Noiva do Mestre de BarreirasVolume 1 – Capítulo 4
Capítulo 5Capítulo 4
Desde o duelo de Hana com Nozomu, quando ela havia mostrado sua verdadeira força, todos ao seu redor começaram a tratá-la de forma diferente. Os empregados pararam de falar mal dela pelas costas, e por isso Aoi também voltou ao seu bom humor. Até Mio, a mãe de Saku, tinha parado de implicar com ela. Seus dias finalmente estavam tranquilos e sossegados.
Havia uma exceção. Nozomu, que tinha sido completamente destruído por ela em batalha, franzia o cenho toda vez que se cruzavam.
Ultimamente, Hana tinha passado a comer na sala de jantar como era devido, fazendo todas as refeições junto com os outros três membros da família. No entanto, Nozomu jamais lhe dirigia a palavra nessas ocasiões.
Da parte de Hana, ela ainda não tinha superado o fato de Nozomu ter arrumado briga com ela. Respondia à atitude dele com sorrisos irônicos, jogando lenha na fogueira de propósito. Ela se divertia vendo o corpo dele tremer de raiva contida enquanto ele fingia não a notar.
Saku sempre lhe dava um cascudo quando ela passava dos limites. Encontrar o equilíbrio certo era fundamental.
Então, certo dia, Hana se deparou com uma cena peculiar.
Nozomu estava sentado sozinho num canto isolado do jardim.
Curiosa sobre o que ele estava fazendo, Hana se escondeu na sombra de um prédio e ficou o observando em segredo.
“O que eu faço, Guren?” — ele murmurou, aparentemente no meio de uma conversa com seu shikigami, um falcão chamado Guren.
“Tudo que eu queria era me apresentar à esposa do Saku. Você conhece meu irmão! Você sabe como ele é incrível, né? Ele é a pessoa mais jovem que já obteve a Quinta Cor. Ele é forte, legal, inteligente e simplesmente perfeito em todos os sentidos, e eu achei que quem quer que ele escolhesse devia ser igualmente extraordinário.”
“Mas aí eu fiquei sabendo que ele ia se casar com aquela inútil. Eu tinha tanta certeza que existia um par melhor para ele, e abri minha boca enorme sem pensar. Já percebi na hora que tinha feito besteira, mas já era tarde demais.”
“Eu quero pedir desculpa, mas como eu faço isso depois de tudo que aconteceu? Eu disse coisas horríveis. O que eu faço? Será que o Saku me odeia? E se ele disser que não precisa de um irmão caçula como eu…? Guren, o que eu faço?! Se ele me odeia, prefiro morrer!”
Hana foi embora sem fazer o menor barulho. — “Sinto que acabei de ver algo que não devia…”
Ela estava caminhando pelo corredor, com os braços cruzados, agonizando sobre o que tinha presenciado, quando Mio apareceu e a parou.
“Algum problema, Hana?”
“Ah, mãe do Saku. Não, não é nada. Jamais ia te incomodar com isso.”
Acabei de descobrir que seu filho tem um complexo de irmão mais velho gravíssimo! …era uma frase que ela definitivamente não ia soltar tão cedo.
“Você poderia parar com isso?” Mio perguntou.
“'Com isso'?” — Hana inclinou a cabeça. Não tinha a menor ideia do que estava sendo pedido.
“Para de me chamar de mãe do Saku. Eu não sou só mãe dele; sou sua também, então por favor me trate como tal.” — Mio se virou e saiu apressada, as bochechas tingidas de um rosa suave.
Primeiro Nozomu, agora Mio. O que estava acontecendo com todo mundo hoje…?
“Ei, Saku, tsundere é configuração padrão de fábrica da sua família?” — Hana perguntou a Saku, que por acaso passava por ali naquele exato momento.
Saku a encarou com desconfiança. — “Do que você está falando agora?”
◆
“Q-que diabos é isso?! De onde isso saiu?!”
“Chegou o dia do seu julgamento.”
“Ui— Isso falou…”
A sombra negra avançou ondulando. Como um caçador perseguindo a sua presa, foi encurtando a distância e atacou.
“AAAIIIII!!”
Um silêncio tomou conta da cena. O cadáver, condenado ao silêncio eterno, caiu no chão.
“Um a menos.”
Em algum lugar, num prédio de apartamentos, na escuridão sombria de um quarto que já foi habitado, o caçador desapareceu sem fazer barulho.
◆
Os dias que se seguiram ao casamento foram um redemoinho caótico, mas finalmente chegou o dia em que Hana pôde voltar à escola.
Hana sempre foi de ir a pé e tinha plena intenção de fazer o mesmo naquela manhã. Contudo, Mio ficou sabendo dos planos de Hana e a repreendeu. A Matriarca do clã Ichinomiya definitivamente não podia ir à escola andando. Ela foi ordenada a usar o carro.
Então, pela primeira vez na vida, Hana foi à aula de carro com motorista.
Havia alunos no Colégio Obsidiana que pertenciam a famílias secundárias do clã Ichinomiya e, portanto, tinham comparecido ao casamento de Saku e Hana. Eles tinham espalhado histórias sobre a cerimônia para o resto da escola.
Hana sempre teve a fama de ser a irmã mais nova sem talento de Hazuki, mas antes ainda desfrutava de um certo anonimato. Agora, até estudantes que nunca souberam que ela existia estavam bem por dentro de quem ela era.
Quando entrou no pátio da escola, se viu imediatamente num temporal de olhares afiados como navalha.
“É sério que é ela?”
“Tem que ser piada, né? Ela é aquela que chamam de resto de Hazuki.”
“Mas os filhos das famílias secundárias foram ao casamento.”
"Bom, se os rumores forem verdade, o clã Ichinomiya está acabado. Não acredito que aceitaram uma lixeira dessas na família principal."
Os sussurros venenosos deixaram Hana enjoada. Ainda assim, ela sempre tinha sido alvo do desprezo alheio, e embora os insultos em si pudessem ter mudado, no fim das contas era o mesmo assédio ao qual estava acostumada. Quando reformulou as provocações dessa forma, se sentiu melhor.
“'Fofoca dura setenta e cinco dias.' É isso que dizem, né?” — Hana seguiu em direção à sua sala, ignorando o que estava ao redor.
Quando entrou na classe, foi emboscada por Suzu de imediato. — "Hana, o que está acontecendo?! O que ocorreu? Desde quando você está namorando o chefe do clã Ichinomiya?! Eu não ouvi nada sobre isso!"
O ambiente costumeiramente caloroso e fofo de Suzu tinha sumido. Os olhos de Suzu brilhavam perigosamente como os de uma caçadora. Dava até um pouco de medo…
"Se acalme, Suzu," — Hana disse.
Mas suas palavras não foram suficientes para apagar as chamas da animação de Suzu.
"Não tem como eu ficar calma! A Hana, essa Hana aqui, virou noiva de algum estranho. Pior ainda, não me disse uma palavra sequer, sendo eu sua melhor amiga! Quando eu consegui um namorado, te contei imediatamente."
Hana ficou distraída por um instante, se perguntando qual Hana "essa Hana" seria, mas não foi atrás do assunto. — "É-é. Eu também me sinto culpada por isso, mas não tive tempo de falar com você…", — ela disse por fim.
"Me conta o que aconteceu!" — Suzu exigiu.
"Tá bem…"
Hana colocou a mochila na carteira e começou a explicar.
Os outros colegas de classe fingiam não estar olhando, mas Hana percebia que todos estavam escutando avidamente. Na prática, eles provavelmente queriam interrogar Hana do mesmo jeito que Suzu estava fazendo.
De qualquer forma, Hana tinha escolhido deliberadamente a sala de aula como palco para contar sua história. Em vez de responder às mesmas perguntas repetidas vezes, ela preferia a plateia.
Hana não disse uma palavra sobre o contrato entre ela e Saku. Em vez disso, contou a Suzu que tinha conhecido Saku no parque, e no dia seguinte ele tinha pedido ela em casamento com toda a paixão do mundo. As condições que ele propôs eram boas demais para recusar, então ela aceitou.
Achava que podia ter cortado a história demais, mas a versão dela era inevitavelmente curta, já que ela não podia falar nada relacionado ao cristal.
Mesmo assim, quando Hana terminou, os olhos de Suzu estavam faiscando de animação. Ela tinha chegado às suas próprias conclusões sobre o relacionamento de Hana e Saku. — “Você está me dizendo que ele se apaixonou por você à primeira vista?”
“Se apaixonou à…? Ah, acho que sim?”
Ele tinha se apaixonado, sim — mas pelo talento de Hana.
“Meu Deus, que romântico!” — Suzu exclamou. — “E você deve ter ficado tão aliviada quando a família dele aprovou o casamento.”
“Bom, a mãe dele era contra no começo, mas acabou cedendo. Foi do nada, então eu entendo os sentimentos dela. Fico feliz que ela finalmente me aceitou.”
“Ele queria te fazer esposa dele tão desesperadamente que estava até disposto a ir contra a família.” — A expressão de Suzu era de total êxtase e sonho. Ela estava perdida na própria fantasia.
Infelizmente, o relacionamento de Hana e Saku não passava de um negócio.
Mesmo assim, agora que a notícia do casamento tinha se espalhado para todo canto, o que ia acontecer quando eles se divorciassem?
O divórcio inevitavelmente ia causar um alvoroço, mas Hana também estava preocupada com o que Saku pensava sobre isso.
Além do mais, a versão de Hana tinha fornecido um novo e suculento pedaço de fofoca para o moedor de rumores.
Absurdo. Hana genuinamente não entendia como as coisas tinham chegado nesse ponto.
Tudo que ela queria era deixar claro que o relacionamento dela com Saku era de conveniência, mas por ter sido obrigada a omitir tantos detalhes, de alguma forma a história virou que Saku tinha se apaixonado loucamente por ela e a levado num casamento de amor apaixonado.
Se a notícia se espalhasse, Saku ia ficar uma fera com ela.
Talvez tivesse sido um erro ter contado para Suzu no meio da sala de aula, mas era tarde demais para arrependimento. Seus colegas tinham ouvido tudo clarinho.
As meninas que viviam de drama estavam na mesma animação de Suzu. Hana até ouviu alguém a chamar de Cinderela moderna. Tá errado!, ela quis protestar.
"Ei, Suzu, acho que você entendeu errado alguma coisa. A gente se conheceu desse jeito, eu e Saku, mas nos casamos só porque era vantajoso para a família. Não é como se a gente fosse apaixonado um pelo outro ou algo assim," — Hana insistiu.
Se ela não esclarecesse logo, acabaria sendo retratada como a mulher coitada que Saku jogou fora quando finalmente se divorciassem. Era questão de vida ou morte.
Mas o estrago já tinha sido feito, e a história tinha ganhado vida própria.
