Noiva do Mestre de Barreiras — Capítulo 8: Volume 2 – Capítulo 2

Noiva do Mestre de Barreiras
Cap. 8
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Noiva do Mestre de Barreiras

Volume 2 – Capítulo 2

Capítulo 8

10.076 palavras~44 min de leitura

Capítulo 2

Após retornar à residência principal dos Ichinomiyas, Hana foi direto para o seu quarto e desabou no sofá.

"Ahhh, tô exausta..." — suspirou ela.

A residência Ichinomiya usava futons estendidos direto no tatame. No entanto, a mansão de veraneio tinha camas de estilo ocidental com colchões.

Quando Hana havia mergulhado na cama, o elástico colchão a envolveu em um abraço. Ela se lembrava com carinho de como o colchão era confortável. Pelo que Hana conseguia avaliar, era de altíssima qualidade e tinha o poder de levar qualquer viajante cansado direto para o mundo dos sonhos.

Será que ela deveria pedir para colocarem uma cama em seu quarto na residência Ichinomiya também? Assim, ela conseguiria apagar direto sempre que quisesse descansar.

Esses eram os pensamentos que passavam por sua cabeça quando Saku invadiu o quarto sem sequer bater.

Ele viu Hana largada feito um saco de batatas no sofá e disse, — "Você está fazendo corpo mole."

"Mas é claro. Fui obrigada a caçar sombras logo depois de chegar à mansão. O que você esperava? A culpa é toda sua" — rebateu Hana. — "Para piorar, esta manhã, as sombras que supostamente foram exterminadas começaram a brotar das paredes e eu tive que dar um jeito nelas sozinha. Eu estava contando que você me daria uma mão, só para descobrir que você tinha deixado a Tsubaki lá e voltado para casa antes."

Hana tinha ficado atônita quando Tsubaki lhe contou, assim que acordou, que Saku já tinha ido embora. Depois, ela olhou para fora e deu de cara com as sombras que havia derrotado no dia anterior rondando a propriedade de novo. Uma manhã que tinha tudo para ser agradável foi completamente arruinada.

"Além disso," — continuou ela, — "o Aoi estava ocupado demais fugindo da Tsubaki para ser de alguma utilidade. Você não disse que os arredores só precisavam de uma faxina de vez em quando? Tinha uma tonelada delas esta manhã." — Ela lançou um olhar acusador para Saku de onde estava deitada no sofá.

"Essa foi mancada minha. Fui chamado de volta para lidar com uma emergência e não tive tempo de te avisar pessoalmente" — disse Saku. — "Mas as sombras que você enfrentou hoje provavelmente eram da região próxima e foram atraídas pela sua presença. Não acho que tenha a ver com a localização da mansão."

A barreira ao redor da propriedade permitia que as sombras entrassem, mas não que saíssem. Funcionava como uma armadilha. A mansão era um ímã de sombras, e Hana já era um alvo constante delas naturalmente. Juntando as duas coisas, o resultado era aquela infestação. Saku não tinha previsto esse desfecho.

"Recebi um relatório dizendo que as sombras pararam de aparecer no momento em que você saiu, então está tudo sob controle. Vá dar uma limpada lá de novo quando tiver um tempo."

"Tá, tá. Sei…"

Hana se arrependeu mais uma vez por ter aceitado algo tão problemático, mas era pouco provável que Saku aceitasse a devolução mesmo se ela exigisse agora.

"Na próxima vez, eu não vou acreditar em uma palavra sequer que você disser" — avisou ela.

"Não seja assim" — respondeu Saku. — "Estou contando com você."

Hana queria mais do que tudo lavar as mãos e esquecer esse assunto, mas não tinha escolha. Ela suspirou. — "Ahhh, Arashi, me conforta."

Ela se levantou do sofá, pegou Arashi de onde ele estava deitado ali perto e enterrou o rosto em seus pelos fofos. Aquela maciez reconfortante, como um travesseiro, remendou seu coração em pedaços.

O shikigami parecia meio exasperado, mas deixou Hana fazer o que queria sem resistir.

Que divindade benevolente ele era. É claro que esse coração mole foi justamente o motivo de ele ter acabado virando um tatarigami, um espírito amaldiçoado.

"A propósito, qual foi a emergência?" — perguntou Hana. — "É por isso que o clima aqui está tão pesado desde que eu voltei?"

"Então você reparou."

"Mas é claro. Qualquer um perceberia, querendo ou não querendo. Dá para cortar a tensão com uma faca."

A residência Ichinomiya estava fervilhando de praticantes da Associação com expressões sérias.

Como era a residência da família principal, os praticantes com seus pingentes de licença no pescoço costumavam entrar e sair direto, mas o fluxo estava bem mais intenso que o normal. Até um idiota perceberia que algo estava errado.

Saku se sentou de pernas cruzadas de frente para Hana, que segurava Arashi nos braços. Seu semblante estava sombrio enquanto dizia, — "A sede da Associação de Praticantes foi invadida."

"Está falando sério?" — perguntou Hana.

"Sim. Os culpados fugiram. A investigação já está em andamento."

"Eita."

Hana ficou perplexa, como qualquer um ficaria. Ela pretendia arranjar emprego em uma empresa comum, por isso não tinha se importado em aprender a fundo sobre a Associação de Praticantes, mas até ela já tinha ouvido falar sobre a segurança rigorosa da sede.

O complexo se orgulhava de sua segurança, que barrava qualquer intruso. Não passava nem formiga por aquelas paredes.

Já era surpreendente alguém ter a audácia de tentar invadir, quem dirá conseguir realizar o ato. E, para completar, ainda tinham escapado.

"A segurança da Associação não é boa?" — perguntou Hana.

"Impenetrável" — respondeu Saku, — "mas parece que quem fez isso tinha informantes lá dentro. Após o incidente, vários praticantes sumiram do mapa."

"Meus pêsames. O que mais eu posso dizer? Isso é bem grave."

"Nem me fale" — disse ele com um suspiro profundo, transbordando irritação.

"Os invasores... Eles não entraram lá só de brincadeira, entraram?"

Se esse fosse o caso, não haveria necessidade de mobilizar tantos praticantes, deduziu ela. O palpite dela foi certeiro.

"Sim, eles roubaram alguns amuletos que estavam guardados no edifício" — respondeu Saku.

"Aqueles feitos pelo clã Nijouin?"

"Infelizmente, sim. E para piorar, todos e cada um deles eram de rank SS em termos de perigo."

"Que horror!" — exclamou Hana.

"Agora você entende por que está todo mundo de cabeça quente."

Ele lançou um olhar cortante para ela, que parecia dizer: Vê se acompanha o raciocínio. Aquilo doeu.

Até Hana sabia o quão terríveis os amuletos de rank mais alto podiam ser.

Os amuletos com feitiços tinham uma fama ruim, mas na verdade, nem todos eram perigosos para os humanos.

A maioria tinha sido criada para combater as sombras. Podiam ser considerados armas mágicas para matar sombras.

No entanto, os amuletos de rank SS, se usados para o mal, tinham o potencial de causar destruição em massa e ferir humanos também, e era por isso que estavam selados.

Como filha de uma família secundária e sem influência política, Hana não sabia nada sobre os efeitos que os amuletos podiam causar. Contudo, ela tinha aprendido nas aulas que a Associação guardava os amuletos mais letais. Isso, somado ao fato de que todos os amuletos de rank SS tinham sido criados pelo clã Nijouin.

"Como algo tão perigoso pôde ser roubado tão facilmente?" — exigiu Hana. — "A sede não fica sob a jurisdição dos Ichinomiyas? Em outras palavras, você é o maior responsável!" — Ela apontou um dedo acusador — e um tanto rude — para Saku.

"Por que você acha que eu estou tão estressado?!" — gritou ele de volta, com os olhos arregalados.

Hana desconfiou que ele estava descontando a frustração nela, mas considerando a enrascada em que ele se encontrava, deixou passar.

Saku levou as mãos à cabeça. — "Dá para contar nos dedos de uma mão o número de grandes incidentes desde a fundação da Associação. Como isso pôde acontecer logo na minha gestão...? Já consigo até ouvir a risada debochada daquele velho idiota se ele souber disso." — Ele parecia realmente preocupado.

