O Cuidador da Ojou-samaVolume 8 – Epílogo
Capítulo 56NO DIA SEGUINTE ao evento social.
De manhã, enquanto eu ia em direção à academia, avistei Narika no corredor.
— Narika.
— Itsuki.
O corredor estava vazio, exceto por nós. Também não havia muitos alunos nas salas de aula.
Naquele dia, depois de consultar a Shizune-san e a Hinako, eu tinha ido à escola mais cedo do que o habitual. Não havia um motivo profundo para isso… apenas uma intuição. Eu sentia que Narika vinha aparecendo na academia mais cedo nos últimos dias.
Se ela estava esperando minha resposta, provavelmente estaria inquieta demais para ficar parada… e acabaria vindo cedo para a escola, certo?
— Posso te dar minha resposta?
— Claro…
Ainda havia tempo antes da chamada da primeira aula. Fomos até um patamar de escada silencioso, por onde poucas pessoas passavam.
Ali— eu lhe dei minha resposta.
Expliquei com cuidado tudo o que eu tinha organizado na cabeça enquanto conversava com a Yuri na noite anterior. Enquanto eu falava, a expressão de Narika mal mudou. Mas, olhando com atenção, eu percebia que ela estava se segurando; suas pálpebras e seus lábios tremiam levemente o tempo todo.
— Entendi…
Depois que terminei, Narika deu um breve aceno.
— Desculpa. É uma resposta tão vaga.
— Não… sinceramente, eu já esperava.
Narika continuou:
— Quer dizer, fui eu que me empolguei e fiz aquilo… Você provavelmente está no seu momento mais ocupado agora, Itsuki, e eu imaginei que você ainda não estivesse pronto.
Assim como a Yuri havia dito, Narika entendia meus sentimentos. Eu abaixei a cabeça, me desculpando novamente. Eu me sentia culpado por tê-la feito entender tudo daquele jeito.
— Desculpa…………
— Não se preocupe. Não é como se eu tivesse que desistir, certo? Se for assim, até que é uma sorte pra mim.
Eu tinha recusado a confissão de Narika por conveniência própria. Ainda assim, mesmo sabendo disso, ela não demonstrou nenhum sinal de ressentimento e até conseguiu sorrir.
Essa garota… a Narika… Normalmente ela era tão tímida… mas, pelos outros, conseguia ser forte.
Mesmo assim, daquela vez, ela não estava perfeita. Ela provavelmente nem percebeu que a voz dela estava tremendo.
— Tudo bem.
Reunindo coragem, eu encarei Narika diretamente.
— Narika. Me dá um soco, forte.
— Hein? U-Um soco?
— Um tapa também serve. Grita comigo, me xinga, tanto faz. Só…
Só… por favor, não chore. Eu mantive essas últimas palavras trancadas dentro de mim.
— Itsuki…. não me entenda mal.
Como se tivesse percebido o que eu queria dizer, Narika balançou a cabeça.
— Seria mentira dizer que não fiquei triste. Mas… eu entendi como você se sente, Itsuki.
Sua voz, ao dizer aquilo, não vacilou. Não eram apenas palavras para esconder a dor. Narika estava dizendo o que realmente sentia.
— Como eu disse antes, eu meio que já esperava sua resposta. Imaginei que você ia querer focar no que estava bem na sua frente agora, então talvez não tivesse espaço para isso… Mas, ao mesmo tempo, eu me perguntava o que isso significava pra mim.
Como Narika disse, eu tinha muitas coisas nas quais precisava me concentrar naquele momento. Mas e Narika?
— Eu… também.
Como se recolhesse cuidadosamente suas próprias emoções, Narika abaixou o olhar e falou com cautela.
— Graças a você ter vindo para a Academia Kiou, eu consegui fazer coisas que antes não conseguia. Fiz mais amigos, e sinto que meus planos para o futuro estão ficando mais claros. Me tornar presidente do conselho estudantil é uma dessas coisas.
Narika ergueu o rosto e me encarou. Seus olhos já não vacilavam.
— Eu também tenho muita coisa para fazer. Coisas que quero enfrentar, sonhos que quero realizar… Agora, eu preciso me concentrar nisso.
O olhar determinado dela atravessou o meu. Os sentimentos de Narika chegaram até mim com clareza. Agora que ela tinha dito aquilo — era óbvio, não era? Aquela era a Academia Kiou, uma escola prestigiada onde se reuniam herdeiros orgulhosos de famílias distintas. No futuro, cada aluno dali acabaria assumindo funções de grande responsabilidade, como líderes empresariais ou políticos.
