Noiva do Mestre de BarreirasVolume 2 – Capítulo 3
Capítulo 9Capítulo 3
A transferência de Kikiyo e Kiriya trouxe mudanças sutis para a vida escolar de Hana.
"Hana, eles estão aqui de novo" — relatou uma de suas colegas de classe.
"Ai, que saco" — resmungou Hana.
Com uma expressão levemente cansada, ela olhou em direção à entrada da sala, onde alguém a encarava fixamente sem dizer uma única palavra.
Esse alguém era Kikiyo.
Desde que a outra garota tinha descoberto que Hana estava na Classe C, ela vivia passando por ali durante os intervalos entre as aulas, não para falar com Hana, mas apenas para espionar.
No começo, ela tinha chamado bastante atenção por ser uma aluna da Classe A e descendente direta da linhagem Nijouin, mas depois de vários dias, os outros estudantes da Classe C se acostumaram com a presença dela. Agora, sempre que ela aparecia, a única reação dos alunos era um "De novo?".
Ao lado de Kikiyo, Kiriya mexia no celular — a própria imagem do desinteresse.
Se ele ia ficar acompanhando Kikiyo para todo lado, Hana queria que ele fizesse o favor de levar a irmã de volta para a sala deles. Hana se perguntava o que ele estava pensando ao ser cúmplice das atitudes bizarras da irmã.
Seria muito mais produtivo para os gêmeos fazer amizade com os alunos da Classe A do que ficar de olho em Hana.
Apesar disso, Kikiyo insistia em não largar do pé de Hana.
Será que ela gostava tanto assim do Saku?
Mas o Saku não demonstrava o menor pingo de interesse. Era triste pensar que tudo aquilo não passava de um amor unilateral por parte de Kikiyo.
Kikiyo, com seus olhos grandes e cheios de lágrimas que carregavam uma ponta de ressentimento, lembrava Hana de alguma coisa.
Ah, era isso.
Ela parecia o shikigami de esquilo da Suzu.
O shikigami da Suzu nunca queria lutar. Sempre que Suzu precisava recorrer aos poderes da criatura, o shikigami lançava um olhar suplicante para ela. Então, quando Suzu se recusava a ouvir, os olhinhos redondos e fofos do bicho se enchiam de amargura. A expressão de Kikiyo era uma cópia idêntica.
Tendo desvendado o mistério, Hana se sentiu satisfeita, como se finalmente tivesse conseguido cuspir uma espinha de peixe que estava entalada na garganta.
Os gêmeos ficaram rondando a porta até o sinal tocar, avisando o início do próximo período. Finalmente, Kiriya se mexeu.
"Kikiyo, vamos" — disse ele.
"Sim..." — Ela assentiu obedientemente. Relutante em ir embora, ela deu uma última olhada para Hana antes de voltar para a sua própria sala.
"Sério, o que eles tanto vêm fazer aqui?" — murmurou Hana.
Se eles tinham algo para falar, deviam falar de uma vez.
Ou será que não podiam falar?
Saku tinha avisado que os reportaria ao líder do clã Nijouin se incomodassem Hana mais uma vez, então eles tinham que pisar em ovos com as palavras.
Quão assustador seria o líder do clã — o avô dos gêmeos?
Hana nunca o tinha conhecido, então só podia tentar imaginar como o homem seria. O que vinha à mente era uma pessoa severa como a Mio.
Segundo a Suzu, ele era um idoso na casa dos setenta anos.
Hana era esposa do Saku, mas sabia menos sobre os cinco clãs do que a Suzu. Isso podia ser um problema.
Desse jeito, ela com certeza acabaria matriculada nas sessões de tutoria especial da Mio. Só de pensar, seu sangue congelava.
"Ah, eu não tenho tempo para me distrair, mas é impossível concentrar com esses dois me vigiando a cada hora" — reclamou Hana.
"É impossível você tirar acima da média de qualquer jeito. Desiste e vem matar tempo comigo" — disse Suzu, descontraída.
Como você consegue me jogar uma praga dessas exibindo um sorriso tão doce?
"Suzuuu. Para de me tentar. Estou seriamente ferrada se não passar."
"Não, sem chance. Não para você, Hana. Tem noventa e nove vírgula nove por cento de chance de você rodar."
"Dói o fato de eu não poder negar..." — Hana enterrou as duas mãos no cabelo, frustrada. Mesmo que suas chances fossem mínimas, ela não podia se dar ao luxo de parar de estudar. "Vai dar tudo certo. Eu sou do tipo que consegue se tentar!" — disse Hana. — "...Teoricamente." A última palavra acrescentada à sua afirmação denunciava sua insegurança.
Hana estava contra a parede, mas durante o intervalo para o almoço, como se fosse para atrapalhar ainda mais seus esforços de estudo, um incidente aconteceu.
No almoço, Hana estava saboreando um udon enquanto lia o livro didático, um exemplo perfeito de falta de educação à mesa.
Suzu estava sentada na frente dela. Ver gotículas do caldo do macarrão voando no livro incomodava Suzu e azedava o humor dela.
"Ah, fala sério, Hana," — disse ela, — "dá uma pausa nos estudos pelo menos enquanto a gente está comendo."
Hana cortou ela na hora.. — "Não tenho tempo a perder. As provas estão logo ali."
"Eu sei, mas mesmo assim." — Suzu estava descontente porque Hana não queria nem jogar conversa fora com ela.
"Eu te recompenso. Depois das provas, a gente vai a algum lugar" — ofereceu Hana.
"Eba! Sério? Agora fiquei animada! Faz tanto tempo que a gente não sai juntas. Você tem sido uma companhia bem sem graça ultimamente."
"Desculpa. O Saku me disse para dar uma segurada."
"Bom, acho que não tem jeito se foi uma ordem do líder do clã."
Suzu vinha de uma família de praticantes, então a ideia de que a palavra do líder do clã era absoluta tinha sido colocada na sua cabeça desde cedo. Assim que Hana colocou o Saku na conversa, Suzu aceitou a situação prontamente.
"Espero que tudo se resolva logo..." — disse Hana.
Ela ainda não tinha ouvido nenhuma notícia boa de Saku sobre a recuperação dos talismãs.
Ele continuava atolado de trabalho até o pescoço, então parecia que o caso ainda levaria um tempo para ser resolvido.
Cruzes. Será que as pessoas não podem parar de arrumar tanta encrenca? Impedida de fazer suas paradas no caminho para casa, o estresse de Hana vinha aumentando constantemente, junto com seu rancor contra aqueles idiotas do Crânio de Nirvana.
Terminando seu udon, Hana juntou as palmas das mãos em sinal de agradecimento pela refeição. "Estava ótimo" — disse ela. Ela recolheu sua tigela e talheres e se levantou.
"Ah, Hana, me espera" — disse Suzu.
"Pode comer sem pressa. Estou voltando para a sala para estudar."
Sua amiga fez uma cara emburrada. — "Ahhh. Eu queria continuar conversando."
Ela se sentiu culpada, mas apenas deu um sorriso amarelo e disse, — "Que tal você estudar comigo?"
"O quêêê?" — O rosto de Suzu se contraiu de desgosto.
"Escuta só," — interveio Hana. — "Você quer entrar para a Associação de Praticantes depois de se formar, não quer? Bem, a Associação leva as notas em consideração, não leva?"
Metade dos alunos da escola estava de olho na Associação, então os professores viviam pegando no pé sobre os requisitos acadêmicos desde o primeiro ano.
"Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa" — disse Suzu, desviando o olhar de Hana.
Pelo visto, não importava que notas boas fossem essenciais. Ela detestava a ideia de estudar.
"Além disso, pretendo entrar para o suporte de retaguarda. Tudo vai dar certo mesmo se eu não for boa nos estudos" — disse ela, cheia de si. De onde diabos vinha tanta confiança?
