Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa — Capítulo 9.2: Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 2)

Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa
Cap. 9.2
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Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na Mesa

Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 2)

Capítulo 9.2

10.766 palavras~47 min de leitura

Depois de enfrentar Haine, Shion tinha procurado ao redor da parede de abóboras destruída, mas, sem surpresa, a maioria dos doces havia sido esmagada. Ela achava que ainda serviriam enquanto as embalagens permanecessem intactas, mas, quando tentou entregá-los às crianças, recebeu recusas estridentes.

Elas só aceitavam doces em seu estado original, sem danos.

Shion conseguiu recuperar alguns poucos que ainda estavam quase intactos, mas aquela quantidade miserável não lhe trouxe conforto algum. Seu estoque estava perigosamente baixo.

Ela destruiu várias abóboras para verificar o interior e também revirou a área onde a parede havia desabado, mas não encontrou nada. Ao que tudo indicava, não existiam doces escondidos pela arena além daqueles entregues aos jogadores no começo do jogo.

Essa conclusão a levou a perceber que existia apenas uma maneira de reabastecer seus suprimentos—

Roubar dos outros.

E essa era uma das maiores especialidades de Shion.

Comparado a fugir de um grupo de justiceiros armados ou enfrentar uma jogadora consumida por vingança, roubar outros participantes era fácil demais. Aproveitando o estado deplorável do próprio corpo, ela fingiu ser uma jogadora miserável que tinha acabado de ser roubada e se aproximou de outra participante pedindo um pouco dos doces dela.

A garota não compartilhou nada.

Mas Shion conseguiu chegar perto o bastante para saltar sobre ela, espancá-la até perder a consciência e roubar seus doces. Um crimezinho mesquinho daqueles era brincadeira de criança para alguém que já tinha eliminado mais de cem jogadores até agora.

Porém, dessa vez ela cometeu um erro ao demorar demais para silenciar a vítima. A garota tinha soltado um grito, o que significava que crianças e jogadores próximos logo correriam até ali.

Shion fugia o mais rápido que conseguia, arrastando a perna esquerda atrás de si enquanto o manto raspava pelo chão, mas seus esforços acabaram sendo em vão.

Ela ouviu múltiplos pares de passos que não eram os seus.

Sua perna ferida a impedia de correr direito, então escapar agora era impossível. Não lhe restava escolha além de enfrentar o grupo que se aproximava.

Era um grupo de quatro jogadores que pareciam, em todos os sentidos, uma gangue de delinquentes.

“Oh? Parece que alguém tá cheio da grana”, um deles comentou ao notar a cesta de Shion.

A jogadora tinha tantos piercings no rosto que provavelmente poderia bater um recorde mundial do Guinness.

“Passa essa cesta”, ela ordenou, estendendo a mão. “Se obedecer, a gente pega leve com você.”

“Tenta tirar de mim”, Shion cuspiu em resposta. Então fez um gesto provocando o grupo a avançar.

Interpretando a reação dela como pura bravata, os quatro se aproximaram sem hesitação. A garota dos piercings tentou agarrá-la pelo peito…

…mas toda a luta durou menos de dez segundos.

Shion acertou o queixo da garota e a derrubou enquanto ela ainda cambaleava pelo impacto. Tentando evitar os inúmeros piercings, Shion preferiu socar repetidamente o estômago da jogadora em vez do rosto.

Uma segunda integrante avançou para ajudar a companheira, mas como ela não tinha piercings, Shion a recebeu com um soco direto no rosto.

A terceira agarrou seus ombros por trás e, embora Shion estremecesse momentaneamente pela dor do ferimento de bala, ela afastou a garota com uma cabeçada para trás.

A quarta veio correndo segurando uma abóbora, mas Shion a arrancou das mãos dela e a esmagou contra sua cabeça.

A quarta jogadora caiu no chão.

Shion ergueu a abóbora para continuar o ataque. Quando levantou os braços, as mangas deslizaram para baixo, revelando suas tatuagens.

A jogadora, aparentemente reconhecendo os rumores, empalideceu de repente.

“Espera… não me diz que você é—”

“Seria bom se tivesse percebido isso antes.”

Shion desceu a abóbora com violência.

O grito agonizante da jogadora ecoou pelo ar.

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Depois de matar os quatro jogadores, Shion roubou todos os doces deles.

Tinha sido fácil demais.

Haine só havia conseguido lhe dar trabalho porque pegara Shion desprevenida, mas quando lutava com calma, esse era o resultado inevitável. Shion jamais deixaria aquele grupo de quatro vencê-la.

Embora tivesse conseguido reabastecer seus doces, outro grito havia ecoado pelo local. Shion forçou seu corpo dolorido a recuar rapidamente dali.

Mas, mais uma vez, passos preencheram o ar. E, mais uma vez, Shion deu de cara com outro grupo de jogadores.

Dessa vez, eram cinco pessoas.

No momento em que avistaram Shion, demonstraram claramente vontade de lutar — uma reação natural, considerando que estavam encarando uma única jogadora isolada. Shion não parecia forte de maneira alguma, e havia sofrido tantos danos que mal conseguia ficar de pé.

Caçar uma presa enfraquecida era o básico de qualquer caçada.

Era irritante, mas Shion não teve escolha além de aceitar essa realidade.

Vou fazer vocês se arrependerem disso, pensou ela.

Shion assumiu uma postura de combate, mas então—

Ela se lembrou das mecânicas daquele jogo.

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Enquanto caminhava pelo campo de abóboras, Yuki ergueu o olhar.

A cor do céu ainda não havia mudado.

(25/47)

No jogo anterior, Cloudy Beach, o grupo dela tinha usado o movimento das estrelas para acompanhar o tempo, mas isso só havia sido possível graças a Airi. Yuki não possuía esse tipo de habilidade.

Tudo o que conseguia perceber era que o céu permanecia completamente escuro e que ainda levaria um bom tempo até o amanhecer. Ela não fazia ideia de quanto tempo o jogo ainda duraria.

Halloween Night — um jogo temático da Noite das Bruxas. Pelo nome do jogo e pela aparência da arena, Yuki havia presumido que aquilo fosse um jogo de sobrevivência, assim como Cloudy Beach. Mesmo depois de o jogo atingir um ponto crítico, ela ainda acreditava nessa hipótese, embora continuasse explorando a área por precaução.

Segundo sua teoria, os jogadores não precisavam escapar do campo de abóboras nem exterminar as crianças; bastava resistir até amanhecer. Concluir o jogo seria tão simples quanto sobreviver à noite distribuindo doces às crianças até que a luz do dia aparecesse.

Já que o jogo se chamava Halloween Night, ele terminaria quando a noite acabasse — uma estrutura extremamente simples.

A taxa média de sobrevivência dos death games girava em torno de setenta por cento. Seguindo essa estatística, faria sentido que os jogadores recebessem ao menos setenta por cento da quantidade de doces necessária para apaziguar as crianças. Na verdade, o mais provável era que o número real estivesse mais próximo de oitenta ou noventa por cento — talvez até ultrapassasse cem por cento.

Era possível que houvesse doces suficientes para todos sobreviverem.

Mesmo assim, Yuki acreditava que a taxa real de sobrevivência seria muito, muito menor. Afinal, o jogo possuía uma mecânica verdadeiramente diabólica — muito mais cruel do que parecia à primeira vista — nascida justamente da incerteza das regras.

Assim como em Cloudy Beach, os jogadores recebiam pouquíssimas informações. O tamanho da arena, o número de jogadores e crianças, e até a quantidade necessária de doces eram desconhecidos. A teoria de Yuki de que aquilo era um jogo de sobrevivência também não passava de uma hipótese; e, mesmo que estivesse certa, era impossível calcular exatamente quando amanheceria, além de não existir garantia de que o jogo terminaria após apenas uma noite.

Em meio a toda essa incerteza, apenas uma regra era absolutamente clara:

As crianças fariam uma travessura em qualquer jogador que ficasse sem doces.

Essa regra brilhava na mente dos participantes como um poste de luz em plena escuridão. A única estratégia de sobrevivência em que podiam confiar era garantir o máximo possível de doces.

E, para fazer isso…

As jogadoras nunca receberam ordens para roubar uns aos outros, mas a ideia surgiria naturalmente. Yuki enxergava aquilo como um método extremamente astuto de manipulação psicológica.

Que jogadora não sentiria vontade de reabastecer seus suprimentos ao ver sua cesta ficando cada vez mais vazia conforme as crianças pediam doces repetidamente?

Pelo menos, Yuki não conseguia ignorar esse senso de urgência. Graças a Tamamo, ela felizmente não precisou atacar ninguém, mas se tivesse sido encurralada, teria considerado fazer isso.

O desejo dos jogadores de garantir uma quantidade segura de doces inevitavelmente se transformaria em inúmeras mortes.

Essa era a verdadeira mecânica do jogo.

