O Cuidador da Ojou-sama — Capítulo 73: Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Grande Atriz, Konohana Hinako

O Cuidador da Ojou-sama
Cap. 73
0%
O Cuidador da Ojou-sama

Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Grande Atriz, Konohana Hinako

Capítulo 73

16.576 palavras~72 min de leitura

— A PRIMEIRA OPÇÃO da Turma A será uma peça de teatro!! Se alguém for contra, por favor, levante a mão!!

Ao ouvir a voz alta de Asahi-san, ninguém na sala ergueu a mão. Depois de confirmar que a decisão havia sido unânime, Asahi-san veio até a minha carteira.

— E, com isso, Tomonari-kun, deixo o resto com você!!

— Entendido. E quanto à segunda e à terceira opções?

— Hum... Talvez um café temático ou alguma coisa assim?

— Você nem está levando isso a sério, está?

Sorri de canto diante da resposta obviamente desinteressada de Asahi-san.

Para o Festival Cultural, cada turma preparava até três propostas de atrações e as enviava ao conselho estudantil. Caso duas ou mais turmas escolhessem a mesma atividade, o conselho realizava um sorteio justo para decidir quem ficaria com ela.

A regra existia para evitar que, por exemplo, todas as turmas resolvessem abrir um café.

Nossa primeira opção já era a peça de teatro, mas ainda precisávamos decidir as outras duas. Enquanto pensava nisso, lembrei-me da reunião do conselho estudantil realizada recentemente.

Assim como Tennouji-san havia previsto, a Turma A escolheu uma peça de teatro como primeira opção praticamente sem nenhuma discussão.

— Mas eu entendo perfeitamente a Asahi.

Enquanto conversava com ela, Taishou se aproximou.

— A disputa pela peça sempre é acirrada, mas aposto que este ano as outras turmas vão deixar essa pra gente.

— E por que você acha isso?

Diante da minha pergunta, Taishou começou a explicar.

— O Festival Cultural da Academia Kiou sempre tem três atrações principais que são as mais esperadas: a peça de teatro, o coral e o baile de gala. A disputa por essas três é feroz, e praticamente todas as turmas as colocam como primeira opção.

Enquanto falava, ele levantou três dedos. Asahi-san, ao seu lado, completou:

— Mas a nossa turma tem a Konohana-san, que foi a grande estrela da peça do ano passado! Todo mundo vai querer vê-la atuar de novo este ano, então provavelmente vão deixar a peça para nós. Pelo menos essa é a ideia!

Então era por isso...

Eu já havia ouvido Tennouji-san comentar que Hinako fizera um enorme sucesso na peça do ano passado.

Como as apresentações utilizavam o palco do auditório, em vez de uma sala de aula, havia um número limitado de horários disponíveis. Mas, se esse era o caso, então a Turma A realmente tinha grandes chances de conseguir a peça.

Agora fazia sentido a decisão unânime. Todos pareciam querer assistir novamente à atuação de Hinako.

Na verdade, havia até um sentimento coletivo na Turma A de que, justamente por terem Hinako, eles tinham a obrigação de apresentar uma peça.

— A propósito... Konohana-san, você está de acordo com isso?

Chamei Hinako, que estava sentada à minha frente. Ela se virou e abriu um sorriso doce.

— Claro. Este ano também darei o meu melhor para corresponder às expectativas de todos.

……….

Esse sorriso está completamente forçado.

Era exatamente o que eu esperava.

Conhecendo Hinako, se tivesse tempo para participar de algum evento, ela preferiria mil vezes ficar em casa dormindo. No entanto, ao contrário do que realmente sentia, suas palavras incendiaram a turma.

— K-Konohana-san...!!

— Precisamos garantir que não vamos atrapalhá-la!!

— Vou começar a fazer aulas de atuação!!

— Então eu vou treinar dicção também...!!

A sala inteira ficou tomada pela empolgação. Sob toda aquela avalanche de entusiasmo, Hinako foi murchando lentamente, como uma planta ressecada sem uma gota d'água.

Quando voltarmos para casa, vou comprar um sorvete para ela.

Não... já está começando a esfriar.

Talvez uma bebida quente seja melhor...

— Caraaaamba!! Tô empolgadíssimo para o Festival Cultural!!

Taishou exclamou enquanto observava nossos colegas cheios de motivação.

— O que deu em você, Taishou-kun? Está estranhamente sério hoje.

— É que a gente teve muitos eventos competitivos ultimamente, não foi? O Management Game, a eleição do conselho estudantil e tudo mais. Foi divertido e muito gratificante, claro... mas, às vezes, dá vontade de participar de alguma coisa só por diversão, sem precisar pensar tanto.

— Mas, Taishou-kun, você nunca pensa muito em nada.

— Eu sabia que você ia dizer isso!!

Na minha opinião, foi uma observação bastante justa… Asahi-san caiu na gargalhada ao ver Taishou olhando para o teto como se lamentasse o destino.

Mesmo assim, as palavras dele fizeram sentido para mim.

Agora que parei para pensar… Talvez ele tivesse razão.

Este provavelmente seria o primeiro evento da Academia Kiou do qual eu participaria sem que houvesse vencedores ou derrotados.

— Ah, mas, no seu caso, Tomonari, o Festival Cultural deve significar uma quantidade absurda de trabalho, né?

— Nem tanto.

Respondi enquanto me lembrava da correria dos últimos dias.

— Dá bastante trabalho, sim. Mas não é só isso. Nós também estamos nos divertindo.

— Tem certeza? Você parece do tipo que vive exagerando e se esforçando além do limite.

...Ele é bem perceptivo.

Na verdade, várias pessoas já haviam me dado sermão sobre a importância de descansar de vez em quando.

— Mas os membros do conselho estudantil não podem participar das atrações da própria turma, podem?

— Isso mesmo. Talvez consigamos, se sobrar tempo, mas...

Considerando a quantidade de tarefas que ainda tínhamos, parecia improvável. No dia do Festival Cultural, caberia ao conselho estudantil patrulhar todo o campus.

Ainda assim, isso não significava que ficaríamos trabalhando o tempo inteiro. As patrulhas eram organizadas em turnos, então haveria bastante tempo para que nós, membros do conselho, também aproveitássemos o festival.

— Tomonari-kun, sério, não exagere, está bem? Diferente de antes, agora ficou difícil para nós ajudarmos você com o trabalho do conselho estudantil.

— Obrigado. Mas, desta vez, eu realmente estou bem.

Então eles… Ainda não confiam totalmente em mim, é? Bem, considerando o quanto fui imprudente no passado, não posso culpá-los por pensarem assim.

Mesmo assim, embora apreciasse a preocupação deles, desta vez eu não estava apenas fingindo estar bem. Eu realmente queria aproveitar o Festival Cultural.

Era a primeira vez que eu participava da organização de um evento desse porte e, para minha surpresa, aquilo era muito mais interessante do que eu imaginava.

Acho que isso acontecia porque a maioria dos alunos compartilhava da mesma forma de pensar que Taishou.

Por ser uma escola frequentada pelos filhos das famílias mais influentes, disputas entre facções eram algo relativamente comum. No entanto, o Festival Cultural existia para que todos se divertissem, não para competir.

O fato de os alunos conseguirem mudar de postura com tanta facilidade mostrava que não havia uma rivalidade realmente profunda entre eles, apenas um saudável espírito competitivo.

Ver todos tão animados fazia com que nós também quiséssemos criar um evento à altura daquela empolgação.

Vamos nos divertir.

E vamos fazer com que todos também se divirtam.

Foi naquele momento que defini o princípio que guiaria minha atuação durante o Festival Cultural.

◆

Depois das aulas, concluí minhas tarefas no conselho estudantil, assim como no dia anterior.

Enquanto massageava os ombros doloridos, entrei no carro da família Konohana.

— Bom trabalho hoje, Itsuki-san.

— Você também, Shizune-san.

Cumprimentei Shizune-san, que estava no banco do passageiro, com um leve aceno antes de me acomodar no banco traseiro.

O carro partiu imediatamente.

— Desculpe por fazer vocês esperarem de novo hoje.

— Não há necessidade de se desculpar. Você estava trabalhando para o conselho estudantil. Tanto a Ojou-sama quanto Kagen-sama já sabem que esse será o horário em que você costuma voltar.

— Embora a Hinako não tenha ficado muito feliz com isso...

O trabalho do conselho estudantil era realizado, em sua maior parte, depois do fim das aulas.

Não era todos os dias, mas agora eu tinha bem menos oportunidades de voltar para casa junto com Hinako. Nós dois só percebemos isso depois que nos tornamos membros do conselho e acabamos trocando um olhar que dizia claramente: "Fizemos besteira..."

— Ainda assim, a Ojou-sama também ficou bastante satisfeita.

O sorriso de Shizune-san apareceu refletido no retrovisor.

— Agora ninguém estranha mais ver você ao lado da Ojou-sama. ...Você está se tornando o acompanhante ideal dela.

— Obrigado.

Como responsável por cuidar de Hinako, estabeleci para mim mesmo a regra de nunca obrigá-la a fazer algo que realmente detestasse.

Quando decidi concorrer ao conselho estudantil, ela me apoiou sem hesitar.

Foi graças a esse apoio que consegui dar aquele passo à frente.

Para permanecer ao lado da perfeita Ojou-sama, suponho que eu também precise me aproximar da minha própria versão ideal.

Ainda tenho um longo caminho pela frente. Mas, sem dúvida, estou avançando.

— A propósito, sua turma já decidiu qual será a atração do Festival Cultural?

A pergunta de Shizune-san me fez lembrar da reunião do conselho estudantil realizada naquele dia.

No Festival Cultural da Academia Kiou, assim como em outras escolas, além das atrações realizadas nas salas de aula, também havia apresentações no palco principal.

Depois de analisar as solicitações de todas as turmas, decidimos que este ano haveria apresentações de peças teatrais, números musicais e corais.

Cada uma dessas atrações teria duas sessões: uma pela manhã e outra à tarde.

Reservamos dois horários para cada modalidade, permitindo que um total de seis turmas se apresentasse no palco.

Para ser sincero, encaixar tudo isso exigiu um cronograma extremamente apertado, mas nós, do conselho estudantil, discutimos bastante e decidimos que faríamos funcionar.

Duas turmas apresentariam peças de teatro.

Uma das vagas ficou com uma turma do primeiro ano, definida por sorteio.

E a outra...

— Sim. Vamos apresentar uma peça.

Como todos já esperavam, apesar de a peça ser uma das atrações mais disputadas, poucas turmas a escolheram como primeira opção.

Apenas três.

Além da nossa, apenas duas turmas do primeiro ano fizeram a mesma escolha.

Tennouji-san e os outros acreditavam que isso acontecera porque os calouros não haviam assistido à apresentação do ano passado.

Mesmo assim, eu ainda achava impressionante que apenas três turmas tivessem se candidatado.

Afinal, os rumores sobre a atuação extraordinária de Hinako certamente também haviam chegado aos alunos do primeiro ano.

No fim das contas, a Turma A conseguiu a peça exatamente como esperávamos.

Ao ouvir isso, Shizune-san soltou um discreto suspiro.

— Então chegou a esse ponto...

