Noiva do Mestre de Barreiras — Capítulo 4: Volume 1 – Capítulo 3

Noiva do Mestre de Barreiras
Cap. 4
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Noiva do Mestre de Barreiras

Volume 1 – Capítulo 3

Capítulo 4

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Capítulo 3

Após a discussão, Hana e Saku deixaram o hotel e retornaram ao carro.

Lá dentro, Saku entregou a Hana dois maços de papel.

"O que é isso?", — perguntou ela.

"O contrato de casamento. É mais seguro ter tudo por escrito, não acha? Dê uma olhada. Se achar tudo satisfatório, assinamos imediatamente."

"Quando foi que você mandou preparar isso?", — ela perguntou, pega de surpresa. — "Er, vejamos aqui... Compensação após a conclusão bem-sucedida..."

Esboçados no contrato estavam os termos que Saku havia recitado antes: um bilhão de ienes, terras e imóveis, além da recomendação para um cargo de tempo integral.

"O período do contrato termina quando minhas habilidades não forem mais necessárias para sustentar a barreira? É isso mesmo?"

"Sim. Contanto que restauremos a barreira adequadamente no início, poderei mantê-la sozinho depois."

"Entendi. Certo. Ah, a propósito, quantos anos você tem, Saku?"

A pergunta já passava da hora, mas que desculpa ela poderia dar? Ela simplesmente nunca tivera interesse na idade do líder do clã antes.

"Vinte e quatro", respondeu ele.

"Mais jovem do que eu pensava."

"Está sugerindo que eu pareço velho?", — ele a encarou de forma incisiva.

Ela tratou de recuar imediatamente. — "Não é isso. Só achei que seria necessário ser mais velho para assumir o clã."

"É que, afinal de contas, eu sou um gênio", — disse ele com uma expressão arrogante.

Ela olhou para ele como se ele não passasse de uma lagarta.

"Que olhar é esse?", — ele exigiu.

"Você não tem vergonha de dizer isso de si mesmo?"

"Não deixa de ser verdade, então qual é o problema? Mais importante, verificou tudo?"

"Sim. Terminei."

Hana assinou as duas vias do contrato e as devolveu a Saku, que então assinou o próprio nome ao lado do dela.

"Cada um fica com uma cópia." — Ele lhe passou outra folha. — "Agora, preciso da sua assinatura aqui."

Era o registro de casamento.

"O quê?!", — ela exclamou. A visão do documento real a deixou abalada.

A assinatura de Saku já estava escrita no campo de marido. A seção das testemunhas também já havia sido preenchida.

"Trate de preencher logo", — apressou Saku.

"Epa, espera aí. A gente vai fazer isso agora?"

"Obviamente. Estamos trabalhando com um contrato, que não terá validade até que você seja oficialmente minha esposa. Não vá amarelar agora."

Ele podia dizer o que quisesse, mas não era como se ela pudesse simplesmente desligar o nervosismo.

Claro, ela havia concordado com as condições, mas agora que segurava o registro oficial de casamento, tudo parecia real demais. Suas mãos tremeram.

"Vá em frente com isso", — disse Saku.

"E-eu já entendi. Para de me apressar."

Hana preencheu suas informações com cuidado para não cometer erros e devolveu o registro a Saku.

Saku examinou minuciosamente o documento. Seus lábios se curvaram para cima, satisfeito com o que viu. — "Ótimo. Mandarei entregar isso na prefeitura ainda hoje."

Se fosse há alguns anos, Hana precisaria do consentimento dos pais para se casar antes dos vinte, mas a lei havia sido revisada para considerar jovens de dezoito anos como adultos legais. Portanto, Hana podia se casar sem pedir permissão aos pais.

"Depois disso, vamos pegar a bênção dos seus pais", — disse Saku. — "Não que importe, já que estaremos casados de qualquer forma."

O carro parou em frente à casa de Hana, e ela desceu sozinha.

"Virei te visitar no próximo feriado, então certifique-se de estar em casa", — disse Saku.

Ela ainda estava estupefata pelo fato de estarem enviando o registro de casamento sem a aprovação de seus pais.

Ele devia estar confiante de que eles dariam a permissão.

Não, não era essa a razão. Era simplesmente que o que os pais dela pensavam não fazia a menor diferença para ele.

Saku era jovem, mas sua posição estava muito acima da de seus pais.

Hana retornou ao seu quarto.

Aoi e Miyabi surgiram para recebê-la.

"Você chegou tarde hoje. Estávamos preocupados", — disse Miyabi.

"Sinto muito. Aconteceu algo inesperado", — Hana respondeu.

"Você topou com uma sombra?", — perguntou ela.

"Não, não exatamente..." — Hana não sabia direito como explicar. As palavras engasgaram em sua garganta.

Foi quando Azuha pousou em seu ombro e anunciou: — "A Mestra agora é uma mulher casada."

"O quê?", — Miyabi pareceu chocada. Ela não entendeu.

"Mana, como assim?", — Aoi perguntou, com a feição tempestuosa.

Como Azuha fora a primeira shikigami de Hana, Aoi e Miyabi sempre a tratavam com reverência e a chamavam de irmã mais velha.

"A Mestra ficou cega pelo dinheiro e aceitou se tornar uma noiva", — disse Azuha.

"Espera um pouco, Azuha...", — Hana interveio.

O modo como Aoi e Miyabi a encaravam doeu.

"Mestra, gostaria de se explicar?", — Aoi perguntou.

"É verdade, não é?", — Miyabi insistiu.

"...É", — admitiu Hana.

Os dois shikigamis a bombardearam com pergunta atrás de pergunta, e ela respondeu todas sem esconder nada. Depois que descobriram tudo o que havia para saber, eles olharam para Hana com pura exasperação.

"Você com certeza está sendo enganada, Mestra", — concluiu Aoi.

"Eu concordo...", — disse Miyabi.

"Gah...", — Hana gemeu.

Aqueles olhares de pena cravaram-se direto em seu coração, mas não era nada além do que ela merecia. Da perspectiva de quem vê de fora, era bom demais para ser verdade. Só uma boba cairia em um golpe tão óbvio.

"Mas... mas se ele cumprir as promessas, vou poder curtir a minha aposentadoria com todos vocês", — protestou Hana.

Ela já havia chegado até ali. Podia ser apenas a sua teimosia falando, mas ela não queria acreditar que tinha sido tapeada.

"Bom, se você está de acordo com isso, eu tenho que aceitar...", — disse Aoi.

Miyabi acrescentou: — "Você deveria exercer mais cautela, Mestra. Caso contrário, vai acabar sendo passada para trás."

"Talvez já seja tarde demais para isso, Miyabi. Você já não assinou o registro de casamento?", — Aoi perguntou para confirmar.

"Assinei, sim", — disse Hana com uma risada sem graça. Ela sabia que tinha sido precipitada. De repente, o pânico bateu. — "O-o que eu faço?!"

"Mesmo que nos pergunte isso...", — disse Aoi, sem saber como responder aos apelos desesperados de Hana.

"Você já está casada. Não há como voltar atrás agora. Quem me dera você tivesse conversado com a gente primeiro." — Miyabi franziu a testa, igualmente preocupada.

"Vocês têm razão... Nem me passou pela cabeça." — Ela estava focada demais no dinheiro. Segurou a cabeça com as mãos em desespero, mas, logo em seguida, desistiu de fritar os neurônios. — "Ah, vai dar tudo certo de alguma forma. Ha-ha-ha." — Ela riu alto, mas soou totalmente forçado.

"Você acha que vai mesmo dar certo, Miyabi?", — Aoi perguntou.

"No pior dos casos, a gente assassina o chefe do clã e fugimos juntos." — Miyabi acompanhou sua sugestão brutal com um sorriso caloroso e gentil.

[Pipoc4h: É mano, se der ruim é so matar o cara, nada demais…]

Aoi, que valorizava Hana mais do que qualquer outra coisa no mundo, assentiu firmemente com a cabeça.

Então chegou o feriado prometido.

Hana não recebera uma única palavra de Saku e o havia apagado completamente de sua memória. No momento, ela estava assistindo a um anime e chorando as pitangas.

"Buaaaah. Eu acabo chorando não importa quantas vezes assista a isso. É um clássico", — disse Hana.

Miyabi estivera observando Hana, mas não conseguiu mais ficar calada. — "Você tem tempo para ficar assistindo a animes assim, Mestra?"

"Por que não teria?"

"O Mestre Ichinomiya vem hoje."

Hana tinha claramente esquecido o acordo até que Miyabi a lembrou. — "Ééé mesmo. Agora que você mencionou, acho que já ouvi isso antes", — disse ela.

"Mestra..."

"Não me olhe com esses olhos de acusação. Ele não entrou em contato comigo nenhuma vez desde então, então é claro que eu esqueci. Ele vem mesmo? Talvez aquilo tenha sido a ideia dele de uma piada."

Mas assim que Hana terminou de falar, ouviram o som de passos correndo em direção ao quarto.

Miyabi e Aoi desapareceram imediatamente.

"Senhorita Hana!"

Era Sae. Ela estava transtornada. Sua compostura e eficiência habituais tinham sumido por completo.

"O que houve?", — Hana perguntou.

"O chefe do clã Ichinomiya acabou de chegar! Ele solicitou a sua presença também!", — Sae cuspiu as palavras.

"Você não pode estar falando sério..."

Hana se arrumou rapidamente e foi para a casa principal.

Ela entrou na sala onde o líder do clã — Saku — a esperava.

"Nossa, você veio mesmo." — A boca de Hana se contraiu em uma linha.

O rosto de Saku fechou-se em resposta. — "Tem algum problema com isso? Não me diga que você esqueceu...?"

"Hana!", — seu pai interveio. — "Essa é maneira de falar com o líder do clã? Você está sendo rude!"

Você é quem está sendo rude, interrompendo o líder enquanto ele fala, Hana pensou, revoltada.

Ela se voltou para olhar para o pai, que estava na sala com sua mãe e Hazuki. Yanagi estava ausente, como de costume.

"Trate de se sentar logo!", — ordenou o pai.

"Tá, tá", — disse ela com um tom de lá vamos nós de novo.

Ela estava prestes a se sentar ao lado de Hazuki quando Saku a impediu. — "Espere, Hana. Você se sentará ao meu lado."

"O quê?" — A palavra, carregada de uma sensação de traição, foi cuspida por seu pai.

Agora que Saku estava sentado em sua casa, ela finalmente acreditou que os eventos de alguns dias atrás eram reais, afinal. Ela imaginou a cara dos pais quando Saku desse a notícia e quase caiu na gargalhada.

No entanto, ela manteve uma expressão séria e sentou-se ao lado de Saku, como ele havia orientado. Seus pais e Hazuki ainda estavam no escuro quanto ao motivo da visita de Saku. Eles a encaravam, com a pergunta — Por que você está sentada ao lado dele? estampada nos olhos.

Hana estava se divertindo.

"Ah, bem, Mestre Ichinomiya, o que o traz à nossa residência hoje?", — seu pai disse, indo direto ao ponto. Ele não conseguia mais conter a curiosidade.

Saku esboçou um sorriso diabólico, olhou de relance para Hana e abriu a boca para falar. — "Vim pedir a mão de sua filha em casamento."

"I-isso é...", — gaguejou o pai, com seu rosto se iluminando.

Sua mãe pareceu radiante com a declaração. Ela envolveu os ombros de Hazuki com o braço e disse com satisfação: — "Você se saiu muito bem."

Por que eles estavam ignorando Hana, aquela sentada ao lado de Saku, para em vez disso elogiar Hazuki?

Qual é a deles?, pensou Hana enquanto esperava pelas próximas palavras de Saku.

"Estou aqui para pedir a sua bênção para me casar com a sua filha sentada bem aqui ao meu lado, a Hana", continuou Saku.

"Hã?" — O pai encarou Saku sem entender nada.

Hana segurou desesperadamente uma gargalhada e apertou os lábios com força.

Seus pais presumiram imediatamente que por "filha", Saku queria dizer Hazuki.

Mas Hana também era uma filha da família Ichise. Mais do que isso, ela estava atualmente sentada bem ao lado de Saku.

A reação de seus pais mostrou a Hana que ela era praticamente invisível para eles, mas ela não sentiu nenhuma tristeza. Ela já havia superado há muito tempo a forma como seus pais a enxergavam.

"P-por favor, espere um momento! O senhor tem certeza de que quis dizer a Hana? Não a Hazuki?", — seu pai perguntou.

"Sim."

"Mas a Hana não tem talento como praticante. O shikigami dela é uma borboleta." — O pai não conseguia compreender a conversa e insistentemente chamava a atenção para a inferioridade de Hana. — "A Hazuki, por outro lado, possui um shikigami humano e está no topo de sua classe no Colégio Obsidiana. Em minha humilde opinião, ela é uma candidata muito mais adequada para ser sua esposa!"

"Seja como for, eu escolho a Hana. De qualquer forma, posso ter dito que vim pedir a sua bênção, mas nós já entregamos o registro de casamento. A Hana já pertence à família Ichinomiya."

Hana entendeu duas coisas com a presença de Saku ali: que o registro era oficial e a profundidade da seriedade dele.

"O quê?! O senhor entregou o registro sem o nosso conhecimento? Que audácia!" — O rosto do pai estava vermelho de raiva.

Qual era a razão por trás de sua fúria?

Suas palavras indignadas certamente não eram em defesa de Hana.

Saku permaneceu impassível diante da irritação do pai dela. Soltou um bufo de desdém, arrogante como sempre. — "Esta é a filha que vocês abandonaram pelo caminho. Por que a indignação? Ouvi dizer que vocês focam todo o afeto na filha mais velha. Estou apenas tirando das suas mãos a criança que vocês não querem. Na verdade, vocês é quem deveriam me compensar."

Seus pais desviaram o olhar sem jeito, com os olhos correndo de um lado para o outro. Então eles tinham consciência da negligência de que Saku os acusava. Isso foi uma surpresa para Hana.

"M-mas...", — gaguejou o pai.

"Que tédio. O consentimento de vocês é desnecessário para início de conversa. A Hana é legalmente maior de idade, então não precisa da permissão de vocês para se casar. A Hana já é minha."

"Isso é..." — Os ombros do pai murcharam em decepção.

Hana olhou para ele friamente.

Será que era mesmo um choque tão grande que Hana tivesse sido a escolhida em vez da Hazuki que eles tanto paparicavam? O julgamento de seu pai havia falhado duplamente, primeiro como pai e depois como chefe da família Ichise.

Se tivessem criado Hana da mesma forma que criaram Hazuki, a família Ichise teria recebido grandes honras e recompensas como a família da noiva do líder do clã.

No entanto, Hana não tinha a menor intenção de pedir nenhum favor a Saku em nome de sua família. Eles haviam caído para o plano mais baixo entre as famílias secundárias e, no que dependia dela, era lá que poderiam ficar. Aquela era a vingança de Hana.

"Era só isso que eu tinha a dizer." — Saku encerrou a conversa. — "Hana."

"O quê?", — disse Hana.

"Junte seus pertences agora. Você vai morar na residência Ichinomiya a partir de hoje."

"O quê?! Agora?!" — O que diabos esse egocêntrico estava dizendo? A indignação ferveu dentro de Hana. — "Você não me avisou com antecedência nenhuma! Impossível!", — ela gritou.

"Bagagem para alguns dias é aceitável por enquanto. Contrataremos carregadores para o resto."

"Não, não, não, não, você não está ouvindo."

"Pare de enrolar. Vamos", — disse Saku.

Hana foi atingida por um arrependimento repentino de ter aceitado se casar com um homem tão prepotente, mas percebeu que, se ficasse, sua vida na casa dos Ichise com certeza se tornaria ainda mais insuportável. Ela relutantemente voltou ao seu quarto para arrumar as malas.

