Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer — Capítulo 2: One Shot – Capítulo 2 – Capítulo 2: 4-10 de Outubro

Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer
Cap. 2
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Nossos 28 Dias Com Vontade de Morrer

One Shot – Capítulo 2 – Capítulo 2: 4-10 de Outubro

Capítulo 2

5.388 palavras~23 min de leitura

Acordei e tentei sair da cama, mas, por algum motivo, sentia-me incrivelmente letárgica.

Desisti de levantar e puxei o edredom de volta para cobrir a cabeça.

Era domingo, então não haveria problema em ficar na cama um pouco mais.

Mesmo que eu dormisse além do horário habitual, provavelmente ouviria apenas algumas reclamações, e não uma bronca de verdade.

Envolta em um aroma estranhamente doce, fechei os olhos mais uma vez.

“Ainda assim, foi um sonho estranho.”

Ser atropelada por um caminhão em um sonho e, depois, encontrar meu colega de classe, Kiryu-kun, em um espaço branco e misterioso...

A luz que entrava estava tão intensa que, ao olhar para cima, consegui ver o céu azul através de uma fresta nas cortinas.

No sonho, era noite, e a chuva de meteoros das Dracônidas riscava o céu com estrelas cadentes.

Era verdade que, na noite passada, a chuva de meteoros das Dracônidas estava claramente visível...

Foi um sonho estranhamente vívido e realista.

Mas não havia como algo assim acontecer de verdade.

Ser atropelada por um caminhão e ouvir de um garotinho misterioso, em um espaço totalmente branco: “Você está aqui porque morreu”...

“……Ai.”

Ao me virar para fugir da luz, meu braço roçou no edredom e uma dor aguda percorreu o membro.

Sem entender o que diabos havia acontecido, afastei as cobertas.

Ali, encontrei um arranhão com uma crosta vermelho-escura. Aquilo... não podia ser.

“Não foi um sonho?”

O arranhão que eu fizera ao cair enquanto tentava ver a chuva de meteoros.

O fato de aquilo existir significava que o conteúdo daquele sonho de ontem havia realmente acontecido na vida real.

Não, não, era impossível.

Aquilo não podia ser real de jeito nenhum.

Devo ter batido ou arranhado o braço em algum lugar enquanto dormia.

Ou talvez eu simplesmente não me lembrasse; talvez tivesse levantado no meio da noite para ir ao banheiro e tropeçado então.

Sim, deve ser isso.

Essa explicação era muito mais realista do que imaginar que aquilo tinha sido real.

Porque não havia como algo assim acontecer. Era impossível, e ainda assim...

“Se eu realmente posso morrer, então...”

Assustada com o peso das palavras que haviam escapado acidentalmente, cobri a boca às pressas e as engoli de volta.

Meu coração batia forte, ressoando alto em meus ouvidos. Seria um desastre se alguém me ouvisse dizer algo assim.

Eu precisava me acalmar. Precisava me recompor.

Respirei fundo duas ou três vezes para acalmar as batidas do coração e saí da cama.

Sentada na cadeira da minha escrivaninha, peguei um caderno extra.

Comecei a anotar as coisas que Haku havia me dito ontem.

Que eu morri após ser atropelada por um caminhão; que minha morte não fora planejada; e que ou eu ou Kiryu-kun morreríamos.

O dia trinta e um cairia num sábado, daqui a três semanas. Faltavam cerca de quatro semanas a partir de hoje.

“Motivos, é?”

Minha mão parou enquanto eu tentava escrever, logo abaixo, os motivos pelos quais eu queria morrer.

Não é que eu não conseguisse pensar em nada.

É que as únicas coisas que me vinham à mente eram:

“Porque viver é chato.”

“Porque viver não tem graça.”

“Porque viver não é interessante.”

Nada além desse tipo de palavra trivial.

Talvez eu não tivesse, de fato, um motivo para querer morrer.

Mas eu tinha ainda menos motivos para querer viver.

“Não entendo o sentido de viver.”

Deslizei a lapiseira pelo caderno.

Aquela frase — a que parecia certa — era, sem dúvida, a verdade para mim.

...Eu vivia com esse pensamento desde o dia em que soube que aquela garota havia morrido.

Por que era errado morrer? Por que eu tinha de viver?

Eu não sabia a resposta.

Não é que eu quisesse morrer ativamente.

Mas também não conseguia encontrar vontade de viver.

Eu estava viva apenas por não estar morta, indiferente à vida em si.

“...Esquece.”