Havia um peso incomum em sua reação. Sem dizer mais nada, ela pegou o celular.

Estava enviando uma mensagem?

Pelo momento, provavelmente tem relação com o assunto de que acabamos de falar...

Pouco depois, o carro chegou à mansão. Com uma vaga sensação de inquietação, desci do veículo.

— A Ojou-sama já está descansando no seu quarto, Itsuki-san.

Eu já imaginava que fosse esse o caso, então fui direto para o meu quarto.

Shizune-san me acompanhou em silêncio. Talvez tivesse algum assunto para tratar com Hinako.

Eram seis horas da tarde. Voltando para casa mais tarde do que o habitual, abri a porta do quarto.

— Hinako, eu che...

— Itsuki...!

No instante em que entrei, Hinako, que aparentemente estava largada na cama, levantou-se num salto. Ela correu até mim com uma agilidade raríssima — completamente diferente da Hinako de sempre.

— O-O Festival Cultural...! A apresentação da nossa turma...!?

Com o rosto tomado pelo desespero, ela se aproximou tanto que quase encostou em mim.

Resolvi responder sem rodeios.

— Já foi decidido. A Turma A vai apresentar uma peça.

— Nãããããããããããããããããoooooooo...!!

Hinako levou as mãos à cabeça e desabou de joelhos no chão.

...Ela odeia tanto assim essa ideia?

— Acho que nunca vi a Hinako tão abatida.

— De fato. Nem mesmo no ano passado ela ficou tão desesperada.

Talvez a experiência do ano passado tenha sido realmente traumática. Ainda agachada no chão, Hinako ergueu lentamente o rosto para mim.

— Itsuki...

— O que foi?

— Você não pode usar... seus poderes de membro do conselho estudantil... para mudar a atração da nossa turma...?

Ela fez um pedido completamente absurdo.

Hinako gemia aos meus pés como um zumbi, e, por um instante, cheguei a considerar a ideia.

Provavelmente, os outros membros do conselho estudantil me ouviriam sem que eu precisasse recorrer a nenhum esquema estranho. Se eu dissesse que Hinako, a protagonista da peça, não estava em condições de participar, era bem provável que Tennouji-san aceitasse fazer alguns ajustes.

Mas...

— Talvez eu até consiga. Só que não quero usar um cargo que conquistei com tanto esforço em benefício próprio.

— Ugh... Bem... no coração...

Como se sua consciência tivesse sido atingida em cheio, Hinako levou a mão ao peito e permaneceu agachada no chão.

Talvez não fosse exatamente para meu próprio benefício, já que seria por causa dela...

Mesmo assim, ainda seria um uso indevido da autoridade do conselho estudantil, e isso me deixava relutante. Por outro lado, vê-la rejeitar essa ideia com tanta veemência despertou minha curiosidade.

Afinal...

Que tipo de peça Hinako apresentou no ano passado?

— Shizune-san.

— Sim?

— A peça em que Hinako atuou no ano passado... foi realmente tão incrível assim?

Ao ouvir minha pergunta, Shizune-san tirou o celular do bolso antes de responder. Parecia que ela havia acabado de receber uma mensagem. Depois de tocar algumas vezes na tela, ela finalmente levantou os olhos para mim.

— Sobre isso... Kagen-sama gostaria de conversar com você.

— Comigo?

O que eu imaginava ser apenas uma pergunta casual de repente ganhou um peso inesperado.

— Por favor, acompanhe-me.

Shizune-san saiu do meu quarto. Antes de segui-la, ajudei Hinako a se sentar na cama.

Depois fui atrás dela.

◆

Shizune-san bateu à porta do escritório.

— Trouxe Itsuki-san.

— Obrigado.

Ao ouvir a voz de Kagen-san, ela abriu a porta.

— Com licença.

Fazia algum tempo que eu não entrava naquele escritório. Mesmo assim, a atmosfera pesada e solene continuava exatamente a mesma.

Foi ali que conheci Kagen-san pela primeira vez. Também foi naquele lugar que descobri os problemas que Hinako enfrentava e decidi aceitar o papel de seu cuidador.

Tudo parecia nostálgico. Talvez porque eu já não fosse mais a mesma pessoa daquela época.

Sentado atrás da escrivaninha, Kagen-san também parecia diferente. Sua expressão estava muito mais branda do que antes. Acho que não fui apenas eu quem mudou desde então.

— Faz algum tempo desde a última vez que conversamos assim.

— Sim.

Já havíamos nos encontrado algumas vezes pelos corredores da mansão, mas fazia bastante tempo que não conversávamos frente a frente. Se não me engano, a última conversa de verdade que tivemos foi depois do Management Game.

— Você se lembra da promessa que fizemos?

Não consegui responder imediatamente.

— Eu lhe disse que, caso entrasse para o conselho estudantil, permitiria que você se envolvesse nos assuntos da família Konohana.

Como eu poderia esquecer aquela promessa?

Perdi as contas de quantas vezes me lembrei dela durante a campanha para reunir forças e seguir em frente.

— Sim, eu me lembro! Foi justamente por isso que entrei para o conselho estudantil...

— Então cumprirei minha palavra.

O olhar de Kagen-san tornou-se sério.

— A partir de agora, passarei a envolvê-lo nos assuntos da família Konohana.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Finalmente...

Esse foi o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça.

Já fazia muito tempo que eu vivia naquela mansão e, a cada dia que passava, minhas dúvidas sobre a família Konohana só aumentavam.

Esta mansão não é grande demais para servir apenas como uma residência secundária?

Por que Hinako sempre viveu nesta villa?

Quando a mãe de Hinako faleceu?

O que Takuma-san pretende fazer com a família Konohana?

E por que Kagen-san se tornou tão rigoroso com Hinako?

Finalmente...

Eu havia conquistado o direito de buscar respostas para todas essas perguntas.

Apertei os lábios e esperei que Kagen-san continuasse.

— Peço desculpas por tocar nesse assunto justamente quando você está tão tenso, mas não pretendo explicar tudo de uma só vez. Desta vez, falarei apenas sobre algo relacionado ao Festival Cultural.

— Ao Festival Cultural...?

— Esse assunto é relativamente simples, então gostaria que relaxasse enquanto me ouve. Não há nada específico que eu precise que você faça. Digamos que seja mais uma questão de postura.

Se ele estava dizendo isso, então talvez eu realmente pudesse relaxar um pouco.

Ainda assim, eu não conseguia imaginar que relação o Festival Cultural pudesse ter com a família Konohana.

— Ao que parece... a Turma A escolheu apresentar uma peça de teatro no Festival Cultural.

Ele devia ter sido informado por Shizune-san. Então era para Kagen-san que ela estava enviando aquela mensagem.

Assenti.

— Sim.

— Muitas das pessoas mais influentes de diversos setores comparecem ao Festival Cultural da Academia Kiou. Em outras palavras, esse evento representa a oportunidade perfeita para apresentar Hinako, como indivíduo, a todas essas pessoas.

...Isso eu entendia.

Mas, se era esse o caso, então a situação não era diferente do que já havia acontecido até agora.

O Festival Esportivo e o Management Game também reuniram inúmeras figuras importantes. Não havia muita diferença entre eles.

— Foi com esse mesmo objetivo que enviei Hinako ao Festival Cultural no ano passado. Como resultado, ela interpretou a protagonista da peça e recebeu inúmeros elogios.

— Ouvi falar. Todos na academia dizem que foi uma apresentação extraordinária.

— A repercussão foi muito maior do que imaginávamos. Foi por isso que disse à Hinako que ela não precisava disputar uma vaga no conselho estudantil.

...Hã?

O que uma coisa tinha a ver com a outra?

Enquanto eu inclinava a cabeça, confuso, Kagen-san continuou a explicação.

— Se alguém se torna membro do conselho estudantil, não pode participar das atrações do Festival Cultural, correto? As duas alunas cuja presença rivaliza com a de Hinako... Tennouji Mirei e Miyakojima Narika... inevitavelmente terão de trabalhar nos bastidores durante o festival deste ano. Isso significa que o palco será inteiramente de Hinako.

...Então ele já estava pensando tão longe desde o começo?

Era uma conclusão um tanto assustadora, mas fazia sentido.

Kagen-san sempre foi extremamente rigoroso quando o assunto era fortalecer a imagem pública de Hinako. Na verdade, eu mesmo havia estranhado o fato de ele ter permanecido tão discreto durante a eleição do conselho estudantil.

É discutível se ser a protagonista de uma apresentação anual como a do Festival Cultural realmente equivale a fazer parte do conselho estudantil...

Mas, considerando o enorme sucesso do ano passado, era uma aposta bastante segura.

Além disso, se Hinako tivesse entrado para o conselho estudantil, era bem provável que sua já limitada resistência física chegasse ao limite.

...Ele realmente pensou em tudo.

Claro que pensou. Afinal, ele é o pai dela. Ninguém conhecia Hinako melhor do que ele.

— Até agora, tudo ocorreu exatamente como eu esperava... porém, há alguns dias, recebi uma notícia inesperada. Dependendo do ponto de vista, ela pode ser boa ou ruim.

A expressão de Kagen-san tornou-se séria.

— O atual chefe da família Konohana ouviu os rumores e manifestou o desejo de assistir à peça de Hinako este ano. É por isso, Itsuki-kun, que preciso que você conduza essa peça... e todo o Festival Cultural... ao sucesso, custe o que custar.

Finalmente ele chegara ao verdadeiro motivo daquela conversa.

— Você entende, não é? O Festival Cultural deste ano precisa ser mais esplêndido, mais grandioso e mais refinado do que qualquer outro. Como membro do conselho estudantil, você possui autoridade para tornar isso realidade, não possui, Itsuki-kun?

— Bem... farei tudo o que estiver ao meu alcance, mas...

Agora tudo começava a se encaixar. Era por isso que ele havia dito que era uma questão de postura.

De fato, ele não estava me atribuindo nenhuma tarefa nova. Como membro do conselho estudantil, eu já pretendia tornar o Festival Cultural o melhor possível.

Nesse sentido, nada havia mudado. Ainda assim, eu não era frio a ponto de tratar aquilo como um problema alheio. Agora eu simplesmente tinha mais um motivo para fazer o festival dar certo.

Era assim que eu deveria encarar a situação.

Mas… Havia uma coisa que ainda me incomodava.

— Hum... eu sempre achei que o senhor fosse o chefe da família Konohana, Kagen-san.

— Creio que lhe expliquei isso quando nos conhecemos pela primeira vez. Eu sou o presidente do Grupo Konohana.

...Qual era a diferença entre ser presidente do grupo e chefe da família?

Como se tivesse lido meus pensamentos, Kagen-san respondeu imediatamente.

— Sou o principal executivo do Grupo Konohana, mas não sou o chefe da família Konohana. Eu administro os negócios da empresa, enquanto meu sogro... ou seja, o avô de Hinako... é quem lidera a família.

Procurei organizar aquelas informações na cabeça. Em outras palavras… A família estava dividida em duas estruturas distintas.

De um lado havia a família Konohana propriamente dita.

Do outro, o Grupo Konohana, responsável pelos negócios.

...Eu não fazia ideia disso.

