O Cuidador da Ojou-samaVolume 9 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Porque quero competir de igual para igual
Capítulo 62DEPOIS DAS AULAS.
À medida que o inverno se aproximava e os dias ficavam mais curtos, o céu se tingia de um tom alaranjado suave.
Os boatos maldosos que Rintarou havia espalhado estavam, pouco a pouco, perdendo força. Durante os discursos no horário do almoço, Tennouji-san e Narika perceberam a mudança na atmosfera da multidão e se sentiram mais tranquilas.
Como esperado, a capacidade de autocorreção da Academia Kiou era forte. Esta academia, repleta de pessoas sinceras, tinha muitos alunos capazes de apontar uma mentira pelo que ela realmente era. Poucos acreditavam cegamente em boatos ouvidos por aí; a maioria preferia verificar a verdade com os próprios olhos.
Acredito que campanhas difamatórias se aproveitam da visão limitada das pessoas. Mas, em um ambiente como a Academia Kiou, onde a maioria pensa com profundidade, esse tipo de tática simplesmente não se sustenta.
Não era por querer me vangloriar, mas havia algo que eu queria dizer da próxima vez que encarasse Rintarou. Para Rintarou, que parecia tão desiludido com esta academia, eu queria declarar com orgulho: — Viu? Esta academia não é tão ruim assim, é?
Se possível, eu esperava que Rintarou também pudesse passar a gostar deste lugar, mesmo que só um pouco, mas…
A situação havia mudado. Na sala de aula, que já começava a esvaziar, Taishou se aproximou da minha carteira.
— Tomonari, você parece meio aéreo desde as aulas da tarde. Está tudo bem?
— Estou bem.
Forçando uma expressão animada, dei um sorriso sem graça.
Taishou assentiu com um breve "entendi", mas tive a impressão de que ele percebeu que eu não queria que insistissem no assunto, então ficou quieto.
— Mesmo assim, que boatos estranhos estão rolando, hein? Tipo esse de que o seu status é falso ou sei lá.
— É…
— Não tem como alguém acreditar nesse tipo de coisa, né?
Para Taishou, que acreditava completamente na minha inocência, a ideia de que eu pudesse estar abalado por uma fofoca dessas sequer passava pela cabeça.
O mesmo valia para o resto dos nossos colegas. Ninguém duvidava de mim.
E era exatamente por isso que doía.
Agulhas de culpa perfuravam silenciosamente o interior do meu coração.
Um dia, quero ficar ao lado de todos como quem realmente sou. …Mas, por enquanto, ainda não posso revelar minha verdadeira identidade.
— Tomonari-kun…
Asahi-san se aproximou, com uma expressão de culpa no rosto.
— Desculpa. Talvez, porque eu ajudei vocês, Rintarou tenha ficado irritado e…
— Não é sua culpa, Asahi.
Assenti, concordando com as palavras de Taishou.
— Taishou tem razão. Você não precisa se sentir responsável por isso, Asahi-san. …Eu ficaria feliz se você continuasse nos ajudando.
— Está bem.
Asahi-san assentiu de leve.
— Esse Rintarou… agora que a campanha difamatória dele está perdendo força, ele apela para boatos sobre o status de alguém? Parece que está ficando desesperado, hein?
— Talvez.
Até agora, eu não tinha ouvido nada concreto que sustentasse esse boato. Como Taishou havia sugerido, era provável que fosse apenas algo que Rintarou tivesse inventado num momento de desespero.
Mas a minha posição não me permitia baixar a guarda. Se Rintarou tivesse algo sólido para sustentar esse boato…
Só a existência desse risco já me fazia sentir como se Rintarou segurasse meu coração nas mãos.
O boato era verdadeiro. Eu havia falsificado meu status para me transferir para a Academia Kiou. Para alguém como eu, ser suspeito justamente disso era o pior cenário possível.
Mesmo que o boato não tivesse provas e ninguém acreditasse nele, o que Kagen-san pensaria se visse essa situação?
Se minha verdadeira identidade fosse exposta, meu papel como cuidador também poderia vir à tona.
Neste momento, eu era uma bomba-relógio capaz de despedaçar a fachada perfeita de Ojou-sama de Hinako.
— Tomonari-san.
— Itsuki.
Uma voz me chamou do lado de fora da sala. Tennouji-san e Narika estavam me observando. Levantei-me da cadeira e fui até elas.
— Desculpem, já está quase na hora do discurso, não é?
— Este não é o momento para falar disso.
Tennouji-san falou com cautela, enquanto Narika me olhava com uma expressão preocupada.
— Itsuki… você está bem?
— Não sei.
Como as duas conheciam minha verdadeira identidade, entendiam por que esse boato não podia ser ignorado. Provavelmente conseguiam enxergar a angústia desesperada que se agitava dentro do meu peito.
Hinako…
Quando olhei de volta para a sala, meus olhos se encontraram com os de Hinako.
Ao ver a preocupação em seu olhar, firmei minha determinação.
— Vou falar com Rintarou.
Eu disse a Tennouji-san e Narika.
— Vocês duas se concentrem no discurso. O índice de aprovação de Joutou-kun está subindo, então não podemos nos dar ao luxo de ficar para trás agora. …Eu mesmo vou lidar com esse boato.
Como planejado, o discurso de hoje incorporaria algumas das exigências dos apoiadores de Hinako. Talvez por perceberem minha determinação, as duas assentiram profundamente.
Depois de vê-las partir para se preparar para o discurso, segui em direção ao prédio dos alunos do primeiro ano, tirando o smartphone do bolso.
A ligação foi atendida quase imediatamente.
"Shizune-san, desculpe incomodar. Há algo urgente que preciso discutir com você."
Expliquei a ela o boato sobre mim que circulava pela academia.
Como já havíamos contado que estávamos enfrentando uma campanha difamatória, Shizune-san entendeu rapidamente que esse boato talvez fizesse parte dela.
"Determinei que não há risco de a verdadeira identidade de Itsuki-san vazar para o exterior."
Shizune-san apresentou sua avaliação sem demora.
"Desde o incidente com Tennouji-sama, tomamos precauções extras para garantir que uma falha como aquela nunca mais aconteça. Embora alguém possa notar seus gestos ou seu modo de falar, não há como uma prova definitiva vazar."
"…Entendido. Vou conferir novamente do meu lado também."
"Sim. Por favor, tome cuidado."
Embora tenha afirmado com confiança que nenhum vazamento era possível, o tom de Shizune-san carregava uma tensão maior que o normal. Ela também compreendia a gravidade da situação.
Guardei o smartphone no bolso e comecei a subir as escadas em direção ao prédio dos alunos do primeiro ano. Parado diante de mim estava Rintarou.
— Eu estava esperando. Você queria falar comigo, não é?
— Sim.
Encarei o sorriso ousado de Rintarou com um olhar firme.
◆
— Você me pegou direitinho.
Sentado à minha frente no café da academia, Rintarou abriu a conversa com essa frase. Ele tirou um panfleto e o mostrou para mim. Era aquele que eu havia feito na noite anterior e impresso naquela manhã para combater os boatos.
— Esse panfleto ficou impressionante. Também dei uma olhada no site. Tem uma quantidade absurda de informações. Eu nunca imaginei que você enfrentaria uma campanha difamatória de um jeito tão direto e bruto. Como alguém que recorreu a táticas desleais, estou sinceramente frustrado. É preciso muita coragem para se prender a métodos honestos numa situação como esta.
— Acho que eu simplesmente não sou bom com táticas sorrateiras.
— Melhor assim. Nada supera agir de forma justa e limpa.
Disse o cara que estava usando todos os truques sujos possíveis.
Soltei um suspiro, tentando aliviar a irritação que começava a ferver dentro de mim.
— O que eu quero discutir é o novo boato que você espalhou. Aquele sobre o meu status.
Nenhum de nós tocava nas xícaras sobre a mesa. Sentindo a tensão no ar, pressionei-o.
— Em que você se baseou para espalhar um boato desses?
— Em nada.
Rintarou disse isso sem o menor sinal de vergonha.
— É assim que campanhas difamatórias funcionam. Quem fala primeiro vence.
Rintarou inclinou a xícara e tomou um gole de café.
— Claro, se eu encontrasse provas, seria muito mais eficaz, então cheguei a considerar investigar. Mas, se Tomonari-senpai realmente estivesse falsificando o próprio status… o Grupo Konohana teria que estar te apoiando, certo?
Minha identidade pública era a de herdeiro de uma empresa de TI de médio porte pertencente ao Grupo Konohana. Se aquilo fosse mentira, significaria que o próprio Grupo Konohana estava envolvido.
— Não existe agência de investigação capaz de enfrentar o Grupo Konohana. Eu tentei fuçar um pouco usando minhas conexões, mas… bem, foi inútil. Desisti bem rápido de encontrar provas concretas.
Para Rintarou, aquele assunto não parecia ser motivo suficiente para ficar tenso. Depois de pousar a xícara, ele ficou encarando o pires por um instante. Talvez estivesse avaliando o preço da louça.