Hana imaginou que ele estava se referindo ao pai. Ela já o tinha ouvido falar do antigo líder do clã de forma depreciativa em algumas ocasiões.

Ela ainda não conhecia o homem, e a relação entre pai e filho ainda era um mistério para ela.

Saku já tinha dito antes que eles não se davam bem e, sempre que Hana tocava no assunto do pai de Saku na mesa de jantar, o clima no cômodo pesava. Ela tinha aprendido a não perguntar.

Ela tinha ouvido de Towa, — uma funcionária veterana e a única que conseguia se safar chamando Saku de "Júnior" — que ele estava bem, então imaginou que teria a chance de conhecê-lo mais cedo ou mais tarde.

Mas chega de falar do pai de Saku. O problema no momento eram os ladrões que tinham invadido a sede da Associação.

"Você acha que consegue encontrar eles?" — perguntou Hana.

"Todo mundo que pode ser poupado está trabalhando na investigação. Parece que tem gente bem problemática envolvida, então os outros clãs também estão dando uma força."

"Gente problemática?" — ecoou ela.

"O Crânio e o Lírio-da-Aranha estão se movimentando."

"O c-crânio e o quê?" — Hana tombou a cabeça para o lado, confusa. A pergunta "Do que diabos você está falando?" estava estampada na cara dela.

Saku cobriu os olhos com uma das mãos.

"Você nasceu em uma família secundária de um dos cinco clãs... Como pode não saber disso?"

Ele parecia estar no limite da paciência, como se estivesse acusando Hana de... de algum tipo de crime. Isso deixou Hana irritada. — "Eu não sei o que eu não sei. 'O Crânio e o Lírio-da-Aranha', é? E daí? O que tem eles?"

"Um emblema com um crânio e um lírio-da-aranha cunhados foi encontrado na cena do crime. É conhecido por ser a marca de uma organização terrorista de longa data. Eles são comumente chamados de o Crânio de Nirvana."

A lírio-da-aranha é um símbolo do feriado budista Higan, quando as pessoas prestam homenagens aos seus antepassados.

"Que viagem" — disse ela, dando uma risadinha.

Saku deu um golpe de caratê na cabeça dela para fazê-la calar a boca antes de continuar, — "O Crânio de Nirvana é composto por escórias que querem derrubar os cinco clãs, que têm grande influência no país por causa da nossa missão de proteger os pilares. A desculpa deles é que querem libertar o país do domínio dos clãs."

"Uma ideologia bem clichê para um grupo terrorista" — disse Hana. — "Então eles sabem sobre os pilares. Isso significa que são todos de famílias de praticantes?"

"Exatamente. É um agrupamento de praticantes que, por qualquer motivo, foram menosprezados ou rejeitados. Nenhum deles é particularmente talentoso, por isso a gente costumava deixar a organização de lado. No entanto, recentemente, eles ganharam muito poder de repente e estão causando todo tipo de problema. Os crimes deles não podem mais ser ignorados. Os cinco clãs estavam prestes a emitir uma diretriz oficial para os praticantes ficarem alertas e trabalharem para desmantelar o grupo."

"Ah, entendi" — disse Hana, desinteressada, como se não fosse problema dela.

"Essas são pessoas que desprezam os cinco clãs pela nossa influência. Eles estão de olho, esperando uma brecha nas nossas defesas para derrubar os clãs. Os clãs são os inimigos deles. Isso significa que existe a chance de eles mirarem na esposa do líder dos Ichinomiya também. Ou seja, você, Hana."

"O quê?!" — Hana ficou boquiaberta encarando Saku. Ela estava tão otimista achando que os terroristas não teriam nada a ver com ela. — "Você está brincando, né?!"

"Infelizmente, não. Eles roubaram amuletos perigosos. Não há garantias de que não estejam planejando fazer algo extremo com eles."

Ela o fuzilou com os olhos. — "Isso é um desastre!"

"É o que eu estou tentando te dizer, sua idiota!" — Ele deu um peteleco forte na testa dela.

"Ai! O que pensa que está fazendo?!"

"Você não está me ouvindo."

"O que você esperava?" — protestou Hana. — "Posso até ser uma estudante do Colégio Obsidiana, mas eu sempre fiquei travada na Classe C. Eu ia viver a minha vida como uma pessoa normal. Não tinha o menor interesse em nada relacionado a praticantes e nem nos meus estudos."

"Você é a esposa do líder do clã. Comece a se interessar" — disse ele, secamente.

O discurso de Saku não mudou nada e — para a surpresa de ninguém — não serviu para inspirar Hana a estudar.

Ela ia se divorciar dele eventualmente, pegar sua indenização e viver o resto da vida sem preocupações.

Não tinha motivo para ela ficar decorando cada detalhe minucioso do mundo dos praticantes.

Saku, que provavelmente tinha adivinhado exatamente o que Hana estava pensando, deu um sorriso maldoso. — "Se você não mostrar nenhuma melhora, não vou ter escolha a não ser pedir para a minha mãe ser a sua tutora."

Uma ameaça terrível, se é que existia uma.

O rosto de Hana se contraiu de pavor. — "Qualquer coisa, menos isso!"

Não bastava a Mio ter uma personalidade tsundere, dava para notar só de olhar para ela que seria extremamente rígida quando o assunto fosse a educação da nora. Talvez ela fosse até uma perfeccionista?

Hana não duraria um dia estudando sob a tutela direta de Mio, sem sombra de dúvidas.

Mio era rígida tanto com os outros quanto consigo mesma, enquanto Hana era rígida com os outros, mas passava pano para si mesma. As duas se misturavam como água e óleo.

Seria guerra declarada entre a nora e a sogra.

"Então trate de se atualizar logo" — disse Saku, sem a menor compaixão.

Hana fez uma careta de desgosto.

"O quêêê? A gente vai se divorciar logo mesmo, então o que importa?"

A pálpebra de Saku tremeu. O rosto dele ficou tenso, mas mesmo assim ele forçou um sorriso nos lábios antes de partir para o ataque. — "Entendi, entendi" — disse ele. — "Você realmente está decidida a se divorciar de mim... Nesse caso, que tal eu te dar um motivo para ficar?" — Ele segurou a mão de Hana, puxou-a para perto e a empurrou contra os tatames.

Hana congelou. Agora que estava cara a cara com o rosto bonito de Saku a um sopro de distância, qualquer pensamento de fuga evaporou…

Arashi interveio calmamente. — "Não fica bem para um homem recorrer à força."

"Fica quieto. Os humanos têm emoções complexas que um deus nem sonharia em entender!" — retrucou Saku.

"Hum, ah é? É mesmo? Mas a Hana virou uma estátua de tanto choque. Você está de acordo com isso?"

"Mais do que de acordo. Está perfeito. Ela foge quando eu tenho tato. Usar a força é o único jeito."

[Coffeell: Isso daqui dá uma cadeia…]

"Você devia tratar as mulheres com carinho."

"Isso é um problema entre marido e mulher. Não se meta."

Por cima de Hana apoiado nas mãos e joelhos, Saku continuava batendo boca com Arashi. Ele não percebeu Hana tremendo de raiva em silêncio.

"Eu vou te mostrar o 'único jeito'! Seu velho tarado!" — gritou ela, acertando um soco direto no estômago de Saku de onde estava caída sob ele.

"Guh...!"

O belo cruzado de direita o deixou gemendo de dor e segurando o estômago. Ela emendou o soco com um chute que o mandou para longe.

Ela pegou Arashi nos braços.

"Arashi, as palavras são inúteis em momentos assim. Você tem que mandar ele voando igual o Aoi faz" — instruiu ela. — "Não fica só olhando, tá? Trate de pará-lo."

"Ah, é? Eu não tinha certeza se era certo eu me meter em um problema de casal..." — disse o shikigami.

"Está certíssimo, então da próxima vez me ajude imediatamente!" — insistiu ela, com uma expressão firme.

"Entendido." — Ao contrário de suas palavras, ele ainda parecia confuso, mas assentiu.