Como havia prometido, Kagen-san finalmente começava a me revelar o funcionamento interno da família Konohana.

— O chefe da família detesta misturar assuntos públicos com assuntos privados. Esta villa onde você e Hinako vivem foi construída originalmente para servir aos negócios. Existe uma regra de que todas as questões familiares devem ser resolvidas na residência principal.

— Espere um momento.

Havia algo naquela explicação que eu simplesmente não conseguia ignorar.

— Se os assuntos da família são tratados na residência principal... e os negócios são tratados nesta villa... então o motivo de Hinako morar aqui é...

— Você chegou à conclusão correta.

Algo começou a ferver dentro de mim. Hinako não morava na residência principal, reservada para a família. Ela vivia na villa destinada aos negócios. Será que todo esse tempo eu estive vivendo em uma realidade tão fria e impessoal sem perceber?

Era como dar um passo à frente apenas para descobrir que havia um abismo ainda mais profundo diante de mim.

...O que é essa família? O que, afinal, é a família Konohana?

— Fico feliz.

Kagen-san sorriu discretamente.

— Feliz por você ser o tipo de pessoa capaz de fazer essa expressão.

Eu nem fazia ideia de qual expressão estava estampada no meu rosto naquele momento.

E, sinceramente… Preferia não descobrir. Provavelmente era horrível.

— Não quero que você esqueça que eu também sou uma das pessoas que vivem nesta mansão.

Suas palavras me fizeram voltar à realidade. Era verdade. Eu frequentemente encontrava Kagen-san naquela villa. Sabia que ele também passava um tempo na residência principal, mas estava sempre entrando e saindo dali.

— Eu a chamo de villa para manter separados os assuntos públicos e privados, mas, na prática, a situação se parece mais com uma hierarquia. Apenas aqueles que demonstram resultados têm o direito de permanecer na residência principal. Esse é o modo de funcionamento da família Konohana... Eu tenho liberdade para entrar e sair da residência principal quando quiser, mas, para ser sincero, não posso dizer que seja exatamente bem-vindo lá.

Kagen-san soltou um leve suspiro. Seu tom era tão distante, tão indiferente, como se estivesse falando da vida de outra pessoa...

E, por algum motivo, isso despertou em mim uma discreta sensação de irritação. Será que esse era realmente um problema que ele podia tratar com tanta naturalidade?

— Controle-se.

O olhar severo de Kagen-san fez com que eu me calasse.

— Não lhe contei tudo isso apenas para cumprir minha promessa. Fiz isso porque acredito que você, do jeito que está agora, é capaz de suportar o peso da família Konohana.

Percebendo exatamente o que se passava dentro de mim, Kagen-san continuou:

— Como já disse diversas vezes, a situação não é tão complicada. Como membro do conselho estudantil, você só precisa se concentrar em fazer do Festival Cultural um sucesso.

— Isso é verdade, mas...

— Aprender a lidar com questões pessoais ainda sem resposta enquanto continua cumprindo suas responsabilidades faz parte da vida adulta. Eu acredito que você é capaz disso. Foi justamente por esse motivo que escolhi este momento para lhe explicar tudo com mais detalhes.

A mensagem implícita era clara.

Não me faça arrepender dessa decisão.

Engoli as emoções que haviam subido até a garganta. Kagen-san depositava grandes expectativas em mim. Eu entendia isso.

— O que houve? Hoje o senhor está me elogiando demais.

Kagen-san respondeu com a mesma expressão impassível de sempre.

— Você acha que qualquer pessoa consegue entrar para o conselho estudantil da Academia Kiou?

Por um instante, fez uma breve pausa.

— Neste ponto, seria mais difícil não elogiá-lo. ...Mas, se ainda duvida da minha sinceridade, então direi com todas as letras.

Ele respirou fundo e me encarou diretamente.

— Estou feliz por tê-lo contratado.

………..

Senti um choque atravessar meu corpo inteiro. Acho que, sem perceber, sempre vivi carregando uma lista de pessoas cujo reconhecimento eu desejava conquistar.

Nela estavam Hinako. Tennouji-san. Narika. Takuma-san. Shizune-san.

Mas foi só naquele instante que percebi quem ocupava o primeiro lugar dessa lista.

Kagen-san.

Era isso. Desde o início… Eu sempre quis ser reconhecido por esse homem.

Eu acreditava que, para conseguir apoiar Hinako, primeiro precisava conquistar sua confiança. Foi por isso que me esforcei tanto desde o dia em que comecei a trabalhar aqui. Conseguir seu reconhecimento havia sido o primeiro objetivo que estabeleci para mim mesmo.

— Muito obrigado.

Fechei os olhos com força, tentando impedir que as lágrimas que haviam se acumulado finalmente escorressem.

Ultimamente, tantas pessoas vinham elogiando meus esforços que acho que acabei ficando sentimental demais. Passei o dorso da mão pelos olhos e expirei lentamente, como se estivesse liberando todas aquelas emoções junto com o ar.

Quando terminei de respirar fundo, voltei a olhar para Kagen-san. Minha mente estava completamente clara.

— Agora estou concentrado!!

— Ótimo. Essa expressão combina muito mais com você.

Esse homem… Ele me reconhecia. Só esse fato bastou para que eu recuperasse a calma.

Talvez isso apenas provasse que, no fundo, eu ainda era uma criança. Eu sabia que era um pensamento ingênuo.

Mesmo assim…

Aquilo me deixava feliz. Ser reconhecido por um adulto que eu admirava.

— Se precisar de alguma coisa, não hesite em falar comigo por intermédio da Shizune. Eu também tenho a responsabilidade de receber o chefe da família. Desta vez, estamos no mesmo barco.

Ouvir Kagen-san dizer que estávamos no mesmo barco fez minha tensão voltar com força.

Calma… Como ele mesmo repetiu várias vezes, a exigência sobre mim não havia aumentado. Minha missão continuava sendo a mesma. Como membro do conselho estudantil, eu precisava fazer do Festival Cultural um sucesso.

E...

Vou precisar apoiar Hinako ainda mais do que de costume.

Provavelmente isso apenas aumentaria sua ansiedade, então decidi não contar nada a ela. Mas a verdade era que o sucesso da peça dependia, acima de tudo, de Hinako. Ela provavelmente já percebia isso, ainda que de forma inconsciente.

Talvez fosse justamente por esse motivo que tivesse reagido de maneira tão desesperada. Como seu cuidador, cabia a mim apoiá-la. Antes de ser um membro do conselho estudantil… Eu era o cuidador de Hinako. Mas ainda havia uma coisa que eu queria saber.

— Sei que talvez seja um pouco tarde para perguntar, mas... o que tornou a peça de Hinako, no ano passado, tão extraordinária?

— Vou lhe mostrar.

Kagen-san estalou os dedos.

Shizune-san, que aguardava em silêncio, pegou o controle remoto que trazia consigo e projetou uma imagem na parede do escritório.

…….

Essa situação era estranhamente familiar. Na primeira vez que entrei naquele cômodo, ele também havia me mostrado um vídeo daquela mesma forma. Naquela ocasião, eram gravações do cotidiano de Hinako.

Desta vez...

— Uau...

Na projeção aparecia o auditório da Academia Kiou. Sobre o palco estava uma turma inteira.

No centro de todos… Havia uma garota cuja presença parecia iluminar todo o ambiente.

Hinako.

— A peça dura aproximadamente uma hora. Tenho alguns assuntos para resolver em outra sala, então assista pelo tempo que desejar.

Kagen-san deixou o escritório. Sentei-me no sofá. E comecei a assistir à peça que Hinako havia apresentado no Festival Cultural do ano anterior.

◆

As cortinas se fecharam lentamente. A peça havia chegado ao fim. Quando me dei conta… Eu estava chorando sem parar.

— Uuugh...

— Uuugh...!!

Meu Deus… Todas as lágrimas que eu havia segurado diante de Kagen-san desabaram de uma só vez.

— Aah...!!

Eu simplesmente não conseguia parar de chorar. A apresentação era bonita demais.

Era impossível colocar em palavras tudo o que eu havia sentido. A atuação de Hinako atravessou meu coração.

Somente quando minhas lágrimas finalmente secaram a porta do escritório voltou a se abrir.

Shizune-san entrou silenciosamente.

— Itsuki-san... o que achou da peça da Ojou-sama?

— Foi... incrível.

Eu… Tudo nela foi simplesmente incrível.

— Vejo que sua capacidade de formular frases foi seriamente comprometida.

Talvez, diante de uma obra realmente grandiosa, colocar seus sentimentos em palavras parecesse até uma falta de respeito.

Eu não queria explicar aquela emoção para ninguém. No instante em que a transformasse em palavras, alguém inevitavelmente a interpretaria. E, se outra pessoa a interpretasse de forma diferente, aquilo acabaria se transformando em uma discussão.

Eu odiava essa ideia. Queria guardar aquele sentimento apenas para mim. Como um tesouro que ninguém pudesse tocar.

Eu tinha tanta certeza de que aquela emoção era verdadeira que não sentia necessidade alguma de compará-la com a de qualquer outra pessoa.

— Pode ficar tranquilo. Quase todo mundo fica assim depois de assistir a essa peça.

— Você também, Shizune-san?

— Num nível que não interfere no meu trabalho………………………

Então ela também… Mas isso não me surpreendia. A atuação de Hinako transcendia qualquer personalidade.

Ela atingia diretamente os instintos de quem assistia. Sua interpretação era simplesmente avassaladora. Mesmo através de uma tela, era possível sentir com clareza sua alegria, sua raiva, sua tristeza e sua felicidade.

Quando Hinako sorria, eu sorria junto. Quando ela sofria, meu peito também doía. Era uma atuação que tocava diretamente o coração. Até aquele dia, eu nunca havia pensado seriamente no que diferenciava um bom ator de um ator comum.

Mas agora eu finalmente entendia. Era exatamente isso. Um grande ator fazia suas emoções transbordarem para dentro de quem assistia, até que elas passassem a ser suas também.

Poucos instantes antes, minha alma havia sido completamente engolida pelo palco.

...Será que ela atua tão bem justamente porque está sempre atuando?

Não me parecia um talento que simplesmente tivesse surgido do nada. Hinako passou a vida inteira interpretando o papel da ojou-sama perfeita.

Provavelmente dedicou muito mais tempo à atuação do que muitos atores profissionais.

E mais do que isso… Ninguém jamais percebeu que tudo era uma atuação.

Para Hinako, a Academia Kiou era o próprio palco. Ela estava constantemente representando um papel, sempre consciente dos olhares do público ao seu redor. Era natural que fosse uma excelente atriz. Na verdade… Seria estranho se não fosse.

Uma habilidade extraordinária, lapidada ao longo dos anos por força do hábito. Quem imaginaria que, ao canalizar isso para a arte, ela conseguiria emocionar tantas pessoas...

Provavelmente nem mesmo Kagen-san esperava por esse resultado.

……………

Por algum motivo… Isso me deixou um pouco feliz. Fiquei contente por ter descoberto mais um encanto da garota chamada Konohana Hinako.

— Foi útil?

— Sim. Agora consigo imaginar muito melhor como é o Festival Cultural da Academia Kiou.