"Talvez eu tenha cometido um erro", — Hana resmungou para si mesma. — "É tarde demais para fingir que nada aconteceu... Além disso, eu detestaria perder a recompensa."

O poder do dinheiro é assustador, Hana pensou consigo mesma enquanto guardava seus materiais escolares, roupas para vários dias e itens de uso diário.

Ela sentiu uma presença atrás de si e virou-se para encontrar Hazuki parada ali.

"O que foi? Você nunca veio aqui antes", — disse Hana.

"Por quê...? Por que é você?", — Hazuki perguntou, com a voz soando tensa e vazia.

"O que você quer dizer com isso?" — Hana entendia o que Hazuki queria dizer, mas perguntou assim mesmo.

Eu não sou uma boa pessoa, pensou Hana. Uma risada baixa escapou dela.

A diversão de Hana inflamou o temperamento de Hazuki. — "Do que você está rindo? Está zombando de mim?", — ela exigiu. — "Não é tarde demais. Entregue ele para mim. Não tem como alguém como você ser a matriarca do clã! Saiba o seu lugar! Você é fraca, Hana."

"...Eu sou fraca, então você é mais adequada?", — Hana perguntou.

"Isso mesmo."

"Ei, me diz uma coisa, você acredita mesmo nisso?" — Hana fixou em Hazuki um olhar desprovido de humor.

Hazuki viu-se oprimida pela pressão que Hana estava exercendo, algo que quase nunca fazia. — "O-o quê? É verdade, não é? Com o meu nível de habilidade, sou muito mais adequada para o Mestre Ichinomiya do que você. Você não vai ser de ajuda nenhuma."

"Talvez seja verdade... Mas, Hazuki, você quer mesmo se casar com o Saku?"

"Claro que quero. É uma honra ser escolhida pelo líder do clã. Meu casamento seria pelo bem de toda a família."

"O bem da família, é?", — Hana soltou um suspiro profundo.

"O que foi agora?"

"Dá para parar com isso, Hazuki?"

"Parar com o quê...?"

Hazuki não entendia nem agora. Hana já havia lhe dado muitos conselhos francos no passado, mas parecia que ela não havia levado nenhum a sério.

"Pare de se preocupar com as outras pessoas", — aconselhou Hana. — "Você sempre diz que tem que fazer as coisas pela família, pelo papai. Ou porque a mamãe mandou, ou porque seus amigos esperam isso de você, blá, blá, blá. Você nunca faz nada que você mesma tenha decidido."

"Você está errada!"

"Desse jeito, você vai deixar de ser a Hazuki Ichise", — alertou Hana.

Aquela poderia ser a última chance de as duas conversarem daquela forma. Antes de seguirem caminhos separados, Hana deu a Hazuki, sua outra metade, o seu conselho, e ela quis dizer aquilo do fundo do coração.

"O que você quer dizer com isso? Eu sou eu. Quem mais eu seria?", — Hazuki disse, confusa.

Hana não esperava que Hazuki a compreendesse, mas torcia para que um dia Hazuki percebesse o significado de suas palavras.

"Lembra de quando conversávamos quando crianças? Você desabafava comigo o tempo todo", — disse Hana. — "Você me dizia que as expectativas de todo mundo eram pesadas demais. Que estava feliz por contarem com você, mas que era doloroso ao mesmo tempo. Quando foi que você parou de reclamar dessas coisas?"

"............" — Hazuki não respondeu.

"Era só isso que eu tinha a dizer. Até mais, Hazuki."

Você era preciosa para mim, minha outra metade.

Hana lançou um breve sorriso na direção de Hazuki. Ele era destinado à garota que Hazuki costumava ser. Então Hana deixou o quarto e retornou à casa principal, onde Saku a esperava.

"Você é lenta demais", — disse Saku.

"Se você tivesse me avisado com antecedência, eu teria me preparado antes." Foi o que ela disse, mas o que quis dizer foi que a culpa era de Saku por pegar ela de surpresa com a notícia.

Não ficou claro se a alfinetada surtiu efeito em Saku, mas ele deixou de lado novas reclamações e limitou-se a dizer, — "Venha." — E saiu da casa.

"Obrigada por terem cuidado de mim todos esses anos", — disse Hana.

Com um último sorriso radiante, ela virou-se e deixou a residência Ichise para trás.

◆

No carro de volta para a residência Ichinomiya, Hana exclamou de repente: "Gwah!"

"O que foi? Não precisa gritar" — disse Saku.

"De quem é a culpa? Como você não me avisou nada sobre a mudança, eu saí sem nem me despedir da Sae!" — ela reclamou.

Sae era quem sempre havia cuidado de Hana. Após ter buscado Hana a pedido de Saku, ela tinha saído para fazer compras. Hana também não tinha dito uma única palavra aos outros funcionários, apesar de tudo o que eles haviam feito por ela ao longo dos anos.

"Você sempre pode voltar e visitar ela" — disse Saku.

"E você acha que eu posso simplesmente entrar lá de cabeça erguida depois de sumir assim? Meus pais iam aproveitar a chance para descarregar toda a raiva e a inveja deles."

Ela já conseguia até imaginar a cena. Eles diriam algo como: Ele já se cansou de você?, e ririam sem parar. Isso era um problema sério.

"Então escreva uma carta."

"Acho que não vai ter outro jeito mesmo" — disse ela.

"Mais importante..." — Saku começou.

Hana o encarou cheia de indignação. — "Como você ousa ignorar os meus problemas com tanta facilidade. Ainda mais quando foi você que me atropelou com essa mudança!”

Ela estava irritada com a indiferença de Saku em relação à Sae. Dito isso, não havia como ele saber o que a governanta significava para ela. Hana estava, na verdade, apenas descontando suas frustrações nele. Mas a sua raiva não era totalmente sem razão. Afinal, era verdade que Saku tinha sua parcela de culpa.

"Já entendi, já entendi. Foi mal. Satisfeita? Agora fica quieta. Eu tenho algo importante para falar."

"Satisfeita? Nem um pouco. Mas desembucha, vou te escutar por enquanto."

Ela estava incomodada por ele estar tratando-a como uma criança birrenta, mas como ela já era bem grandinha, não ia continuar discutindo por discutir.

"Você vai morar na residência Ichinomiya a partir de agora. Assim que chegarmos, quero que conheça a minha mãe primeiro" — disse Saku.

"Eu já imaginava, mas só a sua mãe? E o seu pai?" — Hana perguntou.

A feição dele azedou. — "Não esquenta a cabeça com a péssima desculpa de pai que eu tenho. Ele é só mais um dos muitos antigos líderes do clã. Ficou no passado."

"Vocês não se dão bem?"

"Nem um pouco. Não quero saber dele. Nem agora, nem nunca."

"Ah, é?" — disse Hana simplesmente.

Saku a encarou. Ela tinha sido a pessoa a perguntar sobre o pai dele, mas parecia nem se importar com a resposta.

"O que foi?" — ela perguntou.

"Só estou surpreso de você não ter vindo com aquele papo de que eu devia me dar bem com os meus pais, ou que deveria respeitar o antigo líder do clã" — ele respondeu.

"Bom, vindo de mim, esse conselho não teria moral nenhuma, teria?"

Ele devia saber muito bem que ela e os pais não se davam... ou melhor, que a relação deles era de puro desprezo mútuo.

E como ele saberia disso? A resposta óbvia era que obter informações sobre uma das famílias secundárias do clã era moleza para o líder do clã.

"Verdade. Não ia soar nada convincente" — disse Saku, soltando uma risada como se tivesse achado graça de algo. Hana não entendeu o motivo. — "De qualquer forma, primeiro você vai conhecer a minha mãe e, daqui a uma semana, faremos a cerimônia."

Ela ficou sem chão com o anúncio. — "Daqui a uma semana?!"

"Sim, quanto antes melhor" — disse ele. — "Assim que a gente oficializar a notícia para as famílias secundárias, vou poder finalmente focar em consertar a barreira."

Lembrando que o único propósito daquele casamento era o reparo da barreira, Hana entendeu a lógica de Saku. Mesmo assim, ela ainda tinha suas dúvidas. — "Uma pergunta. Nós nos casamos porque é preciso para a barreira, certo? Então não tem necessidade de espalhar a notícia ou realizar uma cerimônia. A gente vai se divorciar assim que a barreira estiver inteira de novo, então não é melhor ficar de boca fechada para não atrairmos problemas desnecessários?"

"Impossível. Só assinar um papel não faz um casamento real. O registro na prefeitura é só burocracia, nada mais. Nós temos que fazer nossos juramentos diante das famílias secundárias e ter o casamento reconhecido por eles. Só a partir daí é que as suas ações vão começar a fazer efeito na barreira. Por isso, a cerimônia é inegociável."

"É assim que funciona?" — ela perguntou, desconfiada.

Que tradição monumentalmente trabalhosa.

Ela tinha achado que daria para manter tudo em segredo e depois se divorciar sem problemas mais tarde, mas parece que se enganou.

Ela já ficava exausta só de imaginar o alvoroço que causariam quando esse casamento viesse a público.

"Se prepara" — Saku alertou.

Hana inclinou a cabeça, sem entender.

"Minha mãe e o resto do clã ainda acham que você é uma completa fracassada. Para você ter ideia, minha mãe já tentou me convencer a casar com a sua irmã mais velha. A reação dela pode ser bem pior do que a da sua família. Vou te dar cobertura no que puder, mas não vou conseguir te vigiar o tempo todo."

"É o que é" — disse ela. — "Não esquenta. Eu dou conta." — Em contraste com a seriedade de Saku, ela estava bem relaxada.

"Você não está levando isso muito na brincadeira?"

"Eu não passei a vida inteira sendo comparada com a Hazuki à toa. Tive que engolir piadinhas e fofocas pelas costas todo santo dia. Além do mais, com você me dando apoio, eu não vou precisar esconder meus poderes, vai? Vou devolver cada desaforo em dobro." — Hana deu um sorriso travesso. Não seriam alguns comentários maldosos que a derrubariam.

O olhar de Saku suavizou ao ver o tamanho da força e da determinação dela. — "Quão confiável você, hein."

"Você só precisa focar na barreira, Saku... E na minha recompensa por isso."

"E finalmente a sua verdadeira intenção dá as caras." — Saku sorriu. Era exatamente o que Hana queria, mesmo que o sorriso dele tivesse uma ponta de cansaço.

"Você já me conhece" — disse ela. — "Trate de cumprir a sua palavra."

"Eu sei, eu sei. Vou até incluir um extra pelo transtorno como bônus."

"Boa! Você realmente faz jus ao título, Mestre Ichinomiya. Tirei a sorte grande!" — Ela radiou de alegria.

Enquanto Hana comemorava, Saku passou a mão por trás da cabeça dela, de mansinho. Ela o observava, sem entender nada, enquanto ele se inclinava cada vez mais perto.

Caramba, os cílios dele são tão grandes, ela ainda teve tempo de pensar, antes que aqueles lábios finos e bem desenhados eliminassem a distância restante e roçassem suavemente contra os dela.

A leve pressão dos lábios dele sumiu tão rápido quanto apareceu. O beijo não durou nem um segundo.

Hana congelou em choque, sentindo tudo girar. — "O-o-o que foi isso?!"

"Um beijo. O que mais seria?" — disse Saku.

"Mas por quê?! Que motivo você tinha para me beijar?!" — ela cobrou.

O que diabos na conversa deles dava a entender que aquele era o momento certo para um beijo?

"Nós somos marido e mulher agora. É a coisa mais natural do mundo a gente se beijar, não acha?" — ele respondeu, totalmente pleno e calmo.

Era como se ele realmente não visse nada de errado no que fez. Como se ela estivesse fazendo tempestade em copo d'água por bobagem.

Mas ela estava certíssima. — "Isso aí só vale para casais de verdade, tá? O nosso casamento é só um contrato!"

"Nós demos entrada nos papéis, então não somos um casal de verdade?" — disse ele.

"V-você não está errado. Mas beijar não estava no contrato!" — ela protestou.

"Se formos seguir o contrato à risca, beijar também não está proibido. Não vejo problema nenhum."

"Grr..." — Ela ficou sem argumentos. — "Então vamos mudar o contrato."

"Não quero."

Hana o agarrou pelo colarinho e começou a sacudi-lo para a frente e para trás.

"Gah, para com isso" — disse Saku.

"Então me deixa alterar o contrato!" — ela exigiu.

"Já disse que não quero."

"Er, com licença..." — uma terceira pessoa disse hesitante, interrompendo a conversa.

Hana virou e encarou o intruso de cara feia.

Era o motorista. No segundo seguinte, ela se sentiu mal por ter olhado com raiva.

Ele tinha aberto a porta e estava esperando os dois descerem.

"Ah... Desculpe" –- disse ela.

"Não, eu é que peço desculpas por interromper o momento dos dois" — disse o motorista.

"Hã? Ah..." — Hana empurrou Saku para longe — eles estavam bem mais perto do que ela tinha se dado conta — e soltou uma risada amarela para disfarçar.

"Eu sou o chefe do clã, sabia? Você me trata de um jeito muito bruto" — reclamou Saku. Ele a encarou com um olhar pesado, mas a indireta passou batida por Hana.

"A culpa é toda sua. Você me b-b-be..." — Ela corou até as orelhas, pois falar aquilo em voz alta trouxe toda a cena de volta à mente.

Ao ver a reação tão genuína de Hana, Saku abriu um sorriso malicioso. — "Entendi. Foi o seu primeiro."

As bochechas dela pegaram fogo.

"Ora, ora, ora, o futuro promete ser bem interessante" — disse ele.

[Pipoc4h: O cara é atacante, da bobeira não]

"Saku!" — ela berrou, usando a raiva para mascarar a vergonha. Ela simplesmente não sabia o que mais fazer.

Ele estendeu a mão na direção dela. — "Vamos, chegamos." — Ele sorriu de forma terna.

O coração dela deu um salto com o calor inesperado daquele sorriso. Sem nem perceber, ela colocou a mão na palma dele, como se estivesse sendo atraída por um ímã.

Ele a puxou para fora do carro com um único movimento firme.

Os olhos de Hana pousaram na fachada da residência principal, um lugar que ela só tinha visitado uma única vez na vida.

Uma mistura inevitável de expectativa e ansiedade se revirou dentro dela ao pensar que moraria ali a partir de agora.

Pelo que Saku tinha dito, a matriarca da família não facilitaria as coisas para o seu lado, mas isso já era o esperado. Ela tinha aceitado aquela proposta totalmente consciente dos desafios que viriam pela frente.

Hana respirou fundo e se armou de coragem. Tudo aquilo era pelo seu sonho de uma aposentadoria mansa e sossegada. — "Estou pronta. Sejam demônios, cobras ou serpentes, que venham!"

"Sinto te informar, mas até os demônios fogem quando veem a minha mãe" — disse Saku, com a voz seca.

"Escuta aqui, eu estou tentando me animar. Não seja um estraga-prazeres" — ela reclamou, lançando um olhar frio para ele.

"Foi mal. Só estou dizendo para você tomar cuidado."

Sabendo que ele estava apenas tentando alertá-la, Hana não insistiu na discussão. Mas que tipo de pessoa seria a mãe de Saku para fazer um cara normalmente tão convicto falar daquele jeito...?

"Depois dessa sua frase, acho que mudei de ideia e quero ir para casa" — disse ela.

"Tarde demais. Desista."

Hana fincou os pés no chão, mas Saku a arrastou para dentro de casa centímetro por sofrido centímetro de qualquer forma.

Assim que passaram pela porta, uma senhora idosa e simpática, de cabelos brancos, os cumprimentou. — "Seja bem-vindo de volta, Junior."

"Junior...?" — Os ombros de Hana começaram a chacoalhar enquanto ela segurava o riso. Ver o tão orgulhoso Saku ser rebaixado ao nível de "Junior" era divertido demais.

