Noiva do Mestre de Barreiras — Capítulo 7: Volume 2 – Capítulo 1

Noiva do Mestre de Barreiras
Cap. 7
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Noiva do Mestre de Barreiras

Volume 2 – Capítulo 1

Capítulo 7

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Capítulo 1

A atmosfera na residência dos Ichise andava gélida ultimamente, desde o momento em que Hana, a filha mais nova da família, fora escolhida para se tornar a esposa do líder do clã Ichinomiya.

Durante a vida inteira, Hana havia sido comparada com sua brilhante irmã mais velha, Hazuki, e considerada inferior em tudo. Ela era vista apenas como o resto da irmã, alguém sem valor e inútil. No entanto, embora Hazuki tivesse carregado todo o peso e a responsabilidade das expectativas familiares, fora Hana quem deixou a irmã para trás e se tornou a matriarca do clã principal.

Os pais delas simplesmente não conseguiam acreditar naquilo. Em que momento da vida ela sequer havia conhecido o líder do clã? Eles alimentavam um profundo ressentimento contra Hana.

O que mais os irritava era o contínuo desprezo que a jovem demonstrava pela própria família.

Sendo a esposa do chefe do clã, ela certamente poderia conceder algum favorecimento aos seus parentes de sangue, mas, embora os Ichise tivessem criado a recém-casada, a posição deles entre as famílias ramos permanecia tão baixa quanto antes.

Os pais de Hana não suportavam aquela situação.

Sempre que tentavam ir até a propriedade Ichinomiya para se encontrar com ela, eram barrados logo na entrada.

Aparentemente, existiam restrições rígidas sobre quem tinha permissão para falar com Hana, tudo por ordens diretas do líder do clã, Saku Ichinomiya.

Eles eram os pais dela, mas não tinham conseguido dar uma única palavra quando o matrimônio foi decidido. Estavam furiosos com aquele tratamento frio, mas eram terminantemente ignorados.

"O que aconteceu com a carta que você enviou para a Hana, querido?" — a mãe de Hana perguntou certo dia.

"Foi devolvida com o envelope lacrado" — o pai respondeu.

"Meu Deus! Como ela tem coragem?"

"Que droga! Aquela criança ingrata! Por que ela se tornou assim? A Hazuki faz tudo o que mandamos. Ela é uma filha tão obediente. Como podem ser gêmeas? A Hazuki é, sem sombra de dúvidas, a melhor opção para o líder do clã, e mesmo assim ele ignorou o banquete diante dos olhos e escolheu as sobras!"

Eram palavras horríveis vindas de pessoas que nunca haviam dedicado um minuto de atenção a Hana.

Se a tivessem criado com amor e carinho, ela teria crescido obedecendo aos pais e retribuiria a atenção com afeto, obviamente. Ela teria garantido o sustento de sua família e elevado o status deles.

Mas a realidade não fora aquela. Seus pais só tinham olhos para Hazuki e não se importavam nem um pouco com Hana, que passou cada dia de sua vida sendo desprezada e ridicularizada.

"Se ao menos vocês tivessem mimado mais a sua filha caçula" — desdenhavam as pessoas de famílias de nível igualmente baixo, disfarçando o riso de deboche.

Elas ainda acrescentavam com maldade, "Todo aquele tempo e esforço investidos na educação da gêmea mais velha foram direto para o ralo" — usando Hazuki para desferir um golpe nos pais que haviam depositado todas as esperanças na filha mais velha.

Agora, os pais das gêmeas só podiam ranger os dentes em silêncio, sem argumentos para rebater. A única coisa que possuíam em excesso era o orgulho inútil.

E, por alguma razão, direcionavam todo o rancor para Hana. Tudo era culpa daquela inútil.

No entanto, não havia satisfação nenhuma nisso, já que não conseguiam vê-la.

Eles não tinham escolha a não ser bolar um plano alternativo para restaurar o prestígio da família.

O Plano B tinha o formato de uma pasta de couro, que repousava sobre a mesa bem diante do pai de Hazuki.

"Esta é a única opção que nos resta para elevar o nosso status de volta ao que era antes" — disse ele, fixando um olhar resoluto na pasta.

Hazuki foi chamada ao aposento, onde ambos os pais a aguardavam com feições sérias.

"Com licença" — disse ela ao entrar. — "Pai. Mãe. Vocês têm algum assunto comigo?"

Embora Hazuki se parecesse com a irmã mais nova, suas feições carregavam um certo charme. Se notou o clima anormal na sala, preferiu não comentar.

Contudo, seu rosto estava pálido, talvez por se sentir desconfortável.

"Que bom que veio, Hazuki. Sente-se" — o pai disse, exibindo um sorriso exagerado.

Hazuki sentiu-se incomodada com a expressão do pai, mas fez o que lhe foi mandado e sentou-se de frente para os dois.

No mesmo instante, o pai a cobriu de elogios. — "Você é realmente uma filha excelente, Hazuki. Soubemos que você conseguiu a nota mais alta do seu ano na prova recente, não foi?"

"Obrigada." — Hazuki inclinou a cabeça, mantendo a feição inalterada.

Ele continuou a bajulá-la. — "Desde criança, você sempre foi brilhante. Até conseguiu invocar um shikigami com forma humana. Sempre tivemos orgulho de você ser nossa filha."

"O que motivou isso de repente, Pai?" — Hazuki questionou, intrigada com o louvor que o pai normalmente nunca se dava ao trabalho de fazer.

"Nada. Apenas me lembrei de como estamos contentes por você ter crescido exatamente do jeito que queríamos." — Ele posicionou a pasta marrom diante de Hazuki. — "Abra."

"O quê...? Tudo bem…" — Ela obedeceu à instrução do pai e abriu a pasta. Em seu interior, havia a foto ampliada de um homem, alguém que ela já tinha visto, mas com quem nunca havia conversado. — "Para que serve esta foto?" — perguntou ela, com um aperto no estômago.

A pasta de fotografias parecia exatamente com aquelas preparadas para casamentos arranjados.

Mas não pode ser, Hazuki tentou se autoconvencer.

No entanto, a resposta do pai confirmou o seu pressentimento. — "Nós encontramos um marido para você."

"Recebemos uma resposta favorável da outra parte recentemente. Não é maravilhoso, Hazuki?" — a mãe acrescentou.

A ideia de que a filha pudesse sentir qualquer coisa além de extrema alegria sequer passou pela cabeça deles.

Hazuki protestou de imediato, — "Por favor, esperem! Se bem me lembro, este homem está na casa dos quarenta anos. Há uma diferença de idade muito grande. Além disso...!"