“…Espero que a Haine esteja bem…”, murmurou Yuki.

Haine estava perseguindo a jogadora tatuada — Shion, se ela lembrava corretamente. Yuki se preocupava não apenas com o fato de Haine ter conseguido ou não completar sua vingança, mas também com o que viria depois.

Seria difícil sair ilesa de uma luta contra a jogadora responsável pelo massacre em larga escala de Garbage Prison. E, se Haine terminasse aquele confronto machucada — mesmo que fosse só um pequeno hematoma no rosto — suas chances de sobrevivência despencariam drasticamente.

Sofrer até mesmo o menor ferimento nos estágios iniciais daquele jogo colocava alguém em clara desvantagem.

Como todos provavelmente já tinham percebido naquele ponto, a única forma de recuperar doces era roubando de outros jogadores. E, para maximizar as chances de sucesso, o ideal era mirar naqueles que aparentavam fraqueza.

Por isso, jogadores feridos viravam alvos perfeitos — o que os tornava ainda mais suscetíveis a sofrer novos ferimentos.

Era um ciclo vicioso.

Um jogador ferido seria caçado justamente por estar ferido; isso o faria sofrer ainda mais lesões, tornando-o um alvo ainda mais fácil. O processo se repetiria indefinidamente, desgastando a vítima pouco a pouco.

Consequentemente, era preciso evitar sofrer dano a qualquer custo. Quem acabasse em uma posição de fraqueza só veria sua situação piorar cada vez mais. Até o menor machucado se espalharia rapidamente pelo corpo inteiro como mofo se reproduzindo.

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Os ferimentos rapidamente se multiplicavam pelo corpo de Shion.

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“…Morre!”

Sentada no chão, Shion chutou uma jogadora caída diante dela.

Apesar da maldição cuspida de seus lábios, a vítima já estava morta, tendo abandonado este mundo depois de tentar atacar Shion e receber um contra-ataque fatal. Havia outros dois cadáveres semelhantes espalhados ali perto. Elas formavam um grupo de três.

Shion levou a mão até a testa ardendo em febre. Uma integrante do trio morto — a garota que ela acabara de chutar — tinha resistido até o fim, rasgando sua carne. As unhas da garota haviam sido afiadas como lâminas, e ela a arranhara pelo corpo inteiro.

Ao tocar o ferimento, sentimentos de rancor voltaram à tona, fazendo Shion chutar o cadáver mais uma vez.

Ela usou a perna direita, já que a esquerda estava quebrada, mas no instante em que acertou o chute, sentiu uma sensação perturbadora. Aparentemente, também havia machucado a outra perna durante a batalha.

Shion apoiou o corpo contra uma parede de abóboras.

Sua respiração estava irregular, e o coração disparava violentamente. As lutas não tinham dado trégua. De algum modo, ela conseguira proteger sua reserva de doces, mas não podia negar o nível extremo de exaustão que sentia.

Naturalmente, havia sofrido muitos danos físicos, mas sua resistência e força de vontade também estavam se esgotando. Pior ainda: ela usara o restante de suas energias para derrotar aquele grupo de três.

Se encontrasse outro jogador agora, provavelmente não sairia viva.

“Merda…”, Shion murmurou.

Em circunstâncias normais, aquele jogo teria sido ridiculamente fácil — tudo por causa de suas tatuagens.

As histórias sobre Garbage Prison e sobre a jogadora tatuada já tinham se espalhado pela indústria inteira. Por isso, a maioria dos participantes jamais ousaria encostar nela ao descobrir sua identidade. Shion praticamente completaria o objetivo principal do jogo — proteger seus doces — apenas exibindo as tatuagens.

Não havia como perder com uma vantagem dessas.

Em circunstâncias normais.

A interferência de Haine destruiu essa vantagem. Quando Shion percebeu que aquele jogo podia ser resumido pelas expressões “desgraça pouca é bobagem” e “quando chove, cai granizo”, já era tarde demais.

Ela tinha se tornado um alvo perfeito depois de sofrer um ferimento grave na luta contra Haine.

E foi assim que quase nenhum jogador mais recuou ao ver suas tatuagens. Aproximadamente metade deles parecia reconhecer sua identidade, mas naturalmente deixavam de enxergá-la como ameaça ao notar o estado miserável em que ela se encontrava.

Como resultado, Shion era forçada a lutar contra praticamente todo jogador que encontrava. No começo, alguns ainda fugiam ao perceber a diferença absurda de habilidade entre eles, mas conforme o jogo avançava e a quantidade de doces diminuía cada vez mais, ninguém mais recuava. Todos estavam decididos a resolver tudo na força bruta.

Quando o jogo chegou a esse ponto, tornou-se impossível para Shion escapar ilesa das batalhas.

Ela sofria mais ferimentos, virava alvo por causa deles, sofria ainda mais ferimentos… e o ciclo continuava. À medida que isso se repetia, os machucados se espalhavam por todo o seu corpo.

Se aquela desgraçada não estivesse aqui…, pensou Shion.

Haine — a serva de Kirihara que entrara naquele jogo apenas para perseguir Shion. Como ela tinha descoberto sobre Halloween Night? Não deveria existir forma alguma de saber que Shion também participaria.

Quando conseguiu escapar dela, Shion acreditou que o destino estivesse sorrindo para si. Agora, já não pensava mais assim.

Aquilo era insuportável.

Como podia existir uma jogadora completamente obcecada em persegui-la, ignorando totalmente o próprio jogo? Como Shion tinha acabado em uma situação tão desesperadora assim?

A palavra “karma” surgiu em sua mente.

Tá esquecendo quem você é? Uma garota atacando outra jogadora por motivos completamente irrelevantes pro jogo… isso também não descreve você? Quantas pessoas você matou até hoje? Deve passar de cem. Então por que acha injusto alguém revidar?

“Cala a boca”, Shion rebateu para a voz em sua cabeça. “Eu não tinha escolha. Não existia outro jeito. Você sabe disso melhor do que ninguém.”

Enquanto discutia consigo mesma, sua irritação apenas aumentava.

Então, quando voltou a ouvir passos ecoando à distância, sua frustração atingiu o limite.

Não venham pra cá, rezou Shion.

Mas, naquele jogo, jogadores que faziam orações inevitavelmente acabavam compartilhando o mesmo destino.

Um grupo de oito garotas apareceu diante dela. Todas estavam machucadas, provavelmente resultado de alguma luta anterior. Porém, aparentemente haviam perdido, já que suas cestas estavam quase vazias.

O pânico estampado em seus rostos era evidente.

Para elas, Shion devia parecer uma presa fácil.

Mesmo depois de verem os três cadáveres caídos ao lado dela — prova clara de sua capacidade de combate — nenhuma recuou. Aproximaram-se silenciosamente, sem exigir a cesta dela ou sequer dizer “doces ou travessuras”.

“Vocês tão procurando briga?”, Shion estreitou o olhar. “Então é melhor estarem preparadas.”

Ela puxou as mangas para cima, revelando as tatuagens em seus braços. Esperava que aquilo as fizesse recuar, mas em vez disso—

“O que isso quer dizer?”, uma das garotas perguntou, completamente indiferente. “Tá querendo se exibir com essas tatuagens?”

Elas não faziam ideia de quem Shion era.

Um bando de idiotas ignorantes.

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Todo mundo tem uma primeira vez para tudo.

A primeira vez que Shion matou alguém foi seus próprios pais.

Ela nunca explicou o motivo para ninguém — e também não precisava. Eram pessoas que a fizeram desejar matá-las. Só isso já bastava.

Se tivesse de explicar melhor, diria que seus pais eram o tipo de gente que abusava sem hesitação do poder das palavras — aquelas mesmas palavras que, segundo dizem, podem ser mais poderosas que uma espada.

E a violência era o único método que Shion possuía para silenciar pessoas que conseguiam esmagá-la em qualquer discussão graças a um vocabulário infinitamente superior ao dela.

No instante em que matou os pais, Shion foi tomada por uma sensação de liberdade e realização.

Eu consegui. Eu venci. Derrotei as pessoas que me colocaram neste mundo. Agora finalmente posso ser livre—

No instante seguinte, percebeu que aquele sentimento não passava de uma ilusão passageira.

Desde então, o desejo de matar criou raízes em seu coração.

Ela ansiava desesperadamente reviver aquela sensação refrescante de ter a alma purificada até o âmago, aquela estranha sensação de realidade que experimentara naquele dia. Tornou-se impossível afastar esse pensamento.

A cada dia que passava, sua vontade de matar ficava mais forte, até começar a torturar sua mente sem descanso.

Shion era amaldiçoada.

Foi por isso que ela se tornou uma player. Um mundo onde encarava a morte de frente. Um mundo onde ninguém podia sair repetindo frases vazias como “valorize sua vida”.

Ela acreditava que aquele era o lugar perfeito para alguém como ela.