“Não se preocupa, Hana. Eu te entendo perfeitamente,” — Suzu a tranquilizou. — “Você tem que dizer isso. Caso contrário, teria que lidar com todas as meninas morrendo de ciúme de você.”
“Hein? Não, não, não, você está errada, Suzu,” — Hana protestou.
“Por favor, Hana. Não liga para o que os outros pensam. Você já é a esposa dele, então ande de cabeça erguida.”
“Você entendeu errado, eu disse!”
“Shhh. Tá tudo bem. Eu sei, eu sei.”
Suzu sorriu para Hana radiante como o sol, apesar de as duas estarem em comprimentos de onda completamente diferentes. Mas agora que Suzu tinha tomado sua decisão, Hana era impotente para mudá-la.
A troca entre elas foi interrompida pela entrada do professor. Durante toda a aula, Hana se esforçou para encontrar uma forma de explicar.
No fim, não conseguiu esclarecer o mal-entendido nos intervalos. Quando chegou a hora do almoço, a notícia de que Saku tinha se apaixonado por ela à primeira vista tinha se espalhado pela escola inteira.
De alguma forma, a história tinha sido distorcida ainda mais. A versão mais recente pintava Saku e Hana como amantes contrariados pelo destino que tinham se casado apesar da oposição das duas famílias por causa da falta de habilidade de Hana. As pessoas estavam dizendo que eram como Romeu e Julieta.
“Não, não, as coisas sempre saem do controle no telefone sem fio,” — ela protestou.
Enquanto Hana se encaminhava para o refeitório, estudantes com quem ela jamais tinha interagido vinham até ela dizer — “estou torcendo por você” — enquanto enxugavam as lágrimas do canto dos olhos. Ela só conseguia cobrir o rosto com as mãos em desespero.
Saku ia ficar furioso com ela.
Esses rumores iam dificultar o divórcio mais tarde.
“O que eu faço…?” — ela murmurou.
A história fictícia a seguia para onde quer que fosse. Uma tragédia com final feliz. Em vez de ressentir Hana por ter se enfiado num casamento com o líder do clã Ichinomiya na marra, o corpo estudantil estava se deliciando com a situação.
Todo mundo amava uma boa história de Cinderela, não importava a época.
Se a história de Hana tivesse seguido o enredo da Cinderela, ela deveria ter sido jogada num turbilhão de ciúme das outras mulheres de olho no Saku. No entanto, a pitada de tragédia jogada na mistura tinha desencadeado uma reação química que ela jamais poderia ter previsto.
Ela se descobriu genuinamente entediada com as reações de todo mundo.
Mais tarde, Hana estava andando pelo corredor com Suzu.
“Hmm.” — Ela estava imersa em seus pensamentos, com os braços cruzados.
“Está preocupada com alguma coisa, Hana?” — Suzu perguntou.
“Um pouco.”
Um grupo de três meninas da Turma A bloqueou o caminho delas. Hana as tinha visto na companhia de Hazuki antes. Se bem se lembrava, todas eram filhas de famílias ramificadas do clã Ichinomiya.
“O que vocês querem?” — Hana perguntou.
“Que tal você saber o seu lugar?” — uma delas disse com desdém.
“Me explica uma coisa: você não sente vergonha de usar o nome Ichinomiya para seu próprio benefício?” — a amiga exigiu.
As meninas eram descaradas no desprezo por ela.
Uma vontade repentina de chorar e se agarrar a alguém a invadiu, de se refugiar nos braços daquela pessoa inestimável que reagiria exatamente do jeito que ela precisava.
De qualquer forma, já que as três faziam parte do clã Ichinomiya, com certeza tinham os olhos no próprio Saku. A hostilidade delas era previsível. Jamais em seus piores pesadelos esperariam ser preteridas em favor da infame e sem talento Hana. Se Hazuki tivesse sido a escolhida, elas teriam aceitado.
Elas olharam para Hana com ódio nos olhos e gritaram com ela.
"Não me interessa que rumores malucos estão circulando; é impossível que o Mestre Ichinomiya seja apaixonado por você!"
"Exato. Tem que ter algum outro motivo."
Quem rebateu os comentários debochados delas não foi Hana, mas Suzu. — "Vocês estão erradas! O Mestre Ichinomiya ama a Hana!" — ela gritou, com o rosto vermelho de raiva.
Hana adorava Suzu como sua amiga querida e uma pessoa genuinamente boa, mas infelizmente as três dissidentes estavam certas.
“Ninguém perguntou a sua opinião. Quem é de fora que cuide da própria vida!” — uma das meninas gritou.
“Vocês também são de fora!” — Suzu gritou de volta.
“Espera, Suzu…,” — disse Hana, perturbada pelo comportamento incomumente combativo de Suzu.
"Não fiquem com ciúme só porque o Mestre Ichinomiya não escolheu vocês!"
As palavras de Suzu acertaram em cheio num ponto sensível das três meninas.
Uma delas estava praticamente fervendo. O rosto estava vermelho e os ombros subiam e desciam. Sem aviso, ela empurrou Suzu com força, arremessando-a para longe.
“Suzu!” — Hana gritou, correndo para verificar o estado de Suzu onde ela tinha caído no corredor. — “Suzu, você está bem?”
“Tô…” — Suzu disse.
Hana ficou aliviada que Suzu não tinha nenhum ferimento visível. No entanto, Suzu estava massageando o braço como se estivesse com dor. Hana não podia deixar o ataque impune.
Ela virou um olhar gelado para as três meninas e avançou em direção a elas de forma ameaçadora.
A menina que tinha empurrado Suzu recuou, mas sem querer admitir a derrota, fingiu bravata em vez disso. — “O-o quê?”
“Peça desculpa à Suzu,” — Hana exigiu, mantendo a fúria que ardia dentro dela sob controle.
A outra menina reagiu com desdém. — “Com licença?! Por que diabos eu faria isso?”
“Foi você quem empurrou ela, então obviamente deve se desculpar.”
“Ela se meteu onde não era chamada. Só tem ela mesma pra culpar. Não tenho nada do que me arrepender,” — a menina insistiu.
Hana a encarou friamente. — “Entendi. Se é assim que você quer jogar, tudo bem. Mas se prepare, então.”
“Preparada para quê?”
Os lábios de Hana se curvaram num sorriso torto e malicioso. — “Você é de uma família secundária do Ichinomiya, né? Nesse caso, só preciso reportar isso ao Saku. Vou me certificar de incluir o fato de que você deliberadamente insultou e desafiou a matriarca do clã. Que sou eu, claro. Mal posso esperar para ver o que ele vai fazer com você.”
O rosto das meninas esvaziou de cor.
“O quê—?!”
“Covarde!”
Hana riu por dentro da agitação delas e continuou, — “Por que estão em pânico? Não foram vocês que insistiram que Saku não me ama? Se não acreditam que ele daria ouvidos a alguém como eu, então deveriam estar ansiosas para ver a reação dele.”
Depois de soltar essas palavras finais, ela agarrou a mão de Suzu e foi embora.
Ela sentia que tinha dito o que tinha a dizer e saído correndo, mas não havia motivo para ficar por ali discutindo com elas.
“Hana, tá tudo bem você ter dito tudo isso?” — Suzu perguntou, preocupada que Hana se encrencasse por ter invocado o nome de Saku de forma leviana.
Para as famílias secundárias, o chefe do clã era um ser divino que vivia nos céus, e eles evitavam incomodá-lo com qualquer coisa que não fosse de sua alçada.
Mas Hana não se importava com nada disso.
Afinal, aquele ser divino era o Saku. Nos poucos dias que tinham passado juntos, ela havia chegado à conclusão de que Saku não era tão mesquinho a ponto de se ofender com cada detalhe insignificante.
Ela nunca precisava pisar em ovos perto de Saku. Na verdade, era o oposto. Ela se sentia à vontade com ele, como se pudesse lhe contar tudo, e vice-versa.
Para ser completamente honesta, ela talvez fosse mais próxima de Saku do que da própria família.
E por ele ser tão magnânimo, ela não tinha nenhum escrúpulo em despejar seus problemas nele.
“Não fica assim, não,” — Hana disse a Suzu. — “Eu esperava esse tipo de desprezo desde o começo. Saku vai cuidar disso. Estou só emprestando a autoridade dele por um tempo.”
Quando a notícia corresse que qualquer pessoa que encostasse a mão em Hana teria que responder ao Mestre Ichinomiya, todos os insultos mesquinhos e bullying deveriam parar.
Desse ponto de vista, podia até ter sido benéfico para Hana que a versão de Romeu e Julieta tivesse circulado pela escola.
Foi Saku quem sugeriu que se casassem para começo de conversa, então era mais do que justo que ele fizesse o seu papel para garantir uma vida tranquila para Hana.
O objetivo de Hana era uma aposentadoria fácil e luxuosa.
“Entendi. Você é realmente amada. Fico tão feliz que a gente possa trocar histórias de amor agora!” — Suzu disse com um sorriso puro.
Hana sentiu uma pontada de culpa. Infelizmente, ela e Saku não eram esse tipo de casal. Ela passou por cima do relacionamento com Saku e pressionou Suzu a contar suas histórias.
"Vou ao shopping com o Yuu no nosso próximo encontro. Ele me convidou, e…"
Enquanto Suzu discorria poeticamente sobre o namorado, Hana ouvia atentamente e com um sorriso no rosto.
◆
Ao mesmo tempo em que Hana travava batalha contra rumores na escola, Saku estava visitando um certo apartamento a trabalho.
Na entrada do complexo residencial, havia policiais controlando o acesso. Saku só precisou mostrar o seu pingente de obsidiana para ser liberado na hora.
Assim que entrou no apartamento, seu nariz foi agredido pelo cheiro avassalador de ferro.
Além da entrada, o quarto era um mar de sangue.
Até as paredes e o teto estavam salpicados de gotas de sangue carmesim que escurecia para o negro. O chão estava tão ensanguentado que era difícil encontrar um lugar limpo para pisar.
O policial de plantão no cômodo avistou Saku e se aproximou.
“Obrigado por vir, Mestre Ichinomiya.”
“Não é um caso comum, é?” — Saku perguntou.
“Não.”
Saku estava longe de ser policial, mas havia sido chamado com um propósito específico.
De vez em quando, quando a ciência falhava em desvendar as respostas de um caso, a polícia chamava praticantes para consulta. Nessas ocasiões, um sigilo absoluto era imposto a todos os envolvidos.
Primeiro, a Associação enviava seus primeiros respondentes para determinar se o caso exigia a perícia de um praticante.
A mídia de massa estava sob o guarda-chuva dos cinco clãs, então no caso de serem necessários praticantes — e não policiais — para resolver o caso, era fácil restringir a disseminação de informações.
“Me mostra o corpo,” — Saku disse.
Um lençol azul havia sido estendido no centro do quarto. O policial obedeceu a Saku e o levantou, revelando o cadáver brutalizado de um jovem, o corpo deixado onde havia sido encontrado inicialmente.