O pai cortou o restante de suas queixas com uma repreensão áspera. — "O que tem isso?" — ele esbravejou. — "A idade é um detalhe trivial. O que importa é se o casamento trará benefícios para a família. Só isso."

"......" — Os lábios de Hazuki se estreitaram e ela não estendeu a discussão.

Seus pais tinham o hábito de fazer ouvidos moucos às opiniões dela quando o assunto era o que seria vantajoso para o clã. As coisas funcionavam assim desde muito antes daquele dia, e o desrespeito deles simplesmente roubava as palavras de sua boca.

"Não vá me dizer que quer se casar por amor" — o pai zombou. — "Você tem juízo suficiente para não dizer tamanha tolice, não tem, Hazuki?"

"...Sim, Pai."

A submissão de Hazuki trouxe imediatamente um sorriso ao rosto do pai.

"Você precisa compreender, Hazuki, este matrimônio é um passo vital para a nossa família" — a mãe reforçou.

"Eu compreendo…"

"Se ao menos a Hana fosse competente, eu não teria que implorar desse jeito" — o pai cuspiu as palavras. — "Que filha inútil ela se tornou. Como gêmeas podem ser tão diferentes uma da outra? É um alívio que você seja uma criança tão excepcional e sempre tenha correspondido às nossas expectativas."

Hazuki forçou um sorriso no rosto e cerrou o punho apoiado sobre a coxa para se conter.

Seus pais estavam em um clima de celebração e não perceberam absolutamente nada.

"As apresentações formais serão feitas mais adiante. Até lá, comporte-se adequadamente para não envergonhar esta casa. Bem, tenho certeza de que mal preciso te dizer isso na sua idade" — o pai declarou.

"É verdade, querido. A Hazuki não desobedeceria aos pais para agir feito uma boba. Ela é recatada e obediente, ao contrário da Hana" — a mãe comentou. — "Ela exemplifica os traços de uma perfeita dama japonesa."

O casal exaltava as virtudes de Hazuki e depreciava os defeitos de Hana no mesmo fôlego, ambos sem notar que houvesse algo de errado na forma como falavam.

Eles elogiavam Hazuki comparando-a com Hana superficialmente, mas, na realidade, estavam acorrentando Hazuki. Certamente sabiam disso.

Filhos que ouviam os pais eram bons. Filhos que não ouviam eram ruins. Uma parte de Hazuki sentia repulsa pelo modo de pensar de seus pais.

Cada vez que o nome de Hana vinha à tona, cada vez que eram comparadas, o fardo de ser a filha ideal tornava-se mais pesado.

Sua outra metade. Aquele fragmento valioso.

Em que momento os caminhos delas haviam se bifurcado?

Ninguém — provavelmente nem a própria Hana — imaginava o quão triste Hazuki se sentia ao ouvir os pais chamarem Hana de inútil.

Contanto que ela se esforçasse ao máximo e assumisse inclusive a parcela de Hana, ela conseguiria agradar aos pais, e eles cessariam os insultos contra a irmã.

Contanto que ela permanecesse sendo a filha de ouro...

Em que momento obedecer aos pais havia se tornado uma segunda natureza? Em que momento ela se tornara incapaz de rebelar-se?

Ela havia se tornado consciente demais sobre a opinião alheia e continuara desempenhando o papel de estudante modelo perfeita durante todo aquele tempo.

Era sufocante, mas aquilo era algo que ela já não podia confessar a ninguém.

No passado, quando ela e Hana ainda se davam bem, Hazuki costumava desabafar suas queixas com a irmã. O que ela achava mais doloroso e triste era o distanciamento entre as duas que havia aumentado ao longo dos anos. Embora tivesse se comportado daquela maneira pelo bem de Hana, no fim das contas, suas próprias ações haviam cavado o abismo entre elas.

Como havia ido parar ali?

Hazuki já não fazia a menor ideia.

Tudo havia dado errado. Hana, a quem ela pretendia proteger, havia saído de seu lado. Hazuki estava sozinha.

Me ajude. Alguém. Qualquer um.

O clamor que habitava o seu coração permaneceu sem ser dito.

◆

Pouco tempo após o incidente com o inugami, assim que os ferimentos sofridos por Hana durante o confronto final cicatrizaram, Saku, seu marido e líder do clã Ichinomiya, veio até ela com um convite.

Ele queria lhe mostrar a propriedade à beira-mar que seria a sua recompensa por ter auxiliado no caso.

A mordida do inugami havia deixado uma cicatriz disforme que, de acordo com o médico, dificilmente desapareceria por completo.

Hana considerava-se sortuda por ter sobrevivido ao embate contra o tatarigami levando apenas uma pequena marca. Contudo, em contraste com o otimismo dela, Arashi — o inugami em questão e seu novo shikigami — ficava deprimido toda vez que olhava para o ferimento, de modo que ela havia parado de usar roupas sem mangas que pusessem a cicatriz à mostra.

No fim das contas, aquele era um preço baixo a se pagar para manter o astral de Arashi elevado.

De vez em quando, ela ainda era acometida por pontadas de dor no local, por isso as suas entidades, preocupadas, tentaram impedi-la de ir ver a casa de campo. No entanto, o machucado não doía tanto a ponto de fazê-la recusar a oportunidade de ouro oferecida por Saku. Ela aceitou o convite dele com alegria.

O destino final acabou sendo uma cidade litorânea a duas horas de viagem de carro a partir da residência Ichinomiya.

"Uau, incrível! É o mar! O de verdade!" — Hana exclamou, inclinando-se para fora da janela do automóvel. O cheiro da água salgada vinha com o vento que açoitava o seu rosto. Era uma fragrância que ela raramente tinha a chance de sentir, e aquilo a revigorou.

"Cuidado! É perigoso colocar o rosto para fora da janela desse jeito" — advertiu Saku, sem demonstrar qualquer comoção diante da vista do oceano.

"Táaaa." — Hana acomodou-se de volta no assento de forma obediente.

A borboleta shikigami de Hana, Azuha, deixou o seu lugar habitual no cabelo da jovem para flutuar animada pelo interior do veículo. — "Mestra, aquilo é o mar?" — ela perguntou, com uma curiosidade infantil.

"Ah, sim... você nunca viu o oceano antes" — Hana ponderou.

"Nunca."

Hana não costumava visitar o litoral com frequência, mas havia ido algumas poucas vezes; uma em uma excursão escolar no ensino primário para uma praia próxima e outra em uma viagem de dois dias durante o ensino fundamental, se bem se lembrava.

