Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer — Capítulo 1: One Shot – Capítulo 1 – Capítulo 1: 3 de Outubro

Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer
Cap. 1
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Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer

One Shot – Capítulo 1 – Capítulo 1: 3 de Outubro

Capítulo 1

5.615 palavras~24 min de leitura

-DelValle: Olá, caro leitor. Apesar de já estar interessado em traduzir esta novel a um tempo, decidi trazer ela este mês com a temática de Setembro Amarelo (o título já denuncia este tema kk, então não é nenhum segredo). Não sei o que o trouxe aqui, seja recomendação de um amigo, viu o anúncio no nosso server, interesse em uma leitura rápida (One-Shot), achou o título absurdo ou chamativo, ou… talvez algo no título e tema tenha causado um interesse individual em você, realmente não sei. No entanto, posso dizer que esta obra me impactou além das expectativas que criei, francamente. Então é isso, a vocês desejo uma boa leitura e até o final! (Por sinal, obrigado Sol por entrar nesta roubada comigo)

-Sol: Que nada Del, essa leitura é realmente bem pegada, realmente foi algo que me impactou bastante, tanto é que eu revisei ela em só dia, não consegui parar nem por um segundo, a trama me pegou muito. Bom espero que aproveitem a obra para uma reflexão sobre esse tema mas principalmente desejo uma boa leitura a todos!

Glup — uma bolha de ar escapou da minha boca.

Embora eu estivesse na sala de aula, sentia como se estivesse debaixo d’água; meu peito apertou e eu não conseguia respirar direito.

Era ali mesmo que eu pertencia?

Se sim, por que a sensação era tão sufocante?

Mesmo estando de pé, sentia o chão sob meus pés instável.

Por que eu estava ali? Por que eu estava... viva?

“Então, naquela hora, o professor...”

“Espera, isso realmente aconteceu? Que demais. Né, Ema?”

Por mais que eu inspirasse, meus pulmões não enchiam. A angústia me fazia sentir como se estivesse me afogando.

“Ema?”

Minha amiga, Ichii Honami, observou meu rosto com desconfiança e acenou com a mão diante dos meus olhos, como se verificasse se eu estava acordada.

Kiho-chan — Sugimoto Kiho —, que estava sentada ao lado dela, inclinou a cabeça com curiosidade; então, apressei-me a voltar para a realidade.

Certo, eu não estava debaixo d’água. Aquela era a sala da turma 2-3 da Escola de Ensino Médio Tenzan, onde eu estudava.

Tentando desesperadamente me lembrar dos trechos da conversa que acabara de ouvir, forcei um sorriso.

“É engraçado mesmo.”

“Nossa, você estava dormindo agora há pouco, não estava?”

“Não estava. Só estava pensando em quanta fome eu estou.”

“Que comilona!”

Ri junto com todos ao meu redor. Pelo menos, eu deveria estar rindo.

E, no entanto, meu coração parecia irremediavelmente vazio.

“Mikami-san, o professor está chamando você!”

“Sério? Vou lá agora mesmo...”

Quando alguém me chamou da porta da sala, levantei-me.

“Desculpe, já volto.”

“Tá bom.”

“Nossa, Ema, o que você aprontou?”

“Ah, talvez eu seja séria demais ou algo assim?”

“O que isso quer dizer?”

Depois de responder com uma brincadeira, agradeci à amiga que havia me chamado e saí da sala.

“……Haa.”

Parecia que respirar ficava um pouco mais fácil quando eu estava sozinha.

Depois de me acalmar um pouco, comecei a caminhar e cruzei o olhar com um colega de classe que vinha na direção oposta.

“Ah? Mikami-san, aonde você vai? A aula já vai começar.”

“O professor me chamou. Estou indo para a sala dos professores.”

“Entendo. Até mais, então.”

Forcei um sorriso e acenei de volta.

Ele sempre tinha um sorriso para todos; certamente, alguém como ele não carregava sentimentos tão sombrios.

Estava sempre cercado de amigos, parecendo estar sempre rindo e feliz.

Eu não sabia como viver daquele jeito.

Uma parte de mim achava que seria maravilhoso viver assim, mas outra parte sabia que eu simplesmente não conseguia.

Não importava o quanto eu mantivesse as aparências, eu não conseguia mudar o que havia dentro de mim.

Sociável, com amigos e com um desempenho escolar razoável. Essa era a “Mikami Ema” que os outros viam.

Minha relação com a família também não era ruim. Eu tinha pais que me davam liberdade, mas ainda se preocupavam comigo, e até uma irmã mais nova que era uma graça, apesar de irritante às vezes. Mesmo assim... “Ahhh — isso é exaustivo.”