Deixei de pensar como um simples espectador e voltei a encarar tudo como membro do conselho estudantil antes de responder a Shizune-san.

— Os cenários eram muito mais grandiosos do que eu esperava.

— Muitos convidados importantes comparecem ao Festival Cultural da Academia Kiou. É necessário investir uma quantia enorme para recebê-los adequadamente.

Era verdade. No dia do Festival Cultural, os pais das famílias mais ricas não vinham apenas visitar a escola. Eles compareciam como convidados, com o objetivo de aproveitar o evento. E, para satisfazer pessoas acostumadas ao mais alto padrão de qualidade, era indispensável oferecer um ambiente igualmente impecável.

...Agora fazia sentido o orçamento ser tão absurdo. Como membro do conselho estudantil, eu tinha uma noção aproximada de quanto dinheiro era destinado ao Festival Cultural. Abeno-san, como tesoureira, certamente conhecia os valores exatos...

Mas, sinceramente, eu nem queria perguntar. Provavelmente seria dinheiro suficiente para fretar um navio de luxo por vários dias...

— Bem, vou retornar ao meu trabalho.

— Entendido. Ah, onde está a Hinako agora?

— Creio que esteja em seu quarto, fazendo as tarefas que Kagen-sama lhe passou. Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Há algo que preciso dizer a ela de qualquer jeito.

Eu precisava compartilhar aquele sentimento.

Saí rapidamente do escritório e corri em direção ao quarto de Hinako. Na pressa, bati à porta e a abri praticamente ao mesmo tempo.

— Hinako!!

— Ngyah...!?

Hinako, que estava largada na cama sem fazer absolutamente nada, deu um salto de susto quando me viu entrar de repente.

...Então ela realmente não estava estudando. Por um instante pensei nisso, mas aquilo era irrelevante naquele momento.

— O-O-O que foi, Itsuki...!?

— Hinako...!! Eu... eu preciso muito te dizer uma coisa...!!

— Nngueeeeh...!?

Subi na cama e segurei Hinako pelos dois ombros.

No calor do momento, acho que acabei até abraçando-a um pouco. Mas isso também não importava.

— M-Minhas mãos...!! E-E-Eu e-estou... e-estou sendo abraçada...!?

— Hinako...!! Eu... eu...!!

— E-Espera! Eu ainda não estou preparada psicologicamente...!! M-Mas eu quero ouvir...! Isso... fala logo...!! Diz agora...!!

A expressão de Hinako mudou várias vezes em poucos segundos. Com o rosto completamente vermelho, ela passou a me encarar com expectativa.

...Então ela quer que eu diga. Tudo bem. Vou dizer.

— Hinako...!!

— S-Sim...!! Sim...!!

— A peça do ano passado... foi simplesmente incrível!!

— Eu também te amo————Hã?

Hinako ficou me encarando, completamente paralisada. Mas, naquele momento, isso era o de menos para mim. Quase sem perceber, comecei a falar sobre a peça.

As palavras simplesmente transbordavam da minha boca, como se uma represa tivesse acabado de se romper. Eu tinha receio de que, ao transformar aqueles sentimentos em palavras, eles perdessem parte da intensidade.

Mesmo assim, havia tantas coisas que eu queria dizer diretamente para Hinako que não consegui me conter. Mais do que transmitir minhas impressões sobre a peça...

Eu queria transmitir o que ela me fez sentir. Foi então que percebi alguém se aproximando por trás de mim.

— Seus olhos estavam completamente vermelhos, então resolvi segui-lo discretamente... O que exatamente você está fazendo?

— Ai!?

Um golpe certeiro de mão atingiu o topo da minha cabeça. Graças às aulas de defesa pessoal… Deu para perceber que ela não pegou leve.

— Ojou-sama, está tudo bem?

Shizune-san aproximou-se de Hinako com uma expressão preocupada. Mas Hinako respondeu com um sorriso meio extasiado.

— E-Eu não ouvi... as palavras que queria ouvir... m-mas... mesmo assim... estou feliz...

Enquanto dizia aquilo, ela acariciava os ombros que eu havia segurado. Os olhos gelados de Shizune-san se voltaram lentamente para mim.

— Itsuki-san, farei questão de responsabilizá-lo integralmente pelo comportamento estranho da Ojou-sama.

Não pode ser… Eu só queria compartilhar aquele sentimento.

◆

No dia seguinte, depois das aulas, eu trabalhava normalmente na sala do conselho estudantil.

Já estava acostumado com aquele ambiente...

Ou melhor, para falar a verdade, nem tive tempo de me acostumar. Assim que a eleição terminou, os preparativos para o Festival Cultural começaram imediatamente, sem me dar sequer um momento para respirar.

O que nos mantinha em movimento era a atmosfera que dominava toda a Academia Kiou. Todos estavam unidos pelo mesmo objetivo: fazer do Festival Cultural um grande sucesso.

Ver tanta dedicação sincera fazia com que nós, do conselho estudantil, quiséssemos trabalhar até o limite para corresponder às expectativas de todos.

— Hoje de manhã eu tive um tempinho livre, então fui dar uma olhada no prédio do primeiro ano...

Abeno-san comentou enquanto continuava digitando no computador.

— Uma turma que tem o herdeiro de uma grande empresa madeireira está pensando em construir uma casa de toras dentro do campus. Parece que eles têm contato com um arquiteto famoso e querem fazer uma exposição com o tema "A escola da próxima geração"...

...Isso é uma Exposição Universal?

Eu simplesmente não acreditei no que ouvi. No entanto, Tennouji-san recebeu a informação com toda a naturalidade.

— A utilização do terreno será permitida desde que não prejudique a paisagem da academia. Precisaremos analisar o projeto.

— Entendido. Vou entrar em contato com eles.

Abeno-san voltou imediatamente ao trabalho. Logo em seguida, Yodogawa tomou a palavra.

— Ontem um veterano... digo, um calouro veio falar comigo também! A turma dele quer usar a tecnologia de engenharia naval da empresa da família para construir um aquário! Se possível, eles gostariam de usar peixes de verdade, mas, caso isso seja complicado, podem substituí-los por peixes robóticos ou hologramas!

...Isso já virou um pavilhão de exposição. Um aquário por si só já parecia algo completamente fora do comum. Mas eles estavam cogitando montar uma atração que parecia ter o orçamento de uma grande corporação.

Ainda assim, Tennouji-san respondeu com absoluta calma.

— O mesmo vale para as turmas que solicitaram montar um jardim botânico e um zoológico. Queremos evitar odores muito fortes. Se conseguirem controlar isso, não há problema em usar animais vivos.

— Entendido!

Agora que parei para pensar… Também havia turmas querendo montar um jardim botânico e até um zoológico… Quando decidimos as atrações de cada turma, o conselho estudantil analisou todas as propostas apresentadas.

Mas eu estava encarregado de outras tarefas, então não acompanhei os detalhes. Essa responsabilidade ficou principalmente com Abeno-san e Yodogawa. Sem que eu percebesse, o ambiente acabou se tornando um em que todos consultavam Tennouji-san naturalmente.

Depois de Yodogawa, foi a vez de Narika.

— Uma turma pretende realizar um debate sobre a indústria espacial e perguntou se pode convidar uma astronauta em atividade como palestrante. Eles têm contato com ela, mas devemos autorizar?

— Entendo... Se eles realmente possuem esse contato, não vejo problema. Porém, gostaria que o conselho estudantil também tivesse uma reunião prévia com a convidada.

— Então eu mesma farei essa reunião. Esse tipo de trabalho faz parte das responsabilidades do setor de assuntos gerais.

Narika respondeu cheia de entusiasmo. Em algumas escolas existia um cargo específico para relações externas. Na Academia Kiou, porém, essa função era desempenhada pelo setor de assuntos gerais.

Desde o começo, Narika queria trabalhar justamente nessa área. Foi por isso que desistiu da candidatura à presidência e escolheu assumir o cargo de gerente de assuntos gerais.

Era natural que estivesse especialmente motivada para lidar com pessoas de fora da academia.

— Se precisarem de alguém para registrar a reunião, eu também posso participar!

— Sério? Isso ajudaria bastante!

A atitude sempre prestativa de Yodogawa frequentemente elevava o moral do conselho estudantil.

Como a conversa de Narika parecia ter terminado, resolvi aproveitar para consultá-la também.

— Narika, tem um instante?

Ela virou o rosto para mim.

— Tem uma turma que vai apresentar artes tradicionais japonesas. Eles querem incluir uma demonstração de artes marciais e estão procurando alguém para supervisionar essa parte. Podemos contratar um especialista, mas... você acha que conseguiria fazer isso, Narika?

— Pode deixar comigo! Tenho bastante confiança quando o assunto são artes tradicionais!

Ela aceitou imediatamente. A Narika de antigamente provavelmente teria hesitado. Ela realmente havia se tornado muito mais confiável.

— Está bem confiante, hein, Narika.

— Hmph... Não fique tirando sarro de mim. Ultimamente tenho recebido muitos elogios justamente por demonstrar confiança.

...É mesmo? Eu não fazia ideia.

— E quem está te elogiando?

— Os nossos fornecedores. Já fui pessoalmente fazer pedidos de materiais várias vezes, e todos são muito gentis comigo. Dizem que sou uma menina muito educada e sempre me dão um monte de lembrancinhas quando vou embora.

Narika respondeu toda orgulhosa, estufando o peito.

…………..

De alguma forma… Isso não parece mais que eles estão tratando você como uma netinha?

Por conhecer profundamente o bushidô e diversas artes tradicionais japonesas, Narika provavelmente fazia muito sucesso entre as pessoas mais velhas.

— E você, Itsuki? — Narika me encarou diretamente. — Como você acha que eu tenho me saído ultimamente? Estou fazendo um bom trabalho?

No fundo dos seus olhos havia um leve traço de insegurança. Durante a eleição, Narika mudou sua candidatura de presidente do conselho estudantil para gerente de assuntos gerais.

Essa decisão envolveu muitas pessoas. Principalmente Nishi-san, que originalmente queria ocupar justamente o cargo de assuntos gerais. Por causa das circunstâncias especiais que carregava consigo, era natural que Narika ainda guardasse certa insegurança no fundo do coração.

— Não se preocupe. Você sempre fez um ótimo trabalho, Narika.

— E-entendo... Hehe... Então é isso... Entendi...

Um sorriso largo se abriu em seu rosto. Ela realmente sempre havia desempenhado bem sua função. Foi justamente por reconhecer isso que Nishi-san abriu mão da vaga de gerente de assuntos gerais.

Uma caloura tão dedicada jamais desistiria do próprio objetivo para entregá-lo a alguém incompetente.

Ela realmente cresceu...

Enquanto pensava nisso ao observar Narika sorrindo de orelha a orelha, percebi Tennouji-san me encarando. Como se estivesse dizendo exatamente o que ela pensava, Abeno-san foi quem abriu a boca.

— Parem de flertar e voltem ao trabalho.

— N-Nós...

Não estamos!!

...Ei.

Isso já aconteceu antes. Narika imediatamente ficou em silêncio, com as bochechas completamente vermelhas.

...É justamente por reagir assim que tudo fica ainda mais constrangedor...!!

— Cof, cof!!

