O Cuidador da Ojou-sama — Capítulo 61: Volume 9 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Ruptura Entre Irmãos

O Cuidador da Ojou-sama
Cap. 61
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O Cuidador da Ojou-sama

Volume 9 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Ruptura Entre Irmãos

Capítulo 61

10.979 palavras~48 min de leitura

PERÍODO ELEITORAL, QUARTO DIA.

— Que sono…

— Desculpa, Hinako. Hoje também precisamos começar cedo.

Durante o período eleitoral, Hinako vinha chegando cedo à escola para acompanhar meus horários. Eu me preocupava que ela acabasse dormindo durante a aula, mas, pelo visto, ela estava conseguindo se virar indo para a cama mais cedo do que o normal.

Depois de me separar de Hinako na sala de aula, peguei o maço de panfletos na minha mochila e fui para fora do prédio da escola.

Eu estava cheio de energia para começar a distribuir panfletos de novo naquele dia… ou pelo menos era o que eu pensava.

— Tomonari-san, posso falar com você um instante?

Uma voz me chamou por trás, e eu me virei.

— Suminoe-san, aconteceu alguma coisa?

Suminoe-san, que tinha acabado de chegar à escola, aproximou-se de mim com uma expressão séria.

— Sobre os vários cursos que Tennouji-sama prometeu implementar… é verdade que eles vão exigir mensalidades caras?

— Hã…?

— Desde ontem, depois da aula, esse assunto vem circulando. Agora há pouco, ouvi alguns alunos conversando sobre isso no corredor.

Os cursos de etiqueta que Tennouji-san havia prometido oferecer eram algo que queríamos implementar sem sobrecarregar os estudantes. Ainda assim, muitos detalhes dependiam de negociações com a administração da academia, e nada poderia ser definido antes do fim da eleição.

— Isso não é verdade. Oferecer cursos que excluam pessoas iria contra o próprio espírito das promessas de Tennouji-san…

— É.

Uma academia onde todos pudessem viver com nobreza — esse era o ideal defendido por Tennouji-san. Limitar o acesso àqueles cursos destruiria completamente essa visão.

Além disso, quando os estudantes da Academia Kiou falavam em algo "caro", eles se referiam a uma quantia realmente absurda. Eu não conseguia imaginar cursos de etiqueta custando tanto assim.

Rumores estranhos estavam começando a circular. Eu ainda pensava sobre isso quando—

— Ah, Tomonari-kun.

Desta vez, foi Kita quem me chamou. Ele se aproximou, alternando o olhar entre mim e Suminoe-san.

— Desculpa, estou atrapalhando?

— Não, está tudo bem. O que foi?

Quando perguntei o que ele precisava, o rosto de Kita assumiu uma expressão constrangida.

— É sobre o salão nas promessas da Miyakojima-san… Está circulando um boato de que ele será apenas por convite e restrito a estudantes de famílias de elite…

Eu troquei um olhar silencioso com Suminoe-san.

O que estava acontecendo? Rumores estranhos também estavam se espalhando sobre Narika?

— Isso… não é verdade.

— S-Sim, eu também imaginei que não fosse, mas… — Kita murmurou, os lábios se contraindo de nervosismo. — Parece que esses rumores estão se espalhando bastante.

◆

Intervalo do almoço.

Sem sequer termos tempo para comer, uma reunião de emergência começou no corredor do segundo andar.

— Entendo. Então estão tentando manchar a nossa reputação.

Eu já tinha contado o mínimo necessário naquela manhã, mas expliquei a situação novamente para todos. Tennouji-san, Narika, Kita e Suminoe-san compreenderam imediatamente a gravidade do problema.

— Sim. Por isso, revisei os rascunhos dos discursos. Por favor, deem uma olhada.

Entreguei às duas os rascunhos atualizados, que eu vinha ajustando aos poucos durante os intervalos.

Talvez não desse tempo de usá-los no discurso do almoço, marcado para dali a trinta minutos, mas eu queria que estivessem prontas para o discurso depois da aula. Mantive as alterações no mínimo necessário.

— Desculpem por fazer vocês passarem por essa mudança repentina.

— Não tem jeito.

— Exatamente. Isso não é culpa sua, Itsuki.

Eu já imaginava que elas diriam algo assim, mas…

— Se tivéssemos explicado tudo em detalhes desde o início, talvez esses rumores não tivessem se espalhado. Talvez tenhamos nos preocupado demais em causar impacto.

— Não dá para agradar a todos. Se tivéssemos enchido os discursos de explicações minuciosas, tenho certeza de que todo mundo teria morrido de tédio.

Ao contrário de mim, as duas não estavam vacilando.

Mas, para mim, aquele era um momento de entrar em pânico. De acordo com o boletim eleitoral daquela manhã, Tennouji-san e Narika haviam perdido 2% de apoio cada uma, enquanto Joutou ganhara cerca de 5%. No papel, parecia menos um problema nas campanhas de Tennouji-san ou Narika e mais um sinal de que os esforços de Joutou tinham dado resultado, mas eu não podia descartar uma ligação com os rumores.

— Vamos esclarecer os boatos no próximo discurso, certo? Então acho que ficaremos bem.

Se eu insistisse demais naquele assunto, poderia acabar apagando o entusiasmo das duas, que finalmente estavam olhando para a frente. Isso não seria bom…

No entanto, a verdade era que os discursos daquele dia deveriam se concentrar nas promessas revisadas.

Ser obrigados a responder a rumores infundados tinha nos tirado do ritmo, e estávamos tendo dificuldade para recuperar o impulso.

— Especificamente, que tipo de boatos estão circulando?

— Todos são absolutamente irresponsáveis.

Suminoe-san respondeu à pergunta de Tennouji-san com um tom frustrado. Eu já havia explicado o rumor sobre as mensalidades caras dos cursos de etiqueta. Havia outros, como…

— Por exemplo, estão dizendo que os palestrantes especiais que convidaríamos seriam apenas pessoas ligadas ao Grupo Tennouji, e que tudo não passa de um esquema para encher os bolsos deles…

Aquilo passava de irresponsável. Tennouji-san jamais pensaria daquele jeito.

— Além disso, pensando com calma, também existe um boato de que seu cabelo loiro não é natural…

— I-I-I-Isso não é verdade de jeito nenhum!?

Na verdade, aquele boato era bastante preciso. Espera, isso nem tinha nada a ver com a eleição…

— Precisamos almoçar, então vamos encerrar por enquanto. Continuamos depois da aula.

Encerrei a reunião de emergência ali. Já havíamos perdido tempo suficiente. Faltavam vinte minutos para o discurso. Quanto do rascunho revisado elas conseguiriam memorizar até lá?

Quando todos se dispersaram, eu estava voltando para a sala de aula quando percebi Asahi-san me observando.

— Asahi-san? Aconteceu alguma coisa?

— Ah, é… não, não foi nada.

Não parecia ser nada, mas Asahi-san desviou o olhar e saiu da sala. Talvez estivesse preocupada por termos parecido tão sérios durante a conversa.

...Acho melhor eu ir encontrar a Hinako.

Hinako devia ter ido primeiro para o antigo prédio do conselho estudantil… mas, como ela tinha um senso de direção absurdamente ruim, eu a instruí a parar no lugar caso sequer achasse que estava perdida.

Avisei Hinako assim que saí do prédio da escola, com a marmita em mãos. Depois de me certificar de que não havia ninguém por perto, chamei-a com meu tom habitual.

— Desculpa, Hinako. Fiz você esperar.

— Mmm…

Quando se virou, Hinako parecia ainda mais esgotada do que o normal.

— Você parece meio pra baixo. Está tudo bem?

— Estou bem…..

Será que alguma coisa tinha acontecido enquanto ela esperava por mim?

Por enquanto, começamos a caminhar em direção ao nosso lugar de sempre, quando—

— Indo almoçar?

Um garoto de cabelo bagunçado falou conosco, e eu parei no meio do passo.

— Joutou-kun…

— Prazer em conhecê-lo, Tomonari-kun.

Parecia que ele já conhecia meu rosto. Joutou me cumprimentou com um sorriso amigável.

Eu não tinha percebido durante os discursos, por causa da distância, mas, de perto, ele era mais alto do que eu esperava. Será que praticava algum esporte? O cabelo bagunçado lhe dava um ar sombrio, mas seu maxilar era bem definido, e seus traços tinham certa intensidade.

— Se importa se eu conversar um pouco com a Konohana-san? Talvez durante o almoço. Você também pode vir, Tomonari-kun.

Enquanto falava, Joutou ergueu de leve a marmita que segurava.

A Academia Kiou tinha uma cafeteria com chefs de primeira linha, mas parecia que Joutou, assim como nós, era do tipo que trazia marmita.

Olhei para Hinako, e ela parecia exausta. Eu também precisava clarear a cabeça, e estávamos ocupados demais para uma conversa longa.

Desculpa, mas eu teria que recusar.

— Desculpa. Preferimos descansar em algum lugar tranquilo durante o almoço.

— Entendi. Então posso falar com vocês aqui por pelo menos três minutos?

Três minutos? Bem… acho que tudo bem, mas dependia da Hinako.

Hinako assentiu de leve. Recusar com teimosia demais poderia parecer estranho, então achei melhor ouvirmos o que ele tinha a dizer.

— Tenho certeza de que você já está cansada de ouvir isso, mas… por que não se candidatou à presidência?

