava prestes a ordenar a retirada quando Haine agiu.

A garota arregalou os olhos como se tivesse percebido algo, tirou o celular do bolso e fez uma ligação.

— …Sim. — Sim. — Existe algum no qual eu possa participar imediatamente? — …Sim, por favor.

Então encerrou a chamada.

— Pra quem você ligou? — perguntou Keito, mais curiosa do que preocupada em fugir.

— Para minha agente — respondeu Haine.

— …Haine, você é uma jogadora?

Keito estivera ao lado dela nos últimos dez dias, mas aquilo era novidade.

Ela definitivamente não era apenas uma serva comum.

— Sim. E Kokone também. Embora estejamos praticamente aposentadas.

— Você falou em participar…

— Perguntei se havia algum convite disponível para mim. Havia apenas um, então pedi para entrar.

Keito não era lenta a ponto de ignorar o significado daquilo.

— Não me diga… Você pretende entrar no mesmo jogo da Shion?

Haine assentiu.

Pelas palavras da agente momentos antes, Shion havia sido colocada sob proteção porque declarou intenção de participar de um jogo.

Ou seja:

os organizadores estavam recrutando jogadores naquele instante.

E Haine acabara de receber um convite.

Havia uma boa chance de ser exatamente o mesmo jogo.

Haine ainda estava determinada a perseguir a assassina de Kirihara—

Em resposta à declaração da irmã, Kokone também tirou o celular e fez uma ligação.

— Sim, faz bastante tempo. — Sim… Entendo. — Muito bem.

A conversa terminou ali.

Ela afastou o telefone do ouvido.

— E então? — perguntou Haine.

Kokone balançou a cabeça.

Parecia que ela não havia recebido convite algum.

— Deixe isso comigo — disse Haine, colocando a mão no ombro da irmã. — Eu juro que vou capturá-la.

— …………

Kokone moveu os olhos como se quisesse dizer alguma coisa.

Mas, no fim, tudo que saiu de sua boca foi um simples:

— Tá bom.

(19/22)

— Nossa, você dá um trabalho do caralho… — resmungou a agente de Shion enquanto puxava a garota pelo braço.

Shion estava caída no chão, incapaz de se mover.

A agente saiu cambaleando do beco com Shion apoiada nos ombros e a jogou dentro de um carro preto estacionado ali perto.

Pelo som do motor e pela inércia em seu corpo, Shion percebeu que o veículo já estava em movimento.

— Eu sabia que você voltaria por mim — disse Shion, deitada atravessada no banco traseiro.

Era um comentário completamente sem sinceridade.

— Para de puxar saco — respondeu a agente.

— …Então por que voltou? — perguntou Shion novamente, dessa vez de forma genuína.

— Porque não queria desperdiçar essa oportunidade. Eu não te falei? Recebo um bônus quando você chegar aos trinta jogos. E é uma grana bem alta também. Diferente de vocês jogadores, a gente quase não ganha dinheiro, então preciso aproveitar qualquer chance.

Shion não sabia se aquilo era verdade.

Mas, independentemente disso, ela havia sido salva.

Teve sorte por possuir exatamente vinte e nove clears.

— Que tal irmos naquele churrasco depois que eu sobreviver a esse jogo? — sugeriu Shion, lembrando da conversa telefônica anterior. — Minha carteira é mais gorda que a sua, então eu pago.

— Ah, aquilo? — a voz da agente esfriou instantaneamente. — Não é óbvio que eu tava brincando? Você acha mesmo que eu dividiria uma refeição com uma pirralha igual você? Nem ferrando.

Shion torceu os lábios.

Era exatamente o que esperava.

(20/22)

Yuki voltou para casa.

(21/22)

Ela havia acabado de voltar da escola.

Havia um leve entusiasmo em seus passos, já que finalmente conseguira recuperar o atraso nas aulas causado por Cloudy Beach.

Todo o esforço estudando tinha valido a pena.

Como os acontecimentos recentes já lhe davam preocupações suficientes, Yuki ficou genuinamente feliz por pelo menos ter resolvido outro problema.

E assim, com um pequeno sentimento de alegria no peito, voltou para seu apartamento velho e decadente.

Um carro estava estacionado em frente ao prédio.

O carro preto de sua agente.

Como já fazia quase duas semanas desde o último jogo de Yuki, ela imaginou que estava na hora de receber um novo convite.

A janela do banco do motorista se abriu.

— Boa noite — cumprimentou a agente. — Você foi convidada para Halloween Night… Gostaria de participar?

Sua agente havia mudado a frase habitual.

Provavelmente por consideração a Yuki.

Alguns dias antes, Yuki passara por um exame oftalmológico.

Durante Candle Woods, a psicopata havia ferido seu olho direito.

Embora sua visão aparentemente tivesse voltado ao normal, Yuki seguiu as instruções da agente e foi ao hospital realizar exames detalhados.

Lá, recebeu notícias nada animadoras.

Mesmo assim—

— Eu vou participar — respondeu, demonstrando sua intenção de entrar no jogo. — Pretendo continuar jogando no mesmo ritmo de antes.

— …Muito bem.

A agente abriu a porta do carro.

Yuki entrou sem dizer mais nada.

Recebeu um copo de papel cheio de água e uma cápsula em formato de comprimido.

O procedimento de sempre.

Para manter o local do jogo em segredo, os jogadores ingeriam um remédio para dormir e eram levados inconscientes até o destino.

Enquanto repetia aqueles movimentos familiares, Yuki tentou convencer a si mesma de que estava tudo bem.

Participar de dois ou três jogos por mês era a frequência perfeita.

Assim ela evitava desgastar demais o corpo e também impedia que seus instintos enferrujassem.

O estado de seu olho direito não mudava isso.

Conforme sua consciência começava a desaparecer, ela sentiu novamente a mesma frustração que a acompanhava há duas semanas.

Seu olho direito havia sido ferido apenas porque ela fora descuidada.

Se não tivesse se aproximado imprudentemente daquela psicopata naquela floresta artificial, não estaria naquela situação agora.

Nunca havia se sentido tão frustrada antes.

Mas sofrer por isso naquele momento era inútil.

Ela não podia mudar o passado.

E seria ainda pior deixar o problema do olho afetá-la a ponto de cometer novos erros.

Ainda não era tarde demais para continuar dando tudo de si.

Tudo o que precisava fazer era focar no aqui e agora.

Continuar avançando.

Fazer o que estivesse ao seu alcance.

Era isso que Yuki repetia para si mesma.

Mesmo assim…

ela não conseguia evitar desejar que aquilo tivesse durado só um pouco mais.

(22/22)

Foto14_NoitedeHallowen(#45).png

(00/47)

Shion acordou em um canteiro de abóboras.

(01/47)

Ela estava deitada na terra. Como havia sido posicionada com a bochecha direita no chão, sua pele parecia fria e úmida, e o cheiro de terra assaltou suas narinas. Shion sentou-se enquanto limpava a sujeira do rosto.

Era um canteiro de abóboras.

Shion estava cercada, literalmente, por montanhas de abóboras. As frutas estavam empilhadas de forma tão alta que as pilhas mais baixas mediam mais ou menos a sua altura, enquanto as mais altas tinham cerca de duas a três vezes o seu tamanho.

Shion não tinha ideia de como as abóboras eram cultivadas, mas não acreditava que elas formariam montanhas como aquelas naturalmente. Os organizadores deviam tê-las colocado deliberadamente daquela forma pelo local. Essa teoria era corroborada pela existência de inúmeras abóboras ocas com fontes de luz em seu interior. O céu escuro indicava que era o meio da noite, mas a luz das abóboras garantia visibilidade suficiente.

Quanto ao motivo de haver abóboras, a razão era imediatamente óbvia.

Shion lembrou-se do nome do jogo — Noite de Halloween.

Ela puxou as roupas em seu corpo. Havia sido vestida com uma túnica preta. Um chapéu pontudo preto repousava no chão próximo dali. O traje era aquele: uma fantasia de bruxa para um jogo com temática de Halloween. Ao pegar o chapéu, Shion descobriu embaixo dele uma cesta com alça cheia de vários doces embalados individualmente, incluindo balas, biscoitos, chocolates e mini donuts — mais um item essencial para o Halloween.