Uma tosse exageradamente teatral ecoou pela sala do conselho estudantil. ...Aquilo foi mesmo uma tosse? Ou a Tennouji-san simplesmente disse "cof, cof" em voz alta?

— B-Bem... Como já chegamos a um bom ponto com o trabalho administrativo, acho que todos nós deveríamos voltar às nossas respectivas turmas para verificar como estão os preparativos!

Tennouji-san continuou:

— Como todas as turmas estão organizando atrações de grande porte, estou preocupada que alguns detalhes importantes acabem passando despercebidos. Será melhor irmos até elas antes que tomem decisões por conta própria.

Apesar de seu comportamento um pouco estranho, sua sugestão fazia todo o sentido. Mesmo depois de definidas as atrações, certamente ainda havia muitas dúvidas entre as turmas.

Seria melhor que nós, do conselho estudantil, tomássemos a iniciativa de acompanhá-las antes que surgissem problemas.

Acho que também vou passar na minha turma.

Sou membro do conselho estudantil… Mas continuo sendo um aluno da Turma A.

Já estou um pouco chateado por não poder participar da peça. Então, sempre que surgir uma oportunidade, quero aparecer por lá.

◆

Os membros do conselho estudantil se dispersaram, e eu voltei para a Turma A. Enquanto caminhava pelos corredores, podia ouvir vozes animadas vindas de praticamente todas as salas.

Na Academia Kiou não existiam clubes escolares, então, normalmente, a escola permanecia silenciosa depois das aulas. Mas, durante os preparativos para o Festival Cultural, todos os cantos do campus estavam repletos de conversas alegres.

Sem perceber, meus passos ficaram mais leves. Até eu comecei a ficar empolgado. Mesmo depois de um dia inteiro trabalhando no conselho estudantil, ainda me sentia cheio de energia.

Provavelmente porque aquele era o primeiro Festival Cultural que eu realmente podia aproveitar. No meu antigo colégio, eu estava sempre ocupado demais com o trabalho de meio período. Mal conseguia participar dos preparativos. Como quase não ajudava, acabava me sentindo deslocado e evitava até aproveitar o evento.

Naquela época, o Festival Cultural parecia pertencer aos outros, não a mim. Era desconfortável participar de algo em que eu não tinha contribuído. Por isso, apesar de sentir pena dos meus colegas, eu só desejava que tudo terminasse logo.

Mas agora… Era completamente diferente. Em vez de ser um simples espectador, eu fazia parte de quem organizava o evento. Foi então que descobri como um festival pode ser divertido quando você realmente sente que faz parte dele.

Mais uma vez, percebi o quanto foi a decisão certa entrar para o conselho estudantil.

— Ah, Tomonari-kun!

Assim que entrei na sala, a primeira pessoa a me notar foi Asahi-san.

— O trabalho do conselho estudantil já terminou?

— Sim. Vim ver como estão indo as coisas. Os preparativos estão correndo bem?

— Estão! Tudo está indo super bem!

Asahi-san respondeu com um sorriso radiante. Os alunos da Turma A estavam reunidos diante da mesa da professora, discutindo alguma coisa.

Alguns perceberam minha chegada e fizeram um leve aceno. Sorri e retribuí com uma pequena inclinação da cabeça.

— Descobrimos que um dos nossos colegas é parente de um roteirista famoso. Graças a isso, parece que vamos conseguir um roteiro excelente!

— Uau...

Então eles tinham esse tipo de contato. Só agora me dei conta disso, mas os alunos da Academia Kiou possuíam uma enorme rede de relacionamentos entre as pessoas mais influentes da sociedade.

Era natural que encontrassem colaboradores para eventos como esse com facilidade. Além disso, o Festival Cultural também era uma oportunidade de demonstrar o valor dessas conexões que haviam construído ao longo da vida.

Por isso, todos eram tão proativos em utilizar seus próprios contatos. Quanto maior o envolvimento de pessoas de fora da escola… Maior era também a carga de trabalho do conselho estudantil.

Agora eu entendia perfeitamente por que os membros do conselho não podiam participar das atrações de suas próprias turmas. Com tanto trabalho, seria simplesmente impossível conciliar as duas coisas.

Durante a eleição, houve várias ocasiões em que ficou claro para mim que a principal responsabilidade do conselho estudantil era justamente o Festival Cultural.

Na maioria das vezes, isso surgia por causa dos questionários respondidos pelos alunos. Mas, pensando agora, eles também compreendiam perfeitamente qual era o papel do conselho nesse evento.

Se nós, do conselho estudantil, não fizéssemos nosso trabalho direito… Todo o enorme potencial dos alunos da Academia Kiou acabaria sendo desperdiçado.

Administrar o Festival Cultural era muito mais difícil do que eu imaginava. Mas também era incrivelmente gratificante.

— A peça do ano passado, aquela em que a Konohana-san atuou... foi Romeu e Julieta, não foi?

— Como esperado de você, Tomonari-kun. Fez direitinho a sua pesquisa.

— Quando algo faz tanto sucesso assim, é impossível não ficar curioso.

Na verdade… Nem precisei pesquisar. Foi o próprio Kagen-san quem me mostrou a gravação da peça.

— Eu não entendo muito de teatro, mas Romeu e Julieta do ano passado era uma adaptação, não era?

— Isso mesmo. Acho que eles adaptaram a história para dar mais destaque à Julieta, que foi interpretada pela Konohana-san... Na verdade, há pouco estávamos conversando por chamada de vídeo com o roteirista sobre o que faríamos este ano, e parece que será algo parecido.

Então era por isso que havia um notebook sobre a mesa do professor.

— E qual peça vocês escolheram este ano?

— Hamlet!

Asahi-san respondeu com confiança.

— Como no ano passado apresentamos Romeu e Julieta, decidimos aproveitar a fama de Shakespeare e escolher outra obra dele. Hamlet é uma história de vingança, fácil de entender, mas que também permite explorar temas bem profundos dependendo da atuação. Achamos que combina bastante com a Academia Kiou. Não foi uma decisão só do roteirista; a turma inteira participou da escolha!

Assenti com interesse. Apesar de conhecer o nome Hamlet, eu não sabia praticamente nada sobre a história. Depois eu precisaria pesquisar tanto o enredo quanto os temas da peça.

Logo após conversar com Kagen-san, eu havia procurado informações sobre algumas das obras teatrais mais famosas do mundo, então pelo menos conhecia o título. Mas, pelo jeito que Asahi-san falou, parecia ser uma obra que praticamente todo aluno da Academia Kiou conhecia.

Mais uma vez senti o peso da diferença entre nossas formações. Mesmo me esforçando bastante nos estudos, ainda havia momentos inesperados em que essa diferença ficava evidente.

— E o roteirista aprovou a Konohana-san como protagonista?

— Aprovou? Ele ficou completamente encantado! Aham... Foi mais ou menos assim:

"Q-Q-Que garota maravilhosa!! A união entre sua beleza digna de uma pintura e a humanidade escondida dentro dela é tão refinada quanto a paisagem às margens do Lago Hallstatt!! Por favor, deixe-me escrever uma peça especialmente para essa garota!!"

Asahi-san interpretou o roteirista com tanta empolgação que até parecia outra pessoa.

...Ela é surpreendentemente boa atuando. Embora eu fosse pesquisar depois onde ficava esse tal Lago Hallstatt...

Esse roteirista não parece ter percebido a verdadeira personalidade da Hinako?

Que sujeito assustador… Depois vou avisar a Shizune-san.

— Então ele vai escrever um roteiro especialmente para a Konohana-san.

— Isso! É o que chamam de ategaki. Acho que a peça deste ano será baseada em Hamlet, mas construída em torno da Konohana-san.

Então esse era o plano.

Hamlet...

Mas adaptado especialmente para Hinako. Pelo que entendi, esse tal ategaki consistia em escrever um roteiro pensado especificamente para destacar ao máximo os pontos fortes do ator.

Em outras palavras… Era o método perfeito para esse espetáculo.

— A propósito, você também leva jeito para atuar, Asahi-san.

— Ehehe... Quem sabe eu também não tenho talento?

Ela respondeu rindo, como se tivesse entendido aquilo apenas como uma brincadeira.

— Não, estou falando sério. Acho que você realmente tem talento. Mesmo se fosse a protagonista, não pareceria nada estranho.

— Ei, ei! Tem outras pessoas que você deveria estar elogiando, Tomonari-kun!?

Outras pessoas...? Quem será? Pelo menos, na minha frente naquele momento, só estava a Asahi-san.

— A-Além disso... Se alguém como eu fosse a protagonista, acabaria estragando todo o clima...

— Você acha? Para mim, parece que combinaria perfeitamente...

Mesmo imaginando Asahi-san sozinha sob os refletores do palco… Aquilo me parecia totalmente natural.

Enquanto eu pensava sinceramente nisso, o rosto dela ficou completamente vermelho. Em seguida, ela começou a bater de leve no meu peito.

— Poxa, Tomonari-kun!! Poxa!!

— O-O que foi, Asahi-san!?

Ela claramente estava pegando leve, então não doía nem um pouco. Mas...

— E... qual papel a Konohana-san vai interpretar?

Assim que perguntei, Asahi-san voltou ao normal.

— Ofélia, é claro!!

Com o pouco que eu sabia sobre Hamlet, aquele nome não me dizia muita coisa. Mesmo assim, devia ser uma personagem importante.

— Como queremos que a Konohana-san seja a estrela da peça, vamos transformar a Ofélia na protagonista desta adaptação de Hamlet! Só que isso significa mudar completamente a cena em que ela morre afogada, que é um dos acontecimentos mais importantes da obra original...

— Entendo. Se seguirem a história original, a Ofélia sai de cena ainda no meio da peça.

— Exatamente! Seria um desperdício enorme fazer a Konohana-san desaparecer no meio do espetáculo, não acha? Por isso todo mundo está quebrando a cabeça para pensar numa adaptação em que ela não precise morrer afogada.

Depois acrescentou, rindo:

— Claro, no fim das contas, ainda precisamos discutir tudo isso com o roteirista.

Agora eu finalmente compreendia o que todos estavam debatendo. O objetivo era encontrar a melhor forma possível de destacar a atriz chamada Konohana Hinako.

Curioso para saber até onde aquela discussão havia avançado, fiquei ouvindo atentamente o debate animado dos meus colegas.

— Se a Ofélia continuar viva...

— Não acabaria diminuindo o tom trágico que é justamente o coração da história?

— Mas, no fim das contas, esta não é mais a obra de Shakespeare. É o mundo da Konohana-san, não é?

— É verdade...

Incrível… Hinako realmente estava sendo tratada como uma grande estrela. A atmosfera ao seu redor era completamente diferente da de antes. Mas, apesar do sorriso impecável que mantinha no rosto...

Tenho certeza de que, por dentro, ela estava suspirando sem parar. Para Hinako, seus colegas provavelmente pareciam carrascos reunidos para decidir qual seria a forma mais cruel de torturá-la.

— Se a Ofélia continuar viva... não seria anticlimático ela simplesmente reencontrar o Hamlet logo em seguida?