A expressão de Hinako enrijeceu ligeiramente. Foi então que percebi por que ela parecia tão cansada.

Ela devia ter sido bombardeada com aquela pergunta. Enquanto eu não estava por perto, todo tipo de estudante provavelmente havia perguntado por que ela não concorrera à presidência.

Não era de se admirar que estivesse tão sem energia… Mas, em público, ela não podia deixar sua fachada perfeita de ojou-sama escapar.

— Respondi aos outros da mesma forma: minha família está ocupada. Não há outro motivo.

Hinako respondeu gentilmente, mas Joutou não recuou.

— Mas, Konohana-san, você poderia guiar esta academia na direção certa melhor do que qualquer outra pessoa. Não poderia reconsiderar, mesmo agora? Seria algo sem precedentes entrar na disputa tão tarde, mas não há nenhuma regra contra isso. Com sua influência, você ainda conseguiria reunir votos.

Espera aí…

Ele estava mesmo dizendo para Hinako se candidatar à presidência agora?

Pela expressão no rosto de Joutou, ele parecia completamente sério.

Até Hinako em modo ojou-sama ficou visivelmente desnorteada com aquilo.

Acho melhor eu jogar uma corda para ela…

— Você é quem está concorrendo à presidência, Joutou-kun. Por que não assume você mesmo o papel de guiar a academia?

— Bem…

Claro, eu preferiria ver Tennouji-san ou Narika assumindo esse papel, mas… O olhar de Joutou vagou de um lado para o outro, desconfortável.

— Não tenho garantia de que conseguiria fazer isso tão bem quanto a Konohana-san.

Com os olhos fixos no chão, Joutou admitiu aquilo.

Espera, calma aí. Aquela fala… não era algo que um candidato à presidência deveria dizer. O que seus apoiadores pensariam se o ouvissem?

— Fico profundamente honrada pela confiança que deposita em mim.

Hinako fez uma pequena reverência.

— Mas tenho minhas próprias responsabilidades a cumprir. Não estou desperdiçando meu tempo sem fazer nada, então peço que acredite pelo menos nisso.

— Entendi…

Percebendo que insistir seria inútil, Joutou mordeu o lábio e assentiu. Então, voltou-se para mim.

— Tomonari-kun, apoiar duas pessoas ao mesmo tempo deve ser difícil, mas continue firme.

— Obrigado.

— Tem uns rumores estranhos circulando, não é? Se precisarem, posso esclarecê-los no meu discurso.

— Esclarecê-los… você faria isso?

Nós todos estávamos competindo pela mesma cadeira de presidente. Mesmo que ele quisesse uma disputa justa, aquilo não era gentil demais? Como se tivesse lido minhas dúvidas, Joutou abriu um sorriso fraco.

— Desde que a academia caminhe para uma direção melhor, não me importa quem se torne presidente.

Sua voz não tinha convicção, e sua postura parecia estranhamente frágil enquanto falava. Ele estava dizendo que não precisava ser presidente porque estava pensando no cenário mais amplo? Aquela atitude distante me pareceu estranha, mas suas palavras soaram familiares.

— Rintarou disse algo parecido.

— Você conversou com o Rintarou? Bem, ele tem uma forma de pensar parecida com a minha — Joutou soltou um suspiro profundo. — Desculpem por tomar o tempo de vocês.

Joutou voltou em direção ao prédio da escola. Hinako e eu ficamos observando sua figura se afastar.

— Uma vez, fui chamado para o lado deles.

— Hã, sério…?

Assenti diante da reação surpresa de Hinako.

— Mas, apesar disso tudo…

— Sim. Tem algo estranho.

Hinako também tinha percebido. Para alguém que tentou me recrutar, ele não parecia tão envolvido assim com a eleição. Ou melhor, àquela altura, nem era uma questão de entusiasmo…

— Será que o Joutou realmente quer ser presidente?

◆

Período eleitoral, quinto dia, manhã.

Chegando cedo à escola mais uma vez, verifiquei o boletim eleitoral para conferir as mudanças nos índices de apoio.

...Praticamente igual a ontem.

Nenhuma grande alteração. Tennouji-san estava com 39%, Narika com 35%, e Joutou com 26%.

Os índices de apoio no boletim refletiam a contagem do dia anterior. Como não houve mudanças significativas nas atividades de campanha, nem da nossa parte nem da parte de Joutou, entre ontem e anteontem, a queda no apoio desde o último boletim provavelmente vinha daqueles rumores maldosos.

No entanto, as fofocas negativas que circulavam pela escola já deveriam ter sido esclarecidas nos discursos de ontem. Eu ouvi tanto Tennouji-san quanto Narika durante o almoço e depois da aula, e as duas explicaram claramente por que os boatos eram falsos.

Uma vez desfeitos os mal-entendidos, o apoio perdido deveria voltar. Até amanhã, talvez conseguíssemos recuperar a divisão original, perto dos 40%.

O que está me incomodando… é o Joutou.

Continuei pensando nisso mesmo depois de voltar para a mansão na noite anterior.

Talvez Joutou já tivesse desistido de vencer. Tennouji-san e Narika eram nomes de peso na academia. Superar os índices de apoio delas seria difícil.

A diferença havia diminuído por causa dos rumores, mas aquilo dificilmente era mérito de Joutou.

Supondo que Joutou tivesse uma ambição ardente de se tornar presidente, ele veria esses boatos como uma oportunidade de ouro para angariar apoio de forma agressiva. Mas, ontem, Joutou parecia quase solidário ao ouvir sobre a má reputação que estavam tentando nos atribuir.

— Tomonari-kun!

— Kita-kun?

Enquanto eu distribuía panfletos no pátio, Kita veio correndo do prédio da escola. Pelo maço que carregava nas mãos, ele também devia estar prestes a começar a distribuição.

— O que aconteceu?

— Os rumores não estão parando! Na verdade, estão piorando!

Minha mente ficou em branco. Os rumores não tinham parado? Como…?

— Que tipo de boatos estão circulando?

— Tipo, estão dizendo que vão demolir o café da academia para construir o salão. E… também estão falando que todas as promessas da Miyakojima-san foram escritas por você.

Que merda…?

Enquanto eu ficava ali, perplexo, Kita continuou, listando mais boatos ruins que tinha ouvido. Eram todos completamente novos, nada parecidos com os que estavam circulando no dia anterior.

— Tomonari-san.

Suminoe-san se aproximou com uma expressão grave. Seu rosto dizia tudo.

— Os rumores não pararam, pararam?

— Não. Aqueles que esclarecemos ontem foram substituídos por sussurros completamente novos.

— Pode me dizer o que estão falando?

Os rumores que Suminoe-san descreveu eram totalmente diferentes dos anteriores, e havia todo tipo de coisa. Assim como acontecia com Narika, novos boatos maldosos sobre Tennouji-san também estavam se espalhando.

A forma como aqueles rumores estavam se espalhando parecia antinatural. Não eram apenas dúvidas antigas crescendo até se tornarem algo maior; era como se vários boatos completamente novos tivessem surgido do nada.

Eram aleatórios demais, sem foco algum. Se aquilo fosse a opinião coletiva dos estudantes, estaria dispersa demais.

Além disso, como rumores novos poderiam se espalhar como fogo logo depois de termos esclarecido os anteriores?

No dia anterior, vasculhamos a academia em busca de todos os boatos e os desmentimos um por um. Eu não era ingênuo a ponto de achar que isso eliminaria todas as fofocas da noite para o dia. Mas por que, justamente naquele momento, uma enxurrada de rumores que nem existiam ontem estava de repente por toda parte?

— Isso é…

Finalmente, compreendi a situação. Aquela sensação de que os boatos estavam sendo liberados aos poucos. A estagnação que nos mantinha presos, desmentindo fofocas sem conseguir melhorar nossos discursos.

Aquela situação, em que éramos obrigados a ficar marcando passo, havia sido orquestrada.

É uma campanha difamatória.

Campanha difamatória. Espalhar deliberadamente uma imagem negativa dos adversários para fazer a si mesmo parecer melhor em comparação. Uma tática eleitoral clássica.

De repente, lembrei-me de algo que Takuma-san havia dito.

"A propósito, Itsuki-kun. No Management Game, uma coisa ficou de fora. Você sabe o que foi?"

Ah… agora eu entendo. Finalmente percebi. A resposta era: intriga.

Táticas criadas para derrubar os outros.

O Management Game era uma batalha de números. O sistema determinava o que se podia ou não fazer, tudo imposto por regras rígidas.

Mesmo quando Suminoe-san tentou comprar minha empresa, do ponto de vista de uma CEO, aquilo era uma estratégia calculada, com uma chance clara de sucesso. Era uma jogada para fazer a empresa dela crescer, não uma intriga.

No entanto, o que eu enfrentava agora não era nada menos do que uma tática maliciosa e desonesta.

Eu achava que todos os estudantes da Academia Kiou eram corretos e íntegros…

Será que eu tinha sido apenas ingênuo? ...Foi o Joutou que espalhou isso?

Agora que eu havia percebido que se tratava de uma campanha difamatória, o cérebro por trás dela precisava estar no grupo de Joutou. Porém, por mais que eu analisasse os vários rumores — os dados — que estavam se espalhando, simplesmente não conseguia enxergar o rosto de Joutou por trás deles.