Era de conhecimento geral na indústria que qualquer comida encontrada em um jogo não estaria envenenada. Os itens alimentares serviam apenas para um propósito: afastar a fome. Mesmo em jogos de fuga que colocavam os jogadores contra armadilhas letais, a comida representava um porto seguro. Como este era o trigésimo jogo de Shion, ela estava bem ciente desse princípio. Foi por isso que ela não hesitou em tirar um biscoito de gengibre em formato humano da embalagem e colocá-lo na boca.

Mas no momento seguinte —

“……?!”

Shion teve uma crise violenta de tosse.

Incapaz de suportar a sensação, ela cuspiu o biscoito no chão. O biscoito meio mordido em formato humano, agora levemente encharcado por sua saliva, olhava para ela com um sorriso que dizia: Peguei você! Shion o enterrou na terra para privar a coisa de sua visão.

O biscoito era extremamente picante. O gosto acre não era apenas de gengibre, mas sim uma mistura de várias especiarias diferentes. Alguns doces eram intencionalmente feitos com sabores distintamente fortes que os tornavam quase comestíveis, mas este biscoito era diferente: seu perfil de sabor não havia sido projetado para o prazer.

Qual era, então, o seu propósito? Não era para ser comido?

(02/47)

Shion vagava pelo canteiro de abóboras. Não importava para onde ela andasse, no entanto, não conseguia ver nada além de abóboras em todas as direções. Era como se a área fosse um cemitério ou um local de descarte exclusivo para abóboras, ou como se cada grão de areia de um deserto tivesse se transformado em uma abóbora. Seus tamanhos variavam muito; algumas tinham um tamanho comum que poderia ser encontrado em um supermercado, enquanto outras eram grandes o suficiente para caber todo o seu corpo dentro.

Shion continuou caminhando enquanto prestava muita atenção aos seus arredores. As paredes de abóboras que se erguiam sobre ela se conectavam para formar caminhos, embora não de larguras uniformes.

Alguns caminhos eram largos o suficiente para que dez pessoas com o físico de Shion pudessem caminhar lado a lado, enquanto outros eram tão estreitos que só podiam ser atravessados encolhendo o corpo. Shion também deparava-se frequentemente com caminhos que se ramificavam, interseções e becos sem saída.

Embora o canteiro de abóboras não fosse

tão complicado quanto um labirinto, ainda assim havia sido projetado para ser bastante complexo. As paredes de abóboras reduziam a visibilidade geral, tornando impossível discernir o tamanho do local e a contagem total de jogadoras.

Escalar uma parede ofereceria uma visão melhor do local, mas Shion estava relutante em fazer isso, pois não havia garantia de que as abóboras não cederiam sob seus pés. Como muitas pessoas no mundo sabiam, as abóboras tinham formato esférico.

Como essas abóboras foram empilhadas em montanhas sem estarem fixadas no

lugar, elas podiam desabar a qualquer momento.

Apenas caminhar perto delas já era o suficiente para deixá-la tensa.

Ela tocou o ombro — o lugar onde havia levado o tiro.

Uma dor aguda passou por ele. A tecnologia médica dos organizadores era capaz de restaurar membros decepados à sua condição original,

mas não conseguia reverter ferimentos à bala imediatamente.

Embora Shion ainda pudesse mover o ombro contanto que suportasse a dor, ela foi forçada a reconhecer que não estava na sua melhor forma.

Ainda assim, sua situação atual era muito preferível a ter sido morta em um beco.

Ela havia escapado por um triz. Se sua agente não tivesse se disposto a salvá-la, ela com certeza estaria morta. Shion tinha imaginado que algumas jogadoras estavam atrás dela, mas nunca esperou que alguém fosse a tais extremos.

Onde eles conseguiram pistolas com silenciadores? Independentemente disso, agora que estava sendo perseguida por atacantes violentos, era o fim para ela. Ela não tinha perspectivas de permanecer na indústria. Assim que este jogo terminasse, ela teria que se esconder imediatamente.

Para conseguir isso, ela precisava sobreviver à noite. Era apenas sua sorte que este jogo fosse o seu trigésimo. A Muralha dos Trinta — uma superstição que há muito tempo era sussurrada por toda a indústria. Por volta do trigésimo jogo de um jogador, por algum motivo, acidentes que pareciam incompreensíveis em circunstâncias normais ocorriam um atrás do outro, fazendo com que suas chances de sobrevivência despencassem. Shion tinha descartado essas histórias sobrenaturais como ficção, mas considerando que sua identidade havia sido exposta e ela fora forçada a fugir para um jogo, ela não tinha escolha a não ser reconhecer a existência da maldição.

Shion estava à beira da morte. Essa era a verdade inabalável.

Ela ouviu passos vindo mais à frente. Eram três

pares no total, todos se aproximando dela. As paredes de abóboras obstruíam a visão de Shion sobre a origem deles.

Eram inimigos ou aliados? Depois de pensar um pouco, Shion decidiu ficar cara a cara com eles. Ela parou no lugar, esperando que eles virassem à esquina.

Logo, três indivíduos surgiram à vista.

(03/47)

Os três eram baixos. Pareciam crianças na faixa do ensino fundamental, e cada uma usava uma fantasia apropriada para o Halloween.

Da direita para a esquerda, havia um fantasma coberto por um pano branco, um vampiro ocidental usando uma cabeça de abóbora com buracos para os olhos e um vampiro jiangshi chinês com um talismã preso à testa. Como seus rostos estavam cobertos, era impossível saber como eram suas aparências.

Todos carregavam armas: o fantasma segurava um porrete, o vampiro uma espada e o jiangshi empunhava um par de tonfas.

Shion permaneceu alerta. Ela não fugiu imediatamente por dois motivos.

Primeiro, nenhuma das crianças possuía armas de longo alcance, então ela concluiu que podia esperar para observar como agiriam.

E segundo, apesar de segurarem armas brutais e totalmente inadequadas para crianças daquela idade, ela não sentia qualquer malícia vindo delas.

Elas não pareciam ansiosas para iniciar uma batalha violenta — pelo menos, não por enquanto.

Shion permaneceu parada, observando pacientemente, enquanto as crianças pararam alguns metros à sua frente.

O vampiro no centro balançou a cabeça.

“Doces ou travessuras!”

A voz aguda e estridente lembrava o pio noturno de uma coruja. Somado ao volume baixo da voz, Shion não conseguiu determinar a idade nem o gênero do vampiro.

Ela permaneceu em silêncio, mas pouco depois o vampiro repetiu:

“Doces ou travessuras!”

Foi então que Shion percebeu que as crianças não estavam olhando para ela, mas para a cesta pendurada em seu braço esquerdo.

Mais precisamente, estavam apontando para os itens dentro dela.

Pelas palavras do vampiro, ficou claro o que os três queriam.

Ela apontou para os doces em sua cesta.

“Vocês querem isso?”

As crianças assentiram.

“Afinal, quem são vocês? Jogadores?”

Dessa vez, os três balançaram a cabeça.

Eles não eram jogadores.

Nesse caso, deviam ter sido inseridos no jogo pelos organizadores. Isso parecia óbvio, já que usavam roupas diferentes das de Shion e carregavam armas.

“Quantos vocês querem? Um para cada?”

As crianças assentiram novamente.

Como se aproximar e entregar diretamente parecia perigoso, Shion lançou um pacote para cada uma.

Elas rasgaram as embalagens e, assim como Shion havia feito antes, comeram sem a menor hesitação.

No instante seguinte...

“...Hii! Hii! Hii!”

As crianças soltaram gritos enquanto saíam correndo.

Diferente de Shion, elas não cuspiram nada no chão.

Corriam freneticamente para todos os lados, como se tentassem suportar o sabor extremamente picante que se espalhava em suas bocas.

Logo, duas desapareceram, enquanto a terceira tropeçou em uma abóbora, levantou-se imediatamente e também sumiu.

“...Agora entendi”, murmurou Shion quando o local voltou a ficar em silêncio. “Então essa é uma das regras.”

Provavelmente havia muitas crianças como aquelas vagando pelo campo de abóboras.

Qualquer jogadora que encontrasse uma delas precisaria entregar um doce para cada criança.

Recusar-se a dar um ou não ter nenhum consigo resultaria numa “travessura” — que provavelmente significava ser morto por aquelas armas ameaçadoras.

Ela havia compreendido a mecânica do jogo.

Então começou a pensar nas condições de vitória.

Seria um jogo de fuga, onde os jogadores precisavam sair do campo de abóboras antes que os doces acabassem?

Ou seria um jogo de sobrevivência, onde precisariam resistir até que as crianças matassem um certo número de jogadoras?