Enquanto isso, Saku finalmente tinha se recuperado o suficiente para se mexer, embora de forma travada; ele ainda estava com dor.

"Você quer me matar, Hana?!"

"Você colhe o que planta!"

"Foi você quem veio falar de divórcio. Eu só pensei que um bebê colocaria um fim em qualquer ideia dessas, não?"

"Isso seria mais um motivo para me separar!! É bom estar preparado para pagar um belo acordo de divórcio. Vou arrancar até o seu último centavo!"

A voz de Towa vinda do lado de fora do quarto de Hana interrompeu a discussão.

"Oh-hoh-hoh-hoh, ouvir os dois se dando tão bem deixa esta velha terrivelmente feliz." — Em seguida, ela anunciou: — "Júnior, você tem uma visita."

Pelo visto, era hora de Saku voltar ao trabalho.

Com uma expressão exasperada e a mão na barriga, ele se levantou com dificuldade.

"Já chega desse 'Júnior', Towa."

Ela riu e passou a ignorar a ordem dele imediatamente.

"Hoh-hoh-hoh. Como quiser, Júnior."

A expressão dele murchou. Ele chamava a atenção dela todas as vezes, mas Towa era alguém que ele simplesmente não conseguia peitar. Ele parecia conformado.

Towa trabalhava para os Ichinomiyas desde antes de Saku nascer. Na verdade, sob aquele teto, ela talvez fosse a mais poderosa de todos. Até mesmo a rabugenta e severa Mio tratava Towa, e apenas ela, com um nível de cortesia formal. Estava claro que ela reconhecia a posição da empregada mais velha.

Ao sair do quarto de Hana, Saku parou e olhou para trás. — "Como eu disse antes, cuidado com o Crânio de Nirvana. Faça questão de pegar o carro para ir e voltar da escola."

"Tááá. Vou ficar de olho" — disse ela, — "não que eu saiba como é a cara de um terrorista."

"Não tem jeito. Só não saia seguindo ninguém suspeito."

"Não precisa se preocupar com isso. Não sou nenhuma criança."

O que você é, a minha mãe? a reclamação passou pela mente de Hana, vendo o quanto ele estava mimando e se preocupando com ela. Ela olhou para ele com uma expressão de saco cheio.

"Vou ficar ocupado por enquanto. Se precisar de alguma coisa, peça para a minha mãe" — disse Saku.

"Entendi."

Os lábios dele se curvaram em um sorriso. — "Comporte-se." — Ele bagunçou o cabelo dela e saiu do quarto.

◆

Como Saku havia previsto, ele ficou atolado de trabalho e passava os dias numa correria danada, entrando e saindo da residência. Ele estava tão ocupado que nem aparecia para as refeições em família, deixando vazia a cadeira do líder do clã.

"O Saku saiu a negócios de novo hoje?" — perguntou Hana para Towa.

"Parece que sim" — respondeu a empregada com uma expressão de desculpas, embora não tivesse culpa de nada.

"Eles ainda não foram recuperados...?" — murmurou Hana para si mesma, referindo-se aos amuletos roubados da sede. Se os clãs queriam pegá-los de volta, precisavam agir rápido.

"Senhorita Hana, você não tem registro na Associação e, além do mais, é apenas uma estudante. Este assunto não lhe diz respeito" — disse a mãe de Saku. — "Você deve se portar adequadamente como a matriarca do clã."

O tom de Mio era severo, fazendo quem ouvisse se sentir levando uma bronca, e seus olhos amendoados sempre pareciam cheios de julgamento. No começo, Hana se sentia intimidada pela postura rígida de Mio, mas recentemente vinha percebendo relances de um lado mais brando e oculto da matriarca.

Mesmo agora, aquelas palavras que soavam como um sermão eram, na verdade, uma tentativa de confortá-la. Ela estava dizendo para Hana não esquentar a cabeça. Que jeito mais torto de demonstrar carinho.

Hana não podia deixar de pensar que falar sempre de forma tão dura e encarar os outros daquele jeito devia dar um trabalho enorme para Mio.

Felizmente, os funcionários da casa já estavam mais do que acostumados com a personalidade cheia de curvas da patroa.

Hana instintivamente endireitou a postura, como sempre fazia ao falar com Mio. —"S-sim, senhora!"

"Muito bem. Então vamos comer."

Satisfeita com a resposta de Hana, Mio pegou seus palitinhos. Hana e Nozomu, que observava tudo em silêncio de canto, pegaram os deles também e começaram a comer.

Os três terminaram o café da manhã rapidinho. Era hora de Hana e Nozomu irem para a escola.

"Nozomuuu. Por que você não vai para a escola com a sua maninha de vez em quando?" — provocou Hana.

"Por que eu faria isso, sua idiota?! Não pense que você tem a minha aprovação!" — gritou Nozomu, com o rosto vermelho igual a um pimentão. Ele entrou em seu carro particular e o motorista deu a partida imediatamente.

Hana o viu ir embora com um sorriso de orelha a orelha. Se Saku estivesse ali, teria dito para ela parar de pegar no pé de Nozomu.

Já fazia um tempo desde que ela tinha ido morar com os Ichinomiyas, mas, mesmo agora, ela e Nozomu mal trocavam mais do que palavras básicas.

Contudo, ela acabou descobrindo por acaso que Nozomu nutria um "complexo de irmão" secreto. Ele costumava dar patadas apesar de amar e admirar o Saku, e ela simplesmente não conseguia resistir à tentação de espetar o garoto marrento. Como resultado, ele fugia dela como o diabo foge da cruz, mas ela continuava se aproximando sem dar a mínima para a atitude dele.

O próprio Nozomu ainda não tinha se tocado de que ela sabia do seu segredo, o que era um prato cheio para Hana. Ela estava de olho aberto, esperando a oportunidade perfeita para colocar aquela carta na mesa.

"Quando será que eu devo usar a magatama?" — pensou ela, animada, enquanto entrava em seu próprio carro.

[Pipoc4h: Aaah, a Hana é sem vergonha man, ela vai meter um faz isso pra mim q eu te do isso ai e vc fica combinando com seu irmão kkkkk]

Na escola, Hana ainda era vista como um zero à esquerda. Como já havia mostrado seus poderes diante da família Ichinomiya, os parentes e os funcionários sabiam de suas verdadeiras habilidades. No entanto, fora dos portões da propriedade, a reputação dela mudava da água para o vinho.

Ela também já tinha dado uma surra daquelas no Nozomu, mas esse pequeno detalhe não tinha virado fofoca no Colégio Obsidiana.

Como segundo filho da família principal dos Ichinomiya, ele sem dúvida morria de vergonha por não ter conseguido mover um dedo contra Hana, filha de uma mera família secundária — ainda mais porque, para todo mundo, ela era conhecida como os "restos" de sua irmã mais velha.

Hana não o culpava por isso — ela conhecia bem o orgulho inflado dos alunos da Classe A — e também não tinha a menor intenção de sair espalhando a história da sua vitória.

Ela esperava poder continuar se passando por uma incompetente, mas sua fachada estava começando a rachar.

O motivo era o Saku. Desde que se casaram, ele vinha explorando as habilidades dela. O incidente do inugami e a faxina na mansão de veraneio eram só o começo. Ele com certeza iria exigir mais dela daqui para frente e, quanto mais ela ajudasse o Saku, maior seria o risco de seu verdadeiro poder vazar para o mundo.

Se o seu segredo viesse à tona, ela não teria outra escolha a não ser chutar o balde. Ela já tinha decidido que deixaria as consequências e as dores de cabeça para Saku resolver. Enquanto isso não acontecia, ela assistia às aulas normalmente.

No momento, Hana estava na sala ouvindo uma palestra e morrendo de tédio. Ela disfarçou um bocejo atrás do livro didático.

Ela nunca teve o menor desejo de se tornar uma praticante, então não via motivo nenhum para frequentar o Colégio Obsidiana.

Como Saku tinha dito para ela focar nos estudos, ela estava acordada, o que por si só já era milagre, mas não tinha como lutar contra as ondas de sono que a atropelavam.

Desista. Tira um cochilo — sussurrou o diabinho em seu ombro.