Não parecia coisa de Joutou.

Foi ele quem sugeriu usar o próprio discurso para desfazer os rumores sobre nós. Fosse por falta de entusiasmo pela eleição ou por ele ser simplesmente uma pessoa de boa índole, de qualquer forma eu não conseguia imaginar alguém como ele sendo o cérebro por trás de uma campanha difamatória.

— Tomonari-kun, aconteceu alguma coisa?

Quando ergui os olhos ao ouvir meu nome, Asahi-san estava me encarando com uma expressão intrigada.

Asahi-san segurava a própria bolsa. Devia ter acabado de chegar à escola. Enquanto seguia em direção ao prédio, provavelmente nos notou em um canto do pátio, cercados por uma atmosfera pesada, e ficou preocupada.

— Asahi-san, na verdade…

Com sua ampla rede de contatos, Asahi-san talvez tivesse alguma ideia útil para lidar com a campanha difamatória. Pensando nisso, expliquei a situação a ela.

Novos rumores negativos haviam começado a se espalhar naquele dia.

E, julgando pela situação, era provável que estivéssemos sendo alvo de uma campanha difamatória vinda do grupo de Joutou.

Expliquei tudo de forma concisa…

…!

O rosto de Asahi-san ficou pálido de choque. A reação dela nos surpreendeu também. Era quase como se ela soubesse de alguma coisa—

— Desculpa! Acabei de lembrar que tenho algo para fazer!

Asahi-san largou a bolsa de lado e disparou em direção ao prédio da escola.

— Asahi-san!?

Algo para fazer… Não havia como ela sair correndo daquele jeito, num momento como aquele, sem que isso estivesse relacionado à campanha difamatória. Peguei a bolsa de Asahi-san.

— Desculpa! Deixo os panfletos com vocês!

Entreguei os panfletos a Kita e corri atrás de Asahi-san. Asahi-san entrou no prédio da escola e seguiu correndo direto pelo corredor, sem sequer trocar os sapatos. Para acompanhá-la, não tive escolha a não ser entrar no prédio também usando meus sapatos de fora.

O prédio dos primeiros anos…?

Na Academia Kiou, o prédio dos primeiros anos ficava separado do edifício principal. Asahi-san atravessou o corredor de ligação, subiu as escadas e entrou no prédio dos primeiros anos, invadindo uma sala de aula sem hesitar.

— Rintarou!

O grito de Asahi-san ecoou pela sala. Rintarou, que estava dentro da sala, arregalou os olhos diante da visita repentina da irmã.

— Ane-san, o que aconteceu?

— Eu disse que esse tipo de tática não prestava!

Com uma expressão de fúria absoluta, Asahi-san gritou. Eu nunca tinha visto Asahi-san daquele jeito. Ela sempre era radiante, animada e alegre. Pensando bem, também era habilidosa em ler o ambiente. Era por isso que ela era quem dava o tom à Classe A.

Mas agora, ignorava todos os olhares ao redor e gritava a plenos pulmões.

— Acalme-se. Eu nem sei do que você está falando—

— A campanha difamatória!

O rosto de Rintarou enrijeceu. Por um breve instante, os olhos de Rintarou se moveram na minha direção, parado atrás de Asahi-san. Aquele olhar pareceu assustadoramente frio, mas, no instante seguinte, já havia voltado ao normal.

— Do que você está falando?

— Não se faça de desentendido! Eu sei que foi você! As táticas são exatamente as mesmas!

A voz de Asahi-san estava carregada de raiva, mas também soava como se ela estivesse à beira das lágrimas.

O que ela queria dizer com as táticas serem as mesmas?

Não, mais importante: Asahi-san achava que Rintarou estava por trás da campanha difamatória?

— Rintarou… por favor, pare com isso. Eu entendo como você se sente, mas…

Asahi-san mordeu o lábio, o rosto tomado pela tristeza. Na sala silenciosa, Rintarou soltou um suspiro.

— Você é barulhenta demais.

Rintarou encarou Asahi-san. Seus olhos ardiam com uma raiva sem fundo, tão intensa quanto a que Asahi-san demonstrara pouco antes.

— Que moral uma traidora como você tem para ficar me dando sermão de cima?

…!

Asahi-san vacilou, sem encontrar palavras. Então Rintarou desviou o olhar da silenciosa Asahi-san para mim e abaixou a cabeça.

— Tomonari-senpai, desculpe por envolvê-lo em algo estranho.

— Não, eu…

— Não se preocupe com isso. É só uma briga entre irmãos, sem relação com a eleição.

Dito isso, Rintarou também se curvou diante dos colegas de classe. Os alunos do primeiro ano, que ainda pareciam confusos, aos poucos retornaram à atmosfera animada e pacífica de sempre.

Asahi-san não disse uma palavra. Em vez disso, rangeu os dentes com tanta força que pude ouvir e saiu furiosa do prédio dos primeiros anos.

◆

Depois de deixar o prédio dos primeiros anos, Asahi-san pareceu se acalmar um pouco. Ela tirou os sapatos de fora, que ainda estava usando, e começou a andar de meias. Fiz o mesmo, tirei meus sapatos e a segui um passo atrás.

Pensei que ela fosse até os armários pegar seus sapatos de uso interno, mas, no meio do corredor de ligação, Asahi-san calçou novamente os sapatos de fora e seguiu em direção ao jardim.

Também calcei os meus e fui atrás dela.

— As aulas estão prestes a começar, sabia? — Sem se virar para mim, Asahi-san parou e falou.

— Não posso deixar você sozinha agora, Asahi-san.

— Você é gentil demais, Tomonari-kun — A voz de Asahi-san tremia levemente. — Eu queria ter conseguido ser gentil assim também…

Com uma risada autodepreciativa, Asahi-san caminhou até uma mesa no fundo do jardim e sentou-se em uma cadeira vazia.

Ela gesticulou com as duas mãos, indicando que eu me sentasse à sua frente. Sentei-me diante de Asahi-san. …Eu teria que faltar ao primeiro período.

— Asahi-san, ainda não acho certo afirmar que Rintarou é o responsável pela campanha difamatória. Talvez você só esteja entendendo mal—

— Foi o Rintarou — Asahi-san declarou com firmeza. — O Rintarou está fazendo a mesma coisa em casa… Eu sei que foi ele.

Asahi-san começou a explicar.

— Nossa empresa, na verdade, está meio complicada, sabe? Os negócios vão bem, mas existe muito atrito entre os funcionários…

J’s Holdings, hein?

Eu havia pesquisado os detalhes da empresa durante o Management Game. Era para ser um negócio sólido e lucrativo havia anos…

— Papai, o nosso presidente, é formado pela Academia Kiou. Mas os valores dele eram meio distorcidos, e os funcionários não o acompanhavam. Pelo visto, a noção de dinheiro dele e a arrogância sutil em suas palavras foram corroendo a confiança das pessoas. …Ouvi dizer que ele gastava demais em jantares com clientes. Para o papai, era só uma forma de ser atencioso com clientes importantes.

Asahi-san abriu um sorriso vazio.

"Eu nem sei mais o que é certo…"

Eu quase conseguia ouvir sua voz interior.

— Como a parte dos negócios ia bem, acho que o instinto profissional dele era sólido. Mas o erro de cálculo foi nas relações humanas. A academia não ensina isso, certo? …A maioria dos nossos funcionários é composta por pessoas bem comuns, então alguém como o papai acabou se destacando de um jeito ruim.

Asahi-san falou com tristeza.

— Rintarou e eu vimos o papai sofrer desse jeito desde crianças. …E, justamente por termos visto isso, juramos que não acabaríamos da mesma forma.

Pelo visto, Asahi-san passara por muita coisa desde pequena. Não devia ser uma sensação agradável. O próprio pai dela havia sido isolado dentro da empresa. Eu nem conseguia imaginar como Asahi-san se sentia ao observar as costas do pai.

— Então, quando éramos crianças, Rintarou e eu fizemos uma promessa. Construiríamos juntos uma empresa que realmente ficasse do lado das pessoas comuns.

Ao ouvir o passado de Asahi-san, as peças começaram a se encaixar na minha mente. Rintarou havia dito que abriria a própria empresa no futuro. E… Rintarou havia chamado Asahi-san de traidora.

— Vocês dois prometeram abrir uma empresa juntos, não foi?

— Sim. Mas eu quebrei essa promessa.

Asahi-san assentiu em silêncio, cravando as unhas no dorso da própria mão sobre a mesa. Aquilo parecia um ato de expiação. Como se falar sobre aquilo exigisse que ela suportasse alguma dor, sua culpa esmagadora se tornava evidente.

— Decidi assumir a empresa da família em vez disso. …E Rintarou, traído, deixou de se importar com os meios necessários para alcançar o objetivo de abrir a própria empresa.

Lembrei-me do olhar assustadoramente frio que Rintarou havia lançado por um breve instante.

— Rintarou começou a usar sua posição como filho do presidente para se envolver na empresa. Pouco tempo depois, o atrito entre os funcionários piorou ainda mais.

Por que o atrito havia piorado?

Asahi-san respondeu com uma expressão pesada.

— Rintarou estava espalhando rumores ruins sobre o papai. Ao mesmo tempo, anunciou seus planos de abrir a própria empresa e começou a recrutar funcionários talentosos. …Rintarou criou facções. Ele zombava daqueles que ficavam do lado do papai, chamando-os de "facção burguesa", e construiu uma atmosfera em que ele e seu grupo eram a "facção dos plebeus". Acho que o plano de Rintarou é unir essa facção dos plebeus e, no fim, levar todos com ele.