Incapaz de escrever mais nada, joguei a lapiseira de lado e fechei o caderno.

Ainda havia tempo até o próximo sábado.

“Oneechan, o bolo ficou pronto!”

Ouvi minha irmãzinha me chamando do andar de baixo.

Eu achava que estava sentindo um cheiro doce; pelo visto, ela estava assando um bolo.

“……Já estou indo.”

Respondi para evitar o transtorno de ela ter que subir para me buscar e desci para a sala de estar.

Na cozinha, minha mãe e minha irmã preparavam o lanche alegremente.

Meu pai as observava do sofá com uma expressão feliz. Não importava como se olhasse, era uma cena de família perfeitamente feliz.

“Ah, Oneechan! Você finalmente desceu! Ei, ei, olha só!” Minha irmã me mostrou o bolo que estava em um prato.

Decorado com chantilly e hortelã, parecia delicioso.

“Nossa, você fez tudo sozinha?”

“Fui eu mesma que fiz quase tudo!”

Ao ver minha mãe sorrindo gentilmente atrás da minha irmã, que se gabava com um ar de superioridade, soube que aquilo era um exagero, mas não insisti no assunto.

“Ema, você quer tomar café da manhã primeiro?”

“Não, já que você fez, vou comer um pouco do bolo amanteigado.”

“Entendo. Gostaria de chá ou café para acompanhar?”

“Hmm, acho que vou querer chá. Ah, eu mesma preparo.”

“Então deixo com você.”

Impedi minha mãe de começar o preparo e fui para a cozinha.

Minha mãe pegou uma bandeja com as duas xícaras de café que havia passado e o suco de laranja da minha irmã, e seguiu para a sala de estar.

Peguei a lata de chá na prateleira, coloquei as folhas no bule e despejei a água quente que minha mãe havia fervido.

Um lar feliz. Nada fora do comum.

Eu sabia que era amada e nunca tinha sido maltratada.

E, no entanto, por quê?

Por que eu sempre me sentia uma estranha quando estava ali?

Por que eu não conseguia rir do fundo do coração como meus pais e minha irmã?

Joguei na boca um pedacinho de bolo que havia sobrado na tábua de corte.

Deveria estar delicioso, mas tudo o que senti foi uma doçura enjoativa se espalhando pela minha boca.

◇◆◇

No fim das contas, a segunda-feira chegou sem que eu encontrasse uma resposta sobre se aquele sábado tinha sido real ou apenas um sonho.

Eu não tinha dormido bem na noite anterior e, enquanto caminhava para a escola, sentia minha cabeça envolta em uma névoa densa.

A sonolência não passou nem depois que cheguei à sala de aula.

“Bom dia. Você parece com sono hoje.”

Enquanto eu estava debruçada sobre a carteira, Honami falou comigo do assento ao lado; eu nem tinha percebido a chegada dela.

“Você ficou acordada até tarde ontem à noite?”

“Hum, é, mais ou menos isso.”

“Pois é, mais ou menos isso. Né, Ema?”

Não era bem assim, mas decidi concordar com Honami por enquanto. Enquanto eu acenava afirmativamente com a cabeça, Kiho-chan lançou sobre mim um olhar ainda cético.

Instintivamente, percebi que ela suspeitava de algo.

Senti pena de Honami, que havia se esforçado para perguntar, mas Kiho-chan provavelmente não me contaria nada.

“Ah, mas... bem, se você não quiser falar sobre isso, deixa para lá.”

“Não é bem assim. É só que...”

Kiho-chan inclinou a cabeça como se estivesse pensativa, com uma expressão levemente preocupada.

“Eu e o Kiryu-kun estudamos na mesma escola de ensino fundamental II, mas nunca chegamos a interagir muito, então não me lembro bem dele. Mas sei sobre o irmão mais velho dele, já que ele era famoso.”

“Irmão mais velho? Do Kiryu-kun?”

Eu nunca tinha ouvido falar que ele tivesse um irmão mais velho.

Pelo visto, Honami também não sabia, pois murmurou: “Ele tinha um irmão mais velho?”

“É. Quando nós éramos do primeiro ano, ele estava no terceiro. Era um aluno exemplar, com notas excelentes e ótimo nos esportes. Ele chegou a ser presidente do conselho estudantil; acho que não havia ninguém na escola que não o conhecesse.”

Eu não sabia disso.

Não, espere; mesmo que ele tivesse um irmão famoso, seria realmente possível ela não se lembrar do Kiryu-kun, que deveria estar na mesma série que ela?