As duas ocasiões ocorreram em escolas normais, de modo que ela não pudera levar Azuha — uma shikigami — com ela.

Os Ichise também não eram o tipo de família unida que fazia viagens reunida. Já fazia muito tempo desde a última vez que Hana havia viajado para tão longe até o mar.

Ela estava muito mais empolgada do que a situação exigia, mas esperava que qualquer um que estivesse olhando fingisse não notar.

A propriedade não ficava apenas ao lado do oceano; estava situada sobre uma colina que proporcionava uma vista impressionante da água.

Podia estar um pouco distante da praia em si, mas a paisagem era de tirar o fôlego.

Além do mais, o local pertencera originalmente aos Ichinomiya, o que significava que as terras eram tão vastas que mal se conseguia enxergar até onde se estendiam a partir do portão principal.

O carro parou diante da entrada. Hana fitou o exterior pela janela com os olhos arregalados, absorvendo cada detalhe, mal conseguindo parar quieta no banco.

Saku a observou, exasperado. — "Controle-se. A casa de campo não vai fugir."

"Eu sei, eu sei. Só estou ansiosa" — ela respondeu. — "Você tem certeza de que posso ficar com este lugar inteiro?" — Eles ainda não haviam entrado, mas, a julgar pela imponência do portão, com certeza seria algo impressionante. Ela já estava fora de si de tanta empolgação.

"Sim, eu prometi. O seu nome já está na escritura, então, por todas as definições, é a sua casa de campo."

Ela abriu um grande sorriso e jogou as duas mãos para o ar.

"Isso! Obrigada, Saku!"

O canto da boca de Saku curvou-se em um sorriso provocador.

"Por que você não demonstra a sua gratidão com ações em vez de palavras?"

"O que você quer dizer com isso?" --- Hana questionou, sentindo um mau pressentimento percorrê-la.

Saku inclinou-se na direção dela, encurralando-a com os braços.

Ela entrou em pânico e começou a protestar. — "E-espere! Você está perto demais!"

"Trate de se acostumar com isso, sua cabeça de vento." — O sorriso dele tornou-se audacioso e ele segurou o queixo dela com uma das mãos. — "Por acaso já se rendeu aos meus encantos?"

Os lábios dele estavam a um suspiro de distância dos dela. Ela ficou vermelha como um tomate.

Eles haviam sido obrigados a se casar para que Saku pudesse restaurar a barreira ao redor do pilar central, mas, mesmo agora que a estrutura estava de volta à sua força total, continuavam como marido e mulher. Saku havia mudado de ideia.

Ele tinha jogado sujo, mas, surpreendentemente, os dois estavam se dando bem.

Agora que contava com o respaldo dos Ichinomiya, não havia mais nada que Hana — que havia deixado a sua família e não tinha a quem recorrer — pudesse desejar.

No início, ela fora rejeitada pelos Ichinomiya, mas assim que revelou a existência de Aoi e Miyabi, seus dois shikigami humanos, ganhou a aceitação não apenas dos funcionários da casa, como também da matriarca da família, a mãe de Saku. Para falar a verdade, o seu estilo de vida atual estava longe de ser desconfortável.

Na casa dos Ichise, ela fazia cada refeição sozinha, mas agora comia junto com os Ichinomiya.

De início, ela relutou. Pensava que comer sozinha dava menos trabalho. Jogar conversa fora durante o jantar a deixava tensa, mas, ao mesmo tempo, a comida parecia mais saborosa.

Seria aquilo o que ela estivera desejando o tempo todo? Fazer parte de uma família calorosa?

De qualquer forma, no fim das contas, ela não se opunha a morar na residência Ichinomiya. A sua objeção era em relação a Saku.

Ela só era esposa dele por causa de um contrato legal e, no entanto, Saku — cujas investidas ousadas não se limitavam a beijos — havia se tornado ainda mais atirado desde que fora decidido que continuariam casados. Ele aproveitava cada oportunidade para roubar um beijo, passar o braço pelos ombros dela ou abraçá-la. Hana não tinha experiência em assuntos do coração e ficava totalmente à mercê dele.

Em momentos assim, quando Saku se aproximava com aquele olhar intenso, Hana podia contar com os seus fiéis shikigamis para protegê-la.

"EI! Que diabos você pensa que está fazendo com a minha mestra, seu velho tarado?!" — um desses aliados gritou com um rosnado, esbravejando como um delinquente. Ele escancarou a porta do carro e chutou Saku para longe de Hana.

O nome daquele shikigami era Aoi, e ele trazia uma imensa espada presa às costas.

Em seguida, Miyabi — bela como um anjo — pegou Hana pela mão e ajudou-a a sair do veículo.

"Mestra, por favor, venha por aqui."

Os dois eram um tanto superprotetores com Hana, para dizer o mínimo.

"Obrigada, Aoi, Miyabi" — Hana agradeceu, aliviada.

Ela espiou para o interior do automóvel. Saku estava caído de qualquer jeito onde havia pousado. O descontentamento estava estampado de forma clara em sua face.

"Vocês dois de novo" — ele resmungou, estalando a língua.

"Essa é a nossa fala!" — Aoi rebateu. — "Você está importunando ela!"

"Eu estava seduzindo ela" — Saku corrigiu. — "Intrusos não devem se meter. Este é um problema entre marido e mulher."

"‘Marido e mulher’ uma ova. Você a enganou! Não tem o direito de falar nada!" — Aoi disparou de volta, avançando na direção de Saku como o cão de guarda pessoal de Hana.

Arashi, que assumia a forma de um cachorro de verdade, materializou-se também.

"Como seu shikigami, eu deveria dar apoio ao Aoi?" — ele perguntou a Hana, um pouco confuso.

"Não, está tudo bem, Arashi. Deixaria de ser uma brincadeira se uma divindade resolvesse intervir" — ela respondeu.

Arashi parecia um adorável filhote de cachorro preto, mas na realidade era um inugami, uma deidade canina. Se utilizasse todo o seu poder contra Saku, a vida do rapaz correria perigo.

"Ah, entendi. Eles estão brincando. É o que chamam de briga de namorados, certo?" — Com sincera admiração, Arashi observou Aoi e Saku se desentendendo. Ele era um tanto desatento no que dizia respeito ao mundo dos humanos, e Hana só pôde abrir um sorriso sem graça para ele.

"Parem de palhaçada" — ela chamou os rapazes que discutiam no limite da porta do veículo. — "Quero andar logo para ver como é a minha nova casa de campo."

Saku e Aoi finalmente cessaram a disputa e voltaram a atenção para Hana.