“A vítima morreu de perda de sangue. A causa da morte parece ser o ferimento no pescoço,” — o policial explicou.
“Os braços e pernas estão faltando,” — Saku comentou com indiferença.
Como praticante da Quinta Cor, ele já havia estado em muitas cenas de crime. Não piscou diante do cadáver macabro. Examinou o corpo com um olhar pragmático em busca de qualquer coisa fora do comum.
O policial franziu o cenho e recitou os fatos do caso que conhecia.
“O ferimento no pescoço parece ser uma mordida. As marcas nos membros indicam que foram arrancados também por mordidas. No entanto, a vítima não tinha animais de estimação. Além disso, é difícil imaginar algum animal grande o suficiente para arrancar os braços e pernas de um homem circulando pela cidade.”
“Entendi,” — Saku respondeu secamente.
Ele se agachou ao lado da vítima para examinar mais de perto. O que mais lhe interessava eram as marcas de mordida.
“Há uma energia sinistra ao redor dos ferimentos. Altamente concentrada. Mas isso não parece exatamente com obra de sombras, também.”
“Você quer dizer que esse caso está sob a jurisdição dos praticantes?”
“Sim, aparentemente. E parece que vai ser bem chatinho de resolver. Os primeiros respondentes provavelmente chegaram à mesma conclusão, já que me convocaram deliberadamente apesar da minha agenda lotada.” — Ele estalou a língua.
Que timing. Pensar que um incidente grave o suficiente para exigir um praticante da Quinta Cor aparecia enquanto a barreira ao redor do pilar ainda estava incompleta.
Saku queria empurrar o caso para outra pessoa e priorizar o trabalho na barreira, mas havia pouquíssimos praticantes de nível Obsidiana. Todos os outros estavam de mãos atadas com seus próprios casos. No fim, o único disponível na região era o próprio Saku.
Transferir o trabalho imprudentemente para um praticante de nível inferior podia causar mais mal do que bem. Saku não tinha escolha a não ser assumir o caso pessoalmente.
Sem outra saída, ele aceitou a investigação.
Poucos dias depois, um segundo incidente ocorreu.
Um corpo dilacerado por uma fera havia sido descoberto em um parque.
Dessa vez, havia uma testemunha.
A vítima estava bebendo com um amigo quando foram atacados.
Saku não perdeu tempo e foi interrogar a testemunha. Durante a entrevista, o homem tremia de medo. Não era para menos. Ele havia visto seu amigo ser morto diante dos próprios olhos e estava em estado de choque.
“Você pode me contar o que aconteceu?” — Saku perguntou com a maior gentileza que conseguia. O homem estava muito assustado.
“U-um monstro…,” — o homem gaguejou, com o rosto sem cor e o corpo tremendo.
“Um monstro? Que tipo?”
“A gente estava bebendo no parque quando aquela — aquela coisa veio atrás de nós. Tinha uns três metros. Um cachorro enorme. Mas não tem como existir um cachorro desse tamanho. Fiquei paralisado quando ele apareceu. Aí ele nos atacou.” — As palavras do homem morreram na garganta. Ele ficou sentado tremendo com os lábios bem fechados.
Saku concluiu que não adiantava perguntar mais nada ao homem e se preparou para ir embora. No entanto, o homem de repente agarrou Saku. Ele se agarrou a Saku desesperadamente e implorou, — “Me salva, por favor! Ele vai me matar em seguida! Ele disse isso!”
“O que você quer dizer?” — Saku perguntou.
“O monstro me ameaçou. 'Dois já foram, faltam dois. Você é o próximo.' Foi isso que ele disse… Como isso foi acontecer? Logo depois daquele idiota do Hayase também ter se dado mal.”
“O que você disse?”
A testemunha tinha acabado de dizer algo que Saku não podia ignorar.
Hayase era o nome da vítima encontrada morta no apartamento alguns dias atrás.
“Você o conhecia?!” — Saku exigiu, agarrando os ombros do homem.
O homem recuou assustado e assentiu.
“S-sim. A gente saía junto.”
As vítimas um e dois haviam morrido pelo mesmo tipo de ferimento, e o terceiro alvo já tinha sido avisado.
Além disso, os três homens se conheciam.
“Os assassinatos não são aleatórios…,” — ele murmurou para si mesmo.
O culpado planejava tirar a vida de mais duas pessoas, uma das quais era o homem à sua frente.
“Mas qual é o motivo?”
Devia haver algum tipo de razão, alguma coisa em comum entre os alvos.
Saku também tinha que rastrear o quarto e último alvo, mas quando perguntou à testemunha por pistas, tudo que recebeu de volta foi um — “não sei, não sei” repetido à exaustão. Desistiu de perguntar mais.
Ele designou Tsubaki para proteger o homem e se encaminhou até a última cena do crime, o parque. Lá, foi recebido por uma atmosfera de ressentimento tão visceral que o fez franzir o cenho.
O assassinato de uma única pessoa não poderia resultar em uma nuvem de malícia tão densa.
A entrada no parque estava proibida, mas ainda havia vários policiais nas dependências. Saku chamou um deles.
“Pode responder uma pergunta para mim?”
“O que foi?” — o policial perguntou.
“Além do incidente mais recente, houve algum outro problema nesse parque ultimamente?”
“Além desse?” — Ele refletiu sobre a pergunta de Saku com uma expressão confusa.
Enquanto ele pensava, um segundo policial interveio, tendo se lembrado de algo possivelmente relevante.
“Se não me falha a memória, não foi aqui que acharam os cachorros? Os que foram mortos?”
Uma ficha caiu para o primeiro policial.
“É isso mesmo. Foi aqui.”
“Qual era o caso?” — Saku perguntou.
“Um grande número de corpos de cachorros foi descoberto neste parque há pouco tempo,” — ele recitou. — “Todos apresentavam ferimentos visíveis, então a polícia vem investigando sob a hipótese de que um ser humano estava por trás das mortes. Acho que até foi notícia. Vários incidentes semelhantes aconteceram nesse bairro recentemente.”
“Entendi. Obrigado pela informação.”
“Foi um prazer ajudar.”
Os policiais fizeram uma reverência.
Saku saiu do parque e voltou para a residência Ichinomiya. Estava no meio da compilação das informações coletadas por outros praticantes quando Tsubaki voltou, machucada e bastante ferida.
Ele imediatamente correu até ela.
“Você está bem, Tsubaki? O que aconteceu?”
“Ugh. Sinto muito, Mestre. Eu — eu perdi.”
“O que aconteceu com o homem que você estava protegendo?”
“Ele está vivo. Mas você precisa mandar outra pessoa protegê-lo antes que… aquilo volte…” — Tsubaki hesitou e então desabou, desaparecendo onde havia caído.
Shikigami podiam se regenerar inúmeras vezes enquanto seu mestre estivesse vivo. No entanto, se esgotassem energia a tal ponto que não conseguissem mais manter sua forma, precisavam de tempo para se recuperar. Tsubaki não estaria em condições de retornar ao serviço tão cedo.
Saku não havia antecipado que o culpado seria forte o suficiente para derrubar Tsubaki. Uma entidade tão poderosa não podia ficar vagando solta por muito tempo.
“O tempo é o inimigo,” — Saku murmurou.
Ele fez algumas ligações sem demora para arranjar a substituição de Tsubaki. Um único praticante não seria suficiente. Conseguiu mobilizar vários com habilidades consideráveis.
Então chamou um empregado. — “Traga Hana até mim,” — ele ordenou.
“Compreendido, Mestre.”
Ele não teve que esperar muito antes de Hana aparecer no cômodo. Azuha estava com ela, pousada no cabelo como de costume.
Hana ainda mantinha um freio no seu poder, mas qualquer um que olhasse direito deveria ter percebido imediatamente sua força avassaladora.
Ela tinha talento bruto suficiente para impressionar até mesmo Saku.
Era inacreditável que ela tivesse conseguido esconder por tanto tempo. Seria pelo talento em guardar segredos ou por ter sido cercada de incompetentes? Saku suspeitava que a razão era uma mistura dos dois.
No entanto, o irmão de Hana, Yanagi, detinha o recorde de praticante mais jovem a obter o nível Lápis — um recorde que o próprio Saku não havia conseguido bater. Mesmo assim, Yanagi também não havia notado.
Saku queria exigir como isso era humanamente possível.
É verdade que Yanagi raramente voltava para casa, então talvez não fosse absurdo demais.
De qualquer forma, Saku mal tinha o direito de reclamar. Ele também havia empurrado trabalho para Yanagi continuamente.
A frustração que sentia agora definitivamente não era porque estava amargurado por não ter batido o recorde de nível Lápis mais jovem. Bobagem.
[Pipoc4h: Aparentemente, tsundere é realmente a configuração padrão de fábrica dessa família]
“Você me chamou, Saku?” — Hana perguntou.
“Sim, preciso falar com você sobre uma coisa.”
Ele esperou Hana se sentar à sua frente antes de continuar. Resumiu os dois assassinatos recentes e explicou que o culpado provavelmente não era humano e que, além disso, pessoas comuns do cotidiano eram os alvos.
“Ainda tenho o reparo da barreira para considerar, então quero encerrar esse caso o quanto antes,” — ele disse. — “Para isso, preciso da sua—”
“Não.” — Hana recusou de forma abrupta antes mesmo de Saku terminar.
Um silêncio momentâneo tomou conta do cômodo.
Saku repetiu fica calmo inúmeras vezes na própria cabeça enquanto dizia, — “Com seus poderes, você poderia resolver o caso num instante.”
“Eu disse não.”
Recusado pela segunda vez, Saku chegou ao limite da paciência.
“Foi você quem disse que ia me ajudar onde pudesse!”
“Eu disse isso?” — Hana respondeu, fingindo ignorância.
A veia na têmpora de Saku pulsou. Olhando para aquela Hana que parecia ter esquecido completamente a conversa anterior, ele queria exigir de volta as emoções que havia desperdiçado com ela.
As palavras dela tinham significado tão pouco para ela que já as havia esquecido.
Mas elas tinham deixado Saku feliz.
Saku ofuscava imensamente o praticante médio. Embora houvesse pessoas com quem podia contar, nunca havia existido ninguém no passado que lhe dissesse que ele podia depender de alguma pessoa.
Todos o respeitavam, mas ninguém se preocupava com ele. Ninguém, exceto Hana.
E mesmo assim…
Saku finalmente entendeu o significado da expressão “Do grande amor nasce o grande ódio.”
“E se eu acrescentar isso no contrato?” — ele jogou.
“Acrescentar o quê?” — Hana perguntou.
“Se você resolver o caso, eu coloco uma villa com vista para o mar.”
A atitude de Hana virou de cabeça para baixo. Os olhos faiscando, ela disse:
“Será um prazer te ajudar!”
“Traz sua cópia do contrato mais tarde. Vou escrever a emenda.”