Ela pensou que poderia tentar de novo no dia seguinte e estava prestes a entrar no mundo dos sonhos quando um alto kaboom ecoou do pátio da escola.

A onda de choque daquela explosão ensurdecedora fez as janelas tremerem e deixou Hana bem acordada.

Os alunos começaram a cochichar, cheios de curiosidade, e ignoraram a aula na hora para se amontoarem nas janelas.

"Isso foi uma explosão?"

"Aconteceu alguma coisa?"

"A Classe A não está em aula prática agora?"

A menção à Classe A fisgou a atenção de Hana. Ela abriu caminho em meio ao bando de curiosos e olhou pela janela, vendo os alunos do terceiro ano da Classe A no meio da aula. Instintivamente, ela varreu a multidão com os olhos à procura de Hazuki.

Além dos alunos, o pátio estava lotado de shikigamis. Será que estavam duelando usando as criaturas? Hana estava com dificuldade para achar a Hazuki naquele formigueiro...

"Ali! Achei a sua irmã, Hana!" — exclamou sua melhor amiga, Suzu. Ela tinha se aproximado enquanto Hana estava distraída.

Hana olhou para onde Suzu apontava. Perto de uma cratera, onde provavelmente a explosão tinha acontecido, estava Hazuki.

Hana viu Nozomu correr para o lado de sua irmã com a cara pálida, mas os outros alunos mantinham distância.

O que diabos tinha acontecido? Hana não conseguia entender dali de onde estava.

"Azuha, você pode ocultar a sua presença e dar uma espiada para mim?" — pediu ela.

Como estava cercada por colegas de classe, Azuha não respondeu, apenas sumiu de forma silenciosa.

O professor bateu palmas bem forte para chamar a atenção de todos. — "Muito bem, acalmem-se e voltem para os seus lugares!"

Todo mundo ainda estava super curioso, claro, mas parecia que a aula prática tinha sido cancelada por aquele dia. Lá fora, no pátio, os alunos da Classe A estavam recolhendo seus shikigamis, então os alunos da Classe C desgrudaram das janelas e se sentaram de novo.

Contudo, a cabeça deles continuava no incidente e ninguém conseguiu focar no resto da aula.

Azuha voltou durante o intervalo. Como Hana não queria que ninguém soubesse que a borboleta conseguia falar, decidiu matar a próxima aula.

Ela se refugiou em uma sala vazia e ergueu uma barreira para evitar que outras pessoas entrassem.

"O que você descobriu?" — perguntou ela a Azuha.

"Parece que a sua irmã mais velha perdeu o controle do poder dela" — respondeu a shikigami.

"A Hazuki?"

Hana ficou surpresa. Embora Hazuki fosse poderosa o suficiente para manifestar um shikigami humano, Hana nunca tinha ouvido falar do poder de sua irmã sair do controle.

Hazuki sempre foi ótima em dosar sua energia. Desde criancinha, ela mantinha um controle rígido sobre si mesma.

Hana achava difícil de acreditar que logo a Hazuki deixaria o poder escapar desse jeito nessa idade.

"Isso significa que alguma coisa mexeu tanto com ela que ela não conseguiu controlar?" — murmurou Hana.

Todos os praticantes sabiam que o estado emocional influenciava demais os poderes. Por isso, essa foi a primeira explicação que veio à mente.

No entanto, como Hana tinha saído da casa dos Ichises, não tinha como saber o que andava rolando na vida da Hazuki ultimamente.

"Isso te preocupa, Mestra?" — perguntou Azuha, na lata.

O rosto de Hana se contraiu, como se tivesse mordido um limão azedo. — "Pode-se dizer que sim..."

Ela achava que tinha cortado todos os laços com a família quando saiu de casa, mas ainda assim não conseguia evitar e ficar preocupada com Hazuki.

Se fosse um problema envolvendo seus pais, ela simplesmente daria de ombros e diria um Ah, saquei, mas era a Hazuki. Ela podia tentar fechar os olhos o quanto quisesse, mas a curiosidade falava mais alto. Será que era por serem gêmeas?

Mas Hana pensou que, mesmo se metesse o nariz ali agora, Hazuki apenas cobraria satisfações sobre o motivo de ela estar se intrometendo e a mandaria embora.

Hana não tinha mais o direito de se importar com Hazuki. A própria Hana tinha garantido que as coisas fossem assim.

"O que eu faço...?"

O irmão mais velho delas, Yanagi, talvez soubesse de algo.

Entretanto, fazia uma eternidade que ela não falava com Yanagi. Nem preciso dizer que ela sequer tinha o número dele.

Mesmo se pudesse ligar, o que ela diria?

Pensando bem, Yanagi quase nunca parava em casa, então Hana não botava muita fé de que ele saberia da situação de Hazuki.

Eles podiam ser irmãos, mas a relação deles era fina como um fio de cabelo. Talvez não houvesse nada útil que ela pudesse dizer.

"Ah, eu não sei mais," — resmungou Hana.

Ela tinha certeza de que a família Ichise era o motivo de Hazuki ter ficado abalada a ponto de perder o controle. Aqueles pais, que viam os filhos como meras ferramentas, provavelmente tinham exigido alguma coisa impossível dela.

Hana tinha fugido por não aguentar mais viver com eles.

Sempre que pensava no fato de que Hazuki ainda vivia naquela gaiola que os pais tinham construído, Hana era atingida por um sentimento sem nome.

"Ela... não deveria significar mais nada para mim..."

Hana cobriu os olhos com as duas mãos, tentando esconder as emoções que achava ter jogado fora há muito tempo, mas que agora vinham à tona.

O que exatamente ela deveria fazer?

Ela não tinha respostas. Uma onda de impotência a atropelou, deixando-a completamente paralisada.

◆

O dia de aula terminou com Hana ainda sem a menor ideia do que fazer. Para piorar, ela tinha esquecido completamente o aviso de Saku para estar sempre alerta, e resolveu pegar um desvio no caminho para casa só para mudar um pouco o ritmo.

Mais adiante ficava um café que servia um parfait que ela adorava.

[Coffeell: “Parfait” é, aparentemente, um doce francês tipo sorvete]

Seu rosto podia até parecer contraído de tanta concentração, mas sua cabeça estava focada única e exclusivamente na sobremesa.

"Parfait gostoso, que coisa divina. Vem pro meu estômago, delicinha!" — cantarolava ela, inventando a letra no ritmo de seus passos.

Sua cantoria foi interrompida por alguém chamando por ela do nada. — "Com licença... você é a Senhorita Hana Ichise, correto?"

A voz fofa fez Hana parar na hora. Ela se virou e deu de cara com uma garota mais ou menos da sua idade, que parecia inquieta e nervosa, encarando-a fixamente. Seu cabelo castanho era cortado em um estilo bob com ondas bem soltas emoldurando seu rosto. Os olhos caídos davam a ela uma eterna carinha de cachorrinho carente; o efeito era adorável e dava uma vontade imediata de protegê-la.

Ao lado dela, estava um jovem com porte atlético, traços bem parecidos e cabelo preto bem curto. Ele era um pouco mais alto que Nozomu.

Hana levou um susto ao vê-los e deu um passo para trás. Não havia nada de mais naquele par, mas logo atrás deles se erguiam homens de terno com olhares tão mortais que pareciam estátuas dos guardiões budistas Nio.

[Pipoc4h: Guardiões Nio, também conhecidos como Kongorikishi, são espíritos protetores do budismo, geralmente tem alguma estátua nos templos budistas.]

Bastou um único olhar para Hana saber que não deveria se meter com aquela gente, então ela deu meia-volta e saiu correndo.

A garota entrou em pânico e gritou para as costas de Hana. — "E-espera! Por favor!!"

Ninguém era bobo o suficiente para obedecer a um apelo daqueles. As palavras da garota só serviram de incentivo para Hana correr ainda mais rápido. Os guardiões de terno começaram a persegui-la também. Que terror.

Infelizmente, o rapaz a alcançou com facilidade. Quando ela puxou o braço com força, ele a soltou sem resistência.

Quando a garota finalmente os alcançou, ela reclamou, ofegante, — "Poxa! Por que você correu?" — Seus olhos estavam brilhando com lágrimas de frustração.