Shion olhou para dentro da cesta, que agora possuía quatro pacotes a menos do que no início.

Seria possível reabastecer o estoque?

Existiriam doces extras escondidos pelo campo de abóboras, ou ela teria que roubá-los de outros jogadores?

Se fosse a segunda opção, conseguir uma arma de uma daquelas crianças seria útil.

Mas ela seria capaz de colocar as mãos em uma?

Ela sentiu sua concentração começar a se voltar totalmente para o jogo.

Puxou as mangas do manto para esconder as tatuagens em seus braços e voltou a caminhar.

(04/47)

Yuki despertou.

(05/47)

Yuki despertou.

Não foi um despertar natural.

Yuki se levantou num salto e avaliou sua situação em não mais que três segundos.

Ela havia entrado em seu quadragésimo quinto jogo — Halloween Night.

Era noite e, ao que tudo indicava, o cenário do jogo era um campo de abóboras. Ela vestia um manto preto, enquanto um chapéu pontudo estava caído ao seu lado no chão. Haviam colocado nela uma fantasia de bruxa para combinar com o tema de Halloween do jogo.

Yuki voltou sua atenção para a origem do que a despertara — múltiplos sons de passos vindos das proximidades.

Ela observou os arredores.

Montanhas de abóboras limitavam os caminhos disponíveis, mas pelo menos parecia possível escapar rapidamente daquela área caso fosse necessário.

Porém, Yuki não fugiu, pois os seres que se aproximavam não demonstravam qualquer sinal de malícia.

Desde seu encontro com o psicopata na Floresta das Velas, Yuki havia adquirido a capacidade de perceber esse tipo de sinal no ar; conseguia distinguir amigos de inimigos sem sequer precisar olhar para eles.

Sacudindo a poeira de seu manto, Yuki permaneceu onde estava.

Três crianças apareceram.

Assim como Yuki, todas usavam fantasias apropriadas para o Halloween. Da direita para a esquerda, havia um fantasma, um vampiro ocidental e um jiang shi. Suas baixas estaturas sugeriam que estavam na idade do ensino fundamental, mas como seus rostos estavam cobertos, Yuki não podia confirmar isso.

“Doces ou travessuras!”, disse o vampiro no centro.

Sua voz era absurdamente aguda, como a de um hamster sendo estrangulado.

Yuki permaneceu completamente imóvel enquanto observava cuidadosamente as crianças.

“Doces ou travessuras!”, repetiu o vampiro.

Cada uma delas carregava uma arma.

O fantasma tinha um porrete.

O vampiro carregava uma espada.

O jiangshi possuía um par de tonfas.

Como Yuki não havia recebido nenhuma arma e as crianças pareciam apenas repetir a mesma frase infinitamente, ela concluiu que não eram jogadores.

Os organizadores deviam tê-las colocado ali como parte das mecânicas do jogo.

Em seguida, Yuki refletiu sobre as palavras do vampiro: doces ou travessuras.

Obviamente, ela sabia o significado da expressão, mas infelizmente não possuía doces consigo naquele momento, o que significava que a opção "doces" não estava disponível para ela.

Restava apenas escolher "travessuras".

E nesse caso, a travessura provavelmente envolveria...

O que eu faço?, Yuki se perguntou.

Foi então que percebeu que as crianças estavam olhando em uma direção estranha.

Yuki seguiu seus olhares até o chapéu de bruxa.

Era um acessório de sua roupa do jogo, algo que completaria a fantasia junto ao manto. Curiosa sobre o motivo de estarem olhando para ele, Yuki o pegou e descobriu uma cesta cheia de doces escondida embaixo.

Suas dúvidas desapareceram.

Ela havia recebido uma certa quantidade de doces antecipadamente.

Yuki pegou alguns pacotes e lançou um para cada criança.

Temeu que pedissem mais, mas a preocupação foi desnecessária.

As crianças rasgaram as embalagens e jogaram os doces direto na boca.

“Hii! Hii! Hii!”

As crianças saíram correndo aos gritos, deixando Yuki sozinha novamente.

Yuki fez uma expressão confusa.

Aquilo foi o suficiente para satisfazê-las?

Por algum motivo, suas vozes pareciam tristes.

Aquela não era uma reação normal a doces; parecia mais a reação de alguém que tivesse comido algo amargo, extremamente picante ou simplesmente horrível.

Yuki pegou um dos doces da cesta — um marshmallow com rosto de fantasma.

Embora parecesse delicioso, depois de ouvir aqueles gritos de sofrimento, ela não tinha a menor vontade de experimentar.

Normalmente, itens alimentícios encontrados nos jogos eram vantagens para os jogadores.

Yuki chamava esses itens de "comida do jogo" e sempre ficava ansiosa para descobrir o que o próximo jogo ofereceria.

Dessa vez, porém, parecia diferente.

Uma anomalia.

Yuki colocou o chapéu pontudo e carregou a cesta em seu braço.

Por enquanto, decidiu explorar os arredores.

No entanto, não importava o quanto andasse, o campo de abóboras permanecia igual.

O local era, para todos os efeitos, um labirinto dividido por paredes feitas de pilhas de abóboras mais altas que ela.

A maioria estava completamente intacta, mas algumas haviam sido esvaziadas para acomodar câmeras de vigilância e equipamentos de iluminação.

Por isso, enxergar não era um problema, apesar de ser meia-noite.

Yuki refletiu sobre a natureza do jogo.

Halloween Night.

Fiel ao nome, o tema de Halloween estava por toda parte.

Ela também já havia experimentado uma das mecânicas do jogo: os jogadores precisavam distribuir doces às crianças que pediam "doces ou travessuras".

Como muitas crianças vagavam pelo local, era fácil concluir que a "travessura" que aconteceria ao ficar sem doces provavelmente significava ser morto por elas.

Porém, isso era tudo o que ela havia conseguido descobrir.

Ainda não tinha compreendido a visão completa do jogo.

Quais eram as condições de vitória?

Qual era o tamanho do jogo?

Considerando os acontecimentos recentes, Yuki sentia que a quantidade de jogadores tinha uma importância especial, pois afetaria diretamente a chance de encontrar o jogador tatuado — o assassino de Garbage Prison.

Embora a probabilidade de encontrar um jogador específico no mesmo jogo fosse baixa, Yuki não conseguia deixar de se preocupar.

Além disso, havia outra preocupação ocupando sua mente, algo completamente separado do jogo atual.

Ela fechou o olho esquerdo e observou os arredores apenas com o olho direito — o olho que havia examinado alguns dias antes.

A imagem do campo de abóboras preenchia sua retina.

Não parecia diferente de quando olhava com ambos os olhos.

Não parecia haver nenhum problema em sua visão.

Mas Yuki sabia que aquilo era apenas uma ilusão.

A deterioração de sua visão continuava avançando gradualmente, até mesmo naquele exato instante.

O máximo que podia fazer era evitar forçar ainda mais o olho—

Depois de pensar nisso, sons de passos voltaram a se aproximar, vindos de algum lugar à sua frente.

Dessa vez, porém, havia apenas uma pessoa.

Era outra criança?

Ou uma jogadora?

Yuki não sentiu nenhum perigo, então continuou andando sem diminuir o ritmo.

Pouco depois, ficou cara a cara com a origem daqueles passos.

Os olhos de Yuki se arregalaram.

Ela conhecia aquela pessoa.

(6/47)

Era uma das garotas da mansão de Kirihara — Haine ou Kokone.

Yuki não conseguia diferenciá-las, mas tinha que ser uma das duas.

A garota estava usando um manto preto em vez do uniforme sem graça de empregada, mas seu rosto e sua postura extremamente reta eram inconfundíveis.

Não poderia ser outra pessoa.

“Ah... B-bom, boa noite”, Yuki disse, gaguejando por conta da surpresa.

A outra garota parecia compartilhar o mesmo espanto.

Haine — ou talvez Kokone — piscou várias vezes antes de responder:

“Boa noite.”

“Então... qual das duas é você? Haine? Ou Kokone?”

“Haine. Minha irmã mais nova não está aqui.”

Pelo visto, Haine era a irmã mais velha das gêmeas.

Yuki fez outra pergunta:

“Haine, você é uma jogadora?”

“Sim, embora eu não participe de um jogo há bastante tempo... Mas o que você está fazendo aqui, Yuki? Eu estava sob a impressão de que havia decidido não se envolver mais com isso.”

“Hã? Do que você está falando?”

“...?”

“?”