Eu sabia que era uma pessoa afortunada.

Por isso, para qualquer outra pessoa, meus problemas provavelmente pareceriam um luxo.

Mas, às vezes, eu queria desesperadamente apenas desaparecer.

Meu coração parecia vazio, como se eu estivesse prestes a ser engolida por um abismo de escuridão absoluta.

“……Haha.”

Eu mal conseguia reconhecer o rosto refletido na janela do corredor.

Eu estava rindo ou chorando?

Mesmo estando bem ali na minha frente, e mesmo sendo o meu próprio rosto, eu era quem menos o compreendia.

“Com licença.”

Fechei a porta da sala dos professores e soltei um longo suspiro.

O chamado do professor não era nada demais, na verdade.

Era só que faltava o carimbo do meu responsável em um ponto específico dos documentos que eu havia entregue outro dia, então eu precisava ir buscá-lo. Pensei que poderiam ter me avisado durante o horário de orientação da tarde, mas, pensando bem, até que foi bom, pois me deu uma desculpa para sair da sala.

Finalmente cheguei de volta à porta da sala de aula; parei por um instante e respirei fundo.

Em casa, na escola, até mesmo quando estava com meus amigos — eu me sentia deslocada em todo lugar.

Abri a porta da sala silenciosamente, mas o ruído que ela fez ecoou de forma estranha.

Naquele instante, os olhares dos meus colegas se voltaram para mim por uma fração de segundo, antes de se desviarem, como se já tivessem perdido o interesse.

Enquanto olhava ao redor da sala para disfarçar o constrangimento daquela atenção repentina, meus olhos pousaram em uma garota.

Talvez por ser baixinha, ela estava dando pulinhos — pyon-pyon — na tentativa de alcançar o topo da lousa para apagá-la.

Ao vê-la, quase a confundi com uma amiga da época do ensino fundamental. Aquela garota também costumava fazer exatamente isso...

“……!”

Quase sendo arrastado de volta às minhas memórias, desviei o olhar rapidamente e me sentei.

Mesmo quando eu não queria lembrar, eu lembrava.

Não éramos próximas o suficiente para nos chamarmos de melhores amigas.

Mas ela também não era distante a ponto de eu poder considerá-la apenas uma colega de classe.

Certo dia, no sétimo ano do ensino fundamental, ela cometeu suicídio. Foi por causa de bullying.

Eu não sabia que ela estava sofrendo bullying.

Os professores nos culparam — a mim e aos meus outros amigos —, perguntando por que não tínhamos percebido.

As pessoas chegaram a dizer coisas cruéis, questionando se sabíamos de tudo e havíamos guardado segredo.

Se soubéssemos, talvez pudéssemos ter estendido a mão.

Mas eu nunca imaginei, nem por um segundo, que ela — que estava sempre sorrindo — fosse vítima de bullying.

Desde aquele dia, a linha entre a vida e a morte tornou-se difusa para mim.

Por que eu estava viva agora, e por que ela teve que morrer?

Se você morresse e desaparecesse, será que tudo simplesmente deixava de existir?

Se fosse assim, qual era o sentido de viver dessa forma agora?

Eu não conseguia encontrar uma resposta e, mesmo agora, três anos depois, continuava pensando nisso.

Depois de terminar as aulas com aquele sentimento pesado ainda me acompanhando, recusei um convite das minhas amigas e saí da escola, incapaz de me animar.

Caminhei apressada pelas ruas lotadas e apoiei a mão em um poste de luz, em um bairro residencial deserto.

Como se tentasse me libertar daquela sensação sufocante, respirei fundo e, ao expirar, deixei sair todo o cansaço que carregava dentro de mim.

Talvez houvesse algo de errado comigo por não conseguir realmente aproveitar os momentos, mesmo quando estava com amigos.

Parecia que eu observava tudo de longe, mesmo estando ali, bem no meio deles.

[Del: Esta característica de sensação de observar a própria vida ou a si mesmo como se fosse em terceira pessoa, ou como se você fosse um leitor lendo um livro ou alguém vendo um filme, é algo tipo do fenômeno Psicológico chamado Despersonalização, algo complexo que quase que anda de mãos dadas com a depressão.]

“……Hora de ir para casa.”

Arrastando os pés, que haviam ficado tão pesados quanto o meu coração, acabei avistando um parque logo à frente.

Tentei passar rapidamente por um grupo barulhento de crianças do ensino fundamental, mas então notei algo aos pés delas.

Seria um pombo? Não, pelo tamanho, parecia um corvo.

Mas será que existem corvos brancos? Uma ave branca imaculada, que eu não conseguia identificar, estava caída no chão, cercada pelas crianças.