“Às suas ordens, Capitão!”
Foi assim que Saku conseguiu a promessa de ajuda de Hana.
◆
Hipnotizada pela visão de uma villa à beira-mar, Hana havia concordado com o pedido de ajuda de Saku antes mesmo de parar para pensar. A impulsividade lhe rendeu a ira de Aoi depois, mas mesmo assim, quando viu a cláusula recém-escrita no final do contrato, ficou nas nuvens.
“Isso deve ser suficiente,” — Saku disse, entregando o documento.
“Obrigada!”
Hana deu uma olhada por cima e o dobrou de volta. Ela ainda não sabia se iria se arrepender da decisão mais tarde.
Saku arrastou Hana para fora de casa supostamente para fins investigativos.
Era dia de aula, mas Saku havia avisado ao professor responsável pela turma dela que ela o acompanharia em serviço oficial de praticante, então ela tinha levado o dia livre.
Quanto ao que a investigação realmente envolvia, consistia principalmente nos dois perambulando pela cidade.
Hana podia ser forte, mas nunca havia tido experiência prática com um caso antes. Ela seguia Saku sem entender nada do que estava acontecendo.
Quando ficou cansada, finalmente perguntou a Saku, — “Ei, o que a gente está fazendo? E a investigação?”
“Estamos no meio dela agora.”
“Como assim?”
Até onde Hana podia perceber, eles tinham simplesmente dado uma volta.
“Você não notou?” — Saku perguntou.
"Notado o quê?" — Hana genuinamente não fazia a menor ideia do que ele estava falando.
Ele a olhou com desdém.
“Reconheço que você consegue matar uma sombra sem suar, mas suas habilidades são desequilibradas. Já que você nunca trabalhou como praticante antes, é o que é.”
“O que você quer dizer?” — ela perguntou.
Saku suspirou e pegou o celular para mostrar a Hana um mapa do bairro.
“Aqui está a primeira cena do crime, e aqui está a segunda,” — ele explicou pacientemente, apontando os locais no mapa. — “E aqui é onde os corpos mutilados dos animais foram descobertos.”
“São todos perto. Ah, será que…?” — Hana evocou os lugares que tinham visitado naquela manhã e finalmente entendeu o que Saku estava dizendo. — “A gente passou por todos eles antes?”
“Exato. Você pode não ter notado, mas todos os locais continham traços da mesma energia — um ódio maligno e ressentimento que devem ter nascido dos animais que foram mortos. Quando a animosidade tem tempo de apodrecer num mesmo lugar, as almas não conseguem seguir em frente. Expostas ao poder, inevitavelmente se transformam em sombras.”
“Sombras nascem das emoções negativas profundas dos seres vivos, né? Isso eu aprendi na escola.” — Hana o encarou friamente, desafiando-o a subestimá-la de novo.
“E mesmo assim você não notou nada. De qualquer forma, deixa isso pra lá. Os lugares que visitamos tinham em algum momento sido saturados de ressentimento suficiente para dar origem a sombras, mas não encontramos nenhuma.”
“Agora que você falou…”
Hana lidava com ataques de sombras com regularidade, mas mesmo com os dois circulando por lugares com energia negativa forte — lugares que sombras eram atraídas — não tinham visto nenhuma.
“Eu conseguia sentir os rastros de ódio, mas eles já tinham desaparecido quase por completo. Era como um cheiro persistente no ar. Nesse caso, para onde foram? Esse é o problema em questão. Também notei um traço de energia maligna no local onde os animais foram descartados — a mesma energia que havia sentido ao redor das duas vítimas.”
Hana não havia sentido nada do tipo. Ela inclinou a cabeça, curiosa.
“…Você vai às aulas direito?” — Saku perguntou, exasperado.
“Bom, não é como se eu quisesse ser praticante,” — ela respondeu.
“O que você normalmente faz na aula?”
“Durmo.”
[Pipoc4h: Pelo menos ela é sincera kkkk]
A palavra mal havia saído da boca de Hana antes de Saku desferir um cascudo certeiro na cabeça dela.
“Presta atenção daqui pra frente,” — ele ordenou.
“Tá, tá. Mas mais importante, voltando ao caso.”
Saku suspirou fundo e se recompôs.
“Vamos ao próximo local.”
“Tem mais?” — Hana estava cansada de andar.
“Só mais um,” — ele disse, saindo a passos largos e a puxando pela mão junto.
O destino acabou sendo um estacionamento comum e corrente.
“É aqui?” — Hana perguntou quando chegaram.
“É. Me escuta. Olha bem ao redor e vê se consegue sentir algo incomum. Você lida com sombras o tempo todo. Tenho fé de que você consegue sentir o fluxo de energia.”
Hana fez o que lhe foi dito e observou os arredores com cuidado.
Todos os seus nervos estavam em alerta máximo para sinais — mesmo os invisíveis a olho nu — de contaminação, energia maligna ou qualquer coisa inumana.
Ela não entendia o que estava procurando no início, mas assim que se concentrou e focou de verdade, conseguiu captar as irregularidades de que Saku estava falando.
Ela conseguia sentir um traço de ressentimento tão extremo que lhe causou um arrepio na espinha. Tão intensos eram os sentimentos de raiva e rancor que ela quase conseguia ouvir os gritos de agonia.
Mas a sensação já era uma sombra do que havia sido, como se fosse desaparecer a qualquer momento.
“Entendi. Consigo sentir, de alguma forma,” — Hana disse.
“Eu sabia que você tinha bons instintos,” — Saku respondeu.
“Estou sempre à procura de sombras, então sou sensível às energias delas. Mas isso aqui parece um pouco diferente.”
“Ainda não se transformou em sombra. Consegue discernir aquele traço fraco de outra coisa?”
Hana se concentrou mais uma vez.
Havia uma energia sinistra que era ao mesmo tempo diferente e muito mais poderosa do que as emoções dos animais. Era parecida mas não idêntica à energia que sombras emitiam. Ela nunca havia sentido nada igual antes.
“Tem algo que não consigo identificar… O que é isso?” — ela perguntou.
“Senti a mesma animosidade vinda dos ferimentos das duas vítimas. A fonte dessa malignidade é o nosso culpado.”
“Você disse que o agressor é um cachorro, né? Um que fala?” — Hana confirmou.
“Sim.”
Ela nunca havia ouvido falar de uma sombra que conseguisse falar.
Sombras eram manifestações de energia negativa condensada. Não tinham identidade nem desejos próprios. Simplesmente projetavam ódio indiscriminadamente contra o mundo e tinham um apetite instintivo por poder.
No entanto, as vítimas do caso em que estavam trabalhando tinham sido selecionadas e atacadas por um motivo específico, então era improvável que os incidentes fossem causados por sombras.
Hana achou que Saku já tinha um suspeito em mente.
“Se não é uma sombra, o que você acha que é?” — ela perguntou.
“Uma entidade com vontade própria… Talvez algum tipo de maldição,” — ele propôs.
“Nesse caso, eu não vou conseguir ajudar, sabia?”
Maldições precisavam ser contrariadas, mas se o contra-ataque fosse executado de forma errada, a maldição podia ricochetear no praticante. Por essa razão, maldições eram consideradas perigosas demais para serem ensinadas na escola. Apenas praticantes da Terceira Cor para cima aprendiam como lidar com elas.
Saku saberia como tratar delas, já que tinha o nível Obsidiana, mas Hana ainda era estudante. A única coisa que ela sabia sobre maldições era que existiam.
“Estou ciente disso,” — Saku disse. — “Se minha teoria estiver certa, você não vai precisar fazer nada. Na verdade, é melhor nem tentar.”
Hana ficou aliviada com isso, mas ainda estava inquieta.
Os dois ficaram na cena por mais um tempo, mas quando não encontraram nada de interesse, decidiram ir embora.
“Sakuuu, estou com fome,” — Hana reclamou.
“Hmm, tá bom. Vamos fazer uma pausa,” — Saku disse.
Havia um shopping por perto onde poderiam encontrar algo para comer.
“Ah, preciso usar o banheiro rapidinho,” — ela disse.
“Tudo bem, mas se apresse.”
“Pode deixar.”
Quando Hana saiu do banheiro, encontrou Saku sendo paquerado por duas mulheres.
“Putz,” — Hana murmurou, parando no meio do caminho e recuando para um canto para espionar a situação.
“Vamos, o que você tem a perder?” — uma das mulheres disse de forma sedutora.
“Almoça rapidinho com a gente,” — a amiga insistiu.
As duas transbordavam confiança e continuavam a flertar descaradamente com Saku. Eram predadoras, e Saku era a presa pretendida.
Hana devia intervir? De jeito nenhum. Era impossível para ela.
Hana decidiu esperar e observar a situação. Ela conseguia perceber pela expressão de Saku que o humor dele estava deteriorando rapidamente.
No entanto, o olhar carrancudo não diminuía em nada sua boa aparência. Pelo contrário — o brilho ardente nos olhos só aumentava a empolgação das mulheres.
Hana estava íntima demais com a personalidade tirânica de Saku e sua mentalidade de “olho por olho”, o que geralmente a distraía da aparência dele. Mesmo assim, Saku era um homem atraente. Ele não conseguia nem dar uma volta curta pela cidade sem ser encurralado por mulheres.
“Ai, se não fosse a personalidade podre, seria o partido perfeito,” — Hana lamentou, sem se dar conta de que a própria personalidade era igualmente questionável. — “É o caso clássico do gato metido.”
“Metido?” — Azuha perguntou.
Hana assentiu energicamente.
“Exatamente. Uma beleza até abrir a boca. A cara é a única coisa boa que ele tem,” — ela disse, rindo animadamente.
“Entendo…,” — uma voz grave disse atrás dela.
Ela se virou para encontrar um Saku de cara fechada. Ele estava completamente rígido. Não havia nenhum traço de humor nos olhos, e a veia na têmpora pulsava.
“S-Saku… Se eu puder perguntar, desde quando…?” — Hana gaguejou, o sorriso congelando no rosto.
“Desculpa pela personalidade podre,” — ele disse seco.
“Você me ouviu?”
“Cada palavra, alto e bom som. Eu estava aqui esperando por você e aguentando todo tipo de assédio, enquanto você ficava me falando mal pelas costas?"
Merda! Hana praguejou mentalmente.
“Err…” — Ela não conseguia formar uma frase inteligível. Os olhos dela dispararam para todos os lados, incapazes de encarar os de Saku.
Enquanto ela se debatia, as duas mulheres que tinham estado flerando com Saku o seguiram até ali.
“Ei, o que você está fazendo aqui?” — uma perguntou.
“Vem almoçar com a gente,” — a segunda insistiu.
Saku olhou para as duas mulheres, depois para Hana. Então um sorriso malicioso de quem acabou de ter uma ideia diabólica aflorou no rosto dele.