Olhei para a frente da sala de aula; como sempre, um grupo de colegas estava reunido ao redor de Kiryu-kun.

Não apenas as garotas, mas os garotos também conversavam com ele com entusiasmo, tentando chamar sua atenção.

Todos queriam que Kiryu-kun os notasse.

Ele era realmente deslumbrante — o centro das atenções da turma.

Eu não sabia sobre as outras séries, mas, pelo menos no segundo ano, não deveria haver ninguém que não soubesse quem era Kiryu-kun.

“Mas não havia ninguém como ele na nossa escola de ensino médio, havia?” Honami falou como se estivesse tentando se lembrar.

Era verdade; se um aluno do terceiro ano como aquele estivesse por perto quando entramos, haveria boatos.

Principalmente se ele fosse o irmão mais velho do Kiryu-kun.

Mas Kiho-chan respondeu à nossa pergunta como se fosse óbvio.

“Ele foi para uma escola preparatória com uma nota de corte muito mais alta que a nossa.”

“Ah, isso explica tudo.”

Em termos de notas de corte na província de Osaka, a nossa Escola de Ensino Médio Tenzan estava mais ou menos na faixa intermediária-superior.

Não era ruim, mas também não era excepcionalmente boa.

Não havia como um aluno brilhante, famoso até entre as outras séries, vir para um lugar como este.

“Então parece que o Kiryu-kun vivia à sombra do irmão de elite dele.”

“Ei, Honami!”

Cobri a boca de Honami com as duas mãos.

As palavras de Honami foram tão diretas que olhei em volta instintivamente, sentindo um frio na espinha ao pensar que alguém poderia ter ouvido.

No entanto, ninguém parecia interessado na nossa conversa, e ninguém estava prestando atenção em nós.

“Pode ser verdade. Ele ficou popular de repente depois de entrar no ensino médio, e lembro-me de pensar: ‘Ah, então ele tinha um irmão mais novo’.”

Eu não conseguia acreditar que o Kiryu-kun que eu conhecia tivesse sido visto daquela maneira.

A diferença entre Kiryu-kun que eu conhecia e aquele que Kiho-chan descrevia era enorme.

Será que ele desenvolveu um complexo de inferioridade por ser constantemente comparado ao irmão brilhante?

Mas as notas do Kiryu-kun também deveriam ser boas.

Dizia-se até que ele obtinha classificações altas em simulados nacionais.

Eu até já tinha visto outros colegas provocando-o, perguntando por que raios ele tinha vindo para a nossa escola.

Então, por quê?

Eu deveria ter sentido que estava descobrindo um lado do Kiryu-kun que eu desconhecia, mas, por algum motivo, senti que o compreendia ainda menos do que antes.

◇◆◇

No fim das contas, o tempo passou sem que eu entendesse nada sobre o Kiryu-kun, e aquele sábado prometido chegou num piscar de olhos.

Embora fosse uma “promessa”, eu não sabia o que deveria fazer nem como, então decidi ir ao parque no mesmo horário da semana anterior.

Ao tentar sair de casa silenciosamente, minha mãe perguntou: “Aonde você vai a essa hora?”, então menti e disse: “Vou à loja de conveniência comprar grafite para lapiseira”.

Ela parecia preocupada, mas eram apenas nove da noite. Não pude deixar de pensar que ela poderia me deixar um pouco mais à vontade.

Guiando-me pela luz dos postes e do luar, caminhei pela rua mal iluminada.

Durante o dia, ainda havia um calor que parecia um vestígio do verão, mas, àquela hora, a temperatura já tinha passado do ponto de ‘fresco’ e começava a ficar um pouco fria.

Comparado à semana anterior, parecia que o outono havia realmente chegado.

Ainda assim, o ar frio descendo pela minha garganta era agradável, e respirar era mais fácil do que durante o dia barulhento.

Eu estava indo para o parque, mas uma parte de mim também achava que havia a chance de ninguém aparecer, e eu acabaria pensando: Ah, então foi mesmo só um sonho.

Se isso acontecesse, eu simplesmente voltaria para casa.

Talvez, no caminho de volta, eu compre um chá com leite quente na loja de conveniência, em vez de grafite.

...Essa pequena fantasia se desfez no momento em que cheguei ao parque.

“Kiryu-kun...”

Diferente da atmosfera ensolarada e quente, repleta de luz do dia e risadas de crianças, Kiryu-kun estava ali no parque, à noite, envolto em silêncio e escuridão. Kiryu-kun, que estava sentado em um banco, levantou o olhar ao me notar.