"E quem não correria numa situação dessas?!" — rebateu Hana. A garota por acaso não estava vendo os deuses da ira logo atrás dela? Diante de uma pressão tão intimidadora, qualquer um escolheria dar no pé.

A garota recuperou o fôlego. Ela ainda parecia bastante nervosa, mas sua voz foi firme quando disse:

"Temos negócios a tratar com você. Venha conosco."

"Nem pensar." — A recusa de Hana veio logo em seguida à exigência da garota. — "Recebi ordens expressas para não sair acompanhando pessoas suspeitas."

"Nós não somos suspeitos!" — protestou a garota, com a voz tremendo de indignação.

"É exatamente isso o que todas as pessoas suspeitas dizem."

"Mas não somos!"

Hana teve uma sensação de déjà vu — ela já não tinha tido essa exata conversa antes? Ela tentou passar por eles, mas o rapaz segurou seu pulso novamente. Ela o fuzilou com os olhos em silêncio. Ele sustentou o olhar sem dizer uma palavra. Sua expressão não mudou nem um milímetro.

Enquanto os dois se encaravam, a garota gesticulou para um dos homens de preto se aproximar e arrancou o pingente que estava pendurado no pescoço dele.

Hana ficou chocada ao ver que era algo que ela reconhecia muito bem. — "Isso é... o pingente da Associação de Praticantes."

Os outros se inclinaram para mostrar seus pingentes a Hana também. Todos eles eram brancos ou dourados, sem exceção, o que significava que eram todos praticantes de Primeira ou Segunda Cor, apesar de terem a presença intimidadora de um ranque Obsidiana pelas aparências. Que anticlimático.

Mas como prova de identidade, os pingentes cumpriram muito bem o seu papel.

A garota disse, — "Vai nos escutar agora?"

"Por enquanto. Mas não entenda errado, eu não confio em vocês" — disse Hana. — "Vocês ficaram sabendo dos invasores que entraram na Associação, né? Pelo que dizem, os culpados eram praticantes."

"N-nós não tivemos nada a ver com isso!"

"Então provem."

Hana deixou Azuha de prontidão para que pudesse fugir no instante em que a dupla fizesse qualquer movimento suspeito.

A garota ficou completamente desnorteada com a guarda alta e a desconfiança de Hana, e os olhos dela se encheram de lágrimas. — "Provas... provas... er, bem..." — gaguejou ela. Por fim, ela buscou ajuda do rapaz que mantinha o pulso de Hana preso. — "Kiriya, o que a gente faz?"

Kiriya tirou o celular do bolso e mostrou a tela para Hana, que exibia uma foto de Saku; sorrindo ao lado dele estava a garota bem ali na sua frente.

Os olhos de Hana se arregalaram. — "Vocês são amigos do Saku?"

O rapaz então abriu a boca pela primeira vez. — "Somos os netos do chefe do clã Nijouin. Eu sou Kiriya. Esta é Kikiyo. É um prazer conhecê-la." — Ele fez uma reverência educada, embora continuasse com a mesma cara de paisagem.

Hana ficou boquiaberta. Meio em transe, ela retribuiu a reverência. — "O prazer é meu. Obrigada pela cortesia." — Ao se endireitar, ela de repente juntou as peças do que ele tinha dito. — "Espera, netos? Do clã Nijouin?"

"Sim, isso mesmo" — respondeu ele.

"Ah, entendi... Ah-ha-ha-ha..." — Ela teve que rir. Se o Saku descobrisse que ela tinha chamado os descendentes diretos da linhagem Nijouin de suspeitos, ele ia arrancar o couro dela.

"Aí está a sua prova, tudo bem? Agora você vem com a gente?" — perguntou Kikiyo. Ela era tão tímida que Hana sentiu vontade de perguntar do que ela tinha tanto medo.

Se eles eram do clã Nijouin, não havia motivo para recusar. Hana assentiu. Azuha estava pronta para usar seu poder assim que Hana desse o sinal, mas ela a dispensou da guarda.

Hana decidiu que poderia ouvir o que eles tinham a dizer no café onde já estava planejando ir. Lá, ela pediu o parfait mais famoso da casa. Os funcionários trouxeram água para eles após anotarem o pedido.

Os assentos ao redor de Hana, Kikiyo e Kiriya foram completamente ocupados pelos clones de guardiões Nio.

Que cena mais surreal.

O café era popular, mas havia poucos clientes no momento. Os homens de preto sem dúvida eram o motivo. Eles lotavam os assentos perto da janela, visíveis do lado de fora, e assustavam os pedestres na rua.

Hana ficou preocupada de eles levarem uma bronca por estarem espantando a clientela da loja.

Ela deu um gole em sua bebida, suspirou e tomou a iniciativa de começar a conversa. — "Então? O que vocês queriam falar comigo?"

Ela olhou para Kikiyo e Kiriya alternadamente, mas Kiriya parecia estar esperando Kikiyo falar. Quem tinha negócios com Hana era ela.

"...com...miya..." — murmurou Kikiyo em uma voz quase inaudível.

"Como é?" — perguntou Hana.

"Por favor, termine com o Mestre Ichinomiya!"

Hana ficou de queixo caído. — "O quê?"

Kikiyo continuou, sem se importar com o choque de Hana:

"O Mestre Ichinomiya é uma pessoa excepcional! Ele é o praticante mais jovem da história a conseguir o ranque Obsidiana, tornou-se o líder do clã super cedo e restaurou a barreira ao redor do pilar sem o menor problema. É um homem e um praticante brilhante. E ainda assim, a pessoa que se tornou esposa dele foi uma... uma incompetente como você."

Ela olhava de relance para Hana enquanto falava, como se estivesse checando se Hana estava com raiva dela.

"Eu até aguentaria se a sua irmã gêmea tivesse sido a escolhida, mas comparada a você, eu com certeza seria muito mais útil para o Mestre Ichinomiya!"

"Resumindo," — disse Hana, — "você está caidinha pelo Saku e quer ser a esposa dele."

Kikiyo olhou para a mesa, com as bochechas vermelhas feito pimentão. — "I-I-Isso... eu não..."

Depois daquele discurso todo afiado, ela resolvia ficar tímida logo agora?

"Bom, eu vou pensar no caso" — disse Hana.

O rosto da garota se iluminou instantaneamente.

"O quê?! Sério?!"

Mas por mais que quisesse, Hana não podia simplesmente encerrar o assunto com um Sim, claro. Em vez disso, ela disse, — "É, mas..."

"Mas o quê?"

"...eu cortei relações com os Ichises, sabe? O Saku está me dando apoio com várias coisas, e eu também pedi a ajuda dele para arranjar um emprego" — explicou Hana. — "Se eu me separar dele, vou ter que começar do zero absoluta e dar um jeito de me virar sozinha para sobreviver."

Eles iam se divorciar de qualquer forma, mas provavelmente não seria tão cedo.

Isso porque Saku estava estranhamente fixado nela no momento, então, até que ele perdesse o interesse, o divórcio estava fora de cogitação.

No fim das contas, o que Hana dizia não importava muito. A diferença de autoridade entre eles era enorme.

"Então não sei se consigo me divorciar dele" — concluiu Hana com um sorriso amargo, querendo encerrar o assunto.

Porém, Kikiyo deslizou suavemente um cheque assinado em branco e os papéis de divórcio já preenchidos para Hana. Enquanto Hana ficava atônita, Kikiyo disse:

"Eu te dou um bilhão de ienes se você deixar o Mestre Ichinomiya."

Hana ficou muda diante da quantia absurda.

Kikiyo interpretou o silêncio como recusa e aumentou a oferta:

"Um bilhão e meio."

Como Hana ainda não respondia, Kikiyo foi para o tudo ou nada:

"Três bilhões!"

Cha-ching! O som de caixa registradora soou na cabeça de Hana. — "Onde eu assino?" — perguntou ela, puxando animadamente uma caneta da bolsa e estendendo a mão para os papéis.

Kikiyo se alegrou. — "Consegui, Kiriya!"