— Para impedir que os dois se reencontrem, a Ofélia não precisa necessariamente morrer afogada. Ela pode se ferir gravemente, se isolar por causa do sofrimento ou...

Ignorando completamente a própria Hinako, a discussão continuou.

— E se o choque que ela sofreu fosse tão grande que mudasse completamente a personalidade dela...?

Alguém lançou essa ideia. Um dos rapazes que participavam da conversa olhou para Hinako.

— H-Hum... Konohana-san.

— Sim?

— Eu sei que é um pedido meio complicado... mas tenho uma sugestão...

Ele falou de maneira hesitante.

— Você conseguiria interpretar uma personalidade completamente preguiçosa? O total oposto da Konohana-san de sempre.

...Uma personalidade preguiçosa?

......

Isso não é simplesmente a Hinako de verdade? Até a própria Hinako pareceu surpresa com aquele pedido inesperado.

— Vou tentar…..

Sob os olhares atentos da turma, Hinako fechou os olhos lentamente. Quando voltou a abri-los… O olhar que apareceu era exatamente aquele que eu conhecia tão bem.

Sem vida. Desanimado.

— Tô com taaanto soooono...

Um murmúrio de surpresa percorreu toda a sala. Ninguém jamais imaginaria que a perfeita ojou-sama, Konohana Hinako, pudesse demonstrar um lado como aquele.

...Mas logo todos se lembraram. Aquilo era atuação.

— Não quero ir pra aula...

— Quero voltar pra casaaa...

— Q-Que atuação incrível!!

— Parece até que ela é assim o tempo todo!!

Porque ela realmente é. Na verdade, acho que tudo o que ela acabou de dizer eram seus sentimentos mais sinceros. Talvez justamente por ser tão natural, por um instante a turma inteira esqueceu que Hinako estava apenas interpretando.

Quando percebi isso, um suor frio percorreu minhas costas. Isso faz muito mal para o meu coração… Como cuidador da Hinako, meu papel era justamente esconder quem ela realmente era.

Sempre imaginei que aquela seria uma situação que só aconteceria se eu cometesse o pior erro possível.

Mas… Meus colegas estavam completamente fascinados com a atuação dela.

— Perfeito! Vamos seguir por esse caminho!

— Depois do choque, a personalidade da Ofélia muda completamente e ela vira uma preguiçosa!

— Justamente porque a Konohana-san costuma ser tão perfeita é que essa mudança vai causar um impacto enorme!

Eu realmente não esperava que as coisas tomassem esse rumo… Interpretar uma garota preguiçosa e caseira era absurdamente fácil para Hinako.

Afinal… Era simplesmente a personalidade verdadeira dela. Ela nem precisava atuar.

Ainda assim… Achei melhor confirmar.

Assim que os papéis fossem oficialmente definidos, os ensaios começariam.

Se houvesse algo para mudar, aquele era o momento.

Hinako jamais poderia interromper toda aquela empolgação coletiva revelando o que realmente pensava. Parecia que ela seria completamente levada pela vontade da turma.

Aproximei-me discretamente e sussurrei em seu ouvido. Felizmente, todos estavam tão empolgados discutindo sua atuação que ninguém pareceu notar nossa conversa.

— Hinako... você realmente está bem com esse papel?

— Hm...

Talvez seja até melhor do que interpretar alguém que eu não conheço… Sua expressão cansada pareceu relaxar um pouco.

...Talvez isso realmente seja melhor para ela.

Desta vez, tudo o que precisava fazer era agir como normalmente age. Hinako sempre reclama que atuar é extremamente cansativo. Mas, desta vez, o papel exigia justamente que mostrasse seu verdadeiro eu.

Nesse caso… Talvez não fosse tão desgastante assim.

— Mas... eu queria que o Itsuki fosse o Hamlet...

Hinako falou enquanto mexia inquieta nos dedos. Inclinei a cabeça, confuso.

— Eu tenho trabalho no conselho estudantil e não posso participar da peça. Mas... por que justamente eu?

— Itsuki... você sabe... qual é a relação entre a Ofélia e o Hamlet...?

— Não. Desculpa.

Para minha vergonha, apesar de conhecer os nomes Hamlet e Ofélia, eu não sabia praticamente nada sobre a história.

Enquanto tentava perguntar o motivo, Hinako começou a explicar, com as bochechas levemente avermelhadas.

— A Ofélia e o Hamlet são... hã... namorados...

— É mesmo?

.........

Então é isso...

— Bem... sabe...

— Sim...

— Então... se fosse possível... eu gostaria que fosse o Itsuki...

Hinako desviou o olhar. Suas bochechas estavam vermelhas como uma maçã. Provavelmente meu rosto estava exatamente da mesma cor.

Ela mesma tinha acabado de dizer. Hamlet e Ofélia eram um casal. E era justamente por isso que queria que eu interpretasse Hamlet.

O significado por trás dessas palavras era...

— Hinako... então isso quer dizer que...

……....!!

Antes que eu pudesse terminar a frase, ela falou às pressas.

— É-É porque acho que seria muito difícil interpretar esse tipo de relação com alguém que eu nem conheço direito...!!

Coberta de suor, Hinako começou a falar rápido, quase atropelando as próprias palavras.

Ao ouvir sua explicação… Recuperei imediatamente a calma.

— Tem razão. Deve ser bem difícil interpretar um casal quando você mal conhece a outra pessoa.

Mesmo sem entender muito de atuação, eu conseguia imaginar isso.

...Ufa. Que susto. Por um segundo… Achei que ela estivesse me fazendo uma declaração indireta.

— O que vocês dois estão conversando aí?

— Taishou...

Ao ouvir sua voz, virei-me. No mesmo instante, Hinako endireitou a postura e voltou a ser a impecável Konohana Hinako de sempre. Ao ver a expressão curiosa de Taishou, uma ideia surgiu na minha cabeça.

— Que tal você interpretar o Hamlet, Taishou?

— Hã!? Eu!?

Ele arregalou os olhos.

— Por que eu!?

— Achei que você combinaria com o papel.

— Hehe... Se você coloca dessa forma, acho que não posso recusar.

Pelo menos finja pensar um pouco antes de aceitar… Ele parecia bastante animado. Eu teria me sentido culpado se estivesse apenas empurrando a responsabilidade para ele.

Mas, vendo aquele entusiasmo… Não havia motivo para me preocupar.

Eu conhecia bem o Taishou. Embora fosse fácil interpretá-lo mal à primeira vista… Na verdade, ele era uma pessoa extremamente observadora. Durante a eleição, ele foi o primeiro a perceber que Asahi-san estava enfrentando algum problema.

Conhecendo o Taishou, eu tinha certeza de que ele jamais faria algo que deixasse a Hinako desconfortável. Mas havia outro motivo para eu tê-lo indicado para o papel.

Abaixei a voz para que ninguém mais pudesse ouvir.

— Sinceramente... acho que existem poucos alunos que conseguiriam atuar ao lado da Konohana-san sem ficarem nervosos.

— Ah... bom, é verdade. Acho que alguém como eu, que vive tomando chá com ela, acaba sendo a melhor opção.

Que bom. Ele entendeu exatamente o que eu queria dizer. Ao assistir à gravação da peça do ano passado, houve apenas uma coisa que me incomodou. O rapaz que interpretava Romeu parecia extremamente rígido.

Mesmo pela gravação, dava para perceber o quanto ele estava nervoso por atuar ao lado da Hinako. Queria evitar que isso acontecesse novamente este ano.

— Beleza! Vou lá me voluntariar. Deixa comigo.

Dizendo isso, Taishou caminhou até o grupo de colegas.

— Ei! Se não tiverem problema com isso, posso fazer o papel do Hamlet!

Uma pessoa capaz de agir assim realmente merece respeito.

Quantas pessoas conseguem tomar uma atitude imediatamente depois de perceber qual é a melhor escolha?

Era uma qualidade que eu também queria aprender. Assim, os detalhes da personagem Ofélia, interpretada por Hinako, foram definidos.

E tudo indicava que Taishou realmente assumiria o papel de Hamlet. Ao que parecia, a Turma A seguiria preparando a peça sem maiores problemas.

Certo. Agora era hora de verificar as outras turmas. Como senti que minha própria turma não precisava de mim naquele momento, saí da sala.

Enquanto caminhava pelo corredor, dei uma olhada pela janela da sala da Turma B.

— Hum?... Itsuki!

Eu só estava espiando discretamente pelo vidro, mas Narika me encontrou imediatamente.

Somando isso ao sorriso radiante com que veio até mim… Ela realmente lembrava um cachorrinho abanando o rabo. Embora eu já tivesse ouvido dizer que, antigamente, ela era conhecida por todos como um lobo assustador...

— O que foi, Itsuki?

— Minha turma parece estar indo bem, então resolvi passar nas outras. A de vocês vai apresentar um coral, não é?

— Isso mesmo. Eu estava ensinando o pessoal a projetar melhor a voz.

Projetar a voz? Enquanto eu inclinava a cabeça, Narika explicou, corando levemente.

— É que... aparentemente minha voz chamou bastante atenção durante a eleição. Então me pediram para ensinar como fazer projeção vocal... Eu tenho bastante confiança nisso. Afinal, uma boa vocalização é a base das artes marciais.

Talvez isso tivesse relação com técnicas de respiração e controle do diafragma. Pensando bem… Os discursos da Narika realmente eram fáceis de ouvir. Mesmo quando ainda não estava acostumada a falar em público, sua voz já alcançava todo o auditório.

Enquanto conversávamos, uma aluna da Turma B chamou Narika por trás.

— Onee... quer dizer, Miyakojima-san. Você tem um minuto?

— Claro. O que foi?

...Ela ia chamá-la de quê?

Observei Narika se virar para falar com a garota. Como Narika não pareceu se importar, achei melhor não perguntar. Era melhor deixar esse assunto quieto.

— Como a sua voz muda quando você usa respiração diafragmática?

— Vou mostrar na prática.

Narika imediatamente se animou, como se dissesse: "Boa pergunta."

Mas, depois de alguns segundos em silêncio… Ela voltou o olhar para mim, um pouco envergonhada.

— Você... não pode fazer a demonstração comigo?

— Ué...?

— Quando você está olhando, Itsuki... eu fico nervosa.

— Mas, se você não consegue projetar a voz na frente das pessoas, como pretende ensinar os outros?

— N-Não é isso...

Então como exatamente ela estava ensinando? Enquanto eu pensava nisso, Narika respondeu com um sorriso sem jeito.

— É que... levantar a voz... na sua frente, Itsuki... é meio... vergonhoso...

— Entendi.

Depois de perceber que Narika realmente reservava esse tipo de sentimento apenas para mim… Não consegui dizer mais nada. Era compreensível que ela reagisse assim.

— Bem... então eu vou indo...

— Ah, espera!

Quando eu já estava prestes a sair da sala, Narika me chamou às pressas.

— Lembra daquela turma que você comentou? A que vai fazer uma apresentação de artes tradicionais japonesas?

— Sim.

— Acabei de conversar com eles. No fim, não vou apenas supervisionar... também vou participar da apresentação. Não deve tomar muito tempo, e já consegui autorização da Tennouji-san.

Assenti. Narika continuou:

— Então... se for possível... eu me sentiria muito mais segura se você estivesse comigo, Itsuki.

