Noiva do Mestre de Barreiras — Capítulo 10: Volume 2 – Capítulo 4

Noiva do Mestre de Barreiras
Cap. 10
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Noiva do Mestre de Barreiras

Volume 2 – Capítulo 4

Capítulo 10

9.101 palavras~40 min de leitura

Capítulo 4

Por vários dias após Hana aceitar ser amiga de Kikiyo, a garota começou a brotar na Classe C praticamente a cada hora para vê-la. A frequência de suas visitas não era novidade, mas a sua atitude com certeza era.

"Hanaaa!" — Kikiyo parecia um cachorrinho cumprimentando o dono com o rabo abanando, transbordando felicidade.

Antes ela costumava ficar só rondando a porta, mas agora entrava na sala de aula sem a menor cerimônia.

Naturalmente, seu gêmeo, Kiriya, vinha logo atrás.

Hana estava atolada até o pescoço estudando para as próximas provas e começou a se perguntar se não deveria cortar aquela amizade recente antes que fosse tarde demais.

"Para de me importunar, eu te imploro" — disse Hana. — "Toda a matéria que eu acabei de socar na minha cabeça evaporou por completo..."

"Você não precisa estudar tão a sério assim. Conversa comigo em vez disso." — Kikiyo se agarrou a Hana com um sorriso radiante.

Uma pessoa observava tudo com puro ciúme.

Essa pessoa era aquela reconhecida por todos como a melhor amiga de Hana: Suzu.

"A Hana vai conversar comigo" — rosnou Suzu. — "Volta para a sua própria sala e vai fazer amizade com o pessoal da Classe A!"

Quando os gêmeos da família principal dos Nijouin tinham se transferido, Suzu quase caiu para trás de tanta empolgação, mas ao ver Kikiyo virando unha e carne com Hana, as chamas da hostilidade acenderam em seu coração.

"Eu quero conhecer melhor a Hana" — declarou Kikiyo.

"Ah, é? Se for assim, você tem que passar pela única e legítima melhor amiga dela: eu mesma" — rebateu Suzu, estufando o peito.

"Melhor amiga?! Que inveja..." — choramingou Kikiyo. — "Eu também quero ser a melhor amiga dela! Eu posso, Hana?"

"Não. Absolutamente não! A melhor amiga da Hana sou eu! Não é, Hana?!" — exigiu Suzu.

"Hum, é, acho que sim" — disse Hana. Ela tinha acabado de fazer as pazes com Kikiyo, então a garota ainda não preenchia os requisitos para o cargo de melhor amiga.

Suzu comemorou. — "Ebaaa!"

Kikiyo ficou desolada. — "Não pode ser!"

"Por favor, fiquem quietas de uma vez" — implorou Hana. Ela não estava absorvendo nada do livro didático. Aquelas duas faziam barulho demais.

Ela já conseguia sentir a desgraça iminente das sessões de reforço particulares da Mio e estremeceu. Essa era a única coisa que ela precisava evitar a todo custo.

Hana encarou os gêmeos. "Escuta, Kikiyo, Kiriya, vocês dois são da Classe A, né?" — Elas já estavam se chamando pelo primeiro nome agora que eram amigas.

"Sim. O que tem?" — perguntou Kikiyo.

"Como são as notas de vocês?"

"Vejamos. A Hazuki é a número um nas aulas práticas, seguida pelo Nozomu, e depois nós dois. Nas matérias teóricas, o Kiriya conseguiu desbancar a Hazuki e pegou o primeiro lugar."

"Nossa, as notas dele são tão boas assim?"

"O Kiriya é muito inteligente. Meu irmãozinho é o meu maior orgulho" — gabou-se Kikiyo, com uma expressão convencida, como se estivesse falando de suas próprias notas.

Hana só tinha descoberto que Kikiyo era a mais velha dos gêmeos depois que viraram amigas. Quando ouviu isso, ela se segurou para não dizer que tinha certeza absoluta do oposto. Kiriya era bem mais centrado e parecia mais velho. Quem diria que ele era, na verdade, o caçula?

"E por falar nisso, como são as suas notas?" — perguntou Hana para Kikiyo.

Kikiyo olhou para o lado. Essa reação foi o suficiente para entregar exatamente o fiasco de suas pontuações nas provas. Por algum motivo, Suzu de repente deu um sorriso acolhedor e deu um tapinha no ombro de Kikiyo.

As notas delas podiam ser igualmente ruins, mas a Classe A e a C eram tão diferentes quanto o céu e a terra. Hana preferiu não tocar nesse detalhe.

◆

A vida escolar de Hana, no geral, tinha se tornado bem movimentada.

Os terroristas continuavam à solta, mas os seus dias passavam em relativa tranquilidade.

Então, um dia, um rosto conhecido visitou a residência dos Ichinomiya.

Hana estava estudando freneticamente em seu quarto quando Towa anunciou:

"Senhora, a senhora tem uma visita. O que gostaria de fazer?"

"Uma visita? Quem é?" — perguntou Hana.

Essa era a primeira vez que alguém aparecia para vê-la ali. Saku tinha proibido seus pais de se encontrarem com ela, e era pedir demais que Suzu, pertencente a um ramo secundário da família Sankourou, fizesse uma aparição na casa principal dos Ichinomiya.

Hana não conseguia pensar em nenhuma outra visita em potencial. Ela tombou a cabeça, intrigada.

"A visitante se identificou como 'Sae'" — disse Towa.

"Ah! A Sae?!" — Hana esganiçou-se. Ela correu para pedir que Towa levasse Sae até a sala de visitas, depois deu uma ajeitada no visual e foi ao encontro de sua antiga empregada.

Ela não via Sae desde que tinha deixado a residência dos Ichise. Seu coração batia acelerado ao dar um passo para dentro da sala. Lá, esperando por ela, estava a mesma Sae de sempre.

"Senhorita Hana!" — clamou Sae, tomada pela emoção. Sua voz estava embargada pelo choro. Ela se virou para encarar Hana e, sem se levantar da posição formal de joelhos, curvou a cabeça.

Hana correu até a mulher. — "Quanto tempo, Sae."

Sae ergueu a cabeça e olhou para Hana. — "Parece que faz anos que não nos vemos."

"Parece mesmo. Me desculpa por não ter conseguido te agradecer ou me despedir antes de sair de casa, Sae."

"Por favor, não se preocupe com isso" — disse Sae. — "A senhorita está feliz morando aqui, Senhorita Hana? Não precisa mais passar pelos tipos de provações que enfrentava na casa dos Ichise?"

"Estou bem. O Saku, a mãe dele e os funcionários me tratam super bem" — tranquilizou-a Hana.

"Fico muito aliviada em ouvir isso." — Um sorriso caloroso e maternal surgiu no rosto de Sae. Ela parecia genuinamente feliz por Hana.

De fato, Sae era muito mais mãe para Hana do que sua própria mãe de sangue.

"Mas por que você está aqui?" — perguntou Hana. — "Fiquei surpresa quando soube que veio me visitar do nada."

Ela tinha pedido para se retirarem da sala, então ela e Sae estavam a sós.

Na verdade, Aoi e Miyabi estavam posicionados logo atrás de Hana, mas ao contrário de Saku, que conseguia apontar com precisão cirúrgica onde os dois estavam, Sae não sentia absolutamente nada, já que quase não tinha talento como praticante.