As duas garotas ficaram encarando uma à outra em silêncio por vários segundos, até que Haine finalmente quebrar o silêncio.

“...Não me diga que você entrou neste jogo por pura coincidência?”

“Acho que sim. Isso é ruim?”

“Não, mas... você realmente é muito sortuda, Yuki.”

Keito já havia dito algo parecido antes.

“Por favor, mantenha a calma”, Haine continuou. “A jogadora tatuada provavelmente está neste jogo.”

Yuki falhou completamente em seguir a instrução da garota e ficou chocada.

Mesmo tendo acabado de decidir que evitaria forçar mais o olho direito, seus dois olhos se arregalaram por reflexo.

“Eu entrei neste jogo para persegui-la.”

“Hm... Como você sabe que ela está aqui?”

Informações sobre quando e em qual jogo um jogador havia entrado eram mantidas em segredo.

Se fossem públicas, vários jogadores poderiam se unir e entrar no mesmo jogo como uma equipe.

“Eu e ela manifestamos a intenção de entrar em um jogo praticamente ao mesmo tempo”, explicou Haine. “Tenho procurado pela jogadora tatuada desde que nos conhecemos…”

A garota explicou toda a situação para Yuki.

Contou como ela e Kokone haviam se unido a Keito e dezenas de outros jogadores para procurar a jogadora tatuada.

Como conseguiram localizá-la por pura sorte.

Como estiveram a poucos passos de assassiná-la com sucesso, mas a jogadora tatuada havia entrado em contato com sua agente e escapado ao entrar em um jogo.

E como Haine havia ligado para sua própria agente alguns instantes depois, concordando em entrar em um jogo, assumindo que fosse o mesmo no qual a jogadora tatuada havia entrado.

“A jogadora tatuada é uma garota chamada Shion”, disse Haine. “Ela aparenta estar na idade do ensino fundamental II e, tirando as tatuagens, possui poucas características marcantes. Você a viu?”

Yuki balançou a cabeça.

“Infelizmente, não.”

“Entendo.”

Yuki lançou um olhar para o braço de Haine.

Ela não estava observando o braço em si, nem pensando em tatuagens; estava olhando para a cesta.

Haine tinha menos pacotes de doces que Yuki.

“Ah, a propósito... você encontrou alguma criança ainda?”, perguntou Yuki. “Aquelas com fantasias de Halloween cobrindo o rosto. Elas têm vozes estranhas e ficam dizendo ‘Doces ou travessuras’...”

“Sim, várias vezes", respondeu Haine.

Fazia sentido, já que a garota provavelmente estava acordada e jogando havia mais tempo que Yuki.

“Que tipo de jogo é esse?”, perguntou Yuki. “Eu agradeceria se pudesse me explicar as regras…”

Assim como Yuki havia feito pouco antes, Haine balançou a cabeça.

"Eu mesma não compreendo muito do jogo. Precisamos simplesmente escapar deste campo de abóboras? Precisamos esperar até que um certo número de jogadores seja morto? Teremos que continuar distribuindo doces até que as crianças estejam satisfeitas? Todas essas possibilidades ainda parecem plausíveis.”

Ela fez uma breve pausa antes de continuar:

“Porém, se eu tivesse que oferecer minha avaliação pessoal da situação... acredito que concluir este jogo seria extremamente difícil caso seja um jogo de sobrevivência.”

Estranhamente, Yuki compartilhava a mesma opinião.

As crianças atacariam jogadoras que não lhes entregassem doces.

Um jogo de sobrevivência permitiria as regras mais cruéis imagináveis a partir dessa mecânica.

E considerando a natureza dos jogos, as regras mais cruéis e imagináveis eram justamente as mais prováveis de serem verdade.

“Desejo procurar Shion, então peço licença” — Haine fez uma reverência educada. “Espero que possamos nos encontrar novamente.”

A garota passou por Yuki.

Yuki observou Haine ficar cada vez mais distante, até desaparecer atrás de uma parede de abóboras.

(07/47)

Haine caminhava rapidamente pelo campo de abóboras.

Ela havia ficado chocada ao descobrir que aquela garota também havia entrado no jogo.

Haine estava praticamente aposentada como jogadora e não acompanhava os rumores recentes, mas Keito havia contado sobre o passado da garota.

Yuki.

A garota que matou Kyara, o psicopata que havia enviado centenas de jogadores para a morte.

Se aquilo fosse verdade, então era perfeitamente possível que Yuki realizasse algo semelhante naquele jogo.

Assim como havia eliminado a ameaça de Kyara em Candle Woods, talvez ela pudesse ser a responsável por derrotar Shion, a jogadora tatuada que cometeu um massacre em larga escala em Garbage Prison.

Haine não sabia se isso seria algo bem-vindo... ou irritante.

Afinal, ela desejava tirar a vida de Shion com as próprias mãos.

(08/47)

Haine e Kokone eram empregadas da residência Kirihara.

Assim como Kirihara havia abandonado a vida de jogadora para se tornar uma tatuadora, as duas garotas também haviam deixado essa vida para trabalhar para ela.

Embora não estivessem oficialmente aposentadas, na prática suas carreiras haviam chegado ao fim.

Vários anos haviam se passado desde que começaram a servir Kirihara.

Haine sentia um forte laço com sua mestra.

Elas eram como uma família—

Não.

Mais do que isso.

Kirihara era muito mais importante para Haine do que aquelas pessoas jamais haviam sido.

Haine e Kokone eram fugitivas.

As duas haviam fugido de casa antes mesmo de terminarem o ensino fundamental.

Nunca explicaram o motivo para ninguém e também não pretendiam explicar — nem mesmo para Kirihara.

Planejavam levar esse segredo para o túmulo.

Porém, se existia algo que Haine estava disposta a dizer, era que frases motivacionais como "ser grato aos seus pais levará à felicidade" definitivamente não eram verdades universais aplicáveis a todas as famílias.

Da mesma forma, frases como "a comida caseira só perde o sabor quando você esquece a gratidão pelos seus pais" eram ideias ingênuas defendidas por pessoas que tiveram a sorte de crescer com pais decentes.

Os jovens não deixavam o interior por causa do transporte ruim ou porque áreas rurais eram desagradáveis.

Eles fugiam porque estavam cansados das pessoas que viviam ali.

De qualquer maneira, Haine e Kokone não queriam passar nem mais um segundo ao lado das criaturas que as colocaram no mundo.

E então, como gatos que sentem a própria morte se aproximando, deixaram suas casas sem aviso.

Infelizmente, o Japão não era um país tão generoso a ponto de permitir que duas menores sobrevivessem sozinhas.

Para continuarem vivendo, tornaram-se jogadoras.

Graças aos organizadores, conseguiram roupas, comida e abrigo.

Mas o preço eram constantes encontros com a morte.

Se deixassem de ser jogadoras, perderiam a proteção dos organizadores.

E sem essa proteção, não conseguiriam sobreviver.

Foi então que Kirihara estendeu a mão para elas.

Ela era uma ex-jogadora e entendia perfeitamente a situação das gêmeas.

Por isso, as acolheu como empregadas.

Como resultado, Haine e Kokone puderam abandonar a vida de jogadoras.

Embora a profissão de Kirihara significasse que suas vidas ainda carregavam certo perigo, haviam conseguido escapar daquele mundo violento onde a morte podia chegar a qualquer momento.

Certa vez, Haine perguntou a Kirihara por que a havia salvado.

“Eu só queria ajuda extra”, respondeu Kirihara. “Não tenho nenhum desejo nobre de salvar pessoas. Vocês duas são as únicas trabalhando para mim, certo? Mesmo que eu pudesse contratar cem pessoas, se quisesse.”

Kirihara desviou da pergunta, deixando seus verdadeiros sentimentos desconhecidos.

Talvez tivesse ficado envergonhada demais para dizer a verdade.

Ou talvez estivesse sendo sincera e simplesmente as tivesse contratado por impulso.

Independentemente disso, Kirihara era a única salvadora de Haine.

E ela havia sido arrancada dela sem aviso.

Haine nunca ignorou a possibilidade de algo assim acontecer.

Afinal, Kirihara era uma ex-jogadora.

Alguém que concluiu quase trinta jogos certamente acumulou muitos ressentimentos ao longo do caminho.

Mesmo depois de virar tatuadora, seu passado fazia com que aceitasse clientes de caráter duvidoso.

Ela definitivamente não era uma santa.

Se o motivo de sua morte tivesse relação com seu trabalho ou passado, Haine teria conseguido aceitar.