Ao que parecia, elas estavam fazendo um alvoroço por causa daquilo.

Mesmo assim, não tinha nada a ver comigo.

Retomei meu passo habitual e olhei para a frente.

Mas...

“Ei! Estou falando com você! Moça do ensino médio!”

“Hã?”

Quando me virei, vi um menino do primário, com sua mochila escolar rígida nas costas, parado ali.

Provavelmente eram amigos dele; havia outras crianças observando da entrada do parque.

“Eu...?”

“É! Moça, vem cá um pouquinho!”

“Ah, não. Estou indo para casa...”

“Vem logo!”

Entrei no parque, levada pelo menino que puxava meu braço.

Uma ave branca estava lá, e parecia haver algum tipo de arame preso em ambas as suas patas.

“Não dá para ajudar?”

“Mesmo que você me peça para ajudar...”

Eu tinha ouvido dizer que não se deve tocar em aves selvagens.

Pelo visto, era porque elas carregavam germes.

Senti pena daquela forma inerte, mas também sentia que aquilo era simplesmente a lei da natureza. Não havia o que fazer.

Mesmo que a vida dela estivesse chegando ao fim por causa de um arame feito pelo homem.

Olhei nos olhos das crianças e falei devagar.

“Não se pode tocar em aves, sabe? Dizem que a gente fica doente se fizer isso.”

“Ah, é mesmo?”

“Então, o que a gente vai fazer com ela?”

“Bem, é triste, mas acho que a única coisa que podemos fazer é deixá-la quieta.”

As crianças não pareciam satisfeitas e resmungaram, mas, quando o toque das cinco horas ecoou pela região, elas foram embora a contragosto.

Eu também comecei a caminhar para sair do parque, preocupada com a ave — ou, pelo menos, deveria ter estado.

“Ah, puxa vida!”

Eu sabia que era melhor não tocar nele e que deixá-lo quieto era a decisão certa.

Mas aquele pássaro, incapaz de se mover, parecia refletir a minha própria situação.

Eu queria lutar, mas doía; e, embora não soubesse o que fazer, queria que alguém me ajudasse.

Ninguém viria me salvar, mas eu podia remover as amarras que prendiam aquele pássaro.

“……Fique quieto.”

Voltando minha atenção para o pássaro, soltei o arame enquanto tentava não tocar em seu corpo.

Ele estava enrolado nas patas, penetrando na pele em vários pontos.

Fiquei imaginando o que faria se ele se debatesse, mas o pássaro permaneceu imóvel.

Talvez suas forças tivessem se esgotado e não lhe restasse energia para resistir.

Levou mais tempo do que eu esperava, pois tentava não machucá-lo nem tocá-lo diretamente.

Embora já fosse outono, o parque, iluminado pelo sol poente, estava abafado e úmido; uma gota de suor da minha bochecha caiu sobre a pata do pássaro.

“Consegui...!”

Joguei o arame desenrolado no lixo para que outros pássaros não ficassem presos.

“Você está bem agora. Embora eu imagine que não consiga entender o que estou dizendo.”

O pássaro continuou caído no mesmo lugar, sem se mover.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Se ele viveria ou morreria, cabia apenas a ele decidir.

“Você quer viver? Ou quer morrer?”

Eu sabia que não obteria resposta.

“Seria bom se as coisas acontecessem como você deseja.”

No momento em que disse isso, o pássaro abriu os olhos.

Com seu corpo branco como a neve e olhos negros como o breu, o pássaro parecia fixar o olhar em mim.

Aqueles olhos eram estranhamente aterradores, e fui embora como se estivesse fugindo da cena.

Embora seu corpo fosse branco puro como o de uma pomba — símbolo da paz —, suas pupilas eram escuras como o abismo, fazendo-o parecer até mesmo um corvo.

Quando cheguei em casa, ainda com a sensação de estar fugindo, a casa estava vazia; só então me lembrei de que hoje era dia de natação da minha irmã.

Olhando para a mesa, vi um bilhete da minha mãe.

【Se estiver com fome, tem um lanche na geladeira.】

Ignorei o bilhete — que parecia ter sido escrito para uma criança do primário —, lavei bem as mãos, só por precaução, e fui para o meu quarto.

Entrei no quarto e tranquei a porta.

O som da fechadura girando me trouxe uma sensação de alívio.

Meus pais haviam sido contra a instalação de uma tranca no meu quarto.

Mas, quando expliquei que minha irmã estava atrapalhando meus estudos antes das provas parciais, eles não disseram mais nada.

Deitada na cama com o uniforme, cobri os olhos com as mãos e mergulhei na escuridão.