Soltei um suspiro baixo.
Não havia base para o boato. Em outras palavras, a fofoca que Rintarou havia espalhado era completamente infundada.
Ele não havia descoberto minha verdadeira identidade.
Graças a Deus… mas eu não podia deixar isso transparecer.
Se eu demonstrasse alívio ali, Rintarou apenas ficaria ainda mais desconfiado do meu status. Por isso, mantive a compostura, agindo como se as suspeitas dele não significassem nada.
— Ainda assim, não acho que a possibilidade seja zero.
Desviando o olhar das próprias mãos para mim, Rintarou continuou:
— Se a verdadeira identidade de Tomonari-senpai fosse a de um plebeu que, normalmente, jamais conseguiria entrar na Academia Kiou… isso explicaria todos esses seus comportamentos nada típicos de alguém da Kiou.
Do ponto de vista de Rintarou, eu conseguia entender por que ele pensaria assim.
— Me dê uma chance. Só uma pequena chance.
— Uma chance?
— Sim. A partir de agora, vou presumir que existe a possibilidade de você ser um plebeu e vou dizer o que penso.
Inclinei a cabeça, sem entender muito bem, enquanto Rintarou se levantava.
Se, naquele momento, minha verdadeira identidade como plebeu fosse exposta…
Rintarou abriu bem a boca.
— Por que você está escondendo quem realmente é!?
O grito de Rintarou perfurou meus ouvidos.
— Você está numa posição incrível! Veio de uma origem plebeia e, mesmo assim, é o centro das atenções nesta academia!? Você é a prova de que até um plebeu pode brilhar intensamente se se esforçar!
Rintarou bradou do fundo do coração.
— Tomonari-senpai, você poderia ser o porta-estandarte definitivo para nós! Se você viesse para o nosso lado, nossa vitória estaria garantida! O mundo ao qual você pertence é o nosso!
Sua voz carregava um tom desesperado. Uma gota de suor escorreu pela bochecha de Rintarou. Sacrificando sua compostura habitual, ele despejou a paixão ardente que mantinha reprimida.
Parecia que ele lançava aquelas palavras contra uma versão hipotética de mim, uma versão que era plebeia. Mas minha resposta já estava decidida.
— Desculpe, mas você está enganado.
Ao ouvir minha resposta, o rosto de Rintarou, que até então transbordava fervor, perdeu a cor.
— Entendo… Haha, essa é a realidade, não é? Mesmo que você fosse um plebeu, se essas palavras não te alcançassem, não teriam sentido algum.
Com uma risada vazia, Rintarou se deixou cair de volta na cadeira.
…Ele realmente tinha grandes expectativas, não tinha?
Esperava que minha verdadeira identidade fosse apenas a de um plebeu capaz de se tornar o porta-estandarte do grupo de Joutou. …Considerando a plataforma de Joutou, eu me encaixaria como a última peça de um quebra-cabeça.
Olhando para Rintarou, com a cabeça baixa, eu conseguia ver o arrependimento escorrer de seus ombros murchos.
Independentemente dos métodos que usava, Rintarou havia sido sério desde o começo.
Para mim, Rintarou já não era mais um estranho. Ele era o irmão mais novo de Asahi-san, alguém com quem eu havia tido conversas bastante intensas durante esta eleição.
Então, eu diria aquilo.
Eu já havia conquistado o direito de dizer isso agora.
— Rintarou, não acha que já está na hora de parar de deixar suas emoções falarem mais alto?
Rintarou ergueu o olhar.
Como eu já havia dito a ele antes, tento me manter o mais racional possível para sobreviver nesta academia. Mesmo assim, há momentos em que chego ao meu limite e acabo deixando as emoções tomarem conta.
Mas parecia que Rintarou era igual.
— Tudo o que você está fazendo é tentar se vingar de Asahi-san. Esse é o único motivo pelo qual continua mantendo essa campanha difamatória.
Desde que Takuma-san explicara os "tipos políticos" da Academia Kiou, eu vinha sentindo que havia algo estranho. …Rintarou não se encaixava nesse molde.
Rintarou não era alguém que usaria qualquer meio necessário. Ele não era um tipo político… era apenas um garoto agindo movido pelas próprias emoções.
— Me vingar dela? Eu não sou tão infantil assim.
Rintarou disse isso claramente confuso. Ele não parecia entender por que eu diria algo assim.
— Estou usando estratégias racionais para fazer Joutou-senpai se tornar presidente…
— Primeiro lugar da turma desde que entrou.
Interrompi a desculpa de Rintarou.
— Você também gabaritou o exame de admissão, não foi? Sua postura nas aulas é exemplar… sempre participa, sempre recebe elogios dos professores.
É claro que eu havia feito minha pesquisa sobre Rintarou. No começo, fiquei dividido entre apoiar Tennouji-san ou Narika e acabei ficando sem tempo, mas agora era diferente. Em cada momento livre, eu investigava Rintarou.
E… fiquei espantado.
Como alguém que almejava o cargo de vice-presidente, Rintarou era, sem dúvida, um rival formidável.
— O fato de você conseguir espalhar boatos a esse ponto significa que tem muita influência. Você não conseguiria fazer uma fofoca tão infundada se espalhar desse jeito se seus colegas não confiassem profundamente em você.
Mesmo entre os alunos do primeiro ano, muitos conheciam Tennouji-san e Narika. Ainda assim, muitos acreditaram nos boatos de Rintarou. Era esse o peso que as palavras dele tinham.
Não era estranho que eu sequer conseguisse bater de frente com alguém como Rintarou?
A menos que… Rintarou estivesse sendo movido por rancores pessoais, fazendo com que perdesse o equilíbrio.
— Você não está exatamente no nível de Konohana-san, mas, entre os alunos do primeiro ano, é o mais próximo possível da posição dela. Existem estudantes com origens familiares melhores que a sua, e mesmo assim você superou essa diferença para ficar no topo. …Alguém assim não deveria se limitar a campanhas difamatórias.
— Isso é… só especulação.
— Então por que você parece tão angustiado?
Rintarou ficou em silêncio.
— Não acho que seja cem por cento por vingança. No primeiro dia, Tennouji-san e Narika estavam praticamente empatadas em apoio. É verdade que você provavelmente pensou que táticas desleais eram sua única chance. …Mas, mesmo assim, alguém como você poderia ter encontrado outros caminhos.
As mãos de Rintarou, apoiadas sobre a mesa, se fecharam em punhos.
— Imagine o seguinte. Se você e Asahi-san não tivessem se desentendido… será que você realmente teria escolhido esse método para fazer Joutou-kun vencer?
…!
— Você pretende abrir sua própria empresa, não é? Já vem aprimorando as habilidades necessárias para isso, certo? Com esse nível de ambição, por que se prender a uma abordagem tão mesquinha?
Eu disse isso a Rintarou, cujo rosto havia endurecido.
— Eu não estou te subestimando.
Falei com Rintarou, cujos olhos vagavam sem rumo.
— Você poderia ter escolhido outro caminho, mas optou por um que machuca os outros, esperando que isso também servisse como uma forma de se vingar de Asahi-san.
Era apenas um chilique. Uma explosão infantil. A campanha difamatória de Rintarou não passava de uma maneira de descontar nos outros por não fazerem aquilo que ele queria.
Eu havia entendido tudo errado até agora. Aquilo não era negócio nem política. Não era algum jogo estratégico astuto. O que Rintarou enfrentava era um problema emocional que qualquer pessoa poderia ter. E, provavelmente… a única que havia percebido isso desde o início era Asahi-san.
— Rintarou… só porque você se machucou, isso não te dá o direito de machucar os outros.
Depois dessa última afirmação, esperei pela resposta de Rintarou.
Rintarou mordeu o lábio, seu corpo tremendo levemente. Ele manteve a cabeça baixa, como uma criança repreendida pelos pais.
…Ele nem tinha percebido.
Eu já desconfiava disso. Seus esforços para fazer Joutou se tornar presidente e seu ressentimento por Asahi-san haviam, de alguma forma, se emaranhado. Mas agora, ao ouvir minhas palavras, ele finalmente percebia. Tudo o que vinha fazendo era tentar se vingar…
— Suponha…
Rintarou falou com uma voz frágil.
— Suponha que eu só estivesse tentando me vingar… e daí?
A escolha de Rintarou foi insistir no erro.
— Minha resposta não muda. …Se quer que eu pare, venha para o nosso lado.
Essa era a única coisa que eu ainda não conseguia entender. Rintarou vinha tentando me recrutar esse tempo todo. Mesmo antes de suspeitar que eu pudesse ser um plebeu, ele havia mantido essa postura de forma consistente.
Eu não sabia o motivo, mas… de qualquer forma, eu não podia aceitar suas exigências. A pessoa que eu queria apoiar era outra.
— Eu sei de uma forma de te impedir.
Esse provavelmente era o método mais simples.
— A campanha difamatória… você não recebeu permissão de Joutou-kun para fazer isso, recebeu?