Ele acariciou a cabeça dela sem expressão. — "Bom trabalho. Você foi bem." — Apesar da voz monocórdia e do rosto de pedra, que não tinham mudado o tempo todo, ele parecia se dar bem com Kikiyo.

São completamente diferentes da minha família, pensou Hana. Mas esse pensamento logo foi ofuscado pela perspectiva daquele dinheiro absurdo que estava prestes a receber.

"Então aqui? Eu assino aqui?" — perguntou Hana novamente.

"Isso mesmo!" — respondeu Kikiyo.

"Você realmente vai me dar três bilhões de ienes? Isso não é golpe?"

"Claro que vou! A reputação do clã Nijouin está em jogo. Vou te compensar direitinho, então você também tem que cumprir sua parte e assinar."

"Tá, tá. Eu assino alegremente qualquer coisa que você quiser."

Hana encostou a caneta no papel, de ótimo humor.

"‘Alegremente’ o cacete, sua idiota!"

O xingamento inesperado veio acompanhado do assobio de uma mão cortando o ar. A pancada na nuca a jogou para frente. Ela só conseguiu evitar bater a testa na mesa por pouco.

Hana se virou e viu Saku parado atrás dela, com uma veia pulsando na têmpora.

"Merda, Saku" — xingou ela.

Saku a encarou, perplexo.

"Como assim ‘merda’?!" — exigiu ele. — "Os seguranças que eu te designei me avisaram que você estava nas garras de uns delinquentes da família principal Nijouin. Larguei tudo e vim correndo..."

Ele arrancou os papéis de divórcio de baixo da mão dela e os rasgou em pedacinhos.

"Nããão. Meus três bilhões de ienes!" — lamentou Hana.

"Sua gananciosa. Não se deixe cegar pelo dinheiro assim tão fácil." — Ele deu mais uma pancadinha leve na cabeça dela. — "O que você pensa que está fazendo?! Eu te disse pra ir e voltar de carro da escola! Você ignorou todas as minhas instruções e saiu correndo com estranhos sem pensar duas vezes! Ninguém te ensinou a não aceitar doce de estranho?"

"Você não precisa gritar no meu ouvido! Eu escuto!" — retrucou ela. — "Além disso, você pode me culpar? São três bilhões. Bilhões! Eu tinha que arriscar, mesmo que fosse golpe!"

"Não arrisca, sua burra gigante! Pessoas normais sabem recusar uma proposta tão suspeita." — Saku rasgou também o cheque que estava na mesa.

Hana soltou um gemido de agonia. — "Meus três bilhões!"

"Não são seus. Desiste" — disse Saku com dureza. Depois virou o olhar para os dois do outro lado da mesa. — "...Qual é a de vocês, Kikiyo, Kiriya?"

Kikiyo empalideceu, tremendo de tensão. — "Ah, hum, Mestre Ichinomiya..."

Kiriya apenas o encarou sem reação.

"Não sei que tipo de propaganda vocês estão enfiando na cabeça dela, mas eu não tenho a menor intenção de me divorciar da Hana."

Uma expressão magoada surgiu no rosto de Kikiyo com a rejeição direta de Saku. Ele a ignorou e continuou, — "Esse casamento é um problema particular da família Ichinomiya. Pessoas do clã Nijouin não têm nada a ver com isso. Se vocês incomodarem Hana de novo, não vou ter escolha senão levar minhas queixas diretamente para o chefe do clã de vocês, de chefe para chefe, entenderam?"

"Eek, o vovô não!" — gritou Kikiyo, abalada pela ameaça.

"..." — Kiriya não respondeu, mas sua expressão mudou pela primeira vez, contorcendo-se de desagrado.

Enquanto Hana se maravilhava com o raro sinal de emoção, Saku segurou sua mão e a puxou em direção à saída. Quando estavam saindo, a garçonete chegou com o parfait que ela havia pedido. Hana fincou os pés, mas foi arrastada implacavelmente.

"Saku, espera! Meu parfait!" — choramingou ela.

"Esquece."

"Eu não quero!"

Mas a resistência foi inútil. Saku a arrastou para fora do café e a jogou dentro do carro estacionado na frente. Ela se bateu em vários lugares no caminho. O corpo doía por conta do impacto.

"Você é bruto demais. Não consegue ser mais gentil?" — reclamou ela.

O canto da boca de Saku tremeu. — "Quem é que fica arrumando confusão justo quando eu estou atolado de trabalho? Por que você não tenta agir como adulta?"

"Você que está sendo injusto. Eu estava só indo no meu canto, animada com meu parfait, quando eles apareceram atrás de mim."

"Ah, é? Mas você parecia bem animadinha pra assinar os papéis de divórcio, hein?"

"Isso... Hum, é que..." — Uma boa desculpa não vinha à mente de Hana. Seu olhar desviava inquieto.

Enquanto ela gaguejava, a mão de Saku disparou e segurou seu queixo. Ele se inclinou e a beijou. Com a outra mão, segurou a nuca dela, como se soubesse exatamente o que ela estava pensando, e bloqueou qualquer rota de fuga.

Sem como resistir, Hana só pôde esperar Saku se satisfazer.

Ele a beijou devagar e profundamente, saboreando cada segundo. Quando se deu por satisfeito, afastou-se lentamente, com os lábios curvados num sorriso travesso. Seu bom humor fazia a irritação de antes parecer mentira.

Hana estava ofegante e com o rosto queimando. — "Saku seu idiota..." — conseguiu xingar, reunindo todas as forças que lhe restavam.

"Mas você não odiou, né?" — disse ele com um sorriso arrogante e irritante.

No entanto, ele não estava errado. Hana ficou irritada por ele ter percebido que o beijo não a havia desagradado.

Como pequena vingança, ela limpou a boca com as costas da mão.

"Você me magoa" — disse ele.

"Bem feito!" — gritou ela. — "Você..." — A lembrança do beijo voltou com força. O calor que diminuía no corpo dela reacendeu e subiu para o rosto.

"Foi bom?" — provocou ele.

"Idiota!"

[Pipoc4h: Baka, brincadeiras a parte, o Saku tá querendo muito que o negócio vai pra frente e a Hana já gosta do cara e nem percebe]

[Coffeell: Ele tá pra frente até de mais]

Se tivesse alguma coisa que pudesse usar como arma por perto, ela teria acertado na cabeça dele sem pensar duas vezes.

"Bom, de qualquer forma, eu estou falando sério" — disse ele, mudando o tom de brincalhão para sério num instante. — "Você deveria evitar sair o máximo possível."

Hana ficou séria. — "Está tão ruim assim?"

"Vários praticantes já foram mortos."

Ela engoliu em seco.

"Os culpados não vão parar por nada" — continuou Saku. — "As pessoas relacionadas aos cinco clãs estão em maior perigo. Eu já avisei minha mãe e os outros para ficarem atentos também."

"Isso não te coloca como alvo também?" — perguntou Hana.

"Quem você acha que eu sou?" — debochou ele. — "Sou o gênio que alcançou o ranque Obsidiana na idade mais jovem. Não precisa se preocupar comigo."

A atitude despreocupada de Saku não diminuiu as preocupações de Hana.

Ele sorriu suavemente.

"Seja boazinha." — Então a beijou de novo, um toque suave e breve nos lábios, e saiu do carro.

"Você também, tome cuidado, Saku."

Hana não conseguiu pensar em nada mais útil, mas mesmo assim suas palavras simples fizeram um sorriso feliz surgir no rosto de Saku.

"Eu vou" — respondeu ele.

A porta se fechou com um baque. O carro arrancou, deixando Saku para trás.

Hana observou Saku pela janela traseira, com uma expressão ansiosa, até ele sumir completamente de vista.

◆

Alguns dias após Hana ter sido emboscada por Kikiyo e Kiriya, Suzu correu até ela, cheia de empolgação, assim que chegou à escola.

"Ei, Hana, ficou sabendo? A Classe A do terceiro ano vai receber alunos novos hoje! Ouvi dizer que eles vieram de outra filial do Colégio" — disse Suzu.

"Ah, é?" — respondeu Hana, sem o menor interesse.

Suzu fez bico. — "Por que você não fica mais animada?"