Meu cabelo, num corte bob levemente longo, emaranhava-se ao redor do meu rosto, causando-me irritação.

Ele ondulava naturalmente, mesmo sem eu ter feito permanente; em meio ao meu torpor, pensei que deveria cortá-lo em breve.

“……Haa.”

Ficar assim, num quarto com as cortinas fechadas, dava-me a sensação de estar completamente sozinha no mundo.

Era uma sensação estranha, como flutuar no mar, no limiar entre a vida e a morte.

Quem dera eu pudesse simplesmente desaparecer enquanto estivesse de olhos fechados assim.

Meu apego à vida havia se tornado tão tênue que eu me pegava desejando coisas impossíveis como essa.

“—Irmã, o jantar está pronto!”

“Mmn...”

Parece que eu havia adormecido sem perceber.

Ao abrir os olhos no quarto mergulhado em breu, ouvi a voz de Mutsumi vindo do outro lado da porta.

“Diga a eles que já vou.”

“Tá booom!”

Ouvindo o som de seus passos — tu-tu-tu — pelo corredor, pendurei meu uniforme amassado num cabide e vesti roupas casuais.

Agora, era hora de passar um tempo que eu não esperava com nenhum entusiasmo.

Como aquela “eu” que vivia feliz, sem desejar nada mais.

Aquela noite também passou como sempre — sem mudanças.

Apesar de me sentir deslocada, eu não conseguia tomar nenhuma atitude.

Nada mudou, e eu não mudei nada.

Passei a detestar a mim mesma por isso. Eu provavelmente viveria minha vida inteira assim, sentindo essa dissonância entre mim e o mundo ao meu redor.

Eu não sabia o que havia de divertido em uma vida assim.

Mas era a única maneira que eu conseguia viver.

Os dias de aula eram melhores.

Enquanto estava em aula, eu não precisava pensar em outras coisas.

Mas os dias de folga eram diferentes.

Se eu não tinha planos, não me restava alternativa a não ser esperar o tempo passar no meu quarto.

Ficar sozinha não era doloroso.

De alguma forma, estar com outra pessoa era ainda mais insuportável.

E o fato de ninguém entender isso doía ainda mais.

“Haa.”

Minha mãe e os outros haviam me chamado hoje, enquanto eu estava sozinha no meu quarto, perguntando:

“Se você está livre, por que não saímos juntos?”

Provavelmente não era a intenção deles, mas parecia que pisavam em ovos perto de mim, e eu odiava isso.

Ao ver minha irmãzinha com seu melhor vestido, radiante enquanto dizia: “Vão comprar meu presente de aniversário!”, eu...

“Finalmente estou sozinha.”

Caminhando em direção à margem do rio, a uma curta distância de casa, sentei-me em uma pedra que tinha a altura ideal.

Eu tinha ido ao parque primeiro, mas, num sábado, ele estava cheio de famílias, e não havia lugar para mim ali.

Olhando fixamente para o céu, perguntei-me por que eu não conseguia lidar melhor com as coisas.

Meus pais eram gentis, eu tinha bons amigos e vivia com tudo de que precisava.

E, no entanto, meu coração se sentia tão sufocado.

Eu não tinha para onde ir e, mesmo assim, não conseguia parar de querer fugir daquele lugar naquele exato momento.

“Haa... É tão difícil.”

Não existia um lugar para onde eu pudesse fugir.

Por mais que eu quisesse escapar, jamais conseguiria.

Eu não era como aquela garota que se tornou uma estrela por vontade própria. Eu não conseguia ser como ela.

Eu certamente continuaria vivendo assim, carregando esse sentimento sufocante dentro de mim; soltei um suspiro profundo enquanto observava as nuvens passarem. No final, cheguei em casa pouco antes da minha família e me tranquei no quarto; depois de comer o jantar à força, atendendo aos pedidos dos meus pais, voltei para o quarto.

Meu estômago deveria estar cheio e aquecido; então, por que a sensação era de peso, como se fosse indigestão?

“Ah, está fresco.”

Querendo me refrescar um pouco, abri a janela e saí na varanda.

Lá fora, onde o ar ainda estava abafado pelo calor residual do verão até poucos dias atrás, o clima agora estava frio o suficiente para fazer com que mangas curtas parecessem insuficientes.

Pensei em pegar um moletom, mas a preguiça venceu e apenas me apoiei no parapeito.

Ao olhar para cima, deparei-me com um céu noturno repleto de estrelas.

Pensando bem, o aplicativo de observação de estrelas no meu celular havia avisado, naquela manhã, que a chuva de meteoros das Dracônidas estaria ativa hoje.