Eu não era o único que estava se esforçando. Narika também devia ter muitas coisas para fazer naquele momento.
— Então… eu estou bem. …Vou manter esses sentimentos trancados no meu coração por enquanto — com as duas mãos sobre o peito, Narika disse: — Mas… só uma última vez, deixa eu falar claramente.
Com um sorriso suave, Narika moveu levemente os lábios.
— Eu gosto de você, Itsuki.
(N/SLAG: Fui buscar a frase! ela diz: (私は、伊月が好きだ) Watashi wa, Itsuki ga suki da.
Palavras simples. Sentimentos sem enfeite.
Mesmo eu já sabendo o que ela sentia, não importava quantas vezes eu ouvisse, eu não conseguia me acostumar com o impacto. Por algum motivo, aquilo me atingiu mais forte do que quando ela tinha me beijado na bochecha.
Talvez fosse porque eu conhecia a determinação dela… e mesmo assim ela ainda escolheu me lançar aqueles sentimentos de novo. Eu não podia retribuir os sentimentos de Narika por causa das minhas próprias prioridades. Ainda assim, lá estava ela, me atingindo com os mesmos sentimentos outra vez.
Se isso não era amor puro, então o que era? Se isso não era amor verdadeiro, então o que era?
…........!
Meus ductos lacrimais afrouxaram, e lágrimas se acumularam no canto dos meus olhos. Não era felicidade nem vergonha — não era algo tão simples. Quase parecia desrespeitoso responder a sentimentos daquele tipo com emoções tão comuns.
Eu só me sentia… honrado. E percebi que, como eu era naquele momento, não conseguia reunir sentimentos à altura dos dela.
— Obrigado.
Por me enviar sentimentos tão puros a alguém como eu.
— Desculpa.
Por não ter como retribuir esses sentimentos naquele momento.
Eu tentei segurar, mas algumas lágrimas ainda escaparam. Idiota… eu me repreendi em pensamento. Eu não era quem devia estar chorando ali.
Enxugando as lágrimas com o dedo e levantando o olhar, vi Narika fazendo o mesmo.
— Não chora…..
— M-Mas… você está chorando, Itsuki…!
Ao ouvir a voz trêmula de Narika, meus ductos lacrimais afrouxaram de novo. Nesse momento, ouvimos vozes de estudantes conversando vindas do fim da escada. Nossos ombros se contraíram ao mesmo tempo, e nos olhamos, surpresos.
— Pfft.
— Haha…!
Nós dois acabamos caindo na risada. A tensão no ar se dissolveu. Nossa dinâmica habitual tinha voltado.
— Eu me sinto… meio aliviada. Como se tivesse conseguido colocar tudo pra fora corretamente.
— Que bom.
Ainda bem. As vozes na escada foram ficando distantes enquanto as pessoas iam embora. Mas já era hora de outros alunos começarem a chegar. Provavelmente deveríamos encerrar aquela conversa importante.
— Aliás… quando seria um bom momento?
Narika perguntou.
Aquele "quando" significava quando eu estaria pronto para encarar um relacionamento amoroso.
— Agora é a época mais corrida pra mim, então ainda não sei… mas estou pensando em lidar com isso quando eu conseguir enxergar meu futuro com clareza.
Tipo, por exemplo, quando eu decidisse em qual empresa eu iria entrar, ou talvez que tipo de empresa eu iria abrir. Nesse ponto, eu provavelmente teria um pouco mais de espaço para respirar.
…Sinceramente, nem eu sabia quando isso aconteceria. No pior dos casos, esse momento talvez só viesse pouco antes de eu me formar na academia. Mas, por outro lado, poderia chegar já no mês seguinte.
Considerando a agenda intensa dos últimos seis meses, era possível que isso viesse mais cedo do que o esperado. Eu não estava exatamente tentando adiar meu relacionamento com Narika… então, nesse sentido, isso até seria conveniente.
— Entendi. Então, até esse momento chegar, eu vou me esforçar ao máximo para te conquistar.
— Hein?
A declaração repentina de Narika me fez piscar duas vezes, surpreso.
— P-Porque... se eu ficar me contendo, e você acabar mudando de ideia e se interessando por outra pessoa, eu ficaria arrasada!
— Não, isso não vai acontecer…
Depois de ter recusado a confissão de Narika, eu não estava prestes a fazer algo assim…
— Você não tinha acabado de dizer que tem várias coisas para fazer também? Pelo rumo da conversa, achei que você fosse se concentrar nisso por um tempo.
— Eu quero namorar você agora, Itsuki.
Espera, o quê?