"Você tem razão. Precisamos fazer a limpeza antes que escureça" — Saku ponderou. Ele saiu do carro e limpou a marca do pé de Aoi de suas roupas.

Normalmente, Saku vestia trajes tradicionais japoneses pela residência Ichinomiya, mas hoje havia colocado uma roupa casual com calça jeans e uma camisa simples.

Hana vestia uma calça curta e uma blusa florida — parecia importante usar vestimentas que facilitassem a movimentação.

"Hã? Não foi limpa?" — Hana indagou.

"O interior está impecável" — Saku respondeu. — "O lado de fora é o problema."

"O quê? A grama precisa ser cortada?"

"Você vai ver quando chegarmos lá" — ele disse, misterioso.

Os empregados dos Ichinomiya que os haviam acompanhado em um veículo separado abriram o portão principal. Provavelmente tinham vindo para ajudar.

"Venha, vamos." — Saku marchou à frente rapidamente, deixando Hana e seus aliados correndo para alcançá-lo.

Por incrível que pareça, os funcionários permaneceram junto ao portão. Hana questionou:

"Ei, Saku, e quanto a eles?"

"Eles virão depois que terminarmos" — veio a resposta.

"Hã? Faxina não seria parte do trabalho deles, normalmente?"

Como a equipe da casa Ichinomiya podia colocar o próprio líder do clã para limpar? Não deveria ser o oposto? Mas as dúvidas de Hana logo foram sanadas.

Após uma caminhada de cinco minutos a partir da entrada, eles avistaram uma belíssima residência em estilo ocidental, grande e suntuosa demais para que Hana e suas entidades morassem ali sozinhas. Além do mais, as terras eram gigantescas. Uma pessoa poderia jogar golfe ali o quanto quisesse. O luxo superava em muito as expectativas de Hana. Qualquer um que visse aquilo ficaria impressionado com o poder da família Ichinomiya.

No entanto, havia uma característica que se destacava muito mais do que a própria casa: bandos de certas criaturas vagavam pelo terreno como bem entendiam.

A paisagem pitoresca estava arruinada por sombras, sombras e mais sombras. Havia sombras para onde quer que se olhasse.

"Que diabos é isso?!" — Hana gritou no instante em que viu o que os aguardava, e quem poderia culpá-la? — "Sakuuu! Pode me dar uma explicação?!" — ela exigiu, furiosa.

Saku respondeu como se não houvesse nada de errado, — "São sombras, como você pode ver."

"Ah, sombras, claro. SÓ QUE NÃO! Por que elas estão aqui?"

"Ah. Esta propriedade se tornou — por uma variedade de motivos — um ponto de encontro habitual de sombras. Eles precisam ser limpos periodicamente."

[Pipoc4h: O cara só da golpe nela, só furada que ela se mete kkkk]

"Limpeza…"

A ficha sobre o real significado de "limpeza" caiu para Hana, e ela agora compreendia por que os empregados não haviam se juntado a eles.

Era natural. A maioria dos funcionários devia vir de famílias de praticantes, mas, independentemente disso, se possuíssem o poder necessário para derrotar sombras, teriam se tornado praticantes em vez de equipe doméstica.

Saku continuou, — "Os sombras aqui não são apenas excessivos em quantidade, mas também são poderosos, então não é um serviço que possa ser confiado a um praticante incompetente. Até agora, eu vinha aqui de tempos em tempos para lidar com eles, mas aí você apareceu falando sobre recompensa. Uma combinação perfeita, eu diria."

"Troca! Eu gostaria de solicitar uma troca! Quero uma casa de campo diferente!" — Hana clamou.

"Desista. A papelada já foi feita. É sua agora, então é bom que você faça a manutenção direitinho."

"V-você me enganou…" — Hana caiu de joelhos, com os ombros caídos.

A sua extrema empolgação com a ideia de possuir uma casa de campo tornou o choque da traição ainda maior. Era um golpe devastador demais para se recuperar rapidamente. Ela nem se importou com o fato de sua calça branca ter sido sujada pela areia.

Mas nem Saku e nem as sombras mostraram qualquer consideração pelo coração partido dela.

"Levante-se, Hana. Eles estão vindo" — Saku alertou. Ele arregaçou as mangas como se estivesse se preparando para o trabalho à frente e invocou sua aliada. — "Tsubaki. Venha."

"Certinho!" — Uma garota em um traje de empregada cheio de babados materializou-se. Seu cabelo branco estava preso em duas chiquinhas e orelhas de cachorro saltavam de sua cabeça. Ela era a shikigami humana de Saku, Tsubaki.

No momento em que surgiu, ela fixou o olhar em Aoi.

"Meu Deus, é o meu querido!"

"Ngh—!" — O olhar predatório dela assustou Aoi.

Tsubaki costumava se apresentar como amante de Saku, mas havia se apaixonado por Aoi à primeira vista e não tinha olhos para mais ninguém.

Ela parecia pronta para avançar sobre Aoi a qualquer segundo, mas Saku segurou-a pelo topo da cabeça.

"Deixe o seu querido para depois. Você pode ir a quantos encontros quiser depois que limparmos isso aqui" — ele disse.

"Sim! Pode contar comigo! Não vá a lugar nenhum, querido!" — Praticamente dava para ouvir um emoji de coração colado ao final de cada frase dela.

Tsubaki mandou um beijo no ar na direção de Aoi antes de se lançar contra a horda de sombras.

Enojado com o beijo lançado, Aoi empalideceu. Ele dirigiu um olhar suplicante para Hana. — "Ajuda, Mestra. Não sei como lidar com essa mulher…"

Mas Hana era quem queria ser resgatada. Ela não tinha tempo para pensar na situação de Aoi. — "Cruel. Que crueldade. Eu estava tão ansiosa. Dediquei toda a minha energia para resolver o caso por causa desta casa de campo, e é assim que você me retribui…"

Ela virou-se para encarar com fúria os sombras que tinham a audácia de atacá-la enquanto ela estava à beira das lágrimas e gritou, — "Devolvam a minha casa de campo!" — Ela descarregou a sua raiva nas criaturas desatentas. — "Expanda! Expanda! Expanda!" — berrou, aprisionando os sombras sucessivamente. — "Elimine!!!" — Seu comando final foi um grito de guerra e, com ele, ela destruiu os sombras próximos de uma só vez.

"Aoi, Miyabi, Azuha! Exterminem os invasores que ousaram vir à minha casa sem serem convidados" — ordenou aos seus aliados.

"Eu devo ajudar também?" — Arashi perguntou.

"Por favor. Você é tão poderoso quanto um exército de cem homens."