Então...
"O mundo dos praticantes não é tão complacente assim."
...palavras de reprovação voaram da espiã que vinha mantendo distância até então: Kikiyo. Hana não tinha notado a chegada dela.
Ao lado dela estava, não precisava nem adivinhar, Kiriya. Suas pupilas pretas, que não revelavam nada do que ele estava pensando, estavam fixadas em Ha... Suzu.
"Todos na Associação, incluindo os praticantes do suporte de retaguarda, lutam para proteger este país correndo risco de vida. Sua atitude fútil zomba dessa determinação, e eu não posso tolerar isso." — Aquela garota tímida tinha sumido num piscar de olhos. A expressão de Kikiyo mostrava sua indignação.
A fala descontraída de Suzu tinha desdenhado dos praticantes e parecia ter tocado em uma ferida.
O sermão de Kikiyo não tinha acabado. — "Você também nasceu em uma família de praticantes, não nasceu? Como pode menosprezar o suporte de retaguarda tão facilmente? Como parte dos cinco clãs, que são responsáveis por todos os praticantes de magia, eu não vou admitir isso."
Repreendida por Kikiyo, Suzu se encolheu toda e pediu desculpas. — "Eu não quis... Fui descuidada. Sinto muito, de verdade."
O desânimo e o pedido de desculpas de Suzu acalmaram Kikiyo. — "Muito bem, desde que você esteja ciente. Peço desculpas por falar de forma tão dura de repente." — Ela fez uma reverência profunda para Suzu.
Atrapalhada, Suzu deu um pulo e retribuiu a reverência. "Er, ah, eu também. Desculpa!"
Hana observava as duas — espelhadas em suas posturas — com total indiferença. O que quer que estivessem fazendo, não era problema dela. Mas isso mudou no instante em que Kikiyo se endireitou e direcionou seu olhar para Hana.
"Hana. Você, eu não posso aceitar. Alguém da Classe C não serve para ser esposa do Mestre Ichinomiya" — proclamou Kikiyo.
"Bom, ainda bem que não estou correndo atrás da sua aprovação" — respondeu Hana.
Saku tinha precisado do poder de Hana para restaurar a barreira ao redor do pilar. Isso era tudo o que Hana precisava saber.
Independentemente do que Kikiyo dissesse, Hana já tinha sido reconhecida dentro da casa dos Ichinomiya.
É verdade que o Nozomu era uma exceção, mas ele não era um problema sério. Ele podia bancar o marrento, mas era mole por dentro.
Kikiyo continuou, — "Eu quero saber por que o Mestre Ichinomiya escolheu alguém como você."
"O que você pretende fazer?" — Hana encarou Kikiyo com desconfiança.
A outra garota estava diferente do normal. Sua timidez típica não estava em lugar nenhum. Em vez disso, ela demonstrava uma coragem que indicava uma força interior.
Kikiyo apontou o dedo para Hana e declarou no meio do refeitório lotado, — "Eu te desafio para um duelo de shikigamis!"
As conversas ao redor cessaram na hora, pois os alunos em volta se viraram para assistir à cena se desenrolar, então a voz de Kikiyo ecoou nitidamente pelo ambiente silencioso.
Um alvoroço tomou conta do refeitório, com os alunos clamando uns sobre os outros.
"Espera, ela disse 'duelo', mas qualquer um consegue ver quem vai ser o vencedor."
"Sério, cara. Estamos falando dos restos da família Ichise aqui."
"O shikigami dela não é tipo um inseto?"
"Um duelo com a Hazuki seria uma coisa, mas a Hana não tem a menor chance. Sinto até pena dela."
Era temporada de caça à Hana.
Ninguém acreditava que a incompetente da Hana pudesse vencer.
Claro, Hana tinha mantido seus poderes ocultos justamente para ficar fora do radar de todo mundo, então a incredulidade deles era inevitável.
Saku viu através dela num piscar de olhos. Afinal, ele não tinha o ranque Obsidiana à toa.
Para colocar de outra forma, não havia uma única pessoa na escola — incluindo os professores — que fosse forte o suficiente para descobrir a verdadeira habilidade de Hana.
Kikiyo e Kiriya, os candidatos a próximos chefes do clã Nijouin, também não eram exceção.
Em resposta a Kikiyo, Hana disse, — "Não quero."
"Você não tem o direito de recusar. Você vai lutar" — rebateu Kikiyo. — "Com o Kiriya."
"..." Você está me desafiando para um duelo com outra pessoa?! Hana não devia ser a única questionando aquela presepada.
"Você é quem joga a luva, mas deixa o seu gêmeo para limpar a bagunça?" — perguntou Hana, incrédula.
"Eu não suporto insetos. Fico arrepiada só de pensar neles." — Kikiyo esfregou os braços, com o rosto tenso. Parecia que ela estava falando sério.
Mas Hana adorava a Azuha. Seus lábios se estreitaram em uma linha. "A Azuha pode até ser uma borboleta, mas ela é linda!" — Azuha voou para pousar no dedo de Hana. "Olhe bem para essas belas asas com as cores do arco-íris. Veja como elas brilham." — Hana empurrou a mão em direção a Kikiyo.
A garota soltou um grito agonizante. — "Ai! Sai fora, sai fora!"
"Que grosseria." — Hana bufou, tão indignada quanto uma mãe cujo filho tivesse sido desdenhado.
Kiriya deu um passo para ficar na frente de Hana e disse, — "Por gentileza." — Ele fez uma reverência profunda, endireitou-se e estendeu a mão.
Hana instintivamente estendeu a sua para segurá-la. — "Ah, tá, beleza?"
Naquele momento, os olhos de Kikiyo brilharam. — "Acabou de acontecer, você apertou a mão do Kiriya! Isso significa que você aceita o nosso desafio!"
"O quê...?! Não, não foi isso o que eu quis dizer nem de longe" — protestou Hana.
"Não. Não vou deixar você fugir mais" — disse Kikiyo.
Kiriya era educado demais para alguém cujos músculos faciais mal se moviam, e Hana tinha respondido à cortesia dele sem pensar. Graças ao deslize de Hana, Kikiyo estava transbordando entusiasmo.
Kikiyo era muito expressiva, e suas expressões mudavam da água para o vinho. Era um mistério por que seu gêmeo, Kiriya, não demonstrava reação nenhuma.
As personalidades deles eram tão diferentes que dava até para duvidar se eram gêmeos de verdade.
Não que Hana pudesse falar muita coisa.
Hana e Hazuki. Embora compartilhassem a mesma aparência, eram os opostos polares, um fato que tanto elas quanto todos ao redor sabiam muito bem.
"Vamos para o pátio interno" — disse Kikiyo.
"Eu não vou fazer isso. É sério" — rebateu Hana.
"Não, você vai lutar. Se recusar, eu vou falar com o diretor. Sei que ele vai ceder com um pouco de pressão."
"Você joga sujo para alguém com uma carinha tão fofa."
"Você não me dá outra escolha!!" — contestou Kikiyo, quase chorando.
Hana estava no limite. Olhou ao redor em busca de ajuda, mas não havia nenhuma alma corajosa disposta a enfrentar o clã Nijouin para vir ao resgate de Hana.
Ela não sabia o que fazer.
Mas bem nessa hora, ela avistou Nozomu de rabo de olho e soltou com deboche:
"Nossa, mas quem é que eu estou enxergando ali? Se não é o Nozomu!"
O rosto de Nozomu se contraiu todo, como se tivesse sido avistado por alguém repulsivo. Hana não deu a mínima para o olhar irritado dele, correu até lá e meteu a mão no ombro do garoto.
"Ai, meu Deus. Eu, sua frágil cunhadinha, estou em apuros. É claro que você vai quebrar esse galho para mim, né?"