Arashi estava tirando uma soneca no corredor externo que cercava a casa, visível para quem quisesse ver. Não havia ninguém tolo o suficiente naquela casa para mexer com um deus; ao contrário de um cidadão comum na rua, todos ali sabiam exatamente o quão assustadora uma divindade podia ser. Arashi ficava à toa por onde bem entendia sem precisar ficar cuidando das costas.

O rosto de Sae obscureceu no instante em que Hana perguntou o motivo da visita. Ela curvou a cabeça profundamente, encostando a testa no tapete de tatame. — "Por favor, salve a Senhorita Hazuki!" — implorou ela.

A surpresa cruzou o rosto de Hana antes de sua expressão se tornar afiada como a de um gavião. — "Do que você está falando?"

"Eu sei que estou passando dos limites como empregada," — disse Sae, — "mas o patrão e a madame estão ignorando completamente os desejos da senhorita... Eu não aguento mais vê-la tão desolada."

Hana engoliu o impulso de gritar e bombardear Sae de perguntas. Ela controlou as emoções e perguntou, — "O que aconteceu?"

Devia ser algo muito sério para fazer Sae vir até ali, e o que quer que fosse, ela sentia que estava ligado ao incidente anterior, quando Hazuki tinha perdido o controle de seus poderes.

Sae explicou: "O patrão pretende casar a Senhorita Hazuki. O marido dela já foi escolhido."

"O quê?"

"O noivo é de uma família secundária e é mais de vinte anos mais velho que ela. Pelo que parece, o patrão planeja usar esse casamento para aumentar drasticamente a influência da família dentro do clã."

"...Aquele canalha que eu chamo de pai" — cuspiu Hana, com veneno na voz. — "Não me diga que a Hazuki concordou com isso."

"É exatamente como a senhorita teme" — respondeu Sae. — "E não, a Senhorita Hazuki nunca teve o direito de recusar, para começo de conversa. A senhorita sabe muito bem que o patrão não é o tipo de pessoa que desiste quando ouve um 'não'."

"Sim, eu sei. Mas mesmo assim, como eles puderam ignorar os sentimentos da Hazuki em uma decisão tão importante?"

Mas, no fundo, os sinais sempre estiveram ali.

Quando Saku estava escolhendo sua noiva, eles não tinham pressionado a Hazuki para conquistar a mão dele de qualquer jeito?

Aqueles dois viam a própria filha como nada mais do que uma ferramenta, e o casamento era simplesmente uma forma de subir no conceito da família. Amor nunca fez parte da conversa.

"Até quando eles vão continuar usando a Hazuki antes de ficarem satisfeitos?" — A raiva borbulhou dentro de Hana. Ela estava tão furiosa que a simples ideia de chamar aquelas pessoas de pai e mãe lhe causava nojo. — "Mas a Hazuki também tem culpa. Se ela não queria, devia ter batido o pé. Ela fica se fazendo de filha perfeita e compreensiva como sempre. Até certo ponto, ela está colhendo exatamente o que plantou."

Se a Hazuki tinha algo a dizer, tudo o que precisava fazer era abrir a boca, em vez de engolir tudo em seco.

E mesmo assim, ela nunca dizia nada. Era uma marionete muda sob o controle dos pais.

"A senhorita está errada, Senhorita Hana" — disse Sae. — "A senhorita entendeu mal a sua irmã."

"Como assim?"

"A Senhorita Hazuki me proibiu de abrir a boca, mas uma ordem dessas com certeza perdeu a validade a esta altura. Ela sempre tentou te proteger, Senhorita Hana, mas do jeito que as coisas estão, ela nunca mais será feliz na vida."

"...O que você quer dizer com 'proteger'?"

Proteger Hana?

Do que raios Sae estava falando?

O rosto da garota ficou rígido.

"A Senhorita Hazuki aceita as vontades dos seus pais para poder te proteger" — declarou Sae.

"Eu não estou entendendo nada!" — gritou Hana, com a voz tremendo.

Sae apenas a encarou com um olhar firme e constante. Aqueles olhos inabaláveis fizeram Hana recuperar a compostura.

Sae abriu a boca para falar. — "O patrão e a patroa sempre a trataram com frieza, acreditando que a senhorita não tinha talento e era uma inútil. No entanto, a atitude deles em relação à senhorita mudou drasticamente para pior depois que a senhorita invocou seu shikigami."

"...É verdade." — Hana tinha ficado radiante ao conseguir seu primeiro shikigami, naturalmente, mas seus pais tinham visto a Azuha como puro lixo. Hana nunca esqueceria o olhar nos olhos de seus pais naquele momento.

"O shikigami que a senhorita invocou era um inseto, a mais fraca de todas as formas. O patrão ficou desesperado com o resultado. Foi aí que eles começaram a discutir colocar a senhorita para adoção para que não virasse uma âncora para a família Ichise."

"O quê?!" — exclamou Hana. Essa era a primeira vez que ouvia falar disso.

Mas ela não podia negar que seus pais seriam perfeitamente capazes de descer a esse nível. O pensamento a deixou terrivelmente triste.

"Quem colocou um ponto final nisso foi a Senhorita Hazuki. Ela implorou para o patrão e para a patroa deixarem a senhorita ficar. Em troca, ela disse que se esforçaria o dobro por vocês duas."

Hana sentiu como se tivesse levado um golpe na cabeça. "...Eu não sabia disso..."

"Como a senhorita deve imaginar, depois disso o patrão e a patroa contrataram professores particulares para ela e impuseram uma carga de estudos totalmente absurda" — continuou Sae. — "E, como prometido, ela se destacou em todas as matérias, sem nunca soltar um único suspiro de reclamação."

"...Você sabia disso esse tempo todo, Sae?"

"Não, eu também só descobri recentemente. Quando a empregada designada para a Senhorita Hazuki pediu as contas, ela me contou tudo. Disse que, do jeito que as coisas estão, a Senhorita Hazuki dá pena."

Os pensamentos de Hana viraram uma tremenda bagunça. No fundo, ela sempre tinha se enxergado como a vítima e sua família como os carrascos. Mas talvez não fosse bem assim. No mínimo, Hazuki aparentemente tinha se sacrificado pelo bem de Hana.

A expressão de Hana era de puro sofrimento — como se fosse desabar no choro a qualquer segundo. Ela olhou para Sae com um olhar suplicante.

"Sae..."

Sae se aproximou de Hana silenciosamente e segurou a sua mão. — "Senhorita Hana. Por favor, salve a Senhorita Hazuki. Eu quero ver as duas amigas de novo, do mesmo jeito que eram no passado."

"Mesmo que você me peça isso, a Hazuki não vai me escutar de jeito nenhum."

Sempre tinha sido assim. 'Você é burra demais para entender', ela dizia e jogava a mão de Hana longe. O que Hana deveria dizer diante de tanta hostilidade?

Vendo Hana hesitar, Sae a repreendeu: "Não tenha medo, Senhorita Hana. Não importa o quão ferozmente ela resista, a única pessoa capaz de alcançá-la é a senhorita. Isso por causa do laço forte que existe entre vocês duas."

"A Hazuki e eu não temos mais nada a ver uma com a outra."

Esse laço tinha sido cortado há muito tempo. O tipo de confiança compartilhado entre Kikiyo e Kiriya simplesmente não existia entre ela e Hazuki.

"Não" — disse Sae, — "vocês ainda estão conectadas. A senhorita apenas não percebeu. A Senhorita Hazuki está esperando por você."

A marra habitual de Hana tinha sumido por completo. Ela parecia uma criança perdida que não sabia para onde ir.