Os olhos de Rintarou se arregalaram, e sua reação confirmou que eu havia acertado.
— Eu sei porque conversei com Joutou-kun. Ele não é o tipo de pessoa que aprovaria algo assim, certo? E imagino que tentar me recrutar também tenha sido uma decisão só sua, não foi?
Quando conversei com Joutou ao lado de Hinako, senti que havia algo estranho.
Para alguém que supostamente estava tentando me recrutar, ele foi formal demais. Cheguei a pensar que talvez fosse apenas impressão minha, então perguntei a Hinako o que ela achava, e ela sentiu o mesmo desconforto.
O recrutamento, a campanha difamatória… Joutou não tinha relação com nada daquilo.
— Você pretende contar a Joutou-senpai o que eu fiz?
— Isso depende do que você fizer daqui em diante.
Rintarou me lançou um olhar confuso, como se se perguntasse por que eu não o havia denunciado desde o início, se já sabia.
Porque, antes que eu pudesse fazer isso, uma grande pergunta surgiu em minha mente.
Por quê?
Por que Rintarou precisava fazer tudo aquilo sozinho?
Por que Rintarou, sendo candidato a vice-presidente, precisava ir tão longe?
Por que Rintarou precisava carregar esse fardo sozinho?
Eu acho que a campanha difamatória era, em grande parte, uma forma de se vingar de Asahi-san. Mas, se esse era o caso, e quanto à tentativa de me recrutar? Por que tinha que ser Rintarou, e não Joutou?
— A família de Joutou-kun parece valorizar muito a tradição.
— Você investigou até esse ponto?
Eu tinha ouvido isso de Tennouji-san.
Em qualquer círculo, reformas podem trazer dor. Essa dor poderia se transformar em uma vulnerabilidade no mundo político em que os pais de Joutou atuavam; um ponto fraco que eles prefeririam não expor.
Para sobreviver na política, os pais de Joutou provavelmente não queriam que o filho causasse problemas. Políticos estão sempre sob vigilância, e um deslize do filho poderia apertar ainda mais a corda em volta do pescoço deles.
Em um ambiente assim, será que Joutou estava realmente levando a sério a ideia de promover reformas nesta academia? Para mim… não parecia ser o caso.
— Rintarou, talvez Joutou-kun nem tenha a intenção de vencer…
— Isso não importa.
Rintarou recuou, como se tentasse desviar o olhar da dura realidade colocada diante dele.
— Os ideais de Joutou-senpai são verdadeiros. Ele é quem deveria estar no topo desta academia.
Rintarou se levantou e saiu do café.
Peguei a xícara intocada e bebi o café de uma só vez. O amargor frio me ajudou a mudar o foco.
— Certo…..
Eu já havia me decidido. Eu mergulharia de cabeça nessa briga entre irmãos.
◆
Enquanto caminhava pelo corredor coberto, ouvi o discurso de Tennouji-san. Naquele dia, ela discursava em frente ao ginásio e, conforme me aproximei, vi uma multidão reunida ao redor dela.
Aproximei-me de uma garota que observava a multidão a certa distância.
— Tomonari-kun?
— Asahi-san… preciso falar com você sobre Rintarou.
Talvez percebendo a seriedade na minha expressão, Asahi-san assentiu de leve e me acompanhou para longe do ginásio.
No caminho, olhei para trás e cruzei o olhar com Tennouji-san em meio ao discurso. Ao me ver com Asahi-san, ela provavelmente deduziu que o assunto era Rintarou. Por um breve instante, sorriu, como se dissesse: "Deixe isso comigo", antes de retomar o discurso com vigor renovado.
Agradecido pela confiança que Tennouji-san transmitia, conduzi Asahi-san até os fundos do ginásio.
Depois de confirmar que não havia mais ninguém por perto, contei os detalhes da minha conversa com Rintarou.
— Entendi. Então foi tudo obra de Rintarou, e Joutou-kun não sabia de nada.
Asahi-san levou as mãos à cabeça depois de ouvir a história.
— O que eu faço…? Hoje, no intervalo do almoço, acho que acabei encarando Joutou-kun meio feio…
— É compreensível. Até eu imaginei que Rintarou fosse o cérebro por trás disso, mas não esperava que ele estivesse escondendo tudo de Joutou-kun.
Ainda assim, eu também não havia previsto que ele admitiria tão facilmente.
Eu ainda não entendia muito bem por que Rintarou falava tanto comigo, e só comigo. Ele até disse que sempre planejou me contar que estava por trás da campanha difamatória…
— Então, se fizermos Joutou-kun mandar Rintarou parar, tudo se resolve, certo?
Exatamente.
Exatamente, mas… Balancei a cabeça.
— Não. Vamos evitar isso.
— Hã? Por quê…?
— Porque essa abordagem não resolve os problemas de Rintarou.
Se denunciássemos tudo a Joutou, Rintarou talvez ficasse quieto por um tempo. Mas, assim que a eleição acabasse e ele se visse livre da influência de Joutou, provavelmente faria a mesma coisa em outro lugar.
Como, por exemplo, na empresa da família de Asahi-san…
— Mas isso é… isso é um problema nosso, de irmãos. Tomonari-kun, você não precisa se preocupar com isso…
— Não. Deixe-me me preocupar.
Diante de Asahi-san, que falava em tom de culpa, deixei claro que estava disposto a me envolver profundamente naquela briga entre irmãos.
O maior motivo pelo qual eu não conseguia deixar aquilo de lado era ver Asahi-san sofrendo. Mas, se eu dissesse isso, ela apenas se sentiria ainda mais culpada e se fecharia.
Então expliquei a parte egoísta. Eu também tinha meus próprios motivos para querer encerrar aquela discussão entre irmãos.
— O Management Game foi difícil, mas divertido para mim. Ele me ensinou, na prática, o valor de competir com seriedade contra outras pessoas. …E eu também espero isso desta eleição.
Aquilo era puro egoísmo, minha verdade sincera.
Eu esperava que esta eleição também me trouxesse uma experiência valiosa. O Management Game me ensinou que, se todos os envolvidos puderem sair satisfeitos no fim, mesmo que as coisas fiquem tensas ou desconfortáveis durante o evento, depois que tudo acaba, vocês podem se tornar bons conhecidos. Ikuno e Suminoe-san eram exemplos perfeitos disso para mim. Eu os conheci por causa do Management Game e, agora, conseguimos conversar casualmente.
Eu estava satisfeito com esse resultado.
E queria o mesmo desta vez.
— Desculpe se isso soa presunçoso. Eu quero que esta eleição pareça limpa. Vencendo ou perdendo, quero que todos possamos rir juntos no final. Quando esta eleição acabar… eu também quero me dar bem com Rintarou.
Eu queria me dar bem com Rintarou. Quando disse isso, os olhos de Asahi-san se arregalaram.
Se Rintarou estivesse tentando nos sabotar de forma fria e racional, eu não teria feito essa sugestão. Por mais duro que isso fosse para Asahi-san, provavelmente eu o teria denunciado a Joutou para fazê-lo parar.
Mas acredito que Rintarou não teria recorrido a essas táticas se não fosse pela briga com Asahi-san.
Se esse era o caso, a raiz do problema não estava em Rintarou em si.
Se conseguíssemos apenas mediar essa briga entre irmãos… tudo poderia se encaixar de forma limpa.
— Então, por favor, deixe-me ajudar a resolver a briga entre vocês. …Eu quero que todos nós — eu, Asahi-san e Rintarou — lutemos esta batalha de maneira justa.
Rintarou estava arrastando a briga entre irmãos para dentro da eleição. Talvez… se quiséssemos, pudéssemos simplesmente ignorar isso.
Mas, se eu me tornasse vice-presidente dessa forma, acabaria perdendo algo.
Se eu pisasse em Asahi-san, que estava sofrendo, e em Rintarou, que também lutava à própria maneira, para conquistar o cargo de vice-presidente, eu não conseguiria manter a cabeça erguida nessa posição.
— Obrigada — Asahi-san sussurrou seu agradecimento. — Por pensar tão seriamente em mim… não, em nós.
Seus olhos estavam marejados.
Eu havia tentado enfatizar que fazia aquilo por mim mesmo, mas talvez essa consideração fosse desnecessária para Asahi-san. Provavelmente, ela também queria encerrar aquela briga entre irmãos havia muito tempo.
Enxugando uma lágrima no canto do olho, Asahi-san olhou para mim.
— Tomonari-kun… posso contar com você?
Sentindo sua determinação de seguir em frente, assenti sem hesitar.
— Sim. Você sempre me ajudou, Asahi-san. Então, deixe-me retribuir pelo menos isso.
— Haha… Tomonari-kun, você realmente se tornou confiável, não é?
Será que ela estava se lembrando da primeira vez em que nos conhecemos?
Ao longo dos últimos seis meses, fiz o meu melhor para viver de forma sincera. Se esses esforços diários me transformaram em alguém confiável, então eu definitivamente deveria ajudar Asahi-san agora.
Se o caminho que trilhei até aqui estava certo, eu queria continuar estando presente para alguém, assim como estive antes.