"Tanto faz. Faz o que você quiser. Eu não tenho nada a ver com isso" — desdenhou ele, tirando a mão dela do ombro com um solavanco frio. Ele se virou para sair do refeitório.
Hana não se desesperou. Na verdade, foi bem o oposto. Um sorriso maldoso surgiu em seu rosto e ela puxou do bolso o amuleto de magatama de ágata branca.
"Ah, que peninha. Se você me ajudasse, eu estava pensando em te dar esta magatama. Sabe, ela faz par com a do Saku... e a ágata branca fortalece os laços entre irmãos, mas já que você não quer..." — disse Hana, com a voz destilando uma falsa sinceridade.
[Pipoc4h: Eu ainda falei, que ela ia meter esse louco pra ele ajudar ela kkkkk]
Nozomu já estava a uma certa distância, mas girou nos calcanhares e voltou marchando na direção dela.
Hana deu um sorriso de canto.
"Você não está mentindo, está?" — intimou ele.
Hana sabia perfeitamente o que ele queria dizer, mas se fez de sonsa mesmo assim.
"Hum... Sobre o quê?"
Nozomu se inclinou para a frente, com uma expressão quase assustadora no rosto.
"Sobre fazer par com a do meu irmão!" — A voz dele tremeu, mas saiu baixa como um sussurro. Ele provavelmente não queria que o seu complexo de irmão virasse fofoca. Era exatamente isso que tornava tudo tão divertido.
"Juro por tudo que é mais sagrado" — disse Hana. — "Ele usa junto com o pingente da Associação. Você nunca viu?"
O rosto dele se iluminou ao se lembrar. — "Ah, aquela!"
"Sim, aquela. Esta magatama faz par com a dele. A ágata branca ajuda a nutrir uma conexão mais profunda entre irmãos. O efeito com certeza dobra se cada um tiver uma" — sussurrou Hana para o Nozomu, caprichando na ênfase.
"Uma conexão mais profunda..."
O caso de complexo de irmão do Nozomu devia ser de nível gravíssimo. Os olhos dele estavam travados na pedra branca que Hana segurava. Quando ela movia a pedra da esquerda para a direita, o olhar dele acompanhava.
Ela parou a mão que segurava a magatama de forma cirúrgica e balançou o pingente bem na altura dos olhos de Nozomu. "Vai querer?"
"O que você quer em troca?" — exigiu ele.
Pelo visto, Nozomu nem ia mais tentar esconder dela o quanto idolatrava o irmão. Hana precisou fazer uma força sobre-humana para não cair na gargalhada.
"Você vai ajudar a sua querida cunhada e lutar no meu lugar, não vai?"
Os olhos de Nozomu se voltaram para Kiriya por um instante antes de pousarem novamente em Hana. O canto dos lábios dele se elevou. — "Fechado."
Ele se posicionou na frente de Kiriya e ergueu o dedo para apontar na cara do outro garoto. — "Eu serei o seu oponente!" — declarou ele, com a voz ecoando.
Hana bateu palmas. — "Esse é o irmãozinho dedicado que sempre pensa na família! Não esperava menos de você."
A reviravolta deixou Kikiyo, que tinha começado toda aquela presepada, completamente atarantada.
"Parem tudo. Esperem um minuto! Não foi isso o que a gente combinou."
"Do que você está falando?" --- disse Nozomu, seco. — "Você tem o seu campeão. Não venha reclamar agora por a gente fazer o mesmo."
"Anf... Mas eu..." — Kikiyo não conseguiu rebater o argumento de Nozomu.
"Você caçou briga com a matriarca do clã Ichinomiya. Pois bem, eu sou o irmão mais novo do líder e sou eu quem vai pagar o pato hoje."
"Ai, meu Deus, o que a gente faz, Kiriyaaa?" — Vendo seu plano descarrilar completamente, Kikiyo agarrou o braço de Kiriya, parecendo que ia desabar no choro.
[Pipoc4h: A mina é resenha dms kkkkk]
Kiriya colocou a mão na cabeça de Kikiyo para acalmá-la. — "Foi você quem propôs o duelo, então não há nada que possamos fazer agora."
"Nãooo, até tu, Kiriya?" — lamuriou Kikiyo.
Kiriya deu uma olhada ao redor do refeitório e acrescentou, — "E talvez seja tarde demais para dar para trás."
Os outros alunos estavam em um verdadeiro frenesi de empolgação.
"Caramba, um duelo entre um Ichinomiya e um Nijouin!"
"Eles vão lutar agora? E a próxima aula?"
"Mata a aula, óbvio! Se você perder essa chance, talvez nunca mais tenha outra na vida inteira."
"Meu Deus, eu tô muito empolgado!"
"Não é você que vai lutar, seu idiota. Tá, beleza, mas eu te entendo. Vamos, temos que comer rápido aqui."
"É! Senão os lugares bons vão sumir tudo."
O barulho que tomou conta do refeitório fazia o silêncio de alguns minutos atrás parecer um sonho.
Alguns alunos começaram a engolir a comida de qualquer jeito, outros puxaram os celulares para mandar mensagem para quem não estava lá contando os babados, e teve quem saiu correndo direto para o pátio interno para garantir um lugar na primeira fileira.
A situação estava tomando uma proporção muito maior do que Hana tinha previsto.
Com o clima tenso e elétrico do jeito que estava, não parecia que Kikiyo ou qualquer outra pessoa conseguiria pisar no freio.
"Pelo visto, o único jeito é ir até o fim" — disse Hana.
"Ah, que saco, perde a graça se não for você que vai lutar" — choramingou Kikiyo.
No entanto, ao contrário de Kikiyo, Hana estava aliviada que os holofotes tinham saído dela e ido direto para o duelo de Nozomu contra Kiriya.
"Ei," — disse Nozomu para Hana, — "eu vou lutar no seu lugar, mas é bom você não esquecer do meu pagamento."
"Já entendi, já entendi. Contanto que você vença... He-he-he." — Hana soltou uma risadinha cheia de segundas intenções, com um sorriso digno de político corrupto.
Satisfeito — ou talvez meio apavorado com a cara de Hana —, Nozomu se virou novamente para encarar Kiriya.
"Quanto mais rápido a gente resolver essa dor de cabeça, melhor" — disse ele. — "Vamos resolver isso lá fora."
Kiriya assentiu e seguiu Nozomu. Atrás dele vinha Kikiyo, com os ombros caídos.
Hana foi acompanhando bem atrás, toda serelepe agora que o ataque de Kikiyo tinha sido redirecionado para outra pessoa.
O duelo aconteceria no pátio da escola.
Como os duelos de shikigamis faziam parte das aulas práticas, já havia uma arena montada ali.
Os alunos se enfileiraram ao redor das linhas brancas que demarcavam os limites. Tinha gente demais para todo mundo conseguir enxergar, então havia espectadores se amontoando até nas janelas do segundo andar do prédio do colégio.
Ninguém estava ligando para o fato de estar perdendo a próxima aula.
Além disso, espalhados em meio à plateia que esperava com o coração na boca, havia professores também. Até o diretor tinha aparecido.
Provavelmente o corpo docente e os alunos inteiros tinham saído para assistir. O que começou como uma treta privada tinha virado um evento de escala escolar. O trem tinha descarrilado e, com certeza, não dava mais para parar.
Fotógrafos e repórteres do clube de jornalismo tinham garantido os lugares com as melhores vistas. A notícia da briga com certeza sairia estampada na edição do dia seguinte.
"Como as coisas foram parar desse jeito...?" — murmurou Kikiyo para si mesma, com as mãos na cabeça. Pelo visto, ela não tinha previsto que o duelo ganharia tamanha proporção.