Naquele mundo, Shion poderia agir livremente como quisesse, sem se preocupar com o julgamento dos outros.

Porém, essa crença também não passava de uma ilusão.

O que era natural.

Não importava se na superfície ou nas profundezas: qualquer lugar onde pessoas se reuniam acabava se tornando uma forma de sociedade. E o maior pecado de qualquer sociedade era tirar a liberdade dos outros.

Mesmo naquele mundo, pessoas como Shion não eram desejadas.

Ela jamais encontraria um lugar onde seria aceita. Não podia viver sem esconder quem realmente era.

Uma sombra até mesmo em um reino de sombras—

Esse foi o lugar onde acabou presa.

E assim, enquanto continuava vivendo como player, satisfazia seus desejos secretamente nas trevas, matando outras pessoas sem jamais ser descoberta.

Foi então que Kyara estendeu uma mão para ela.

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Shion concentrou-se em lutar defensivamente contra o grupo de oito jogadoras.

Embora suas adversárias fossem muito inferiores em habilidade, aquela era sua única opção considerando seu estado atual e a quantidade de inimigas.

As jogadoras agiam com extremo cuidado, talvez por já terem experimentado uma derrota antes. Mesmo vendo Shion ferida, nenhuma ousava se aproximar dela diretamente; em vez disso, limitavam-se a arremessar abóboras à distância.

Shion tentou se proteger usando o manto e contra-atacar jogando abóboras de volta, mas não conseguia inverter o rumo da batalha.

Por fim, o momento decisivo chegou.

Uma abóbora acertou Shion em cheio nas costas.

O impacto na coluna fez seu corpo congelar.

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Kyara — a jogadora que mais tarde ganharia notoriedade por causa dos acontecimentos de Candle Woods.

Quando Shion a conheceu, porém, ela não passava de uma player mediana. Assim como Shion, era uma assassina compulsiva que agia nas sombras. As duas eram feitas do mesmo molde, e Kyara talvez fosse a única pessoa no mundo capaz de aceitar Shion como ela realmente era.

Além de Shion, Kyara também acolhera outras duas garotas adolescentes.

Uma delas era uma player chamada Moegi, que aparentemente idolatrava Kyara. A outra se chamava Hizumi, uma garota completamente incompreensível. Shion viveu junto delas por bastante tempo.

Dentro daquela casa, Shion conversava mais com Moegi. Como tinham quase a mesma idade e ambas haviam fugido dos próprios pais, acabaram se dando bem.

Moegi sempre falava sobre como havia perdido tudo por tentar ser uma boa garota e agir exatamente como seus pais queriam. Dizia também que pretendia mudar, aprendendo a impor sua própria vontade sob a orientação de Kyara.

Shion achava que Moegi era o tipo de pessoa que cairia facilmente em cursos suspeitos de autoajuda. Apesar de sentir certa pena dela, não conseguia imaginar Moegi sobrevivendo por muito tempo.

Por outro lado, Shion quase nunca conversava com Hizumi, porque simplesmente era impossível manter uma conversa normal com ela.

Hizumi tinha uma personalidade extremamente difícil. Em um momento agia distraída, como um androide recém-saído de um tanque de cultura; no instante seguinte, virava a chave e explodia de raiva.

Shion ficou curiosa para descobrir até onde podia provocá-la antes disso acontecer, então começou a testar os limites da garota com todo tipo de pegadinha: encher a banheira com água congelante, colocar um peixe mecânico se debatendo na cama dela e coisas do tipo.

A cena de Shion correndo pela casa enquanto Hizumi a perseguia com uma faca virou praticamente rotina. Metade das habilidades de combate de Shion provavelmente nasceu dessas brigas com Hizumi. Nesse sentido, talvez desse até para dizer que as duas mantinham uma comunicação bastante íntima.

Por fim, Shion também aprendeu muitas coisas com Kyara.

Algumas lições eram úteis, como métodos confiáveis de esconder cadáveres e formas eficientes de destruir corpos humanos aproveitando-se do Tratamento de Preservação.

Outros ensinamentos eram mais questionáveis, como identificar a hora da morte observando o crescimento de larvas no cadáver, ou os benefícios de arrancar a pele de uma vítima depois de matá-la.

Às vezes, Shion também pedia conselhos a Kyara sobre assuntos comuns para uma garota adolescente — como o sentido da vida e a maneira correta de viver.

Ela nunca teve intenção de se tornar discípula de Kyara, mas, no sentido de ter aprendido muito com ela, Kyara podia ser chamada de sua mentora. Os ensinamentos daquela mulher eram uma das principais razões pelas quais Shion conseguiu sobreviver a vinte e nove jogos.

Naquela época, Shion havia sido feliz.

Pela primeira vez na vida, seus dias tinham sido preenchidos por algo parecido com felicidade.

Mas aqueles relacionamentos estavam destinados a acabar cedo demais.

O que não era surpresa alguma — afinal, dificilmente se constrói uma comunidade estável em torno de assassinas compulsivas. Não importava o quanto tentassem permanecer escondidas; eventualmente o mundo acabaria tentando eliminá-las.

Moegi e Kyara foram as primeiras a morrer.

Ao que parecia, Kyara não conseguiu mais conter seus impulsos e enlouqueceu em Candle Woods, um jogo com mais de trezentos participantes. Shion já esperava que Moegi acabasse morrendo algum dia, mas a morte de Kyara foi difícil de aceitar.

A mulher parecia alguém que continuaria invencível até mesmo depois da morte.

Até hoje, Shion às vezes se pegava imaginando se Kyara ainda estava viva em algum lugar. Mas, mesmo que estivesse, sem saber onde encontrá-la, para Shion era o mesmo que ela estar morta.

Sem Kyara como líder, a vida compartilhada das garotas chegou ao fim.

Shion ainda procurou Hizumi algumas vezes depois disso, mas havia perdido contato com ela há pouco tempo. Segundo seu agente, Hizumi tinha morrido em um jogo ocorrido na mesma época de Garbage Prison (“Prisão de Lixo”).

E assim, Shion acabou completamente sozinha.

Ela sentia como se uma onda gigantesca, muito além de sua capacidade de suportar, estivesse esmagando-a. Imaginava que aquilo era algo que vinha se repetindo ao longo de toda a história humana.

Assim como costumes controversos como o enfaixamento dos pés e o sati haviam sido abolidos…

Assim como espiritualismo e punições corporais estavam sendo eliminados por serem considerados bárbaros…

Assim como fumantes e o próprio cigarro estavam sendo empurrados para os cantos da sociedade…

Shion sentia que ela também logo seria apagada do mundo.

Este mundo está melhorando dia após dia. Pessoas como eu vão desaparecer da Terra. A morte delas… e a minha… não passam de pequenas partes desse ciclo de renovação.

No fundo, Shion já sabia que esse era o destino dela mesmo antes de Garbage Prison. Embora continuasse lutando para sobreviver, metade dela já havia desistido da vida.

Tudo aquilo que não fosse aceito pela maioria acabaria desaparecendo do mundo — essa era uma lei absoluta, impossível de desafiar.

Não é óbvio? Você percebeu isso tarde demais, idiota.

(31/47)

Felizmente, as agressoras de Shion pouparam sua vida.

Diferente dela, o grupo de jogadoras não tinha interesse em matar, nem era movido por vingança como Haine. Elas simplesmente espancaram Shion até o ponto em que ela não conseguia mais resistir e roubaram todos os seus doces.

Não levaram apenas os que estavam na cesta; também revistaram o corpo inteiro de Shion e pegaram até aqueles escondidos dentro de seu manto como reserva de emergência.

As oito jogadoras foram embora, deixando Shion caída no chão, completamente indefesa.

Ela já não conseguia se mover. Cada centímetro de seu corpo gritava de dor, e manter-se consciente exigia toda a energia que lhe restava.

Tudo o que Shion podia fazer era manter os olhos abertos e encarar o chão próximo dali.

E foi então que ela teve um reencontro estranho.

Ao seu lado estava um biscoito de gengibre quebrado. O jeito como estava partido parecia familiar — era o mesmo biscoito que ela cuspira logo no começo do jogo.

Ou seja, sem perceber, ela havia retornado ao ponto de partida.

Shion lembrava de ter enterrado o biscoito na terra, mas agora ele estava parcialmente para fora do chão. Provavelmente havia sido desenterrado durante a luta contra o grupo de oito.

O rosto sorridente do boneco de gengibre encarava Shion diretamente.

“Tá olhando o quê…?”, ela resmungou.

Shion lançou um olhar irritado para o biscoito, mas ele continuou sorrindo, imóvel como sempre. Admirando involuntariamente aquela persistência absurda, ela reuniu as últimas forças que lhe restavam para pegá-lo.