[Sol: As Dracônidas são uma chuva de meteoros que ocorre todo ano por volta de 8 a 9 de outubro, com radiante na constelação de Draco e origem no cometa 21P/Giacobini-Zinner; normalmente é discreta, com cerca de 5 a 20 meteoros por hora, mas já protagonizou grandes tempestades em 1933, 1946, 1998, 2011 e 2012, o que a torna uma das chuvas mais imprevisíveis e fascinantes do céu.]

Se eu ficasse ali observando, com certeza...

“Ah, lá vai uma.”

Uma, depois outra; estrelas riscavam o céu como se traçassem linhas nele.

Eu não conseguia desviar o olhar das estrelas que caíam repetidamente, num piscar de olhos.

Como se estivesse sendo atraída, estendi a mão.

“Preciso ir.”

Não sabia explicar o motivo, mas sentia que precisava ir até onde aquelas estrelas brilhavam, custasse o que custasse.

Mais perto.

Mais próxima.

O parque aqui perto. Talvez eu conseguisse vê-las melhor de lá.

Mas o pensamento de que aquele pássaro ainda poderia estar lá me causava um arrepio na espinha.

Em contraste com essa sensação, havia também uma parte de mim que queria ver o que tinha acontecido com o pássaro.

Vida e morte.

Eu queria saber qual delas o pássaro havia escolhido.

Saí do quarto e desci as escadas silenciosamente.

Da sala de estar, ouvia-se a voz de um repórter e o som de água corrente de alguém lavando a louça.

Calcei os sapatos sem fazer barulho, saí pela porta da frente e mergulhei na escuridão total.

Enquanto eu seguia em direção ao parque, várias estrelas riscavam o céu acima de mim.

Meu coração batia forte: thump-thump. Assim que eu dobrasse aquela esquina, chegaria ao parque...

No instante em que esse pensamento me ocorreu, meu pé enganchou em algo e tropecei, caindo com força.

“Ai...”

Uma dor surda e latejante percorreu minha perna; devia ter torcido o tornozelo.

Meu braço ardia, como se eu o tivesse ralado também.

Não doía a ponto de eu não conseguir movê-lo, então não parecia estar quebrado.

Bem quando me levantei, aliviado, o mundo diante dos meus olhos foi iluminado por uma luz ofuscante e tornou-se totalmente branco.

◇◆◇

À medida que a luz por trás das minhas pálpebras diminuía, abri os olhos aos poucos e me vi em um espaço de um branco puro.

Eu estava correndo por uma estrada à noite, momentos atrás; seria mesmo possível que tudo de repente ficasse branco?

Onde eu estava, afinal?

Para onde quer que eu olhasse, havia apenas brancura e mais nada.

Sem paredes, sem casas. Sem postes de luz, sem placas.

Em um espaço onde tudo o que existia até então havia desaparecido, eu estava sozinha...

“Ah, você acordou?”

Aquela voz veio bem de trás de mim.

Apesar das palavras calmas, havia uma certa inocência persistente na voz.

“Huh...?”

Quando me virei, vi uma criança de cerca de dez anos vestindo uma roupa branca semelhante a um vestido e, então... um colega de classe parado ali com uma expressão de perplexidade.

“Kiryu-kun...?”

“Você é a Mikami-san, certo? Hã, por que você está aqui?”

Ao ouvir seu tom de dúvida, também fiquei desconcertada.

Kiryu Rui, que estava na mesma turma, era o tipo de garoto sempre alegre e sorridente, como se não tivesse uma única preocupação no mundo.

Ele tinha cabelos levemente claros — não sabia dizer se eram tingidos ou naturais — e traços refinados que faziam as pessoas se virarem para olhar.

A maioria das garotas corava quando aqueles olhos amendoados se voltavam para elas.

Embora não fôssemos particularmente próximos, ele sempre falava comigo quando nos cruzávamos no corredor.

Pensando bem, ele também havia me parado ontem, quando eu estava a caminho da sala dos professores.

Kiryu-kun, com quem eu jamais esperaria cruzar fora da escola, também parecia um tanto inquieto; ele coçava a cabeça e olhava ao redor.

Senti um alívio por não ser a única confusa.

Alternando o olhar entre a criança ao lado dele e eu, Kiryu-kun levou as mãos à cabeça.

No entanto, bem ao lado dele, a criança ria baixinho, cobrindo a boca com a mão, como se algo tivesse graça.

Eu estava tão surpresa com a presença de Kiryu-kun que não havia notado antes, mas a aparência daquela criança era incomum.

Ou melhor, era estranha. A criança, cujos cabelos eram tão brancos quanto suas roupas, voltou aqueles olhos negros como a noite para mim.

Quase recuando diante daquele olhar, rapidamente tentei manter a compostura.