Com aquele nível de alvoroço, seria impossível evitar que a notícia chegasse aos ouvidos do Saku. Considerando que o Saku já tinha dado um esporro nela uma vez, a perspectiva de levar outro devia estar fazendo o estômago dela dar nós.
Kikiyo estava apenas colhendo o que plantou, mas Hana achou que o mínimo que podia fazer era arrumar um remédio de estômago para a garota.
"Quem você acha que ganha, Mestra?" — perguntou Azuha, com a voz sumindo no meio do barulho da multidão. Só Hana escutou.
"Hum, se fosse o Saku lutando, eu não teria dúvidas de que ele ganharia, mas estamos falando do Nozomu aqui" — disse Hana.
Quando Hana tinha lutado contra ele, Azuha venceu facilmente sem levar um único golpe. A consideração de Hana pelas habilidades do Nozomu não era das mais altas. Para completar, a aluna número um da Classe A era a Hazuki. Nozomu era, no máximo, o segundo colocado.
Em comparação, Kiriya tinha sido indicado como candidato a próximo chefe do clã, segundo as fontes da Suzu.
Hana não sabia o quão talentoso Kiriya realmente era, mas, julgando pelas entrelinhas, ele devia estar pelo menos no mesmo nível do Nozomu.
Será que era possível que, apesar da candidatura, ele não fosse tão forte assim?
Ou quem sabe ele estivesse escondendo as verdadeiras habilidades do mesmo jeito que a Hana?
"O Kiriya é um mistério. Tanto um como o outro tem chances," — concluiu ela, por fim.
Os dois jovens se enfrentavam na arena. Nozomu estava com sangue nos olhos, movido pela ideia de ganhar o pingente de magatama que fazia par com o do irmão. Por outro lado, Kiriya olhava com cara de paisagem para as nuvens que passavam no céu. Não dava para saber se ele tinha alguma motivação ali.
"É, eu seriamente não faço a menor ideia de que tipo de pessoa ele é. É um enigma completo" — disse Hana.
Kiriya era o oposto de Kikiyo, cujos pensamentos ficavam estampados na cara, fáceis de qualquer um ler. A personalidade dele era difícil de fisgar, e o seu estilo de luta também.
Quem ia lutar de verdade era o Nozomu, então, para todos os efeitos, Hana não tinha motivo nenhum para se preocupar, mas ela não conseguia evitar a curiosidade.
Depois de um tempo, os dois combatentes terminaram os preparativos. O juiz era o professor de educação física — um homem cujo atributo mais chamativo eram os músculos, que saltavam por baixo da roupa, e que estava mais empolgado com a partida do que qualquer outra pessoa.
Com aquele tamanho todo, ele era um praticante de Ranque Vermelho, o terceiro dos cinco ranques. Ele tinha uma bagagem enorme de experiência e tinha sido enviado pela Associação de Praticantes para dar aulas no colégio. Não que essa informação importasse no momento.
Ele era um verdadeiro cabeça de vento focado em músculos, então deveria julgar a partida de forma justa.
"Estão prontos? Lutadores, invoquem seus shikigamis" — declarou ele.
"Guren, mostre-se" — ordenou Nozomu. Seu shikigami de gavião se materializou, voando em círculos lá no alto.
"Hibari" — Kiriya murmurou o que parecia ser um nome. Uma pantera magnífica surgiu e roçou a cabeça na mão de Kiriya com carinho.
Kiriya acariciou a pantera, com os lábios relaxando de leve daquela sua linha reta habitual.
"Nossa, então o shikigami dele é uma pantera?" — refletiu Hana.
A energia que emanava da criatura era nítida.
Mas Hana conhecia o mais forte de todos os praticantes e não conseguia evitar comparar Kiriya com Saku. Como ela imaginava, o garoto não parecia poderoso o suficiente para ser um candidato a líder de clã. Ela tombou a cabeça, confusa.
O mesmo podia ser dito sobre a sua outra metade, Kikiyo. Eles certamente eram fortes comparados aos outros alunos da Classe A. Isso não era surpresa para descendentes diretos de um dos cinco clãs. Mas seriam eles capazes de defender o pilar, uma tarefa com a qual até o Saku tinha penado?
Bom, quem quer que fosse herdar o clã Nijouin não era problema da Hana.
"Lutem!"
Enquanto Hana viajava na maionese, perdida em outros pensamentos, o professor de educação física deu o sinal verde. Ela voltou correndo para a realidade.
Nozomu partiu para o ataque na hora.
"Guren!" — gritou ele.
Guren parou de voar em círculos e mergulhou em uma velocidade absurda, indo direto na direção da pantera de Kiriya. A pantera saltou, prevendo o ataque, e contorceu seu corpo ágil para desferir um arranhão com suas garras afiadas. O gavião cuspiu uma esfera de energia que bloqueou as garras da pantera.
Tendo repelido o golpe, Guren escapou de volta para o céu, o seu território nativo.
Em seguida, ele fez chover uma enxurrada de rajadas de energia na terra. A pantera se esquivava com passos rápidos. Quando Guren fez um voo rasante, a pantera aproveitou a chance e saltou tentando abocanhar o gavião. Guren girou no ar para desviar do ataque e conseguiu cravar as garras no flanco da pantera.
"Gwar!" — A pantera urrou de dor, tropeçando e caindo no chão.
No entanto, ela não perdeu tempo para recuperar o equilíbrio. Guren tinha a intenção de emendar um ataque de acompanhamento, mas vendo o oponente se recuperar, mudou de direção imediatamente e subiu de volta para os céus.
A plateia acompanhava a troca de golpes de olhos arregalados e berrava de empolgação.
"VAI!"
"Caramba, isso foi incrível."
"Não dava para esperar menos de descendentes diretos dos cinco clãs. Eles jogam em outra liga."
"Mano, sério. Que jeito é esse que esses shikigamis se movem? É muito MANEIRO."
Os alunos assistiam aos dois duelistas com admiração.
Os professores também estavam impressionados com a exibição. Alguns chegaram até a aplaudir. No meio de toda a agitação, os fotógrafos do clube de jornalismo metralhavam o botão do obturador, esperando conseguir a foto perfeita.
"Vê se tira umas fotos boas!"
"Deixa com a gente!"
Os nerds da fotografia talvez fossem os mais empolgados de todos ali.
Hana decidiu pegar uma distância e se enfiar em um canto. Quando ela se afastou da partida, foi abordada por Kikiyo, que também tinha desistido da primeira fileira.
"Você não deveria estar assistindo a sua outra metade lutar?" — perguntou Hana.
Kikiyo parecia emburrada por algum motivo.
"Isso foi covardia" — disse ela, em voz baixa.
"O que foi?"
"Envolver alguém que não tinha nada a ver e sair correndo! Eu queria ver o quão poderosa você era" — disse ela, fazendo bico de frustração, provavelmente descontente porque o duelo não tinha saído conforme o planejado.
Hana olhou para Kikiyo com perplexidade. — "Foi você quem brotou com tudo isso para cima de mim. Eu estava na minha, cuidando da minha vida. Você não tem o direito de falar nada" — rebateu ela.
As lágrimas brotaram nos olhos de Kikiyo. — "Mas o normal é as pessoas se portarem direito para conseguir reconhecimento, não é? Eu não vejo você fazendo nada para ajudar o Mestre Ichinomiya. Por isso achei que você ficaria motivada se eu te desafiasse para lutar. Como as coisas saíram tanto do controle? Por que é o Nozomu que está lutando?!"
Hana entendia o que Kikiyo queria dizer, mas a última parte daquele chilique era só pura frustração sendo jogada para fora.
"E por que eu preciso da sua aprovação, para começar?" — disse Hana.
"Er, porque senão..."
"Senão você ficaria numa situação chata, né? Você não vai conseguir desapegar do Saku enquanto eu for tão inútil assim. Mas isso não tem nada a ver comigo. Esse problema é seu; estou errada?"