Saku ficou vermelho de vergonha. "Towa! Eu já disse para parar de me chamar assim!" — ele reclamou com a idosa.

Towa nem se abalou com a reação dele e soltou uma risada calorosa. — "Peço perdão pela falta de modos, Mestre. Então, seria ela a esposa de quem o senhor tanto falou?"

"Ah, sim, é ela..." — ele respondeu para Towa. — "Dá para parar de rir?" — Ele golpeou de leve a cabeça de Hana, o que finalmente fez a garota controlar o riso.

"Meu nome é Hana. É um prazer conhecê-la" — ela se apresentou, curvando-se com elegância. Por mais que a relação com seus pais fosse distante, ela ainda era filha de uma família secundária dos Ichinomiya e tinha aprendido as regras básicas de etiqueta.

"Que jovem educada. Eu sou funcionária da casa Ichinomiya, meu nome é Towa. Por favor, não hesite em me chamar se precisar de qualquer coisa."

"Vou ficar sob os seus cuidados a partir de hoje."

Terminadas as apresentações, Saku foi direto ao ponto. — "Por enquanto chega. Onde está a minha mãe?"

"A patroa está esperando ansiosamente pela sua chegada, Junior" — disse Towa.

"Towa..."

"Hoh-hoh-hoh. Certo, certo. Mestre."

Aquela cena devia se repetir inúmeras vezes. Estava na cara que Towa continuaria chamando Saku de Junior não importava o quanto ele reclamasse.

Towa os conduziu pelo corredor e parou em frente às portas de correr, anunciando-os. — "Madame, o mestre retornou."

"Entrem" — A ordem veio em um tom de voz tão ríspido que quase congelou o ambiente.

Towa abriu a porta, e Hana e Saku deram um passo para dentro.

"Sejam bem-vindos à residência Ichinomiya."

A mulher que os aguardava tinha olhos amendoados e um olhar firme como aço. Seu cabelo estava impecavelmente preso, sem um único fio fora do lugar. Em seus traços elegantes dava para notar as semelhanças com Saku. Ela vestia uma roupa tradicional japonesa que lhe caía perfeitamente.

Seus olhos cravaram em Hana. Não havia um pingo de simpatia neles.

As pernas de Hana travaram; parecia que tinham sido amarradas. Saku colocou a mão no ombro dela, e a leve pressão do toque a libertou daquele estado de choque. — "Meu nome é Hana. É uma honra conhecê-la, Madame" — disse ela, com a voz rígida de puro nervosismo. Ela queria ter sido mais articulada, mas já estava sendo um sacrifício garantir que o seu sorriso não se fechasse forçadamente.

Mesmo assim, a expressão da mulher não suavizou nem um pouco diante da tentativa de simpatia de Hana.

"Presumo que você não seja a filha mais velha dos Ichise, correto?" — a mãe de Saku perguntou.

"Sim, a senhora está certa. Eu sou a caçula" — Hana respondeu.

A mãe de Saku voltou seu olhar implacável para o filho. — "Saku, você tem noção de como essa garota é chamada pelas pessoas ao redor?"

"Acho que de resto da irmã, sobra, e outras nomenclaturas do tipo, eu acho?" — respondeu Saku com desdém.

Como sabia o quão forte Hana realmente era, aqueles apelidos depreciativos não significavam nada para ele.

Mas para a mãe dele a história era outra. — "Se você já sabia, então por que escolheu logo essa garota?! Eu não vou aceitar essa zé-ninguém na casa dos Ichinomiya. Uma tola como ela não serve para a nossa casa!" — disse ela, enfurecida.

Hana encolheu os ombros diante da aura de pressão que a mãe de Saku emanava. Agora ela entendia o que ele queria dizer com até os demônios fogem dela. A mulher era assustadora.

Saku encarou a ira da mãe como se não fosse nada demais. Naquele momento, ele pareceu extremamente confiável.

"Isso não importa. Eu não vim aqui pedir a sua aprovação" — disse ele.

As palavras foram como facadas para a mãe de Saku, atingindo-a visivelmente. "O que você disse?" — ela perguntou, gélida.

"Esta é a minha decisão como líder do clã. Não vou aceitar reclamações, nem mesmo vindas de você, Mãe."

"Saku!" — ela gritou, mas ele não recuou.

"Não tenho mais nada a dizer. A cerimônia vai acontecer daqui a uma semana."

"Eu não vou aceitar isso."

"Então a senhora está livre para recusar o convite. Não vou te obrigar a ir. Você pode até ter autoridade como mãe do chefe, mas a Hana será a matriarca deste clã a partir de agora" — ele disparou, mantendo-se firme até o fim. — "Nos dê licença."

Saku agarrou a mão de Hana, levantou-se e saiu do cômodo sem olhar para trás. Hana fez uma reverência ao sair, mas o olhar da mãe de Saku continuava puro gelo.

"...Ei, tudo bem você ter falado daquele jeito?" — Hana perguntou a Saku.

"Eu não tive escolha. Como você viu, ela é cabeça-dura. Enquanto achar que você é uma incapaz, ela não vai aceitar o nosso casamento. Só que nós não temos tempo para esperar a boa vontade dela. Não dá para adiar a reparação da barreira. Você também já deve ter percebido que os ataques das sombras aumentaram ultimamente."

Hana assentiu. Infelizmente, ela tinha sentido na pele o que Saku estava dizendo. Mesmo estando na Classe C, ela e seus colegas tinham sido convocados para ajudar a conter as sombras no outro dia.

"Se eu mostrar o meu poder abertamente, resolve o problema?" — ela perguntou.

She tinha escondido suas habilidades até ali, mas queria evitar uma rivalidade com a sogra, por mais temporária que fosse a relação deles. Se abrir o jogo sobre sua força ajudasse a criar um clima de paz, ela faria isso. Qualquer dor de cabeça que surgisse depois, ela direcionaria a Saku para ele resolver.

Mas Saku, conhecendo bem a personalidade da mãe, não demonstrou o menor entusiasmo com a ideia. — "É uma possibilidade. Mas a minha mãe não é só teimosa, ela é obstinada. Agora que ela te julgou como incapaz, não vai mudar de opinião tão cedo e te aceitar."

"Que incômodo."

"Mais cedo ou mais tarde ela vai perceber o quão forte você realmente é. Até lá, o jeito é ter paciência" — disse Saku.

"Tudo bem, mas eu vou querer uma compensação adequada por isso" — Hana brincou, mantendo o tom leve.

Saku bagunçou o cabelo dela, deixando tudo desalinhado.

"Ei!" — ela protestou, indignada.

Ela ia exigir uma explicação, mas Saku abriu um sorriso tão caloroso para ela que desarmou sua raiva num piscar de olhos.

"Você é muito otimista, Hana. Dá até inveja dessa sua positividade."

"...E você é um convencido. Quem você pensa que é, afinal?"

"O Mestre Ichinomiya. Curve-se diante de mim, plebeia."

"Nem pensar."

E assim eles continuaram, trocando farpas em tom de brincadeira.

Depois da reunião com a mãe de Saku, Hana foi levada para o quarto que tinha sido preparado para ela.

O cômodo estava abastecido com tudo o que ela precisaria para começar sua vida nova sem passar nenhum aperto. Pelo visto, Saku tinha cuidado de cada detalhe sozinho.

"Falta alguma coisa que você queira?" — ele perguntou.

"Não. Para falar a verdade, você exagerou" — ela respondeu. Ele tinha colocado no quarto até a marca de maquiagem favorita dela. Chegava a impressionar o nível de detalhes que ele buscou.

"...Por que você está com essa cara?" — Saku franziu o cenho. Hana o encarava como se ele fosse um perseguidor.

"Me dá arrepios ver o quanto você me investigou..." — ela disse abertamente.

"Você podia medir um pouco as palavras. Eu também posso me magoar, sabia" — disse ele.

"Ops, desculpa. Eu não queria ter falado o que pensei em voz alta."

"Essa é a sua ideia de tato?"

[Pipoc4h: Cara eu acho muito engraçado pensar que ela fala desse jeito com tipo uma das pessoas mais importantes do país, (e ela que impõem respeito) kkkk | Jeff: Isso que é moral kkk]

No meio do bate-boca, a porta foi aberta com um estrondo, e uma empregada de maria-chiquinha e orelhas de cachorro entrou correndo no quarto. — "Meu Mestre adorado! Como você teve coragem de deixar a Tsubaki aqui sozinha? Poxa! Onde você se meteu?" — Ela se jogou em cima de Saku, dando um abraço apertado nele.

Hana assistiu àquela cena fazendo uma careta de descontentamento. "'Mestre adorado'...? Você faz a sua empregada fofinha de orelhas de cachorro te chamar de 'adorado'?" — ela perguntou, chocada. — "Então esse é o seu fetiche. Eu nunca imaginaria olhando para você..."

"Você entendeu tudo errado! Não é nada disso que você está pensando!" — Saku protestou.

Até que um praticante realmente invocasse seu shikigami, era impossível saber qual seria a aparência dele. Quando Hana criou Aoi e Miyabi, não foi como se ela tivesse sentado para escolher o gênero e desenhar o visual deles.

Então, o fato de Tsubaki ter vindo com orelhas de bicho não era culpa do Saku. Mas aquele uniforme de empregada cheio de babados, por outro lado...

"Quem diria que você escondia um fetiche por empregadas esse tempo todo. Ainda mais com uma cara dessas..." — Hana comentou, afastando-se um pouco.

Saku correu para se defender. — "Esta é a Tsubaki, a minha shikigami. Usar uniforme de empregada é um hobby dela!" — Ele desgrudou Tsubaki de si e se afastou. — "Tsubaki, se apresente."

"Eu sou a amada do meu Mestre querido, a Tsubaki!" — disse ela.

"Sabia" — Hana disparou.

"Sabia o quê?!" — Saku exclamou com Hana. Logo depois, se voltou para Tsubaki. — "E você! Para de falar coisas que dão margem para mal-entendidos!" — Ele encarou Tsubaki com os olhos arregalados e deu um cascudo de leve nela.

"Ai, doeu! Você é muito mau, querido" — ela choramingou. Cada palavra que saía da boca dela parecia vir acompanhada de um emoji de coração.

Contudo, por mais que Tsubaki parecesse uma gracinha, o imenso poder que residia dentro dela era tudo menos isso.

Hana levou a mão ao queixo, avaliando Tsubaki com os olhos semicerrados. — "Talvez ela esteja no mesmo nível do Aoi..."

Hana tinha criado Aoi com foco total em combate, então ele era mais poderoso que Azuha e Miyabi. Tsubaki parecia ser tão forte quanto ele.

"Aoi?" — Tsubaki repetiu, inclinando a cabeça. Suas orelhas aguçadas tinham captado o sussurro de Hana.

"Hum, ele é o meu shikigami" — Hana respondeu.

"Nossa, eu quero ver! Cadê ele?" — Tsubaki perguntou.

Hana foi pega de surpresa. Ela nunca tinha falado sobre Aoi e Miyabi para ninguém. Saku tinha visto os dois de relance durante a confusão no parque, mas só por um instante. Ela nunca os tinha invocado de propósito na frente de outras pessoas.

"Bem..." — Sem saber o que fazer, Hana olhou para Saku com uma expressão perturbada.

"Pode invocá-los" — disse ele. — "Eu também quero ver. Não consegui olhar direito daquela vez, e quero que a Tsubaki os conheça. Nós vamos morar juntos daqui para a frente. Isso é importante."

Hana pensou por um breve momento e concluiu que não fazia mais sentido ficar escondendo o jogo. Por mais preciosos que eles fossem para ela, resolveu chamá-los. — "...Tá bom. Aoi, Miyabi, apareçam."

Azuha, que esteve pousada no cabelo de Hana como um enfeite o tempo todo, voou até o ombro dela. No mesmo instante, Aoi e Miyabi se materializaram no quarto.

Não restavam dúvidas de que Saku conseguia sentir onde os dois estavam mesmo invisíveis, porque ele já estava olhando exatamente para o ponto onde eles surgiram antes mesmo de aparecerem.

Aoi estava com a sua fisionomia séria de sempre, criando um contraste enorme com o sorriso simpático de Miyabi.

"Apresentem-se, por favor. Os dois" — Hana orientou.

"Meu nome é Miyabi, e sou uma das shikigamis a serviço da Senhorita Hana" — Miyabi curvou-se elegantemente.

"Sou o Aoi."

A introdução de Aoi foi curta e fria, mas pelo visto foi o suficiente para conquistar o coração de Tsubaki.

"Meu Deus, olha só, que gato!" — Tsubaki corou bastante e se jogou nos braços de Aoi.

O mau humor de Aoi deu lugar à pura confusão com o abraço repentino, fazendo ele perder a pose. — "O quê...? Ei! Sai de cima de mim!"

"Não quero. Você é o Aoi? Faz totalmente o meu tipo!" — Ela grudou em Aoi com firmeza, sem se importar nem um pouco com os esforços dele para se soltar. — "Mestre querido, do fundo do coração, não sou mais a sua amada. Agora eu vou ser a namorada do Aoi!"

"Tudo bem, tudo bem, faz o que você quiser" — Saku disse com zero interesse, acenando com desdém.

"Ei, o quê?! Sem chance! Não diga coisas tão irresponsáveis! E você, me solta!" — Aoi berrou.

"Eba, negócio fechado!" — comemorou Tsubaki.

"Mestra! Me ajuda!" — Aoi clamou.

Ele estendeu a mão implorando por socorro, mas Hana não tinha o que fazer. Miyabi assistia a tudo com um brilho divertido no olhar, Saku não dava a mínima, e Tsubaki — a causadora da confusão — não saía do lugar por nada. Mesmo que Hana tentasse falar algo, ela não era a dona de Tsubaki, então não tinha comando sobre a shikigami.

Foi quando Azuha se pronunciou. — "Se está achando ruim, é só ocultar a sua presença de novo."

Aoi compreendeu o conselho na hora e sumiu no ar. De todos ali, Azuha tinha se mostrado a mais comedida.

"Ué? O Aoi sumiu" — Tsubaki murchou, decepcionada.

Saku disse para ela: "Trate de sair também. Você só está atrapalhando" — dispensando-a como se fosse um incômodo.

"Grosso!" — ela reclamou, mas também desapareceu no segundo seguinte.

Azuha e Miyabi foram as únicas que restaram. Saku avaliou as duas de cima a baixo. O jeito que ele as encarava estava longe de ser cortês, mas Miyabi aguentou o olhar firme sem perder o sorriso.

Finalmente, Saku quebrou o silêncio. "Entendi. Os seus shikigamis são realmente poderosos."

"Com certeza" — Hana disse, estufando o peito cheia de orgulho.

Azuha e Miyabi podiam não ser tão focadas em combate quanto Aoi, mas Hana tinha colocado muito esforço na criação de cada um. Eles eram o seu maior orgulho.

"A Azuha é a borboleta" — ela apresentou.

Azuha voou em círculos na frente de Saku. — "Meu nome é Azuha."

"É bem raro um shikigami de ranque baixo conseguir falar" — ele comentou.

"Ela não falava antes, mas quando os meus poderes despertaram no meu aniversário de quinze anos, eu passei uma parte para ela. Desde então, a gente consegue conversar."

"Ela tem uma força inacreditável para um shikigami borboleta."

"Exatamente. É tudo porque a Mestra me deu muito poder" — Azuha orgulhou-se com o elogio de Saku.

Como Saku havia apontado, o fato de Azuha conseguir falar — mesmo que com frases um pouco travadas — e ter vontade própria era algo extremamente raro para entidades de nível baixo. Para falar a verdade, Hana não conhecia nenhum outro caso além dela. Os elogios de Saku não eram mera bajulação.

Depois de observar a conversa, Miyabi, que manteve o sorriso polido o tempo todo, tomou a palavra. — "Mestre Ichinomiya."