Foi então que... Aoi e Miyabi se mostraram.

"Mestra" — disse Aoi.

"Mestra Hana" — disse Miyabi.

Sae ficou em choque, sem conseguir falar nada.

"Vá, Mestra" — disse Aoi.

"Mas a Hazuki não vai ouvir uma única palavra minha. O que eu devo fazer?" --- perguntou Hana.

"Mostre os seus poderes. Você não precisa mais ser protegida. Mostre para aquela garota que você tem a força necessária para ser a protetora" — disse Aoi.

Miyabi acrescentou: "Se ainda existe esperança de consertar a relação de vocês, você precisa fazer tudo o que puder. Você não consegue deixar a Hazuki de lado. Isso está escrito com todas as letras na sua cara. Por que não tentar de tudo?"

"Isso pode significar a perda da vida pacífica que você tanto quer. O que é mais importante para você? Aquela garota ou os seus dias de paz e sossego?" — perguntou Aoi.

"Eu não..." — Hana hesitou.

Não havia necessidade de pensar. A resposta era óbvia. Naquele momento, uma luz brilhante acendeu nos olhos de Hana.

"É por isso que você é a nossa mestra" — disse Aoi.

"Chame por nós a qualquer momento que precisar do nosso poder. Estamos sempre do seu lado, Mestra" — tranquilizou-a Miyabi.

Com essas palavras, os dois shikigamis desapareceram.

"Ah... Senhorita Hana. A moça e o rapaz de agora há pouco... eles são shikigamis?" — perguntou Sae.

"Hum-hum, sim" — respondeu Hana.

"Eles a chamaram de 'Mestra'." — Sae parecia atordoada. O que era perfeitamente natural. Na casa dos Ichise, Hana era conhecida como uma imprestável.

Mas aqueles dias podiam estar chegando ao fim. Ela não queria tomar a decisão errada sobre o que proteger.

"Sae, eu vou escrever uma carta para a Hazuki" — disse Hana. — "Você consegue entregar para ela sem deixar meus pais verem?"

"A senhorita deseja manter isso em segredo do patrão e da patroa?"

Julgando pela expressão preocupada de Sae, ela estava pedindo o impossível.

A rotina de Hazuki era planejada minuto a minuto, e ela quase nunca tinha um momento sozinha em casa. O único momento em que ficava só era quando estava dormindo.

Nesse caso, talvez fosse mais fácil falar com ela na escola. Mas Hana chamaria muita atenção se resolvesse chamar Hazuki para conversar.

Então ela teria apenas que pedir para Kikiyo, que era da sala da Hazuki.

O Nozomu também era uma opção.

Enquanto ela quebrava a cabeça pensando no que fazer...

"A sua carta... eu entrego" — disse uma voz infantil e desconhecida.

Hana girou o corpo rapidamente e viu Hiragi, o shikigami de Hazuki.

"Você é... O que você está fazendo aqui?" — perguntou Hana.

"Eu vim seguindo ela" — disse Hiragi, apontando para Sae.

Sae pareceu surpresa. Pelo visto, ela não fazia ideia. — "Meu Deus... Eu não percebi absolutamente nada."

"Os shikigamis são difíceis de detectar quando estão ocultos, a menos que os seus sentidos sejam excepcionalmente aguçados" — explicou Hana.

Alguém com a habilidade do Saku talvez percebesse, mas Hana também não tinha notado nada. Ela era uma praticante poderosa, mas não era tão perceptiva quanto o Saku.

"Mais importante, você disse que vai entregar a minha carta?" — perguntou Hana.

"Isso mesmo. Eu consigo me encontrar com a Hazuki sem levantar suspeitas" — disse Hiragi.

"É verdade..." — Mas Hana estava dividida se podia ou não confiar nele. Tudo estaria acabado se a sua carta fosse parar nas mãos erradas.

Pedir para Kikiyo talvez fosse a opção mais segura.

Foi nessa hora que Hiragi caiu de joelhos, sentando-se de forma formal. Talvez ele tivesse percebido o conflito interno de Hana.

"Eu também quero salvar a Hazuki" — disse ele. — "Se esse é o seu objetivo, eu vou te dar uma força. Mas sendo um shikigami, não posso desafiar as ordens da Hazuki, então eu preciso da sua ajuda. Por favor." — Ele curvou a cabeça profundamente.

Hana decidiu ali mesmo que Hiragi era digno de confiança.

A sinceridade dele tinha lembrado Hana de algo.

Ele lembrava Hana de Aoi e Miyabi quando agiam em seu favor.

"Tudo bem. Você precisa entregar isso para ela sem ninguém ver" — insistiu ela.

"Entendido" — disse Hiragi.

E assim, Hana confiou a carta a Hiragi.

◆

No dia seguinte, Hana subiu ao terraço da escola. Olhando para baixo através da grade de proteção, ela conseguia ver todo o pátio. Enquanto esperava, ficou observando os alunos na aula de educação física.

A porta do terraço se abriu e Hazuki deu um passo para fora. Havia uma leve rigidez em sua expressão.

Hana se virou lentamente. — "Hazuki..."

"Hana...", — disse Hazuki.

Os olhares delas se cruzaram, cada uma encarando a garota cujo rosto era o reflexo exato do seu próprio.

Hazuki foi a primeira a desviar o olhar.

"O que você quer? Usar o Hiragi para me mandar uma carta... O que você estava pensando?" — exigiu Hazuki.

"...Ontem a Sae foi me visitar" — disse Hana.

"Ela foi?"

Sae tinha cuidado principalmente de Hana e quase não tivera contato com Hazuki. Apesar disso, Hazuki sabia muito bem quem ela era.

"É verdade? Que você vai se casar?"

Hazuki engoliu em seco. Mas, um momento depois, a raiva transpareceu em sua expressão. — "Você ouviu isso da Sae? Ou foi o Hiragi?"

"Que diferença faz como eu descobri? Você vai mesmo se casar com alguém de quem não sabe absolutamente nada?"

"Isso não é da sua conta! Você não tem mais nada a ver com a família Ichise."

"Tenho sim!" — Hana agarrou Hazuki pelo braço e cravou nela um olhar penetrante. — "Nós somos gêmeas. Não posso me preocupar com a minha outra metade?"

"Outra metade...? Você vem dizer isso agora?! Logo você, que passou o tempo todo me desprezando?! Não foi você quem chutou o balde e fugiu para o clã Ichinomiya?"

"Quem me forçou a isso foram os Ichise, não foi? Ou melhor, os nossos pais. Eles é que azedaram tudo."

Hana nunca tinha criticado os pais abertamente antes, e Hazuki pareceu chocada. — "Como você pode falar do papai e da mamãe desse jeito?"

"Aqueles dois que chamamos de pais acham que nós não passamos de ferramentas! Isso vale para você também, Hazuki. Pelo bem da família, pela linhagem dos Ichise, eles vão te sugar até não sobrar nada."

"Não é assim!" — gritou Hazuki.

"É exatamente assim!" — Hana gritou mais alto, cortando o protesto de Hazuki. — "Você se lembra do que eu disse no dia em que saí de casa? Que você nunca fazia nada por si mesma? Eu preciso te pedir perdão. Me desculpa." — Hana fez uma reverência profunda, arrependida por ter feito Hazuki carregar aquele fardo sozinha o tempo todo.

Hazuki ficou abalada com o pedido de desculpas de Hana. "O que você está tentando inventar do nada...?"

"A Sae me contou tudo. Contou que você bateu de frente com os nossos pais para me proteger quando eles tentaram me abandonar."