Não estava pensando em entregá-lo para uma criança. Afinal, ela já tinha confirmado que os pequenos não aceitavam doces sem embalagem, mesmo que o formato continuasse intacto.

Ela não pretendia dar aquilo para ninguém—

Pegou o biscoito para usar em si mesma.

Shion comeu o biscoito sem sequer limpar a terra grudada nele.

O mesmo gosto agressivo que sentira várias horas antes se espalhou por sua boca. Desta vez, porém, ela não cuspiu fora. Mastigou algumas vezes antes de engolir.

Quase imediatamente, um choque percorreu todo o seu corpo. Ela havia ingerido algo que definitivamente não era apropriado para consumo humano.

Seu pulso acelerou. Sua temperatura corporal aumentou. Sua mente clareou.

Os braços e pernas recuperaram um pouco de vitalidade.

O biscoito de gengibre concedera força a Shion — a força pura de alguém que abandona toda cautela ao encarar a morte de frente.

Era um estimulante.

Shion se levantou.

Arrastando seu corpo quase imóvel, começou a seguir em direção ao lugar que tinha em mente.

Ela não se importava em morrer—

Mas antes disso, pisaria na cara daquela empregadinha.

(32/47)

Yuki percebeu que o céu estava mais claro.

Aqui está a tradução revisada, fiel e bem organizada:

(33/47)

Só mais um pouco, pensou ela. O fim da noite marcaria o fim do jogo. No entanto, o momento exato ainda era incerto — seria exatamente no nascer do sol ou apenas quando o sol estivesse totalmente visível? De qualquer forma, Yuki ficou aliviada por perceber uma mudança que confirmava a passagem do tempo.

Yuki olhou dentro de sua cesta. Ainda restava uma pequena quantidade de doces. Considerando o ritmo em que estavam acabando, provavelmente teria o suficiente até o final do jogo. Não havia necessidade de reabastecer. Tudo o que precisava fazer era continuar se movendo e evitar perder mais doces, fugindo das crianças e dos outros jogadores o máximo possível.

Yuki continuou explorando o campo de abóboras na possibilidade de o jogo ser, na verdade, um jogo de fuga, mas não encontrou nenhuma saída. As montanhas de abóboras provavelmente haviam sido colocadas ao redor do local para impedir a fuga dos jogadores. Assim, ao perceber que não havia mais necessidade de explorar, Yuki permaneceu em um único ponto, respirando silenciosamente para não ser detectada pelas crianças ou pelos outros jogadores.

No entanto, o som de passos vindo em sua direção a forçou a agir.

Movendo-se com cuidado, Yuki cobriu o olho esquerdo e olhou à frente apenas com o direito. Ela vinha fazendo isso ocasionalmente para monitorar possíveis mudanças em sua visão.

A cena refletida em seu olho não estava nem melhor, nem pior.

(34/47)

Antes do início de Halloween Night, no dia em que Yuki visitou a mansão de Kirihara—

Após terminar o que tinha a fazer e retornar ao seu apartamento, Yuki foi recebida por sua agente. Seguindo suas instruções, foi levada a um hospital — provavelmente ligado aos organizadores — para realizar um exame médico. Infelizmente, o resultado não podia ser chamado de animador.

“—Pelo menos é um alívio que sua condição não exija atenção imediata”, disse sua agente durante o trajeto de volta.

“…O ideal seria nunca precisar de atenção alguma”, respondeu Yuki, em tom leve, embora não refletisse seus verdadeiros sentimentos.

Ela estava gradualmente perdendo a visão do olho direito — era o que indicavam os exames.

Em Candle Woods, Kyara havia causado um dano severo em seu olho direito. Sua visão havia se recuperado completamente e permaneceu estável por um ano, então Yuki acreditava que estava tudo bem — mas, na realidade, seu olho era uma bomba-relógio. Como sua agente disse, não exigia tratamento imediato, mas a perda de visão estava progredindo constantemente. No hospital, disseram que ela deveria se preparar para o pior cenário: a cegueira total no olho direito.

Ela ainda não havia notado nenhuma mudança visual. Já tinha ouvido que o cérebro humano pode preencher automaticamente as lacunas da visão, fazendo com que a pessoa não perceba grandes alterações mesmo ao perder a visão de um olho. Ainda assim, o fato permanecia — a perda era real. Yuki confiava na equipe médica e em sua agente. O diagnóstico provavelmente era correto.

Além disso, embora não tivesse percebido mudanças diretas, o diagnóstico não surgiu do nada. Recentemente, ela vinha demonstrando descuidos — como bagunçar a oficina do artesão ou espalhar moedas por aí. Se continuasse jogando, esse tipo de erro acabaria acontecendo durante uma partida. E, se sua condição piorasse, os problemas só aumentariam.

Não seria a primeira vez que perderia parte do corpo.

Por exemplo, os dedos do meio ao mínimo de sua mão esquerda eram próteses. Também houve inúmeras ocasiões em que se feriu nos jogos, perdendo membros, cabelo, couro cabeludo e muito mais. Perder partes do corpo não era novidade para ela.

Mesmo assim, a notícia a chocou.

Perder a visão seria algo devastador. Embora fosse possível reparar parcialmente um olho, substituir completamente um globo ocular ainda era impossível com a medicina atual. Nem mesmo o artesão poderia ajudar com próteses. Quando sua visão falhasse, não haveria retorno.

A gravidade de perder a visão de um olho era evidente. Se isso acontecesse, Yuki não teria muito tempo de vida como jogadora. Ela esperava que sua visão resistisse por mais algum tempo. Ainda havia completado apenas quarenta e cinco jogos — nem sequer alcançara a metade do objetivo de noventa e nove.

“…Talvez eu devesse tê-la aceitado como aprendiz”, murmurou Yuki enquanto caminhava pelo campo de abóboras.

A imagem da garota rechonchuda, Tamamo, surgiu em sua mente. Yuki havia recusado o pedido da garota por não estar preparada mentalmente. Talvez, no entanto, devesse reconsiderar. Era possível que seu tempo como jogadora estivesse chegando ao fim. Assim como sua mentora fez com ela, talvez Yuki também precisasse passar seus ensinamentos adiante.

“…………”

A visão diante de Yuki escureceu.

(35/47)

— Você já sentiu vontade de matar alguém... qualquer pessoa? — Yuki perguntou certa vez à sua mentora.

Ela não conseguia lembrar exatamente quando ou em que circunstâncias aquela conversa havia acontecido. Talvez tivessem se encontrado dentro de um jogo, ou talvez Yuki estivesse sendo treinada fora deles. De qualquer forma, ela claramente estava de mau humor; caso contrário, nunca teria levantado um assunto desses com Hakushi.

— “Eu não suporto pessoas que me deixam para trás e continuam vivendo vidas felizes.”

— “Eu não consigo perdoar a sociedade por seguir em frente como se nada estivesse errado, enquanto eu fico aqui sofrendo.”

— “Eu quero que tudo caia no esquecimento…”

— Você já se sentiu assim?

Elas haviam falado sobre isso algum tempo antes de Candle Woods — antes de Yuki começar de fato sua carreira como jogadora. Nessa época, ela não levava uma vida propriamente dita, mas também não havia se resignado à morte, tornando sua existência a de um fantasma errante. Yuki se lembrava de sentir como se seu corpo estivesse cheio de um rancor sem destino.

A mentora em sua memória, Hakushi, respondeu:

— Já senti.

— …Sério?

Yuki achou a resposta inesperada. Ela sempre imaginou Hakushi como alguém acima desse tipo de pensamento.

— É assim que os jovens são — explicou sua mentora.

— Você fala como se já não fosse jovem. Mestra, quantos anos você tem, afinal?

— Quem sabe? — Hakushi desconversou. — Mas, no mínimo, eu não sinto mais o que você está sentindo agora.

— Por quê?

— Porque existe algo que eu preciso fazer.

Aquilo que sua mentora precisava fazer… Em outras palavras, conquistar noventa e nove vitórias consecutivas em jogos mortais brutais.

— As pessoas se estabilizam quando encontram algo para direcionar sua energia.

— …É assim mesmo?

— Não posso garantir que isso se aplique a toda a humanidade, mas foi assim comigo.

Ainda levaria algum tempo até que Yuki descobrisse que esse princípio também se aplicava a ela. O objetivo de concluir noventa e nove jogos, herdado de sua mentora, a mantinha ancorada no mundo dos vivos. Embora não fosse uma forma digna de viver, esse objetivo a fazia sentir-se satisfeita consigo mesma.

Mas o que aconteceria com ela se também perdesse esse objetivo?

(36/47)

Yuki ficou surpresa ao perceber que o caminho à sua frente não levava a lugar algum. Ela havia chegado a um beco sem saída. Uma parte da parede de abóboras havia desmoronado, bloqueando a passagem.