— Ugh, agora entendo por que tanta gente gosta de você~.
Asahi-san disse isso com uma risada.
— Eu sou tão querido assim?
— Sim. De várias formas.
De várias formas?
Inclinei a cabeça diante daquele comentário adicional. Asahi-san apenas sorriu ao ver minha confusão.
— Enfim, eu gostaria de começar a planejar como reconciliar vocês dois… mas, antes, tem uma coisa que quero te perguntar, Asahi-san.
Quando Asahi-san assumiu uma expressão séria, eu perguntei:
— Por que você traiu Rintarou em primeiro lugar?
O rosto de Asahi-san enrijeceu.
— Ouvi dizer que você desistiu de abrir o próprio negócio e decidiu assumir a empresa da família… mas não foi só por estabilidade futura ou algo simples assim, certo? Não acho que você trairia Rintarou por um motivo tão direto, Asahi-san, mesmo que outras pessoas pudessem fazer isso.
Decidir assumir os negócios da família em busca de estabilidade parecia uma escolha bastante normal. Por isso, eu nunca havia questionado aquilo antes. No entanto, considerando a culpa que vinha pesando sobre Asahi-san ultimamente, comecei a me perguntar se não havia algo mais específico por trás disso.
Asahi-san não era o tipo de pessoa que trairia alguém apenas para se proteger.
Devia haver alguma circunstância especial que havia causado aquela ruptura com seu irmão.
— O motivo pelo qual eu traí Rintarou… existe.
Asahi-san falou com uma voz frágil.
— Mas, mesmo que eu contasse a Rintarou agora… não soaria convincente.
— Então você tinha um objetivo, mas ele ainda não saiu exatamente como planejado?
— Sim…
Entendi. Então era simples.
— Em outras palavras, está na hora de um consultor entrar em cena.
Tudo o que eu precisava fazer era ajudar Asahi-san a alcançar seu objetivo. A boca de Asahi-san se abriu, completamente atônita.
◆
Ao voltar para casa, Rintarou foi direto para o quarto sem olhar para mais nada e se jogou na cama, ainda de uniforme.
Depois de conversar com Itsuki no café, Rintarou havia seguido com sua tarefa habitual de apoiar o discurso de Joutou Ren. Ele verificava meticulosamente as reações do público e o alcance da voz de Ren, fazendo gestos imediatos sempre que algum ajuste era necessário para melhorar a apresentação em tempo real. Esse era o método de Rintarou.
Por exemplo, naquele dia, ele aumentara o volume do microfone além do planejado. Era o sexto dia do período eleitoral, e o público começava a perder o foco. As conversas paralelas estavam mais altas do que o normal, então ele elevou o volume para fazer a voz atravessar o ruído.
Os índices de aprovação de Joutou Ren estavam subindo.
O cansaço em todo o seu corpo era prova da satisfação que sentia.
Se ao menos Joutou Ren tivesse vontade de vencer…
— Droga…..
Mesmo com os números subindo, ele não sentia que estava realmente se aproximando do objetivo. Às vezes, se perguntava se estava apenas se desgastando em vão.
Rintarou pensou em Tomonari Itsuki.
Aquele sujeito era a peça final que faltava. Se Itsuki se juntasse ao lado deles, Ren poderia vencer mesmo no estado atual.
Mas as negociações haviam sido difíceis do começo ao fim. Pior ainda: agora, não seria exagero dizer que Itsuki tinha algo contra ele.
Se ele contar tudo para Joutou-senpai… acabou.
Como Itsuki havia percebido, Rintarou conduzira a campanha difamatória pelas costas de Joutou Ren. Se aquilo viesse à tona, ele ficaria completamente encurralado.
Havia uma montanha de tarefas a cumprir pela eleição, mas, naquele momento, ele não conseguia reunir energia nem para sair da cama.
Enquanto encarava o teto, ouviu um barulho vindo do quarto ao lado.
Parecia que sua irmã, Karen, havia voltado. Eram sete da noite, um horário bastante tarde. Desde o início da eleição, Rintarou vinha ficando até mais tarde para discutir estratégias de campanha com Ren, chegando em casa por volta das seis. Isso já era mais tempo do que a maioria dos alunos permanecia na academia, mas, aparentemente, Karen havia ficado ainda mais tarde naquele dia.
Ela não estava concorrendo ao conselho estudantil, então o que fazia na academia até aquela hora em plena temporada eleitoral?
Enquanto a suspeita começava a tomar forma, ele ouviu a porta do quarto ao lado se abrir e se fechar às pressas, seguida por passos altos ecoando pelo corredor.
…Que barulho.
O comportamento incomum da irmã o irritou.
Ao olhar para o relógio, percebeu que estava com fome. Saindo da cama, Rintarou seguiu para a sala de jantar.
Ele não queria encarar a família, mas se trancar no quarto para comer parecia algo que uma criança rebelde faria, e ele odiava essa ideia.
Pouco antes de entrar na sala de jantar, ouviu a voz de sua irmã, Karen… e a de seu pai.
— Karen, esse plano precisa da concordância da outra parte…
— Sim, mas Tomonari-kun vai cuidar disso…
Ao abrir a porta da sala de jantar, os dois pararam de falar e olharam para ele.
Estavam discutindo algo que não queriam que ele ouvisse? Ele queria dizer que não se importava, mas a menção ao nome de Tomonari Itsuki ficou martelando em sua cabeça.
Se Itsuki tivesse contado tudo a Karen… ela provavelmente correria direto até Joutou e revelaria todas as ações imprudentes de Rintarou.
Era disso que estavam falando?
Enquanto os encarava com desconfiança…
— Rintarou.
Sua irmã o chamou. Ignorando-a, ele se sentou em uma cadeira distante dos dois.
— Rintarou!
A voz alta de Karen ecoou pela sala de jantar. Instintivamente, ele se virou.
— O que foi?
— Amanhã, depois da aula, me dê um pouco do seu tempo.
A expressão de Karen transbordava uma firme determinação.
— Há algo que eu preciso, de qualquer jeito, que você ouça.
Aquele tom poderoso era diferente da irmã que ele conhecia.
Não era apenas rebeldia. Ao perceber a determinação dela, Rintarou não conseguiu ignorá-la como de costume.
— Se for algo trivial, eu não vou deixar passar.
Rintarou lançou a ela um olhar afiado. Mas Karen o encarou de volta com a mesma intensidade. A irritação dele aumentou.
Agora…
O que ela ainda poderia fazer a esta altura?
◆
Depois das aulas, no sétimo dia do período eleitoral.
Após concluirmos nossos respectivos discursos, nos reunimos no café.
Éramos sete pessoas ao redor de uma única mesa, o que talvez chamasse alguma atenção, então fomos conduzidos a um lugar mais ao fundo. O grupo era composto pelos membros habituais da reunião de chá dos nobres — eu, Hinako, Tennouji-san, Narika, Asahi-san e Taishou — além do nosso único veterano mais novo, Rintarou.
— Entendo.
Quando as bebidas de todos chegaram, Rintarou foi o primeiro a tomar um gole do café.
— Então vocês vão se juntar para encurralar o único aluno mais novo aqui?
— Não é isso.
Asahi-san balançou a cabeça.
— Eu chamei todos porque queria que ouvissem o que vamos discutir. …Mas quem vai conversar com você somos apenas eu e Tomonari-kun, Rintarou.
Exatamente. Não tínhamos intenção de intimidar Rintarou. Talvez parecesse assim, e não era de se estranhar que ele se sentisse acuado, mas, se ainda conseguia soltar provocações daquele jeito, então ficaria bem.
Além disso, ele mesmo havia criado aquela situação.
— Todos aqui estão envolvidos no que vamos discutir. Como, por exemplo, na campanha difamatória.
Nem era preciso dizer que Tennouji-san e Narika eram diretamente afetadas pela campanha difamatória.
O motivo de Taishou estar ali seria explicado em breve. E quanto ao motivo de Hinako… bem, ela provavelmente também estava envolvida naquele assunto.
— Primeiro, há algo que preciso compartilhar com todos.
Comecei explicando a Tennouji-san, Narika e os demais o contexto da situação.
— Toda a campanha difamatória até agora foi obra de Rintarou, sem o conhecimento de Joutou-kun.
Tennouji-san e os outros demonstraram diferentes graus de surpresa.
Pareciam ter perguntas, mas, por ora, se contiveram. Provavelmente perceberam que aquela conversa era destinada a mim, Asahi-san e Rintarou. Se todos começassem a opinar livremente, a situação sairia do controle.
— Acredito que Rintarou teve vários motivos para ir tão longe, mas um deles, na minha opinião, é a briga entre ele e Asahi-san.
Ao dizer isso, olhei para Rintarou. No início, Rintarou havia negado essa possibilidade. Dissera que não era tão imaturo assim, que não estava pensando em se vingar da irmã.
Mas agora, com uma expressão solene, ele falou:
— Tive tempo para pensar desde então. …Eu admito. Minhas ações também incluíam certo ressentimento pessoal contra Ane-san.