"Pode me chamar de Saku" — disse ele.

"Sendo assim, Saku... Tenho certeza de que o senhor já sabe da nossa situação através da nossa Mestra. Para nós, ela é uma pessoa insubstituível. Eu peço que o senhor a trate com todo o carinho e respeito" — disse Miyabi.

"Eu vou."

"Se por um acaso o senhor magoar ela ou fizer ela sofrer..." — Miyabi deixou a frase no ar e abriu um sorriso carregado de segundas intenções. Seus olhos não estavam rindo nem um pouco, e no fundo deles dava para ler um aviso bem claro: se esse dia chegar, esteja preparado. — "Trate de não esquecer o que eu disse."

"Vou me lembrar" — Saku garantiu.

Antes de sumir como os outros, Miyabi sorriu uma última vez. Seu último sorriso foi aquele olhar doce e gentil que ela sempre usava.

Azuha voltou a pousar no cabelo de Hana e ficou quietinha.

"Os seus shikigamis são incríveis, mas dão um baita medo" — disse Saku.

"Não são uns anjinhos?" — Hana sorriu, toda orgulhosa. Contudo, ela era a única ali que tinha achado aquela conversa uma fofura.

"Para você, sim. Eu certamente não gostaria de ficar do lado errado do poder deles. E você tem três... Você disse que as suas habilidades despertaram aos quinze anos?" — Saku perguntou.

"Isso."

"Antes disso, você era mesmo uma incapaz, como diziam os boatos?"

"Mais ou menos. Eu tinha habilidade suficiente como praticante para invocar a Azuha, mas, no geral, eu era tão fraca quanto todos falavam. Ter a talentosa Hazuki como irmã certamente não ajudava em nada. Eu sempre parecia fraca demais em comparação a ela."

Se elas não fossem gêmeas.

Se ela não tivesse uma irmã mais velha tão excepcional quanto Hazuki.

Talvez, assim, ela não tivesse sido alvo de tanta zombaria.

Talvez não tivesse se tornado tão cínica.

Ou se os seus poderes tivessem despertado mais cedo...

Mas, se fosse esse o caso, Hazuki é quem poderia ter sido comparada a Hana. Ela não sabia dizer se isso teria sido melhor.

A distância entre Hana e Hazuki, entre as suas posições, não passava da espessura de uma folha de papel.

Por isso ela sentia tanta dificuldade em segurar a língua diante de Hazuki, embora fingisse que não era problema seu e que não dava a mínima.

Sabia que nada do que dissesse mudaria a cabeça da irmã, mas também não conseguia simplesmente fechar os olhos.

"Houve algum tipo de gatilho? Consegue lembrar de algo?" — Saku perguntou.

"Nada. O poder simplesmente começou a transbordar, como se eu tivesse rompido uma casca. Eu mesma fiquei surpresa. Não tive nenhum aviso antes de acontecer."

"Entendo. Pensei que houvesse a chance de outras pessoas despertarem da mesma forma que você, mas a sua história não nos dá nenhuma pista."

"Nunca existiu ninguém como eu no passado?"

Ele balançou a cabeça. — "Não, nunca ouvi falar."

Como líder do clã Ichinomiya, Saku deveria estar ciente de qualquer informação relacionada aos praticantes, então, se ele dizia que não sabia, talvez Hana fosse realmente a única exceção.

Poderia haver pessoas escondendo o jogo da mesma forma que ela, mas isso parecia bastante improvável.

Afinal, a reação normal ao obter uma quantidade massiva de poder era de pura e genuína alegria. As pessoas nessa situação geralmente queriam anunciar a sua súbita sorte para o resto do mundo o quanto antes.

"Bom, já que não sabemos o motivo da minha mudança, não adianta nada ficarmos quebrando a cabeça" — Hana comentou ao ver Saku tão preocupado com o problema.

"É verdade..."

Ele parecia relutante em mudar de assunto. Como líder do clã, possivelmente pensava que a batalha contínua contra as sombras seria muito mais fácil com a ajuda de outros praticantes que tivessem despertado. Mas era inútil pensar nisso agora.

Eles mudaram de assunto.

"Ah, é mesmo. O feriado termina hoje, mas eu gostaria que você se afastasse das aulas até o casamento" — disse Saku.

"Para quê?" — Hana perguntou.

"Nós só temos uma semana. Há uma montanha de coisas que precisam ser feitas. Você não vai ter tempo para ir à escola."

"Ai, você tá falando sério?" — Ela fez uma careta descontente.

"A partir de amanhã, literalmente cada minuto do seu dia estará comprometido. Prepare-se."

"Você só pode estar brincando comigo" — ela resmungou.

Para Hana, o sorriso que Saku deu em resposta parecia exatamente a expressão maliciosa de uma sombra.

Como Saku a havia avisado, a semana que antecedeu a cerimônia foi incrivelmente agitada. Havia roupas para ajustar, os rostos dos convidados das famílias secundárias para memorizar e mais uma infinidade de obrigações. Como a futura matriarca do clã, Hana foi inundada de tarefas a cumprir.

Ela sentia que a cabeça ia explodir de tanta correria. Seu corpo foi levado ao limite. O ciclo diário de exaustão física e mental se repetia dia após dia.

Por sorte ou por azar, a agenda lotada não deixou tempo para que ela se encontrasse com a mãe de Saku novamente.

Na verdade, aquilo era uma bênção. Saku também estava atolado de trabalho, então ela raramente o via. Um encontro cara a cara com a mãe dele seria uma catástrofe que Hana fazia questão de evitar. Ela duvidava que fosse possível ter uma conversa decente com aquela mulher tão fria e que a desaprovava tanto.

Saku também tinha um irmão mais novo, mas Hana não o viu nenhuma vez.

Como moravam sob o mesmo teto, ela imaginou que seria apresentada a ele em algum momento, mas, sem dúvida, ele provavelmente seria tão desdenhoso quanto a mãe.

Até os funcionários da casa olhavam para Hana de nariz empinado. Claro, eles ainda eram profissionais e faziam o trabalho sem reclamar, afinal, Hana fora a escolha do mestre e já estava oficialmente registrada na família. No entanto, o olhar deles era frio como gelo e o desprezo, evidente.

A atitude hostil era tão clara que Hana se coçava para sugerir que eles treinassem melhor a encenação.

Além disso, pelo visto, os empregados costumavam falar mal de Hana pelas costas. Aoi frequentemente voltava de suas caminhadas pela casa com uma expressão irritada.

Ele não queria chatear Hana repetindo o que os outros diziam e se recusava a contar o que ouvia, mas compartilhava tudo em segredo com Miyabi.

Por precaução, Hana pediu para Miyabi acompanhar Aoi sempre que ele saísse de perto dela, para evitar que ele perdesse a cabeça com os insultos. O problema era que os pensamentos Miyabi também estavam começando a tomar um rumo perigoso, então era difícil saber se ela serviria mesmo como um freio para ele.

Não valia a pena se desgastar por causa de fofocas maldosas àquela altura, mas Aoi e Miyabi não toleravam ver sua mestra ser humilhada. Para piorar, as piadas também se estendiam para a Azuha.

Azuha costumava suprimir seus poderes seguindo as ordens de Hana. Exceto por praticantes como Saku, que tinham uma intuição afiadíssima, todos achavam que ela era apenas um shikigami de borboleta comum.

O fato de Hana estar sempre acompanhada por uma entidade de ranque tão baixo era apenas mais um motivo para o deboche dos funcionários.

Tecnicamente, não havia mais razão para Hana manter suas habilidades em segredo, e Azuha também não precisava conter a sua força. Contudo, Hana achava que ainda não era o momento de revelar a verdade.

Ela pretendia esperar a hora certa para contar tudo de uma vez, causando o maior impacto possível.

Até lá, pediu paciência aos seus shikigamis.

Embora estivesse preocupada de que Aoi perdesse o controle antes do tempo…

Finalmente, o dia da cerimônia chegou.

Hana foi acordada antes do amanhecer para iniciar os preparativos. Disseram que ela precisava passar por um ritual de purificação e, sem a menor delicadeza, a jogaram em um belo lago nos terrenos da residência Ichinomiya. Infelizmente, a água estava congelante.

Ela suspeitou que o ritual fosse apenas uma provocação por parte dos funcionários que não gostavam dela, mas Towa lhe trouxe água quente logo após o banho e explicou que era uma tradição antiga do clã. Só então ela aceitou que não era maldade.

Depois disso, ela tomou um café da manhã leve e foi vestida com um quimono totalmente branco. Seu cabelo foi preso e ricamente decorado com ornamentos de orquídeas.

Azuha voou e pousou nos fios de Hana, integrando-se ao arranjo.

Aquele era o lugar reservado dela desde sempre, e hoje não seria diferente; ela ficaria ali durante todo o evento. O penteado de Hana parecia ainda mais opulento com as cores do arco-íris de Azuha misturadas aos enfeites.

No meio dos preparativos, Saku entrou no quarto vestindo um casaco haori preto sobre a calça hakama. Ele a encarou com tanta intensidade que pareceu que o tempo havia parado de repente.

[Pipoc4h: haori e hakama são trajes típicos orientais. Tipo os trajes de Kimetsu no Yaiba | Jeff: Aí aí, as crianças crescem tão rápido, olha só, já passando curiosidades.]

Hana ficou desconfortável com o olhar. "O que foi?" — perguntou de forma ríspida.

"Nada. Só pensando que até um macaco fica bem com a vestimenta certa" — Saku respondeu.

"É só isso que você tem a dizer?" — Ela lançou um olhar furioso para ele. A reação era mais do que justa. Ele continuava sarcástico mesmo em uma ocasião como aquela.

Saku encarou Hana e sorriu. — "Estou brincando. Você está tão bonita que eu fiquei sem palavras."

Ela olhou para aquele sorriso descontraído e seu coração acelerou. Saku podia ter uma língua afiada e ser orgulhoso demais, mas ninguém podia negar que ele era um homem de primeira linha. A expressão gentil dele era desarmante.

Hana desviou o olhar para esconder o quanto estava abalada e disse: "Macaco. Vestimenta. Você tirou as palavras da minha boca."

"Então, presumo que você me acha atraente?" — Saku sorriu de leve e estendeu a mão para acariciar a bochecha dela.

Eles se olharam nos olhos.

Saku foi o primeiro a quebrar o silêncio. — "Hana... Me desculpe."

"Pelo quê?"

"Eu te envolvi nos meus problemas. Tudo o que você queria era uma vida tranquila, não é?" — ele disse. — "Mas, assim que soube da sua existência, não consegui fingir que nunca te conheci, e não posso te deixar ir. Em troca, eu te faço uma promessa. Como seu marido, farei tudo o que estiver ao meu alcance para te fazer feliz. Então, por favor, fique ao meu lado."

A voz dele soou suave. Aquelas palavras mexeram profundamente com ela.

"Você realmente foi bem insistente," — ela disse — "mas fui eu quem escolheu isso no final. Talvez eu me arrependa dessa decisão algum dia, mas não me arrependo agora. Então não me decepcione, Saku."

Hana colocou a mão sobre a dele, que ainda estava em sua bochecha, e sorriu.

Saku sorriu de volta. — "Não vou. Confie em mim."

Aquelas palavras vindas de um homem tão seguro de si tinham um poder de persuasão sem igual. Ela se sentiu convencida de que tudo daria certo.

"Muito bem. Está na hora. Pronto?" — Saku perguntou, estendendo a mão.

Hana a aceitou sem hesitar. — "Vamos nessa!"

A cerimônia de casamento começou.

Os líderes das famílias secundárias já estavam reunidos no salão à espera.

Ninguém conseguia acreditar na notícia.

Quando souberam que o líder do clã havia escolhido uma filha da família Ichise, todos naturalmente assumiram que seria a irmã mais velha.

Era frustrante que suas próprias filhas não tivessem sido as escolhidas, claro, mas, se a brilhante gêmea mais velha seria a noiva, eles aceitariam a derrota com dignidade.

No entanto, descobriu-se que a gêmea caçula, e não a mais velha, seria a nova matriarca do clã.

Em comparação com a irmã, a caçula era vista como uma fracassada; a mais velha tinha ficado com todo o talento, deixando a outra sem nada.

Logo ela tinha sido a pessoa a conquistar o coração do chefe do clã Ichinomiya? Como alguém poderia acreditar nisso? Como poderiam aceitar?

Os protestos surgiram como uma enxurrada que não dava sinais de trégua.

Como líder, Saku conversou com cada uma das famílias descontentes, defendendo Hana com seriedade.

Ela estava longe de ser inútil. Na verdade, seria uma tolice escolher qualquer outra pessoa, ele insistia.

Contudo, o argumento era difícil de engolir. Quase ninguém aceitou as palavras dele de imediato, mas a maioria adotou a postura de que, se o líder estava disposto a ir tão longe, eles não tinham escolha senão ceder, por mais relutantes que estivessem.

Portanto, não era apenas a família principal que estava insatisfeita com Hana; a desaprovação corria solta entre as famílias secundárias também.

Foi nessas condições que a cerimônia foi realizada.

Como parte do clã Ichinomiya, todos os ramos familiares compareceram, incluindo, obviamente, toda a família da noiva, os Ichise.

As únicas duas ausências marcantes foram a mãe e o irmão mais novo de Saku.

A recusa em comparecer foi a forma silenciosa que encontraram para protestar contra o casamento.

No dia da cerimônia, ainda havia convidados céticos se o casamento realmente aconteceria, de tão inesperada que Hana era como noiva.

E nenhuma família duvidava mais disso do que os próprios Ichise. A filha deles tinha sido a escolhida, mas não havia sinal de alegria no rosto da família.

Fazendo um esforço de força de vontade, os convidados cerravam os dentes e ofereciam parabéns e felicitações, mas os pais, que deveriam estar radiantes, apenas retribuíam com sorrisos amarelos.

O filho mais velho exibia uma expressão fechada e um tremendo mau humor, tornando-se difícil de abordar.

Hazuki estava sentada ao lado dele e, talvez por reflexo do temperamento do irmão, ninguém falava com ela também, embora todos estivessem morrendo de curiosidade para saber o que ela estava sentindo — não por empatia, mas porque achavam a situação divertida.

Finalmente, os protagonistas do dia fizeram sua entrada.

Hana entrou no salão logo atrás de Saku, que a conduzia pela mão. Quando viu todos os membros das famílias secundárias sentados no cômodo, ela quase perdeu a coragem, mas Saku deve ter sentido a sua tensão, pois apertou a sua mão de leve.

Fortalecida pelo incentivo, Hana respirou fundo e seguiu em frente.

Os olhares da multidão se voltaram para ela, misturando choque e curiosidade. Muitos dos convidados não sabiam como era a aparência de Hana, embora fosse possível que reconhecessem Hazuki. Eles a analisavam com os olhos, inspecionando-a de cima a baixo. Era desconfortável, mas ela se apoiava no calor da mão de Saku.

Precisava demonstrar confiança. Não estava fazendo nada de errado, por isso recusou-se a olhar para o chão. Caminhou de cabeça erguida.

Assim que Hana e Saku se sentaram na frente do salão, nos lugares reservados para os noivos, o celebrante, um senhor de idade, deu início à cerimônia.

"A cerimônia de casamento entre o Senhor Saku Ichinomiya, líder do clã Ichinomiya, e a Senhorita Hana Ichise vai começar."

As palavras dele foram a deixa para que as taças cerimoniais de sakazuki fossem colocadas diante de Saku e Hana. Towa primeiro serviu o saquê na taça larga e rasa de Saku. Quando ele terminou, ela serviu Hana.

Hana era adulta aos olhos da lei, mas a idade legal para consumo de álcool ainda era de vinte anos. Para fins da cerimônia, ela apenas fingiu beber o saquê.