Como Rintarou já havia feito algo parecido antes, Asahi-san devia ter concluído que ele também estava por trás daquela campanha difamatória. As situações realmente pareciam semelhantes.

— Quando percebi o que Rintarou estava fazendo, já era tarde demais. …Naquela época, um garoto do ensino fundamental entrava casualmente na empresa e era mais admirado que o papai. Rintarou tinha esse tipo de talento. Estratégia… não, talento para maquinar intrigas e alcançar seus objetivos.

Asahi-san falou sem forças. A angústia em sua voz era palpável enquanto ela testemunhava o talento incomum do irmão.

— Mas tudo começou… porque eu deixei Rintarou sozinho.

Asahi-san lamentava ter sido ela quem empurrara o talento dele naquela direção.

— Fui eu que encurralei o Rintarou. …Então é claro que ele jamais me ouviria se eu pedisse para parar, não é?

De olhos baixos, Asahi-san disse aquilo.

Do ponto de vista de Rintarou, eu conseguia entender por que ele estava com raiva. Eles haviam jurado abrir uma empresa juntos, mas sua irmã o traíra e escolhera herdar os negócios da família. Forçado a lutar sozinho, era compreensível que Rintarou, movido pelo desespero, tivesse deixado de se importar com os meios.

Havia espaço para sentir alguma compaixão por ele.

— Sinto muitíssimo! Você está ocupado com a eleição, e meu irmãozinho está causando problemas para você! — Asahi-san ergueu o rosto de repente, falando em seu tom alegre de sempre. — Desculpa mesmo, de verdade! Eu acabei totalmente com o clima, estou sendo a pior pessoa agora! Ah, e o primeiro período já começou! Vamos logo para a sala! Tomonari-kun, este é um momento importante, então você não quer que os professores reparem em você, certo!?

Juntando as mãos, Asahi-san curvou-se em pedido de desculpas. Ela não estava mais abatida. Estava bem. Já havia se recuperado completamente, então não havia motivo para preocupação.

O corpo inteiro de Asahi-san gritava isso enquanto ela representava, mas eu a encarei diretamente.

— Você não precisa se forçar.

O sorriso de Asahi-san congelou.

— Quem mais está sofrendo agora é você, Asahi-san. Não se preocupe comigo.

Eu sabia que ela estava fingindo estar animada para poupar meus sentimentos. Mas… aquilo também me machucava. A expressão de Asahi-san ficou séria, e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Era a primeira vez que eu a via daquele jeito, mas parecia que eu finalmente estava vendo a verdadeira Asahi-san.

Sempre radiante, sempre a pessoa que animava todos ao redor. Mas Asahi-san também era apenas uma pessoa, carregando os próprios fardos. Como qualquer um, ela se irritava, e também chorava.

— Me desculpa… só por um instante, só um pouquinho…

Suas lágrimas ficaram maiores, e Asahi-san começou a soluçar como se uma represa tivesse se rompido.

— Eu… vou voltar ao normal logo…

— Tudo bem….

Mesmo sentindo tanta dor, ela ainda se preocupava com a pessoa à sua frente. Era assim que Asahi-san era. Eu queria dizer que ela não precisava voltar ao normal, mas, para Asahi-san, o "normal" provavelmente era sua armadura. Era a forma como ela protegia o próprio coração.

Desde que o período eleitoral começara, Asahi-san às vezes parecia desconfortável.

Ela devia estar pensando, completamente sozinha, em como encarar Rintarou.

Enquanto observava Asahi-san chorar em silêncio, acrescentei mais uma coisa à minha lista de tarefas.

Durante o intervalo do almoço daquele dia, eu falaria com Rintarou.

◆

Intervalo do almoço.

A caminho do prédio dos primeiros anos, avistei Rintarou atravessando o corredor de ligação e o chamei.

— Rintarou, preciso conversar com você.

— Claro.

Rintarou deveria ajudar no próximo discurso de Joutou, mas aceitou meu convite imediatamente.

Fomos até as mesas do jardim. Percebendo que aquela não era uma conversa para outras pessoas ouvirem, Rintarou caminhou deliberadamente até um ponto mais afastado. Ironicamente, o assento que Rintarou escolheu era o mesmo manchado pelo arrependimento de Asahi-san.

— Sobre o que é? Vai se juntar ao nosso lado?

— Não.

— Que pena. Eu estava torcendo para que fosse isso…

Assim que se sentou, Rintarou me encarou com olhos cheios de expectativa, mas eu balancei a cabeça. Provavelmente ele havia arranjado tempo para conversar comigo, até mesmo deixando de lado suas tarefas no discurso, por causa dessa esperança. Senti-me mal por decepcioná-lo.

— É sobre a Asahi-san.

Quando falei sem rodeios, Rintarou soltou um pequeno suspiro.

— Vou dizer de novo: aquilo foi só uma briga entre irmãos. Você não precisa se preocupar com isso, Tomonari-senpai. …Além disso, Ane-san parece achar que eu estou por trás da campanha difamatória contra vocês, mas não existe prova nenhuma disso—

— Foi você, não foi?

Rintarou ficou em silêncio, e eu repeti.

— Você está por trás da campanha difamatória.

— Por que tem tanta certeza?

Diante de Rintarou, que se fazia de desentendido, expliquei meu raciocínio. A prova de que o palpite de Asahi-san estava correto.

— Neste momento, há alguns boatos ruins circulando sobre Tennouji-san. Você sabe quais são?

— Bem, eu também faço parte da eleição, então ouvi algumas coisas.

Isso tornava tudo mais fácil. A campanha difamatória não tinha como alvo apenas Narika; Tennouji-san também estava sendo atacada. Mencionei um rumor que ouvira de Suminoe-san naquela manhã.

— Estão dizendo que o seminário sobre código de vestimenta será dividido de acordo com o nível dos círculos sociais que os estudantes costumam frequentar, e que isso vai evidenciar as diferenças de status entre as famílias. …Esse é o boato que está circulando.

— Sim, ouvi esse também.

Rintarou me encarou como se perguntasse: "E daí?"

— Tennouji-san nunca disse uma palavra sobre realizar um seminário de código de vestimenta.

Os olhos de Rintarou se arregalaram.

— Mas você não me contou, Tomonari-senpai? Disse que o próximo discurso de vocês explicaria o seminário de código de vestimenta.

— Nós descartamos essa ideia. Percebemos que falar sobre isso no discurso poderia causar exatamente o tipo de mal-entendido que o boato está sugerindo.

Depois de conversar com Tennouji-san no último minuto, decidimos não mencionar o seminário de código de vestimenta.

Para transformar a Academia Kiou em um lugar onde todos pudessem viver com nobreza, julgamos que qualquer política que sequer sugerisse diferenças de status familiar deveria ser evitada.

Mesmo assim, de alguma forma, o boato dizia que Tennouji-san realizaria um seminário de código de vestimenta, e uma campanha difamatória foi construída em cima disso.

Alguém havia vazado nossos planos.

— A única pessoa que sabia que estávamos planejando um seminário de código de vestimenta… era você, Rintarou.

Rintarou apertou os lábios e ficou em silêncio.

A campanha difamatória que circulava pela academia beneficiava o grupo de Joutou. Só isso já me fazia suspeitar de Joutou e Rintarou. Mas havia outro motivo para eu suspeitar especificamente de Rintarou: a velocidade com que os rumores se espalhavam.

Qualquer um que conhecesse bem Tennouji-san e Narika perceberia imediatamente que aqueles rumores eram falsos.

O modo de vida refinado delas estava gravado nos olhos de muitos estudantes, e era por isso que elas eram tão famosas quanto Hinako na academia. Qualquer um que as conhecesse descartaria os boatos com uma risada e evitaria espalhá-los ainda mais.

Ainda assim, os rumores se espalharam.

Isso significava que as pessoas espalhando aqueles boatos não conheciam Tennouji-san e Narika muito bem. Ao perceber isso, concluí que a origem dos rumores não estava entre os nossos colegas de ano. Terceiranistas ou primeiranistas… Os terceiranistas já viam Tennouji-san e as outras desde o primeiro ano, então passei a suspeitar dos atuais estudantes do primeiro ano.

A faísca dos rumores estava se espalhando como fogo entre os alunos do primeiro ano.

Aquele era o território de Rintarou, um lugar que nós não conseguíamos alcançar com facilidade. Quando os rumores chegavam aos nossos ouvidos, já tinham se espalhado tanto que éramos obrigados a correr atrás do prejuízo.

Rintarou suspirou, resignado, e abaixou a cabeça.

— Eu me rendo. Como você suspeitou, senpai, sou eu quem está conduzindo a campanha difamatória.

— Vai admitir tão fácil assim?

— Com tantas evidências circunstanciais, não tenho como negar. …Dizem que um estrategista acaba se afogando nas próprias estratégias, não é? Fiquei tão concentrado em espalhar os rumores que não ouvi direito o discurso da Tennouji-san.

Rintarou demonstrou arrependimento. De fato, se tivesse prestado atenção ao discurso de Tennouji-san, teria percebido que havíamos abandonado o seminário de código de vestimenta.