"Sim."

Arashi, sem se abalar com os sombras, correu para o combate. Aoi foi logo atrás dele.

"Vamos ver quem consegue derrotar mais deles, Arashi" — Aoi chamou.

"Por mim tudo bem. Eu não vou perder" — Arashi respondeu.

"Essa é a minha fala."

Os dois mantiveram a conversa amistosa enquanto se afastavam correndo. Hana observou-os partir e bufou, irritada. — "Humpf. Esta não é hora de ficar de bobeira."

"Mestre, você se tornou bastante inconsolável" — Miyabi comentou, franzindo o cenho em sinal de preocupação.

Bem, quem não se desesperaria em uma situação daquelas?

"Saku, seu canalha! Não pense que eu vou esquecer isso!" — Hana gritou.

O que ela deveria fazer com a raiva que se acumulava em seu interior? Por enquanto, decidiu descarregar a sua fúria nos sombras. Um após o outro, eles foram consumidos pelas chamas da sua indignação.

◆

Saku observava tudo com admiração. — "Eu sabia que tinha tomado a decisão certa ao deixar ela dar um jeito neles."

Chegava a ser cômico ver a rapidez com que Hana, espumando de raiva, passava o rodo nas sombras.

A família Ichinomiya era dona daquela mansão de veraneio e cuidava dela há gerações.

As sombras dali eram fortes, bem diferentes das futilidades que apareciam em outros lugares, e era preciso um grupo de praticantes habilidosos para dar conta delas. No entanto, requisitar vários profissionais regularmente estava fora de cogitação, então, até aquele momento, o próprio Saku resolvia o problema sozinho.

Era um trabalho pesado que levava o dia inteiro, mas Hana tinha o inugami Arashi ao seu lado e, diante do poder dos dois, as sombras simplesmente derreteram.

Olhando a cena, Saku sentiu um peso sair de suas costas.

Desde que assumira a liderança do clã, ele não conseguia mais liberar espaço na agenda como antes. Era uma verdadeira benção poder confiar aquela mansão a Hana.

◆

No fim das contas, eles conseguiram varrer as sombras dos arredores antes do meio-dia. Assim que os empregados souberam que a área estava limpa, surgiram de uma vez só.

Hana desabou em um banco no jardim. — "Estou só o pó…" — resmungou ela. Para se desestressar, ela tinha levado seu corpo ao limite e, como resultado, estava grogue. Não queria dar mais nem um passo.

Em contrapartida, os shikigamis transbordavam energia. Sendo criados a partir do poder de seu mestre, a palavra cansaço não existia no vocabulário deles.

"Caramba, levei a pior" — disse Aoi, após sua competição de caça às sombras contra Arashi.

"Você foi um adversário digno" — respondeu Arashi.

Tsubaki entrou espalhafatosa entre os dois e se jogou em cima de Aoi. — "Você foi incrível, lindinho! Como recompensa, vou te levar para passear!"

"Gyaaa!" — gritou Aoi. — "Não! Nem precisa!"

"Ah, qual é, não precisa ter vergonha" — ronronou ela.

"Não estou com vergonha! Sai de cima de mim!"

"Nããão."

Hana assistia àquela algazarra de Aoi e Tsubaki com resignação, deitada no banco com a cabeça apoiada no colo de Miyabi. Miyabi observava tudo com um sorriso. Azuha flutuava alegremente pelo jardim, fazendo um tour pelas flores que desabrochavam.

Que bando de shikigamis descontraídos.

"Quanta animação…" — murmurou Hana.

A cena diante dela era completamente diferente de sua antiga vida com os Ichises.

Aoi e Miyabi podiam se manifestar quando bem entendessem, sem se preocuparem com quem estava olhando, e, para Hana, eles pareciam mais cheios de energia do que nunca.

Ela tinha achado que havia cometido um erro tremendo ao aceitar aquele casamento de fachada com Saku, mas para Aoi e Miyabi, que tinham passado a vida se escondendo, talvez tivesse sido a escolha certa.

Enquanto ela relaxava no banco, Saku se aproximou, chamando por ela. — "Hana, já está tudo ajeitado lá dentro. Também não há sinal de sombras, então já pode entrar."

Hana lançou um olhar gélido para Saku, que não parecia sentir nem um pingo de remorso por ter arrastado ela para aquela enrascada.

"Seu vigarista."

Ela tinha um milhão de coisas que queria dizer, mas sua raiva já tinha atingido o ápice e os insultos afiados que tinha guardados simplesmente secaram. Em vez disso, ela apenas o fuzilou com os olhos.

"Isso é calúnia" — disse Saku. — "É uma mansão de veraneio, não é? Tem vista para o mar, não tem? Eu não menti."

[Pipoc4h: O bixo é pouco liso, meter o louco é que nem respirar pro cara]

"Se eu soubesse que era um ponto de encontro de sombras, eu nunca teria aceitado!" — protestou Hana, com os olhos arregalados. Seus gritos não faziam o menor efeito em Saku.

"Não era algo que você fosse gostar de ouvir."

"Claro que não, seu idiota!"

Quem no mundo iria querer uma casa mal-assombrada cheia de sombras?

"Você ia querer?" — questionou Hana.

"Tô fora, obrigado" — respondeu Saku.

Diante daquela indiferença, Hana perdeu as forças até para gritar. Ela deu um suspiro profundo e se recompôs antes de se levantar do banco. — "Já posso entrar?"

"Sim. O almoço está pronto. Vamos comer."

"Tá, tá."

Visivelmente irritada, ela o seguiu para dentro do casarão em estilo ocidental.

Por dentro, a decoração era tão luxuosa que ninguém diria que era uma mera casa de praia. Ao contrário da atmosfera silenciosa e tradicional da residência Ichinomiya, as mobílias e o design de interiores ali eram vibrantes, dando ao lugar um ar claro e alegre.

Hana presumiu que receberia uma propriedade caindo aos pedaços pelo desuso, mas o prédio tinha sido bem mantido e não parecia nada velho.

"Como o dia está bonito, mandei servirem o almoço no terraço" — disse Saku.

O amplo terraço oferecia uma vista panorâmica do oceano. Ao ver aquilo, ela perdeu o fôlego. — "Uau, que lindo."

"Não é? Em termos de localização, é de primeira."

Ela sabia exatamente o que ele estava insinuando. Se não fossem as sombras, aquela propriedade valeria uma fortuna. As sombras estragavam tudo, não havia outra definição.

"Se ao menos não tivesse o problema das sombras…" — disse Hana.

"É. Mas com o seu poder, você dá conta."