“Espere, o que é...”

“Vocês estão aqui porque morreram. Vocês dois.”

Interrompendo-me enquanto eu tentava perguntar do que ela estava rindo, a criança inclinou a cabeça e sorriu.

Com esse movimento, seus cabelos, que chegavam aos ombros, balançaram levemente.

“Eu sou Haku. Vim buscar as almas que deveriam morrer nesta cidade hoje.”

Embora a aparência neutra da criança tornasse impossível distinguir seu gênero, a voz que ouvi era grave demais para ser de uma mulher.

“Buscar almas... quem exatamente é você...?”

“Demônio, anjo ou ceifador — pense em mim como quiser.”

Já que veio buscar uma alma, será que é um ceifador?

É um anjo quem vem buscar os mortos? Ou um demônio?

Eu não sabia o que era aquela criança que se autodenominava Haku, mas, se o que ela dizia fosse verdade, então Kiryu-kun e eu estávamos mortos.

“Entendo... Estou morta.”

No momento em que disse isso em voz alta, senti um alívio.

Senti meu coração ficar mais leve.

Não é que eu quisesse morrer ativamente.

Mas viver sempre fora doloroso. Sufocante.

“Não, você ainda não está oficialmente morta.”

“Como assim? Você acabou de dizer que ‘veio buscar as almas que deveriam morrer nesta cidade’, não foi?”

“Sim, eu disse isso. No entanto, há apenas uma alma que vim buscar.”

“Uma...?”

Olhei para Kiryu-kun.

Éramos dois aqui: o Kiryu-kun e eu.

Se havia apenas uma alma a ser recolhida, isso significava que um de nós não deveria estar morto.

“Mas como isso aconteceu?”

“Porque você fez algo fora do comum, Nee-san.”

“Eu?”

Fiquei surpresa com a mudança repentina de assunto.

Haku assentiu com as minhas palavras.

“Exatamente. Sair de casa, ser atropelada por um caminhão e tudo mais.”

“M-Mesmo que você diga isso...”

“Esse foi um evento não incluído na agenda de hoje. O que eu deveria fazer a respeito?”

Haku falou em um tom que soava mais divertido do que acusatório.

Eu não sabia o que dizer, mesmo sendo questionada sobre o que fazer a respeito.

Para começar, eu nem me lembrava de ter sido atropelada.

No entanto, lembrava-me de uma luz branca ofuscante pouco antes de perder a consciência.

Talvez fossem os faróis do caminhão.

Dito isso, não é como se eu tivesse sido atropelada de propósito.

Enquanto eu observava a chuva de meteoros, fui atingida antes mesmo de perceber.

Foi um acidente. Algo fora do meu controle.

“Mesmo que você diga isso...”

“Bem, acho que você tem razão; não há nada a fazer. Portanto...”

Com um sorriso largo, Haku estendeu a mão em direção a Kiryu-kun e a mim.

“Vocês dois poderiam decidir qual de vocês vai morrer?”

“O quê...?”

Fiquei sem palavras. Kiryu-kun parecia tão perplexo quanto eu, sem saber como reagir às palavras de Haku.

“Como assim, ‘escolher’?”

Haku inclinou a cabeça diante da minha pergunta.

“Quero dizer escolher. Qual de vocês vai morrer? Porque apenas uma pessoa está programada para morrer nesta cidade hoje. Não posso levar nem mais nem menos do que isso.”

Haku falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Tentei processar mentalmente o que me foi dito, tomada por uma sensação indescritível de compreender e, ao mesmo tempo, não compreender a situação. Originalmente, quem deveria morrer hoje era o Kiryu-kun.

No entanto, fui eu quem morreu num acidente, atropelada por um caminhão.

Por causa disso, o cronograma acabou sendo totalmente alterado.

“O que é isso... ai, dói.”

Sentindo uma pontada aguda, olhei para o meu braço e vi sangue escorrendo do pulso esquerdo até o cotovelo.

Lembrei-me de tê-lo arranhado quando tropecei, mas não tinha percebido que o ferimento era tão grave.

Talvez tenha sido na hora em que o caminhão me atingiu.

Mas, felizmente — se é que se pode chamar assim —, não parecia haver outros ferimentos externos visíveis.

“Normalmente, eu traria de volta à vida a onee-san que morreu por engano, mas...”

“Eu não quero voltar à vida!”

“Entendo.”

Haku não se surpreendeu com minha reação impulsiva; ele apenas assentiu com um sorriso e virou-se para o Kiryu-kun.

“Bem, é assim que as coisas são. E você, onii-san? Embora eu imagine que seja uma pergunta tola.”

“O que isso quer dizer?”