“Oh, você veio.”

O tom baixo com que Kiryu-kun disse isso tornava difícil associá-lo à personalidade alegre que ele exibia na escola.

Em contraste com ele, Haku, sentado ao seu lado, acenava com um sorriso.

“Ah, Nee-san! Finalmente você chegou! Eu já estava cansado de esperar.”

“Você diz isso, mas nem sequer me avisou o horário do encontro.”

Acabei me justificando sem querer.

Já que disseram que haviam esperado, talvez eu devesse ter pedido desculpas, mas eu simplesmente não conseguia aceitar aquilo.

Se era para ser um encontro, achei que eles deveriam ter sido mais claros quanto ao horário e ao local.

No entanto, Haku fez um bico ao ouvir minhas palavras, parecendo um tanto insatisfeito.

“Ehh, isso é uma desculpa...?”

“Bem, ela tem razão.”

Kiryu-kun interrompeu Haku.

“Aliás, nós nem sabíamos onde nos reunir, muito menos o horário.”

“Exatamente. Como eu estava neste parque quando fui liberada, vim para cá por enquanto, mas até isso me deixava preocupada.”

Aliviada por Kiryu-kun ter ficado do meu lado, não pude deixar de me juntar à reclamação contra Haku.

“Uuh...”

Percebendo que estava em desvantagem, Haku fez uma expressão triste e, então, baixou a cabeça com sinceridade.

“Desculpe.”

Ele parecia um menino do primário — mais ou menos da idade da minha irmã mais nova — e vê-lo baixar a cabeça me fez sentir culpada.

“Ah, não. Eu é que peço desculpas. Falei demais.”

Pedi desculpas a Haku, que parecia abatido.

Haku levantou a cabeça timidamente ao ouvir minhas palavras — e estava com um sorriso enorme no rosto.

“Eh?”

“Ahaha, você caiu na pegadinha.”

“Pegadinha? O-o-o quê!?”

Para onde tinha ido aquela docilidade de antes? Haku, que saltou do banco, exibia um sorriso radiante, visível mesmo sob a luz fraca do poste.

“E agora que a Nee-san pediu desculpas, vamos retomar de onde paramos na semana passada.”

Pelo visto, eu tinha caído numa armadilha.

Kiryu-kun aproximou-se de mim enquanto meus ombros caíam e sussurrou em voz baixa: “Idiota.”

“Cala a boca. Aliás, sua vibe não é muito diferente da que você mostra na escola? Essa é a sua verdadeira personalidade?”

“Quem sabe.”

Ele respondeu de forma seca, o que me irritou ainda mais. Eu achava que ele fosse uma pessoa alegre e gentil com todos na turma, mas sua personalidade e atitude reais eram tão detestáveis que parecia pura farsa.

Enquanto sussurrávamos, Haku continuava sua explicação.

“Então, acho que vou ouvir o Nii-san — o Rui — primeiro. Sobre o motivo pelo qual você quer morrer a todo custo.”

Existiria mais alguém capaz de ouvir o motivo de alguém querer morrer com tanto deleite? Haku questionou Kiryu-kun com um sorriso tão perfeito que chegava a arrepiar.

Pela aparência, ele não passava de uma criança comum brincando no parque, mas, no instante em que abria a boca, eu me lembrava de que ele era algo estranho, algo à parte de nós.

“……Eu...”

Enquanto eu pensava em Haku, Kiryu-kun falou baixinho.

“Tenho um irmão dois anos mais velho que eu.”

Era sobre o Nii-san de quem Kiho-chan havia falado. Então, no fim das contas, tratava-se mesmo de um complexo de inferioridade em relação ao irmão? Eu logo me arrependeria de ter pensado algo tão simplista.

“Ele é um recluso que não sai do quarto e, quando finalmente sai, tem surtos de violência e começa a quebrar tudo pela casa, arremessa objetos e acabou até me agredindo.”

“Eh...”

Ao notar meu breve som de reação, Kiryu-kun continuou:

“Meus pais, sem saber lidar com um irmão mais velho assim, pararam de voltar para casa. Faz tanto tempo que nem me lembro mais do rosto deles. Eles me deixaram para trás, jogaram toda a responsabilidade nas minhas costas e fugiram.”

“Isso é horrível...”

O fato de pais, que deveriam cuidar do filho, terem fugido dele — e de terem deixado tudo a cargo de Kiryu-kun — era algo tão terrível que me embrulhava o estômago.