— Sinceramente, eu pretendia contar a você sobre a campanha difamatória em algum momento, então foi só uma questão de mais cedo ou mais tarde.

…Ele pretendia me contar? Por que ele acharia aceitável que eu soubesse?

— Está zombando de mim?

Quando deixei minha irritação transparecer, Rintarou me olhou, surpreso.

— Você também se deixa levar pela emoção, hein, Tomonari-senpai? Achei que fosse mais racional.

— Não sou particularmente racional. É só que, na Academia Kiou, agir apenas pela emoção não leva ninguém muito longe.

Então, sim, eu também fico com raiva.

Pensei em Asahi-san naquela manhã. Imaginei seus sentimentos ao se afastar de sua atitude despreocupada de sempre e derramar lágrimas, da forma mais vívida que consegui.

Eu nunca mais queria ver Asahi-san fazer aquela expressão. Nunca mais.

— Ouvi os detalhes da Asahi-san. Quando ela decidiu assumir a família, você foi deixado sozinho, encurralado, e deixou de se importar com os meios que usava.

— Não vou negar.

Rintarou confirmou.

— Sinceramente, eu entendo o seu lado… Mas, mesmo assim, esse tipo de abordagem não está certo.

Ser deixado sozinho devia ter ferido Rintarou profundamente.

Abrir um negócio no mundo real exigia superar obstáculos muito mais difíceis do que os de um no Management Game. E Rintarou provavelmente mirava um empreendimento de escala considerável. Fazer tudo aquilo sozinho seria incrivelmente difícil.

Não era difícil imaginar o desespero e a pressão que pesavam sobre Rintarou, empurrando-o até o limite.

Ainda assim—.

— Por favor. Pare de espalhar esses rumores. A Asahi-san está sofrendo, sentindo-se responsável por tudo.

Abaixei a cabeça diante de Rintarou. Tennouji-san e Narika também deviam estar sofrendo por dentro por causa daquelas calúnias infundadas.

Aquilo não era estratégia. Era intriga. Talvez fosse uma tática racional para o lado de Rintarou vencer a eleição, mas, no processo, estava ferindo pessoas. Havia quem derramasse lágrimas em silêncio por causa disso.

— Por favor… levante a cabeça.

Ergui o olhar lentamente e vi Rintarou me encarando com calma.

— Você tem razão… — depois de pensar por um instante, Rintarou falou. — Então, se você se juntar ao nosso lado, senpai, eu paro.

— Você…!

— Não entenda errado. Não estou zombando de você, senpai.

Achando que ele estava brincando, levantei-me, mas Rintarou falou com uma expressão séria. Aqueles olhos eram sinceros. Eu não conseguia compreender o que Rintarou estava pensando, mas bastou encarar aquele olhar intenso e honesto para que minha raiva perdesse o rumo.

— Você está tentando absorver os apoiadores da Konohana Hinako-senpai, não está?

— Como você…?

— Vocês distribuíram uma pesquisa, não foi? Uma perguntando o que as pessoas teriam desejado caso Konohana-senpai se tornasse presidente. Eu também recebi uma cópia.

Investigar os desejos daqueles que queriam apoiar Hinako havia sido ideia de Tennouji-san. Pelo visto, aquela pesquisa tinha chegado até Rintarou.

Eles deviam ter reunido uma enorme quantidade de respostas. Era surpreendente pensar que a pesquisa havia se espalhado até os alunos mais novos em apenas meio dia.

— A ideia em si é impressionante, mas o que mais me chocou foi Tennouji-senpai, que era tão competitiva em relação à Konohana-senpai, ter aceitado isso. …Com certeza, essa foi sua influência, Tomonari-senpai. Sua força, tão diferente do comum na Academia Kiou, está inspirando as pessoas ao seu redor.

Rintarou abaixou a cabeça.

— Tomonari-senpai, por favor, junte-se a nós. Precisamos de você.

O jogo havia virado. Mas eu não entendia. Não fazia ideia do que Rintarou estava tentando alcançar. O respeito de Rintarou por mim não parecia falso. Não parecia que ele estava apenas fingindo naquele momento. Mesmo assim… fossem quais fossem as intenções de Rintarou, minha determinação não vacilaria.

— As pessoas que eu quero ver como presidente estão em outro lugar.

Rintarou não ergueu a cabeça.

Eu não conseguia dizer o que ele estava sentindo enquanto permanecia cabisbaixo.

◆

Naquela tarde, de volta à residência Konohana, acabei explicando a situação para Hinako.

— Entendo…. Então o irmão da Asahi-san era quem estava espalhando os rumores.

Contei apenas que Rintarou estava tentando nos sabotar. Provavelmente era melhor não mencionar os assuntos familiares de Asahi-san. Eu hesitava em compartilhar sua vida privada sem permissão.

— Ele vai parar com os rumores?

— Não sei. Acho que provavelmente não.

Rintarou dissera que pararia se eu me juntasse ao grupo de Joutou. Como recusei o acordo, era improvável que ele interrompesse a campanha difamatória.

"Pelo que ouvi, esse garoto Rintarou provavelmente não vai parar. Afinal, está funcionando na eleição."

Takuma-san, aparecendo na tela do notebook, disse aquilo com naturalidade. Hinako lançou um olhar descontente para o notebook.

— Itsuki…. Posso simplesmente encerrar a chamada com esse cara?

"Nem pensar. Foi você que se intrometeu na minha conversa com o Itsuki-kun, Hinako."

— Muu…

Diante de uma lógica irrefutável, Hinako inflou as bochechas.

Eu estava relatando o andamento da eleição a Takuma-san por videochamada quando Hinako entrou no quarto.

Afinal, foram as palavras de Takuma-san que originalmente me levaram a concorrer ao conselho estudantil, então eu vinha atualizando-o regularmente sobre a eleição.

"Takuma-san, descobri o que você quis dizer com a coisa que ficou de fora do management game. …São as intrigas, não é?"

"Correto. Mas perceber isso só depois de se tornar vítima é um pouco tarde, Itsuki-kun. Você precisa desconfiar mais das pessoas."

Eu sabia que havia baixado a guarda.

Meu foco estava inteiramente em apoiar as atividades de Tennouji-san e Narika. De vez em quando, eu prestava atenção no grupo de Joutou, mas apenas para diferenciar nossas propostas ou adotar técnicas dos discursos deles. Era mais uma questão de aprender com eles do que de me manter alerta.

Ainda assim, eu achava que estava sendo minimamente cauteloso. Certifiquei-me de que nossos locais de discurso não fossem tomados e de que nossos materiais de campanha não fossem usados antes de nós. …A campanha difamatória, no entanto, foi um ataque que superou em muito minhas expectativas.

"…Eu nunca imaginei que estudantes da Academia Kiou recorreriam a esse tipo de tática."

"Se você está ao lado da Hinako, não é de se espantar que pense assim."

O que isso queria dizer?

"Aquela academia está cheia de gente ambiciosa, então, naturalmente, há muitos que usariam truques sujos. …Mas ninguém ousaria fazer isso diante da Hinako. Por mais engenhosas que sejam as intrigas, ninguém consegue superá-la."

Mesmo sendo uma preguiçosa por natureza, as habilidades de Hinako eram de primeira linha. De fato, intrigas provavelmente não funcionariam contra alguém como ela.

Estar ao lado de Hinako talvez tivesse me protegido desse tipo de coisa até então.

Da ambição crua e desenfreada capaz de ferir os outros.

"Há, grosso modo, dois tipos de pessoas na Academia Kiou: o tipo CEO, filhos de líderes empresariais, e o tipo político, filhos de figuras políticas. …Os do tipo político costumam recorrer a esse tipo de tática. Desde pequenos, eles foram criados em um mundo de disputas de poder e intrigas. …Pensando bem, Itsuki-kun, você conviveu principalmente com pessoas do tipo CEO, então talvez não tenha percebido essa distinção."

Agora que ele mencionava, a maioria dos meus conhecidos pertencia esmagadoramente ao primeiro grupo. Hinako era o exemplo principal e, como minha persona pública se alinhava a isso, eu provavelmente havia me aproximado de pessoas parecidas.

Assim como os do tipo político tinham suas tendências, os do tipo CEO também pareciam ter as suas. Eles sempre priorizavam resultados concretos. Um exemplo disso era que os melhores alunos da academia eram, em sua maioria, do tipo CEO.

"Rintarou-kun parece ter nascido desse lado, mas algo no passado dele deve tê-lo distorcido. Provavelmente é por isso que ele se dá tão bem com o candidato à presidência que está apoiando."

Nem todo filho de CEO segue o caminho típico, suponho.

A ruptura de Rintarou com Asahi-san talvez tenha aproximado sua mentalidade da de um tipo político, alinhando-o a Joutou, um tipo político nato.

Mas, se era para falar disso—

"…E você, Takuma-san?"

Eu havia sentido em Takuma-san uma imprudência semelhante… como a de um tipo político que não se importa com os meios. Takuma-san ficou em silêncio por um breve instante antes de falar.

"Talvez algo também tenha acontecido no meu passado."

Ele desconversou com um sorriso superficial. Aquilo era apenas uma piada? Ou… havia algo que ele ainda não podia me contar?

"De todo modo, para algumas pessoas, intrigas são o único meio de alcançar o que desejam."