Eu conseguia entender por que ele me perguntaria aquilo, mas consideraria uma pergunta tola quando se tratava do Kiryu-kun.

Kiryu-kun desviou o olhar por um momento e, em seguida, lançou sobre mim um olhar frio que eu jamais esperaria dele.

“Eu cometi suicídio.”

Por um instante, não consegui assimilar o que ele havia dito.

“Suicídio...? Você, Kiryu-kun? Mentira!”

“Por que ‘mentira’? É estranho se eu cometer suicídio?”

“É estranho. Porque você, Kiryu-kun, está sempre sorrindo e parecendo se divertir, e...”

“Como se eu não tivesse preocupações?”

Fiquei sem palavras quando ele disse isso.

Eu certamente não tinha dito aquilo por mal.

Mas Kiryu-kun repetiu a impressão que eu tinha dele em um tom de deboche.

Como se estivesse rindo de mim por eu ter pensado aquilo.

“Bem, acho que, se era isso que você pensava, então foi um grande sucesso.”

“Um grande sucesso...?”

“De qualquer forma, não tenho intenção de voltar à vida. Já que você é a irregularidade, deveria voltar, Mikami-san. Você não pretendia morrer, não é?”

“Bem, é verdade, mas...”

Era verdade que eu não tinha a intenção de morrer.

Se eu não tivesse sofrido o acidente, provavelmente estaria assistindo à chuva de meteoros no parque e voltando para casa a esta altura.

Mas...

Não é que eu quisesse morrer.

No entanto, se eu pudesse esquecer a morte da minha amiga— algo que vinha remoendo em meu coração durante todo esse tempo...

Se eu pudesse dar um fim a esses dias monótonos e desconfortáveis...

Eu sentia que talvez fosse mais fácil simplesmente morrer assim.

“Eu também não quero voltar à vida.”

“……Eh?”

Kiryu-kun franziu a testa abertamente ao ouvir minhas palavras.

“Ora, ora, ora.”

Haku se colocou entre nós, sorrindo de uma maneira que parecia perturbada e, ao mesmo tempo, de certa forma divertida.

“Entendo que nenhum de vocês queira voltar à vida.”

“Então...”

“Mas apenas um de vocês pode morrer. Então, que tal jogarmos um jogo?”

“Um jogo?”

Nossas vozes se sobrepuseram ao perguntarmos com cautela.

“Sim, um jogo. Um jogo para decidir qual de vocês é o escolhido para morrer.”

Enquanto Haku nos encarava com aqueles olhos negros como o breu, ele de alguma forma me lembrava aquele pássaro branco.

“O que acham? Não é uma boa ideia?”

“Isso significa que o vencedor poderá morrer?”

“Bem, é mais ou menos isso.”

‘Por que temos que fazer algo tão irritante?’

Engoli às pressas as palavras que quase escaparam.

Se eu dissesse algo desnecessário, ele poderia simplesmente dizer: “Bom, então vamos levar o Kiryu-kun, que estava originalmente destinado a morrer.”

Provavelmente era melhor ficar quieta e ouvir.

Ao ver minha reação, Haku deu de ombros e riu.

“Para mim, tanto faz, contanto que eu possa levar alguém que queira morrer.”

Lançando um olhar em nossa direção, Haku continuou:

“O jogo termina no final deste mês. Preciso levar uma alma até a data do relatório, no final do mês. Decidam até lá quem volta à vida e quem morre.”

As palavras de Haku eram desprovidas de emoção; embora estivéssemos falando sobre a morte de alguém, havia algo em sua resposta puramente profissional que me incomodava.

Ao mesmo tempo, senti um alívio ao perceber que a morte não era nada de especial naquele outro mundo também — que ela era tratada com tão pouca importância.

Escondendo minha confusão, tentei perguntar casualmente:

“Como vamos decidir?”

“Isso é algo que vocês dois devem pensar.”

O sorriso inocente de Haku me deixou completamente desarmada.

Recuperei um pouco a compostura e refleti sobre o que Haku havia dito.

O final deste mês... hoje era dia três, o que significava que restavam vinte e oito dias. Daqui a vinte e oito dias, a alma de um de nós seria levada.

“Espera, mesmo sem fazer algo tão irritante, se o Kiryu-kun simplesmente dissesse que não vai voltar para a vida agora, o assunto estaria encerrado.”

“Essa fala é minha. Quem deveria voltar é você, Mikami-san. Você disse que ia àquela cafeteria que vai abrir em frente à estação logo, não disse?”

“Eu disse isso, mas como você sabe? Ei, espera, você estava ouvindo escondido? Que medo!”

“Se você faz tanto barulho, eu acabo ouvindo mesmo sem querer.”