— Eu disse que entendia os seus sentimentos. Nunca disse que sentia o mesmo. Se puder, quero que você namore comigo agora.
Essa garota… Ela estava ficando mais ousada a cada segundo…!
— B-Bom, quer dizer… se você me provocar demais, isso vira um problema…
— Provocar?
Quando expressei minha preocupação de forma cautelosa, Narika piscou, parecendo confusa.
— Você… sente que eu te provoco?
Obviamente—
Minha reação deve ter ficado estampada no rosto. Narika abriu um sorriso astuto.
— Ainda bem. …Então, se eu continuar te provocando sem parar, talvez você seja o primeiro a não aguentar e acabar vindo até mim.
Droga. Talvez eu tivesse cavado minha própria cova.
— Vamos testar uma coisa agora.
Isso é cedo demais!
Eu queria pelo menos um pouco de tempo… mas ignorando completamente meus sentimentos, Narika fechou lentamente a distância entre nós.
— N-Narika, espera um segundo…
Eu recuei instintivamente, até bater na parede atrás de mim. Sem me deixar escapar, Narika apoiou uma mão na parede — e se inclinou bem perto de mim.
Isso tinha um nome, não tinha? Certo——kabedon.
— Hã?
— Eu não entendo muito bem, mas ultimamente parece que isso deixa as pessoas felizes.
Dizendo isso, Narika ficou em silêncio, encarando meu rosto. Mas, em vez de ficar nervoso, eu estava mais confuso. Nunca imaginei que estaria do outro lado de um kabedon. E ainda por cima feito pela Narika.
De algum modo, voltando à calma, eu encarei o rosto dela. Mesmo com um leve traço de infantilidade, suas feições marcantes e belas — nobres o suficiente para encantar qualquer pessoa, homem ou mulher — estavam levemente coradas.
— Narika.
……………
— Seu rosto está vermelho.
Narika, agora completamente vermelha, se afastou lentamente de mim.
— Tch… como eu imaginava, não é tão fácil quando é você, Itsuki…
— Quando sou eu…?
Eu tive uma sensação ruim com aquilo.
— E-Espera um segundo. Não me diga que você fez isso com outras pessoas?
— Hã? Ah, às vezes as meninas me pedem pra fazer isso. Mas eu deixo bem mais leve do que isso… Isso é algum tipo de jogo da moda ou algo assim?
Claro que não era. Enquanto eu retrucava mentalmente, uma possibilidade repentina passou pela minha cabeça. O que eu tinha pensado quando vi o rosto de Narika agora há pouco?
Traços tão marcantes e belos que eram capazes de encantar qualquer pessoa, homem ou mulher—
— Onee-sama!
Naquele momento, uma voz chamou do outro lado do corredor. Eu reconheci… era uma das garotas que tinha falado com Narika depois do Management Game. Ela também tinha se aproximado dela no corredor naquela outra vez.
— Que timing perfeito.
Narika falou com a garota que se aproximava em passos rápidos.
— Eu tenho algo importante para te dizer.
— Hã… i-isso é sobre aquele dia…?
— Sim.
Narika assentiu profundamente e abriu a boca.
— Desculpa. Acho que não posso retribuir seus sentimentos.
— O quê?
Os olhos da garota se arregalaram. Sem dúvida, aquilo era uma resposta a uma confissão.
— E-Eu entendo… eu entendo…
A garota que tratava Naruka com tanta devoção, chamando-a de "Onee-sama", assentiu com lágrimas nos olhos.
Espera… então…
Não foi o Kita quem se confessou para a Narika — foi essa garota.
De fato, ultimamente Naruka vinha sendo bastante adorada por garotas, que a chamavam de "Onee-sama"… mas, pelo visto, depois de fazer kabedons como o que tinha acabado de fazer comigo, algumas acabaram desenvolvendo sentimentos verdadeiros por ela.
Enquanto eu tentava processar isso, alguém passou por mim apressado.
— Suminoe-san?
Ela devia ter acabado de chegar à escola. Carregando sua bolsa, Suminoe-san caminhou direto até a garota que Narika tinha acabado de rejeitar — e colocou a mão no ombro dela.
— Eu entendo como você se sente.
— Entende o quê?!
Com os olhos marejados, a garota apertou a mão de Suminoe-san com firmeza.
O que exatamente eu estava vendo…?
— Narika.
Por enquanto, eu decidi dizer uma coisa a Narika.
— Kabedon está proibido.
— Kabe…? O que é isso?
◆
Ao mesmo tempo, Minato Maki estava organizando documentos na sala do conselho estudantil.