Kiryu-kun deu um sorriso discreto ao ouvir o que eu acabara de dizer.

“Você comentou que minha personalidade é muito diferente de como eu ajo na escola, Mikami, mas aquela era a pessoa que eu queria ser. Alguém querido por todos, popular, bom nos estudos e nos esportes... Era o irmão mais velho que eu sempre admirei.”

Ao ouvir isso, senti um aperto doloroso no peito. Afinal, a pessoa que Kiryu-kun dizia admirar era exatamente a imagem do irmão dele na época do ensino fundamental, sobre a qual Kiho-chan havia me contado.

“Mas, ao ser alguém em quem todos confiavam, ao ser querido e rir alegremente todos os dias... vivendo assim, acabei perdendo a noção de quem eu realmente era. Assim como meu irmão se perdeu e mudou, eu também perdi a noção de mim mesmo.”

Um ar de tristeza permanecia no olhar de Kiryu-kun enquanto suas palavras perdiam a força.

“……Comecei a temer que, se continuasse assim, acabaria exatamente como ele.”

Fechando os olhos com um sorriso amargo, Kiryu-kun continuou em um tom distante.

“Isso não passa de uma imitação barata do meu irmão. Comecei a me perguntar qual era o sentido de eu estar aqui, qual era o meu valor. Todos veem apenas o ‘eu’ que atua para ser querido — assim como meu irmão era —, então comecei a achar que talvez não houvesse ninguém capaz de aceitar quem eu realmente sou.” Depois de dizer isso, Kiryu-kun abriu os olhos lentamente. Eram olhos escuros como um céu sem estrelas, transmitindo a impressão de que ele havia perdido toda a esperança.

“Foi então que fui tomado por um desejo de morrer. Senti que, se morresse, o ‘eu’ finalmente existiria de verdade, fosse qual fosse a forma que isso assumisse.”

Kiryu-kun desabafava em um tom que parecia conter qualquer emoção, mas sua expressão transbordava dor.

Certamente, se pudesse escolher, ele não gostaria que alguém que fosse apenas uma colega de classe ouvisse aquilo. Ainda assim, ao pensar no que Kiryu-kun devia estar sentindo enquanto falava, eu não conseguia dizer nada.

“Entendo. Deve ter sido doloroso.”

As palavras animadas de Haku para Kiryu-kun, logo após ele terminar de falar, foram a única coisa que pareceu destoar da atmosfera do momento.

“Não é de se admirar que você quisesse morrer se algo assim aconteceu.”

Mesmo quando ele tentou obter minha concordância com um “Não é?”, eu não soube como responder. Seria estranho dizer ‘Você tem razão’, mas eu também não tinha o direito de afirmar que escolher a morte era errado.

No fim, sem saber o que dizer, só consegui formular uma resposta vaga: “Acho que você tem razão.”

“E então? Por que a Ema quer morrer?”

Assim como fez com Kiryu-kun, Haku mudou a forma como se dirigia a mim.

“Ei, antes disso. Por que você está me chamando de Ema?”

“Hmm? Não era Ema-san?”

“É Ema. Mas você me chamava de ‘Nee-san’ antes, não é? Agora, de repente, está usando meu nome sem nenhum honorífico, e isso é meio estranho.”

“Ah, eu te confundi? Desculpe.”

Hehe, Haku riu como se estivesse sem jeito.

Eu não fazia ideia de que parte daquela conversa deveria ser constrangedora. Realmente sentia que Haku operava com uma noção de realidade diferente da nossa. ……Para começar, eu nem tinha certeza se ‘viver’ era a palavra certa.

“Isso é uma questão de política pessoal, então não sei se vocês vão entender.”

Haku batia a ponta dos pés ritmicamente — ton-ton — como se quisesse criar suspense.

“Quando nos encontramos da última vez, vocês dois ainda apresentavam elementos incertos demais para mim.”

“Elementos incertos?”

Para ser sincera, eu não estava entendendo nada naquele momento.

Olhei para Kiryu-kun e vi que ele estava de cenho franzido. Provavelmente pensava: “Sobre o que esse garoto está falando?”

“Aliás, normalmente não haveria duas pessoas mortas em uma cidade onde apenas uma deveria morrer.”

Haku estufou as bochechas, parecendo irritado. Aquela reação era fofa, mas o que ele dizia não tinha nada de fofo; pelo contrário, era perturbadoramente perigoso.

“Enquanto eu conversava com vocês sobre levar uma de suas almas, eu pensava: ‘Preciso voltar e verificar. Que chato’. Era possível que, devido a uma irregularidade, até mesmo a premissa básica da coleta da alma tivesse mudado.”