Ela pousou a taça de volta na mesa. Isso encerrava a sua participação na formalidade.

O casamento foi curto e longe de ser uma grande festa, mas era muito melhor do que uma cerimônia arrastada.

Hana sentiu-se aliviada com o fim do rito, e Saku sorriu para ela como se dissesse Muito bem.

Em seguida, veio o banquete.

Uma variedade de pratos foi servida um após o outro, e a refeição começou em silêncio.

O clima não era tanto de solenidade, mas de cautela. Os convidados trocavam olhares discretos, testando o ambiente. A falta de animação inicial podia ser atribuída ao fato de Hana ser a noiva em questão, mas, assim que o saquê começou a ser servido, o ambiente descontraiu.

O clima tornou-se festivo e o salão ficou barulhento com as conversas.

Os adultos faziam fila diante de Saku para servir mais saquê em sua taça, mas ninguém se aproximava de Hana.

Para ela, estava perfeito assim.

Pelo contrário, ela preferia encarar os olhares distantes e os cochichos a se tornar alvo de mulheres fofoqueiras.

Como Hana era de difícil abordagem, as jovens da mesma idade se reuniram ao redor de Hazuki, fazendo questão de consolar a irmã. Hana conseguia ouvi-las de onde estava sentada.

"Imagino o quanto você deve estar desapontada, Hazuki" — disse uma garota.

"Claro que ela está" — outra interrompeu. — "Aquela incapaz roubou o lugar ao lado do líder."

Por fora, podia parecer que elas estavam indignadas por consideração a Hazuki, mas, na realidade, estavam apenas com raiva por terem perdido a disputa para alguém que consideravam inferior.

No entanto, havia algumas no grupo que realmente admiravam Hazuki e estavam revoltadas por ela.

"Isso é inadmissível!" — disse uma das defensoras de Hazuki. — "A Hazuki era a candidata perfeita. Aquela garota deve ter usado algum truque."

"Obviamente ela fez algo de errado. Do contrário, não haveria a menor chance de alguém sem talento ser escolhida como a matriarca do clã."

Quem colocou um ponto final na onda de ataques contra Hana foi a própria Hazuki.

"Obrigada pelo carinho, pessoal, mas vocês não deveriam falar assim" — disse Hazuki. — "A Hana é a minha querida irmã caçula. Desde que ela esteja feliz, eu..."

Ela completou a frase com um sorriso triste, interpretando perfeitamente o papel de uma jovem nobre que engolia o próprio choro pelo bem da irmã. Uma demonstração impecável de meiguice.

"Quanta generosidade a sua, colocar alguém como ela acima de si mesma" — elogiou uma das moças.

"Bondosa até demais, como sempre" — outra emendou.

As seguidoras de Hazuki cantavam seus louvores com a maior naturalidade do mundo.

Escutando o papo de longe, Hana soltou uma risada contida enquanto tomava um gole de suco.

Saku reparou nela rindo e perguntou: "O que é tão engraçado?"

"A Hazuki" — Hana respondeu.

"Hum?" — Saku olhou de relance para Hazuki antes de voltar os olhos para Hana. — "Aconteceu alguma coisa?"

"Ela está praticamente espumando de raiva por dentro, mas, na frente dos outros, precisa fingir que é a aluna exemplar perfeita. Está desesperada tentando engolir o que realmente sente" — Hana explicou. — "O orgulho dela deve estar no chão, mas ela não pode falar mal de mim. Consigo ver o quanto ela está irritada. É tão patético que quase engasguei com o suco."

Saku olhou para Hana, que exibia um sorriso de canto, com uma ponta de cansaço afetuoso. — "...Você não tem jeito."

"Pois é. Mas quem me deixou assim foram os meus pais e as pessoas ao meu redor."

Ela tinha plena consciência de que sua personalidade era distorcida.

Teria alguma chance de ela crescer e se tornar alguém dócil, carinhosa e adorável tendo sido criada em um ambiente tão hostil?

Ela não guardava rancor dos pais — apenas uma indignação silenciosa.

"Você não quer se vingar deles?" — Saku perguntou. — "Isso seria bem fácil agora que você é a matriarca do clã."

"Não tenho interesse. Meus pais e eu cortamos relações há muito tempo. A minha vingança foi você ter me escolhido em vez da Hazuki" — disse Hana.

"Quanta nobreza. Se fosse eu, teria acabado com eles."

"Sim, é a sua cara. Você não me parece o tipo de homem que perdoa traição."

"Você me vê como algum tipo de tirano?"

"Não me diga que não sabia? Estou chocada." — Hana não estava brincando; ficou genuinamente surpresa.

"Você é..." — Saku cobriu o rosto com uma das mãos.

Será que ele está chorando?, ela pensou de início, mas logo ele começou a rir baixinho, tentando segurar o divertimento que ameaçava transbordar.

"Eu nunca vou entender o seu senso de humor" — ela comentou. — "Teve alguma coisa engraçada agora há pouco?"

"Para mim, teve."

"O quê?"

"A sua atitude comigo. Nunca conheci ninguém que falasse comigo de forma tão franca. Afinal, eu sou o Mestre Ichinomiya." — Saku ainda não conseguia controlar a expressão. Ele fitou Hana. — "Quando estou com você, às vezes até esqueço a minha posição. Você é a primeira pessoa com quem realmente gosto de conversar."

O coração de Hana acelerou quando Saku abriu um daqueles raros sorrisos para ela. Seu peito não aguentava quando ele exibia aquele sorriso arrebatador do nada.

Ela olhou ao redor. Várias pessoas encaravam Saku maravilhadas, e o salão se encheu de cochichos.

"O Mestre Ichinomiya está rindo."

"Ele está tão encantado assim por aquela garota?"

"Talvez a gente precise mudar a nossa postura com ela..."

Os sussurros dos convidados chegaram aos ouvidos de Hana. — "É só uma risada. Não estão exagerando?" — ela murmurou.

Tsubaki se materializou bem ao lado dela. — "O meu mestre adorado geralmente não esboça nem um sorriso, sabia?"

Assustada, Hana deu um sobressalto, mas logo se recompôs e focou no que Tsubaki tinha dito. — "Ele não sorri?"

"Uhum. Ele tem a expressividade de um boneco de cera. Ou de um cadáver."

[Pipoc4h: Ele só sorri com ela, hmm… Vou nem dizer mais nada]

Hana inclinou a cabeça. Para ela, o Saku que conhecia tinha uma enorme variedade de expressões.

Ele sempre tinha uma resposta afiada na ponta da língua quando provocado, usava de puro sarcasmo e passava por todo o espectro das emoções humanas.

Saku, subitamente sem jeito sob o olhar atento de Hana, desviou o rosto.

"Esse cara aí?" — Hana perguntou, querendo confirmar.

Para onde aquelas pessoas olhavam para achar que um homem com as reações de Saku tinha os músculos da face travados?

Tsubaki abriu um sorriso radiante. — "Hi-hi-hi-hi. Cuide bem do meu mestre querido, Hana!" — Em seguida, desapareceu de novo, deixando Hana se perguntando o que ela tinha vindo fazer ali, para início de conversa.

Finalmente, o banquete terminou.

A mãe e o irmão de Saku não deram as caras, o que incomodou Hana, mas Saku não demonstrou a menor importância. Se ele estava bem com aquilo, ela não tinha mais nada a dizer. Além do mais, ela nunca foi de remoer as coisas, então, com um dar de ombros mental, deixou o assunto para lá.

Naquela noite, avisaram que ela dormiria em um quarto diferente do que vinha usando. Ela vestiu o pijama e deixou-se guiar até o novo aposento. Entrou sem questionar nada, presumindo que a mudança era apenas porque a cerimônia havia terminado. Porém, lá dentro, deparou-se com não apenas um, mas dois futons estendidos lado a lado.

"Hã?" — exclamou.

Hana ainda estava parada no meio do quarto, confusa, quando ninguém menos que Saku entrou.

"O que foi, Saku? Precisa de alguma coisa?" — ela perguntou.

"Nada em especial. Vim dormir" — ele respondeu com toda a naturalidade.

"O quê? Por quê?!"

Ela não entendia o que ele estava dizendo. Ou melhor, não queria entender.

"É a nossa noite de núpcias. Obviamente, os recém-casados devem dormir juntos, não acha?" — disse Saku.

"De jeito nenhum! Ninguém me avisou sobre isso" — Hana protestou.

"Pare de reclamar. Venha deitar de uma vez. O dia hoje foi exaustivo."

Ela se sentou no futon, atônita. Ele então a puxou pela mão, envolveu-a em seus braços e deitou-se.

"Ei! O-o que você está fazendo?" — ela exclamou.

"Estamos casados. Isso aqui não tem problema nenhum" — ele disse. — "Ou você está sugerindo que quer algo mais?"

Com um sorriso astuto, Saku inclinou-se e deixou Hana deitada de costas, ficando por cima dela. Ela balançou a cabeça negativamente, mas ele a ignorou e acariciou sua bochecha com suavidade.

"Então me permita ao menos isso" — ele disse, aproximando-se.

No instante em que seus lábios estavam prestes a se tocar...

"Não vamos permitir absolutamente nada, seu velho aproveitador."

Aoi se materializou bem ao lado deles e desferiu um chute rápido em Saku.

Saku rolou para longe de Hana. Ele se sentou, com o canto dos lábios tremendo. — "Aceito o 'aproveitador', mas retire o 'velho'. Eu só tenho vinte e quatro anos."

"Para mim, parece um fóssil" — Aoi zombou, rindo.

Saku não ia deixar o insulto barato. — "Entendo. Bem, apenas um garoto seria tão imaturo."

"O que você disse, vovô?"

Aoi encarou Saku com fúria, e Saku devolveu o olhar na mesma moeda.

"As crianças deviam se comportar. Isso é um assunto entre mim e a minha esposa" — disse Saku.

"A Mestra não quer que você encoste nela!" — Aoi gritou.

"Há momentos em que o 'não' quer dizer ‘continue’. Lembre-se disso. A Hana pode estar sem jeito, mas ela não detesta. Agora, vamos dormir. Hana..." — Ele se voltou de Aoi para Hana, mas o que viu o deixou completamente sem palavras.

Enquanto ele e Aoi batiam boca, Miyabi tinha trazido duas almofadas gigantes de algum lugar e estava ocupada erguendo uma barricada entre os dois futons.

"Pronto, Mestra, assim a senhora pode dormir tranquila" — Miyabi disse com um sorriso satisfeito.

"Muito inteligente, Miyabi" — Azuha elogiou.

Aoi fez sinal de positivo com os dois polegares, entusiasmado. — "Bom trabalho!"

Saku resmungou para Hana: "Os seus shikigamis não são um pouco superprotetores demais?" — Ele estava perplexo.

"Hum. Eles têm uma tendência a exagerar."

Ela não podia negar a acusação.

◆

Na manhã seguinte, Hana acordou e se viu presa nos braços de Saku.

Aquilo era estranho. Ela se lembrava perfeitamente de Miyabi construindo uma parede de almofadas entre os dois na noite anterior. Quando ergueu a cabeça para olhar, percebeu que Saku tinha cruzado a barreira e invadido o seu futon.

Aoi deveria estar fazendo um escândalo diante de tamanha ousadia, mas não estava em lugar nenhum.

E não era só ele. Também não havia sinal de Miyabi ou Azuha.

Pelo menos um deles sempre estava ao seu lado quando algo acontecia.

O que estava havendo?

Por enquanto, Hana precisava se livrar do abraço de Saku. Ela se contorceu para um lado e para o outro, mas, quanto mais lutava, mais os braços dele se fechavam ao seu redor. Estava imobilizada.

Ela estava tão perto dele que conseguia ouvir os batimentos de seu coração. O corpo dele transmitia um calor intenso contra o dela. Hana ficou corou intensamente.

"S-Saku! Saku, acorda logo!" — ela gritou, dando um tapa nele.

Finalmente, Saku despertou devagar e abriu os olhos.

"Hum... Hana?" — Ele pronunciou o nome dela com a voz rouca de sono.

Hana já tinha criado certa resistência contra Saku, mas qualquer outra estudante comum teria um colapso ali mesmo. Ele exalava um charme absurdo.

"Me solta" — ela pediu, manhosa.

"Ah, tudo bem." — Ele disse isso, mas não se moveu.

"Por que estamos dormindo assim?" — ela perguntou. — "E até quando você planeja me segurar?"

"Gosto de te abraçar. É bom" — ele respondeu.

[Pipoc4h: Esse tá querendo progresso hein | Jeff: Direto e reto, foco no sucesso.]

Tinha como o rosto de Hana não queimar depois de ouvir algo daquela natureza?

"Já chega. Sai de cima de mim..."

Pelo menos me deixe ter uma manhã de paz, Hana pensou.

Por fim, Saku afrouxou o aperto. Hana estava prestes a se desvencilhar quando sentiu algo quente tocar sua bochecha.

"Hã?" — Ela se voltou para Saku, surpresa.

Ele sorria de forma travessa. — "Deveria ter sido nos lábios?"

"I-idiota!" — Hana agarrou o travesseiro e o arremessou contra Saku. — "Aoi! Aoi!"

Ela chamou por seu shikigami para mandar aquele sujeito atrevido para o espaço, mas Aoi, que normalmente respondia na mesma hora, não apareceu.

Desconfiada, Hana interrompeu o ataque a Saku e chamou: "Aoi? Miyabi? Azuha?"

Mas não foi apenas Aoi que havia sumido misteriosamente. Nem Miyabi e nem Azuha responderam.

"Por quê?" — ela murmurou.

Em contraste com a confusão de Hana, Saku estava perfeitamente calmo ao dizer: "Eles não vêm."

"Hã? Como assim?" — ela perguntou.

"Eu ergui uma barreira para mantê-los do lado de fora."

"O quê?!"

Agora que ele tinha explicado, ela percebeu que era verdade. Havia realmente um isolamento concentrado no quarto.

"Eles são um estorvo. Não consigo dormir em paz com eles por perto."

"Que desperdício inacreditável de energia..."

Manter uma barreira enquanto dormia era uma técnica de altíssimo nível. Apenas a elite dos praticantes conseguia fazer isso com sucesso.

Se lhe perguntassem, Hana responderia que sim, ela também seria capaz, mas não era algo que faria por livre e espontânea vontade.

Erguer uma barreira causava desgaste porque exigia um controle rigoroso. Além do mais, no caso de Saku, ele já carregava o fardo de sustentar a proteção principal do pilar.

A barreira ao redor do quarto devia estar consumindo uma boa parcela de seu poder, mas o fato de ele não demonstrar nenhum sinal de cansaço era a prova de sua imensa força.

Apesar de tudo o que pudessem falar dele, no fim das contas, Saku era o líder do clã Ichinomiya e fazia jus ao seu papel como um dos guardiões do país.

"Você está cansado?" — Hana perguntou.

"Sim, estou. Eles passaram a noite inteira tentando quebrar a barreira" — Saku revelou.

"É a cara deles."

Dado o temperamento de Aoi, ele não teria poupado esforços contra o obstáculo que o separava de Hana. Sem dúvida, atacou a barreira com todas as forças.

"Desfaça isso" — Hana ordenou.

"Está bem."

No instante em que o isolamento sumiu, Aoi, Miyabi e Azuha se materializaram no aposento.

"Mestra!" — Aoi gritou.

"A senhora está bem, Mestra?!" — Miyabi quis saber.

"Tudo certo, Mestra?" — Azuha acrescentou.

Os três espíritos demonstraram alívio ao ver Hana sã e salva.

"Peço desculpas por ter saído do seu lado" — Miyabi disse. — "Aquele sujeito grosseiro não tentou nenhuma audácia com a senhora, tentou?"

"Quem você está chamando de grosseiro, hein?" — Saku rebateu.