Hazuki ficou sem fala, com os olhos arregalados.

"Eu sempre achei que você era uma idiota por fazer tudo o que eles mandavam. Você nunca dizia um 'não' e nunca tentava resistir. Achei que você fosse uma boneca — que fosse perder tudo o que te define. E quando você ignorou meus avisos várias e várias vezes, eu desisti de você. É por isso que quero te pedir desculpas."

"..."

"Tudo o que você fez foi por minha causa, mas eu não percebi nada e só fiz o que me deu na telha. Sinto muito de verdade" — disse Hana. — "Mas está tudo bem agora."

"O que está...?"

"Você não precisa mais me proteger. Eu me viro sozinha. Você pode ser livre, Hazuki. De mim, dos nossos pais, da família Ichise."

Hana deu um passo à frente. Hazuki deu um passo atrás.

"Isso é impossível" — disse Hazuki. — "O Pai e a Mãe nunca permitiriam..."

"Bom, então você vai acabar casada com um cara vinte anos mais velho que você. Você está mesmo de boa com isso?!"

"É-é claro que não! Eu não quero isso de jeito nenhum!" — gritou Hazuki, com a voz trêmula. Mas suas palavras seguintes perderam a força e saíram num sussurro: — "Mas eu não posso ir contra os nossos pais."

"Você vai continuar fazendo o que eles querem pelo resto da vida? Se você abrir mão do seu próprio coração, o que vai te restar no final?"

"Eu não sei! Mas não adianta nada eu dizer não. Eles nunca vão me ouvir."

"Você só vai saber se tentar!" — Hana segurou o ombro de Hazuki com força e a chacoalhou, como se pudesse fazê-la acordar. — "Você nunca tentou desafiá-los uma única vez, então por que já decidiu que não vai dar em nada? Você tem que pelo menos tentar."

"Você só diz essas coisas sem pé nem cabeça porque não sabe de nada. O papai e a mamãe só se importam com o nome da família. Eles não vão me ouvir."

"Então manda eles à merda!" — gritou Hana. Os olhos de Hazuki se arregalaram. — "O papai, a mamãe, a família Ichise inteira, todos esses estorvos — você pode simplesmente chutar o balde e largar tudo. Foi o que eu fiz. Eu ia te largar junto com o resto, mas eu mudei de ideia. Vamos as duas nos livrar dos Ichise." — Ela deu um sorriso travesso.

Hazuki ficou profundamente mexida com o discurso de Hana. Ela rebateu, furiosa: "O qu—?! Você tem noção do absurdo que está falando? Você está sendo egoísta demais! Você já tinha me deixado para trás. Agora me deixa em paz."

"Nem pensar! Eu vou ser o quão egoísta eu bem entender, muito obrigada. Eu já decidi que vou viver do jeito que eu quiser, sem os Ichise ou aquele imbecil do nosso pai se metendo. E eu vou levar você comigo" — declarou Hana.

"Para onde?! O que você está planejando?!"

"Você esqueceu quem eu sou? Sou a esposa do líder dos Ichinomiya. Eu tenho muito mais influência agora do que o papai e os outros. Posso estar só fingindo ser a Senhora Ichinomiya, mas vou sugar cada gota dessa autoridade emprestada para esmagar os Ichise. É só assistir de camarote, seu velho maldito. He-he-he."

Hazuki recuou diante da expressão sórdida no rosto de Hana e de sua risadinha sombria. — "Você sempre foi tão maquiavélica assim?"

Hana desviou o rosto, com uma expressão séria. — "A culpa não é minha. Isso é obra daquele tonto do nosso pai e dos capangas dele." — Ela se virou para Hazuki novamente e estendeu a mão, torcendo fervorosamente para que a irmã a aceitasse. — "O resto é com você. O que vai ser, Hazuki?"

A mão de Hana tremia de forma tão sutil que sua irmã não notaria. Ela também estava com medo. Medo de que o ramo de oliveira que estendera sem pensar nas consequências fosse rejeitado com um tapa. — "Hazuki, por favor", implorou ela.

"Ah... eu..."

Hana conseguia ver o conflito interno de Hazuki. Não devia ser fácil ouvir do nada que deveria abandonar a própria família. Mas o tempo de Hazuki estava quase esgotando. Assim que os pais das duas casas se reunissem oficialmente, eles sem dúvida iam querer casar Hazuki o mais rápido possível.

Hana tentou mais uma vez, — "Hazuki, por favor."

Esqueça a felicidade dos Ichise. Escolha a sua própria felicidade, implorou em pensamento.

Naquele momento, uma pequena sombra passou voando diante das gêmeas. Hana foi pega de surpresa pelo surgimento repentino da criatura, mas não foi a única. Hazuki também olhou para ela, espantada.

Em seguida, vários gritos ecoaram do pátio lá embaixo. As duas viraram a cabeça rapidamente para espiar além da grade e ficaram boquiabertas com o que viram.

"Mas que diabos...?" — murmurou Hana.

Uma enxurrada de sombras, tantas que nem dava para contar, tinha surgido do nada e estava atacando os alunos. Gritos de pavor vinham de todas as direções e ecoavam pelo pátio. Os estudantes corriam em pânico.

Mas não era só isso. Um grande número de sombras tinha cercado Hana e Hazuki também.

"Expanda!" — gritou Hana, erguendo uma barreira ao redor delas.

Hazuki clamou: "Hiragi!" — invocando seu shikigami em sinal de alerta.

Ele se materializou instantaneamente e começou a varrer as sombras com golpes de uma ferramenta que parecia um leque.

"Extermine!" — rugiu Hana, ardendo em vontade de destruir as sombras ao seu redor. Mas as suas habilidades não fizeram efeito. — "O quê?! Por que não está funcionando?!"

"Hana, para trás!" — gritou Hazuki. — "Elas são fortes demais."

Hana avaliou as sombras com mais atenção. Como Hazuki dissera, elas eram assustadoramente poderosas. Ela percebeu que, com seus poderes reprimidos como costumavam ficar, não seria capaz de matá-las.

"Então vai ser assim. Expanda!" — Dado o tamanho da horda, Hana não tinha o luxo de ficar se contendo. Ela abriu mão de suas restrições e jogou tudo o que tinha contra o ataque. — "Extermine!"

Crack! Crack! Crack! Crack! Seu único golpe pulverizou uma fileira inteira de sombras.

Hazuki assistiu a tudo, atônita. — "Você fez isso agora há pouco? Mas você devia ser fraca..."

"Eu explico mais tarde. Primeiro, temos que dar um jeito nas sombras dentro da escola. Vou ligar para o Saku, fica de olho para mim."

"T-tá bom."

Hazuki não perdeu tempo com discussões inúteis e se concentrou no que precisava ser feito. Como esperado de uma aluna brilhante da Classe A. Hana deu um sorriso sem força e pegou o celular para fazer a ligação.

Mas estava sem sinal.

"Não funciona de jeito nenhum!" — exclamou Hana.

Hazuki, que estava olhando para o pátio, girou o corpo. — "O quê? Por quê?"

"O seu celular está funcionando?"

"Espera um segundo..." — Ela tirou o aparelho do bolso para verificar. — "...Não, o meu também está fora de área." — Não adiantava nada.

Hana já tinha passado por uma situação parecida antes. Ela olhou para o horizonte, semicerrando os olhos para se concentrar. Havia uma distorção na fronteira entre a escola e o mundo exterior. Ela girou nos calcanhares, avaliando os arredores enquanto Hazuki a observava confusa.