Perto dali, havia uma jogadora caída no chão. Ela estava completamente imóvel, com tufos brancos saindo de várias partes do corpo. Mesmo a dezenas de metros de distância, Yuki percebeu de imediato que a garota estava morta. Os ferimentos indicavam que havia sido morta pelas crianças. Provavelmente ficou presa naquele beco sem saída enquanto tentava fugir. Enquanto imaginava a situação, Yuki se aproximou do corpo.

Então seus olhos se arregalaram ainda mais.

Era Haine. Embora o rosto estivesse desfigurado, Yuki conseguiu reconhecê-la pelo cabelo e pelo físico.

Ela já não fazia mais parte dos vivos. Teria sido eliminada pelo jogador tatuado? Teria conseguido se vingar, mas não possuía doces suficientes para sobreviver ao jogo? Ou teria ficado sem doces e sido morta antes mesmo de encontrar seu alvo? Torcendo para que fosse a segunda opção, Yuki desviou o olhar do cadáver.

Ela voltou sua atenção ao beco sem saída. Como o bloqueio havia sido causado pelo desmoronamento da parede, as abóboras não estavam empilhadas tão alto nem vedavam completamente a passagem. Em teoria, ela poderia atravessar se espremendo, contorcendo o corpo como quando se passa por uma multidão. No entanto, aquilo seria incômodo e ainda havia o risco de provocar um desabamento maior se tocasse no ponto errado. Decidindo que não valia a pena, Yuki deu meia-volta.

E então…

(37/47)

Coberta de ferimentos, Shion continuava avançando em direção a Haine.

(38/47)

Ela se lembrava do caminho. Embora estivesse focada demais em fugir para mapear o local quando os outros jogadores começaram a perseguir seus doces, a rota desde seu ponto inicial até onde havia encontrado Haine permanecia clara em sua mente. Sendo aquele seu trigésimo jogo, isso era natural.

No trajeto, ela encontrou apenas uma pessoa — uma jogadora acima do peso. Shion e a outra jogadora simplesmente seguiram caminhos opostos imediatamente, sem lutar ou trocar uma única palavra. Shion achou que seria fisicamente impossível roubar doces daquela garota, e a garota parecia não ter interesse em alguém sem doces.

Depois de passar por ela, Shion se perguntou por que alguém como aquela jogadora participava. Jogos mortais eram um espetáculo de entretenimento, e os participantes geralmente tinham rostos bonitos. Ainda assim, houve épocas no passado em que corpos mais cheios eram considerados o auge da beleza, então era possível que alguns espectadores preferissem esse tipo de jogadora. Além disso, a própria Shion tinha um rosto bastante comum, então a conclusão era que as preferências do público eram extremamente variadas e abrangentes.

De qualquer forma, Shion não foi atacada nem por jogadores nem pelas crianças no caminho até o local onde havia matado Haine. Até pouco tempo atrás, parecia amaldiçoada pelo próprio destino, mas sua sorte parecia ter mudado repentinamente para melhor. Ultimamente, tudo estava instável. Em um momento, a sorte estava ao seu lado, e no seguinte, virava completamente contra ela. O que significava aquilo? O que o destino reservava para ela?

Pensando nisso, Shion chegou ao ponto onde a parede de abóboras havia desmoronado.

— E então…

Duas jogadoras ficaram frente a frente.

(39/47)

É ela…, pensou Shion.

Uma jogadora com aparência de fantasma. Shion conhecia seu nome. Embora nunca tivessem se encontrado pessoalmente, ela já havia ouvido histórias. Yuki — a jogadora que sobreviveu a Candle Woods e derrotou a mentora de Shion. Shion sempre quis ter a chance de conversar com ela.

Mas encontrá-la ali, depois de ter sido encurralada até aquele ponto…

Shion não sabia dizer se aquilo era obra de boa ou má sorte.

Droga, pensou Yuki.

Ela havia sentido a presença da garota, mas não imaginava que ela estivesse tão perto. Quando Yuki se virou, a garota já estava ali.

Uma jogadora coberta de ferimentos.

Sua perna esquerda estava quebrada. Ela devia ter rastejado até ali, apoiando-se nas mãos e nos joelhos. As partes visíveis de seu corpo — rosto e membros — estavam cobertas de incontáveis hematomas. Na verdade, havia menos partes sem marcas do que partes machucadas. Yuki imaginou que as áreas sob o manto da garota também estavam em estado deplorável. A chama de vida daquela jogadora estava prestes a se apagar. Provavelmente foi por isso que Yuki subestimou sua presença.

E ainda assim… havia uma vitalidade na expressão da garota que não combinava com o estado de seu corpo. Era a primeira vez que Yuki encontrava aquela jogadora ferida, mas ela a lembrava de algo que havia visto apenas uma vez antes — o rosto de uma jogadora chamada Moegi, em Candle Woods. Naquela época, a expressão sincera de Moegi havia perfurado profundamente o coração de Yuki. Só era possível fazer aquela expressão quando alguém se entregava completamente a algo, de corpo e alma.

Naquele momento, Yuki ainda não tinha ideia do significado daquele encontro.

(40/47)

— …Você é a Yuki?

Yuki ouviu seu nome sair dos lábios da outra jogadora. Mantendo os olhos atentos nela, respondeu:

— Sou. Você me conhece?

— Conhecer? Claro que conheço. Você é tipo… a inimiga do meu “pai”…

Os lábios da garota se contorceram de forma anormal, algo que causaria desconforto em qualquer um que visse.

— Acho que nunca nos encontramos. Quem é você? — Yuki perguntou.

A garota não respondeu. Em vez disso, ergueu os braços como um cirurgião entrando em uma sala de operação. As mangas do manto caíram, revelando a pele até os cotovelos.

Ambos os braços estavam cobertos por tatuagens que lembravam marcas de queimadura.

— Isso responde sua pergunta? — disse a garota. Aquilo bastava.

— …Você é… aquela jogadora tatuada… Shion?

— Então você já ouviu falar de mim.

Não era de se admirar que a garota tivesse aquela aura estranha. Isso é ruim, pensou Yuki. Ela estava tão perto de terminar o jogo sem encontrar a jogadora tatuada.

— Pode sair do caminho? — Shion perguntou. — Eu vim aqui dar uma surra naquela idiota.

Yuki seguiu o olhar de Shion até o corpo de Haine.

— Foi você que fez isso? — perguntou Yuki.

— Foi — respondeu Shion casualmente. — Ela disse que queria se vingar de mim, então eu reagi.

Shion se aproximou ainda mais. Yuki permaneceu completamente imóvel. Interpretando aquilo como uma recusa em se mover, Shion parou a uma curta distância.

Então perguntou:

— Ei, você. O que acha disso?

— Disso o quê?

— Sabe… essa ideia de que vingança não resolve nada. Qual é a sua opinião?

Yuki levou alguns segundos para pensar antes de responder:

— Bem, acho que é verdade. Mas vingança é algo muito pessoal. Se alguém quiser levar isso até o fim, não tem como impedir.

Yuki achou que sua resposta era completamente comum, mas Shion pareceu surpresa.

— Você é estranha — disse ela. — Aqui vai o que eu penso: pessoas obcecadas por vingança vivem no mundo da lua. Todas ficam falando sobre o que vai acontecer depois de se vingarem. Sobre como vão se sentir vazias ou como a vingança vai fazê-las se sentir melhor…

— Elas nem sequer pensam na parte importante: como realmente se vingar. Só ficam brandindo uma lâmina e gritando “eu vou te matar!”. É ridículo. Qualquer pessoa ruim o bastante para fazer alguém querer se vingar vai reagir quando estiver diante da morte. E se essa resistência der certo, aí quem se ferra é quem busca vingança. Por que essas pessoas nunca param pra pensar nessa possibilidade?

Shion continuou:

— Isso só prova o quanto elas são incapazes. “Não posso deixar isso assim.” “Tenho que fazê-los pagar.” Só esses dois pensamentos já fazem elas perderem a cabeça. Enquanto isso, gente como eu passa o dia inteiro pensando em formas de atacar, ferir e matar. Tem que ser muito ingênuo pra achar que emoção é suficiente pra me derrotar. Quem não está com os pés na realidade merece morrer. É o natural… Ei, você acha que o que eu estou dizendo não faz sentido?

— …Acho — respondeu Yuki. — Pelo menos, pra mim é mais fácil entender pessoas que tentam se vingar de forma imperfeita.

Shion riu.

— Não quero ouvir isso vindo de você. Você está tentando completar noventa e nove jogos, certo?

— Estou.

— Por quê?

— Bem… é difícil explicar… — Yuki levou a mão ao rosto, escolhendo as palavras com cuidado. — É o caminho que eu decidi seguir há muito tempo. E, por causa dessa decisão, eu preciso continuar avançando.

Yuki deliberadamente não mencionou suas dúvidas atuais.

— Você está se ouvindo? — perguntou Shion. — Isso é um suicídio indireto.

— Talvez.