Os alarmes de Hana dispararam imediatamente, mas ela não teve tempo de escapar. Antes que pudesse piscar, Saku a puxou para perto, a envolveu no braço e capturou seus lábios com os dele.
“Mmm…ah….mmm!” — ela protestou.
Hana se debateu contra o abraço, mas Saku não cedeu. Ele continuou a beijá-la profundamente, fazendo um show para as duas mulheres. A essa altura, ela estava em pânico.
Aos poucos, ela foi perdendo a energia para resistir e só conseguia se agarrar a Saku desamparadamente. Foi só então que ele afrouxou o abraço.
As bochechas de Hana estavam vermelho vivo, e ela estava sem fôlego.
Saku, em contraste, estava de excelente humor. Ele olhou para as mulheres.
“Vão continuar assistindo por quanto tempo? Estou em um encontro com minha esposa. Não tenho tempo para vocês.”
Contrariadas e irritadas pelo beijo apaixonado, as mulheres saíram correndo com o rosto corado.
“Finalmente foram embora.” — Saku soltou um suspiro de satisfação, parecendo contente e revigorado. Ele ainda a segurava.
Hana tinha uma montanha de coisas que queria dizer a ele, mas no fim, tudo se resumiu a três simples palavras.
“Saku, seu idiota!”
“Não se preocupe,” — ele disse, imperturbável. — “Ainda sou mais inteligente do que você.”
“Não é isso que eu estou falando!”
“Então o quê?” — Ele sorriu com malícia. Hana estava começando a odiar aquela expressão. — “Se não gostou, por que não me afastou?”
Ele sabia muito bem que ela já não tinha mais energia e estava praticamente se apoiando nele, e a provocava de propósito. Que sádico.
“Sua cara realmente é a única coisa boa em você,” — ela disse emburrada.
Era frustrante demais.
A forma delicada como Saku a segurava era ainda mais irritante.
A cereja do bolo era que ela não havia detestado o beijo, e era isso que mais a estava deixando louca.
[Pipoc4h: Tanta hipocrisia, vai ser tsundere também ? Kkkk Mas o cara tem chance hein]
Mas não havia a menor chance de ela admitir isso.
Para qualquer um que os observasse, Hana e Saku pareceriam um casal comum e apaixonado. Eles ainda estavam abraçados quando ouviram alguém gritar:
“Ei, aquela é a Hana!”
Hana se virou na direção do grito e viu Suzu apontando para elas de longe. Suzu correu até elas.
“Suzu?! O que você está fazendo aqui? E a escola?” — Hana perguntou.
“Ah, que bobagem. Só tivemos aula de manhã hoje. Me encontrei com o Yuu para um encontro depois da escola,” — Suzu explicou.
“Yuu?”
Hana olhou atrás de Suzu e viu o cara chamativo cuja foto Suzu havia lhe mostrado antes. Ele parecia ainda mais galinha em pessoa.
“Deixa isso pra lá…,” — Suzu disse, sorrindo de orelha a orelha para Hana, que ainda estava envolta nos braços de Saku. — “Vocês dois são uma fofura juntos, né?”
Hana se soltou às pressas.
“N-não é o que você está pensando.”
“Não fica com vergonha. Eu sei o quanto você gosta dele!” — Suzu disse animada.
“É mesmo?” — Saku disse com um sorriso irônico.
“Não! De jeito nenhum!” — Hana negou imediatamente, alarmada com esse novo capítulo dos acontecimentos.
“Não tem o que fazer se você é loucamente apaixonada por mim,” — ele provocou.
“Eu disse que não é isso! Só estão circulando rumores malucos pela escola!” — ela disse, completamente desesperada. — “Por favor, Suzu, te imploro, para de falar.”
Saku — o idiota — estava se divertindo à beça, tendo encontrado um novo jeito de implicar com Hana.
“Ah, esqueci de me apresentar!” — Suzu disse. — “Sou Suzu Mitsui, amiga da Hana, e este é meu namorado, Yuudai Namikawa.”
“E aí?” — Yuudai era loiro, tinha as orelhas cheias de piercings, e seu jeito largado de falar combinava com a aparência de galinha. — “Cara, você conhece eles, Suzu? Cara, que cara bonitão. Mas não chega nem perto de mim,” — ele disse e caiu na gargalhada.
Podia existir gente mais grosseira no mundo, mas Yuudai estava longe de ser refinado.
“Para com isso, Yuu,” — Suzu disse. — “O Mestre Ichinomiya é uma pessoa altamente distinta.”
“Ah, vai, ele não é o primeiro ministro, então que diferença faz?”
Mas ele estava errado. Em certos aspectos, Saku tinha mais poder do que qualquer primeiro ministro poderia sonhar em ter. No entanto, uma pessoa comum como Yuudai não saberia disso.
Suzu entendia muito bem a extensão da autoridade de Saku e se curvou profundamente, dobrando noventa graus na cintura para se desculpar pela grosseria de Yuudai.
“Mil desculpas, Mestre Ichinomiya!”
Yuudai assistiu sem o menor sinal de remorso enquanto Suzu abaixava a cabeça por ele. A opinião de Hana sobre ele estava despencando a cada segundo. Você é quem deveria estar se desculpando, ela pensou.
“Tá tudo bem, Suzu,” — Hana a tranquilizou. — “Saku não vai ficar bravo com uma coisa tão pequena. Não se preocupa. Podem voltar para o encontro de vocês…”
“Que tal um encontro duplo? A gente ia comer alguma coisa de qualquer jeito,” — Yuudai disse. — “Você paga, tá bom, coroa?”
O rosto de Saku deu um espasmo.
“Y-Yuu!” — Suzu exclamou horrorizada.
“Você quer sair com sua amiga, né, Suzu?”
“Quero, mas…”
“Então vamos.” — Yuudai colocou uma mão excessivamente familiar no ombro de Saku. — “Você é de longe o mais velho, então óbvio que você paga, né?”
Hana e Suzu ficaram em suspenso esperando Saku explodir. Yuudai tinha claramente passado dos limites dessa vez. Mas contrariando as expectativas das duas, não só Saku manteve o temperamento sob controle como ainda aceitou o almoço. As duas ficaram surpresas com a concessão. Suzu ficou tão feliz que Hana não teve coragem de ser a única a recusar o convite.
Enquanto se encaminhavam ao restaurante sugerido por Yuudai, Hana perguntou a Saku baixinho, — “Você está bem mesmo com isso? Achei que com certeza ia ficar bravo com a atitude dele. Se ele tivesse falado assim comigo, eu podia ter dado um soco nele.”
Ela não teria segurado, também. Teria mandado ele voar. E não havia como saber se ela teria parado no primeiro soco.
“Sim, os modos dele deixam muito a desejar, mas quero ficar de olho nele por enquanto,” — Saku respondeu.
“Você notou alguma coisa?” — Hana perguntou.
“Ele cheira a sangue.”
“Sangue?” — Ela não havia sentido nada do tipo. — “Tem certeza que não foi impressão?”
“Tenho. Chame de instinto de praticante. Tem algo incomum nele,” — Saku disse com convicção.
Hana não tinha como refutar a afirmação segura dele. Saku estava anos-luz à sua frente tanto em habilidade quanto em profundidade de experiência. Quem era ela para descartar os instintos de um praticante da Quinta Cor?
“De todas as pessoas, tinha que ser o namorado da Suzu…,” — ela murmurou.
O rosto radiante e apaixonado de Suzu veio à mente de Hana. Não havia nada que ela pudesse dizer.
“Tomara que não seja nada…”
Como amiga de Suzu, Hana não podia fazer outra coisa senão torcer para o melhor.
Os quatro foram almoçar.
O restaurante que Yuudai escolheu acabou sendo extravagante e caro. Não era o tipo de estabelecimento que um estudante do ensino médio podia frequentar por impulso.
Hana não sabia se Yuudai havia escolhido de propósito porque Saku estava pagando a conta, mas se fosse esse o caso, então Yuudai era puramente um babaca.
É claro, ele já havia mostrado seu lado verdadeiro quando tinha se imposto com toda aquela cara de pau a Saku, uma pessoa que ele acabara de conhecer.
Saku não havia piscado diante dos preços. Dinheiro não era problema para ele, considerando que era o líder de todo o grupo Ichinomiya. No entanto, a audácia de Yuudai pesava na cabeça de Hana.
Mesmo assim, Hana ficou aliviada em finalmente sentar depois de uma manhã inteira de pé. Ela se acomodou na cadeira e soltou um suspiro de alívio.
Durante todo o tempo que ficaram esperando pela comida, Yuudai manteve a atitude insolente. Ele desrespeitava Saku de forma casual uma vez após a outra. Cada vez, Suzu se desculpava em seu lugar.
Suzu havia dito a Hana que Yuudai era bonito e gentil, mas — sem querer ofender sua amiga — Hana genuinamente não entendia o que Suzu via nele.
E mesmo assim Suzu olhava para Yuudai com corações nos olhos. Quando Hana via Suzu se divertindo tanto, ela não sabia o que sentir.
Como amiga de Suzu, Hana estava preocupada com ela. Sabia que devia alertá-la contra namorar um lixo como Yuudai. No entanto, tinha medo de que Suzu a odiasse por dizer algo assim.
Hana foi ficando cada vez mais farta das palavras e do comportamento grosseiros de Yuudai durante a refeição. Finalmente, terminaram de comer e saíram do restaurante.
“Caramba, que comida boa,” disse Yuudai.
“Obrigada por nos receber, Mestre Ichinomiya,” — Suzu disse a Saku. — “Yuu, você também tem que agradecer.”
“Tá ótimo. Não se preocupa,” — disse Saku.
“Foi o que o homem disse. Adultos são certamente muito generosos,” — disse Yuudai.
Hana observou Yuudai recusar dizer uma palavra sequer de agradecimento mesmo estando ao lado de Suzu, que fazia uma reverência educada. Aquilo foi a gota d'água.
Hana olhou bem para Suzu e viu que sua expressão estava triste.
Sem aguentar mais, Hana agarrou Suzu pela mão e a arrastou, dizendo, — “Banheiro. Já volto.”
Estava deixando Saku sozinho com Yuudai, mas Saku sabia se virar.
Hana levou Suzu ao banheiro, mas não tinha nenhum plano específico. Não sabia o que dizer. Só queria ter tirado Suzu dali.
Um silêncio denso pairou entre elas.
Então Suzu disse suavemente, — “Sinto muito, Hana. Atrapalhei o seu encontro.”
“Mas você não é a culpada. Por qualquer ângulo que se olhe, quem…” — Hana não completou a frase, mas o estrago já estava feito.
“O Yuu era gentil no começo, juro. Mas ele mudou desde que a gente começou a namorar. Parece outra pessoa…”
“O que você achou do jeito que ele agiu hoje, Suzu?”
“…Ele passou dos limites. Fiquei sem acreditar,” — Suzu murmurou. Parecia difícil para ela admitir.