Kikiyo não conseguiu formular uma resposta. O olhar dela divagava inquieto, como se fosse uma criança perdida.
"Se você gosta dele, por que não vai lá e se declara de uma vez? Acho que seria muito melhor você ouvir o que ele sente com as próprias palavras dele, não?"
Uma abordagem direta seria infinitamente melhor do que os joguinhos indiretos que Kikiyo ficava fazendo com a Hana.
Mas o ponto principal era que Hana não queria se enrolar mais com os gêmeos do que já estava.
Declarações de guerra dia sim, dia também, iam deixá-la maluca.
"Co-co-co-nfessar... Você acha...?! Eu não!" — gaguejou Kikiyo.
Hana engoliu a vontade de retrucar, O que você é, uma galinha cacarejando?
O rosto de Kikiyo tinha ficado tão vermelho que parecia até doer. Profundamente abalada, ela escondeu o rosto nas mãos.
"Se você tem peito para me oferecer um suborno de três bilhões de ienes, seria muito mais produtivo gastar essa energia conversando com o Saku, não acha?"
Kikiyo balançou a cabeça com tanta força que parecia que o pescoço ia quebrar.
"De jeito nenhum! Isso é impossível!"
"Mas você ficaria realmente satisfeita se eu terminasse com o Saku? Conseguiria aceitar numa boa a Hazuki virando a próxima esposa dele? Eu, pelo menos, acho que não. Você só ia continuar colocando defeito nela também, não ia? Tipo: 'Se eu fosse a esposa do Saku, eu faria isso e aquilo melhor.'"
"Eu..."
"Bom, você provavelmente não quer ouvir nada disso vindo de mim, já que sou eu quem está casada com ele no momento" — Hana deu de ombros. — "Mas você não vai se sentir nem um pouco melhor vindo me atacar, vai?" — Por trás de suas palavras havia uma bronca implícita: Você não acha que está gastando a sua energia com a pessoa errada?
"..." — Kikiyo olhou para o chão, em silêncio.
Um momento depois, a multidão ao redor explodiu em aplausos calorosos.
"Incrííível! Vitória do Ichinomiya!"
"O Nozomu é demais!"
"Espera aí. Mas o gêmeo dos Nijouin foi daora pra caramba também."
Pelo visto, a batalha tinha sido decidida enquanto Hana e Kikiyo conversavam.
E Nozomu tinha vencido. Que reviravolta chocante.
Hana teria que soltar uns elogios para o lado dele. Ele provavelmente ia mandar ela embora pelo incômodo, mas fazia parte.
Hana deixou Kikiyo — que continuava congelada — para trás e foi até o Nozomu.
A luta tinha ficado feia enquanto ela não estava prestando atenção. A superfície da arena estava toda destruída e cheia de rachaduras.
"Hum, talvez eu devesse ter ficado para assistir."
Oportunidades de ver uma batalha entre dois descendentes dos cinco clãs eram raras — ainda mais para a Hana, que estava em uma classe diferente.
A plateia começou a se dispersar agora que o duelo tinha acabado. Nozomu estava agachado no chão no meio do pátio.
Tendo gastado toda a sua energia na luta, ele parecia meio exausto.
"Você está bem?" — perguntou Hana.
"Para onde você sumiu depois de empurrar a sua confusão pra cima de mim?" — O fogo habitual do Nozomu não estava em lugar nenhum. Que milagre.
"Mal aí, mal aí. Os fotógrafos estavam secos para filmar a partida. Eu não queria ficar no caminho deles."
"Esse tipo de coisa não vale a dor de cabeça. Aqueles urubus sempre dão um jeito de se enfiar onde não devem" — Ele não tinha nenhuma palavra simpática para o clube de jornalismo. Talvez já tivesse tido problemas com eles no passado.
"Mais importante, parabéns por vencer o duelo," — disse Hana, — "e contra o candidato a próximo líder do clã Nijouin, ainda por cima."
"Foi justamente por ele ser um Nijouin que eu consegui arrancar uma vitória" — disse Nozomu.
"O quê?" — Hana tombou a cabeça, confusa. Ela não manjava nada dos cinco clãs.
A expressão de Nozomu mudou para puro cansaço.
"Você é a matriarca do clã Ichinomiya! Não deveria precisar de explicação para isso."
"Você não pode esperar que eu aprenda tudo do dia para a noite. Estou no meio dos estudos agora. Então desembucha. Por quê?"
Nozomu continuava com cara de saco cheio, mas deu um suspiro e explicou resumidamente:
"O clã Nijouin é especialista em produzir talismãs. Claro, espera-se que eles demonstrem um certo nível de poder bruto, mas a força bruta não é o requisito principal para se tornar o líder do clã Nijouin."
"Então você quer dizer que aqueles gêmeos são candidatos porque têm talento para fabricar talismãs?"
"Provavelmente. Eles nem perceberam os poderes que você está escondendo, mesmo o Saku tendo percebido na hora. Os candidatos a líderes dos outros clãs provavelmente vão reagir de forma diferente a você também" — Nozomu parecia meio amargurado. Ele também não tinha conseguido medir a verdadeira habilidade de Hana quando se conheceram.
Enquanto Hana matutava se Nozomu ainda estava encucado com a derrota que sofreu para ela, Nozomu estendeu a mão. Hana instintivamente segurou a mão dele. Será que ele queria um aperto de mão de vitória?
"Ai" — resmungou Hana quando Nozomu jogou a mão dela longe.
"Errado!" — gritou ele, estendendo a mão de novo. — "Me dá isso. Você sabe. Aquilo."
"Aquilo?" — O que diabos ele estava querendo dizer? Pontos de interrogação brotaram na cabeça de Hana.
Uma veia saltou na testa de Nozomu. — "A magatama!" — exigiu ele, de forma ríspida.
"Ahhh! Verdade, verdade." — Hana tinha esquecido completamente. Ela colocou a recompensa da vitória na palma da mão dele.
Nozomu envolveu a magatama com as duas mãos, segurando-a como se fosse uma joia preciosa. Sua expressão era de pura felicidade.
"Se você gosta tanto assim do seu irmão, por que fala com ele com tanta patada?" — perguntou Hana.
"V-você entendeu tudo errado!" — protestou ele.
"Qual é a vantagem de tentar esconder isso agora? Continua com essa cara de culpado e todo mundo vai descobrir o seu segredo. Sabe, o Saku provavelmente ficaria bem feliz se você fosse sincero com ele."
"Os meus sentimentos seriam apenas um fardo para ele."
"Cadê a sua prova?"
"Quer dizer, fala sério, eu sou só um estorvo para ele..." — As palavras saíram da boca de Nozomu, carregadas de autodepreciação. — "Não tem como o Saku não ter vergonha de ter um irmão incompetente como eu. Eu nasci na família principal dos Ichinomiya, mas não presto para nada. Sou um defeituoso. Não sou digno nem de ser o rival dele."
A expressão de Nozomu obscureceu, mas ele manteve o rosto abaixado. Na mente de Hana, aquele Nozomu cabisbaixo se sobrepôs ao seu próprio eu do passado, e suas memórias mais amargas vieram à tona como uma enxurrada.
Uma vergonha para a família.
As sobras da irmã prodígio.
O fardo vergonhoso da linhagem.
Ela já tinha sido chamada de cada uma dessas coisas por outras pessoas antes.
Hana respirou fundo para se recompor e espantar os tentáculos das emoções sombrias que a puxavam para o passado. Em seguida, desferiu um golpe de caratê bem no topo da cabeça de Nozomu.
Foi um belo de um acerto crítico. Agonizando de dor, Nozomu levou as duas mãos à testa.