— Eu desistiria se fosse você — disse Shion, com um leve tom de conselho. — Não se prenda a um objetivo ridículo desses. Senão, você vai acabar se destruindo… igual a mim.

Shion estendeu os braços, como se exibisse a si mesma.

— …………

Ao ver o corpo da garota, Yuki entendeu tudo.

A jogadora tatuada, Shion. Yuki não sabia exatamente o que a havia levado a cometer um massacre, como tinha sido empurrada até a beira da morte, ou por que estava dando aquele conselho. Mas o rosto dela contava grande parte da história. Shion havia vivido. Yuki conseguia entender que ela havia alimentado um sentimento dentro de si, o expressado sem reservas e aceitado as consequências disso.

Uma visão surgiu diante de Yuki, como se estivesse olhando para um espelho. O espelho refletia o futuro. Se continuasse participando dos jogos, um dia acabaria como Shion. Nenhuma de suas convicções atingiria lugar algum, e ela acabaria rastejando pelo chão, destruída física e mentalmente.

Depois de ver essa visão, um sentimento surgiu dentro dela. E ela o expressou em voz alta:

— Eu aceito esse desafio.

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É só um olho, pensou Yuki. Qual é o problema? O que aconteceu com a sua coragem? E aquela disposição de morrer a qualquer momento? Quando você começou a se importar em sobreviver? Quando começou a pensar em desistir? Idiota. Morra. Morra. Vai lá e desaparece logo. O que tem de errado em se destruir? Seu verdadeiro objetivo é morrer depois de usar até o último fragmento da sua alma. Não foi por isso que você escolheu o caminho de jogadora? Então vá até o fim.

— Eu não tenho intenção de desistir, aconteça o que acontecer — disse Yuki, pensando em seu olho direito. — Eu ficaria feliz em morrer como você.

(42/47)

Uma visão surgiu diante de Shion, como se ela estivesse olhando para um espelho.

Será que Yuki entendia o que significava completar noventa e nove jogos? Já se arriscava a vida em um único jogo — repetir isso noventa e nove vezes? A chance de sucesso era tão baixa quanto a probabilidade de uma bola atravessar uma parede por tunelamento quântico. Aquilo sequer podia ser chamado de objetivo? Continuar naquele caminho não era simplesmente uma forma indireta de suicídio?

— Eu desistiria se fosse você — disse Shion. Antes que percebesse, estava dando conselhos. — Não se prenda a um objetivo ridículo desses. Senão, você vai acabar se destruindo… igual a mim.

Quem é você pra dizer isso? pensou Shion. A vida teria sido tão fácil se você tivesse conseguido fazer isso. Mas não conseguiu, e olha onde está agora — se arrastando como uma idiota.

"Igual a mim"? Fala sério. Você realmente tem a cara de pau de se comparar a um ser humano? Você não é humana. Desde aquele maldito dia, você se tornou um demônio que não respeita ninguém. E, por não ser humana, faz sentido que alguém superior a você te elimine. Aceita logo isso. Não existe uma única alma neste mundo que vá te aceitar—

— Eu aceito esse desafio.

Ao ouvir aquilo, seu fluxo de pensamentos foi interrompido.

— Eu não tenho intenção de desistir, aconteça o que acontecer… Eu ficaria feliz em morrer como você.

Shion processou cuidadosamente as palavras de Yuki.

Ela sentiu sua alma se aquietar. O turbilhão constante dentro dela — que rugia o tempo todo, independentemente de onde estivesse ou do que estivesse fazendo — se acalmou. As lembranças de quando havia sido acolhida por Kyara e vivido junto com os outros discípulos vieram à tona. Com apenas algumas palavras, Yuki concedeu até mesmo a alguém como Shion uma espécie de salvação.

Então essa é a garota que matou Kyara, pensou Shion.

Agora estava claro para ela que tudo havia levado àquele momento. Ela havia sobrevivido até ali apenas para encontrar a jogadora diante dela.

O que o destino reservava para ela agora?

— Trick or treat — disse Shion, olhando para a cesta de Yuki, quase vazia. — Entregue isso. Se fizer isso, poupo sua vida.

— Não — respondeu Yuki imediatamente.

Shion começou a rastejar em direção a Yuki.

Aqui está a tradução fiel, revisada e bem estruturada, mantendo a tensão e fluidez da cena:

(43/47)

Yuki observava enquanto Shion rastejava em sua direção.

Yuki manteve a guarda alta. Sua oponente estava ferida, mas jogadores à beira da morte costumavam ser os mais perigosos, já que lutavam literalmente até o último suspiro. Yuki estava muito mais cautelosa com Shion do que havia estado com qualquer outro jogador durante o jogo.

Não havia necessidade de lutar. Como aquilo era um jogo de sobrevivência, Yuki só precisava garantir doces suficientes e fugir. E, felizmente para ela, a perna de Shion estava quebrada, dando a Yuki vantagem em mobilidade. Em teoria, fugir parecia simples.

Infelizmente, ela estava encurralada em um beco sem saída. À esquerda, à direita e atrás havia paredes de abóboras, enquanto Shion estava bem à sua frente. Em teoria, poderia se espremer pelo bloqueio atrás dela, onde a parede havia desmoronado, mas isso corria o risco de causar um colapso maior. Além disso, ela teria que desacelerar para passar, o que daria a Shion a chance de alcançá-la.

Isso significava que sua única opção era avançar — escapar passando por Shion.

Yuki pensou rapidamente: deveria ir pela esquerda ou pela direita? Após um breve instante de hesitação, escolheu a direita. Ir pela esquerda a obrigaria a acompanhar Shion com o olho direito — o mesmo que agora era uma bomba-relógio.

Yuki se moveu. Tomando cuidado para não derrubar os doces da cesta, fez vários movimentos falsos antes de avançar pela direita de Shion.

Porém—

Como um reflexo no espelho, Shion se moveu na mesma direção e no exato mesmo instante.

— ……!

Yuki cerrou os dentes. Sua oponente havia previsto seu primeiro movimento.

Shion avançava usando os braços e a perna direita, mantendo-se próxima ao chão. Embora mais lenta que Yuki, ainda era rápida o suficiente para bloquear seu caminho. Ao se aproximar, ergueu os braços e agarrou o manto de Yuki.

Yuki também se abaixou e segurou os braços de Shion. A cesta pendurada em seu braço balançou com o movimento. Instintivamente, Yuki olhou — felizmente, nenhum doce caiu. Voltando a atenção para Shion, apertou com força os braços da garota. Mesmo assim, Shion continuava tentando avançar. A força de seus braços era absurda para alguém ferido. O instinto de sobrevivência estava fazendo efeito.

Os olhos de Shion se estreitaram por um instante — parecia que ela tinha deixado de piscar. Mas suas palavras logo deixaram claro que não era isso.

— Espera… Você está preocupada com o seu olho direito?

O corpo de Yuki gelou, como se um espírito tivesse soprado sobre ela.

Ela reagiu instintivamente, desferindo um chute. Porém, Shion se abaixou e desviou. Mais do que isso, usou o impulso para puxar Yuki para baixo, forçando-a a soltar os braços. Em seguida, recuou um, dois, três passos, saindo do alcance.

Yuki voltou à posição de pé e começou a pensar.

Ela sabe sobre o meu olho direito. Como? Pela cor da íris? Ou meus movimentos entregaram? Foi assim que ela previu que eu iria para a direita? Não… pela reação dela, parece que só percebeu agora.

Enquanto Yuki tentava entender, a situação continuava mudando.

Shion preparou o próximo ataque, pegando uma abóbora do chão. Usar abóboras como arma era algo comum — provavelmente todos os jogadores já haviam feito isso ao menos uma vez. A própria Yuki já tinha feito, e já tinha visto outros fazerem.

Ainda assim, ela não conseguiu esconder o choque.

A abóbora nos braços de Shion tinha o tamanho de um micro-ondas.

A adrenalina permitia algo assim?

Shion arremessou o objeto, possivelmente mais pesado que ela mesma. A mira foi perfeita — a abóbora voou direto em direção a Yuki. Sem intenção de bloquear aquilo de frente, Yuki se moveu. Como estava apoiada no pé direito, transferiu o peso para o esquerdo e desviou para a esquerda—

Mas, no instante seguinte, um golpe que ela não viu chegar atingiu sua cabeça.

Yuki foi derrubada no chão.

(44/47)

Shion derrubou Yuki. A cesta da garota caiu ao lado, espalhando os doces por todos os lados. Shion havia girado apoiada nos braços e desferido um chute giratório, como em um movimento de breakdance, e agora observava o resultado.

Ela havia acertado — algo que a surpreendeu.

O movimento em si era simples. Ela apenas contornou Yuki pela direita e a chutou. O arremesso da abóbora serviu para forçar Yuki a se mover para a esquerda, mas fora isso, nada muito elaborado. Ainda assim, Yuki não só falhou em desviar, como nem percebeu o ataque. Caiu facilmente, espalhando seus doces.