"Haa…"

"Então, Itsuki-kun, está na hora de você aprender um pouco sobre intrigas. Na verdade, é justamente aí que seus talentos mais brilhariam. Se tentasse, conseguiria me imitar em pouco tempo—"

Hinako operou o notebook e encerrou a chamada com Takuma-san.

— Itsuki não precisa desse tipo de coisa.

— Obrigado…..

A confiança dela em mim aqueceu meu coração de verdade. É claro que eu não queria me rebaixar a ponto de armar ciladas para os outros, mesmo que fosse por um objetivo.

— Mas isso é surpreendente… — Hinako disse, parecendo intrigada. — Não sei muito sobre o Joutou-kun, mas não achei que ele fosse do tipo que toleraria uma campanha difamatória, mesmo para vencer. …Como o Rintarou o convenceu?

— Bem, pela lógica do Takuma-san, o Joutou é o perfeito exemplo do tipo político.

Como líder do grupo, Joutou deveria estar plenamente ciente das ações de Rintarou. Eu, por exemplo, relatava a elas todos os detalhes das atividades de Tennouji-san e Narika.

Por que Joutou estava permitindo a campanha difamatória de Rintarou?

Ou talvez, antes de tudo—

— O Takuma-san disse aquilo, mas…

Compartilhei meus pensamentos com Hinako.

— Eu não acho que o Rintarou seja esse tipo de pessoa.

— Esse tipo de pessoa?

— Tipo, alguém que dependa de intrigas…

— Hmm…? Mas ele está fazendo coisas ruins de verdade…

Coisas ruins, hein… O comentário de Hinako era objetivo, despreocupado e, ainda assim, impiedoso. E acertava em cheio.

As ações de Rintarou — espalhar rumores infundados para manchar a imagem de candidatas rivais — podiam, objetivamente, ser chamadas de ruins. Se tivéssemos algum segredo obscuro e Rintarou estivesse expondo isso por senso de justiça, talvez o lado dele tivesse alguma base moral.

— Você está simpatizando com o Rintarou porque é gentil demais, Itsuki?

— Bem, acho que há espaço para sentir alguma compaixão por ele, mas…

Será que podíamos realmente rotular Rintarou como mau, quando ele fora encurralado e recorrera a medidas desesperadas?

Aquilo parecia quase como pregar uma crença ingênua na bondade humana.

Mas… Também não é bem isso.

Decidi investigar mais a fundo Rintarou. Transformar meu palpite em certeza.

— Certo…..

Mesmo depois que a chamada com Takuma-san terminou, não fechei o notebook. Ainda havia trabalho a fazer noite adentro. Hinako espiou por cima do meu ombro enquanto eu começava a digitar no teclado.

— Trabalho da eleição…?

— Sim. Há algo que quero fazer pela Asahi-san.

Senti Hinako inclinar a cabeça atrás de mim.

— Quero corrigir todos os rumores prejudiciais que se espalharam. A Asahi-san se sente responsável.

Abri uma planilha. Com a ajuda de Kita e Suminoe-san, eu havia reunido naquele arquivo os rumores que circulavam pela academia. Agora, só precisava preparar respostas para cada um deles e espalhar a verdade.

No entanto, essa segunda onda da campanha difamatória era mais complexa e variada, com boatos mais difíceis de rebater do que os anteriores. Se eu deixasse qualquer brecha nas respostas, ela seria explorada ainda mais, e elaborar explicações precisas para tudo levaria tempo.

O que eu realmente queria era fazer mais do que apenas corrigi-los…

Mas eu não tinha confiança de que conseguiria a tempo.

Aquele era o quinto dia do período eleitoral, com sábado e domingo no meio. Rintarou, depois de estudar as propostas de Tennouji-san e Narika, provavelmente passara algum tempo elaborando cuidadosamente aquela campanha difamatória. Enquanto isso, eu precisava lidar com tudo entre ontem e hoje, e, sem surpresa, o volume de trabalho estava me esmagando.

— Quer que eu ajude?

— Não, é melhor você não ajudar.

Parei o que estava fazendo e olhei para Hinako.

— Isso está ligado à eleição, então, se as pessoas souberem que você ajudou, provavelmente isso por si só já influenciaria muitos votos. Não é isso que Tennouji-san ou Narika querem, então vou aceitar apenas a intenção.

— Entendi….

Hinako assentiu, parecendo um pouco triste.

Não haveria problema em ela revisar um rascunho finalizado de discurso, mas sua contribuição direta para o nosso sucesso não seria ideal.

A Academia Kiou estava cheia de estudantes que queriam Hinako como presidente. Se ela apoiasse abertamente uma candidata específica, esses alunos provavelmente a seguiriam.

É claro que os estudantes da academia não eram tolos. Em algum momento, perceberiam que não podiam continuar perseguindo Hinako, que não se candidatara à presidência. Por isso, usar a influência dela de forma descuidada naquele momento poderia atrapalhar esse despertar.

Provavelmente todos já haviam notado que não realizávamos festas do chá na academia desde o início da eleição. …Não tínhamos intenção de usar Hinako politicamente.

"Por favor, votem com clareza, separando Hinako da decisão."

Nossas intenções deveriam estar chegando até eles.

— Desculpa, Hinako.

— Não, tudo bem. …É só porque eu sou popular demais.

Bem, sim, mas… Dizer isso com uma expressão tão abatida? Essa era nova…

...Preciso me concentrar.

Voltei minha atenção para o notebook, preenchendo a lista de respostas aos rumores. Mas cada resposta levava minutos para ser elaborada. Apesar da minha determinação, o trabalho não avançava como eu esperava, e a frustração ia se acumulando.

— Mm…

Hinako soltou um pequeno som enquanto me observava analisar os tipos de rumores. Continuei trabalhando, tentando ignorar aquilo, mas…

— Mmmmmm…

Hinako encarava meu trabalho com uma expressão séria. Ela realmente parecia ter algo a dizer…

Provavelmente havia algo errado com a minha abordagem. Mas, como eu havia dito que não precisava de conselhos, ela apenas observava em silêncio, contendo-se.

Nesse ritmo, nunca vou terminar a tempo.

Para fazer Tennouji-san e Narika vencerem, e também por Asahi-san, eu queria desmentir todos os rumores até a manhã seguinte. Mas, com as minhas habilidades, nem passar a noite em claro seria suficiente.

...Pensando bem, Takuma-san disse uma coisa.

Ele havia recomendado que eu contasse com Hinako.

Hinako era um gênio em habilidades práticas, reconhecida até por Kagen-san. Naquele momento crítico, recusar-me a depender dela não seria apenas honestidade. Talvez fosse burrice.

— Não posso deixar você me ajudar diretamente, mas… — depois de pensar um pouco, encontrei um meio-termo. — Existe, tipo, algum truque para lidar com uma quantidade enorme de dados assim?

— Existe!

Feliz por poder ser útil, Hinako respondeu cheia de energia.

— Mas… em troca de ensinar, eu quero uma recompensa.

— Uma recompensa?

Uma recompensa para Hinako significava… Puxei um pacote de salgadinhos da gaveta da escrivaninha.

— Aqui, batata chips.

— N-Não, não esse tipo…!

— Não é batata chips!?

Sério!? Vai nevar amanhã!? Isso é sinal de alguma grande perturbação cósmica!?

— Não precisa ficar tão chocado.

Mas como não ficar? Com base no comportamento dela até então, eu tinha certeza de que "recompensa" significava batata chips, mas Hinako inflou as bochechas, parecendo um pouco irritada.

Ela se aproximou da minha cama e…

— Trabalhe aqui.

Hinako deu leves tapinhas no colchão.

— Por mim, tudo bem, mas essa é a recompensa?

— Mm.

Eu não entendi muito bem, mas aceitei. Como era um notebook, eu podia trabalhar na cama. Assim que me sentei, Hinako disse:

— E… assim.

Ela se enfiou entre mim e o notebook. Acomodou-se perfeitamente entre minhas pernas esticadas.

— Hã, Hinako, isso é meio…

— É-É mais fácil ensinar assim.

Eu mal conseguia ver a tela… Nossos corpos estavam praticamente colados. A cada respiração, o doce aroma dela chegava até mim.

Calma, calma… Ela só está sendo carente…

Talvez a habilidade que eu mais tivesse desenvolvido como cuidador dela fosse a rapidez com que conseguia esvaziar a mente.

Para manter a compostura, inclinei-me levemente para trás, tentando criar alguma distância entre nós.

— Itsuki…..?

— O-O quê?

Quando tentei me afastar, Hinako segurou meus braços e me puxou para mais perto.

— Me abrace direito.

Chamar aquilo de distância familiar já seria forçar demais a barra. Meu coração disparava. Minha cabeça parecia estar girando.

Isso é… demais!

O suor começou a brotar de cada parte de mim enquanto eu entrava em pânico. Forcei minha mente, que tinha ficado em branco, a funcionar.

O que estávamos fazendo mesmo? …Ah, certo. Hinako ia me ensinar dicas de trabalho.

— Hi-Hinako! Que tipo de truque você vai me ensinar!?

Não consegui pronunciar as palavras direito, mas Hinako também não parecia exatamente calma. Ela soltou um estranho "Nnh…" baixinho enquanto olhava para a tela.

Afinal, qual era o truque que Hinako usava para lidar, na prática, com enormes quantidades de dados?

Depois de pensar por um momento, Hinako abriu a boca outra vez.