Mas—

Que insanidade era aquela?

Kirihara havia sido morta por causa de um jogo com o qual não tinha absolutamente nenhuma ligação.

Morta apenas para eliminar evidências.

Como algo assim poderia ficar impune?

Era completamente absurdo.

Haine não tinha intenção de aceitar aquilo passivamente.

"Agora é a minha vez."

"Vou matar aquela garota e vingar minha mestra, custe o que custar."

Para perseguir Shion, Haine entrou em seu primeiro jogo em seis meses.

Mas ela não se importava nem um pouco com o jogo em si.

Não se importava em sacrificar a própria vida para derrubar Shion.

Sobreviver não significava nada para ela, desde que pudesse matar aquela garota.

Por isso Haine fazia pouco esforço para aumentar suas chances de concluir o jogo.

Ela não evitava as crianças ao ouvir seus passos.

Não tentava roubar doces de outros jogadores.

Também não procurava maneiras de reabastecer sua cesta.

Toda sua atenção estava voltada para procurar seu alvo pelo campo de abóboras, enquanto distribuía doces generosamente às crianças que encontrava pelo caminho.

Haine encontrou Shion quando sua cesta já estava pela metade.

(09/47)

Shion estava encostada em uma grande abóbora.

Haine conseguia ver claramente sua silhueta graças à luz vinda do interior de uma abóbora próxima. Embora o manto cobrisse seus braços, impedindo a confirmação das tatuagens, Haine lembrava perfeitamente do rosto e da aparência física da garota.

Shion já estava olhando para ela.

Parecia ter percebido sua aproximação pelo som dos passos. Porém, havia surpresa evidente em sua expressão. Provavelmente esperava encontrar crianças, não outro jogador, já que estava preparada para lançar algo, segurando a cesta em uma mão e um doce na outra.

Haine viu Shion soltar o doce, que caiu de volta na cesta meio vazia.

Haine ficou tensa.

Seu desejo havia sido realizado.

Ela havia encontrado Shion.

Mas precisava manter a calma. A parte mais importante começava agora.

Deixá-la escapar não serviria de nada.

Precisava acabar com aquilo ali.

“Boa noite”, disse Haine, fingindo tranquilidade.

Por estar acostumada a agir como empregada, sua atuação parecia natural.

Shion respondeu cautelosamente.

Mesmo considerando Haine apenas outra jogadora, ainda mantinha a guarda alta.

Era a reação natural.

Nesse jogo, ficar sem doces significava morrer.

Por isso, todos tentariam conseguir o máximo possível.

Existiam duas formas principais:

Proteger os doces que já possuíam ou aumentar seu estoque.

Haine já havia percebido o quanto a primeira opção era difícil.

Segundo outro jogador que encontrara, as crianças não vagavam aleatoriamente; elas sabiam exatamente onde os jogadores estavam.

Mesmo se alguém se escondesse entre as pilhas de abóboras ou enterrasse o próprio corpo, as crianças o encontrariam.

Provavelmente usavam câmeras de vigilância ou rastreadores embutidos nas cestas e doces.

Por outro lado, a segunda estratégia era simples:

Roubar doces de outros jogadores.

Haine já havia visto sinais de assaltos acontecendo.

Uma cesta vazia ao lado de marcas de sangue transformadas em algodão branco pelo Tratamento de Preservação.

E também cadáveres de jogadores, mortos cedo demais para terem ficado sem doces naturalmente.

Shion provavelmente também havia visto aquilo, explicando sua cautela.

Haine não esperava conseguir se aproximar o suficiente.

Precisaria usar algo à distância.

Ela fez uma pequena reverência e voltou a andar — não em direção a Shion, mas passando ao lado dela.

No instante em que passou em frente à garota, agiu.

Escondendo o movimento com o próprio corpo, deslizou a alça da cesta pelo braço até segurá-la firmemente na mão.

No instante seguinte, arremessou a cesta inteira em Shion, doces incluídos.

(10/47)

De forma vergonhosa, Shion não percebeu absolutamente nada.

Não viu nem ouviu.

Quando percebeu, a cesta da garota já estava voando em sua direção.

Sua única reação foi levantar os braços por puro instinto.

A cesta bateu em seu braço e caiu no chão, espalhando doces por toda parte.

Quando percebeu, a outra garota já estava diante dela.

Parecia ter idade de ensino médio e era muito maior fisicamente.

Aproveitando a diferença de tamanho, agarrou os ombros de Shion e a empurrou contra a parede de abóboras atrás dela.

Em seguida, começou a desferir socos.

Um.

Dois.

No terceiro, Shion conseguiu bloquear segurando o punho da garota.

Depois agarrou o outro braço também.

Com as mãos ocupadas, as duas passaram a disputar força.

Durante a luta, o chapéu pontudo de Shion caiu no chão, enquanto a manga do manto escorregou, revelando a tatuagem em seu braço.

A outra garota olhou por um instante.

“Estive procurando por você”, disse ela. “Finalmente te encontrei. Não vou deixar você escapar.”

“Hã...? Quem é você...?”, perguntou Shion, sentindo o rosto arder.

Ela havia visto a tatuagem.

Se conhecia a história de Garbage Prison, devia ter percebido quem Shion era.

Mas por que continuava lutando?

Por que estava procurando por ela?

A resposta veio segundos depois.

"Eu sou Haine. Empregada de Kanami Kirihara.”

Shion se surpreendeu.

Não lembrava de ter visto aquela garota quando visitou Kirihara para fazer sua tatuagem.

“Ela contratou uma empregada?”

Não houve resposta.

Haine simplesmente se soltou e voltou a atacar.

Shion precisava reagir.

Mas a diferença física era grande demais.

Aos quatorze anos, ela ainda não havia crescido completamente, enquanto Haine era mais velha.

Em uma luta sem armas, tamanho importava muito.

Shion sabia disso melhor que ninguém.

Mesmo sendo especialista em matar, entendia que naquele tipo de combate estava em desvantagem.

A única forma de inverter aquilo seria introduzir uma arma na luta.

Ela procurou algo ao redor usando o tato.

Encontrou uma abóbora do tamanho aproximado de uma bola de rugby.

Era pesada e dura.

Sem hesitar, golpeou Haine com ela.

Mas errou.

No exato instante do ataque, Haine havia recuado.

Um segundo depois, Shion descobriu o motivo.

Uma dor intensa atingiu seu estômago.

“...!!”

Dor.

Haine havia chutado seu abdômen.

Shion se curvou, sem conseguir respirar direito.

Ao levantar a cabeça, viu Haine pegando a abóbora caída.

Droga, pensou.

Foi pura sorte o impacto do chute ter feito a parede de abóboras desmoronar.

(11/47)

Shion já havia imaginado algo assim acontecendo.

As abóboras não estavam presas ao chão nem amarradas.

Na verdade, sempre parecera estranho como conseguiam permanecer empilhadas.

Por isso, foi a primeira a reagir quando a parede começou a balançar.

Ainda sentindo dor, não podia correr.

Mas conseguiu rastejar para fora da área.

As abóboras despencaram.

BUM! BUM! BUM!

O som preenchia o ar como tambores gigantes.

Ainda apoiada no chão, Shion olhou para trás.

Poeira subia.

Abóboras estavam espalhadas por todo lado.

Mas ela só pensava em uma coisa:

Haine havia escapado?

Havia morrido?

As abóboras tinham vários tamanhos.

Algumas eram pequenas.

Outras pareciam pesadas o bastante para matar alguém.

Então uma abóbora surgiu voando da poeira.

Shion se assustou e desviou.

Começou a se mover rapidamente pelo chão.

“Volte aqui!”, gritou Haine. “Como ousa continuar vivendo normalmente depois de matar dezenas de pessoas?!”

Shion não entendeu.

“Isso não é óbvio?!” gritou de volta. “Por que eu iria me matar?!”

“Palavras bonitas vindas de uma assassina!”

“Como se você fosse diferente!”

Shion continuou gritando, tentando forçar seu corpo a se mover mais rápido.

“Você veio se vingar, não veio?! E daí?! Matar é diferente só porque é vingança?! Porque é um jogo?! Porque é um duelo?! Porque é por outra pessoa?! Nem ferrando!”

Ela continuou:

“Ex-jogadores não têm direito de reclamar por morrer! Igual a nós agora! Somos só duas pessoas lutando até a morte! É só isso, idiota!”

“Cale a boca!”