Eu consigo vencer, pensou Shion. Ela não enxerga com aquele olho. Não parece completamente cega, mas vai falhar se eu complicar as coisas. Como jogadora, ela já era.

Com problemas de visão, lutar de perto se tornaria impossível.

Mesmo ferida, Shion agora acreditava que tinha chance. Mais uma vez, pensou que aquele era um dia de sorte—

Mas logo depois, ouviu vários passos se aproximando.

Tinha ficado tão focada na luta que não percebeu antes. Quando se deu conta, eles já estavam alinhados, bloqueando a saída do beco.

Crianças — mais de dez ao todo.

Shion percebeu que o céu havia clareado. O jogo estava chegando ao fim. Provavelmente, todas as crianças estavam se reunindo ao redor dos jogadores sobreviventes para exigir doces como clímax final.

— Trick!

— Or!

— Treat!

As crianças falaram em uníssono.

Shion e Yuki olharam ao mesmo tempo para a cesta caída. Estava perto de Yuki, um pouco distante de Shion. Somando os doces restantes e os espalhados, havia menos de vinte — insuficiente para ambas escolherem “treat”.

Ambas perceberam isso ao mesmo tempo. E, ao mesmo tempo, agiram.

Yuki pegou os doces ao seu redor e começou a jogá-los para as crianças. Shion avançou rapidamente, usando o impulso para atacar. Yuki segurou seus braços, repetindo a mesma situação de antes.

Mas dessa vez não durou muito. Se perdessem tempo, as crianças as matariam.

As duas desistiram de lutar diretamente e passaram a disputar os doces no chão. Ajoelhadas, moviam as mãos rapidamente, tentando pegar o máximo possível.

— Trick or…

— Treat!

A segunda declaração ecoou. A disputa ficou mais intensa.

Sem doces suficientes para ambas, precisavam atrapalhar uma à outra:

afastando as mãos da rival, roubando doces escondidos, pegando balas no ar…

Usavam braços e pernas — arrastando o chão como limpadores de para-brisa para puxar doces e prender os braços da outra. E, claro, continuavam atacando diretamente.

— Trick or treat!

Na terceira declaração, ambas já haviam adotado a estratégia de atacar com os braços enquanto puxavam doces com as pernas. Lutavam com todo o corpo, sentadas no chão.

Mas então—

— Trick!

Metade das crianças ergueu armas e avançou.

Elas não haviam cumprido o tempo limite. Nenhuma das duas tinha fornecido doces suficientes.

— Trégua temporária! — gritou Yuki.

Ela então se virou para o beco bloqueado pelas abóboras — um caminho possível, embora arriscado. Levantou-se e correu naquela direção.

Mas Shion já estava se movendo também, rastejando rapidamente.

Enquanto corria, Shion deslizou para o lado direito de Yuki — o lado que ela tinha dificuldade de enxergar.

Ela também pretendia fugir, mas não aceitara totalmente a trégua.

Com a perna quebrada, estava em desvantagem. Conseguira velocidade inicial rastejando, mas logo Yuki a ultrapassaria. Além disso, ambas teriam que desacelerar ao atravessar as abóboras — o que permitiria às crianças alcançá-las.

Shion precisava de tempo.

Precisava de um sacrifício.

Ela olhou para Yuki, correndo ao seu lado.

Em pensamento, murmurou:

Obrigada por salvar meu coração.

Obrigada por me reconhecer.

Mas… é aqui que você morre por mim.

Shion estendeu os braços, mirando nas pernas de Yuki em movimento. Então saltou para desferir um ataque impossível de evitar e detectar.

Porém, naquele exato instante—

Yuki saltou.

Como se tivesse previsto com o olho direito.

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Yuki não tinha visto nada. Ainda assim, já esperava que um ataque viesse.

Não havia como Shion conseguir escapar sozinha com uma perna quebrada, e a garota era, acima de tudo, uma maníaca homicida. Não uma jogadora, mas uma assassina. Não uma especialista em sobreviver, mas em matar.

Consequentemente, Yuki havia previsto que Shion faria um movimento. Ela estava familiarizada com a forma de pensar de alguém como Shion, já tendo lutado contra Kyara no passado.

E assim, ela conseguia perceber sem precisar ver.

O lado direito do campo de visão de Yuki estava comprometido. Porém, se soubesse de antemão que algo estava vindo, prever e evitar o ataque ao sentir a malícia do oponente não era difícil — desde que soubesse que era algo que não conseguiria enxergar.

E Yuki foi ainda mais longe do que isso.

Ela chegou exatamente à mesma conclusão que Shion — que simplesmente fugir não permitiria escapar das crianças. Foi por isso que ela induziu Shion a correr para a sua direita, por isso que convidou o ataque e por isso que girou intencionalmente ao saltar.

Outra característica dos maníacos homicidas é que eles sempre acreditam estar na posição de matar. A possibilidade de estarem na posição de serem mortos — de sofrerem um contra-ataque no momento em que abaixam a guarda durante o ataque — só lhes ocorre tarde demais.

Assim como Yuki tinha uma limitação no olho direito, Shion também possuía, de certa forma, uma falha na sua “visão”. E foi essa falha que Yuki explorou.

Girando no ar, Yuki estendeu as pernas. Ela acertou um chute giratório no pescoço de Shion, fazendo a garota ser lançada na direção das crianças.

Yuki não parou para ver o que aconteceria com Shion.

Ela virou as costas para a garota, impulsionou o chão ao aterrissar e saiu correndo.

No momento em que chegou ao beco sem saída, ouviu o som de ossos se quebrando atrás dela. Era óbvio o que aquele som significava.

Yuki se espremeu por uma abertura entre as abóboras que bloqueavam o caminho e seguiu em frente. Como as abóboras estavam tão densamente agrupadas quanto passageiros em um trem no horário de pico, Yuki foi forçada a reduzir sua velocidade a uma fração do que era antes.

Ao voltar sua atenção para trás, ela sentiu várias crianças se aproximando. Elas ainda estavam em perseguição.

Enquanto se espremia pelo espaço estreito, sentiu vibrações vindas das abóboras em contato com seu corpo. As vibrações vinham em um ritmo constante — tum, tum, tum, tum.

Curiosa sobre a origem, Yuki olhou para cima — não por suspeita, mas por puro instinto. Seu instinto de sobrevivência foi o único motivo pelo qual conseguiu perceber o que viu a seguir.

Uma criança segurando uma serra gigante estava em cima das abóboras, exatamente acima da posição de Yuki.

Yuki se agachou por reflexo.

A serra passou logo acima de sua cabeça — não — passou raspando, chegando a invadir uma fração de centímetro do topo de seu crânio.

Uma dor intensa atravessou sua cabeça, e fios de cabelo arrancados se espalharam pelo ar, junto com sangue branco.

No instante em que Yuki percebeu que a criança havia pulado pelas abóboras como se fossem degraus, algo atingiu suas costas.

Era, obviamente, a mesma criança, que havia aterrissado sobre seu corpo.

O impacto forçou Yuki ao chão, de barriga para baixo, tirando todo o ar de seus pulmões. Ela tentou respirar novamente, mas percebeu que era impossível.

A criança estava estrangulando-a com a força de uma prensa hidráulica.

Yuki tentou arrancar a criança de cima de si, mas não conseguiu. As crianças haviam sido abençoadas com uma graça especial dos organizadores. Elas possuíam uma força absurda, capaz de deixar os jogadores completamente indefesos.

Logo, a visão de Yuki começou a falhar, indo e voltando. Seu cérebro começou a parar de funcionar lentamente.

Algo branco surgiu no canto de sua consciência e rapidamente invadiu sua mente.

E no momento em que aquilo estava prestes a preencher completamente sua cabeça e cruzar a linha final…

…Yuki ouviu o som de pássaros cantando.

(46/47)

Piu, piu. Piu, piu.

O som se repetia incessantemente.

Era o canto de pássaros. Porém, não era natural — repetia-se exatamente da mesma forma e vinha de todas as direções. Devia ser uma gravação sendo transmitida pelos alto-falantes instalados nas abóboras.

Yuki entendeu que aquilo sinalizava a chegada da manhã.

Logo, a força ao redor de seu pescoço desapareceu, assim como a sede de sangue e o peso sobre seu corpo. Ela ouviu passos se afastando cada vez mais.

Essas informações foram suficientes para concluir que a criança armada com a serra a havia soltado.

O jogo havia terminado.

Yuki havia conquistado sua quadragésima quinta vitória.

Ela se sentou no chão e respirou profundamente, esfregando o pescoço com a mão.

Tinha sido por pouco.

Se o jogo tivesse terminado um ou dois segundos depois, ela estaria morta agora.