"O que você está fazendo, Hana?" — perguntou Hazuki.

"Tem uma barreira cercando os limites da escola" — explicou Hana. — "É por isso que estamos sem sinal."

"O quê?!" — Hazuki se virou para onde Hana estava olhando e forçou a vista em busca de qualquer sinal de tal barreira. No fim, pendeu a cabeça, intrigada. Pelo visto, ela não conseguia enxergar nada. — "Do que você está falando? Onde?" — perguntou ela.

"Ali. Bem entre o muro da escola e o terreno."

"Eu não vejo nada."

"Eu não percebi em momento nenhum quando ela foi erguida. Azuha, você acha que consegue atravessar?" — perguntou Hana ao shikigami que tinha voado de seu cabelo e agora estava pousado em seu dedo.

Azuha hesitou antes de responder: "Sim, acho que sim."

"Pode ir buscar o Saku, então?"

"Sim, Mestra." — Ela saiu voando, parando brevemente na ondulação do ar que Hana tinha visto, antes de continuar e passar direto.

Hana observou o movimento das sombras. Ela concluiu que elas não conseguiam passar da barreira.

E não era só isso. Quando os alunos tentavam fugir para fora, eles também eram impedidos de deixar o terreno.

Em outras palavras, a escola tinha virado uma gaiola gigante entupida de sombras.

Se criaturas poderosas como aquelas não conseguiam sair, a maioria das pessoas presas ali dentro também não teria a menor chance de escapar.

"Hazuki, vamos voltar para dentro por enquanto e ajudar os outros a evacuar" — declarou Hana. — "Os alunos da Classe A têm experiência em caçar sombras, então talvez consigam se virar sozinhos, mas tem sombra demais. Algumas já devem ter entrado no prédio."

"Certo. Mas evacuar para onde? Não parece que sair daqui seja uma opção" — disse Hazuki.

"Uma barreira desse nível... eu posso simplesmente quebrar no soco." — Como Azuha tinha conseguido sair, Hana imaginou que ela também seria capaz. Hana continuou: — "Com o poder de todos os professores e dos alunos da Classe A combinados, eles devem conseguir erguer barreiras para proteger todo mundo, pelo menos temporariamente, não?"

"Provavelmente, mas o que você pretende fazer depois?" — perguntou Hazuki. — "Se seguirmos a sua sugestão e destruirmos a barreira, as sombras vão conseguir escapar também, e acabaríamos colocando pessoas comuns em perigo."

"É exatamente por isso que mandei a Azuha buscar o Saku. Com o Saku por perto, as coisas vão se resolver de um jeito ou de outro."

"Mas—"

"Não temos tempo para ficar paradas batendo papo. Vai morrer gente se não agirmos agora!"

Nozomu, Kikiyo e Kiriya estavam na mesma sala de Hazuki. A turma deles estava patamares acima das Classes A do primeiro e segundo ano.

Hana disse para Hazuki ir até o portão principal e erguer uma barreira lá também, caso tivessem pessoas e energia de sobra. Dessa forma, os alunos no pátio teriam um lugar seguro para se esconder.

Pressionada por Hana, Hazuki correu relutante em direção à sua sala.

Hana entrou no prédio, exterminando as sombras pelo caminho. Num corredor secundário, ela invocou Aoi e Miyabi. Eles atenderam ao chamado e surgiram com expressões preocupadas.

"Aoi, guie os alunos da Classe C que ainda estiverem na sala até o portão principal" — ordenou Hana. — "Eu vou para a sala de rádio. Se você encontrar mais alguém que se atrasou na fuga, leve junto."

"E quanto a você, Mestra?" — perguntou Aoi.

"Eu vou ficar bem. Miyabi, conto com você para cuidar dos alunos lá no pátio."

"Entendido" — disse Miyabi.

"Vão. A Suzu deve estar na sala de aula também. Você precisa protegê-la."

Aoi e Miyabi fizeram uma reverência e sumiram rapidamente.

Hana também não tinha tempo a perder.

"Ai, meu Deus, me dá um tempo. Que tremenda dor de cabeça. Por que isso tinha que acontecer logo agora?!"

Ela virou a esquina do corredor e deu de cara com uma sombra. Ela a aniquilou no ato e continuou avançando em direção à sala de rádio.

Ao chegar ao destino, encontrou vários professores amontoados ao redor do microfone, tentando desesperadamente explicar a situação.

"Por favor, me deem licença!" — disse Hana.

"Espera, ei! O que você pensa que está fazendo?"

Ela os ignorou e pegou o microfone. "Alô, alô. Som, testando, um, dois, três. Todos os alunos dentro do prédio devem se dirigir para a Classe A ou para a sala dos professores. Professores, alunos da Classe A e qualquer outra pessoa com habilidades em barreiras, por favor, ergam barreiras nesses locais para servirem de abrigos temporários. Quem não tiver poderes para ajudar, vá para um abrigo e colabore. O líder do clã Ichinomiya já foi avisado. A Associação de Praticantes enviará ajuda em breve!"

Depois de soltar o aviso de uma pancada só, ela respirou fundo e se virou para os professores novamente.

"Isso era verdade?" — perguntou um deles. — "Você conseguiu falar com o líder do clã Ichinomiya?"

"Pela sua surpresa, imagino que os celulares de vocês também estejam sem sinal, né?" — perguntou Hana.

"Sim. Mas, deixando isso de lado, você tem muita audácia de entrar invadindo aqui do nada!"

Hana não queria ouvir aquilo de pessoas que estavam correndo de um lado para o outro que nem baratas tontas.

"Se vocês têm tempo para ficar esquentando a cabeça com detalhes idiotas, vão logo buscar os alunos que ainda estão perdidos no prédio e ajudem a erguer as barreiras de uma vez!" — exigiu Hana. — "Vocês querem que alguem morra?!"

Os professores recuaram diante do tom ameaçador nos olhos de Hana, e ela os expulsou à força da sala.

Após repetir a explicação mais uma vez, ela concentrou suas energias em trucidar as sombras que tinham se infiltrado na escola. Mas eram simplesmente demais.

"Eu devia ter trazido o Arashi!" — reclamou ela.

O inugami teria feito uma limpa no prédio num piscar de olhos, eliminando as sombras sem o menor esforço pelo caminho.

Era frustrante imaginá-lo descansando na residência dos Ichinomiya, tirando uma soneca, que era muito provavelmente o que ele estava fazendo.

Quase uma hora devia ter se passado desde que Hana enviara Azuha atrás de Saku.

Enquanto Hana continuava focada em massacrar cada sombra que cruzava seu caminho, uma voz a chamou por trás.

"Mestra."

Hana estendeu o dedo para Azuha, que vinha voando em sua direção.

"Cadê o Saku?" — perguntou ela.

"Do lado de fora do portão principal. Ele está te esperando."

"Entendido. Obrigada, Azuha."

Azuha levantou voo novamente e voltou para o seu poleiro no cabelo de Hana.

"É melhor eu correr se ele já chegou." — Hana mudou de direção e disparou, correndo em direção à entrada da escola.

Em frente ao portão, os alunos da sala de Hazuki tinham erguido uma barreira, dentro da qual resistiam ao ataque enquanto protegiam os estudantes que tinham ficado encurralados no pátio.

Aoi e Miyabi estavam ao lado deles, derrubando as sombras por perto.

Sem precisar chamar seus shikigamis, Hana abriu caminho entre os outros alunos até a borda da barreira que isolava a escola do mundo exterior.