Subitamente Shion sentiu um puxão.

Ao olhar para trás, viu Haine segurando seu tornozelo.

Antes que pudesse reagir, algo pesado atingiu suas costas, prensando-a contra o chão.

Em seguida, uma dor intensa percorreu sua perna.

“AAAAAAAAAAH!!”

Ela não conseguia mais sentir a parte abaixo da perna normalmente.

Haine agarrou seus cabelos, provavelmente tentando continuar o ataque.

Mas mesmo sem forças para resistir, Shion sorriu como uma abóbora de Halloween iluminada.

“Então—”

“Doces ou travessuras!”

(12/47)

Aquela voz aguda, característica de uma criança antes da puberdade, veio logo à frente.

Quando Haine levantou a cabeça, Shion conseguiu ver a origem da voz.

Parada ali estava uma criança vestida como um fantasma japonês tradicional, usando um quimono branco e um pano triangular na cabeça. Seu rosto estava escondido por longos cabelos que alcançavam o chão, e ela segurava um taco com espinhos nas duas mãos.

Uma criança.

Por um instante, Shion se perguntou se uma fantasia japonesa combinava com um jogo de Halloween. Mas logo percebeu algo mais importante:

Era óbvio que uma criança apareceria.

O desmoronamento da parede de abóboras havia causado um enorme barulho, o que certamente atrairia qualquer criança próxima. Na verdade, era até sorte haver apenas uma por perto.

“Doces ou travessuras!”, repetiu a criança.

Shion olhou ao redor.

Não havia doces à vista.

Era natural. Ela havia abandonado sua cesta ao fugir. O mesmo aconteceu com Haine; sua cesta havia caído depois de atingir Shion.

As duas provavelmente haviam sido esmagadas pelas abóboras.

Isso significava que nenhuma das duas podia escolher "doces".

Shion não era a única a perceber isso.

Haine também havia congelado.

Droga... isso é ruim.

Então Shion sentiu algo estranho perto do cotovelo.

Algo estava dentro de sua roupa.

Ela moveu lentamente o braço e deixou o objeto cair na mão.

Era um doce.

Um bloco de nougat.

“...?!”

Shion rapidamente o escondeu na manga antes que Haine percebesse.

Ela ficou confusa.

Por quê?

Como?

Não lembrava de ter guardado nada escondido.

Então percebeu:

Quando Haine lançou a cesta nela no começo da luta, um dos doces provavelmente caiu dentro de sua roupa.

Nada mais fazia sentido.

Que coincidência absurda...

“Doce! Pegue isso!”, gritou Shion, arremessando o nougat.

O doce caiu um pouco antes da criança, mas ela caminhou até ele e o pegou.

Parecia ter aceitado aquilo como um "doce".

“Seu desgraçado! De onde tirou isso?!”, gritou Haine.

Apesar dos golpes que continuavam caindo sobre ela, Shion estava animada.

Ela havia virado a situação.

Seu sorriso de abóbora iluminada, que antes era puro desafio, agora havia se transformado num sorriso de vitória.

A criança colocou o nougat no bolso.

Provavelmente não o comeu ainda porque aguardava a resposta da outra jogadora.

“Doces ou travessuras!”, repetiu pela terceira vez.

Percebendo que não conseguiria terminar o que começou, Haine correu em direção ao local onde a parede havia desmoronado.

Mas já era tarde.

“Travessura!”

A criança saiu correndo atrás dela.

(13/47)

“Travessura!”

Haine se virou.

A criança corria em sua direção, balançando o taco.

Mesmo alguém relativamente inexperiente como Haine conseguia sentir a intenção hostil vindo dela.

Não havia dúvidas:

Jogadores que não entregassem doces seriam mortos.

Ao ver a velocidade da criança, Haine sentiu certo alívio.

Suas pernas eram muito maiores.

Ela poderia escapar facilmente.

Mas logo percebeu que havia sido ingênua.

No instante seguinte, algo atingiu sua lateral.

“Gah...?!”

Ela foi lançada para frente e caiu no chão.

Com a visão inclinada, viu a criança se aproximando.

Só então percebeu:

Aquela não era uma criança comum.

Assim como jogadores recebiam tratamentos especiais, ela provavelmente também havia sido modificada pelos organizadores.

A criança pegou a arma novamente e se aproximou.

Haine olhou desesperadamente ao redor.

Por ironia do destino, havia sido arremessada justamente para a área onde as abóboras haviam caído.

Ela começou a procurar freneticamente.

E encontrou.

Um doce.

“Doce!”

Ela estendeu o doce na direção da criança.

Mas a perseguição não parou.

Aparentemente, depois que "travessura" era declarado, não havia volta.

Enquanto era atacada, Haine pensava:

"Por quê?"

"Por que eu tenho que morrer aqui?"

"Shion é quem deveria morrer."

"Sou eu quem está certa."

"Por que a sorte está sempre do lado dela?"

"Naquela vez também..."

"Se a agente dela não tivesse aparecido..."

"Por que o destino sempre a ajuda?"

"Mesmo sendo eu quem viveu corretamente..."

(14/47)

Levou menos de um minuto para tudo acabar.

Depois disso, a criança colocou o nougat de Shion na boca e saiu correndo aos gritos.

Shion ficou surpresa ao pensar como aquelas crianças conseguiam comer tantos doces picantes.

Então soltou um suspiro de alívio.

Ela havia escapado por muito pouco.

Se apenas uma coisa tivesse dado errado, certamente teria morrido.

Nos últimos dias, vinha passando de crise em crise, mas de alguma forma sempre era salva no último instante.

Talvez realmente tivesse uma sorte monstruosa.

"Não posso ficar aqui."

Não havia como aquela criança ter sido a única a ouvir o desmoronamento.

Outras crianças — ou jogadores — poderiam aparecer a qualquer momento.

Arrastando o corpo ferido e a perna esquerda, que já não respondia normalmente, Shion voltou ao jogo.

Ela ainda não havia percebido o significado que aqueles ferimentos teriam dali em diante.

(15/47)

Yuki ouviu um grito.

(16/47)

Veio de algum lugar próximo.

No instante em que ouviu aquilo, Yuki parou de andar e congelou no lugar.

Momentos depois, um grupo de jogadores apareceu mais adiante no caminho.

Eram três.

Nenhum deles carregava uma cesta.

Seus rostos estavam cheios de pânico, e suas roupas estavam cobertas de sangue transformado em algodão branco. Nenhum parecia ferido, o que significava que o sangue pertencia a outra pessoa.

Atrás deles vinham duas crianças:

Uma múmia e um zumbi.

Cada uma carregava uma arma enorme.

A múmia segurava um sabre, enquanto o zumbi carregava uma bola de ferro com corrente.

Ambas as armas apresentavam sinais de uso, cobertas por pedaços de algodão branco.

Aquilo tornava a situação evidente:

Os jogadores provavelmente pertenciam a um grupo maior, de quatro pessoas ou mais, e estavam fugindo depois que um ou dois companheiros haviam sido mortos.

Era cedo demais para alguém ter ficado sem doces.

Então provavelmente tinham sido roubados ou cometido algum erro.

Enquanto Yuki analisava a situação, as duas crianças balançaram suas armas enormes com uma facilidade absurda, apesar dos pequenos corpos.

A criança com o sabre cortou um jogador ao meio.

A outra esmagou o crânio de mais um.

O último jogador tropeçou no corpo e caiu.

A múmia e o zumbi se aproximaram lentamente.

"Seus pirralhos malditos!" gritou o jogador restante.

Ele pegou uma abóbora próxima e a lançou contra o zumbi.

Mas seu último esforço foi inútil.

O zumbi sequer tentou se defender.

A abóbora acertou sua cabeça, mas ele permaneceu imóvel, como uma estátua.

Logo depois, a criança girou a corrente cada vez mais rápido antes de lançar a bola de ferro.

O impacto arremessou o jogador pelos ares, passando por cima da parede de abóboras.

Segundos depois, um som de esmagamento anunciou seu fim.

Depois de terminarem, a múmia e o zumbi olharam para Yuki.

"Travessura ou..."

"...Doces!"

Yuki pegou dois doces de sua cesta.

Depois de presenciar aquela violência, ela não tinha escolha.

Precisava escolher "doces".

Normalmente, em jogos desse tipo — jogos com executores perseguindo jogadoras — ela poderia lutar e eliminar todas as ameaças.

Essa estratégia havia sido muito importante no jogo do parque de diversões.