— Claro. Sei que você está ocupada, Narika. Eu também ajudo.

— Isso seria uma enorme ajuda...!!

Embora… Eu ainda não tivesse a menor ideia do que exatamente poderia fazer. Enquanto pensava nisso, Narika sorriu gentilmente.

— Você lembra do que a Nishi-san disse?

— Que, quando estou ao seu lado, Itsuki... eu fico ainda mais decidida e confiante do que normalmente sou.

— Sim.

Ela realmente disse isso.

— Acho que ela estava certa. Por isso... quero que você fique ao meu lado sempre que puder.

Narika voltou a corar. Receber uma demonstração de confiança tão direta também me deixou um pouco sem jeito. Mas, acima de tudo… Fiquei feliz.

Se fosse a Narika de antigamente, provavelmente teria interpretado as palavras da Nishi-san como um incentivo para deixar de depender de mim e aprender a fazer tudo sozinha.

Mas a Narika de agora era diferente.

Depois de tanto esforço, ela finalmente aprendera a distinguir aquilo que conseguia resolver sozinha daquilo em que era melhor pedir ajuda. Narika sempre foi uma pessoa que não tinha vergonha de contar com os outros.

No passado, porém, às vezes eu sentia um certo tom de autodepreciação, como se ela quisesse que eu compensasse suas próprias limitações. Agora era diferente. Ela recorria às pessoas porque acreditava que isso produziria um resultado ainda melhor.

Talvez fosse justamente por isso que todos gostassem tanto de ajudá-la. Eu conseguia sentir, sinceramente, que ela queria que eu estivesse ao seu lado.

— Tudo bem. No dia do Festival Cultural, estarei com você.

— Itsuki...

Os olhos de Narika ficaram levemente marejados.

…………

Mas ela não era a única olhando para mim.

— Hum... eu estou interrompendo alguma coisa?

— Não!! Claro que não!!

Toda atrapalhada, Narika voltou imediatamente a explicar para a aluna como funcionava a respiração diafragmática. Observando as duas de lado, continuei meu caminho para verificar as outras salas.

A Turma C é a da Tennouji-san... Eles vão apresentar dança de salão, não é?

Seria complicado ensaiar esse tipo de dança dentro de uma sala de aula. Imaginei que talvez nem houvesse ninguém ali. Mas, conforme me aproximei… Comecei a ouvir vozes animadas vindas da sala.

— Uau...

Espiando pela porta, um suspiro de admiração escapou involuntariamente dos meus lábios.

No centro da sala de aula, com as cadeiras e mesas empurradas para os cantos, um garoto e uma garota dançavam uma valsa. Eu não conhecia o aluno, mas a garota era a Tennouji-san. Seus chamativos cachos loiros balançavam suavemente a cada passo.

A música terminou, e os dois pararam de dançar. Quando pareciam prestes a fazer uma pausa, Tennouji-san me avistou do corredor.

— Ah, Tomonari-san.

Ela se aproximou, abanando a pele reluzente com um leque.

— Como está a sua turma, Tomonari-san?

— Está tudo bem. Estou apenas passando para verificar como estão as coisas.

— Sua dedicação é realmente admirável... embora eu nunca tenha duvidado desse seu lado.

Tennouji-san sorriu com sua elegância habitual.

— Vocês estão praticando dança de salão na sala de aula? Achei que estariam ensaiando no auditório ou em algum lugar parecido.

— Pretendemos fazer isso mais tarde. Também precisamos nos acostumar a utilizar o salão. Mas, por enquanto, estamos focando em aulas individuais para aprimorar as habilidades de cada um.

Ao ouvir "aulas individuais", lembrei da época em que Tennouji-san me ensinava a estudar. Mesmo naquela época, suas explicações eram fáceis de entender.

...Pensando bem, foi ali que nossa amizade começou, não foi?

— Ah... com licença!

Uma aluna da Classe C nos chamou.

— Se não for incômodo... vocês poderiam fazer uma demonstração para nós?

— Hã?

Por que eu? ...Foi o que pensei, mas, ao olhar em volta, percebi que todos os alunos da Classe C concordavam com entusiasmo. Ao que parecia, todos queriam nos ver dançar.

Mas... por quê?

— Muito bem. Já que surgiu a oportunidade, Tomonari-san e eu faremos uma demonstração para todos.

Uma demonstração!?

— Hum... isso parece colocar muita pressão sobre mim...

— É mesmo?

Os olhos inocentes de Tennouji-san refletiam minha imagem.

— Você consegue executar uma rotina completa, não consegue?

Bem... consigo. Graças a você...

— Então, por favor, venha comigo.

Ela segurou meu braço e me conduziu para dentro da sala da Classe C.

Cercado pelos alunos, senti todos os olhares cheios de expectativa voltados para mim. Comecei a ficar nervoso, mas, estranhamente, no instante em que fiquei de frente para Tennouji-san, meu corpo relaxou.

Quando coloquei a mão sobre seu ombro, toda a tensão desapareceu ainda mais.

Eu entendia perfeitamente o motivo de meu coração estar se acalmando. Cada parte do meu corpo sabia disso.

Tendo Tennouji-san como parceira… Tudo daria certo. A música começou, e iniciamos a valsa.

Os movimentos gravados em meu corpo responderam naturalmente à confiança que sentia. Antes mesmo de perceber, eu já executava uma dança elegante, sem precisar pensar. Enquanto dançávamos, nossos olhares se encontraram.

— Receio tê-lo arrastado para isso.

— Parece que sim...

Sorri de maneira constrangida.

— Mas você não está incomodado, está?

— Claro que não.

Não havia a menor possibilidade de eu me incomodar.

— Dançar com você é uma honra, Tennouji-san.

Quando expressei meus verdadeiros sentimentos olhando diretamente em seus olhos, Tennouji-san sorriu com delicadeza.

— Você continua tão habilidoso com as palavras quanto sempre foi.

Ao chegarmos ao canto da sala, executamos um giro reverso com uma rotação mínima para mudar de direção. O tempo foi perfeito.

Estávamos completamente sincronizados, sem sequer precisarmos trocar olhares. Olhei para os alunos ao nosso redor. Todos nos observavam com os olhos brilhando de admiração.

...Será que isso ainda é efeito da eleição?

O festival cultural da Academia Kiou possui três atrações principais: uma peça teatral, um coral e uma apresentação de dança de salão. Por uma curiosa coincidência, as turmas do segundo ano A, B e C acabaram ficando responsáveis justamente por essas três apresentações.

No entanto, como fui eu quem contabilizou os votos de cada turma, não consigo deixar de pensar que, no caso das Classes A e C, houve certa consideração silenciosa por parte das demais.

No caso da Classe A, era óbvio que todos queriam assistir à peça da Hinako. Já no caso da Classe C, todos queriam ver Tennouji-san dançar.

Durante a campanha eleitoral, Tennouji-san e eu apresentamos uma dança de salão diante dos alunos como parte da nossa estratégia. Tenho a impressão de que a influência daquela apresentação ainda permanece.

Na verdade, alguns dos formulários de preferência enviados pelas turmas até traziam observações escritas à mão, como: "Quero ver Tennouji-san dançar."

— Talvez o ponto de partida tenha sido nossa apresentação durante a eleição.

Tennouji-san falou enquanto mantinha os olhos fixos nos meus.

— Mas o fato de terem pedido outra apresentação é, sem dúvida, prova da nossa habilidade.

Ela tinha razão. Se fôssemos desajeitados, ninguém pediria para nos ver dançar novamente.

— Eu sei.

— Oh?

Tennouji-san demonstrou surpresa.

— Não pretendo continuar sendo apenas humilde para sempre.

Sim... apenas ser humilde não basta. Percebi isso durante a eleição, quando caí em uma das armadilhas do grupo de Joutou. Foi uma lição que aprendi tarde demais.

Como posso evitar repetir o mesmo erro?

...Na verdade, já tenho algo em mente. Só que ainda não coloquei esse plano em prática. Era algo que exigia um pouco de coragem.

A dança se aproximava do fim.

Executamos a sequência padrão.

O Turning Lock, o Left Whisk, o Contra Check...

E encerramos a apresentação na pose final, com Tennouji-san arqueando elegantemente as costas.

Quando nos curvamos em agradecimento, fomos recebidos pelos aplausos dos alunos.

Em meio às palmas, meus olhos encontraram os de Tennouji-san.

— Parece que suas habilidades continuam tão afiadas quanto antes.

— Você está sendo gentil demais.

Na dança de salão, os corpos do homem e da mulher permanecem próximos, seus olhares se cruzam a uma distância em que até a respiração se mistura, e, juntos, os dois criam uma única obra de arte.

Talvez por isso, logo após terminar uma dança, nossa noção de espaço pessoal fique um pouco confusa. Mesmo olhando diretamente para Tennouji-san naquele momento, eu não sentia o menor constrangimento.

Era porque, poucos instantes antes, eu tinha a sensação de que estávamos conectados em um nível muito mais profundo.

— Tomonari-san, se você quiser... que tal dançarmos juntos também durante o festival cultural?

Tennouji-san fez a sugestão com um sorriso.

— Meu plano original era ajudar em apenas uma música. Isso não atrapalhará minhas atividades no conselho estudantil... e, sendo assim, gostaria de convidá-lo para ser meu parceiro, Tomonari-san.

Não havia motivo para recusar. Se minha parceira fosse Tennouji-san, seria uma honra, não importava quantas vezes ela me convidasse.

— Se eu estiver à altura, aceitarei com muito prazer.

— Fufu... você continua humilde como sempre.

Tennouji-san deu uma risadinha.

— Não existe mais ninguém que eu gostaria de convidar.

...Droga, ela me pegou de surpresa. Comecei a me abanar com a mão, tentando aliviar o calor do corpo ainda coberto de suor.

Por alguma razão, senti minhas bochechas esquentarem.

(N/SLAG: Eu sei que uma dança é menos trabalhoso que uma peça, mas mesmo assim, recusar o convite da Hinako foi meio cruel……. (Ele nem recusou né, só jogou o papel para outro, o que é pior ainda) independente das circunstâncias. Ele aceitou ajudar as outras duas sem complicação alguma.)

◆

Quando terminei de verificar a Classe D, meu corpo já havia esfriado na medida certa.

Já estávamos em meados de novembro. O vento que atravessava os corredores era gelado, e bastava suar um pouco para começar a sentir frio.

Ao espiar a sala da Classe E, encontrei um grande grupo de alunos reunidos. Assim que vi o único rapaz no centro da roda, involuntariamente prendi a respiração.

Joutou Ren.

...O homem que foi nosso último obstáculo na eleição do conselho estudantil.

Seu cabelo continuava penteado para trás. Durante a primeira metade da eleição, ele o deixava caído sobre os olhos, mas, por algum motivo, eu tinha a impressão de que ele jamais voltaria àquele visual.

Provavelmente, este era seu verdadeiro estilo. Pensando melhor agora… Esse penteado realmente combina mais com ele. Para ser sincero, nossa vitória na eleição aconteceu por um fio.

Se qualquer uma de nossas estratégias tivesse falhado, certamente teríamos perdido.