Do outro lado, estavam Saku e vários praticantes.

"Você está bem, Hana?" — perguntou Saku.

"Estou até tonta de tanto matar essas pragas" — disse ela, dando de ombros. Ela parecia ainda ter energia de sobra. — "Mudei de ideia sobre as sombras daquela vila. Pensando bem agora, elas eram até bonitinhas."

"Olha só para você, toda animadinha. Eu nem precisava ter me preocupado" — disse Saku. — "Você consegue quebrar a barreira daí de dentro? Infelizmente, não trouxe ninguém forte o bastante para lidar com ela. Vou substituí-la por uma nova assim que ela cair, para evitar que as sombras fujam."

"Beleza." — Hana se virou para os alunos mais próximos. — "Vocês aí, deem um espaço."

Ela acenou para que os outros recuassem, mas eles não quiseram obedecer.

"Por que você está se achando tanto, sua lixeira da Classe C?"

"Resto de lixo devia saber o seu lugar e calar a boca. O que você acha que consegue fazer?"

Para calar a boca dos idiotas que ficavam de picuinha enquanto cada segundo era uma luta pela vida, Hana puxou o ar com força e berrou:

"Calem a boca! Parem de choramingar e saiam da frente de uma vez! Se não, eu vou jogar vocês para fora e deixar as sombras fazerem a festa!!"

Hana normalmente não respondia aos insultos que destilavam contra ela. Os outros alunos ficaram em choque ao vê-la gritar.

Enquanto eles tentavam processar o baque, Saku deu cobertura à ofensiva de Hana. "Vocês são surdos? Saiam. Não querem ser salvos?"

"Ai! S-sim, agora mesmo!"

Hana desconfiava que eles tinham saído correndo por medo do Saku e não dela, mas preferiu ignorar os detalhes por hora.

Ela recuou para o espaço que acabou de se abrir. Então, correu com tudo em direção à barreira. Conforme se aproximava, sem perder o embalo, emendou uma voadora.

Ouviu-se um estalo seco, como vidro se despedaçando. Ao mesmo tempo, Saku bradou: "Prenda!" — sua voz ecoando por todo o pátio.

A barreira original foi destruída. Em seu lugar, surgiu a barreira que Saku invocara.

"Agora todos devem conseguir sair. Todos os alunos que não forem praticantes, deixem o terreno" — ordenou Saku.

Os alunos aproveitaram a deixa e debandaram da escola com a força de uma avalanche.

"Graças a Deus. Finalmente saímos!"

"Estamos salvos."

Cercada por alunos, alguns dos quais choravam de soluçar, Hana caminhou até o lado de Saku. — "Ei, isso tem a ver com a Crânio e Lírio de Aranha, não tem?" — perguntou ela.

"Esperta" — disse ele.

"Eu sabia..." — Infelizmente, o seu mau pressentimento estava certíssimo. — "Não me diga que o alvo deles era eu ou o Nozomu?"

"Ou aqueles dois ali."

Hana seguiu o olhar de Saku até onde Kikiyo e Kiriya estavam. Os gêmeos encararam Saku e fizeram uma reverência educada.

Saku chamou os dois: "Como isso se parece do ponto de vista dos Nijouin?"

"É possível que os amuletos dos Nijouin tenham sido usados para armar tudo isso" — respondeu Kikiyo com firmeza.

Um sorriso confiante surgiu no rosto dele. — "Concordo. Um para atrair as sombras e outro para erguer a barreira."

"Esses tipos de amuletos existem?" — perguntou Hana.

"Sim. Um amuleto parecido com o segundo — embora uma versão bem mais fraca — foi usado para criar a barreira ao redor da vila que eu te dei. Eles não são considerados perigosos, então os culpados provavelmente já tinham um em mãos para começo de conversa."

"Entendi."

A intuição de Hana de que as barreiras da vila e da escola eram parecidas tinha se provado correta.

"Mas o amuleto para invocar sombras é de rank SS. Perigoso e mortal. Nunca imaginei que seria usado aqui. A única salvação nesse pesadelo é que você estava aqui, Hana. Parece que a Crânio e Lírio de Aranha não colocou as suas habilidades na ponta do lápis."

Um sorriso intrigante surgiu no rosto de Saku — qual era a graça? — e ele estendeu a mão para bagunçar o cabelo de Hana.

"Ei!" — reclamou ela.

"Eu preciso ir lá dentro procurar os amuletos" — disse Saku. — "Assuma a barreira para mim."

"É sério? Que saco" — resmungou ela. Ela tinha passado a última hora matando dezenas de sombras. Que belo escravocrata.

"O que você quer que eu faça? Só tem duas pessoas aqui que conseguem invocar uma barreira que cubra a escola inteira: eu e você."

"Que inferno." — A expressão de Hana se contorceu em desgosto, mas Saku apenas a encarou com um olhar exigente.

Enquanto os dois mediam forças em silêncio, sussurros começaram a circular pela multidão.

"Não tem a menor chance de uma imprestável como ela conseguir fazer isso."

"Né? Nem se juntassem todos os professores da Terceira Cor daria. É impossível para ela sozinha."

"O resto da Hazuki..."

"Desperdício de oxigênio..."

Os murmúrios eram puros ataques contra Hana. Os descontentes mantinham a voz baixa por causa da presença de Saku, mas ainda dava para ouvir perfeitamente.

"Hana..." — disse Hazuki, hesitante. Ela estava parada a uma certa distância, olhando para Hana com uma expressão preocupada.

Hana ia libertar Hazuki dos Ichise. Ela tinha decidido colocar todo o seu poder em jogo para conseguir isso. Ninguém a estava forçando. Ela mesma tinha tomado a decisão.

"Tá bom, tá bom, já entendi." — Hana cedeu à exigência de Saku. — "Mas anda logo com isso."

"Deixa comigo" — disse Saku, dando um tapinha na cabeça dela, dessa vez com carinho. Depois, ele se virou para Kikiyo e Kiriya. — "Eu não queria envolver estudantes neste caso, mas preciso do conhecimento de vocês como membros do clã Nijouin. Pode ser perigoso, mas venham comigo."

"Nós já pretendíamos fazer isso desde o começo" — disse Kikiyo. Kiriya assentiu ao lado dela.

"Ótimo" — disse Saku. — "Hana, a barreira, por favor."

"Pode deixar."

Hana fez uma moldura com os dedos, como se estivesse procurando o melhor ângulo para uma foto. Ela mediu o tamanho da escola e depois estendeu a mão para a frente, com os dedos espalmados.

"Expanda!"

Seu poder se manifestou fisicamente, sobrepondo uma nova barreira à de Saku.

O alvoroço tomou conta do lugar.

"Não brinca. Ela conseguiu mesmo."

"Foi mesmo ela quem fez aquilo?"

"Mas ela... Eu não consigo acreditar..."

Enquanto exclamações de surpresa ecoavam pela multidão, Saku desfez a própria barreira. O trabalho de Hana era impecável. As sombras continuavam perfeitamente presas lá dentro. Após garantir que estava tudo sob controle, Saku partiu, levando os gêmeos consigo. — "Vamos lá."

As sombras ainda vagavam pelo pátio. Não era seguro ainda. Eles precisavam resgatar as pessoas presas lá dentro o quanto antes.

"Aoi, Miyabi" — disse Hana, — "nós vamos ficar bem aqui fora. Vão proteger a Kikiyo e o Kiriya."