"Sim, eu dou conta agora, mas não vou conseguir cuidar disso quando ficar velha, sabe?"

"O clã pega de volta quando esse dia chegar. Enquanto isso, conto com você para mantê-la em ordem para mim. Não tenho outros imóveis para te dar, e preciso supervisionar meus deveres como chefe do clã. Não tenho tempo para gastar com essa mansão."

"Fazer o quê…" — arrastou Hana a voz. — "Como eu sou muuuito generosa, vou quebrar o seu galho e fazer uma faxina aqui de vez em quando."

As responsabilidades de Saku como líder do clã se acumulavam ao seu trabalho como praticante. Ela abriu mão do orgulho daquela vez pelo bem dele.

Saku sorriu suavemente. — "Isso vai ajudar muito."

Hana se pegou sorrindo de volta para ele. — "Só para constar: a próxima vez que você me der um golpe desses, eu me divorcio de você na hora."

"Sem problemas. Com a minha autoridade como líder do clã, eu esmago qualquer petição dessas sem piedade."

"Aceite a derrota com dignidade!"

"Não quero."

Que cara egocêntrico. O problema era... Hana sentia que estava, aos poucos, começando a aceitá-lo, com narcisismo e tudo.

◆

Com a exterminação das sombras resolvida, Hana pretendia aproveitar ao máximo a mansão pela qual tinha trabalhado tanto, e começou a caminhar calmamente pelos corredores.

Dito isso, assim que terminou de dar uma volta completa, sobrou muito tempo livre e nada para fazer.

O interior e o exterior em estilo ocidental eram uma novidade agradável, mas em termos de imponência, a residência principal dos Ichinomiya ainda estava um nível acima. Como Hana já havia se acostumado a morar na casa principal, o encanto da mansão de veraneio passou logo na primeira hora.

Movida pelo tédio, Hana foi atrás de Saku. — "Eiii, Saku…" — chamou ela ao entrar no cômodo.

Saku estava digitando em seu notebook. Mesmo ali, continuava atolado de trabalho.

"O que foi?" — perguntou ele.

"Tô no tééédio. Não tem nada de divertido para fazer por aqui?"

Ele ergueu os olhos da tela. — "Você não existe" — o olhar dele misturava espanto e cansaço. — "Você não deveria estar radiante com a sua mansão nova?"

"E eu estou, estou sim, mas eu pensei bem. Pensei muito bem e, tipo, não tem nada para fazer" — admitiu ela. — "Tô entediada. Não tem TV aqui e o meu celular está sem sinal."

"Não tem jeito. Existe uma barreira poderosa ao redor de toda esta área para evitar que as sombras escapem, e as ondas de rádio não passam por ela. Também não temos TVs ou rádios porque há muita interferência. Isso também deve ser por causa das sombras."

"E esse notebook que você está usando?" — perguntou Hana.

"Não está conectado à internet. Só estou redigindo alguns documentos de trabalho."

A mansão era literalmente uma casa mal-assombrada, e piorava muito pela total falta de entretenimento.

Infelizmente, Hana não era nenhuma sábia eremita que havia alcançado a iluminação, então a falta de lazer estava deixando-a maluca.

"Não tem nada nos arredores também?" — perguntou ela, desesperada.

"Não, tem coisas para fazer por perto sim" — respondeu Saku. — "Esta região é repleta de fontes termais naturais, então há um distrito de onsen muito popular aqui perto. E bastante comércio também, se não me engano."

"Falasse isso antes!" — Hana repreendeu. — "Eu posso sair?"

"Espere um pouco. Vou terminar isso aqui e vou com você."

"Você não está ocupado?"

As mãos dele não paravam de digitar por um segundo. Não parecia que ele tinha tempo para brincadeira.

"Não tem problema. Eu achei que a limpeza levaria o dia todo, então deixei a minha agenda livre" — respondeu ele, calmamente.

Os olhos de Hana se estreitaram. Ele sabia perfeitamente o tamanho do trabalho que a propriedade exigia e, ainda assim, teve a audácia de empurrar para outra pessoa.

Saku havia alcançado o nível mais alto entre os praticantes, o nível Obsidiana. Uma tarefa que levava um dia inteiro para ele resolver não era brincadeira, e mesmo assim ele havia jogado o abacaxi no colo de Hana com a mesma facilidade de quem paga um picolé na loja de conveniência. Ela deveria levar isso como prova de que ele confiava na capacidade dela? Sinceramente, não tinha certeza.

"Estou quase acabando. Não vá sumir" — disse ele, autoritário, antes de voltar os olhos para a tela.

Não tinha outro jeito. Hana obedeceu, acomodou-se em um sofá próximo e passou o tempo brincando com Azuha.

Aoi não estava por perto porque ele e Tsubaki apostavam corrida pela mansão em um jogo de pega-pega frenético. Os dois estavam no mesmo nível em termos de habilidade, então não era fácil para Aoi despistá-la; ele corria com todas as suas forças.

Teria sido mais fácil para ele se entregar logo ao inevitável, mas ele realmente não sabia lidar com Tsubaki. Os sentimentos dela não pareciam que iam alcançá-lo tão cedo.

Será que o Aoi ia ceder primeiro ou a Tsubaki arranjaria outro queridinho antes? Secretamente, Hana estava ansiosa para ver o desenrolar desse relacionamento, mas não ia admitir isso para o Aoi de jeito nenhum.

Além de Aoi, Miyabi e Arashi também não estavam na sala. Os dois tinham saído para caminhar no jardim e aproveitavam preguiçosamente o sol.

Hana sentia-se aliviada por Arashi, o novato do grupo de shikigamis, estar se dando bem com todo mundo. Ele podia ser um shikigami como os outros, mas também era uma divindade real. Ela ficou preocupada de ele deixar o orgulho subir à cabeça, mas ele estava sutilmente dando aos três shikigami — seus veteranos — o devido reconhecimento.

Ela gostaria de poder pegar um pingo do bom senso de Arashi e enfiar na mente de certo líder convencido. Quem sabe assim ele aprenderia a ter um pouco de humildade.

Depois de vadiar um pouco, ela ouviu o cleck do notebook sendo fechado e olhou para Saku. — "Terminou?"

"Sim."

"Então vamos logo!"

Cansada de não fazer nada além de sentar e esperar, Hana deu um pulo do sofá e correu animada para fora da sala.

"Você devia estar morrendo de tédio" — comentou Saku, seguindo Hana. O olhar dele era doce e brando, como se olhasse para uma criança travessa.

"O que fazemos com o Aoi e os outros? Chamamos eles?" — perguntou Hana.