Mas o que viu agora provava que seria impossível.

A força monstruosa das crianças e sua resistência absurda estavam longe do normal.

Seus corpos provavelmente haviam sido modificados, assim como o de Riko no passado.

Enfrentar criaturas daquele tipo seria loucura.

Yuki jogou os doces.

As crianças os pegaram, colocaram na boca e saíram correndo aos gritos.

Enquanto desapareciam, Yuki se perguntou se aquelas reações estranhas eram forçadas.

Ela olhou para sua cesta.

Seus doces estavam acabando.

Depois de se separar de Haine, Yuki continuou explorando o campo de abóboras.

Sua principal hipótese era que aquilo fosse um jogo de sobrevivência.

Porém, ainda não podia descartar a possibilidade de ser um jogo de fuga.

E não era do tipo de pessoa que ficava parada sem fazer nada.

Enquanto andava pelo local, encontrou várias crianças repetidas vezes, reduzindo gradualmente sua reserva de doces.

Ainda tinha o suficiente para durar por um tempo.

Mas...

Seria suficiente até o fim do jogo?

Enquanto pensava nisso, Yuki continuou explorando.

Pouco depois, ouviu outro grito.

(17/47)

Pouco depois, vários pares de passos ecoaram pelo ar. Um deles vinha de perto, enquanto os outros estavam um pouco mais distantes. Era impossível julgar apenas pelo som se pertenciam a jogadoras ou a crianças. Seria uma jogadora sem doces sendo perseguida por crianças, ou uma caçada estava acontecendo entre as próprias jogadoras? Fosse qual fosse o caso, um confronto havia estourado.

Yuki varreu os arredores com os olhos rapidamente. Ela estava no meio de um caminho reto e sem bifurcações, cercado por paredes de abóboras. Não havia onde se esconder. Se quem quer que estivesse produzindo aqueles passos viesse por ali, ela não teria como evitá-los. Preparando-se para o pior cenário possível — o combate —, Yuki seguiu em frente.

Não demorou muito para que a origem do primeiro par de passos aparecesse. Era uma jogadora um tanto rechonchuda. Sua túnica flutuava no ar enquanto ela corria freneticamente pelo caminho. Embora sua estrutura forte ficasse evidente mesmo sob a túnica, ela corria bastante rápido para alguém do seu tamanho — o que indicava que sua vida corria perigo. Ela segurava firmemente uma cesta com suas mãos arredondadas, mas seu chapéu pontudo não estava em lugar nenhum. Seu cabelo estava preso em dois coques laterais, que lembravam calos na cabeça bem típicos de mangás ou desenhos animados.

Ao avistar Yuki, a garota gritou:

“Socorro! Estou sendo perseguida! Por favor, me ajude!”

Yuki imediatamente identificou a garota como uma novata, não apenas pelo físico, mas também por implorar pela ajuda de uma estranha com quem não tinha nenhuma relação de cooperação.

A garota rechonchuda aproximava-se mais e mais. Yuki poderia muito bem ter aproveitado o impulso da garota para desferir um soco de contra-ataque direto, mas como ela parecia não ser hostil, desistiu da ideia. A garota parou bem na frente de Yuki e apoiou as mãos nos joelhos, bufando e arfando.

“E... eu... te dou... metade dos meus doces”, disse ela.

Yuki observou em silêncio enquanto a garota estendia sua cesta.

No instante seguinte, oito jogadoras juntaram-se a elas, cada uma vestindo uma túnica, um chapéu pontudo e carregando uma cesta. Ao contrário da garota rechonchuda, nenhuma delas era gordinha ou tinha olhos arregalados de pavor. Em vez disso, todas olhavam fixamente como caçadores que acabaram de encurralar a presa.

Ao notarem Yuki, as oito jogadoras ficaram visivelmente surpresas. Como haviam corrido ruidosamente, não deviam ter percebido os passos dela. No entanto, o choque durou apenas um segundo antes de se transformar novamente em olhares afiados.

— Olá, mocinha — cumprimentou uma jogadora de cabelos pretos e brancos. — Você sabe o que nós queremos, certo? Gostosuras ou travessuras. Entregue seus doces como uma boa menina e pouparemos você de problemas.

Yuki havia caminhado direto para um território de caça.

Aquelas oito jogadoras deviam ter se aliado para roubar os doces da garota rechonchuda. Roubar outras participantes era a estratégia mais simples para evitar ficar sem doces, e formar uma equipe era uma maneira prática de fazer isso. Embora trabalhar em grupo exigisse coletar mais doces no total, de modo geral, lutar em oito contra um por oito vezes era mais fácil do que lutar em um contra um uma única vez.

Mesmo com a situação atual sendo de oito contra duas, aquele princípio não mudava.

Yuki ouviu um farfalhar. A garota rechonchuda estava colocando doces na cesta dela — um pagamento adiantado.

Tudo bem, pensou Yuki. Não faria mal reabastecer seu estoque que já estava acabando.

“Esqueçam”, declarou ela para as oito jogadoras. “Vocês não vão levar nada de mim. Se acham que conseguem fazer alguma travessura, adoraria ver tentarem.”

Não houve resposta. As predadoras aproximaram-se silenciosamente.

Yuki classificou aquelas garotas como jogadoras de nível intermediário pela postura delas e pelo fato de parecerem não reconhecê-la, uma veterana com quarenta e cinco partidas no currículo. Além disso, a estratégia de formar um grupo e coletar doces visando jogadoras solitárias também denunciava o nível de experiência delas.

Eram semiexperientes; do tipo que já estava acostumado com os jogos, mas que ainda carecia de um conhecimento profundo sobre eles. Embora enfrentar um grupo de oito representasse uma perspectiva assustadora, Yuki estava confiante de que poderia repeli-las sem problemas.

Ao chegar a essa conclusão, ela disparou para a frente. Em resposta, o grupo fez o mesmo. Os dois lados colidiram sob a luz da lua...

...e a luta terminou em menos de dez segundos.

Yuki acertou um soco no estômago da primeira jogadora e desferiu um chute baixo no tendão de Aquiles da segunda, fazendo as duas se contorcerem de agonia. Uma terceira jogadora tentou um soco vindo de mais trás, mas Yuki esquivou-se do ataque, agarrou o braço dela, jogou-a no chão e pisou em suas costas. Em seguida, agarrou a cabeça de uma quarta jogadora que tentava uma investida pela esquerda, chocando-a contra o crânio de uma quinta jogadora que avançava pela direita. Uma sexta jogadora esgueirou-se por trás, mas Yuki agarrou sua túnica e arremessou o corpo inteiro dela contra uma sétima jogadora. Olhando ao redor à procura da oitava participante, ela a viu correndo em sua direção com uma abóbora do tamanho de uma cabeça humana, usando-a como uma arma de impacto. Yuki varreu a perna daquela jogadora bem no momento em que ela tirava os pés do chão, derrubando-a. Ela pegou no ar a abóbora que voou das mãos da garota e a soltou, fazendo com que um baque seco ecoasse alto no ouvido da oitava jogadora quando o objeto atingiu o chão bem ao lado dela.

“...A vitória é sua”, disse a oitava jogadora.

“Bom jogo — respondeu Yuki.”

(18/47)

“Vou levar um pouco de cada uma de vocês”, disse Yuki, enfileirando as cestas das outras jogadoras.

As oito jogadoras assentiram em silêncio. Cada uma delas sentia dor em algum lugar, fosse na cabeça, nos braços, nas pernas, no estômago ou nas costas.

Yuki pegou um punhado de doces de cada cesta. Embora levar tudo fosse uma opção, ela preferiu não fazer isso. Seria difícil se movimentar com uma cesta transbordando pendurada no braço e, se ela monopolizasse o mercado de doces, correria um risco maior de ver outras jogadoras formando equipes para alvejá-la. Sendo assim, Yuki calculou que seria mais sensato reivindicar apenas uma quantidade moderada de espólios.

Ainda assim, quando somados aos doces que recebera da garota rechonchuda, foi o suficiente para encher sua cesta até a capacidade máxima.

Yuki deixou a área, continuando pelo caminho único cercado por paredes de abóboras. Assim que se distanciou o suficiente para não ser ouvida pelas jogadoras atrás de si, Yuki soltou um suspiro de alívio. Seu corpo havia se movido exatamente como ela queria. Pelo menos por enquanto, parecia que ela não tinha problemas em lutar em combate corpo a corpo contra múltiplos oponentes.