"É pra já" — disse Aoi.

"Entendido" — acrescentou Miyabi.

Ao ouvirem Hana falar com Aoi e Miyabi, as pessoas que tinham passado o tempo todo se perguntando a quem pertenciam aqueles dois shikigamis de forma humana arregalaram os olhos para ela, boquiabertas.

Hana saboreou a reação de queixo caído da multidão enquanto fingia indiferença. Por dentro, ela já pensava que aquela fofoca ia explodir assim que a escola reabrisse.

Mas agora que tinha mostrado o que sabia fazer, Hana não precisaria mais da proteção de Hazuki.

Hazuki se aproximou. Hana abriu um sorriso radiante para a irmã e disse:

"Viu só, Hazuki? Eu sou forte, não sou? Mais forte que você. Você não precisa mais me proteger. De agora em diante, deixa que eu te protejo."

"Hana..." — Lágrimas correram silenciosas pelo rosto de Hazuki, e ela escondeu o rosto no ombro de Hana.

Essa era a primeira vez que Hana via Hazuki chorar. Os únicos culpados por levar Hazuki àquele estado eram os pais delas. Hana nunca tinha sentido tanta raiva deles na vida. Ela deu um tapinha suave nas costas da irmã enquanto tentava conter a todo custo sua fúria quase assassina.

“Ah, mas pode ter certeza de que eu vou acertar as contas com eles.”

◆

Os amuletos usados na invasão ao Colégio Obsidiana de fato se provaram ser os mesmos que tinham sido roubados da Associação. Assim que foram recuperados no terreno, foram levados às pressas para o quartel-general.

Pelo visto, a transferência de Kikiyo e Kiriya também tinha sido motivada por esse roubo. Os cúmplices que tinham facilitado a infiltração dos terroristas no quartel-general eram ligados ao clã Nijouin.

Os gêmeos tinham sido transferidos para o Campus Um do Colégio, que ficava no território do quartel-general, como representantes de seu clã e para caçar os amuletos sumidos.

Essa informação não foi divulgada ao público para não quebrar a confiança nos cinco clãs.

O motivo de Hana ter descoberto foi porque Saku tinha jogado mais uma tarefa impossível no colo dela.

"Sério, de novo?" --- resmungou Hana.

"Sim. Preciso que você ajude a resolver este incidente" --- disse Saku.

"E o que você vai me dar desta vez?"

"Você já ganhou a sua vila, sua interesseira."

"Ah, eu fico tãaaao desmotivada quando não tem recompensa envolvida."

Saku lançou um olhar exausto para Hana, que estava esparramada preguiçosamente com a cabeça apoiada em Arashi. Ele suspirou, derrotado. — "O que você quer?"

"Vejamos... o que seria bom? Outra vila à beira-mar, para começar. Uma de verdade desta vez" — exigiu ela. — "Com móveis e eletrodomésticos inclusos. E um carro. E um barco. E..."

"Já chega! Você pode escolher uma coisa. Uma só."

"Que pão-duro. O que eu faço então...?" — Hana ficou em silêncio por um instante, pensativa. Depois, sentou-se devagar. — "Precisa ser algo material?" — Seu rosto estava sério, sem qualquer traço de brincadeira.

Saku recuperou a postura. — "Me diga o que está pensando."

E Hana contou.

O canto dos lábios dele se curvou para cima, e ele disse: "Nada mal."

◆

A escola reabriu após o período em que ficou fechada devido à invasão das sombras.

Para não ser pega de surpresa por outro ataque, Hana decidiu liberar Arashi da função de vigia e levá-lo com ela para a escola.

Quando Arashi soube da história, disse que a acompanharia até que o caso dos terroristas estivesse resolvido, e ela aceitou de bom grado.

No entanto, assim que pisou na escola, percebeu imediatamente que tinha cometido um erro.

Hana normalmente reprimia seus poderes, então a maioria dos praticantes a via como fraca e sem talento.

Mas Arashi não era um simples shikigami. Ele era um deus de verdade.

O poder divino que emanava de seu ser só podia ser contido até certo ponto. Mesmo os alunos, inexperientes como eram, conseguiam notar que ele não era um shikigami comum.

"Nossa, aquele shikigami ali não tem nada a ver com os outros, né?"

"O poder dele está em outro patamar."

"O boato deve ser verdade então, de que a irmã mais nova da Hazuki é na verdade uma praticante fora de série."

"Mas então o que ela está fazendo na Classe C?"

Mas Arashi não era o único assunto das conversas.

"Você disse que viu ela erguendo a barreira, não foi?"

"Sim. Foi incrível. Não tem como um praticante comum erguer uma barreira daquela força sozinho."

"Eu também estava lá. Pelo visto, não foi nenhum milagre o Mestre Ichinomiya ter escolhido ela, afinal de contas."

"Com o poder que ela tem, não me surpreenderia se ele mesmo tivesse ido atrás dela. Parecia que ele confiava muito nela, como se um cobrisse as costas do outro. Eles foram tão estilosos."

Hana enterrou a cabeça nas mãos, desesperada com os comentários cheios de admiração.

"Está pior do que eu imaginei."

Ela sabia que isso ia acontecer desde que tinha dado aquele show ostensivo com seus poderes, mas a fofoca tinha tomado uma proporção ainda maior do que ela previra.

Ela chegou à sala de aula e encontrou seus colegas morrendo de vontade de falar com ela. Porém, era difícil se aproximar com Arashi próximo, exalando uma pressão absurda. Eles estavam travados pela indecisão.

No meio daquela roda de urubus, surgiu Suzu, exibindo seu sorriso de sempre. A presença dela foi um bálsamo para a alma de Hana.

"Bom dia, Hana."

"Suzu! Você é o meu anjo da guarda, sério" — disse Hana, abraçando a amiga com força.

A julgar pela expressão de Suzu, ela não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo, mas pareceu feliz mesmo assim e retribuiu o abraço.

"Você é demais, Hana. Ficou famosa da noite para o dia! Só se fala de você na escola inteira" — disse Suzu, cheia de orgulho, como se estivesse falando de suas próprias conquistas.

Então, ela finalmente notou Arashi sentado aos pés de Hana. — "Ah, essa fofura deve ser aquele inugami de antes. Ele virou seu shikigami agora, pelo visto." — Mesmo que Suzu tivesse sido atacada por Arashi quando ele era um tatarigami, ela acariciou a cabeça dele sem medo ou hesitação. — "Nossa, ele parece uma nuvem. Eu também queria um shikigami assim."

O shikigami de esquilo da Suzu estava montado em seu ombro e puxou o cabelo dela, morrendo de ciúmes.

Que cena reconfortante. Hana era muito grata por ter uma amiga como Suzu, que não a tratava de forma diferente apesar de tudo o que tinha acontecido.

Por outro lado...

"Espera. Um inugami não é um deus?"

"Ela tem um deus de verdade agindo como shikigami?"

"Eu não sei se fico impressionado ou aterrorizado."

"Sério, o que ela está fazendo na Classe C quando podia estar facilmente na Classe A?"

Os outros alunos olhavam para Hana de um jeito estranho ou com pura desconfiança.

A pessoa que eles tinham descartado como um peso morto na verdade carregava uma quantidade absurda de poder.

Hana sabia que algumas pessoas reagiriam mal, mas a rejeição descarada a deixou meio borocoxô. Ela vinha se dando bem com os colegas de sala até então, mas todos os alunos da Classe C alimentavam um complexo de inferioridade. Agora que Hana tinha provado ser forte, a mudança não caiu bem para alguns.