Os relatórios de entrevistas enviados pelos membros e candidatos ao próximo conselho somavam quase cem páginas. Era excessivo apenas para conhecer alguém, mas, para o propósito oculto de checagem de antecedentes, aquela pilha de papéis era essencial.
Depois de compilar o relatório de Tennouji Mirei, Maki passou para o de outro aluno.
Tomonari Itsuki. Ela organizou o relatório do estudante masculino que estava tentando se tornar vice-presidente.
…Será que o Tomonari-kun encontrou alguém em quem confiar?
Sendo o cara sincero que era, se estivesse disposto, qualquer pessoa ficaria feliz em ouvi-lo. Ele provavelmente também superaria aquele problema.
Pelos relatórios, ele parecia o tipo que guardava suas preocupações para si. Por isso Maki tinha aconselhado que ele encontrasse alguém para conversar…
Hmm… não consigo afastar a sensação de que ele está tenso demais.
Era apenas um pressentimento, mas quanto mais ela lia, mais Tomonari Itsuki lhe parecia excessivamente sério. Ela tinha pensado que talvez fosse por ser um aluno transferido tentando se ajustar, mas agora ele já tinha vários amigos e, nos últimos seis meses, tinha alcançado as aulas. Com um lugar acolhedor para ficar, por que ele mantinha aquela seriedade tão intensa…?
A família de Maki, o Grupo Rakuou, era grande em escala, mas relativamente nova em comparação com as empresas das famílias dos colegas. Como parte dessa minoria, Maki entendia uma coisa. Os alunos da Academia Kiou eram todos esforçados, mas, surpreendentemente, não eram tão ambiciosos assim.
Por quê? Porque um caminho sólido já tinha sido traçado diante deles. Desde cedo, eles tinham plena consciência desse trajeto, então acabavam assumindo inconscientemente que o futuro deles já estava praticamente definido.
No entanto, Tomonari Itsuki era extremamente ambicioso. Era como se ele nem sequer enxergasse o caminho à sua frente. Antes de tudo — qual era o motivo dele para buscar o conselho estudantil?
Ele tinha dito que queria se tornar consultor, mas… por que o herdeiro de uma empresa de TI de médio porte escolheria um caminho desses? Sua determinação parecia firme. E era justamente por isso que a falta de uma origem clara para aquela ambição soava inquietante.
Por que ele vivia de forma tão séria, tão firme… e por quem?
— Talvez eu devesse apenas perguntar a ele……
Maki deslizou o dedo pela tela do smartphone. Após alguns instantes, a chamada se conectou.
"Desculpe por ligar tão cedo. É um bom momento?"
"Eu pensei ter dito para você não me contatar com tanta frequência."
"Desculpa. Mas há algo que eu preciso perguntar."
Mesmo recebendo uma irritação direta, ela já esperava aquilo e não se abalou.
"Tomonari Itsuki. Você o conhece, não conhece? Eu queria saber mais sobre ele—"
"Desculpe, mas não estou com disposição para responder essa pergunta."
A pessoa do outro lado respondeu de forma fria.
"…Posso saber por quê?"
"Informação pessoal, entende? Eu quero proteger meu discípulo."
É, claro…
Maki murmurou com sarcasmo em sua mente. Isso vindo de alguém que espalharia informações confidenciais pelo mundo inteiro se isso fosse conveniente.
"…E quanto à sua ex-discípula? Ela não merecia o mesmo cuidado?"
"Isso é culpa sua por não ter demonstrado talento suficiente para me fazer querer te proteger. …Estou ocupado, então vou desligar agora."
Sem esperar resposta, a chamada foi encerrada abruptamente. Maki soltou um suspiro. Em seguida, olhou para o relatório em sua mão.
Tomonari Itsuki. Um estudante do segundo ano da Academia Kiou, que almejava se tornar vice-presidente.
E — o discípulo dele.
…Não consegui evitar sentir inveja.
Não era natural que ela, que um dia percorreu o mesmo caminho que Tomonari Itsuki como sua discípula apenas para ser descartada no meio do caminho, tivesse dificuldade em conter as emoções turbulentas dentro do coração?
Uma atitude completamente inaceitável para uma presidente do conselho estudantil.
Mas, ainda assim… quando se tratava de Tomonari Itsuki, ela não conseguia deixar completamente de lado seus sentimentos pessoais.
— Se ele perdesse a eleição… que tipo de expressão aquela pessoa faria?
Seus pensamentos se voltaram para seu antigo mentor, que nunca mais olharia em sua direção.
A Academia Kiou estava à beira da eleição do conselho estudantil——.
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