"Ai! O que pensa que está fazendo?!" — berrou ele, enfurecido com o ataque surpresa.
Ela o agarrou pelas lapelas do uniforme. Dessa vez, meteu-lhe uma cabeçada.
Contudo, ela também sofreu dano com o impacto. Gemendo com a dor do golpe, Hana levou as mãos à cabeça, espelhando o gesto de Nozomu em perfeita sintonia de sofrimento.
"Ai, ai, ai..." — resmungou ela.
"Qual é o seu problema?!"
"Você estava falando porcaria, seu pirralho, então te dei uma lição."
"Quem você está chamando de pirralho?!"
"É justamente por você agir assim que eu te chamo de pirralho!" — Ela o encarou com lágrimas nos olhos. — "Não sei em que tipo de delírio você está se afundando, mas o Saku não é um homem mesquinho e de mente estreita a esse ponto."
Nozomu ficou em silêncio. A censura furiosa dela desarmou qualquer resposta dele.
"O Saku te disse isso? Que você é um fardo? Que você não presta?" — exigiu ela.
"Ele nunca diria uma coisa dessas!"
"Sim, exatamente! Então você sabe."
O rosto de Nozomu se contraiu em confusão. Ele ainda não conseguia entender onde Hana queria chegar.
"O Saku pode ser arrogante, convencido e agir como se fosse o centro do universo, mas ele não é o tipo de cara que diria coisas só para ferir os outros" — disse Hana. — "Você não é tão forte quanto o Saku? Não serve para ser o rival dele? É óbvio que não. O Saku é marrento porque ele se esforçou para caramba para estar onde está. Mas o senso de responsabilidade dele é igualmente forte. Ele carrega o futuro deste país nas costas."
Um praticante encarregado da proteção do pilar. Esse era o líder do clã Ichinomiya.
Ele sustentava o país por trás dos panos, onde ninguém conseguia ver.
Quão pesado era o fardo que esmagava seus ombros?
Hana não conseguia nem imaginar.
"O que importa para o Saku são suas responsabilidades e deveres como líder do clã. Quem é mais forte, quem ganharia — ele não perde tempo fazendo essas comparações. A mente dele está focada em como proteger o que é dele. A diferença entre você e ele começa na determinação de vocês como praticantes."
Nozomu mordeu o lábio inferior, frustrado.
"Se o Saku estivesse no seu lugar, ele investiria o tempo que você gasta hesitando para lapidar suas próprias habilidades. Afinal de contas, ele faz parte do clã Ichinomiya, que é responsável pela proteção do pilar. E uma das pessoas sob a asa dele é você, o irmão mais novo dele."
"...Merda..."
"Não tem a menor chance de o Saku ter vergonha de você. Poucas pessoas são tão calorosas e passionais quanto ele."
Ele podia não ter enxergado à primeira vista.
Mas não havia como uma pessoa capaz de arriscar a própria vida por desconhecidos ser alguém insensível.
Nozomu enterrou os dedos no cabelo, escondendo o rosto entre as mãos e os braços.
Por um tempo, o silêncio dominou o lugar.
Então, Nozomu ergueu os olhos. — "Determinação... Entendi. Comparada à do meu irmão, a minha determinação como praticante é pífia?" — Ele soltou uma risada autodepreciativa antes de se levantar lentamente e sumir para dentro do prédio da escola.
Hana o observou partir sem dizer nada. Ela deu um longo suspiro ao se levantar e espanar a poeira do uniforme. — "Santo Deus, educar criança dá um trabalho danado."
Azuha veio voando e pousou no dedo de Hana. — "Que campo minado, hein."
"Nem me fale."
"Mas você não está em posição de falar muita coisa."
"Azuha, não precisa jogar sal na ferida" — disse Hana. — "Eu pensei a mesma coisa assim que refleti sobre o que eu disse. Olhe só quem está falando."
Espaço desperdiçado.
As sobras da irmã mais velha.
O fundo do poço.
A pessoa mais sensível a esses insultos era a própria Hana.
Ela se sentiu envergonhada por ter enchido a boca para falar sobre a determinação dos praticantes quando ela mesma não tinha um pingo disso.
"Ainda bem que não tinha ninguém por perto para ouvir" — comentou ela.
Não havia restado uma única alma ao redor. Do fundo do coração, ela estava aliviada por as únicas testemunhas daquela nova página de sua história no Colégio Obsidiana terem sido Nozomu e Azuha.
Naquela noite, Saku voltou para casa excepcionalmente cedo. Quando ele entrou, Hana perguntou:
"Por um acaso vocês pegaram os terroristas?"
"Não, ainda não" — respondeu ele.
"Ah, entendi."
"Você parece desapontada" — comentou Saku. — "Ficou solitária enquanto eu estava fora?"
"Nem um pouco."
Na realidade, o motivo da cara murcha de Hana era que ela não podia sair para se divertir enquanto o Crânio de Nirvana continuasse à solta e os talismãs estivessem sumidos.
No entanto, sua rejeição imediata e categórica foi um passo em falso.
No instante seguinte, os lábios de Saku se curvaram em um sorriso travado. — "Você não vai dar uma recompensa para o seu marido, que passou o dia inteiro ralando na rua?"
Ele avançou a passos lentos, encurtando a distância entre ele e Hana até encurralá-la contra a parede.
"Calma aí, abaixa a bola" — disse Hana.
"Eu estou calmo."
Presa entre a parede e o Saku, Hana não tinha mais nenhuma rota de fuga. Ela ficou em pânico.
"Você não acha que é responsabilidade de uma recém-casada receber o marido de volta do trabalho com pelo menos um mísero beijinho?" — provocou Saku.
"Eu nunca ouvi falar de uma palhaçada dessas!" — protestou Hana.
"Nesse caso, eu decreto que isso é uma regra oficial da casa dos Ichinomiya a partir de hoje."
"Ninguém precisa de uma regra dessas!"
"Chega de conversa. Anda logo. Um beijo para o seu querido marido assim que ele chegar em casa" — ordenou Saku.
Prensada contra a parede, Hana buscava desesperadamente uma saída. Foi bem nessa hora que Nozomu veio marchando a passos pesados na direção deles, berrando:
"Saku!"
Nozomu parou ao lado do irmão com uma carranca no rosto. — "Eu... eu..." — gaguejou ele.
Saku perguntou, — "O que foi?"
"Eu te amo, Saku!" — declarou ele.
[Pipoc4h: … Eu pulei alguma coisa? Do nada?]
A confissão abrupta deixou tanto Hana quanto Saku com os olhos arregalados que nem duas jarras.
Mas Nozomu ainda não tinha acabado. — "É por isso que eu vou me tornar um praticante de primeira categoria e virar o seu braço direito! Eu sou um Ichinomiya, exatamente igual a você!"
Tendo dito o que queria, ele deu meia-volta e saiu correndo, com as bochechas vermelhas de pura vergonha.
"Que diabos deu nele?" — perguntou Saku.
"Ah, acho que ele subiu de nível. Deixou de ter um complexo de irmão secreto para ter só um complexo de irmão comum mesmo" — respondeu Hana.
"Não entendi uma única palavra do que você falou."
"Deve ter sido um choque."
Hana não sabia por quais transformações emocionais Nozomu tinha passado, mas, tendo desistido de esconder o amor pelo irmão, ele parecia em paz. Ela imaginou que ele ficaria bem.
Quanto a Hana, ela aproveitou astutamente a oportunidade perfeita criada pelo caos e escorregou para fora da gaiola dos braços de Saku.
Saku pareceu irritado, mas mudou de assunto. — "Deixando isso de lado. Que história é essa que eu ouvi sobre você brigar com os gêmeos Nijouin?"
"Ah, então a fofoca já chegou até você?"