A batalha anterior permitira a Yuki não apenas reabastecer seu estoque de doces e resgatar a garota rechonchuda, mas também confirmar sua condição atual. Ela queria testar exatamente o quanto conseguia enxergar e a agudeza de seus instintos.

Como não havia enfrentado nenhum problema em seu jogo anterior, Cloudy Beach, ela não esperava deparar-se com impedimentos repentinos, mas confirmar isso ainda assim trouxe um alívio.

De qualquer forma, equipes já estavam começando a se formar neste jogo, o que significava que a compreensão das regras e o senso de urgência nascido delas haviam se espalhado entre as participantes. O jogo finalmente alcançara uma grande reviravolta.

Se as suposições de Yuki estivessem corretas, os confrontos entre as jogadoras só tenderiam a escalar. Ela alongou os ombros, preparando-se para o que o jogo reservaria a seguir.

Naquele momento, ela ouviu passos vindo em sua direção por trás. Yuki virou-se e viu a garota rechonchuda de antes a seguindo.

Bem quando Yuki começou a se perguntar o motivo, a garota pronunciou-se em voz baixa, uma mudança significativa em relação ao tom frenético de antes:

“Por favor, deixe-me ir com você.”

“...Hã?”

“Ah, não, eu…”

A garota rechonchuda calou-se abruptamente, como se estivesse procurando as palavras certas. Ao terminar de refletir, disse em tom enérgico:

“Quero dizer... Por favor, me aceite como sua discípula!”

(19/47)

Assim como em muitas outras indústrias, o conceito de relação entre mentor e discípulo também existia na indústria dos jogos da morte. Porém, comparadas às de outros meios, essas conexões tinham um peso muito maior no mundo dos death games. Afinal, um único erro significava perder a vida, e o risco de sofrer danos fatais estava sempre à espreita. Aprender sozinho — isto é, aprender na base da tentativa e erro através de fracassos repetidos — era algo extremamente difícil.

Dicas e técnicas de sobrevivência eram passadas de mentor para discípulo, e desses discípulos para a próxima geração de jogadores, sempre acompanhadas de novos ensinamentos adquiridos ao longo do caminho. Foi assim que as técnicas dos jogadores evoluíram coletivamente com o passar do tempo.

A própria Yuki não era estranha a essa tradição. Ela havia herdado talvez as técnicas mais valiosas de toda a indústria de Hakushi, um lendário veterano de noventa e cinco jogos.

Yuki tinha percebido que os jogadores ao seu redor normalmente começavam a aceitar discípulos depois de sobreviverem a trinta jogos. Ela mesma já esperava há muito tempo que chegaria o dia em que precisaria transmitir aquilo que recebera de seus predecessores.

Sendo assim, a proposta não era absurda. Nem um pouco.

(20/47)

“Meu nome é Tamamo”, a garota disse de repente, se apresentando.

Yuki achou que o nome — que continha a palavra japonesa para “bola” — combinava perfeitamente com a aparência dela, mas decidiu guardar isso para si.

“Hum… O que foi que você disse agora?”, Yuki perguntou.

“Por favor, me aceite como sua discípula”, Tamamo repetiu com clareza.

De fato, Yuki não tinha escutado errado.

“Da onde saiu isso…?”, perguntou Yuki.

Hesitando, Tamamo respondeu:

“Meu agente me disse para encontrar um mentor se eu quiser sobreviver por bastante tempo. E… eu quero ser como você…”

Era conhecimento comum na indústria que a capacidade de um jogador encontrar um mentor logo no começo influenciava muito sua expectativa de vida. Ao que parecia, alguns agentes até incentivavam explicitamente seus jogadores a fazer isso.

Yuki tentou imaginar o estado mental da garota. Enquanto fugia à beira da morte de jogadores mal-intencionados, ela de repente encontra uma jogadora fantasmagórica. Depois de implorar desesperadamente por ajuda, vê aquela pessoa esmagar seus perseguidores em menos de dez segundos antes de simplesmente ir embora com toda a calma do mundo—

Olhando em retrospecto, tinha sido uma virada de acontecimentos bem dramática, algo que fazia Yuki parecer quase um herói de faroeste. Yuki tinha enxergado aquilo apenas como uma transação envolvendo doces, mas não seria estranho Tamamo agora vê-la como um cavaleiro de armadura brilhante—

Nem seria estranho ela querer se tornar sua discípula.

“Não.” Yuki balançou a cabeça. “Eu decidi não aceitar discípulos. Foi mal.”

Embora acreditasse que um dia precisaria transmitir suas técnicas para alguém, Yuki ainda não estava mentalmente preparada para assumir tamanha responsabilidade. Ela esperava recusar educadamente, mas…

“Por favor, eu imploro”, Tamamo insistiu.

“Por curiosidade… você sabe quem eu sou?”

“……? Nós nunca nos vimos antes… certo?”

Aparentemente, a garota tinha feito o pedido sem saber que Yuki era uma veterana de quarenta e cinco jogos e uma das poucas sobreviventes de Candle Woods. Embora Yuki estivesse um pouco impressionada com o olhar apurado da garota…

“Não”, repetiu ela. “Especialmente uma garota com cabelo preso em dois coques. Isso me traz más lembranças.”

“Tudo bem, eu posso soltar o cabelo…”

Tamamo imediatamente desfez os coques.

“Espera, espera, espera! Não é esse o problema aqui!”

“Então o que eu preciso fazer pra você dizer sim?”

Ela é surpreendentemente teimosa, pensou Yuki. Olhando melhor, Tamamo tinha conseguido fugir de seus perseguidores apesar da desvantagem do próprio físico, o que sugeria que ela era resiliente quando as coisas apertavam.

“Tá bom”, Yuki cedeu. “Se você quer tanto assim, eu vou te aceitar.”

“…Muito obrigada!”

Tamamo fez uma reverência profunda.

“Então vamos começar seu treinamento.” Yuki apontou aleatoriamente para uma direção. “Por enquanto, vá pra lá.”

Tamamo obedeceu sem demonstrar o menor sinal de desconfiança.

No instante seguinte, Yuki chutou a parte de trás dos joelhos da garota — uma rasteira. Como Tamamo já era instável por causa do próprio corpo, a força adicional nos joelhos a fez tombar completamente.

Ela caiu sentada e rolou pelo chão como uma bola de neve.

Yuki aproveitou a oportunidade para disparar em velocidade máxima.

“Lição número um!”, gritou Yuki. “Melhore esse físico! Desculpa, mas esse corpo não vai te manter viva por muito tempo! Continue correndo até emagrecer; quando conseguir me alcançar, você passa! Aí a gente vai pra lição dois!”

Yuki estava falando um completo absurdo. Humanos não emagreciam tão rápido só correndo por aí. Aquela tarefa seria impossível de completar antes do fim do jogo. Em outras palavras, Yuki basicamente tinha se despedido.

“Ah, espera!” Tamamo gritou. Havia desespero em sua voz, como se tivesse percebido a enganação de Yuki.

Mesmo assim, Yuki não pretendia parar nem por um segundo. Ela disparou o mais rápido possível para longe da garota.

“Pelo menos me diga seu nome! Por favor!”

Yuki julgou que não haveria problema em responder.

“É Yuki!”, ela gritou de volta. “Escrito com os kanjis de fantasma e demônio! Talvez a gente se veja de novo!”

“Estou ansiosa para trabalhar com você!”

A voz de Tamamo veio voando de muito longe, mal alcançando Yuki.

—Com o tempo, Yuki se arrependeria profundamente daquela conversa inteira.

(21/47)

Shion socava o rosto de uma jogadora.

(22/47)

Shion havia montado em cima daquela jogadora e a golpeava sem qualquer piedade com os punhos. Como já tinha causado dano mais do que suficiente, a oponente praticamente não conseguia oferecer resistência; tudo o que restava era esperar que aquele “praticamente” se transformasse em “completamente”.

Shion continuou desferindo soco após soco — metade para apagar a garota, metade para liberar a raiva acumulada dentro de si.

Não demorou muito para a menina parar de se mover. Shion não se importava se ela tinha desmaiado ou morrido. Apenas abaixou os punhos e deixou o local arrastando a perna esquerda, ferida por Haine.

Ao sair, roubou a cesta caída no chão ao lado da jogadora que acabara de espancar. Um alívio percorreu seu corpo ao olhar dentro dela e descobrir uma quantidade razoável de doces.

Fim da leitura

Capítulo 9.1 concluído

Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 1)