— Quando se trata de muitos dados… é tipo, você deixa tudo fofinho e depois arruma…

— Fofinho…

Não. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer. No fundo da minha mente, surgiu a imagem de nuvens flutuando preguiçosamente pelo céu.

— Nmm… espera, deixa eu colocar em palavras…

— Se for difícil demais, não precisa, sabe.

— De jeito nenhum… Eu quero ajudar o Itsuki…

Hinako mostrou uma expressão séria, como se estivesse realmente tentando organizar os pensamentos.

No fundo, eu acreditava que, se tivesse tempo suficiente, Hinako provavelmente conseguiria explicar.

Hinako sempre alternava entre seu estado natural, superpreguiçoso, e seu modo perfeito de ojou-sama conforme a necessidade. No entanto, essa mudança alterava apenas sua personalidade exterior — suas habilidades reais continuavam as mesmas.

Em seu estado natural, como agora, ela não tinha motivação alguma, então sua completa falta de habilidades para a vida cotidiana vinha à tona. Por outro lado, se tivesse disposição, ela conseguia agir com a mesma elegância que demonstrava no modo ojou-sama.

Quando Hinako estava em seu modo perfeito de ojou-sama, costumava ensinar os colegas a estudar. Em outras palavras, Hinako tinha naturalmente a capacidade de ensinar os outros.

E não era qualquer tipo de ensino — ela era procurada até mesmo pelos estudantes de elite da Academia Kiou…

— Itsuki, você é bom em enxergar o que existe por trás dos dados, mas não está olhando para o panorama geral.

Depois de terminar de organizar seus pensamentos, Hinako voltou a falar.

— Todos os dados… você começa abstraindo e separando pela essência. Por exemplo, este rumor e aquele rumor… no fundo, os dois têm a ver com suspeitas sobre motivos egoístas da Tennouji-san, então…

— Entendi. Se você analisar até esse ponto, dá para lidar com eles de uma vez só, certo?

Hinako assentiu de leve.

— É só uma intuição minha, mas… ter faro para perceber a essência é o ponto principal. Se você olhar só para os problemas superficiais, vai acabar andando em círculos… além de dar muito trabalho, já que exige esforço demais.

Dava para perceber que aquela última parte, sobre dar trabalho, era o verdadeiro sentimento dela.

Mas "ter faro para perceber a essência"… aquela era uma boa expressão para guardar.

Até então, eu era bom em enxergar as pessoas por trás dos dados, mas os próprios dados também tinham uma essência.

Provavelmente eu conseguiria descobrir a essência dos dados por conta própria. Um exemplo perfeito disso foi quando negociei com Ikuno no Management Game. Consegui enxergar o que Ikuno realmente queria — sua essência — e conduzir a negociação a partir dali. Observar as pessoas por trás dos dados era uma forma segura de chegar à essência deles.

Mas, para ser sincero, era ineficiente. Era um método sólido para processar um único dado em profundidade, mas, para lidar com grandes quantidades, levava tempo demais. Observar a pessoa por trás de cada pedaço de informação exigiria um tempo absurdo.

Então, eu também precisava aprender a farejar a essência a partir da superfície dos dados.

A habilidade de processar enormes quantidades de informação — era disso que eu precisava agora.

Se eu me tornasse vice-presidente do conselho estudantil, provavelmente teria que lidar com esse tipo de trabalho com mais frequência. …Ainda bem que percebi o que me faltava neste momento.

…Estou feliz.

Saber que ainda havia espaço para eu crescer era, sinceramente, empolgante.

— Obrigado, Hinako. …Vou tentar.

Esquecendo o quão perto eu estava sentado de Hinako, mergulhei no trabalho que precisava fazer.

Revisei novamente os tipos de rumores que circulavam pela academia. Em vez de enfrentá-los um por um como uma mula teimosa, passei os olhos pelo conjunto com uma abordagem mais leve. Então, agrupei os boatos com temas semelhantes e pensei em soluções para cada grupo.

Como Kagen-san e Takuma-san haviam reconhecido, as habilidades práticas de Hinako eram, honestamente, de nível genial.

Mas ela não dependia apenas de algo vago chamado talento.

Havia uma lógica real por trás. Ela conhecia a estrutura exata a seguir, pensava de forma sistemática e valorizava os fundamentos — uma estratégia prática, sólida e bem fundamentada.

Aquilo… eu podia imitar.

Depois de cerca de uma hora de trabalho, meu cérebro começou a se acostumar àquela forma sistemática de pensar. A pilha de rumores que antes parecia impossível de enfrentar agora tinha um ponto de partida claro, e minha motivação disparava.

Se eu conseguir fazer isso… talvez consiga ir um passo além.

Eu poderia fazer mais do que apenas as correções que havia planejado originalmente. Um sorriso surgiu naturalmente no meu rosto.

Depois de terminar o trabalho, levei Hinako, que havia adormecido em algum momento, de volta para o quarto dela nos braços. Antes de sair, escondi um pacote de batata chips na gaveta de sua escrivaninha.

◆

Asahi Rintarou não trocava palavras com ninguém além da mãe quando voltava para casa.

Ignorando os cumprimentos dos empregados, Rintarou seguia direto para o próprio quarto. Depois da escola, só saía de lá para jantar ou tomar banho.

Com a mãe fora em uma viagem de negócios, ele não conversava com a família. Sua relação com a irmã estava no pior ponto possível, e ele mantinha o pai à distância por conta própria.

Seu pai, digno de desprezo, era mais irritante do que um estranho. Cada palavra e cada gesto dele raspavam os nervos de Rintarou. Antes, ainda possuía alguma dignidade, mas agora, incapaz de construir confiança dentro da empresa, parecia apenas um fracassado decadente.

Ainda criança, Rintarou havia cortado o pai de sua vida sem piedade.

Ao tratar o próprio pai como um inimigo comum, Rintarou conquistara a confiança dos funcionários da empresa, superando-o. Havia muitas pessoas talentosas na J’s Holdings aguardando ansiosamente pela startup de Rintarou. Os preparativos para recrutá-las já estavam em andamento.

Ele não se arrependia de ter abandonado o pai. Mas o fato de seu pai nunca tê-lo culpado por isso era algo que ele não conseguia entender.

...Tanto faz.

Seu pai arrogante, sentado com presunção sobre um senso de valores distorcido. Sua irmã traidora, que, apesar da promessa de seguirem por outro caminho, de repente decidira herdar a empresa por autopreservação.

Para Rintarou, aquela casa era um covil de tolos.

Aquele não era o lugar ao qual ele pertencia.

— Ah.

A caminho do quarto, ele se deparou com a irmã, Karen.

Como eram irmãos, seus quartos ficavam lado a lado. Mesmo que a distância emocional entre eles aumentasse, seus quartos continuavam próximos.

Em momentos como aquele, Karen sempre ficava com uma expressão culpada no rosto.

Mas, naquele dia, depois daquele lampejo habitual de culpa, Karen rapidamente se recompôs e encarou Rintarou nos olhos.

Pego desprevenido pelo comportamento incomum dela, Rintarou desviou o olhar instintivamente.

Apressando-se para dentro do quarto, Rintarou relembrou aquela troca e sentiu-se irritado.

— Tch.

Ela tinha superado aquilo? Que ousadia, vindo de uma traidora.

Não.

Ele precisava parar de pensar em coisas inúteis. Rintarou tirou da bolsa o boletim eleitoral que recebera naquela manhã e conferiu os índices de aprovação de cada grupo.

As tendências de apoio estão boas. Vamos manter a campanha difamatória, mas já está na hora de Joutou-senpai fazer um discurso sobre empregos de meio período.

Era hora de colocar em prática o conselho que Tomonari Itsuki havia lhe dado. Originalmente, ele pretendia falar apenas sobre experiência no ambiente de trabalho, mas, no próximo discurso, anunciariam que também estavam considerando permitir empregos de meio período.

Mas… Tomonari-senpai sabia bastante sobre empregos de meio período, não sabia?

Não era apenas o fato de ele ter sugerido a ideia. Rintarou ficara surpreso por Itsuki ter citado casualmente exemplos específicos, como canteiros de obras, aulas particulares ou funcionários de hotel.

Rintarou não sabia em qual escola Tomonari Itsuki havia estudado antes de se transferir, mas, já que estava na Academia Kiou, devia ter vindo de uma escola particular refinada.

…Ou assim Rintarou pensava, mas agora sentia uma estranha inquietação.

Ao aprender com os erros do pai e voltar os olhos para o mundo exterior, Rintarou havia percebido o quão distorcidos eram os valores dos estudantes da Academia Kiou.

Ele pensava que Tomonari Itsuki fosse semelhante a eles… mas talvez estivesse enganado.

Aquela força dele, tão diferente da de um estudante típico da Academia Kiou… será que podia ser…?

...Impossível.

Ao chegar a certa possibilidade, Rintarou pegou o smartphone com uma expressão sombria.

Usando as conexões que havia construído por conta própria desde a traição da irmã — associados da família Asahi e funcionários de elite que planejava recrutar —, Rintarou começou a investigar a possibilidade que acabara de surgir em sua mente.

◆

Sexto dia da eleição.

Chegando à escola ainda mais cedo do que o normal, imprimi os documentos que havia preparado na mansão usando a impressora da academia destinada aos panfletos.

Carregando a pilha de papéis para o pátio, acabei encontrando uma colega de classe.