"Sim. Eu sei o panorama geral, embora não faça ideia de como o Nozomu foi parar na briga" — disse ele. — "E tudo isso logo depois de eu ter dado um aviso bem claro para a Kikiyo. Ela teve a audácia de me ignorar? Pois bem, eu vou fazer o que precisa ser feito. Vou ter uma conversinha com o líder do clã Nijouin."
Ao contrário de sua declaração firme, a expressão dele era tempestuosa. Ele parecia relutante em levar aquilo adiante.
"Você não precisa ir tão longe" — disse Hana. — "Eu a deixei desnorteada hoje."
Considerando a lavagem cerebral que Hana tinha dado na Kikiyo, a outra garota provavelmente não ia querer se meter com ela mais do que o estritamente necessário daqui para frente.
"Espera aí, não vá fazer nada que faça eu ir pedir desculpas depois, tá legal? Estou te pedindo, por favor."
"Eu não encostei em um único fio de cabelo dela ainda." — Hana deu um grande joinha para ele. — "Relaxa."
A sobrancelha de Saku deu um tique. "Ainda?! Como assim 'ainda'?!" — rugiu ele. — "Como eu devesse relaxar depois de ouvir isso?!"
"Você mesmo se enfiou nessa encrenca. Não tem como você não saber, né?" — repreendeu Hana. — "Sobre o que aquela garota sente por você."
"É claro que sei, mas se ela não toma uma atitude, não tem nada que eu possa fazer também. E esses métodos alternativos que ela arruma para extravasar as frustrações me deixam em uma saia justa."
"Que destruidor de corações você é hein."
"Eu sou realmente um homem entre homens. Eu te dou permissão para se apaixonar perdidamente por mim" — disse ele, com um sorriso convencido.
Hana pisou com tudo no pé dele e torceu o calcanhar com gosto antes de lançar um olhar gélido e dizer, — "Trate de ir trabalhar de uma vez."
◆
No dia seguinte, cópias do jornal da escola estavam coladas nos quadros de aviso de absolutamente todas as salas de aula. As manchetes espalhafatosas diziam:
HERDEIROS ILUSTRES DOS ICHINOMIYAS E NIJOUINS SAEM NO BRAÇO! e A DEUSA DA VITÓRIA ABENÇOA OS ICHINOMIYAS!
Havia uma cópia colada na sala de Hana também. Seus colegas de classe formaram um enxame ao redor do aviso no instante em que chegaram à escola.
Hana mesmo acabado de entrar na sala. Suzu se aproximou dela com um sorriso caloroso. — "Você já viu isso, Hana?"
"Sim, um membro do clube de jornalismo me deu uma cópia e disse para eu entregar para o chefe do clã."
A foto do Nozomu estava estampada cobrindo metade da página. Para um jornal produzido por um clube de ensino médio, estava com uma cara bem profissional. Hana ficou impressionada. Saku provavelmente ficaria bobo quando ela mostrasse para ele.
Ou quem sabe ela devesse mostrar para a Mio primeiro. A Mio não parecia o tipo de mãe que enche os filhos de elogios, mas até ela deveria conseguir arrumar uma ou duas palavras de parabéns depois de ler a descrição heroica do filho escrita na matéria.
Enquanto Hana examinava a página, Suzu deu um tapinha no ombro dela.
"Hana, Hana."
"O que foi?" — perguntou ela.
"Ela voltou."
"Hmm?"
Espreitando na porta da sala e encarando Hana — para variar — estava Kikiyo.
No entanto, havia algo de diferente na garota. Ela continuava com o foco total em Hana, com certeza, mas em vez do habitual olhar rancoroso, ela observava Hana com os olhos caídos de um cachorrinho que caiu do caminhão de mudança.
As palavras de Hana do dia anterior devem ter tocado na ferida.
Hana imaginou que Kikiyo ficaria ali plantada cuidando da vida dela até o intervalo acabar, mas depois de um tempinho, a outra garota deu meia-volta e saiu. Até então, ela se recusava a mover um único dedo até o sinal tocar. Hana ficou aliviada ao ver que Kikiyo parecia ter finalmente desistido de sua cruzada.
Mas ela cantou vitória cedo demais. No almoço, enquanto Hana comia com a Suzu no refeitório, Kikiyo sentou-se silenciosamente ao lado dela. Tanto Hana quanto Suzu olharam espantadas, com os hashis parados no meio do ar. Kiriya sentou-se na frente de sua gêmea.
Hana lançou um olhar desconfiado para Kikiyo e disse:
"...O que foi?"
"O que foi o quê?" — perguntou a outra garota.
"Quero dizer, o que você está fazendo sentada aqui?"
"Eu tenho o direito de sentar onde eu bem entender." — As palavras de Kikiyo foram frias e contidas, mas ela parecia tensa.
Hana sentiu, mais do que viu, os olhos da garota darem uma espiada em sua direção, como se estivesse medindo o terreno. Ela parecia estar coçando para falar sobre alguma coisa. Ignorá-la era uma opção viável, mas, em vez disso, Hana resolveu quebrar o gelo primeiro. — "Se você tem alguma coisa para dizer, fala de uma vez."
Kikiyo deu um sobressalto, seu olhar divagou por um instante até que ela pareceu juntar as forças e abriu a boca para dizer, — "M-me desculpa..."
Hana ficou surpresa com as desculpas repentinas. — "Desculpa pelo que, do nada?"
"Por tentar te forçar a lutar. É exatamente como você disse. Eu desprezo qualquer garota que tenha qualquer envolvimento com o Mestre Ichinomiya!" — admitiu ela.
Kikiyo tinha finalmente tirado a máscara e revelado seu verdadeiro eu. Hana não a desprezou por isso; na verdade, admirou a honestidade.
"Eu sempre idolatrei o Mestre Ichinomiya" — continuou Kikiyo. — "Ele é um praticante fantástico e um homem maravilhoso. Eu sabia que ele não conseguiria evitar o casamento se virasse o chefe do clã. Então eu implorei para o meu avô. Pedi para ele arranjar um casamento entre eu e o Mestre Ichinomiya."
"O quê? Sério?" — Hana não tinha imaginado que Kikiyo levaria as coisas a tão longe.
"Mas o meu avô me proibiu de falar com o Mestre Ichinomiya. Ele disse que eu não servia, que eu não estava à altura do Mestre Ichinomiya em termos de poder bruto... Como esposa dele, tenho certeza de que você sabe do que estou falando."
"Hum? Ahhh, sim."
Para fortalecer a barreira do pilar, a parceira de Saku precisava ter um poder comparável ao dele. Pelo que Hana conseguia avaliar, o abismo entre Kikiyo e Saku era grande demais. Essa diferença só ficaria no caminho de Saku enquanto ele consertasse a barreira.
Os casamentos dos líderes dos cinco clãs não eram baseados em amor.
"Quando ouvi dizer que o Mestre Ichinomiya ia se casar, achei que a parceira dele seria uma mulher extremamente poderosa. Fiquei quebrando a cabeça sem parar sobre que tipo de pessoa ela seria. Então eu mandei te investigar" — disse Kikiyo.
O tom dela foi descontraído, nem parecia que ela tinha acabado de confessar algo absurdo. Contudo, ela parecia não ver problema nenhum naquilo.
Não era uma notícia muito agradável ouvir que a sua vida tinha sido bisbilhotada pelas costas.
Alheia às emoções complexas de Hana, Kikiyo seguiu em frente com a explicação.
"Foi aí que descobri que a pessoa escolhida pelo Mestre Ichinomiya não tinha sido a Hazuki, que é famosa por ser um prodígio, mas a infame irmã gêmea dela conhecida por não valer um tostão furado."
Como sempre, a garota parecia estar segurando o choro que ameaçava transbordar de seus olhos a qualquer momento. Kiriya afagou a cabeça dela para consolá-la. — "Não chora" — disse ele.