“O que isso tem a ver com a mudança na forma como você se dirige a nós?”

Quando interrompi aquela história que parecia que ia longe, Haku não pareceu particularmente ofendido; ele respondeu com uma expressão indiferente.

“Depois de verificar, não há dúvida de que apenas uma pessoa deveria morrer nesta cidade naquele dia. No entanto, os nomes de vocês dois estão escritos lá agora. A questão é que ambos trazem um ponto de interrogação ao lado.”

Haku terminou sua explicação unilateral com um sorriso satisfeito, mas ela continha palavras alarmantes demais, e senti uma dor de cabeça chegando.

Havia tantas coisas que eu desconhecia que sentia como se minha cabeça fosse cair de tanto que eu a inclinava para os lados.

Hum, então... o que isso significa...?

“Não entendi muito bem, mas...” Kiryu-kun disse, ao lado de mim, que estava confusa.

“Originalmente, eu deveria morrer, mas Mikami morreu como uma irregularidade. A princípio, a morte de Mikami foi uma irregularidade, mas agora não está decidido qual de nós morrerá. Ambos temos a possibilidade de morrer. É basicamente isso, certo?”

“Sim, é isso mesmo.”

Graças à forma clara como Kiryu-kun resumiu tudo, consegui organizar mais ou menos a situação atual. Ainda havia uma infinidade de coisas que eu não sabia, como exatamente a quem ele havia perguntado sobre nós, ou o que significava ter um “?” anexado aos nossos nomes.

Querer estar em pé de igualdade e usar nomes por esse motivo — era um sentimento que eu compreendia e, ao mesmo tempo, não.

Ainda assim, não era algo que eu sentisse necessidade de rejeitar.

“Entendo.”

Eu conseguia entender o desejo de ter um relacionamento de igualdade, em vez de um definido por dominância ou submissão.

Enquanto eu assentia, Haku voltou um sorriso para mim. “Então, é a sua vez! Ema, você pode me dizer o motivo pelo qual quer morrer?”

Diante desse pedido, fiquei sem palavras.

Mas eu não podia simplesmente me recusar a responder.

Os dois certamente perceberiam qualquer invenção ou desculpa.

Sendo assim...

Respirando fundo, eu falei:

“Não é que eu queira morrer. Eu só... não quero estar viva.”

Temi que eles zombassem de mim ou perguntassem do que diabos eu estava falando. Preparei-me para o escárnio deles.

Mesmo assim, aquela era a minha verdade sincera.

“Heh.”

Ouvi um som como um suspiro escapando, ou talvez uma risadinha discreta. Veio do Rui-kun, que estava bem ao meu lado.

“……! Você está pensando ‘lá vem aquele motivo de novo’, não é? Pois é, que pena! Eu não tenho um motivo ‘de verdade’ como o seu, Rui-kun!”

Não havia como evitar.

Eu entendia melhor do que ninguém o quão absurdo era escolher a morte por um motivo como aquele.

[Del: ‘Eu prefiro morrer do que perder a vida’ frase vibes. ]

Por isso, não havia como evitar. Era isso que eu tentava dizer a mim mesma. E, no entanto... “Tudo bem, não é? Acho que entendo.”

“Hã?”

Surpresa com aquelas palavras, olhei para Rui-kun.

Seu olhar era sério; dava para perceber que ele não estava apenas dizendo a primeira coisa que lhe vinha à cabeça.

“Não é que você tenha um motivo claro para querer morrer. Você simplesmente não quer viver. Você não quer estar viva — é isso, não é?”

“S-Sim.”

“Então, esse é um motivo perfeitamente válido para você querer morrer, Mikami.”

“É... mesmo?”

“É.”

Ele aceitou sem hesitar as palavras que eu havia dito de forma tão direta.

Senti uma onda de felicidade por ele ter entendido — por ter se solidarizado — e, por algum motivo, pareceu que o peso em meu coração ficou um pouco mais leve.

“Hmm. Então, suponho que possamos dizer que nenhum de vocês quer voltar à vida?” Diante da pergunta de Haku, tanto eu quanto Rui-kun assentimos silenciosamente.

“Nenhum de vocês achou que o outro fosse ‘mais adequado’ para morrer do que vocês mesmos?”

Era para ele estar perguntando a nós dois, mas seu olhar estava fixo em mim, como se dissesse: ‘Estou falando com você.’

“Isso, bem...”