"E por que você está tão empolgada, para começar?" — rebateu Hana. — "A Classe A não tem nada a ver com a gente, os ralés da Classe C."

A Classe A olhava para a Classe C como se fossem chiclete pisado no chão. Era um acordo silencioso entre os alunos da Classe C que eles não deveriam se meter com a outra turma e que, mesmo se tentassem, nada de bom aconteceria. A menos que fosse uma emergência, eles nem passavam perto da sala da Classe A.

Os alunos de lá também nunca se davam ao trabalho de se aproximar dos estudantes da Classe C, já que a classe inferior estava abaixo do nível de atenção deles.

"Os alunos novos são os netos da família principal dos Nijouin, sabia? E são gêmeos, que nem você e a Hazuki" — explicou Suzu. — "Fiquei sabendo que eles foram indicados para serem os próximos chefes da família! Eles devem ser incríveis, não acha?"

"Hum."

O calor do falatório entusiasmado de Suzu batia de frente com a indiferença gélida de Hana.

Era natural que Suzu estivesse fazendo tanto alarde por causa daquela transferência.

Para um praticante de nível baixo, os líderes dos cinco clãs eram seres intocáveis, alvos naturais tanto de inveja quanto de admiração.

Olhando ao redor, Hana percebeu que a sala de aula inteira estava fervilhando com conversas sobre os alunos novos.

O Colégio Obsidiana, escola que todos os filhos de famílias de praticantes eram obrigados a frequentar, era na verdade uma rede de colégios com filiais nas regiões onde cada um dos cinco clãs ficava baseado.

Hana frequentava o Campus Um do Colégio Obsidiana. Os gêmeos Nijouin estavam se transferindo do Campus Dois.

"Mas vai ver eles são só pessoas normais" — disse Hana.

"Claro, talvez não sejam nada que a esposa do líder dos Ichinomiya se digne a dar importância" — alfinetou Suzu.

"Não é isso. Eu também não conheci nenhum dos outros líderes além do Saku."

"Sério?"

"Sério. Ah, quer dizer, eu conheci os netos do chefe dos Nijouin recentemente. Uma garota e um cara, Kikiyo e Kiriya."

No instante em que esses nomes saíram da boca de Hana, a expressão de Suzu mudou para puro espanto. Ela segurou Hana pelos ombros. — "Esses são os alunos novos, Hana!"

"O quê? Está falando sério?"

A última vez que Hana tinha levado um choque tão grande foi quando Suzu anunciou que tinha arranjado um namorado.

Havia o fato de os dois serem gêmeos, mas, além disso, ela não conseguia deixar de pensar que nenhum deles parecia poderoso o suficiente para ser candidato à sucessão do clã. Ela não conseguia imaginar, de jeito nenhum, a acuada Kikiyo liderando um clã.

Com alguém como ela no comando, o resto da família com certeza ficaria de cabelo em pé. Pensando por esse lado, talvez um cara teimoso e arrogante como o Saku fosse realmente o mais indicado para ser o líder.

O alvoroço diminuiu quando o professor deles entrou na sala assim que o sinal tocou.

A chamada emendou direto na primeira aula.

Até aquele momento, Hana encarava as aulas com a mesma disposição que encarava os intervalos, ou seja, nenhuma. No entanto, recentemente, ela tinha começado a fazer anotações de verdade.

Não era nada para se gabar — anotar a matéria era o normal para qualquer estudante —, mas era um sinal chocante de evolução drástica para Hana, cuja definição de aula sempre foi sinônimo de hora da soneca.

Ver Hana acordada e escrevendo sério deixou uma profunda impressão em seus professores, que comentavam: "Você vai finalmente levar as aulas a sério?". O comportamento incomum dela enviou ondas de choque pelos professores que davam aula para a Classe C.

Ficava cristalino o quanto Hana tinha evitado seguir o caminho para se tornar uma praticante até então.

Saku, que andava ocupado demais ultimamente para passar algum tempo de verdade com ela, tinha ameaçado reportá-la para Mio imediatamente se ela bombasse em qualquer uma das próximas provas, e Hana estava desesperada para evitar as sessões de tutoria especial com a sogra. Durante o intervalo entre as aulas, ela copiava dos cadernos que pegou emprestados com a Suzu das matérias que tinha matado antes.

"Hana, o que deu em você para ter esse ataque repentino de estudos?" — perguntou Suzu.

"Vou virar o próprio demônio dos estudos até essas provas acabarem e vou passar em cada uma delas" — jurou Hana.

"Ih? Não está querendo dar um passo maior que a perna?"

A resposta dolorosa de sua melhor amiga podou na hora a rara explosão de motivação de Hana.

"Suzuuu..." — choramingou ela.

"Seja realista, Hana. Você ficou de recuperação em todas as provas desde que entrou no colégio."

"Ai, não fala assim."

Na época do ensino fundamental, pelo desejo de ser elogiada pelos pais, Hana tinha chegado ao ponto de sacrificar o sono pelos estudos e, como resultado, conseguia notas relativamente boas.

No entanto, depois que seus pais desistiram dela, estudar perdeu o sentido. Desde então, ela vinha fazendo o mínimo do mínimo.

Depois, ela entrou no Colégio Obsidiana e foi colocada na Classe C, bem como queria, e o último pingo de esperança que seus pais tinham nela evaporou. Livre da maldição dos pais, ela pôde fazer o que bem entendesse. Era quase fascinante como as notas dela despencaram ladeira abaixo. E ela nem tinha se dado ao trabalho de esconder.

Seus pais ficaram furiosos no início, mas logo voltaram as atenções para Hazuki, o que significava que, felizmente, Hana estava livre para ignorar as aulas e os estudos como quisesse. Não era surpresa que Hana tivesse deixado um rastro de reprovações pelo caminho.

Não que ela fosse burra, mas claramente lhe faltava bagagem de conhecimento.

"Eu estou numa situação muito ruim! Desse jeito, eu tô ferrada" — reclamou Hana. Ela estava se arrependendo de ter casado com o Saku mais do que nunca. — "Me ensina, Suzu."

"De jeito nenhum. Sem chance" — disse Suzu. — "Minhas notas também não são lá essas coisas. Além do mais, você tem uma irmã na Classe A."

"Se eu pudesse, pediria para ela..." — murmurou Hana para si mesma, mas sua voz saiu baixa demais para Suzu ouvir. Sua amiga tombou a cabeça, confusa. — "Deixa para lá. A Hazuki está em outra sala, então não é como se eu pudesse simplesmente ir lá e pedir, né?"

"É verdade. É um degrau alto demais para a gente ir até a Classe A."

"Exatamente."

Hana ficou aliviada por ter achado uma desculpa que Suzu aceitasse. Ela não tinha contado para Suzu sobre como era tratada na casa dos Ichises, nem que tinha cortado relações com a família. Por isso, Suzu naturalmente assumia que, como Hana e Hazuki eram gêmeas, elas eram próximas.

A farsa era ajudada pela forma como Hazuki, em seu papel de aluna estrela, costumava repreender as pessoas que insultavam Hana.

Ela não tinha a menor intenção de corrigir o mal-entendido de Suzu. Sabia que, se fizesse isso, só acabaria deixando a amiga preocupada com a sua situação.

"E se você pedisse para o irmão mais novo do Mestre Ichinomiya?" — Suzu sorriu calorosamente, totalmente alheia ao quão absurda era aquela sugestão.

Ou talvez não fosse?

"Irmão? Você está falando do Nozomu?" — perguntou Hana.

"Nossa, você chama ele pelo nome, sem honorífico? É porque ele é seu cunhado?"

"Ah, acho que sim."

Pelo visto, era surpreendente para Suzu que Hana chamasse os Ichinomiyas pelo primeiro nome.

Claro que, se Hana não conhecesse o Saku, ela não seria próxima o suficiente da família principal para chamá-los pelo nome.

O Saku tinha dito para ela chamá-lo pelo nome dele, mas o Nozomu não tinha dito nada parecido; ela só acabou chamando o Nozomu do jeito que quis. De qualquer forma, seria estranho chamar o Nozomu de jovem mestre ou algo do tipo e chamar o Saku, o líder do clã, pelo primeiro nome, sendo marido dela ou não.