“Então você entende. Como sua amiga, não consigo acreditar que ele é seu namorado. Mas é o que eu sinto. O que importa é o que você pensa. O que você quer fazer? Você realmente quer continuar namorando alguém assim?”
“...” — Suzu não respondeu de imediato, as palavras travando na garganta.
“Vou apoiar qualquer escolha que você fizer,” — Hana continuou. — “Não importa se é certo ou errado — quero que você escolha o que vai te fazer feliz, o que vai te fazer sorrir no final do dia. E se você precisar de alguém para conversar, estou aqui a qualquer hora.”
“Hana…” — Os olhos de Suzu estavam marejados. Ela fungou baixinho, e as lágrimas escorreram pelo rosto.
Tudo que Hana podia fazer era acariciar sua cabeça com delicadeza.
Mas logo o sorriso radiante de costume voltou ao rosto de Suzu. — “Obrigada, Hana. Vou pensar direito nisso.”
“Ótimo. Você tem uma cabeça boa nos ombros, apesar das aparências. Sei que vai ficar bem.”
“Como assim ‘apesar das aparências’?” — Suzu disse emburrada, e Hana caiu na gargalhada.
As duas voltaram para onde Saku e Yuudai estavam esperando e as encontraram conversando animadamente.
Bem, na verdade, o único que parecia estar se divertindo era Yuudai. Saku parecia estar se segurando para não explodir.
Hana e Suzu correram até eles antes que Saku chegasse ao limite.
Enquanto Suzu falava com Yuudai, Hana perguntou a Saku: “Você está bem?”
“Parece que estou?” — ele retrucou.
“Hmm, você parece estar a um segundo de perder o controle,” — ela disse.
O sorriso forçado de Saku estava a assustando. Ela pediu para ele largar mão disso enquanto conversava com ela.
“Mas não foi de graça,” — disse Saku.
“O quê?”
“Ele conhece todas as vítimas anteriores.”
“Hein?!” — Hana exclamou alto de surpresa. Rapidamente cobriu a boca com as duas mãos.
Olhou para Suzu. Quando se certificou de que eles não estavam prestando atenção, abaixou as mãos.
“Isso está relacionado ao cheiro de sangue?” — Hana perguntou.
“Ainda não tenho certeza, mas é algo que não posso ignorar. Quanto você sabe sobre ele?”
“Só que é o namorado da Suzu. Nada mais.”
Saku estaloou a língua.
“Devo tentar perguntar discretamente para a Suzu sobre ele?” — ela perguntou.
“Melhor não. No pior dos cenários, podemos acabar envolvendo ela também.”
“Então o que a gente faz?”
“Colocamos alguém pra segui-lo e investigamos se ele tem ou não ligação com os incidentes. É tudo que podemos fazer. Por precaução, você deve dizer à sua amiga para não se encontrar com ele até encerrarmos o caso.”
“Sério mesmo. De todas as pessoas do mundo.” — Hana soltou um suspiro de exasperação.
Yuudai estava provando ser um problema de primeira categoria. Hana o amaldiçoaria até o fim dos tempos se Suzu acabasse se enrolando no caso por causa dele.
Hana tinha planejado ir embora logo após o almoço. No entanto, agora achava perigoso demais deixar Suzu sozinha com Yuudai, então continuaram no encontro a quatro.
Hana estava em alerta máximo, já que qualquer coisa podia acontecer a qualquer momento. Suas sobrancelhas foram se franzindo aos poucos em preocupação.
Saku cutucou o ponto entre as sobrancelhas dela. Ela piscou, sobressaltada, e encontrou os olhos dele. Ele sorria gentilmente para ela. — “Você vai se esgotar se ficar hiper focada o tempo todo. Relaxa um pouco.”
“Fácil falar.”
Como Hana podia relaxar com Suzu podendo estar em perigo?
“Não se preocupa. Eu estou aqui, não estou? E enquanto eu estiver, vou proteger tanto você quanto sua amiga,” — Saku declarou. Sua confiança não tinha fim.
Tranquilizada pela promessa, ela sentiu parte da tensão sair dos ombros. Saku tinha uma veia arrogante e podia ser prepotente, mas ela se sentiu aliviada de verdade.
Eles não estavam juntos há muito tempo, mas em algum momento ela havia passado a confiar nele.
Saku pousou uma mão grande e quente na cabeça de Hana. Ela tirou forças do peso reconfortante dela.
“Tá bom, então. Não ouse ficar de moleza,” — ela disse com um sorrisinho.
Eles circularam pelo shopping por um tempo. Nada fora do comum aconteceu. Então finalmente saíram e foram embora.
Só faltava acompanhar Suzu até em casa. Hana planejava encontrar uma abertura antes de se despedirem para dar o essencial a Suzu e convencê-la a não se encontrar com Yuudai por enquanto. Ia pensando em como contar isso enquanto caminhava.
O sol estava se pondo, e as sombras começavam a se alongar. A hora do juízo.
O grupo se aproximava de um terreno amplo e aberto quando aquilo apareceu.
Saku foi o primeiro a notar.
Ele parou abruptamente e varreu os arredores com o olhar.
“O que foi, Saku?” — Hana perguntou. Ao mesmo tempo, Suzu e Yuudai também pararam.
“Hana?” — disse Suzu.
“O que houve?” — disse Yuudai.
Os dois olhavam para Saku com curiosidade.
No momento seguinte —
“Corram!” — Saku gritou bem quando uma grande sombra negra emergiu da escuridão ao redor e avançou em direção a eles.
“Eeeyaaah—!” — Suzu gritou.
“O-o que é isso?!” — Yuudai berrou.
Os dois saíram correndo para o terreno vazio em pânico. A aparição misteriosa mudou de direção como se os estivesse rastreando.
“Q-que diabos?!” — Yuudai vociferou.
“Yuu!”
Eles correram para se afastar do perseguidor, quase lado a lado, mas Suzu era um pouco mais lenta. Suzu agarrou o braço de Yuudai, possivelmente buscando ajuda, mas ele a sacudiu.
“Me larga!” — ele disse.
“Aah!” — Suzu gritou. Yuudai tinha sido agressivo demais, e ela caiu no chão.
A sombra negra parou na frente dela.
“Ah –…” — O rosto de Suzu empalideceu de medo. Ela tentou desesperadamente se levantar, mas foi em vão. Suas pernas tinham falhado. Permaneceu sentada e recuou rastejando.
“Suzu!” — O instinto fez Hana se jogar entre a amiga e o atacante.
“Barreira!” — gritou Saku, com sua voz carregada de ansiedade.
Uma barreira protetora se ergueu instantaneamente ao redor de Hana e Suzu.
Quando Hana percebeu que a barreira era obra de Saku, ficou aliviada.
Olhou ao redor e percebeu que Saku havia erguido uma barreira ao redor de Yuudai também. Yuudai piscava surpreso.
Por alguma razão, o fantasma ignorou Hana e Suzu mesmo com elas bem na frente. Estava focado exclusivamente em Yuudai e avançou em direção a ele numa perseguição determinada.
O primeiro ataque abalou a barreira de Saku mas foi absorvido. No entanto, qualquer praticante conseguia perceber que a barreira não resistiria por muito tempo.
Saku desencadeou todo o seu poder contra o atacante, determinado a encerrar a batalha o mais rápido possível. O ataque acertou em cheio.
“Auuuuuuu!” — a sombra uivou em agonia. Ela se contorceu de dor e começou a assumir uma forma mais definida.
Um cachorro? Não… um lobo?
Sim, sua forma final era a de um lobo negro imenso.
Os olhos do lobo eram vermelhos como sangue, e sua expressão era retorcida de ódio. Ele encarava Yuudai com raiva e obstinção.
Embora Saku fosse quem havia ferido o lobo, ele nem o olhava. Em vez disso, se atirou contra Yuudai. Mais uma vez, foi detido pela barreira de Saku.
Dentro da barreira, Yuudai estava paralisado pelo medo e não fazia nenhuma tentativa de fugir.
“Aoi,” — Hana chamou, e Aoi apareceu na hora. — “Leva a Suzu pra casa.”
“O que a senhorita vai fazer, Mestra?” — Aoi perguntou.
“Vou ajudar o Saku a acabar com aquilo. O que mais?”
Aoi parecia descontente, provavelmente aborrecido com a ideia de ter que deixar o local.
“Ela é uma amiga muito importante para mim,” — Hana implorou. — “Estou confiando a segurança dela a você, Aoi. Por favor.”
“Que injustiça, Mestra. A senhorita sabe que não consigo recusar depois de ouvir algo assim.” — Aoi estava relutante, mas mesmo assim ergueu Suzu de onde estava sentada no chão.
“Hein? Hana? Quem é esse?” — Suzu perguntou.
“Meu shikigami. É perigoso ficar aqui, então eu vou te tirar daqui o mais rápido possível.”
“E você, Hana?”
Hana sorriu mas não respondeu. — “Aoi, estou contando com você,” — ela disse.
“Entendido,” — ele respondeu.
“Hana!” — Suzu gritou, se debatendo para sair dos braços de Aoi.
Hana estendeu a mão em direção a Suzu. — “Eu explico tudo depois.” — Ela passou a mão em frente ao rosto de Suzu. As pálpebras de Suzu foram se fechando lentamente, e ela ficou mole.
Hana sinalizou para Aoi com os olhos, e ele assentiu. Com Suzu nos braços, ele disparou para fora do terreno.
Assim que os viu partir, Hana correu em direção a Saku.
A barreira ao redor de Yuudai estava prestes a se romper a qualquer momento. Saku atacava o lobo com toda a força, mas nada do que ele fazia distraía o lobo de Yuudai.
Finalmente, a barreira se estilhaçou.
Hana se lançou em direção a Yuudai como se fosse dar um carrinho nele. Ela interceptou a mordida que era destinada a Yuudai. As presas do lobo se fecharam ao redor do seu braço.
“Tsc. Aaaarghhh!” — A dor era tão horrível que ela viu estrelas.
Ao mesmo tempo, as memórias e emoções do lobo inundaram Hana, relampejando pela mente dela como um rolo de filme.
O lobo estava sofrendo. Estava com dor. Hana sentiu um ódio vindo dele tão visceral que era indescritível, mas o ódio estava envolto em uma gentileza ao mesmo tempo terna e triste.
Hana não conseguiu mais suportar a dor no braço e tombou para o chão.
“Hana!” — Saku gritou.
Para Hana, a voz dele parecia vir de muito longe. Ela sentia que ia desmaiar em breve, mas não podia se dar a esse luxo.
Se o que estava vivenciando era realidade, então tinha que pôr fim a isso.
Hana viu que Saku estava se preparando para atacar o lobo novamente. Ela se levantou, rangendo os dentes de dor.
Ele não podia continuar lutando.
“Para, Saku! O ser à sua frente é um inugami que foi transformado em tatarigami!” — Hana gritou.