Ela havia arrancado a vitória das garras da morte, em uma situação muito mais perigosa do que em Candle Woods e Golden Bath.

Yuki olhou para trás.

Mesmo sem conseguir enxergar além da multidão de abóboras, ela fixou o olhar na direção onde o corpo de Shion deveria estar.

Ela era forte, pensou Yuki.

Não acredito que ela percebeu tão rápido o problema do meu olho direito e tentou tirar vantagem disso.

Esse meu olho será uma fraqueza fatal contra jogadores de alto nível — essa foi a lição que ela me deixou.

Ainda assim, Yuki havia sobrevivido.

Porém…

“…As coisas não estão boas se continuarem assim,” murmurou, com uma determinação pequena, mas firme.

Foi apenas quando seu agente veio recebê-la que Yuki percebeu que havia esquecido de dizer sua frase habitual:

“Bom jogo.”

(47/47)

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(0/3)

Yuki encontrou Kokone no caminho de volta da loja de conveniência.

(1/3)

O jogo havia terminado.

Como Yuki tinha sido estrangulada e sofrido um corte no couro cabeludo, ela foi levada ao hospital. Felizmente, nenhum dos ferimentos era grave, então deram a ela o habitual comprimido para dormir e a levaram de volta para casa.

Normalmente, ela acordava no carro do seu agente ou continuava dormindo até ser carregada para dentro do apartamento — e dessa vez foi o segundo caso. Yuki imaginou que havia dormido por mais tempo, já que enfrentara mais problemas do que o normal.

Depois de acordar, Yuki ficou deitada na cama por bastante tempo, completamente largada. O que finalmente a fez se levantar foi o ronco do seu estômago.

Decidindo sair para comprar algo, ela entrou no mundo da meia-noite. Comemorar sua quadragésima quinta vitória não combinava com seu humor, então comprou apenas um pão doce na loja de conveniência.

Enfiando o pão na boca, começou a caminhar de volta para casa.

No caminho, encontrou uma garota usando um vestido de cores suaves. Era Kokone, uma das gêmeas da mansão Kirihara.

Yuki se surpreendeu. Nunca esperava esbarrar com ela. Esquecendo de tirar o pão da boca, murmurou:

“…Boa noit’…”

“Boa noite,” respondeu Kokone, em um tom completamente sério.

Como não havia como aquilo ser coincidência, Yuki perguntou:

“Hum… você quer alguma coisa?”

“Desejo lhe oferecer meus agradecimentos, assim como um presente,” respondeu Kokone, fazendo uma reverência profunda. “Você tem minha sincera gratidão por derrotar Shion.”

“…Você sabe disso?”

Pouco tempo havia passado desde o fim da Noite de Halloween. Era difícil acreditar que uma informação tão específica tivesse se espalhado tão rápido.

Kokone teria uma rede especial de informações? Ou ela também participou do jogo, como Haine?

Enquanto Yuki pensava nisso, Kokone respondeu com outra explicação:

“Eu estava assistindo.”

“…Assistindo? Como membro da plateia?”

Kokone assentiu.

“Eu queria ver como minha irmã e Shion terminariam, então entrei em contato com os organizadores.”

Nesse caso, ela certamente sabia do destino de Haine.

“Muito obrigada, de verdade,” Kokone expressou sua gratidão novamente. Porém, seu rosto estava longe de demonstrar alegria.

Yuki se lembrou das palavras de Shion — de que pessoas após uma vingança não estão mais conectadas à realidade. Naquele momento, ela havia ignorado isso, mas agora precisava admitir que fazia certo sentido.

Haine provavelmente não imaginava um futuro onde Kokone teria aquela expressão.

“…Quer dizer, não fui eu que derrotei ela…” Yuki tentou minimizar. “Eu não dei o golpe final, então não mereço agradecimentos.”

“Mesmo assim, o fato de ela estar morta significa muito para mim. Mais uma vez, muito obrigada.”

Ser agradecida por matar alguém causava uma sensação estranha.

Como não queria continuar naquele clima, Yuki mudou de assunto:

“Então… o que você quer dizer com ‘presente’?”

“É sobre o seu olho direito,” respondeu Kokone. “Ouvi dizer… que ele não está em boas condições. Está correto?”

Ela devia ter obtido essa informação como espectadora.

“Sim…” Yuki tocou a região abaixo do olho. “Agora não é tão grave, mas… não sei como vai ficar no futuro.”

“Mesmo assim, você pretende continuar participando dos jogos?”

“Pretendo,” respondeu Yuki com firmeza.

“Nesse caso, talvez eu possa ajudar.”

“…Como?”

“Conheço uma jogadora que participou de jogos mesmo sendo completamente cega.”

Yuki levou um momento para processar aquilo.

Uma pessoa que sobrevivia como jogadora sendo totalmente cega parecia mais absurdo do que histórias sobre unicórnios.

“Uma pessoa assim… realmente existe?”

Em contraste com sua surpresa, Kokone respondeu calmamente:

“Ela é uma velha conhecida de Kirihara. Ouvi dizer que já se aposentou… mas acredito que saiba como vencer jogos sem depender da visão. Gostaria que eu marcasse um encontro entre vocês?”

Yuki não poderia pedir um presente melhor.

“Sim, por favor.”

“Então está feito. Com licença.”

Kokone fez outra reverência e se afastou silenciosamente.

Após vê-la desaparecer, Yuki retomou o caminho para casa. Colocou o pão de volta na boca e começou a pensar no que havia perdido e ganho recentemente.

Coisas que perdeu—

A acuidade visual do olho direito.

A estabilidade que a sustentava, devido à sua condição.

Coisas que ganhou—

Uma solução para o jogo catastrófico.

A experiência de derrotar uma maníaca homicida sozinha.

E, como Kokone mencionou, a existência de uma jogadora cega.

Três passos à frente e dois para trás, hein… pensou Yuki.

Ela ainda levaria um mês para perceber que, na verdade, havia dado quatro passos à frente.

(2/3)

Cerca de um mês após o fim da Noite de Halloween—

Yuki continuou vencendo jogos sem dificuldades.

Seu olho direito não piorou nesse período, e ela não encontrou jogadores capazes de explorar sua fraqueza. Assim, venceu mais dois jogos, chegando a quarenta e sete vitórias.

Nesse ponto, Kokone já havia entrado em contato sobre a jogadora cega.

Aparentemente, ela morava no interior e estava disponível para se encontrar a qualquer momento.

Yuki queria ir imediatamente, mas havia um problema: alguém vinha a observando na escola ultimamente.

Ela comentou isso com seu agente, e agora ambos trabalhavam juntos para resolver a situação.

Certo dia, ao voltar da escola, Yuki encontrou alguém em frente ao seu apartamento.

Não era seu agente, nem Kokone, nem um vizinho.

Era uma garota absurdamente bonita.

Devido à sua vida como jogadora de jogos mortais, Yuki já conhecia muitas garotas bonitas — mas essa se destacava completamente.

Ela era tão linda que chegava a ser difícil de encarar. Sua beleza transmitia perigo — como a de uma femme fatale capaz de seduzir um rei e arruinar um reino, ou de uma criatura que atrai homens com sua aparência irresistível antes de devorá-los.

Quem é ela?

Provavelmente uma jogadora — mas Yuki não a reconhecia.

Mesmo tendo esquecido Keito, tinha certeza de que não esqueceria alguém tão marcante.

Então por que estava ali?

Enquanto pensava nisso, a situação mudou.

Assim que a garota a viu, sorriu e se aproximou com passos leves.

Com uma voz elegante, disse, fazendo uma reverência:

“Quanto tempo.”

“…Oi,” respondeu Yuki, meio sem reação.

A garota ergueu a cabeça e apertou sua mão — uma mão tão pálida que era estranho não ver veias.

“Eu estava te procurando. Finalmente encontrei! Isso significa que podemos ir para a lição dois, certo?”

“Hã?”

A garota a encarou diretamente.

Seu rosto lembrava vagamente alguém… uma jogadora que Yuki encontrou durante a Noite de Halloween.

Embora estivesse quase irreconhecível, Yuki percebeu pela leve bochecha arredondada e pelo penteado em formato de dois coques.

Era Tamamo.

A garota gordinha cujo nome combinava perfeitamente com sua aparência.

Agora, estava diante dela… completamente diferente.

Memórias de um mês atrás vieram à tona.

Yuki havia cedido à insistência de Tamamo e concordado em treiná-la. Depois, como desculpa para se livrar dela, disse que só continuariam para a “lição dois” se ela emagrecesse e conseguisse alcançá-la.

Ela realmente tinha dito isso.

Mas ainda assim…

“Você tá brincando, né?”

A garota não respondeu.

Apenas continuou sorrindo para Yuki.

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Fim da leitura

Capítulo 9.2 concluído

Volume 4 – Jogo 44/47.5/44.5/45/Ex4 (parte 2)