Como Nozomu não tinha reclamado, estava tudo bem.

"É uma ideia. O Nozomu está no nosso ano" — refletiu Hana.

Se ela usasse o Saku habilmente como isca, o Nozomu, com aquela personalidade de morde e assopra e seu complexo de irmão secreto, talvez até a ajudasse.

"Será que é hora da magatama fazer sua estreia? Hum..."

Ela se sentia esgotada só de pensar em ter aulas com o Nozomu, que só mostrava seu lado frio para ela. Além disso, se eles fizessem uma sessão de estudos na residência Ichinomiya e a Mio ficasse sabendo, ela poderia acabar descobrindo as notas da Hana também.

Isso seria terrível.

Hana queria manter suas notas em segredo de Mio a todo custo.

O dia em que Mio descobrisse seria o dia em que sua presença nas sessões de tutoria especial da sogra se tornaria obrigatória.

Hana enterrou o rosto nos braços. — "Acho que é o meu fim..."

Estava quase na hora do próximo período começar, mas bem naquele momento, começou uma algazarra no corredor.

"O que está acontecendo?" — perguntou Suzu.

"Os garotos fazendo bagunça. O que mais seria?" — disse Hana. Seu tom mostrava um claro desinteresse. Aquela confusão não tinha nada a ver com ela.

No segundo seguinte, isso deixou de ser verdade.

"E-então era aqui que você estava!"

O grito ecoou pela sala, alto o suficiente para assustar até Hana, que ergueu os olhos das anotações que estava copiando.

"Ah..." — Hana suspirou involuntariamente ao ver a pessoa que tinha invadido a sala.

Parada na porta no meio do alvoroço, com uma expressão de quem era dona do pedaço, estava a garota que Hana tinha conhecido no outro dia, Kikiyo.

Kiriya vinha logo atrás dela. Ao contrário de sua irmã, que, por algum motivo, parecia prestes a chorar, ele exibia aquela mesma cara de paisagem de sempre.

O que era ainda mais surpreendente era que Hazuki, parecendo apressada, entrou na sala junto com os gêmeos. Os sussurros entre os alunos da Classe C ficaram ainda mais intensos.

"Ué? O que o pessoal da Classe A está fazendo aqui?"

"A Hazuki veio também. Que sorte a nossa!"

"Esses são os alunos novos de quem todo mundo está falando."

"Sério? O que será que vieram fazer aqui?"

Kikiyo ignorou todas as fofocas e abriu caminho direto até Hana.

"Por que você está na Classe C e não na Classe A?!" --- exigiu ela.

"Como assim 'por quê'? Estou na Classe C desde o primeiro ano" --- respondeu Hana.

"Você é a esposa do Mestre Ichinomiya. Não tem vergonha de estar na Classe C?!"

"Nenhum pingo."

Era um casamento de fachada, afinal de contas. Ela não tinha um pingo de motivação para estudar pelo bem do Saku. Ela podia estar se esforçando nos estudos agora, mas era por ela, não por ele.

"Pois devia ter" — disse Kikiyo.

"Fale o que quiser." — Mas Hana também estava em uma situação complicada.

Para completar, Kikiyo, como sempre, parecia pronta para desabar no choro. Embora ela estivesse fazendo o interrogatório, para quem olhava de fora, parecia que Hana era quem estava fazendo bullying com ela.

"Você fez alguma coisa com a aluna nova, Hana?" — perguntou Suzu imediatamente, olhando desconfiada para a amiga.

"Não, eu sou totalmente inocente aqui, então não entenda errado" — respondeu Hana. — "E você," — disse ela para Kikiyo, — "não acha um pouco de falta de educação invadir a sala dos outros assim do nada? A classe em que eu estou não é da sua conta."

"I-isso pode até ser verdade, mas... mas o Mestre Ichinomiya..." — Kikiyo gaguejou.

"O Mestre Ichionomiya avisou que este é um assunto privado do clã Ichinomiya, não avisou?"

"Ehr..." — Kikiyo ficou balançada com a resposta ríspida de Hana, e as lágrimas começaram a brotar em seus olhos.

Suzu lançou um olhar reprovador para Hana.

"Coitada. Você não devia judiar dela, Hana."

"Eu obviamente não estou fazendo nada disso!" — protestou Hana. — "Ela é sempre assim."

Hana não conhecia Kikiyo bem o suficiente para dizer "sempre", mas a garota estava terrivelmente insegura da última vez que se encontraram também. Será que era só o jeito dela?

"Além do mais," — continuou Hana, — "você já não ouviu falar que eu não tenho um pingo de talento? Não foi por isso que você veio me confrontar no outro dia também? Porque você não me aceita?"

"Você não está errada," — disse Kikiyo, — "mas eu não achei que você fosse tão fraca a ponto de estar na Classe C. Eu fui para a Classe A armada até os dentes e pronta para o embate, mas você não estava lá. Consegue imaginar o choque que levei quando ouvi do Nozomu que você estava na Classe C?"

"Nem de longe" — disse Hana, secamente.

"Ah." — Kikiyo murchou, murchando os ombros.

[Pipoc4h: Essa Kikyo já está se apresentando como a Goat da obra.]

Hana observou as lágrimas embaçarem os olhos de Kikiyo. A pergunta Você usou colírio? esteve na ponta da língua, mas ela engoliu o comentário. De repente, passou pela sua cabeça que Kikiyo a lembrava de alguma coisa, embora isso não importasse no momento.

Kiriya, que estava observando tudo de canto, tocou no ombro da irmã. — "Vamos" — disse ele, econômico nas palavras, e apontou para a porta.

O professor estava parado ali com uma expressão irritada, sem conseguir entrar na sala de aula mesmo já estando no horário. Se ele esteve assistindo a tudo o tempo todo, ele deveria ter chamado a atenção dos gêmeos. Com certeza, Hana não era a única pensando aquilo.

Por que você é tão frouxo?

Ela queria que ele fizesse o trabalho dele e desse uma bronca nos gêmeos como se deve, mas imaginou que o professor tinha calculado que seria um risco muito grande chamar a atenção de duas pessoas que eram candidatas a se tornarem os próximos chefes do clã Nijouin e acabar atraindo a ira deles. A Obsidian High era uma escola particular administrada pelos cinco clãs. Para um professor contratado pela escola, peitar os gêmeos da família principal dos Nijouin talvez fosse pedir demais.

Hazuki provavelmente tinha vindo junto para segurar os gêmeos, mas ela também parecia sem saber o que fazer. O que diabos ela tinha vindo fazer ali?

Hana olhou para a irmã, com quem não cruzava caminhos há um bom tempo. Hazuki estava olhando de volta para ela.

Quando os olhares se cruzaram, Hazuki foi a primeira a desviar o rosto, virando-se imediatamente. Hana sentiu como se Hazuki estivesse renegando a sua própria existência, e um sentimento sem nome surgiu dentro dela.

Ela queria pedir detalhes sobre o incidente do outro dia, quando Hazuki perdeu o controle dos poderes, mas Hazuki não parecia nem um pouco aberta a conversas.

Elas eram gêmeas, mas ao contrário de Kikiyo e Kiriya, que tinham uma relação super unida, Hana e Hazuki não podiam estar mais distantes uma da outra.

Mas as próprias atitudes de Hana eram as culpadas por isso.

Ela tinha escolhido a sua própria paz e conforto em detrimento da Hazuki.

O que ela poderia dizer para a Hazuki depois de ter tomado essa decisão?

"Kikiyo, Kiriya, vamos voltar para a sala" — disse Hazuki.

Kikiyo parecia arrependida.

"Sim. Peço desculpas pelo transtorno. Eu agi sem pensar..." — Talvez ela estivesse ciente do incômodo que tinha causado às pessoas ao redor. Ela perdeu o fôlego e saiu junto com Kiriya, que continuou sem esboçar nenhuma reação.

Eles finalmente puderam começar a aula, mas Hana duvidava que aquilo seria o fim da história. Ela deu um suspiro baixo.

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Fim da leitura

Capítulo 8 concluído

Volume 2 – Capítulo 2