"Deixe-os" — disse Saku. — "Eles parecem estar no meio de um pega-pega altamente estimulante."

Tsubaki sem dúvida estava se divertindo, mas Aoi não parecia compartilhar do mesmo sentimento. De qualquer forma, levar aqueles dois encrenqueiros para um lugar lotado de turistas seria procurar sarna para se coçar, então Hana concordou em deixar Aoi para trás.

Os empregados trouxeram o carro. Hana e Saku, junto com Azuha, entraram e foram em direção à cidade. O destino deles ficava de cinco a dez minutos de carro do mirante onde a mansão ficava. Eles entraram no distrito de onsen. O cheiro de enxofre pairava no ar.

Como não era dia útil, as ruas estavam cheias de gente. As lojas estavam faturando bem; muitas tinham filas na porta.

"Nem acredito que tem uma área de onsen tão popular perto da mansão. A localização da propriedade é realmente de primeira. Mas só a localização" — disse Hana.

"Não é? Gostou de lá?"

"Seria perfeita se não estivesse infestada de sombras."

"É perfeita de qualquer forma, contanto que você seja habilidosa o suficiente para lidar com o problema, não acha? Você tem o Arashi e não te falta capacidade de combate" — disse Saku. — "Mas como fica ao lado de um distrito movimentado, certifique-se de que as sombras não escapem, combinado? Existe uma barreira ao redor da propriedade, mas mesmo assim... nunca se sabe o que pode acontecer."

"Que saaaco…" — queixou-se Hana.

Se as sombras escapassem para aquela área de onsen, um destino turístico, ela seria a única responsabilizada. Saku não tinha apenas jogado a mansão nas costas dela, mas também tinha lhe dado outras obrigações. Ele havia empurrado um problema verdadeiramente irritante para ela.

"As sombras da mansão só precisam ser exterminadas a cada seis meses, mais ou menos. Eu estive ocupado com a sucessão e com o caso do inugami, por isso não pude vir dar uma olhada. É por isso que tinha tanta sombra desta vez. Normalmente são poucas. Se você vier com mais frequência, com a sua habilidade, não vai ser nada penoso."

"Entendi. Bom, então talvez dê certo."

Sem a infestação de sombras, a casa de campo era inegavelmente uma propriedade soberba.

Hana enfrentava ataques de sombras poderosas regularmente, então se livrar delas não era uma tarefa difícil para ela. Ela só tinha reclamado tanto por causa da quantidade excessiva. Se fossem apenas algumas, Hana, com Arashi como um de seus shikigamis, daria conta num piscar de olhos.

Com esse raciocínio, a mansão, com sua vista para o mar e a cidade de onsen por perto, poderia ser uma boa recompensa afinal... ou era assim que ela se convencia. Ela não tinha outra escolha a essa altura.

"Mestra, vamos olhar em volta. Rápido" — apressou Azuha de seu poleiro no cabelo de Hana. A shikigami nunca tinha saído para passear antes. Era bem provável que ela estivesse mais animada do que demonstrava.

"Você tem razão. Vamos" — disse Hana.

Ela começou a andar, mas perdeu o passo quando Saku imediatamente segurou sua mão.

"Saku!" — exclamou ela, surpresa.

"Não queremos que você se perca, certo?" — Ele sorriu de canto, esbanjando confiança. — "Além disso, assim fica parecendo mais um encontro."

Hana, com o rosto vermelho, viu-se incapaz de soltar a mão dele. Na verdade, muito pelo contrário, ela apertou levemente a mão dele de volta.

[Pipoc4h: Oloco, dar as mão assim em público… ta podendo?]

Eles passearam pelas ruas. Hana comprou ovos cozidos nas fontes termais — algo obrigatório ao visitar um onsen —, mordeu pãezinhos recheados saindo fumaça e saboreou um sorvete de casquinha perfeitamente modelado.

Eventualmente, Saku perdeu a paciência e reclamou, — "Você só sabe comer!"

"Ué, está tudo tão gostoso" — respondeu Hana.

"Você vai ficar sem espaço para o jantar" — alertou Saku, parecendo uma mãe chamando a atenção de um filho.

No entanto, as palavras dele entraram por um ouvido e saíram pelo outro. A atenção de Hana foi roubada por um escalda-pés que ela avistou.

"Olha, Saku! Tem um escalda-pés bem ali."

Hana puxou Saku pela mão. Saku balançou a cabeça resignado, mas seus olhos estavam ternos.

Ela comprou uma garrafa de soda ali perto antes de caminhar até o escalda-pés, tirar os sapatos e as meias e mergulhar os pés na água. — "Vem, Saku" — Ela deu tapinhas no assento ao seu lado, convencendo o relutante Saku.

Ele cedeu. Depois de tirar os sapatos e as meias, ele dobrou a calça jeans e afundou os pés na água quente.

"Hummm, a água está maraaaavilhosa" — Hana deu um gole em sua soda, não parecendo em nada a colegial que deveria ser. — "Aah" — suspirou ela —, "Isso tá perfeito!"

"O que você é, um tiozinho de meia-idade?" — disse Saku.

"E daí? Tenho que aproveitar enquanto estou aqui. É a minha primeira vez em um onsen" — disse ela. — "A casa de campo também recebe água das fontes?"

"Sim, é puxada direto da fonte."

Direto da fonte. Como aquelas palavras soavam bem.

"Eba! Vou tomar um banho assim que a gente voltar."

"Se você quiser, eu mesmo esfrego as suas costas" — ofereceu Saku com uma curva nos lábios.

Hana estreitou os olhos. — "Velho tarado" — acusou ela.

"Não precisa ter vergonha — nós somos casados."

"Há, precisa sim!"

"Acho que tomar banho juntos pode ser um obstáculo muito grande para você, considerando que você nunca beijou ninguém antes de mim. Vai ter que esperar até você ganhar um pouco mais de experiência."

Corando violentamente, Hana concentrou energia na palma da mão e a jogou contra Saku. O ataque se dispersou ao atingi-lo, mas ele ainda pareceu extremamente desnorteado.

"Ei, cuidado!" — exclamou ele. — "O que você pensa que está fazendo em público?"

Pessoas normais — pessoas que não eram praticantes, no caso — não conseguiam ver esferas concentradas de energia. No entanto, Hana era poderosa o suficiente para fazer pessoas voarem com um ataque daqueles, como já havia feito com o irmão mais novo de Saku, Nozomu, no passado.

O próprio Saku era muito habilidoso, e foi por isso que o ataque falhou, mas teria machucado feio uma pessoa normal.