“Acho que não.”

Enquanto eu buscava as palavras, Rui-kun rejeitou categoricamente a premissa de Haku.

“Eu tenho meus motivos, e a Mikami tem os dela. Não há necessidade de decidir qual deles está ‘acima’ ou ‘abaixo’ do outro.”

“Oh? Mas, nesse caso, não haverá como decidir qual de vocês vai morrer.”

“Isso é...!”

Haku observou Rui-kun ficar em silêncio, incapaz de formular uma resposta, e então soltou uma risadinha.

“Bem, já que não chegamos a uma conclusão desta vez, vamos deixar isso para a próxima reunião.”

A palavra “próxima” chamou minha atenção, e questionei Haku sobre ela.

“Por que temos que decidir quem quer morrer mais?”

“Não foram vocês que aceitaram a proposta do jogo?”

“Mesmo assim, por que essa encenação? Se você pode levar qualquer uma das almas, Haku, então deveria ser capaz de simplesmente decidir por conta própria e levar uma, certo?”

Eu queria saber por que ele estava tornando o jogo tão desnecessariamente demorado e complicado.

Ao ouvir minhas palavras, os lábios de Haku se curvaram em um sorriso profundo e sinistro.

“Porque levar a alma de alguém que não quer morrer é entediante.”

“Entediante...?”

“Sim. É muito melhor levar a alma de alguém que deseja tanto a morte a ponto de não conseguir mais suportar a vida. Você não concorda?”

“Mesmo que você me pergunte se concordo...”

Eu não sabia como responder a Haku, que dizia coisas tão aterrorizantes.

No entanto, sem se importar com a minha resposta, Haku continuou.

“Além disso, sabe, as próprias pessoas costumam ser as que menos entendem se realmente querem morrer ou não.”

Fiquei sem palavras diante das palavras carregadas de significado ditas por Haku enquanto ele sorria.

Haku tinha razão.

Se ele tivesse que escolher uma, talvez fosse eticamente mais “correto” levar a alma de alguém que realmente quisesse morrer, em vez de alguém que não tivesse certeza.

Mas por quê?

Ao observar o sorriso de Haku — que deveria ser agradável, mas que me causava arrepios, senti que não deveria levar aquelas palavras ao pé da letra.

Depois de dizer o que queria, Haku falou: “Bom, então, vejo vocês na semana que vem”, e desapareceu sem deixar vestígios.

Lembrei-me mais uma vez de que ele realmente não era humano.

Pensando bem, nenhuma criança humana normal diria coisas tão perturbadoras.

Quando verifiquei a hora, já passava das dez.

Meus pais certamente reclamariam se eu não chegasse logo em casa.

Lembrando-me de como fui deixada para trás rapidamente na última vez, decidi tomar a iniciativa e falar primeiro.

“Eu...”

Mas, antes que eu pudesse completar com “estou indo para casa agora”, Rui-kun falou.

“Vamos voltar, então?”

“Huh?”

“Como assim ‘huh’? Você não vai para casa?”

“Não, eu vou, mas...”

Eu não esperava que fosse ele a sugerir isso, então fiquei um pouco desconcertada.

“Ema... ah, desculpe. O Haku te chamava assim, então acabei me confundindo.”

Enquanto coçava a cabeça e falava meio sem jeito, Rui-kun parecia mais natural do que a versão dele que eu via na sala de aula.

Se, como Rui-kun disse, a pessoa na escola era uma persona fabricada, será que isso significava que a pessoa diante de mim agora era a verdadeira?

“É contagioso, não é? Nesse caso, acho que vou te chamar de Rui-kun.”

“Eh...”

Rui-kun fez uma expressão difícil de descrever — algo entre surpresa e perplexidade — ao ouvir minhas palavras.

Eu não achava que tinha dito nada tão estranho assim.

Só pensei que, se ele ia me chamar de Ema, eu seguiria o exemplo do Haku e o chamaria de Rui-kun.

E, no entanto, eu não entendia por que ele estava fazendo aquela cara.

“Ah, desculpe. Se você não gostar, volto a te chamar de Kiryu-kun, como antes...”

“Não, tudo bem. É, pode me chamar de Rui. Só que... hum... você poderia continuar usando nossos sobrenomes na escola?”

Ele provavelmente não queria que ninguém na escola soubesse desse acordo.

Eu entendia; fazia sentido.

Não teríamos como responder se alguém perguntasse por que começamos a nos chamar pelos primeiros nomes.

Com certeza não poderíamos dizer que estávamos discutindo qual de nós iria morrer.