Encarando Rintarou, Asahi-san deixou o rosto se contorcer de tristeza. Ainda assim, ela suportou. Apertando os lábios, não desviou o olhar dele.
— Rintarou, a partir de agora, vou colocar um ponto-final nessa briga entre vocês dois.
— Hã?
Rintarou pareceu atônito. Ele provavelmente achava que aquela reunião seria para convencê-lo a interromper a campanha difamatória. Mas não era isso. Nós o havíamos trazido ali naquele dia para encerrar a briga entre irmãos.
— Rintarou, você sabe por que Asahi-san decidiu assumir os negócios da família?
— Obviamente, foi por causa dela mesma. Nós vimos a desgraça do nosso pai e aprendemos o que precisávamos fazer um pelo outro. Jogar isso fora… é inacreditável.
Rintarou lançou um olhar duro para Asahi-san. Mas eu sabia que não era bem assim. Asahi-san não havia feito nada que merecesse tamanho ressentimento.
— Mesmo que tenha sido para proteger você?
Os olhos de Rintarou se arregalaram.
— Proteger… a mim?
Ele olhou para Asahi-san. A partir dali, eu deixaria que Asahi-san explicasse.
— Você provavelmente sabe disso, Rintarou, mas… agora, o papai está bastante isolado dentro da empresa, não está?
Rintarou não respondeu, então Asahi-san continuou:
— Se nenhum de nós assumisse… nossa empresa provavelmente acabaria caindo nas mãos de alguém que odeia a nossa família.
Asahi-san já havia mencionado isso antes.
Na J’s Holdings, falava-se sobre a ascensão de uma facção anti-Asahi, uma que rejeitava o pai de Asahi-san. Mais tarde, Rintarou atiçaria ainda mais o ímpeto desse grupo, mas o surgimento da facção vinha de antes da traição de Asahi-san contra Rintarou.
— A empresa que Rintarou está tentando abrir… é aquela rede de lojas de eletrônicos que sonhamos juntos naquela época, certo?
— Isso mesmo. Meu problema sempre foi com a estrutura interna, não com os produtos em si. Eu planejava aproveitar a experiência da nossa família e focar em eletrônicos.
— Então, a empresa que Rintarou pretende lançar e a que o papai administra agora… estarão no mesmo setor, não estarão?
Rintarou lançou a Asahi-san um olhar desconfiado, como se perguntasse: "Onde você quer chegar com isso?"
Mas… aquela era a parte crucial.
— Se nem Rintarou nem eu assumirmos a J’s Holdings… essa empresa pode se tornar uma inimiga gigantesca, sabia?
Inimiga. Essa única palavra provocou uma leve reação em Rintarou.
— Ela está entre as cinco maiores varejistas de eletrônicos do país em faturamento, mesmo que por pouco. A história e o capital dela estão em um nível completamente diferente. Você realmente acha que uma startup conseguiria competir? É grande demais para ser transformada em inimiga.
— Só porque estamos no mesmo setor não significa que automaticamente seremos rivais. Além disso, pretendo conquistar e recrutar os funcionários que não gostam do meu pai.
— Você não conseguiria recrutar todo mundo, certo? Nossa empresa está cheia de pessoas que desprezam a nossa família inteira. São essas pessoas que acabarão assumindo o controle. Se Rintarou abrir uma empresa, elas com certeza tentarão sabotar você.
Rintarou era excepcional. Suas notas na Academia Kiou provavam isso.
Mas justamente esse brilho o tornava um alvo. Sempre haveria pessoas dispostas a esmagar um rival promissor antes que ele pudesse alcançar todo o seu potencial.
Eu havia ouvido que Rintarou estava tentando conquistar os funcionários da J’s Holdings, mas parecia que seus esforços não eram infalíveis. A J’s Holdings, incluindo suas subsidiárias, empregava mais de cinco mil pessoas. Com representantes em cada empresa, havia muitos candidatos possíveis para o cargo de próximo presidente.
Diziam que o pai de Asahi-san não tinha problemas em termos de habilidade administrativa, então os funcionários comuns não o detestavam. Quem o detestava eram os superiores, que conheciam sua personalidade. Em outras palavras, a facção anti-Asahi estava concentrada no alto escalão da J’s Holdings.
As pessoas no topo eram ponderadas e cautelosas. Por mais que Rintarou tentasse usar o pai como trampolim para conquistar apoio, ganhar a confiança de todos eles era uma façanha praticamente impossível.
Se Asahi-san e Rintarou se afastassem da J’s Holdings, alguém da facção anti-Asahi no alto escalão provavelmente assumiria o controle. O futuro que Asahi-san havia previsto era bastante plausível.
— Além disso, Rintarou, você sabe que abrir uma empresa não é tão simples assim. As chances de fracasso são muito maiores.
Eu havia pensado o mesmo durante O Management Game. Em um jogo, depois de abrir uma empresa, você consegue fazê-la crescer automaticamente, mas, na realidade, inúmeros obstáculos surgiriam pelo caminho. Até conseguir financiamento já não era fácil.
Mesmo para alunos da Academia Kiou, não havia garantia alguma de que uma startup teria sucesso.
— Se Rintarou fracassasse… seria doloroso não ter um lugar para onde voltar. Foi por isso que eu quis preservar esse lugar para você.
Refletindo sobre a determinação que tivera na época, Asahi-san falou:
— Eu… escolhi assumir os negócios da família para proteger a nossa família.
Os olhos de Rintarou se arregalaram.
Esse era o motivo pelo qual Asahi-san havia traído Rintarou.
Se nenhum dos irmãos assumisse, a J’s Holdings cairia nas mãos de um terceiro. Se a startup desse certo, talvez tudo ficasse bem. Mas, se fracassasse? Não haveria lugar para onde voltar. Com a J’s Holdings nas mãos da facção anti-Asahi, não haveria como recuperá-la, e a antiga vida deles desapareceria.
Asahi-san pensava no que aconteceria caso Rintarou fracassasse. Ela agiu para evitar o pior cenário possível, no qual toda a família poderia acabar sem nada.
— Em resumo, Asahi-san queria manter um lugar para o qual Rintarou pudesse voltar, mesmo que ele fracassasse.
E isso significava avançar sozinha para um campo de batalha assolado pelos ventos contrários da facção anti-Asahi — uma prova de sua determinação.
A resolução de Asahi-san em proteger a família não era, de forma alguma, inferior à determinação de Rintarou em abrir a própria empresa.
Rintarou fechou os punhos e encarou a irmã.
— Por que… você não me contou isso até agora…?
Havia dois motivos.
O primeiro era a gentileza de Asahi-san. Como irmã mais velha, ela não conseguia dizer algo tão presunçoso quanto: "Estou protegendo a família para que você possa fracassar." Também não queria jogar um balde de água fria no entusiasmo de Rintarou com sua startup.
No entanto, havia um segundo motivo, ainda mais importante.
— Porque eu não era capaz o bastante.
Asahi-san falou em tom de desculpa.
— Pensei que, se fosse tocar nesse assunto, precisava provar que eu não acabaria como o papai. Decidi que conversaria com você assim que encontrasse uma saída… mas me desculpe. Eu continuei pensando, mas não consegui encontrar uma. Dei o meu melhor, mas, ao contrário de você, minhas notas nunca melhoraram tanto assim.
Asahi-san riu de si mesma.
As notas de Rintarou eram, sem dúvida, excelentes. Mas as de Asahi-san também estavam muito acima da média no ambiente intenso da Academia Kiou. Durante a sessão de estudos, quando eu havia acabado de me transferir para cá, ela era uma das pessoas que ensinavam os outros.
Ela acreditava que não deveria tentar convencer o irmão a menos que tivesse uma capacidade substancial.
Essa regra autoimposta havia prendido Asahi-san em suas próprias amarras.
— Mas finalmente sinto que posso seguir em frente. Por isso, decidi conversar com você hoje.
Percebi o olhar de Asahi-san.
— Rintarou, leia isto.
Tirei alguns documentos da minha bolsa e os entreguei a Rintarou.
— Isto é…
— Você sabe que Asahi-san administrou um negócio de venda móvel de eletrônicos no Management Game, certo?
Rintarou assentiu levemente.
— Isto é… o plano de negócios dele.
Enquanto entregava os mesmos documentos a Hinako e aos outros, respondi à pergunta de Rintarou.
Asahi-san queria proteger a família, mas não sabia como fazer isso. Então preparei aquele plano para ela.
— Asahi-san ficará à frente para transformar esse negócio em realidade.
Este era o primeiro passo dela para proteger a família.
— Depois da eleição, pretendo apresentar isto à avaliação interna da empresa. Tomonari-kun e eu trabalhamos juntos em tudo, desde a análise de mercado até os modelos de receita. O papai revisou a qualidade do plano e, se tudo correr bem, meu histórico no Management Game deve ajudar para que ele seja levado a sério.