"Eu ainda não estou chorando" — rebateu ela.
Eles realmente eram uma dupla de gêmeos muito unida.
Havia entre eles um laço construído à base de confiança mútua. Toda vez que olhava para Kikiyo e Kiriya, gêmeos exatamente como ela, Hana não conseguia evitar pensar em bobagens que não mudariam nada de um jeito ou de um outro. Coisas como: se ela e Hazuki tivessem uma relação próxima assim, talvez a situação delas tivesse tomado um rumo completamente diferente.
"Eu não consigo entender por que uma praticante de quinta categoria como você serviu para ser a noiva do líder do clã e eu não" — disse Kikiyo. — "Eu tinha certeza de que você tinha descoberto algum podre do Mestre Ichinomiya para chantageá-lo."
"Se serve de consolo, foi o oposto" — resmungou Hana.
"Sério?"
"Bom, foi algo nessa linha."
Hana tinha sido hipnotizada pelo dinheiro.
"...Então foi por isso que você aceitou tão rápido quando eu te mandei assinar o divórcio do nada." — Kikiyo juntou as peças do quebra-cabeça. — "A sua prontidão em assinar os papéis me fez questionar ainda mais o motivo de você ter virado a parceira do Mestre Ichinomiya."
"E foi por isso que você ficou me infernizando?"
"Infernizando?!" — soltou Kikiyo, espantada.
Mas se aquilo não era infernizar, o que seria? Hana ficou surpresa por Kikiyo ter se iludido a ponto de achar o contrário.
"Anf... Eu não tenho como me defender, mas é que — eu precisava saber o motivo de qualquer jeito. Por que o Mestre Ichinomiya escolheu você? Por que não eu?"
"Bom, se existe um motivo, acho que é porque ele é o líder do clã, sei lá" — respondeu Hana. — "Ele precisava do meu poder. Só isso."
"Mas você não tem um pingo de talento. Isso não é só a sua arrogância como esposa falando?!" — As lágrimas começaram a cair dos olhos de Kikiyo de verdade. Ela deitou o rosto na mesa.
Hana olhou para a Kikiyo caída no chão com uma ponta de cansaço e depois olhou para o relógio. Estava quase na hora do sinal tocar.
Quase nenhum outro aluno tinha ficado no refeitório. Os poucos restantes já estavam de saída. Os únicos ainda enrolando ali eram o grupo de Hana.
"Suzu, vai indo para a sala sem mim" — disse Hana.
"E você?" — perguntou Suzu.
"Bom, eu não posso simplesmente deixar ela nesse estado, posso?" — Ela lançou um olhar para Kikiyo, que soluçava e chorava como uma criança. Ela deu um sorriso sem graça para Suzu.
Suzu retribuiu com um sorriso cansado. — "É verdade. Eu invento alguma desculpa para dar para o professor."
"Beleza, valeu." — Hana acenou para Suzu enquanto ela saía.
Com o refeitório agora completamente deserto, ela murmurou:
"Expanda."
Ela conjurou uma barreira de ocultação. Ninguém do lado de fora conseguiria enxergar os três, e os poderes deles ficariam contidos ali dentro.
Tanto Kikiyo, com as bochechas molhadas de lágrimas, quanto Kiriya ficaram boquiabertos com o surgimento repentino da barreira.
"Por que você ergueu uma barreira?" — perguntou Kikiyo, com pontos de interrogação dançando na cabeça.
"Porque não quero que ninguém veja o que estou prestes a fazer." — Hana deu um sorriso travado para a outra garota. Ela chamou os nomes de seus shikigamis ocultos. — "Aoi. Miyabi."
Os dois shikigamis se materializaram instantaneamente. Os olhos de Kikiyo ficaram do tamanho de pratos com a aparição dos shikigamis em forma humana. Até Kiriya exibiu uma expressão de choque genuíno; foi uma visão extremamente gratificante.
"Er... Hana, quem são eles?" — Kikiyo conseguiu perguntar.
"Meus shikigamis, Aoi e Miyabi" --- respondeu Hana.
Miyabi sorriu e fez uma reverência elegante. Aoi manteve uma expressão altiva e nem se dignou a cumprimentar os gêmeos.
Kikiyo soltou, — "Mas eles têm forma humana?!"
"Sim."
"Você tem dois shikigamis humanos?"
"Sim. Foi por isso que eu fui a escolhida" — disse Hana. — "Porque sou forte o suficiente para rivalizar com o Saku."
Kikiyo olhou de Miyabi para Aoi sem conseguir acreditar, mas depois de um segundo, ela recuperou a compostura e sua expressão mudou para aceitação. — "Então é assim... Nós estávamos jogando em divisões diferentes desde o começo. Por que você esconde isso de todo mundo? Ninguém conseguiria te chamar de inútil se soubesse que você tem dois shikigamis humanos."
"Provavelmente não. Mas, em troca, eu teria que abrir mão da minha vida tranquila. E, para ser sincera, não estou pronta pra isso ainda" — respondeu Hana.
O Saku já tinha avisado ela antes.
É impossível se esconder para sempre, ele tinha dito.
A própria Hana tinha um leve pressentimento disso, de que o dia chegaria em que seus poderes seriam expostos ao mundo.
Como a Hazuki e os pais dela reagiriam nessa hora?
O que quer que acontecesse, com certeza seria uma dor de cabeça das grandes.
Por isso, ela planejava fincar os pés no chão até o último segundo possível.
"Enfim, deixando isso de lado, você entendeu por que o Saku me escolheu agora?" — perguntou Hana.
Kikiyo olhou trêmula de volta para Miyabi e Aoi e deu um sorriso melancólico.
"Acho que entendi. Eu não sou páreo para você. Não tenho o tipo de poder esmagador necessário para conquistar o Mestre Ichinomiya." — Ela fez uma reverência profunda na direção de Hana. — "Peço desculpas por todo o transtorno que te causei até agora. Vou parar de tentar te testar."
"Isso seria ótimo." — Esse tinha sido todo o motivo de ela ter corrido o risco de manifestar Aoi e Miyabi dentro do terreno da escola.
"Eu tenho mais um pedido" — disse Kikiyo.
"O que é?"
"Você me permite continuar te infernizando," — perguntou Kikiyo, — "mas como amiga dessa vez?" — Ela olhou para Hana por baixo dos cílios, avaliando a expressão de Hana com ansiedade nos olhos.
Hana deu um sorriso e estendeu a mão. — "Eu dispenso a parte de me infernizar, mas... se for como amiga, tudo bem."
O rosto de Kikiyo se iluminou. Ela parecia radiante ao segurar a mão de Hana.
Hana desfez a invocação de Aoi e Miyabi e liberou a barreira.
A aula já tinha começado há séculos. Algum professor com certeza viria patrulhar o refeitório se continuassem enrolando ali. Eles decidiram voltar para suas respectivas salas de aula.
Hana começou a seguir a saltitante Kikiyo para fora do refeitório quando Kiriya deu um tapinha no seu ombro. Ela parou. — "O que foi?"
"A minha irmã tem os defeitos dela, mas eu a deixo sob os seus cuidados" — disse o garoto, com a solenidade de quem estivesse entregando a mão da filha em casamento, e abaixou a cabeça.
"Eu não estou casando com ela" — retrucou Hana instintivamente. Ela esperava que ele fizesse vista grossa para o deboche.
"Eu disse algo errado?" — perguntou ele, perplexo.
"Muita coisa."
Kiriya parecia não achar que havia nada de estranho no que tinha acabado de falar. Ele tombou a cabeça, intrigado, enquanto ia atrás de Kikiyo.
"Aquele garoto é uma verdadeira caixa-preta."
A entidade chamada Kiriya e o que ele escondia continuavam sendo o único mistério sem solução.
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