O ser diante deles costumava ser uma divindade canina que havia sido corrompida em um espírito de maldições e destruição.
Saku pausou no meio do ataque. — “Tatarigami? Tem certeza?!”
Saku mudou para uma postura defensiva e ergueu várias camadas de barreiras ao redor de si e de Yuudai, que estava sentado no chão.
Hana ignorou o ferimento no braço e entrou na barreira de Saku para agarrar Yuudai pela gola.
“Tudo isso aconteceu por causa dele. Por causa deles!” — ela gritou.
Hana fuzilou Yuudai com o olhar, as chamas da raiva dançando em seus olhos.
Ele gritou, — "Eek."
“Ele e as outras vítimas… Não, é ridículo chamá-los de vítimas… Os outros três alvos mataram os cachorros cujos corpos foram encontrados por aqui recentemente!” — Hana disse.
“É verdade?!” — Saku perguntou a Yuudai, a voz carregada de impaciência.
Yuudai não respondeu, encolhendo de medo.
No limite da paciência, Hana deu uma cabeçada em Yuudai. — “Assume logo! Vocês são os culpados, né?!”
Dominado pela aura intimidadora de Hana, Yuudai assentiu e confessou a contragosto, — “É-é isso mesmo. A gente matou eles…”
“Seus idiotas!” — Hana gritou. Em seguida, desferiu um soco no rosto dele, usando o corpo inteiro no golpe.
“Guh!” — Yuudai tombou para trás e desmaiou.
Hana bufou e olhou para Yuudai. Queria socá-lo mais, mas não era hora.
O tatarigami continuava seus ataques contra as barreiras de Saku, tentando rompê-las.
Saku encarou o antigo inugami, agora reduzido a uma sombra do que havia sido. Ele franziu o cenho. — “Um tatarigami, hein…? Que aborrecimento.”
Tatarigami, por mais que tivessem decaído, outrora foram seres divinos. Não seria fácil para um humano purificar uma divindade, nem mesmo para um praticante da Quinta Cor como Saku.
Além disso, o ato de purificar uma divindade era equivalente a… matá-la. Matar um deus não era um fardo leve de carregar, e Saku teria que suportá-lo sozinho. Para piorar a situação, era impossível saber quais seriam as repercussões até que o ato fosse consumado.
O risco era extremo.
“Merda. O que eu faço…?” — Saku praguejou. Naturalmente, até ele hesitava diante da ideia de matar uma divindade.
Mas Hana não tinha a menor intenção de deixar Saku fazer isso. Ela saiu da proteção da barreira para se colocar diante do tatarigami.
“Hana!” — Saku gritou em pânico, mas Hana não tirou os olhos do tatarigami.
Ela envolveu os braços ao redor do pescoço dele e criou uma barreira para contê-lo. O tatarigami se debateu furiosamente, mas ela se agarrou com toda a força.
“Azuha! Miyabi!” — ela gritou.
Azuha reagiu sem demora e voou bem alto acima das cabeças deles. Ela dispersou uma chuva de escamas cintilantes sobre eles com largas batidas de suas asas arco-íris.
Miyabi se manifestou perto do tatarigami. Em sua mão, ela segurava um bastão de sinos kagura — um instrumento com três andares de pequenos sinos usado por sacerdotisas xintoístas em danças rituais. Ela agitou o bastão. O som ritmíco dos sinos parecia ter um efeito pacificador sobre o inugami e ajudou a trazê-lo de volta aos sentidos.
O inugami havia sido originalmente uma divindade benevolente que vivia naquela região.
No entanto, foi precisamente por causa de sua natureza gentil que não havia conseguido ignorar o ódio e o ressentimento dos cães mortos, tendo absorvido as memórias e emoções deles para dentro de si.
Mas as memórias eram muitas e as mágoas poderosas demais; elas tinham consumido o inugami até transformá-lo em um tatarigami.
“Não há necessidade de você carregar esse fardo,” — Hana disse ao inugami. — “Você não deveria ter que sofrer pelos crimes desses homens. Eles não valem isso.”
O inugami uivou e então falou pela primeira vez. — “…Mas eu sofro. Estou cheio de dor e ódio. O ressentimento é tão feroz que temo que me consuma. Apenas a vida desses homens podem apagar as chamas,” — ele lamentou em tristeza. — “Me mate. Me mate, para que eu não caia ainda mais do que já caí. Não quero sentir esse ressentimento. Não quero machucar ninguém…”
Não era justo que uma divindade tão compassiva sofresse por causa daqueles homens podres.
“Você ainda não caiu. Volte a ser a divindade gentil que sempre foi,” — Hana implorou.
“Impossível. As memórias das almas miseráveis que absorvi são fortes, e estão me consumindo aos poucos. Tenho empatia demais pela dor delas. Não consigo mais distinguir onde elas terminam e onde eu começo.”
“Entendo. Então deixa comigo,” — Hana disse.
Ela derrubou a barreira ao redor do tatarigami e começou a transferir seu poder para ele.
Era diferente de quando compartilhava seu poder com Azuha e Saku para fortalecê-los. Desta vez, seu objetivo era amplificar os poderes inatos do inugami corrompido.
Poderes que purificavam — que podiam tornar as águas de um lago estagnado cristalinas novamente.
No entanto, só isso não era suficiente.
“Miyabi, uma dança, por favor,” — Hana disse.
“Como a senhorita quiser, Mestra.”
Miyabi começou a agitar os sinos kagura. Ela girava no ritmo dos sinos, dançando em círculos ao redor do tatarigami.
O belo toque dos sinos reverberava por seus arredores, e cada ondulação da veste celestial que Miyabi usava purificava o tatarigami um pouco mais.
Hana continuou derramando seu poder na divindade. Ao mesmo tempo, procurava a fronteira entre o inugami e o ressentimento venenoso com o qual ele havia se fundido. Era uma operação delicada, como enfiar linha na agulha, que exigia controle preciso do seu poder.
Os ruídos ao redor foram desaparecendo até o silêncio total enquanto ela concentrava toda a atenção na busca. Finalmente, encontrou o que procurava.
Graças à dança de purificação de Miyabi, Hana localizou a fronteira entre o inugami e o ódio dos cães mortos que a ex-divindade havia absorvido para si. Ela empurrou seu poder contra a fronteira e separou o inugami da massa iracunda.
Ela foi arremessada para trás com violência, mas Saku a amparou.
Deitada nos braços de Hana estava a verdadeira forma do inugami, liberto da hostilidade profunda dos cães. O espírito que havia sido duas vezes mais alto do que Hana tinha se transformado em um filhotinho que cabia perfeitamente no ninho formado pelos seus braços.
Ela suspirou aliviada, mas ainda não havia terminado. Ela olhou para cima.
Uma massa redemoinhando permanecia onde a divindade havia estado. Era a animosidade condensada que havia corrompido o inugami. Deixada à própria sorte, se transformaria em uma sombra e continuaria a causar danos e destruição.
Mas antes que essa transformação final acontecesse, ainda podia ser salva.
"Miyabi, purifique," — Hana ordenou.
Miyabi ergueu os sinos kagura para o céu em súplica. O som dos sinos era límpido e revigorante. Através do ritual, Miyabi purificou a raiva feroz dos cães. O emaranhado de energia negativa se dissipou em direção ao céu.
O inugami e Hana assistiram ao desaparecimento com tristeza nos olhos.
“Acabou…?” — Saku perguntou. A surpresa estava estampada em seu rosto, incapaz de acreditar no que havia acabado de ver.
Hana olhou para o inugami descansando em seus braços e perguntou, — “Você está bem agora?”
“Sim, você me salvou. Sou grato do fundo do coração,” — ele disse, e lambeu o rosto de Hana.
Hana deu uma leve risada com a sensação de cócegas, mas logo em seguida franziu o cenho, mudando sua expressão para algo mais sem jeito.
“Bem, na verdade, tem mais uma coisa. Não sei bem como dizer isso, mas…”
“O que foi?” — perguntou a divindade.
“Você sabe que eu precisei compartilhar uma quantidade enorme do meu poder com você para separar a sua essência do ódio daqueles cães, certo?”
“Sim, eu me lembro.”
“Como você já estava enfraquecido, o meu poder acabou superando o seu e, contra as minhas expectativas, essa transferência acabou gerando uma espécie de efeito de subjugação…”
“Não me diga que…” — interveio Saku, com uma expressão penalizada.
O deus cão inclinou a cabeça para o lado, sem compreender totalmente o que Hana estava sugerindo.
“Er, basicamente, você se tornou um dos meus shikigami” — explicou Hana.
Saku cobriu o próprio rosto com a mão e resmungou:
“Você não pode estar falando sério…”
“Eu gostaria de te libertar, se fosse possível, mas um vínculo já se formou entre nós e pode ser difícil de quebrar. Sinto muito mesmo!”
Aquele laço havia sido forjado por puro acidente. Hana jamais tivera a intenção de que algo assim acontecesse.
“Eu não me importo. Eu mesmo estava me perguntando como poderia retribuir a sua gentileza” — declarou o deus cão. — “Servirei como seu shikigami enquanto você viver.”
Hana soltou um suspiro de alívio. A criatura havia aceitado a situação com muito menos resistência do que ela havia imaginado.
Saku, por outro lado, não conseguia esconder o choque.
“Você está falando sério?! Você — uma divindade — vai servir a um ser humano?”
“Qual é o seu problema, Saku? Não precisa gritar” — reclamou Hana.
“É impossível ficar calmo com isso. Estamos falando de um deus de verdade aqui” — insistiu Saku. — “Isso está em um nível completamente diferente dos shikigamis que nós, praticantes, conjuramos com o nosso próprio poder.”
“Se o inugami está de bem com isso, então não vejo problema nenhum” — rebateu Hana, sem se importar muito.
O espanto de Saku não era nenhum exagero. Divindades eram seres extremamente orgulhosos. Embora houvesse registros no passado de praticantes que foram servidos por deuses, o relacionamento de mestre e shikigami não era algo que eles aceitavam facilmente. Dadas as circunstâncias do vínculo, se a divindade estivesse descontente, poderia muito bem ter tirado a vida de Hana como uma forma de punição divina.
Os deuses simplesmente não aceitavam a ideia de trabalhar para humanos.
Mas Hana não deu a mínima para o choque de Saku e apenas deu de ombros, engajando-se em uma conversa alegre e descontraída com o inugami. — “Já que você vai ser o meu shikigami, eu preciso te dar um nome!” — comemorou ela. — “Que tal Arashi? É um nome bem legal, não acha?”
“Arashi. Sim, é um bom nome” — concordou a divindade.
“Saku, eu posso levar ele para casa comigo, não posso?” — perguntou Hana, como se estivesse pedindo permissão para adotar um cachorrinho abandonado.
“Faça o que quiser…” — Saku estava completamente sem palavras. — “Estou exausto... Vamos logo para casa.”