— Você realmente acha que isso vai ser aprovado? Mesmo que o plano seja sólido, aquela empresa está cheia de pessoas que odeiam o nosso pai…
— É justamente por isso que vou fazer isso avançar em meu nome!
Asahi-san se levantou, erguendo a voz em resposta.
— Eu vou fazer isso e provar que sou digna de ser a próxima presidente!
Por causa de Rintarou, Asahi-san tomou essa decisão.
Legalmente, seria difícil para Asahi-san gerenciar funcionários diretamente, então talvez seu nome não aparecesse em primeiro plano. Mas o que importava era a substância. Se o pai dela, o presidente, aprovasse, ela poderia se envolver livremente com a empresa e participar das reuniões.
Talvez fosse acusada de ultrapassar seus limites. Mas ela estava preparada para enfrentar esse nível de resistência.
O objetivo era mostrar à facção anti-Asahi do que ela era capaz.
Por meio desse negócio, Asahi-san demonstraria sua determinação e sua ética de trabalho à empresa.
Asahi Karen era digna de se tornar presidente — essa era a impressão que ela precisava causar.
— Eu cortei minha própria rota de fuga e tomei minha decisão. Não importa que eu ainda seja estudante. Vou me lançar de cabeça na empresa para proteger a nossa família. Para garantir que eu não perca a confiança das pessoas como o papai perdeu quando eu assumir, vou construir meu histórico desde agora.
Com sua determinação firme, Asahi-san encarou Rintarou com confiança.
— Esse negócio não deveria pertencer apenas à nossa empresa.
Folheando o plano, Rintarou falou com uma voz tensa.
— Se você conseguir fazer esse plano de negócios dar certo, vai conquistar a confiança da empresa. Mas e a transportadora do Taishou, que deveria estar envolvida? Olhando este plano, parece que eles entregaram todos os direitos à J’s Holdings…
Duvidando que aquilo pudesse ser verdade, Rintarou olhou para Taishou. Mas Taishou assentiu com seriedade.
— Sim, nós entregamos.
Eu havia chamado Taishou ali para discutir justamente isso. Taishou explicou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Baixei a cabeça para o meu velho e entreguei a marca do negócio para a J’s Holdings.
— Por que você faria isso…?
— Eu disse que era por uma amiga, e ele aceitou na hora. Nossa empresa valoriza lealdade. Negócios B2C antigos tendem a ser assim, sejam grandes ou pequenos. Não é esse o tipo de empresa que você também quer construir?
…!
O pai de Taishou era um presidente que valorizava relacionamentos.
A partir do exemplo do pai, Rintarou devia ter aprendido a importância de não pensar apenas em lucros e perdas, mas também de se colocar no lugar dos funcionários, levando em conta os sentimentos das pessoas.
Taishou estava apenas agindo de acordo com esse princípio. Ironicamente, o Taishou que agora se colocava no caminho de Rintarou era a própria personificação do ideal de Rintarou.
O MVP oculto desta vez era, sem dúvida, Taishou. Eu só consegui montar aquele plano de negócios da noite para o dia porque Taishou não hesitou nem por um segundo em pedir ajuda ao pai.
Taishou com certeza vai se tornar um presidente incrível um dia…
— Meu velho riu e disse que a J’s Holdings será uma cliente importante daqui em diante, então não tem problema acumular alguns favores. …Rintarou, parece que sua irmã tem grandes expectativas depositadas nela por vários adultos.
Rintarou olhou para Asahi-san com uma expressão severa. Asahi-san endireitou as costas, e seu rosto sério não demonstrava nenhum traço de vergonha.
— Joutou-kun está concorrendo como um reformista que desafia as tradições da Academia Kiou, certo?
Asahi-san perguntou enquanto se sentava novamente, e Rintarou assentiu em silêncio.
— Você pensa da mesma forma, Rintarou? Acha que tradições são ruins?
— Acho. Se costumes ultrapassados estão nos impedindo de avançar, então é melhor mirar em algo novo e alçar voo. Até a nossa empresa é assim. Por que se dar ao trabalho de herdar a fachada decadente de um castelo? Eu não entendo…
Rintarou respondeu com uma voz frágil. Quase como se, de alguma forma, se sentisse culpado.
— Mas nós fomos protegidos por essas tradições.
Asahi-san disse calmamente.
— Nossa família sempre foi resguardada pela empresa. Toda a nossa vida foi sustentada pela tradição. É por isso que eu quero lutar para protegê-la.
Asahi-san declarou seu campo de batalha e o motivo pelo qual lutava.
— Acho que o papai fracassou. Ele mesmo se arrepende profundamente disso. É por isso que vou assumir a empresa. Não para descartar os fracassos dele, mas para aproveitá-los.
Aproveitar os fracassos. Talvez fosse isso que a tradição realmente significasse. Ao ouvir Asahi-san, pensei nisso.
— Eu vou proteger o lugar da nossa família. Então, Rintarou, você é livre para viver como quiser. Mas, daqui em diante, não use mais táticas desleais como esta. Pare de arrastar o nome do papai pela lama.
Com isso, Asahi-san baixou a cabeça.
— Rintarou… por favor.
O rosto de Rintarou parecia prestes a chorar, enquanto ele lutava desesperadamente contra algo dentro da própria mente.
Existiam pessoas reais protegidas pela tradição. Chamar isso de interesses estabelecidos soava duro, mas a família de Asahi-san havia sido sustentada por ela.
Quando eram crianças, eles testemunharam o colapso da própria base. Rintarou, que acreditava que deveriam alçar voo, e Asahi-san, que acreditava que deveriam reconstruir — ambos mereciam respeito. O Rintarou de agora devia entender isso.
Não havia nada de errado em Rintarou abrir uma empresa ou apoiar Joutou como reformista. Mas agora que seu ressentimento pela irmã havia desaparecido, o que ele pensava sobre as próprias ações passadas?
Com aqueles olhos límpidos, livres de sombras, o que ele sentia ao refletir sobre si mesmo?
— Eu entendo.
Rintarou falou com a voz trêmula. Asahi-san ergueu o rosto.
— De qualquer forma, eu sabia que depender de truques sujos acabaria me levando a um beco sem saída. Desta vez, se Joutou-senpai tivesse me denunciado, eu não teria conseguido resistir…
Rintarou soltou um suspiro longo, muito longo.
— Chega… estou cansado.
Com essas últimas palavras, Rintarou abaixou a cabeça e ficou imóvel.
Troquei olhares com Tennouji-san, Narika e os outros. Os olhares que circulavam pareciam perguntar: "Isso significa que conseguimos convencê-lo?"
…Acho que podemos considerar isso um sucesso.
Senti que os verdadeiros sentimentos de Rintarou estavam condensados em suas últimas palavras: "estou cansado". E não era para menos. Subir a escada espalhando fofocas maldosas, quebrar a cabeça para inventar acusações capazes de derrubar os outros…
Rintarou era inteligente. Inteligente o bastante para perceber, ainda que vagamente, que suas ações estavam erradas.
Seus ombros caídos pareciam, de algum modo, mais leves, mesmo com a cabeça voltada para baixo. Talvez Rintarou quisesse havia muito tempo se livrar do fardo que carregava — o peso insuportável da culpa pressionando seus dois ombros.
Talvez Rintarou estivesse esperando por esse dia… ou seria conveniente demais pensar assim?
Não, não era. Porque Rintarou sempre havia…
— Ei, Rintarou.
Quando o chamei, Rintarou ergueu o olhar. Encarando seu rosto, verbalizei algo que vinha me incomodando.
— O motivo de você continuar tentando me recrutar…
— O que é isso?
Uma voz vinda de trás me assustou tanto que quase pulei. Virei-me num sobressalto. Parado ali estava…
— O que está acontecendo aqui…?
— Joutou-kun.
Os olhos de Joutou se fixaram em Rintarou. Ao ver o estado profundamente abatido de Rintarou, o rosto de Joutou deixou transparecer um breve lampejo de raiva.
— Rintarou, o que aconteceu?
— Joutou-senpai…
Rintarou encolheu o corpo ali mesmo.
— Me desculpe. Há algo pelo qual preciso me desculpar com você.
Ele estava prestes a confessar que havia agido por conta própria? Asahi-san e eu trocamos um olhar. Para ser sincero, havíamos decidido de antemão que, se conseguíssemos resolver a briga entre irmãos, deixaríamos passar todas as ações de Rintarou.
Acreditávamos que, se Rintarou se reconciliasse com Asahi-san, ele seria capaz de competir de forma aberta e honesta.
Então, agora estava tudo bem…
Rintarou vinha carregando tanta coisa, sendo pressionado até o limite. Eu achei que não haveria problema em ele encontrar algum alívio agora, mas…
— É sobre os boatos que estão circulando pela academia?
Rintarou ficou sem palavras de choque. Mas nós também estávamos igualmente atônitos.
— Você… sabia?
— Vagamente.
Joutou fitou Rintarou com olhos gentis.
— Você não precisa se desculpar, Rintarou.
Com uma expressão de culpa, Joutou se aproximou de Rintarou e afagou de leve sua cabeça.