Miyabi, focada apenas em Hana, ignorou a reclamação de Saku. Ela examinou Hana cuidadosamente de cima a baixo. — "Suas roupas estão em ordem. Que alívio."

"Isso não é garantia de que nada aconteceu" — Saku provocou, jogando lenha na fogueira de propósito. A personalidade dele era tão difícil quanto a de Hana.

Como esperado, a provocação despertou a fúria de Aoi e Miyabi.

"Ei, Mestra, posso acabar com ele? Tenho permissão, né?" — Aoi sacou a espada.

"Fique à vontade" — Miyabi consentiu, sem nem esperar pela resposta de Hana.

A situação ficou tensa, mas Saku não demonstrou o menor receio. Ele sorriu com audácia para Aoi. — "Tsubaki, o seu namorado veio te ver."

Mal as palavras saíram da boca de Saku, Tsubaki surgiu, usando seu uniforme de empregada cheio de babados como de costume.

Uma expressão de incerteza cruzou o rosto de Aoi.

"Nossa, mentira! Ver o meu queridinho logo de manhã cedo... Estou no céu!" — Tsubaki imediatamente grudou em Aoi. Era impossível separá-los agora. Estavam colados como se tivessem usado supercola.

"P-para com isso" — Aoi reclamou com Tsubaki. Depois, gritou para Saku: "Isso foi golpe baixo!"

Aoi e Tsubaki tinham o mesmo nível de poder, segundo os cálculos de Hana, então ele não conseguiria se livrar dela facilmente como fazia com as sombras menores. Na realidade, Aoi não fazia a menor ideia de como lidar com ela.

E desde quando ele tinha sido promovido a "queridinho"?

"Querido, vamos sair juntos na próxima? Só eu e você, tá?" — Tsubaki pediu.

"Nem pensar!"

"Não aceito não como resposta. Já decidi tudo. E deixa que eu escolho a sua roupa." — Ela fez biquinho e deu um beijo estalado na bochecha dele.

Aoi soltou um grito desesperado e desapareceu.

"Puxa, ele é tão tímido" — Tsubaki comentou, corando. A positividade dela era impressionante para tirar uma conclusão dessas da reação de Aoi. Estava mais do que claro que ele tinha odiado.

Com o incômodo resolvido, Saku se espreguiçou e levantou-se calmamente. — "Vá se trocar, Hana. Depois vamos tomar o café da manhã."

"Juntos?" — Hana perguntou.

Saku vinha enfrentando uma rotina tão cheia que ela raramente o tinha visto desde que se mudara para a residência Ichinomiya. Naturalmente, vinha fazendo as refeições sozinha em seu quarto.

"As coisas acalmaram por enquanto. De agora em diante, vou ficar mais com você."

"O meu mestre adorado foi falar com todos aqueles arrogantes das famílias secundárias para convencê-los a te dar uma chance, sabe? É por isso que ele não parava em casa" — Tsubaki explicou.

Os olhos de Hana se arregalaram. — "Ele fez isso?"

Saku deu um peteleco na testa de Tsubaki. — "Não fale o que não deve."

"Mas é a verdade!" — Com esse último protesto, ela sumiu.

"Ande logo com isso" — Saku disse a Hana antes de sair ele mesmo do quarto.

Hana conseguiu notar um vislumbre de timidez na expressão dele antes de ele sair. Ver que ele estava sem jeito a deixou inquieta também.

"Mestra..." — Miyabi não agia como de costume. Parecia desamparada, como uma criança perdida que fora esquecida pelos pais.

Hana percebeu o que estava afligindo a entidade. — "Vai ficar tudo bem" — assegurou ao shikigami. — "O Saku tem uma língua afiada, mas é uma boa pessoa no fundo. Ele tem agido com sinceridade comigo esse tempo todo."

"A senhora ama aquele homem, Mestra?" — Miyabi perguntou.

"Quem sabe? Acabei de conhecê-lo. Mas, mesmo se eu viesse a me apaixonar por alguém, nunca usaria isso como motivo para abandonar você e os outros. E jamais ficaria com alguém que ousasse me pedir para deixá-los."

"Mestra..."

Hana acariciou a cabeça de Miyabi com carinho.

Visualmente, Miyabi parecia ser mais velha, mas, na realidade, ela e Aoi tinham sido criados há apenas alguns anos. Se fossem humanos, estariam justamente na idade em que figuras de amparo são vitais. Além disso, devido às condições de Hana, os dois não interagiam com outras pessoas, então Hana representava o mundo inteiro para eles.

Bem, isso não era diferente da relação entre a maioria dos shikigamis e seus mestres, mas, como as entidades humanas eram dotadas de alta inteligência, experimentavam uma riqueza de emoções igual às pessoas. Em comparação, como uma borboleta, o humor de Azuha variava muito pouco.

Era justamente por possuir uma gama tão ampla de sentimentos que Miyabi também conhecia o medo.

Tinha medo de que Hana fosse embora. Medo de que Hana não precisasse mais dela.

O receio de Miyabi lembrava Hana, de certa forma, de Hazuki.

"Não há motivo para preocupação" — Hana a confortou. — "O nosso casamento não passa de um contrato. Assim que terminar, a nossa relação também chega ao fim. Isso é apenas temporário."

"...Espero que sim" — Miyabi murmurou.

"O que disse?" — Hana perguntou.

"Não, não é nada."

Hana pareceu não ter escutado o sussurro de Miyabi, o que no fim das contas talvez tenha sido o melhor.

Apenas Miyabi tinha percebido que Hana teria de enfrentar essa questão mais cedo ou mais tarde, quisesse ela ou não.

Hana tirou o pijama e saiu do quarto, encontrando Saku já à sua espera no corredor.

"Obrigada por esperar" — disse ela.

"Sem problemas."

Quando ela mencionou a Saku que vinha pedindo aos funcionários para trazerem suas refeições ao quarto desde que se mudara, ele fechou a cara, como se tivesse morido algo amargo.

Aparentemente, havia uma sala reservada especialmente para as refeições onde cada membro da família comia, por uma regra implícita.

Resumindo a história, o fato de Hana comer sozinha em seu próprio aposento significava que ela não era aceita nem tratada como parte da família.

Como sempre comia sozinha na casa dos Ichise, não tinha pensado nada a respeito, mas, agora que Saku mencionava, era estranho comer afastada da família com quem convivia.

A família de Hana era uma anomalia, como sempre.

Saku pediu desculpas pelo tratamento, mas, para ser sincera, Hana não tinha se importado. Não se sentia à vontade com a ideia de comer junto com a mãe de Saku.

Porém, como ele já havia avisado os funcionários antes, de agora em diante ela certamente teria de fazer as refeições na sala de jantar.

Sempre que Hana pensava na mãe de Saku, sua reação imediata era não obrigada; preferia a própria companhia.

Os dois entraram na sala de jantar, um espaço amplo do tamanho de pelo menos vinte tatames. A mãe de Saku já estava sentada diante de uma mesa baixa.

"Bom dia, Mãe" — Saku cumprimentou.

"Bom dia" — ela respondeu. Não dirigiu a palavra a Hana e nem sequer olhou na direção dela.

Hana recusou-se a deixar que a atitude da mulher a afetasse e disse: "Bom dia."

A mãe de Saku lançou um olhar gélido para Hana. — "Ah? Você ainda está aqui?" — disparou um ataque contra Hana logo de início.

Hana forçou um sorriso no rosto.

A mãe de Saku continuou: "Você tem muita audácia de mostrar o rosto aqui. O que os Ichise ensinam aos filhos, eu me pergunto? A irmã mais velha ao menos seria mais educada..." — Ela soltou um suspiro desagradável.

Hana sabia que isso aconteceria. Era exatamente por esse motivo que queria evitar um embate com a mãe de Saku.

Desejava tanto recuar para a segurança de seu próprio quarto...

Mas não podia fugir na frente de Saku.

Em um futuro próximo, estaria vivendo naquela casa.

"Hana, venha sentar do meu lado" — Saku chamou. O lugar que ele indicou tinha uma posição de maior destaque do que o ocupado por sua mãe.

Hana olhou de relance para a mãe dele e recuou diante da hostilidade que viu. Hesitou, mas Saku pegou sua mão e a puxou para sentar ao lado dele.

Bem naquele momento, um jovem por volta da idade de Hana entrou no recinto. Ele tinha cabelos castanhos cheios de cachos — tingidos e com permanente, sem dúvida — que combinavam bem com seu rosto jovem e delicado e seus olhos amendoados. Ele tinha traços finos e era mais baixo que Saku, mas ainda guardava semelhança com o irmão mais velho de alguma forma sutil.

Quando o recém-chegado viu Hana sentada ao lado de Saku, lançou-lhe um olhar furioso. — "O que ela pensa que está fazendo aqui?" — exigiu saber com a voz baixa e ameaçadora. A indignação era visível em sua postura.

Quem é ele?, Hana se perguntou.

Antes que ela questionasse em voz alta, Saku os apresentou. — "Hana, este é o meu irmão mais novo, Nozomu. Ele está no terceiro ano do Ensino Médio no Colégio Obsidiana, igual a você."

"Não nos compare!" — Nozomu gritou em resposta. — "Uma incompetente como ela pode muito bem viver e morrer na Classe C. Nós pertencemos a dois mundos completamente diferentes!"

Nossa, ele me odeia, Hana pensou com distanciamento. Para ela, as opiniões dele não tinham relevância nenhuma.

Ela já esperava a desaprovação daquela dupla de mãe e filho, visto que não compareceram ao casamento. No entanto, ainda assim era desgastante enfrentar uma hostilidade tão direta.

"Nozomu, a Hana é a minha esposa, e eu sou o líder deste clã. Você vai falar com ela com respeito. O mesmo vale para a senhora, mãe" — Saku declarou.

Era um verdadeiro alívio ter Saku como um aliado firme ao seu lado.

"Não aceito isso! O que você estava pensando, irmão, trazer essa inútil para a nossa família? Hazuki era uma candidata infinitamente mais adequada! Por que não a escolheu no lugar dela?" — Nozomu vociferou.

A familiaridade com que Nozomu deixou escapar o nome de Hazuki sugeria que os dois se conheciam.

Na verdade, Saku tinha dito que Nozomu era do mesmo ano no Colégio Obsidiana, então era possível que fossem colegas de classe na Turma A.

"Porque Hana é melhor do que a irmã mais velha dela," — Saku respondeu, simples assim.

"E eu estou te perguntando por quê!"

"A irmã é fraca. Ela não tem o que é preciso para ser a matriarca do clã Ichinomiya."

"Essa aqui é infinitamente pior!"

Aí Nozomu mudou de alvo e jogou um olhar sujo para Hana.

"Ei, você. Como é que você seduziu meu irmão? Com o seu corpo?" — ele disse com escárnio. — "Que conveniente ser mulher, né? Com todos esses truquezinhos."

"Nozomu!" — Saku repreendeu, mas Nozomu não voltou atrás no que havia dito.

Azuha saiu voando do seu lugar costumeiro no cabelo de Hana para encarar Nozomu, incapaz de perdoá-lo pelo que tinha dito.

Nozomu deu um tapa no ar na direção de Azuha com irritação. — "Que inútil. Pra pensar que você só consegue invocar um inseto de merdal! Suma daqui logo!"

Hana vinha se mantendo calma até então, mas não conseguiu mais se conter — ela se jogou para frente, agarrou Nozomu pela gola e o arrastou até o corredor.

"Espera um pouco," — disse Saku, seguindo os dois em pânico.

"Me larga!" — Nozomu bateu na mão de Hana.

Hana tirou uma meia e jogou na cara de Nozomu. A meia voou certinha, como uma flecha. Acertou a bochecha dele em cheio e caiu no chão com um baque.

O corredor ficou em silêncio.

Então Nozomu voltou a si e berrou: "O que diabos você acha que está fazendo?!"

Hana estufou o peito. — "Estou te desafiando para um duelo." — Ela tirou a outra meia e jogou em Nozomu também, mas dessa vez ele desviou.

[Pipoc4h: Duelo? Eu inicio um jogando minha meia no meu adversário kkkkk]

"Era pra jogar uma luva. Uma luva," — disse Saku, servindo de alívio cômico naquele clima pesado. Ele tinha se esquecido da própria raiva diante das atitudes de Hana.

"Eu não tinha luva, então tive que me virar com uma meia, que já é mais do que suficiente para um pirralho mimado como ele."

"O-o que você chamou de mim?!" disse Nozomu.

"Pirralho! Um adulto-criança que só sabe dar chilique e julgar os outros pela própria régua torta," — Hana disse sem piedade. — "Saku enxergou o camuflado de Azuha na hora, mas você não percebeu nada. Isso é prova de quão fraco você é."

"Que diabos isso quer dizer?!"

"Eu te mostro. Vamos resolver isso lá fora." — Hana se virou, desviando o olhar de Nozomu para Saku, que estava atrás deles. Ele parecia estar se divertindo à beça. — "Assim que eu revelar meu poder, você cuida das consequências pra mim, né, Saku?"

"Pode deixar. Vai em frente," — ele respondeu.

"Entendido. Vou te matar," — ela disse para Nozomu. — "Você vai ter bastante tempo pra se arrepender no outro mundo."

Ela bateu um punho na palma da outra mão, ardendo de determinação. O olhar estava firme como uma pedra.

Ela já tinha aguentado chatice suficiente de Nozomu. Ele ainda teve o descaramento de insultar Azuha, que era incrivelmente preciosa para ela. Ela não podia deixar isso passar.

"…Pelo menos deixe-o meio vivo por mim. Ele é meu irmãozinho," — disse Saku.

"Não quero," — Hana resmungou.

"Não me importa. Por favor."

Hana ficou decepcionada, mas concordou a contragosto.

A essa altura, Nozomu já estava tremendo de raiva. — "Para de falar asneira. Aceito o desafio, mas se você perder, vai embora dessa casa."

"Tudo bem. Em troca, se você perder, vai me chamar de Honrada Irmã," — Hana retrucou.

"Como se eu fosse perder!" — Nozomu berrou.

Com as negociações encerradas, os dois foram para o jardim.

A notícia do duelo se espalhou como rastilho de pólvora pela casa. Até os empregados correram para fora assistir.

Será que eles não têm tempo livre demais?, Hana pensou, mas isso funcionava a seu favor. Quanto maior a plateia, melhor para a sua estreia. Os espectadores eram todas testemunhas valiosas do seu lado.

A mãe de Saku também estava na plateia. Sua expressão era fria. Ela claramente apostava na vitória de Nozomu.

Era nesse resultado que todos os empregados também apostavam.

Saku era a única exceção.

"Você escolhe as regras do duelo," — Nozomu ordenou. O irmão caçula era tão insolente quanto o mais velho.

Hana sorriu de canto. — "Azuha, vem cá," — ela comandou, estendendo o indicador à sua frente.

Azuha esvoaçou até o dedo de Hana.

"Você também tem um shikigami, né?" — Hana perguntou.

"Claro que sim. Guren!" — Um falcão apareceu um instante depois que Nozomu deu a ordem e pousou no seu braço estendido.

"Então vamos colocar nossos shikigami para lutar um contra o outro. Alguma objeção?"

"Você está falando sério?" — Ele pareceu não acreditar no que estava ouvindo.

Fazia sentido.

Para todos os presentes, Hana estava propondo lutar contra Nozomu com uma simples borboleta, o mais fraco de todos os shikigami.

Falcões como Guren não eram tão raros quanto shikigami humanos, mas, como era de se esperar do irmão mais novo de Saku, o shikigami dele era visivelmente mais forte do que o da maioria dos praticantes.

Mesmo assim, não chegava aos pés de Azuha em plena força.

"Você não precisa mais se segurar, Azuha. Pode falar na frente de todo mundo também," — disse Hana.

"De verdade?" — Azuha perguntou, e Hana assentiu.