“Entendi. Só por enquanto, então.”

“É. Só durante esse período em que o Haku está envolvido.”

Mesmo tendo dito isso, agora que era oficial, o constrangimento falou mais alto, e achei difícil realmente dizer o nome dele.

Depois que um silêncio constrangedor se instalou entre nós, trocamos sorrisos sem graça.

“Vamos para casa?”

“É, vamos voltar.”

Rui-kun caminhou ao meu lado assim que comecei a andar. “Onde exatamente você mora, Ema?”

“Pela região de Mikazuki-cho.”

“Ah, aquela região... Então você conhece uma loja chamada Takara-bune?”

“Claro. A garotada do meu bairro costumava ir lá comprar doces.”

“Que legal. Ficava um pouco longe de casa para mim.”

Caminhamos em direção à minha casa enquanto conversávamos sobre aquela loja nostálgica.

Faltavam mais uns cinco minutos para chegar; fiquei pensando se a casa do Rui-kun também ficava por ali.

Não, nós estudamos em escolas de ensino fundamental diferentes, então nossas áreas de abrangência escolar deveriam ser distintas.

Mesmo assim, o Rui-kun continuou me acompanhando pelo caminho todo.

Hesitante, parei de andar para tentar entender por quanto tempo ainda seguiríamos na mesma direção.

“Hum, licença...”

“Hmm? Já chegou em casa?”

“Falta um pouco mais, mas...”

“Entendo. Bom, já está tarde, então vamos logo para casa.”

Incentivada a apressar o passo, voltei a caminhar.

No fim das contas, o Rui-kun me acompanhou até a porta da minha casa.

“Hum, minha casa é bem aqui.”

Quando parei em frente à minha casa, com as luzes acesas, o Rui-kun assentiu.

“Ah, entendi. Até mais, então.”

Assim que disse isso, Rui-kun virou-se e seguiu o caminho de volta por onde viemos.

Ao observar suas costas enquanto ele se afastava, lembrei-me de Kiho-chan dizendo que Rui-kun estudava na Primeira Escola de Ensino Fundamental II.

“É a direção totalmente oposta à da minha casa...”

A escola ficava do outro lado do parque; não havia dúvida de que não era o caminho para a minha casa.

Não é que ele não conseguisse voltar dando uma volta maior, mas, ainda assim...

Mas, obviamente, levaria muito mais tempo do que simplesmente voltar pelo caminho direto.

“Espera, será que ele me acompanhou até em casa?”

Não seria estranho se “Kiryu-kun” fizesse algo assim.

O Kiryu-kun que eu via na escola era gentil e sociável.

Mas quem estava comigo agora há pouco era Rui-kun.

Rui-kun havia dito que “Kiryu-kun” era a pessoa que ele queria ser, não o seu verdadeiro eu.

Era verdade que o Rui-kun que conheci no parque tinha a língua afiada e era mais rude que Kiryu-kun.

Mesmo assim, o fato de ele ter me acompanhado até em casa daquele jeito me deixou desconcertada.

Afinal, não havia necessidade dele agir como Kiryu-kun perto de mim quando estava me encontrando como Rui-kun.

Então, se fosse esse o caso...

“Bem, acho que o Rui-kun também é uma pessoa gentil.”

Depois de murmurar essas palavras em direção às costas de Rui-kun — que já haviam desaparecido de vista —, entrei em casa.

Assim como Rui-kun usava a máscara de Kiryu-kun, eu também usava a minha, para desempenhar meu papel como membra de uma família feliz.

[Sol: Bem gentil ele, realmente. É psicologicamente fascinante pensar nas personas que cada um de nós cria para situações diferentes — máscaras que escondem o que realmente sentimos. Muitos escondem para não decepcionar, para não incomodar, para manter a paz ou simplesmente para serem aceitos. Mas o que acontece quando essas personas se multiplicam demais? A gente começa a agir no automático, respondendo ao que os outros esperam, e vai deixando pedaços da gente pelo caminho. O medo de decepcionar vira uma prisão silenciosa: quanto mais tentamos agradar, mais distante ficamos de nós mesmos. Talvez a pergunta não seja só “o que os outros vão pensar?”, mas “o que eu estou deixando de ser para caber no que esperam de mim?”. E talvez a maior gentileza — com os outros e conosco — seja permitir que a máscara caia de vez em quando, mesmo que alguém se decepcione.]

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 2 concluído

One Shot – Capítulo 2 – Capítulo 2: 4-10 de Outubro