— Se eu te levei a esse ponto… foi por causa da minha fraqueza, não foi?
Lágrimas escorreram dos olhos de Rintarou.
Joutou, o candidato à presidência, e Rintarou, seu auxiliar. Eu já havia percebido que eles eram mais do que simples amigos, mas a confiança profunda diante de mim sugeria algo ainda maior.
Que vínculo era esse…? Pensando bem, onde eles sequer haviam se conhecido?
◆
Joutou Ren e Asahi Rintarou se conheceram dois anos antes, em um evento da alta sociedade.
Era uma festa organizada por uma associação política da qual o pai de Ren fazia parte. Ren compareceu como filho de um dos organizadores, enquanto Rintarou estava ali como um possível herdeiro, convidado por intermédio do pai.
Na época, Rintarou já havia desistido do pai e não tinha intenção de se tornar seu sucessor, mas viu aquele evento como uma oportunidade rara e decidiu participar. Traído pela irmã e encurralado, Rintarou buscava conexões fora da família.
Enquanto isso, as pessoas ao redor de Ren esperavam que ele seguisse os passos do pai, e ele fora instruído a criar laços com políticos e magnatas de quem talvez pudesse depender no futuro.
Mas, assim que a festa começou, os pais de ambos ficaram ocupados, deixando Ren e Rintarou sem nada para fazer. Em uma sala com poucas crianças da idade deles, talvez fosse inevitável que seus olhares errantes acabassem se encontrando.
Ren e Rintarou se deram bem instantaneamente.
Porque eram almas semelhantes.
Rintarou havia testemunhado em primeira mão a incompetência do pai como presidente e nutria dúvidas em relação à filosofia educacional da Academia Kiou, onde logo ingressaria.
Ren, por outro lado, sentia desconforto com a visão estreita do pai e do avô, ambos políticos. Ele entendia que aquilo fora moldado pela necessidade de sobreviver em um mundo político cheio de velhas raposas astutas.
Ainda assim, a insistência deles em incutir nele uma estabilidade avessa a riscos muitas vezes lhe dava náuseas. Para evitar escândalos familiares, Ren ouvia desde criança que não deveria "causar ondas". O conselho do pai — que poderia ser resumido melhor como "não tenha ideias próprias" — impunha a ele uma vida sufocantemente restrita. Ele até ressentia a Academia Kiou por ter produzido um pai e um avô como aqueles.
Ren e Rintarou estavam fartos das ideologias rígidas dos adultos.
E se perguntavam se poderiam mudar a raiz de tudo aquilo: a Academia Kiou.
— E se você se tornasse presidente do conselho estudantil?
À medida que a conversa se aprofundava, os dois se mudaram para outro lugar. Escapando do salão, apoiaram-se no corrimão de um átrio aberto e continuaram a discussão. Diante da sugestão de Rintarou, os olhos de Ren se arregalaram, mas ele logo balançou a cabeça.
— Isso não é possível.
— Por que não?
— Tornar-me presidente até seria viável. Mas, se eu tentasse mudar as tradições da Academia Kiou, meu pai me impediria. Ele tem pavor de que eu me destaque de uma forma negativa.
Reformar o sistema da Academia Kiou era uma tarefa difícil demais para alguém na posição de Ren.
— Mas, se for assim, pessoas como nós continuarão surgindo para sempre.
Ren refletiu sobre o apelo sincero de Rintarou. Ele queria, ao menos, oferecer uma alternativa. Depois de pensar, chegou a uma ideia.
— No meu ano, há uma prodígio chamada Konohana Hinako.
Ren se lembrou de uma garota que havia encontrado algumas vezes na alta sociedade.
— Ela também deve ingressar na Academia Kiou no ano que vem. Acho que ela entenderia nosso ponto de vista. Por que não confiar isso a ela?
— Confiar? O que você quer dizer?
— Eu não posso me tornar presidente, mas vou concorrer na eleição.
Ren explicou seu plano astuto.
— Na superfície, vou mirar na presidência. Mas meu verdadeiro objetivo será apresentar nossas preocupações a todo o corpo estudantil. Se eu conseguir fazer isso, Konohana Hinako se tornará presidente e levará a sério os problemas que levantamos.
Dessa forma, Ren não precisaria ser presidente.
Ele poderia apresentar pessoalmente os problemas a Konohana Hinako depois que ela assumisse a presidência, mas isso não oferecia garantia. Se todo o corpo estudantil compartilhasse das mesmas preocupações, a presidente Konohana Hinako não teria escolha a não ser agir. Então eles criariam essa situação por conta própria.
Mas Rintarou franziu a testa.
— Eu sou contra. Quero que você se torne presidente, Joutou-senpai.
— Não peça o impossível. Mesmo sem as restrições da minha família, derrotar Konohana-san está fora de questão. Ela é perfeita a esse ponto.
— Não é impossível!
Rintarou declarou com firmeza.
— Prometa. Se você for escolhido como presidente, vai lutar ao meu lado com convicção. Prometa que vai mudar este mundo comigo!
Ao sentir a determinação de Rintarou, Ren soltou um suspiro profundo.
— Tudo bem, eu prometo. Mas não vou mirar na presidência, entendeu? Vou participar da eleição, mas só farei o necessário para levantar os problemas.
— Desde que mantenha essa promessa, já é mais do que suficiente.
Estava claro que Ren considerava a presidência um sonho inalcançável. Ainda assim, aquela promessa acendeu em Rintarou uma chama incomparável.
— Eu vou garantir que você se torne presidente, Senpai. …Não importa o que seja preciso fazer.
Ren percebeu o brilho inquietante nos olhos de Rintarou. Ele viu… mas escolheu ignorar.
Tradição. Costumes. Status. Ambiente.
Ren sabia que destruir essas coisas não seria uma tarefa simples, e que exigiria justamente a obsessão extraordinária que Rintarou acabara de demonstrar.
Assim, depois de ingressar na Academia Kiou, Ren se dedicou por algum tempo a melhorar suas notas.
Aquilo era um teste de sua própria determinação. Ele queria construir a confiança de que possuía a capacidade necessária para desafiar a academia. Recusava-se a se tornar alguém que apenas reclamava sem ter nada concreto a oferecer.
Preso à maldição do pai, ele não podia liderar as reformas por conta própria. Mas até mesmo erguer o sinal de mudança carregava responsabilidade. Ele queria se tornar alguém capaz de suportar esse peso.
Certo dia, depois da divulgação dos resultados de uma prova regular, Ren foi observar Hinako em outra sala. Um colega de classe implorava para que Hinako o ajudasse nos estudos.
— Konohana-san, você poderia me ensinar ciência política?
Hinako pensou por um momento antes de responder:
— Não me importo, mas, em ciência política, Joutou-kun, da sala ao lado, é muito mais entendido.
Ele havia sido reconhecido. Konohana Hinako se lembrava do nome dele.
Naquele instante, Ren sentiu que havia conquistado a confiança que buscava e o direito de falar com Konohana Hinako quando chegasse a hora. Não era como se ele tivesse relaxado completamente, mas, já que não poderia se tornar presidente, decidiu que mais esforço seria desnecessário e deixou seu foco nos estudos diminuir.
A partir de então, Ren desapareceu discretamente em meio ao cenário… para evitar que o pai percebesse seus planos.
Um ano depois.
O período eleitoral do conselho estudantil começou, e Rintarou se uniu a Ren.
Como prometido, Rintarou apoiou Ren com todas as suas forças. Mas Ren, fiel à própria palavra, levou a campanha a sério apenas até o ponto de levantar os problemas, recusando-se a se esforçar de fato para se tornar presidente.
Depois das aulas, sozinho na sala, Rintarou levou as mãos à cabeça.
Com Joutou-senpai sem motivação, derrotar aquelas duas com táticas honestas pode ser difícil.
Ao olhar para as pesquisas eleitorais do primeiro dia, ele se desesperou diante da diferença de apoio.
Rintarou desviou os olhos para o caderno aberto sobre sua carteira. Ali, havia anotado todas as ideias para vencer a eleição, desde as mais práticas até as absurdas. Agora, ao se ver diante de um muro, encarava suas anotações com o desespero de quem se agarra a qualquer palha.
Entre elas, havia uma ideia que podia colocar em prática imediatamente.
Uma campanha difamatória… Se eu espalhar boatos entre os alunos do primeiro ano, não é impossível…
Ele havia construído ativamente conexões com os colegas justamente para momentos como aquele.
Era uma aposta segura. Afinal, Rintarou já tinha histórico de usar esse tipo de tática para conquistar executivos da empresa.
Era um movimento sujo. Ren talvez não aprovasse.
Enquanto hesitava, por algum motivo, o rosto da irmã surgiu em sua mente. A irritação em seu peito subiu até a cabeça, e Rintarou decidiu seguir com o plano.
Mas, se isso for exposto, pode arruinar a imagem de Joutou-senpai.
Considerando o risco de ser descoberto, ele não podia envolver Ren naquela estratégia. Se fosse fazer aquilo, teria que fazer sozinho. Precisava evitar qualquer cenário em que Ren recebesse a culpa.