Azuha finalmente soltou a força que vinha escondendo o tempo todo, suas lindas asas arco-íris ficando cada vez mais brilhantes e vívidas.

"O quê–…?" — Nozomu gaguejou, finalmente percebendo a extensão do verdadeiro poder de Azuha.

Sua expressão era de puro choque. A mãe de Saku parecia igualmente boquiaberta.

"Podemos começar? Vou fazer você se arrepender de ter chamado Azuha de inseto de merda." — Hana sorriu de orelha a orelha, parecendo radiante de alegria.

Nozomu recompôs a expressão após a surpresa inicial. Seu rosto se fechou em irritação. — "Inseto é inseto. Não vou me deixar enganar por posturinha boba. Vai, Guren!"

Seu falcão abriu as asas largas em resposta ao comando e alçou voo. Mirou em Azuha, que tinha saído voando do dedo de Hana. Mergulhou repetidas vezes em direção a Azuha, mas Azuha esquivava de cada ataque com a graça de uma dançarina.

"Depressa, termine isso Guren!"

Depois de Guren não ter conseguido derrubar Azuha em todo esse tempo, a irritação de Nozomu chegou ao limite. Guren sentia a raiva do seu mestre, e seus movimentos ficaram descuidados enquanto se apressava para obedecer.

Hana viu sua chance. — "Azuha, encante," — ela ordenou.

Azuha circulou ao redor de Guren, espalhando uma leve névoa de escamas brilhantes que cegou o falcão.

Qual foi o efeito? Uma mudança tomou conta de Guren. Os olhos dele tinham estado fixos em Azuha o tempo todo, mas agora ele torcia a cabeça freneticamente. Estava procurando por Azuha — mas Azuha estava voando bem ao seu lado.

"O que você está fazendo, Guren?!" — Nozomu exigiu.

"Azuha, finalize," — disse Hana.

Azuha voou bem acima de Guren e dispersou uma fumaça densa em seu rastro. Envolto pela névoa, Guren vacilou. O falcão estava claramente sofrendo. Seus movimentos ficaram espasmódicos, até que ele não conseguiu mais voar e despencou no chão.

"Guren?!" — exclamou Nozomu.

"A vitória é minha," — disse Hana.

A plateia no jardim tinha acabado de presenciar algo inimaginável.

O shikigami de um filho da casa principal Ichinomiya tinha perdido sem dar um único arranhão a um shikigami borboleta, que todos haviam desprezado.

Nozomu estava atordoado. Não conseguia acreditar nos próprios olhos. Achava que devia estar sonhando, mas não havia dúvida quanto ao resultado: a inútil Hana e o seu shikigami eram as vencedoras do duelo.

Além disso, qualquer um que valesse alguma coisa podia agora sentir o poder irradiando de Azuha.

A cena que se desenrolou diante deles não era nem ilusão nem sonho.

Mas Nozomu ainda não havia aceitado a realidade da sua derrota. — "Não aceito isso. Impossível. Uma vagabunda como você não é digna de ser esposa do meu irmão."

"A realidade é dura, sabia? Desiste. Quero ouvir você me chamar de Honrada Irmã," — Hana disse com uma risada de escárnio.

Nozomu a fuzilou com o olhar. — "Não tem a menor chance de eu considerar isso vindo de uma garota sem nenhum apelo sexual e que é plana como uma tábua, sua imbecil!"

[Pipoc4h: Esse cunhado é um mestre em pisar em minas terrestres]

O silêncio tomou conta do jardim.

A expressão de Hana ficou sombria por uma fração de segundo — mas então mudou completamente.

Uma fúria ardeu em seus olhos. Ela concentrou seu poder na mão e o comprimiu numa bola de energia densa. Não era visível a olho nu, mas qualquer praticante conseguia senti-la. Sem aviso, ela arremessou a energia que havia concentrado em Nozomu. — "Morra!!"

"Não mata ele! Não mata ele!" — um Saku desesperado implorou.

A bola de energia colidiu com Nozomu de frente e o lançou pelos ares.

"Guh–" — Ele arfou. O corpo bateu forte no chão e ele parou de se mover.

Saku e sua mãe empalideceram.

"Nozomu!" — a mãe de Saku guinchou, correndo em direção ao corpo caído de Nozomu. Ela verificou seu estado, e parecia que ele tinha apenas perdido a consciência.

Hana, por outro lado, estava completamente revigorada. Tinha se vingado e estava se sentindo ótima.

Ela ainda estava se deliciando quando Saku lhe deu um cascudo no topo da cabeça.

"Ai! Por que você fez isso, Saku?" — ela reclamou.

"Você foi longe demais," — ele disse.

"Não foi você que disse que eu podia deixá-lo meio-vivo?"

"Ahh, é verdade." — Ele fez uma cara de quem estava engolindo o próprio veneno.

Mas graças à façanha de Hana, os empregados a olhavam com outros olhos agora.

◆

"Que saco, isso de novo," — o policial resmungou. Ele e sua parceira tinham ido até lá por causa de uma denúncia de um morador do bairro, mas ele não queria ter que encarar a cena à sua frente.

"Quantas vezes já foram?" — sua parceira perguntou, franzindo a testa. Ela juntou as mãos em uma prece solene.

Ultimamente, uma série de mortes de animais tinha assolado o bairro, e o culpado ainda estava solto. Quem quer que estivesse por trás dessa crueldade visava locais isolados, então a polícia tinha dificuldade em rastreá-lo.

Dessa vez também, os corpos mutilados dos cachorros foram encontrados num parquinho pequeno e pouco frequentado.

"Eu amo cachorros. Simplesmente não consigo entender como alguém é capaz de fazer uma coisa dessas," — disse o primeiro policial.

"Dá tanta pena. Pelo que parece, alguns foram roubados direto dos próprios quintais, onde estavam presos na coleira. A gente pode até ter recebido cartazes de cachorros desaparecidos deles," — completou a segunda.

O culpado estava invadindo casas deliberadamente para roubar os animais de estimação das pessoas.

Outros animais além de cachorros também tinham sido encontrados mortos, mas eles ainda não tinham conseguido provar conclusivamente que todos os crimes eram obra da mesma pessoa.

"Tomara que a gente prenda esse safado logo."

"Com certeza."

Os policiais terminaram de fazer o levantamento da cena.

Assim que eles foram embora do local do crime, uma estranha sombra negra piscou para a existência.

Ela sussurrou: "Pobres criancinhas. Venham até mim…"

◆

Hana tinha perdido o café da manhã por causa da confusão com Nozomu. Na hora do almoço, ela estava sentada com Saku na sala de jantar.

A mãe de Saku entrou, mas o moleque tagarela não estava com ela.

"E o Nozomu?" — Saku perguntou.

"Ele está consciente, mas disse que não precisava comer," — ela respondeu.

"Entendi."

Ouvindo a conversa entre mãe e filho, Hana revirou os olhos e murmurou: "Ele deve estar emburrado."

Saku deu um leve cascudo nela. — "Não fala isso na frente do Nozomu."

"Eu sei, eu sei," — disse Hana. — "Tem que tratar bebezinho com carinho e cuidado, né?"

"É exatamente esse tipo de coisa que estou falando!" — Saku foi para dar outro cascudo, mas dessa vez ela desviou.

Logo, uma procissão de empregados entrou trazendo as refeições.

Towa estava entre eles. Ela sorria como sempre enquanto colocava uma tigela na frente de Hana. — "Senhorita Hana, ouvi dizer que a senhora teve uma manhã bastante agitada. É uma pena eu não ter podido assistir à festa."

"Ah, não se preocupe. Eu te mostro o vídeo depois," — disse Hana.

"Ei! Quando você gravou um vídeo?" — Saku perguntou, franzindo o bico. Não era o tipo de comentário que ele podia ignorar.

"Miyabi filmou tudo com o meu celular pra gente assistir e dar risada depois."

"Eu te imploro, por favor, coloca uma rédea nos seus shikigami."

"Não quero." — Hana derrubou o pedido com um sorriso radiante.

Saku afundou a cabeça nas mãos em desespero. — "Todo mundo estava certo afinal? Eu cometi um erro me casando com você?"

"Já é tarde demais para arrependimento. Miyabi, me mostra o vídeo!"

Essas últimas palavras Hana dirigiu ao vazio. De repente, Miyabi se materializou no espaço e colocou o celular ao lado da mão de Hana. — "Aqui está, Mestra."

Hana e Saku permaneceram calmos, mas um barulho e alvoroço irromperam ao redor deles. Compreensível. Surpresa era a reação normal quando uma pessoa aparecia do nada.

E não era o shikigami de Saku que havia se materializado — era uma estranha que nenhum deles jamais tinha visto.

"Er, com licença, Senhorita Hana. Quem seria essa?" — Towa perguntou hesitante, lançando olhares de canto para Miyabi.

"Este é o meu shikigami, Miyabi," — Hana apresentou.

"É um prazer conhecê-los," — disse Miyabi. Ela sentou, dobrando as pernas elegantemente sob o corpo numa postura seiza perfeita, e se inclinou em uma reverência para Towa. Cada movimento dela era limpo e bonito.

"Ora, ora, ora. Meu nome é Towa." — Towa inclinou a cabeça em resposta.

Vendo as duas com as cabeças abaixadas em deferência uma à outra, qualquer um poderia ter pensado que Miyabi havia chegado para ser noiva.

"Você tem um shikigami humano?" — uma voz disse.

A princípio, Hana não sabia quem tinha perguntado, então demorou a reagir. Logo identificou a mãe de Saku como a responsável pela pergunta e se apressou a responder. — "Sim, correto."

"E ela não é a única." — As palavras acompanharam a aparição de Aoi. O olhar da mãe de Saku se fixou nele.

"Este é Aoi. Azuha, Miyabi e Aoi. São meus três shikigami," — Hana explicou.

Os empregados tinham parado com o que estavam fazendo em favor de sussurros entre si. A mãe de Saku ficou sem palavras.

"Três deles…"

"E dois possuem a forma humana…"

Todos estavam devidamente chocados. Ninguém poderia ter imaginado que Hana tinha tanto talento como praticante.

"Se você tem tanto poder assim, por que não disse nada?" — a mãe de Saku finalmente falou. — "Todas as comparações com a sua irmã, toda a zombaria por você ser fraca, tudo isso teria parado se você tivesse mostrado seus shikigami antes. Você poderia ter mudado a opinião de todos num piscar de olhos."

"Ah, era chato demais para se dar ao trabalho," — Hana respondeu.

"Ch-chato…?" — disse a mãe de Saku, novamente atordoada.

Mas Hana queria que a mãe de Saku entendesse que existiam pessoas como Hana também, pessoas que pensavam do mesmo jeito que ela.

"Obviamente eu sabia que as pessoas que me descartavam como inútil, que me chamavam de resto da Hazuki, iam mudar de tom na hora e me encher de elogios no momento em que eu revelasse minha verdadeira força. Mas esse tipo de elogio não me faria feliz. Fora que eu seria obrigada a atuar como praticante, o que seria uma trabalheira enorme."

"Então por que você revelou seus poderes agora?"

"Porque agora eu tenho o Saku. Ele prometeu que cuidaria de qualquer problema que surgisse quando eu revelasse meu segredo. Caso contrário, eu teria ficado feliz em continuar sendo a irmãzinha inútil."

"…Entendo."

A essa altura, Hana estava morrendo de fome, já que não havia comido café da manhã. Ela queria se jogar na refeição à sua frente, mas o clima pesado deixava o ambiente constrangedor para comer.

Saku sorriu com malícia para a mãe. — "A senhora ainda tem mais alguma objeção ao meu casamento com Hana, mãe?"

A mãe engoliu as palavras na garganta. Ela desviou o olhar, emburrada. — "…Assim de cara, não."

Era a primeira vez que a mãe de Saku reconhecia Hana.

Saku ficou radiante e despenteou o cabelo de Hana animadamente.

A mãe observou a cena de perto e murmurou: "Acho que é a primeira vez que vejo essa expressão no seu rosto, Saku."

"O que quer dizer?" — ele perguntou.

"Você é tão expressivo na frente dessa moça. Mesmo desde criança, você sempre foi maduro. Não importa o que acontecesse, seu rosto era sempre fechado como uma pedra." — Ela suspirou baixinho. — "Ela mudou você."

Saku abriu a boca para responder, mas um ronco alto o interrompeu. Todo mundo olhou para o estômago de Hana ao mesmo tempo.

"…Posso comer agora?" — ela perguntou com uma risada constrangida para esconder sua mortificação. Ela amaldiçoou o próprio estômago por não saber ler a situação.

A gargalhada de Towa ecoou pelo salão, quebrando o clima sério. — "Hoh-hoh-hoh-hoh. Parece que o estômago da Senhorita Hana chegou ao seu limite. Pode sim, pode sim. Mestre, Matriarca, vão servindo também."

"Towa, não precisa mais me chamar de Matriarca," — disse a mãe de Saku. — "Guarde o título para a esposa do Saku, Hana."

Towa sorriu gentilmente para a mãe de Saku. — "Compreendido, Senhorita Mio."

Era a primeira vez que Hana ouvia o nome da mãe de Saku.

Naquela noite, Hana e Saku estavam em seu quarto — envoltos mais uma vez na barreira que impedia os shikigami de entrar — quando Saku se desculpou do nada. — "Sinto muito pelo comportamento do Nozomu."

"Crianças como ele vivem dando chilique. Não me incomoda," — disse Hana.

"Chilique, hein?" —- Saku riu. — "O que você achou das habilidades do Nozomu?"

"Não chega nem perto de você."

Ela se sentiu um pouco culpada comparando Nozomu a Saku, mas era a única forma de avaliá-lo.

"É, exatamente por isso ninguém contestou eu me tornar o chefe do clã," — Saku disse.

Era prova da grande diferença de habilidade entre os dois irmãos. Nozomu podia ficar mais forte no futuro, mas dificilmente chegaria ao nível de Saku. Hana o tinha conhecido só naquela manhã, mas já tinha sentido seus limites.

"Isso o torna ainda mais digno de pena," — disse Hana, mas Saku não pareceu entender. — "Cansa mentalmente ficar sendo comparado ao irmão mais velho excepcional o tempo todo. Embora, na sua situação, tenho certeza que você ainda teria saído por cima cheio de confiança."

"Com certeza."

"A atitude insolente dele com os outros pode ser só uma fachada que ele desesperadamente mantém."

"Você realmente pensou muito sobre isso."

"Eu fui comparada com a Hazuki a vida inteira."

Hana tinha desejado o apoio dos pais, mas em vez disso, eles a colocavam contra Hazuki constantemente, culpando-a pela própria impotência toda vez que podiam.

As feridas no coração por essa traição não iam desaparecer tão cedo.

Quando pensava que Nozomu podia ter passado por uma experiência parecida, ela não conseguia evitar uma pontada de compaixão.

"Por que todo mundo sente essa necessidade de comparar as pessoas…?" — ela perguntou.

Hana era Hana. Hazuki era Hazuki. Mas ninguém pensava assim.

Hana só queria ser vista pelo que era — o mais simples e ordinário dos pedidos — mas nem isso lhe era permitido.

Bom, não adianta me obcecar com isso agora, Hana estava pensando, quando de repente, sem aviso, Saku a abraçou por trás.

"O que foi?" — ela perguntou.

"Nada. Você só pareceu solitária," — ele respondeu.

"Que é isso. Tem certeza que não precisa ir ao oftalmologista?"

"Pode ser isso…"

Hana resmungou, mas não tentou escapar do abraço de Saku.

Pelo contrário. Ela se aconchegou nele, entregando o próprio peso.

No silêncio que os envolvia, Hana se deixou acalmar pelo calor que irradiava do corpo de Saku.

[Pipoc4h: Fofo. O romance tá progredindo. | Jeff: Melhor parte!]