Ele tirou um lenço do bolso e usou-o para enfaixar o ferimento no braço de Hana. O sangue ainda brotava de onde Arashi a havia mordido, tingindo rapidamente o pano de vermelho.
“Devemos te levar ao hospital primeiro” — disse ele.
“Sinto muito” — desculpou-se Arashi, cabisbaixo.
“É só um arranhão de nada. Não precisa se preocupar — tranquilizou Hana, dando um leve tapinha na cabeça do ser. — “Miyabi, Azuha, vamos para casa!”
As duas entidades surgiram imediatamente ao seu lado quando chamadas, mas Hana sentia uma incômoda sensação de que estava se esquecendo de alguma coisa.
Exatamente naquele instante, um som de espanto ecoou. Yuudai, que havia desabado no chão a uma certa distância dali, finalmente recuperou os sentidos.
“Onde está o monstro?!” — gritou ele. — “Que porcaria... Meu nariz está sangrando!”
Saku, sendo forçado a se lembrar da existência de Yuudai devido aos gritos, comentou, — “Nós esquecemos de dar um jeito nele.”
“O que vamos fazer? Não vamos deixá-lo escapar, certo?” — questionou Hana.
Yuudai e seus comparsas haviam tirado inúmeras vidas. Fora por causa deles que um ser divino havia sido reduzido a um mero tatarigami. A indignação de Hana não se acalmaria até que os visse punidos por seus crimes.
“Não se preocupe. Vou pedir para um policial que conheço vir buscá-lo” — disse Saku, afastando-se para fazer a ligação.
Eles aguardaram no terreno baldio até que a autoridade policial chegasse para levar Yuudai. O homem não parou de fazer escândalo nem por um segundo, mas acabou preso como o culpado pela matança dos cães e foi conduzido na parte de trás da viatura.
“Ele será julgado perante as leis humanas. Considerando a nossa legislação, é possível que ele saia com uma punição branda, mas espero que você se satisfaça com isso. Matá-lo não é algo…”
“Já é o suficiente.” — A divindade... ou melhor, Arashi, que antes carregava tanto ódio a ponto de desejar a morte daqueles quatro homens, agora exibia olhos pacíficos e gentis.
O olhar brando de Arashi trouxe calmaria para Hana enquanto eles finalmente pegavam o caminho de volta.
◆
Hana retornou para a residência Ichinomiya acompanhada de seu novo aliado e seus demais shikigamis.
Até mesmo Mio ficou em choque com o desenrolar dos fatos, mas ainda assim aceitou Arashi na casa. O deus cão também se deu muito bem com os outros companheiros de Hana.
Quanto a Hana, ela acabou desenvolvendo uma febre alta e ficou de cama por causa da infecção da mordida que havia recebido no lugar de Yuudai.
Arashi sentia-se terrivelmente culpado pelo ocorrido, mantendo vigília constante ao lado do leito de Hana o tempo todo, o que, por sua vez, fazia a jovem se sentir culpada também.
Após alguns dias, Hana se recuperou e pôde retornar às aulas.
Como ela havia ficado ausente por um bom tempo, assim que pisou na escola, Suzu aproximou-se imediatamente, com uma feição ansiosa.
“Você já está bem, Hana?” — quis saber Suzu.
“Forte como um touro” — respondeu Hana.
Enquanto Hana estava se recuperando da febre, Saku havia explicado os detalhes do caso para Suzu. A amiga ficara surpresa de início, mas, como uma jovem que aspirava ser praticante, logo compreendeu a situação.
As duas haviam conversado várias vezes por telefone assim que a febre de Hana baixou. Hana finalmente revelou a Suzu a existência de Aoi e Miyabi. Suzu deu uma bronca nela por ter sido tão distante e guardado o segredo de seus poderes.
Mas assim que pôde desabafar suas frustrações, voltou a ser a mesma de sempre.
Hana sentiu um imenso alívio. Era um enorme conforto ver que Suzu continuava igual, independentemente de Hana ser poderosa ou não.
“A propósito, você teve notícias do seu namorado, Suzu?” — indagou Hana.
A polícia havia prendido Yuudai e o seu último cúmplice restante.
As ações da dupla haviam provocado o surgimento de um tatarigami, um crime imperdoável. A Associação de Praticantes mobilizou todas as suas forças para reunir as provas, e eles foram condenados em tempo recorde.
Hana soubera da novidade naquela mesma manhã e fora para a escola preocupada com o estado emocional de Suzu. No entanto, a amiga parecia perfeitamente indiferente em vez de desanimada.
“Ah, ele não é mais meu namorado” — desdenhou Suzu.
“Hã?”
“Assim que ouvi tudo o que aconteceu da boca do Mestre Ichinomiya, perdi até o último resquício de sentimento que já tive pelo Yuu. Escrevi uma carta dizendo que terminamos e pedi para o Mestre Ichinomiya me ajudar a entregar. Ele e eu não temos mais nada a ver um com o outro.”
“Mas quando foi que...?”
“A maneira como ele tratava aqueles animais é inaceitável. Mesmo um amor de cem anos evaporaria num piscar de olhos diante de tamanha crueldade” — declarou Suzu, convicta.
Ao ver Suzu parecer tão leve e livre daquele fardo, Hana sentiu como se um peso imenso saísse de suas próprias costas.
Com os casos encerrados e Saku encarregado do resto da papelada, não restava mais nada para Hana fazer.
Seu hobby mais recente passou a ser o ócio doméstico, afundando o rosto na pelagem do seu novo shikigami. Era o ápice da felicidade.
Os pelos de Arashi eram indescritivelmente macios, e o inugami nunca reclamava de nada. Hana estava livre para aproveitar aquela fofura o quanto quisesse.
Ela estava justamente compenetrada nisso certo dia quando escutou uma voz dizer, — “Não seja tão preguiçosa.”
Hana ergueu a cabeça para dar de cara com Saku, que a observava com uma fisionomia exasperada.
“Você quer tentar, Saku?” — convidou Hana.
“Não há necessidade” — respondeu ele, seco.
“Os pelos do Arashi parecem uma nuvem. Basta uma vez para ficar viciado. Você não vai querer fazer mais nada.”
“Deixe isso de lado. Mais importante do que isso, a barreira ao redor do pilar central se estabilizou.”
Agora que os incidentes haviam sido resolvidos, Saku também dispunha de mais tempo livre. Recentemente, ambos vinham transferindo continuamente as suas energias para a estrutura ao redor do pilar.
Finalmente, podiam colher os frutos de seus esforços.
“Quer dizer que estou livre das minhas obrigações?” — indagou Hana.
“Sim. Não preciso mais do seu suporte daqui em diante. Consigo manter a barreira sozinho.”
“Viva!” — Hana jogou as mãos para o alto, praticamente saltando de alegria. — “Podemos rescindir o nosso contrato, então. Creio que você não se esqueceu da recompensa que me prometeu, certo?” — questionou, com um sorriso de orelha a orelha.
“Certamente. Vou te compensar devidamente” — garantiu Saku.
“Excelente! Então vamos preencher os papéis do divórcio o quanto antes.”
Hana experimentou uma pontada passageira de solidão ao pensar em cortar o seu vínculo com Saku, mas espantou o pensamento e focou na felicidade de finalmente conquistar a sua independência. Ela sentia-se nas nuvens.
Contudo, a resposta de Saku despencou Hana direto do céu para o inferno.
“Não.”
“Hã?” — soltou ela.
“Nós não vamos nos divorciar.”
“Como é que é?”
Ela simplesmente não conseguia entender o que Saku estava dizendo.
O casamento deles havia sido meramente um contrato com o propósito de consertar a barreira. A barreira estava restaurada, o que significava que Hana havia cumprido com os seus deveres.
Mesmo assim, Saku recusava o divórcio.
“Do que você está falando?!” — exigiu Hana. O bom humor de segundos atrás havia desaparecido, dando lugar apenas à confusão e a questionamentos.
“Mas é o que está escrito no acordo” — apontou Saku.
“O quê?”
Hana apressou-se em pegar o documento assinado entre os dois e releu tudo minuciosamente, de cima a baixo. Seus olhos travaram nas duas últimas linhas. Elas haviam sido inseridas como uma cláusula complementar quando Saku solicitara a ajuda dela no incidente recente.
A primeira condição constava exatamente como haviam combinado: em retribuição pelo auxílio de Hana, após a resolução bem-sucedida do caso, ela receberia uma propriedade à beira-mar. No entanto, Hana não se lembrava de ter posto os olhos na frase final do papel.
“ …’Toda e qualquer compensação será paga mediante a conclusão das obrigações contratuais, contudo, quaisquer solicitações de divórcio não serão reconhecidas. Ambas as partes darão continuidade ao seu relacionamento como marido e mulher’?! ‘Objeções devem ser apresentadas no prazo de três dias a contar da inclusão desta cláusula’?!”
Hana encarou Saku em busca de explicações.
“Exatamente. O prazo de três dias expirou e você não manifestou nada. Portanto, continuaremos casados daqui por diante” — explicou Saku.
“S-seu trapaceiro!” — disparou Hana.
“Isso é calúnia. A culpa é toda sua por não ter lido os termos com atenção.”
“Mas– mas... Você não está errado, só que…”
Era verdade que cabia a Hana revisar o papel, mas ela jamais poderia imaginar que Saku adicionaria algo tão ardiloso.
“Então ficamos assim. Juntos até que a morte nos separe. Certo, querida?”
“Por queeee? Como você pôde fazer isso do nada? Qual é, depois que nos divorciarmos, você pode arrumar uma baita mulher para ser a sua próxima esposa. Você não teria problemas para encontrar uma beldade para casar. O que me diz?” — implorou ela.
Saku abriu um sorriso provocador para Hana, que continuava atônita com a notícia. Ele estendeu a mão para acariciar a face da jovem. O olhar profundo e intencional dele fez um calafrio percorrer a espinha de Hana.
“Estou começando a ficar sério sobre você, Hana” — confessou Saku.
“Eu não entendo o que…” — tentou dizer ela.
Antes que ela pudesse concluir o raciocínio, Saku calou-a com um beijo. Foi apenas um breve toque de lábios, mas o suficiente para colocar um ponto final em todas as suas contestações.
“Eu quero você. Não apenas no papel, não como uma farsa. Quero que você seja minha esposa de verdade e eu o seu marido.”
A intensidade nos olhos dele desarmou Hana por completo. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
“Trate de se apaixonar por mim logo, Hana.”
[Pipoc4h: Eita bixo, falei que era atacante, agora quero ver como que ela vai fazer kkk]
Saku exibiu um sorriso diabólico.
Hana sentiu que poderia desmaiar a qualquer momento.
Por favor, que isso seja apenas um sonho, implorou ela mentalmente.
Então os lábios de Saku tocaram os seus mais uma vez, e ela parou completamente de pensar.
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