— Ah, Asahi-san?

— Ah… Tomonari-kun.

Asahi-san parecia um pouco constrangida.

— Tomonari-kun, você tem vindo tão cedo todos os dias durante a eleição?

— Sim. E você, Asahi-san…?

— Hm… Eu queria pedir desculpas a você, Tomonari-kun.

Asahi-san apertou os lábios com força e falou em um tom cheio de arrependimento.

— Desculpa por ter chorado ontem… Eu causei muitos problemas para você.

Asahi-san curvou-se profundamente.

Se eu ficasse em silêncio, parecia que ela continuaria se desculpando para sempre. Eu realmente queria que ela voltasse a ser a Asahi-san alegre de sempre.

Com esse pensamento no coração, decidi mostrar a ela aquilo em que eu havia trabalhado tanto na noite anterior.

— Na verdade, hoje vim à escola ainda mais cedo do que o normal — mostrei a pilha de papéis em minhas mãos para Asahi-san, que parecia confusa. — Eu queria distribuir isto pela academia o mais rápido possível.

Os panfletos que eu costumava entregar no pátio eram para anunciar os locais dos discursos, mas os que eu distribuiria naquele dia eram diferentes.

Entreguei um a Asahi-san.

Ao recebê-lo, Asahi-san deu uma olhada e fez uma expressão preocupada.

O panfleto estava lotado de texto, como um jornal. O tamanho da fonte era legível, mas, comparado aos panfletos de costume, definitivamente dava mais trabalho para ler.

Mas, naquele panfleto, a quantidade de informações era justamente o ponto principal.

— Isto é… será que…?

Ao perceber o conteúdo do panfleto, Asahi-san olhou para mim, e eu assenti.

— Todos os rumores negativos sobre nós que estão circulando pela academia… uma lista completa de respostas — enquanto explicava, mostrei a Asahi-san o verso do panfleto — e uma lista preventiva de respostas a rumores negativos que possam surgir no futuro.

Antes de Hinako me ensinar seu truque, eu achava que só conseguiria preparar respostas para os rumores que já existiam. Mas, graças a ela, tive tempo suficiente para criar aquilo que eu realmente queria.

Algo para impedir que Asahi-san se machucasse ainda mais—

— Previ todas as possíveis campanhas difamatórias que poderiam surgir e preparei respostas para elas. Coloquei o máximo que pude no verso, mas não havia espaço suficiente, então o restante pode ser conferido no site.

O endereço do site estava impresso no verso do panfleto.

As campanhas difamatórias espalhadas por Rintarou eram, em uma palavra, especulações. Eram interpretações deliberadamente distorcidas de partes dos discursos de Tennouji-san e Narika que ainda não haviam sido bem explicadas.

Então, se explicássemos tudo perfeitamente desde o início, não haveria espaço para campanhas difamatórias.

Mas explicar tudo em um discurso levaria uma quantidade de tempo irreal. Por isso, escolhi explicar por meio de documentos.

— Há muita informação, então nem todos vão ler tudo. Mas esta é a Academia Kiou. Em um lugar cheio de pessoas dedicadas, alguém com certeza vai ler até o fim. E essas pessoas vão desmentir os rumores por nós.

Quem lê, vai ler. Quem investiga, vai investigar.

E aqueles que perceberem que os rumores são falsos certamente tomarão a iniciativa de negá-los.

Eu acreditava que a Academia Kiou era um ambiente onde eu podia me agarrar a essa esperança.

Mesmo que, como Takuma-san dissera, houvesse ali muitas pessoas capazes de fazer qualquer coisa por ambição, no fundo, elas ainda eram diligentes.

Eu acreditava na forma sincera com que os estudantes daquela academia viviam suas vidas.

— Acho que agora lidamos com as campanhas difamatórias — continuei falando para Asahi-san, que parecia surpresa. — Asahi-san, você não precisa se desculpar. Nós não vamos perder para algo assim.

Nós venceríamos. Achei que afirmar aquilo com clareza seria a melhor forma de aliviar a culpa de Asahi-san. Os olhos dela se arregalaram, e ela mordeu o lábio com força.

— Me dê metade dos panfletos.

Asahi-san estendeu a mão.

— Está meio tarde, mas eu vou ajudar. …Sinceramente, eu queria ajudar desde o começo, mas fiquei preocupada que, se eu me envolvesse, Rintarou pudesse fazer alguma coisa. Por isso, não consegui agir.

Então era isso… Para Asahi-san, que sabia que Rintarou a odiava, aquela era uma preocupação natural.

Mas agora ela parecia acreditar na nossa vitória. Provavelmente foi por isso que decidiu ajudar sem hesitar.

— Bom dia!

Com os panfletos em mãos, Asahi-san se aproximou dos estudantes que chegavam à escola e começou a distribuí-los.

— Os rumores que estão circulando pela academia são todos absurdos! Vocês vão ver se lerem isto! Por favor, peguem um!

Como se estivesse tentando compensar todo o tempo em que não pôde ajudar, Asahi-san se movia com determinação.

…Eu não podia deixar que ela me superasse.

Preparei-me mentalmente e também comecei a distribuir os panfletos.

— Ei, vocês dois.

Depois de distribuirmos cerca de cinquenta panfletos, Asahi-san e eu fomos chamados por Taishou.

— Então a Asahi está ajudando hoje, hein?

— Sim! Vou ajudar até o último dia!

Asahi-san disse aquilo com um sorriso tão brilhante quanto o sol. Ao vê-la de volta ao seu jeito enérgico de sempre, como antes da eleição, Taishou abriu um sorriso satisfeito.

— Então eu também vou ajudar.

Dizendo isso, Taishou se aproximou de mim para pegar alguns panfletos. Agradeci e estava prestes a entregá-los quando ele sussurrou no meu ouvido.

— Desculpa, Tomonari. Como a Asahi não estava ajudando, eu também não ajudei até agora.

— Tudo bem, mas você poderia ter ajudado mesmo sozinho, Taishou-kun.

— Idiota. A Asahi não ajudar vocês? Em circunstâncias normais, isso seria impensável, certo? Eu sabia que devia ter alguma coisa acontecendo. …Se eu ajudasse, a Asahi ficaria sozinha, não ficaria?

Taishou lançou um olhar para Asahi-san, que distribuía panfletos alegremente. Pelo visto, Taishou havia mantido distância da nossa campanha de propósito, para evitar que Asahi-san se sentisse isolada.

— Taishou-kun, você é surpreendentemente gentil, hein?

— Sou?

Taishou pareceu intrigado. Tanto Taishou quanto Asahi-san realmente prestavam atenção nas pessoas ao redor.

— Talvez por isso tenham sido os primeiros amigos que fiz nesta academia.

Sem eles, eu não sabia onde estaria agora. Pensando bem, consegui me adaptar à Academia Kiou por causa deles… e conhecê-los naquele momento parecia ter sido inevitável.

Não fui eu que os encontrei. Taishou e Asahi-san me encontraram.

—————Eu quero me tornar vice-presidente.

Esse pensamento me atingiu com mais força do que nunca. Eu queria transformar o dia em que eles falaram comigo na escolha certa. Queria fazer com que ser meu amigo fosse algo de que pudessem se orgulhar. Essa seria a melhor forma de retribuir tudo.

Dizer algo constrangedor como "obrigado por serem meus amigos" era embaraçoso demais. Então, eu mostraria a gratidão em meu coração por meio de resultados.

— Bom dia!

— Por favor, pegue um, se quiser!

As vozes de Taishou e Asahi-san ecoavam pelo pátio. Muitos estudantes notaram suas vozes e pegaram os panfletos. Um pouco tarde, fui lembrado do quanto aqueles dois influenciavam as pessoas, com seu amplo círculo de amizades.

Com isso… finalmente podemos seguir em frente.

As intrigas de Rintarou terminariam ali. Se os panfletos que distribuímos naquele dia fossem eficazes, não haveria mais brechas para ele explorar nas propostas de Tennouji-san e Narika.

A partir dali, pensei que tudo correria bem—————

◆

Intervalo do almoço.

Depois de comer com Hinako e assistir aos discursos de Tennouji-san e Narika, voltei para a sala de aula, já que as aulas estavam prestes a começar.

Mas, no instante em que entrei, Kita me notou e se aproximou.

— Tomonari-kun. Tem um rumor estranho circulando…

Kita disse aquilo com uma expressão preocupada.

Um rumor…? Durante o almoço, eu havia escutado casualmente as conversas ao meu redor e, como planejado, os estudantes que leram nossos materiais já estavam desmentindo os rumores de Rintarou por conta própria.

Por isso, achei que não precisávamos mais ficar tão sensíveis a rumores…

— Um rumor estranho?

— Sim. É um pouco diferente dos outros…

Na minha opinião, os outros rumores também eram bem estranhos… Kita parecia incerto sobre o quanto deveria levar aquilo a sério e explicou o conteúdo do boato.

— Está circulando um rumor de que você está escondendo sua verdadeira identidade, Tomonari-kun.

Minha mente ficou em branco.

Aquilo…

Logo aquilo, entre todas as coisas…

Aquele era o único rumor que jamais poderia se espalhar.

(N/SLAG: Agora sim temos antagonismo de verdade!)

Fim da leitura

Capítulo 61 concluído

Volume 9 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Ruptura Entre Irmãos