Mesmo que não seja exposto… será que isso criaria um conselho estudantil saudável?
Para Rintarou, Joutou Ren era um veterano incrível. No dia em que se conheceram no evento social, os dois tiveram um debate acalorado, mas as percepções de Ren superaram as dele. Diferente de Rintarou, que estava apenas farto do ambiente de elite centrado na Academia Kiou, Ren já vinha pensando, desde aquela época, em uma plataforma semelhante à que apresentava nesta eleição.
Por isso, Rintarou se perguntava se alguém como ele merecia estar ao lado de Ren como presidente. Ele não se importava em sujar a si mesmo, mas não queria arrastar a vida de Ren pela lama.
O suor escorria de sua testa enquanto pensava. Um dia, ele poderia se tornar uma fraqueza para Ren.
Se fosse esse o caso…
…Então eu só preciso preparar um substituto para vice-presidente.
Depois de sujar as próprias mãos, ele poderia se afastar e passar o cargo de vice-presidente para outra pessoa. Assim, manteria o círculo de Ren limpo e criaria um conselho estudantil inabalável.
Ele não se sentia triste. Desde o início, o motivo de Rintarou para participar da eleição era reformar o sistema da Academia Kiou. Desde que isso fosse alcançado, ele não precisava fazer parte do conselho estudantil.
Ele não tinha apego ao cargo de vice-presidente. Por isso, suas intenções eram puras.
Rintarou deixou a sala e seguiu para o corredor do primeiro andar.
Como candidato a vice-presidente além de mim… Tomonari Itsuki-senpai.
Rintarou parou diante do canto "Um Vislumbre do Cotidiano dos Candidatos!!", preparado pelo conselho estudantil anterior, mergulhado em pensamentos.
Ele já havia investigado minuciosamente Tomonari Itsuki, seu rival pelo cargo de vice-presidente. Apesar de ser um aluno transferido, Itsuki vinha melhorando suas notas de forma constante. No Management Game, repelira tentativas de aquisição feitas por grandes empresas e propusera novos negócios inovadores, conquistando, no fim, o Prêmio de Consultor.
O relatório exposto transmitia sua seriedade.
Uma rotina que começava com a limpeza matinal, equilibrando estudos e exercícios com diligência.
Ele não parecia ser do tipo que deixava tarefas pessoais nas mãos de empregados — diferente do pai de Rintarou, que se apoiava no próprio status.
No fim do relatório, havia o comentário de uma terceira pessoa.
"Seu comportamento sincero exerce uma influência positiva sobre aqueles ao seu redor. Ver seus esforços oferece aos outros uma oportunidade de refletir sobre si mesmos."
Rintarou achou que era uma avaliação brilhante.
Se fosse ele, poderia apoiar Ren adequadamente no lugar de um Rintarou manchado.
Vou confiar isso a ele.
No fim, ele entregaria o cargo de vice-presidente a Tomonari Itsuki. Com suas conquistas, habilidades e caráter, ele era mais do que capaz.
Então, por ora, não havia problema em Rintarou sujar as próprias mãos.
Ele hesitou sobre como passar o cargo, mas decidiu contar tudo honestamente a Itsuki. Se Itsuki soubesse que Rintarou estava por trás da campanha difamatória, seu senso de justiça provavelmente o levaria a aceitar o cargo de vice-presidente, acreditando que Rintarou não era digno dele.
Com o caminho decidido, Rintarou começou a espalhar os boatos imediatamente.
No terceiro dia do período eleitoral.
Depois dos discursos após as aulas, Ren se separou de Rintarou e voltou para casa de carro, relembrando os acontecimentos do dia.
…Boatos estranhos estavam circulando.
Isso aconteceu quando ele foi ao prédio dos alunos do primeiro ano para encontrar Rintarou. Lá, ouviu alunos do primeiro ano discutindo fofocas negativas sobre Tennouji Mirei e Miyakojima Narika.
Como colega de classe delas, Ren percebeu de imediato que os boatos eram mentiras descaradas, mas alguns alunos do primeiro ano poderiam acreditar neles.
Ainda assim, para rumores assim se espalharem justamente naquele momento… parecia obra deliberada de alguém.
…Rintarou?
Ele se lembrou do olhar que Rintarou tinha nos olhos dois anos antes.
Não queria suspeitar dele levianamente, mas havia uma estranha certeza em seu peito: Rintarou era capaz de fazer aquilo.
Mesmo assim, isso não o abalou.
As emoções de Ren eram complexas, e ele precisava se manter firme para não desmoronar. Ele havia entrado na eleição, mas não podia se tornar presidente, limitando-se apenas a levantar questões. Era uma batalha mentalmente exaustiva.
Para ser sincero, ele precisava se conter.
Não era filho de um político à toa. Ele poderia fazer discursos melhores. Poderia projetar mais carisma. Durante os discursos, sentia a reação do público e, às vezes, tinha vontade de dar tudo de si. Reprimir esse impulso exigia todo o seu esforço.
No caminho para casa, verificou o smartphone e viu e-mails de alguns conhecidos. Aparentemente, uma pesquisa estava circulando entre os alunos da Academia Kiou. Ela perguntava às pessoas que apoiavam Konohana Hinako o que esperavam dela.
…Uma pesquisa interessante. De fato, os apoiadores dela são o maior bloco de votos flutuantes.
Era uma jogada perspicaz.
Quem a teria criado? Como não vinha do acampamento deles, só podia ser Tennouji Mirei, Miyakojima Narika… ou talvez o apoiador delas, Tomonari Itsuki.
Era uma estratégia admirável. Em vez de fingir que a ausência de Konohana Hinako na disputa não importava, encarava o problema de frente para seguir adiante.
Com respeito, Ren decidiu participar da pesquisa.
O que ele esperava de Konohana Hinako sempre estivera claro em sua mente.
Ideologias rígidas nascem de ambientes rígidos.
Para mudar um ambiente rígido, era necessário melhorar a circulação dentro da organização.
Eles precisavam ampliar a variedade de estudantes aceitos. Mais liberdade, mais diversidade…
Ren preencheu a pesquisa com aquilo que considerava necessário.
A abolição do elitismo baseado no status familiar.
No fim, Ren acreditava que alcançar isso democratizaria a Academia Kiou.
Konohana Hinako… por que você não…
Ren levou uma das mãos à testa.
Aquela eleição tinha um grande erro de cálculo. Konohana Hinako não havia se candidatado à presidência. Ele confiara que ela seria capaz de lidar com tudo, mas a situação mudara.
Em vez dela, Tennouji Mirei e Miyakojima Narika haviam dado um passo à frente. Ambas eram excepcionais, mas, comparadas a Konohana Hinako, ainda lhe causavam uma leve inquietação.
Os esquemas de Rintarou talvez servissem como um teste decisivo.
Ren, duvidando das capacidades de Tennouji Mirei e Miyakojima Narika, pensou assim.
Se elas sucumbissem a esquemas daquele nível… não poderiam receber a confiança de governar a academia.
◆
— Primeiro, deixem-me pedir desculpas.
Diante de nós, sentados ao redor da mesa, Joutou inclinou a cabeça.
— Nossa imprudência permitiu que boatos ofensivos se espalhassem. …Por favor, não culpem Rintarou. Tudo isso aconteceu porque eu fui patético. Vou assumir a responsabilidade e acabar com os rumores imediatamente.
A mudança repentina na atmosfera nos deixou com dificuldade de acompanhar. Joutou estava protegendo Rintarou. Mas aquilo parecia menos uma bondade universal e mais uma confiança poderosa existente apenas entre os dois.
— Mesmo assim, ainda acho esta academia limpa demais — Joutou lançou um olhar duro a Tennouji-san e Narika. — Pessoas que se deixam abalar por esquemas desse nível estão prestes a governar a Academia Kiou. Isso me dá uma sensação de crise.
O que é isso…?
A aura que Joutou emanava mudava aos poucos.
Ele sempre havia sido tão formidável assim? Sempre tivera essa presença tão imponente?
— Rintarou… desculpe por fazer você passar por isso. Meu coração fraco fez com que você lutasse no meu lugar — Joutou lançou um olhar gentil para Rintarou, que mordia o lábio em frustração. — Graças a você, eu despertei.
Joutou passou as duas mãos pelos cabelos desalinhados, penteando-os para trás em um estilo completamente repuxado. Seus olhos afiados e suas sobrancelhas bem definidas ficaram à mostra, conferindo-lhe uma presença ousada e dominante.
Aquilo parecia perfeitamente natural. Era óbvio que aquele era o seu verdadeiro eu. O ar patético que eu havia sentido em Joutou até então desaparecera sem deixar vestígios.
Com um brilho feroz nos olhos, Joutou nos encarou.
— Daqui em diante, eu assumo a liderança.
Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Eu entendi. A verdadeira batalha começava ali.
Um tipo político de estudante que eu jamais havia enfrentado antes: Joutou Ren.
Ele havia decidido levar aquilo a sério.
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