Claro que Hana tinha pensado bem antes de agir. — "A culpa é sua, Saku! Além disso, eu me segurei."

Na realidade, o ataque tinha doído menos que um peteleco na testa.

"Se você fica sem graça só com isso, como vamos fazer daqui para frente? Os casais por aí fazem coisas bem mais ousadas o tempo todo, sabe?" — disse Saku.

Que tipo de baboseira esse homem estava dizendo com uma cara tão séria?

"Eu me divorcio de você antes de chegar a esse ponto!" — esbravejou Hana.

Ele olhou para ela achando graça. Em seguida, deu uma risadinha, com os ombros tremendo de tanto rir.

Foi aí que ela percebeu que ele só estava tentando provocá-la.

"Ah, fala sério…" — disse Hana. — "Você devia dar um jeito nessa sua personalidade. É sério. A sua popularidade vai despencar."

"Não se preocupe. Isso não é um problema. Eu só tenho olhos para você, Hana" — declarou ele, sem o menor traço de vergonha.

Ela ficou sem saber como reagir. —"É exatamente disso que eu estou falando! Para de brincar comigo!"

"Estou falando sério" — disse ele. — "Você não vai entender a menos que eu fale com todas as letras, certo? Só estou sendo sincero com as minhas demonstrações de afeto."

"Para com isso. Tem gente olhando" — protestou ela.

Duas senhoras de meia-idade sentadas do outro lado aproveitavam o escalda-pés e fofocavam entre si. Aquilo no rosto delas era um sorrisinho malicioso que Hana estava vendo?

"Ah, como é bom ser jovem…"

"Eu também me lembro de quando tinha essa idade."

A conversa delas era perfeitamente audível de onde Hana e Saku estavam sentados, e as palavras atingiram em cheio o orgulho dela. O coração dela não aguentaria se ficassem ali por mais tempo.

Hana tirou os pés da água e ia secá-los, quando Saku tomou a toalha de suas mãos e começou a enxugar os pés dela com todo o cuidado.

"Saku, o que você...?!" — gritou ela.

A dupla de tias abriu um sorrisão, exclamando alegremente — "‘Nossa, minha nossa’"

[Pipoc4h: Deixei em aspas triplas para representar que são as duas em uníssono]

A vontade de Hana de sair correndo duplicou.

Saku não deu a menor atenção ao nervosismo dela e ignorou facilmente as tentativas de Hana de recuperar a toalha. Ele secou meticulosamente cada gota de água da pele dela antes de enxugar os próprios pés.

Completamente mortificada, Hana calçou os sapatos e as meias sem dizer uma palavra e saiu em disparada do escalda-pés.

"Ei, Hana! Espera aí" — chamou Saku.

"Nem pensar!" — respondeu ela, de cara amarrada.

Será que esse homem não tem um pingo de vergonha na cara? — pensou ela.

De fato, Saku não demonstrava o menor sinal de remorso. Pelo contrário, parecia até andar com mais entusiasmo.

Não era de espantar que ver o rosto dele só deixasse Hana mais irritada. — "Está rindo de quê?"

Ele deu uma risadinha abafada. — "Heh-heh-heh. Eu nunca vou me cansar de você, Hana."

"Não entendi o que você quis dizer."

"Eu entendi. Isso é o que importa."

Tinha sido a Tsubaki que havia dito a Hana que Saku nunca costumava sorrir?

Ela tinha ouvido falar que os músculos faciais de Saku eram travados, que ele era tão inexpressivo quanto uma estátua de cera. Vendo o homem ao seu lado e sua enorme variedade de expressões, era difícil de acreditar.

O Saku sorrindo era cem vezes mais atraente do que com aquela cara de paisagem, não que ela fosse admitir isso em voz alta.

Ela não protestou quando Saku segurou sua mão novamente.

Os dois passearam calmamente pelas ruas até chegarem a uma loja que vendia magatamas, pequenos amuletos de pedra em formato de vírgula. A placa dizia que eram pedras de poder. Os amuletos organizados na vitrine eram feitos de vários tipos de pedras.

"Você quer um?" — perguntou Saku.

"Hum, deixa eu ver…" — disse ela, lendo as etiquetas com os nomes das pedras, junto com os significados e efeitos desejados.

Um amuleto de ágata branca chamou sua atenção. Ela checou o que ele deveria fazer e deu um sorriso maldoso.

"Você está com uma cara de quem vai aprontar" — comentou Saku.

Mas a expressão de Hana não mudou. Na verdade, o sorriso dela só pareceu aumentar.

"Saku, vou comprar essa magatama de ágata branca para você. É um presente meu, então faça o favor de usar junto com o seu pingente de praticante" — disse ela. — "Você não está feliz em ganhar um presente da sua querida esposa?"

Saku não era bobo de cair no papo de Hana tão facilmente, não com aquele sorriso sarcástico no rosto dela. Ele olhou para ela desconfiado e disse, — "Tudo bem, mas o que você está planejando?"

"Que grosseria. É o meu agradecimento pela linda mansão que você me deu" — disse ela, pegando não apenas uma, mas duas pedras e indo até o caixa com passos saltitantes. — "Heh-heh." — Ela comprou os amuletos e entregou um para Saku. — "Aqui está. Pode colocar."

"Está bem."

Ele colocou a pedra de magatama na mesma corrente onde usava o pingente de obsidiana — os pingentes serviam como licenças de praticante —, enquanto se perguntava por que diabos ela tinha comprado dois.

A pedra era pequena e não incomodava. Ficou pendurada no pescoço de Saku, logo ao lado de seu pingente de praticante.

"O que você vai fazer com o outro?" — perguntou ele.

"Garantia para uma emergência."

A resposta de Hana não esclareceu nada, mas vendo como ela estava animada, Saku não insistiu no assunto.

Depois disso, eles exploraram mais a cidade, compraram uma montanha de lembrancinhas e voltaram triunfantes para a mansão.

Aoi estava esperando por eles, arrastando Tsubaki, que estava grudada nele como chiclete. Ele estava quase chorando. — "Como vocês puderam me largar aqui?" — resmungou ele. — "Onde vocês foram?"

"Eu consegui passar o dia inteirinho com o meu amor! Estou nas nuvens!" — disse Tsubaki.

"Tira ela de cima de mim, por favor" — implorou ele.

Hana e Saku trocaram olhares e soltaram um longo suspiro. Nenhum dos dois imaginava que o pega-pega dos shikigamis duraria tanto tempo depois que eles saíram para o onsen.

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Fim da leitura

Capítulo 7 concluído

Volume 2 – Capítulo 1