Na noite seguinte, Saku levou Hana a um local misterioso bem longe da casa principal. Ainda estavam nos terrenos Ichinomiya, mas tinham caminhado uma distância considerável. Ela se lembrou mais uma vez do tamanho monumental da residência.

Os dois pararam diante de uma pedra enorme, mais alta do que o próprio Saku.

Hana puxou a manga de Saku. — "Ei. Onde a gente está? É de noite. Você nem me deixou trazer os shikigamis."

"Agora que temos a bênção de minha mãe, está na hora de você cumprir o seu dever," — Saku disse.

"...Que era mesmo o quê?"

Saku deu um peteleco na testa dela antes que ela pudesse sequer piscar.

"Ai!" — ela reclamou.

"Você veio para ajudar a consertar a barreira."

"Ah, claro, era isso."

Não que Hana tivesse esquecido, exatamente, mas como não tocavam no assunto da barreira há algum tempo, ela tinha guardado aquela informação em um canto da mente.

"Este lugar é de conhecimento exclusivo do líder do clã."

Hana olhou mais de perto ao redor e percebeu que o que antes pensava ser apenas uma rocha enorme eram, na verdade, cinco pedras posicionadas em círculo a intervalos regulares.

Saku colocou a palma da mão em uma delas, e a rocha começou a brilhar com uma luz azul. Uma linha luminosa disparou da pedra em direção às outras quatro, desenhando uma estrela de cinco pontas. Quando a quinta e última rocha foi conectada, o centro do círculo afundou devagar no chão, revelando uma escadaria que descia para a escuridão.

Os olhos de Hana se arregalaram de surpresa.

Saku estendeu a mão para ela. — "Pegue a minha mão e não solte. Com exceção do líder do clã, qualquer outra pessoa será repelida. Por isso você precisa segurar firme em mim."

"T-tá bom." — Hana segurou a mão de Saku, apertando-a com força.

Eles desceram juntos em direção à penumbra.

A escadaria era iluminada por um brilho azul místico que não vinha de fogo nem de eletricidade, mas permitia enxergar o caminho. Os degraus eram estreitos, e os ombros de Hana e Saku se esbarravam enquanto eles desciam lado a lado.

Após caminharem por um breve momento, os degraus terminaram. Eles saíram em um espaço aberto, e no lado oposto ficava a entrada de um grande túnel.

Sem hesitar, Saku guiou Hana pela mão. Eles atravessaram o túnel, que dava em outra câmara. Bem no meio dela, erguia-se um pilar feito de um cristal transparente, parecido com quartzo.

O cristal era a fonte daquela luz azul. A energia que emanava dele era intensa o suficiente para arrepiar os cabelos de Hana. Ao redor do pilar, havia uma barreira protetora que qualquer um perceberia, logo de cara, ser extremamente poderosa. Ela fora erguida ali para proteger o cristal.

"Saku, isso por acaso é...?" — Hana perguntou.

"Este é um dos cinco pilares de cristal que sustentam o nosso país. O clã Ichinomiya tem a tarefa de protegê-lo desde muito, muito tempo atrás."

Um cristal que carregava o destino do país.

Qualquer criança nascida em uma família de praticantes ouvia essa história assim que tinha idade suficiente para compreender o mundo. O conto era repetido tantas vezes que todos ficavam cansados de escutar.

Os pilares eram os alvos principais das sombras, e o trabalho de um praticante era proteger esses cristais fundamentais a todo custo.

Embora a história fosse um clichê entre eles, era raro ouvir o relato de alguém que realmente tivesse visto um dos pilares de perto. Suas localizações eram segredos rigidamente guardados da grande maioria dos praticantes.

"Quem diria que estava escondido bem debaixo da residência Ichinomiya esse tempo todo...?" — Mesmo com o pilar de cristal bem diante de seus olhos, Hana mal conseguia acreditar.

"Apenas o líder do clã e o parceiro que vai auxiliá-lo conhecem este lugar. As únicas pessoas que sabem disso além de mim são os meus pais. Você não deve contar a ninguém. É um segredo até para o Nozomu, meu próprio irmão."

Hana ficou chocada demais para falar, mas assentiu várias vezes. Agora ela entendia o motivo de terem deixado os shikigamis para trás. A localização do pilar devia ser mantida em segredo até para eles.

"Veja. Consegue notar? Há pontos na barreira onde ela está danificada." — Saku apontou para alguns lugares.

Quando Hana bateu o olho na barreira pela primeira vez, tinha ficado impressionada com a sua força, mas, olhando mais de perto, dava para ver que ela estava gasta e enfraquecida em alguns pontos, exatamente como Saku indicara.

"Sim" — disse ela.

"Na transição entre as gerações, quando o novo líder começa a injetar sua energia na barreira, ela sofre um desgaste como reação a uma força que não reconhece. Quando isso acontece, o poder do cristal vaza para o mundo exterior. As sombras inevitavelmente percebem a mudança e aproveitam a oportunidade para intensificar os ataques."

"Ahh–."

"O novo líder precisa preencher a barreira com o seu próprio poder o mais rápido possível para restaurá-la por completo."

"E para isso, a energia feminina yin é necessária, certo?"

"Exatamente."

Essa era a razão exata pela qual haviam se casado.

"O que eu preciso fazer?" — ela perguntou.

Saku deu um sorriso de canto um tanto sugestivo. Hana teve um mau pressentimento.

"A barreira é mantida pelo poder do líder do clã. Você não acha estranho que o apoio de uma segunda pessoa seja necessário?" — Saku questionou.

"Pensando bem, faz sentido."

Quando o chefe do clã mudava, a barreira ficava instável por causa do fluxo de uma energia nova. Então parecia uma contradição precisar de duas pessoas para fornecer as energias yin e yang para restaurar a proteção.

Logicamente, o poder de Hana, por ser diferente do de Saku, não deveria enfraquecer a barreira ainda mais?

"Uma segunda pessoa com uma energia diferente enfraqueceria ainda mais a barreira. No entanto, os meus antepassados encontraram uma solução para essa contradição. Eles descobriram uma forma de fundir as energias de duas pessoas."

"Como?"

"Para ser direto, nós temos que consumar o casamento."

"Con...!" — Hana ficou completamente vermelha diante da declaração ousada de Saku. Ela abriu e fechou a boca em silêncio, feito um peixe fora d'água. — "Não, não, não de jeito nenhum."

"Ao menos tente disfarçar um pouco o seu desgosto. Vai acabar magoando os meus sentimentos."

"Obviamente eu recuso!"

Os dois estavam casados apenas por conta de um contrato. A relação deles era bem diferente de um casamento por amor. Ela se recusava a se deitar com ele simplesmente para consertar uma barreira.

Hana deu um passo para trás, afastando-se de Saku, mas ele a segurou pela cintura com uma das mãos e a trouxe para perto. Sua outra mão foi até o rosto dela, e ele passou o polegar de leve por seus lábios.

"Eu não sou bom o suficiente para você?" — ele sussurrou.

"I-isso é..."

Hana ficou desarmada pelo olhar intenso e sério de Saku. Toda a sua postura firme desapareceu em um instante. Saku abraçou a garota confusa com força.

"S-S-S-Saku?!"

Seu coração batia a mil por hora. Ela não sabia como reagir.

O que eu faço? O que eu faço?, as perguntas rodavam em sua mente sem parar, até que ela percebeu que Saku estava tremendo contra o seu corpo. O motivo ficou claro imediatamente, e ela recuperou a calma no mesmo segundo.

"Saku, você está rindo, não está?!" — Hana exclamou.

Saku caiu na gargalhada, incapaz de se conter por mais tempo. — "Meu Deus, minha barriga tá doendo..." — Ele conseguiu dizer, entre risos.

"Espero que doa mais."

"Foi mal. Desculpe. Não fique brava."

"Se você vai pedir desculpas, pode pelo menos parar de rir primeiro?" — Hana lançou um olhar gélido para Saku, que ainda tremia de divertimento.

"Eu não esperava que a sua reação fosse tão exagerada" — disse Saku. — "Mas, pensando bem, eu também fui o seu primeiro beijo."

O rosto de Hana queimou de vergonha. Ela pisou no pé dele com força e o esmagou.

"Ei! Para com isso" — ele reclamou.

"A culpa é sua!"

Ela queria que Saku entendesse exatamente o tamanho do papelão que a fez passar. Ele deveria ser extremamente grato por ela estar descontando aquilo apenas com um pisão no pé.

"De qualquer forma, eu não menti" — Saku continuou. — "Antigamente, era assim que eles alimentavam a barreira com duas fontes conflitantes de energia. Ao unirem seus corpos, as energias do casal entravam em harmonia também."

"Você disse 'antigamente', então quer dizer que agora é diferente?"

"Sim. As técnicas de praticantes avançam dia após dia. Além disso, a pessoa que atua como apoio nem sempre é o cônjuge. Eu não te disse antes que irmãos também podem cumprir esse papel?"

"Ah, é verdade. Imagino que o método tradicional seria um problemão para dois irmãos."

"Precisamente."

Hana soltou um suspiro de alívio. Sentiu como se um enorme peso tivesse sido tirado de suas costas agora que tinha certeza de que não precisaria ir para a cama com Saku.

"Eu não sei bem como me sentir vendo você tão aliviada assim..."

Hana preferiu ignorar a expressão confusa de Saku. "Então, o que nós fazemos?" — perguntou em vez disso.

"Você já transferiu o seu poder para outra pessoa?" — ele quis saber.

"Quando as minhas habilidades despertaram, eu passei uma parte para a Azuha. Vai ser parecido?"

"Sim, essa é a ideia geral. Como você já tem experiência, deve ser tranquilo. Segure a minha mão e me envie a sua energia, da mesma forma que fez naquela época."

"Só isso?"

"Eu vou converter a sua energia na minha e transferi-la para a barreira. Você não precisa fazer mais nada."

"Entendi."

Saku segurou a mão de Hana. Com a mão livre, ele estendeu o braço e tocou a barreira de proteção. — "Pronto. Agora me envie o seu poder. Comece devagar."

"Tá."

Hana estava nervosa, mas, com cautela, começou a direcionar parte de seu poder para Saku. Ele deu um leve sobressalto no início, mas eles conseguiram estabelecer uma conexão firme.

Hana não fazia ideia de como Saku estava transformando a energia dela, mas parecia ser um processo bem desgastante para ele. Sua expressão estava totalmente contraída pelo esforço.

"Aumente um pouco o fluxo" — ele pediu.

"Tem certeza?"

"Sim."

Saku já parecia estar no seu limite, mas Hana obedeceu e enviou mais poder.

Pouco a pouco, a energia dela fluía para ele, que canalizava a força combinada de ambos direto para a barreira.

Quanto tempo havia se passado?

O suor escorria pelo rosto de Saku, a prova de quão exaustivo era aquele trabalho.

Hana não podia fazer nada além de continuar fornecendo sua energia a ele.

Mas logo ela começou a ver o resultado do esforço com os próprios olhos. No geral, a barreira ainda apresentava pontos fracos, mas estava visivelmente mais firme do que quando a vira pela primeira vez.

Seu rosto se iluminou de satisfação, mas ela permaneceu em silêncio.

Saku finalmente afastou a mão da barreira e desabou no chão.

Hana imediatamente recolheu seu poder, alarmada. — "Você está bem, Saku?"

"Sim... estou bem. Mais importante, e você? Deve ter gasto uma quantidade considerável de energia."

"Estou inteirassa." — Hana fez sinal de positivo com os dois polegares, esbanjando disposição.

"Você é ainda mais forte do que eu imaginava."

A surpresa dele diante da extensão do poder de Hana misturava-se à exaustão em seu rosto. Depois de descansar por um momento, ele conseguiu recuperar o fôlego.

"Tem certeza de que está tudo bem?" — ela perguntou de novo.

"Estou esgotado porque é a primeira vez. Converter a sua energia enquanto mantenho o foco na barreira cansa mais do que eu pensava, mas não vai ser um problema quando eu me acostumar. Quero fazer isso todo dia, se você estiver disposta."

"Combinado. Sem problemas."

Diferente de Hana, o rosto de Saku estava marcado pelo cansaço. Ele limpou o suor da testa.

Sentimentos confusos surgiram dentro dela enquanto o observava.

Embora Hana tivesse nascido em um ramo secundário do clã Ichinomiya, nunca teve contato com a família principal. Se seu caminho não tivesse cruzado com o de Saku no parque, ela não estaria ali, presenciando o esforço dele de perto hoje. Se não tivessem se conhecido, ela jamais imaginaria que Saku lutava tanto para proteger o país nos bastidores.

Saku ainda era jovem, mas carregava o destino da nação nos ombros.

Ele cumpria o seu dever sem dar uma única palavra de queixa a quem quer que fosse, apesar das amarras daquela responsabilidade.

Com esses pensamentos na cabeça, Hana estendeu a mão por instinto e acariciou os cabelos de Saku.

"O que você está fazendo?" — ele perguntou, com uma expressão desconfiada.

"Hum, um incentivo? Ou uma recompensa por um trabalho bem feito?"

"Você está afirmando ou me perguntando?"

"Sabe, vendo você agir assim, começo a sentir um pouco de vergonha de mim mesma" — ela admitiu.

"O que deu em você para falar isso do nada?" — ele perguntou, confuso. A confissão repentina o pegou de surpresa.

"Eu venho escondendo os meus poderes desde que eles despertaram, não é? Não queria me envolver com nada incômodo e não queria saber de praticantes. Até ignorava as sombras, desde que não me afetassem diretamente. Não que eu planeje mudar isso agora" — disse ela. — "Mas você, Saku, assumiu um fardo tão pesado na sua idade. Você se dedica por inteiro para proteger o país. Eu te respeito. De verdade."

Ela não tinha como ignorar a realidade de toda a responsabilidade que Saku carregava após observá-lo de perto.

"Você tem um forte senso de dever. Não é muito mais velho do que eu, mas tem tanta coisa sob a sua responsabilidade como líder do clã" — ela continuou. — "Fico preocupada com você. Se continuar pegando mais obrigações do que deve, uma hora vai acabar desabando. Ser responsável é uma qualidade admirável, mas você não precisa resolver tudo sozinho. Quero ajudar no que for possível, assim como hoje. Quero ajudar a carregar o seu fardo, nem que seja só para aliviar um pouco o peso... Nós somos, você sabe... um casal... Temporariamente, pelo menos."

Hana desviou o olhar, sem jeito por chamar Saku e ela de um casal.

"..." — Saku olhou para Hana com total espanto.

"Saku?" — Hana balançou a mão na frente do rosto dele, que parecia estático.

De repente, ele a segurou pela mão e a puxou contra o peito, envolvendo-a em um abraço.

"Ei... Saku?" — ela disse.

"Você é..."

"O quê? Saku? Alô. Tem alguém aí?"

Hana não conseguia ver que tipo de expressão Saku exibia enquanto estava presa naquele abraço, mas conseguia intuir seus sentimentos pela força com que ele a segurava. Ela não resistiu e apenas deixou que ele a mantivesse ali.

Depois de um tempo, ele a soltou. A expressão no rosto dele era mais serena e gentil do que ela jamais vira, e ela se viu incapaz de desviar o olhar.

"Você é uma boba" — ele disse, com a voz transbordando ternura.

Hana não soube o que responder.

"Você acabou de fechar a sua própria rota de fuga com as suas próprias mãos" — ele comentou.

"O que você quer dizer com isso?" — ela perguntou.

"Quero dizer que você deve se preparar."

[Pipoc4h: … Acho que não vai mais ser temporário esse casamento se depender do Saku]

Hana inclinou a cabeça, sem entender.

"Vamos para casa, Hana" — ele disse, com o tom de voz suave ao pronunciar o nome dela.

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Fim da leitura

Capítulo 4 concluído

Volume 1 – Capítulo 3