Sem que nenhum de nós cedesse, acabamos entrando em uma discussão inútil.

Irritada com o fato de o Kiryu-kun ter uma resposta para tudo, não consegui evitar a pergunta.

“Por que você quer tanto morrer?”

“……!”

Percebi que aquilo abalou um pouco Kiryu-kun.

Ao me perguntar o motivo, lembrei-me da palavra “suicídio” que ele havia mencionado mais cedo.

Será que o Kiryu-kun tinha um motivo para cometer suicídio?

Mesmo pensando nisso, eu sabia que as pessoas podiam tirar a própria vida de repente, sem aviso prévio. Eu sabia disso muito bem.

Falei timidamente com Kiryu-kun, que permanecia em silêncio.

“Ah... desculpe. Quer dizer, se você não quiser falar, não precisa...”

“Ha... para onde foi toda aquela coragem de antes?”

“Isso é...”

“Em contrapartida, eu pergunto a você: por que você quer morrer, Mikami-san? Você não tinha a intenção real de morrer, tinha?”

Foi a minha vez de ficar em silêncio diante da pergunta do Kiryu-kun.

“Você me pergunta, mas não quer dizer o motivo?”

“I-isso é...”

“Ah, francamente, vocês dois não têm jeito.”

Haku se intrometeu entre nós, como se tivesse perdido a paciência.

“Então, que tal um jogo assim? Vocês dois apresentam um ao outro os motivos pelos quais querem morrer. O vencedor é aquele que poderá morrer. Simples, não?”

“Apresentar...?”

“Sim. Vocês têm quatro chances.”

Ele levantou quatro dedos, um sorriso discreto brincando em seus lábios.

“Uma vez por semana, apresentem aqui mesmo os motivos pelos quais querem morrer. Após a apresentação final, no vigésimo oitavo dia, digam-me qual de vocês é o mais adequado para morrer. Vocês dois decidirão quem ganha e quem perde este jogo.”

Eu não estava apenas descrente da explicação de Haku; tudo o que sentia era insatisfação.

“Toda semana... por que fazer algo tão irritante? Há realmente necessidade de prolongar isso desse jeito? Além disso, como nós dois queremos morrer, as apresentações vão acabar num impasse.” Eu não precisava de um prazo de vinte e oito dias; queria que ele decidisse ali mesmo, naquele instante.

Afinal, mesmo que conversássemos adequadamente toda semana, o desejo de morrer de nenhum de nós mudaria.

Por isso, um jogo como aquele parecia não ter sentido.

“Então, que tal isto?”

Como se lesse minha mente, Haku bateu palmas.

“Vocês conversarão uma vez por semana e, se chegarem a uma decisão, eu levo vocês na hora. Viu? Você não vai reclamar disso, vai, Nee-san?”

“Não é que eu tenha algum problema com isso, mas...”

Mas, se fosse assim, quanto mais cedo decidíssemos, mais cedo eu poderia morrer. Talvez não fosse um mau negócio.

“……Para mim, tudo bem. E você, Kiryu-kun?”

“Para mim também.”

“Então combinado!”

Assim que Haku disse isso, uma luz ofuscante nos envolveu.

◇◆◇

Quando a luz se dissipou e finalmente consegui distinguir o que estava ao meu redor, a paisagem havia mudado.

Iluminada pela luz dos postes e do luar, pude ver um escorregador, balanços e um banco.

Eu conhecia aquele lugar. Aquele era...

“O parque...?”

“É...”

Kiryu-kun assentiu, como se confirmasse o murmúrio que escapou sem querer pelos meus lábios.

Aquele era o parque para onde eu estava indo para ver a chuva de meteoros.

Mas por quê? Há pouco tempo, nós estávamos definitivamente...

“Estou ansioso para ver vocês dois daqui a uma semana. Ah, a propósito...”

A risadinha alegre de Haku veio de algum lugar próximo.

“Se tentarem forçar a própria morte, farei vocês passarem por algo tão terrível que se arrependerão de um dia terem desejado morrer; então, estejam preparados.”

Olhei rapidamente ao redor, mas não consegui encontrar Haku em lugar algum, apesar de ele estar dizendo algo tão ameaçador.

“O que é isso...”

Comecei a perguntar a Kiryu-kun o que estava acontecendo.

Mas, antes que eu pudesse falar, Kiryu-kun virou as costas e saiu do parque a passos rápidos.

Sozinha, observei um meteoro cruzar o céu acima de mim como se zombasse de mim, para logo em seguida desaparecer.

No parque deserto, não restava nem sequer um pássaro morto...

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 1 concluído

One Shot – Capítulo 1 – Capítulo 1: 3 de Outubro