Não havia nada que ela pudesse fazer a não ser ignorar.

As aulas correram como de costume. Durante o horário do almoço, em vez dos gêmeos Nijouin de sempre, quem veio procurá-la foi a sua outra metade, Hazuki.

Hazuki quase nunca pisava na Classe C, então os alunos surpresos ficaram encarando a garota com curiosidade. Tecnicamente falando, a visita dela não devia ser nada de mais, dado que sua gêmea estudava ali.

Hana levantou-se da cadeira, confusa, e foi até Hazuki. — "Precisa de alguma coisa?" — perguntou ela.

"Você está livre? Quero conversar" — disse Hazuki. — "Sobre a confusão com as sombras... e sobre os seus poderes."

"Tudo bem." — Hana olhou para a sua parceira de almoço habitual, Suzu, que acenou para que ela fosse com um sorriso que dizia 'Divirta-se!' Ela acenou de volta, grata por Suzu ser tão compreensiva.

Hana seguiu Hazuki para fora da sala até o terraço, onde tinham conversado antes. Era o lugar mais isolado, quase nunca visitado por outros alunos, então podiam falar abertamente.

"O que você quer saber?" — perguntou Hana.

"Sobre os seus poderes! Você não devia ser fraca? O seu shikigami é uma borboleta, não é? Você não devia ser capaz de fazer nada do que fez."

"Você não está errada" — disse ela. Então, falou para Azuha, que estava pousada comportadamente em seu cabelo como um grampo bonito: — "Pode parar de conter as suas habilidades, Azuha."

O shikigami de borboleta voou entre Hana e Hazuki e fez o que lhe foi ordenado.

No momento em que liberou seus poderes, suas asas ganharam um tom arco-íris deslumbrante. Uma força palpável, que podia rivalizar com a de um shikigami humano, emanou dela.

Parecia que Hazuki não teve problemas em sentir aquilo, pois ficou atônita.

Hana seguiu a demonstração de Azuha com uma explicação. "É verdade. Eu costumava ser a pior das piores. Minhas capacidades nem se comparavam às suas. É por isso que as pessoas me chamavam de resto de lixo e diziam que eu era uma imprestável. Tudo o que disseram estava certo. Não posso negar."

"Mas você é na verdade absurdamente forte."

"No nosso aniversário de quinze anos, tudo mudou. Até então, minhas habilidades que não eram nada de mais, de repente desperteram para uma quantidade enorme de poder latente. Foi como se a minha fraqueza de antes tivesse sido uma mentira. Sei que é difícil de acreditar."

Na verdade, a própria Hana tinha dificuldade em acreditar. Ela ainda não fazia ideia do que tinha engatilhado a sua transformação. A única coisa que sabia era que tinha obtido poderes que superavam até os de Hazuki naquele dia.

"Por que você escondeu isso?" — perguntou Hazuki.

"Porque daria muito trabalho se não escondesse" — respondeu Hana sem hesitar. — "O que você acha que teria acontecido se os nossos pais descobrissem que eu tinha todo esse poder? Obviamente, eles ficariam radiantes por terem colocado as mãos em uma ferramenta tão conveniente para ajudar a erguer o nome dos Ichise. No fim, eles teriam me sugado até não sobrar nada." — Ela sorriu amargamente.

Hazuki conseguiu visualizar o destino que Hana descrevia. Ela não tentou rebater.

E era só isso.

Hazuki sabia exatamente do que Hana estava falando.

Aqueles que chamavam de pais não tinham nenhum afeto pelos filhos.

"Bom, passo longe!" — continuou Hana. — "Eles me trataram feito nada. Eu não queria que ficassem me bajulando só porque fiquei forte. Mas é assim que os nossos pais são. Eu não tinha um pingo de fé neles. Por isso eu escondi. Tenho certeza até hoje de que tomei a decisão certa."

Hana encarou Hazuki com um olhar resoluto que não dava margem para discussões. Hazuki cedeu sob o peso daquele olhar e desviou os olhos.

"Então por que revelou o seu segredo agora? Se o papai descobrir, com certeza vai ordenar que você volte" — disse Hazuki.

"Quem se importa? Não ligo para o que as pessoas me dizem. Não importa se todos mudaram de ideia de repente. Isso não apaga o que fizeram comigo. Minhas memórias da frieza deles não vão sumir tão fácil."

"É verdade..." — O rosto de Hazuki obscureceu.

"O que você vai fazer, Hazuki?"

"O quê?" — Ela olhou para cima, sobressaltada.

"Eu te disse, não disse? Você não quer se casar, quer? Então só tem uma coisa a fazer, não? Enquanto você estiver morando sob o teto dos Ichise, os nossos pais sempre vão tentar te controlar. Duvido que isso mude depois que você se casar com o homem que aquele nosso pai de merda escolheu para você. Na verdade, pode até piorar. Você planeja fazer o que os nossos pais mandam pelo resto da vida?"

Os olhos de Hazuki estavam cheios de hesitação.

"Você soube que o quartel-general da Associação foi infiltrado por terroristas, né?" — perguntou Hana.

Confusa com a mudança abrupta de assunto, Hazuki assentiu. — "Sim, fiquei sabendo. Pelo visto, eles ainda não foram encontrados."

"Eu fiz um acordo com o Saku. Vou ajudá-lo na busca."

"Você não pode. Você ainda é uma estudante. É perigoso demais!" — protestou Hazuki.

"Está tudo bem. Não é a primeira vez que o Saku me pede algo absurdo" — tranquilizou-a Hana. — "Mais importante, como minha recompensa, pedi para o Saku te acolher como seu guardião caso você decida cortar os laços com a família Ichise, para que possa morar na residência dos Ichinomiya."

Os olhos de Hazuki se arregalaram. — "O que você está dizendo?! Como você pôde fazer um pedido tão exorbitante para o seu marido?"

Hana deu uma risadinha com a reação de Hazuki. — "Eu sabia que você ia dizer isso. Mas o Saku aceitou."

Tudo bem que, na hora, ele tinha dado um sorriso maligno, parecendo um verdadeiro vilão de cinema, mas era melhor Hazuki não saber disso.

"Então agora só falta você decidir." — Hana deu um passo à frente e segurou a mão de Hazuki. — "A sua vida é sua, assim como a minha é minha e de mais ninguém."

Hazuki mordeu o lábio e olhou para baixo. — "Hana..."

"Se precisar de mim, me liga" — disse Hana, colocando um pedaço de papel com o seu número de telefone na mão de Hazuki. Um sorriso melancólico surgiu em seu rosto. — "Não é estranho? Somos gêmeas, mas nem sabíamos o número uma da outra. Nós costumávamos ser tão próximas."

Um sorriso idêntico surgiu no rosto de Hazuki. "É, você tem razão..." — Ela fechou os dedos sobre o papel, segurando-o como se fosse algo precioso. Então, sem dizer mais nenhuma palavra, deixou o terraço. Não havia mais nada que precisasse dizer para Hana.

Hana ficou se perguntando o que Hazuki decidiria. Ela precisava se preparar para aceitar qualquer que fosse o resultado, fosse bom ou ruim.

Mas o coração de Hana parecia estranhamente leve.

"Há quantos anos não conversávamos assim?"

Por um tempo, ela ficou observando as nuvens passarem no céu enquanto ondas de nostalgia a invadiam.

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Fim da leitura

Capítulo 10 concluído

Volume 2 – Capítulo 4