Agora que tudo passou, acredito que boa parte do sucesso dos nossos planos só foi possível graças à confiança que Tennouji-san e Narika construíram ao longo do tempo.

Por outro lado, se Joutou também tivesse acumulado esse mesmo nível de confiança com as pessoas ao seu redor… Teríamos enfrentado uma situação extremamente perigosa.

A eleição já havia acabado. Mesmo assim, no instante em que vi Joutou, senti meu corpo ficar tenso. Era esse o tamanho da impressão que ele havia deixado em mim como adversário.

...Não é bom continuar carregando esse receio.

Eu precisava superar isso enquanto ainda podia. Pensando assim, decidi me aproximar dele por conta própria.

— Joutou.

Assim que o chamei, ele se virou imediatamente e caminhou até mim.

— Tomonari-kun. Aconteceu alguma coisa?

— Estou fazendo uma ronda como parte das atividades do conselho estudantil... Parece que está tudo correndo bem por aqui.

— Está, sim. Temos dois alunos na turma cujas famílias trabalham com turismo, então eles estão liderando um projeto para divulgar pontos turísticos relacionados à Academia Kiou.

Olhei discretamente ao redor da sala. Havia diversos cartazes em produção.

Eles reuniam informações sobre a região onde eram cultivadas as folhas de chá usadas no chá oficial da Academia Kiou e também sobre a fábrica responsável pela confecção dos uniformes escolares.

Era surpreendentemente interessante. Até os produtos de primeira linha utilizados pela academia tinham origens curiosas. Pelo visto, parte do uniforme era fabricada no exterior. Ao que tudo indicava, isso havia sido uma exigência do estilista responsável.

Como era de se esperar de uma apresentação sobre turismo, os cartazes estavam repletos de belas fotografias.

Mesmo assim...

— Pelo que vi, parecia que você estava liderando tudo isso, Joutou.

— Você estava observando?

Pelo pouco que consegui ver antes, Joutou era claramente o centro daquela turma. Naquele exato momento, vários alunos que pareciam querer suas instruções também olhavam em nossa direção.

— Mesmo tendo perdido a eleição, ainda existem muitas pessoas que confiam em mim... e sou grato por isso. Só me faz desejar ainda mais que eu tivesse vencido.

Senti o calor intenso de uma brasa que parecia prestes a se apagar, mas que ainda ardia com força.

Engoli em seco. Eu precisava permanecer firme diante de Joutou. Era o mínimo de respeito que um vencedor devia demonstrar.

— Vou me esforçar para que você nunca tenha motivos para mandar que eu "renuncie".

— Você sempre cria situações para colocar a si mesmo contra a parede... Isso é bem a sua cara, Tomonari-kun.

...Ugh!

Justo quando pensei que a conversa havia terminado bem, suas palavras afiadas como uma lâmina me atingiram em cheio, fazendo meu rosto se contorcer.

Agora que ele falou… Talvez eu realmente tenha esse hábito.

— Perdoe a intromissão, mas enfatizar deliberadamente o peso da própria responsabilidade não é apenas um sinal de que você não confia totalmente na própria capacidade de cumpri-la?

— Ugh...

— Talvez isso contribua para o seu crescimento pessoal. Mas agora que você é o vice-presidente, essa falta de confiança pode acabar influenciando negativamente as pessoas ao seu redor.

— Grrrrrghhh~~~~...

P-Por favor...

Pare...

Isso dói...

Ele consegue enxergar exatamente quem eu sou. Mesmo tendo sido por pouco tempo, fomos rivais que reconheceram a força um do outro. Assim como eu observava Joutou, ele também me observava.

É estranho dizer isso, mas Joutou provavelmente me conhece muito melhor do que vários colegas de classe com quem quase nunca converso. No entanto, depois de dizer tudo aquilo, sua expressão mudou para um semblante de arrependimento.

— Desculpe. Acho que passei um pouco dos limites.

Joutou sorriu de maneira constrangida.

— Pelo visto, eu ainda sou imaturo... Achei que já tivesse aceitado a derrota, mas parece que ainda guardo certo ressentimento.

Achei que as palavras de Joutou faziam todo o sentido. Mesmo assim, do ponto de vista dele, aquilo provavelmente havia sido um comentário desnecessário.

Nós dois ainda éramos imaturos. Foi justamente por isso que cada um de nós possuía fraquezas que podiam ser exploradas e acabamos travando uma disputa tão equilibrada.

Se qualquer um dos dois fosse perfeito… Como Hinako quando veste sua impecável máscara de jovem dama...

A disputa teria sido decidida em um instante. E, talvez… Esse tivesse sido um desfecho bastante solitário.

— Só mais uma coisa.

Joutou falou enquanto me encarava diretamente.

— Você pretende continuar falando desse jeito tão formal?

………….

Logo no final… Ele tocou justamente no assunto que eu mais evitava enfrentar.

Não… Eu nunca conseguiria tomar essa decisão sozinho.

Pensando bem… Talvez fosse um alívio que alguém finalmente tivesse levantado essa questão.

O primeiro passo para deixar de ser apenas humilde. Para mim, isso significava mudar a maneira como eu falava.

Não achava que fosse apenas uma questão de escolha de palavras. Principalmente na Academia Kiou, onde a etiqueta é tão valorizada, a forma de falar também transmite dignidade. E a ideia de perder isso não era algo que eu pudesse ignorar.

Em outras palavras, atitudes que antes eram facilmente perdoadas graças ao meu jeito educado talvez deixassem de ser vistas da mesma forma. A incerteza sobre conseguir lidar com essa mudança no ambiente ao meu redor era justamente o que me impedia de dar o primeiro passo.

— Você era muito mais legal quando dizia o que realmente pensava, Tomonari-kun.

Depois de dizer isso, Joutou voltou para o centro da sala.

Talvez por ele ter sido um adversário que eu reconhecia até pouco tempo atrás, ouvir aquelas palavras de aprovação me encheu de confiança.

...Vamos nessa.

Quanto antes eu fizer isso, melhor. Se pensar "vou deixar para depois do festival cultural", vou acabar adiando para sempre.

Aproveite enquanto o ferro está quente.

Quem hesita, perde.

Não existe momento melhor do que agora.

Munido dessas palavras de incentivo, segui em direção à sala do conselho estudantil.

◆

Quando voltei à sala do conselho estudantil, Abeno-san e Yodogawa já haviam retornado. Ao que parecia, nenhuma das duas turmas havia apresentado problemas.

Os dois estavam concentrados em seus respectivos trabalhos, em completo silêncio. Também voltei às minhas tarefas. Pouco depois, Tennouji-san e Narika retornaram juntas.

Após fazerem um breve relatório sobre as inspeções, todos voltaram a se dedicar ao trabalho. Naquele silêncio agradável, fortalecei minha determinação.

...Já recebi a autorização da Shizune-san.

Também já havia conversado com Hinako. Não existia mais nenhum motivo válido para continuar adiando aquilo. Enquanto reunia coragem, Abeno-san me entregou algumas folhas.

— Tomonari-san, fiz alguns ajustes no orçamento para recepcionar a comitiva do ministro e parece que conseguimos trocar os assentos VIP por estas cadeiras...

...Era a oportunidade perfeita. Depois de conferir os documentos sobre o orçamento e as cadeiras, olhei para Abeno-san e respondi:

— Sim, acho que está bom assim.

Respondi usando meu jeito natural de falar, fingindo tranquilidade. No mesmo instante, todos na sala do conselho estudantil voltaram seus olhares para mim ao mesmo tempo.

— Hã?

Os olhos de Tennouji-san se arregalaram.

— Ah...

Narika entrou em pânico.

...Provavelmente achou que eu tinha falado daquele jeito por engano.

— Sério….?

Yodogawa ficou completamente sem reação. Sua expressão dizia claramente: "Eu ouvi isso direito?"

Por fim, Abeno-san me encarou com uma expressão rígida.

— Hum... eu fiz alguma coisa que tenha sido desrespeitosa?

— Não! Claro que não! Não é isso! Ah... quer dizer... não foi isso que eu quis dizer!

Pois é… Simplesmente mudar minha forma de falar de uma hora para outra só causaria confusão, não aceitação. Por um instante, quase disse "deixa pra lá" e encerrava o assunto.

Mas engoli essas palavras e resolvi explicar tudo.

— Na verdade... faz um tempo que venho pensando em algumas coisas e decidi mudar minha maneira de falar...

Todos inclinaram a cabeça, como se perguntassem: "Pensando em quê?"

Percebi que uma explicação vaga não seria suficiente.

Vou trabalhar ao lado dos membros do conselho estudantil por muito tempo. Era melhor explicar tudo direito desde o começo.

— Alguns de vocês já sabem disso, mas este é o meu jeito verdadeiro de falar. Quando entrei na Academia Kiou, mudei muitas coisas para conseguir acompanhar todo mundo. Só que, ultimamente, acabei desenvolvendo o hábito de ser educado até demais. E isso quase colocou tudo a perder durante a eleição.

Por respeitar todo mundo sem fazer distinção, não consegui perceber a malícia do Minato-senpai.

Mesmo quando via alguém obtendo resultados melhores do que os meus, em vez de sentir vontade de superá-lo, eu simplesmente aceitava aquilo naturalmente.

— Então... decidi tentar agir com um pouco mais de confiança.

Expliquei a todos que queria me livrar daquele excesso de deferência.

— Não acho que isso seja uma má ideia.

Talvez por querer assumir parte da responsabilidade por ter interpretado mal minhas intenções anteriormente, Abeno-san foi a primeira a responder.

— Sua sinceridade não vai desaparecer por causa disso. Na verdade... acho que esse jeito mais natural combina muito mais com você, Tomonari-san.

A palavra "combina" provavelmente carregava um pouco de consideração. Sei que muitas pessoas me enxergam como alguém sincero. Por enquanto, vou aceitar essa imagem.

Mas, recentemente, percebi que, quando acrescento educação excessiva à minha sinceridade, deixo de ser humilde e passo a ser submisso.

Tudo tem seu equilíbrio.

Quando me transferi para a Academia Kiou, essa postura humilde foi o que me salvou.

Mas agora… Continuar tratando todos com tanta formalidade provavelmente já passou do ponto. Como Abeno-san disse, mudar minha forma de falar não significa abandonar meu desejo de ser sincero.

Só que, neste momento, não preciso das duas coisas ao mesmo tempo. Entre manter a sinceridade ou continuar exagerando na formalidade...

Prefiro preservar minha sinceridade e ajustar apenas minha maneira de falar. O que preciso adquirir agora é a consciência de ocupar uma posição acima dos outros.

O rosto de Joutou passou pela minha mente. Eu não queria decepcioná-lo.

— Além disso, você já fala desse jeito com a Miyakojima-san há algum tempo, não é? Acho que todo mundo já imaginava que esse era o seu jeito verdadeiro de falar.

— Eu só fiquei surpresa porque foi tão de repente… — Abeno-san acrescentou.

Pensando bem... é verdade. Com a Narika, eu sempre falei de forma natural.

Será que eu estava sendo cauteloso demais?

— Eu sou totalmente a favor de você ser você mesmo, -ssu! Desse jeito você até parece mais imponente, -ssu!

Yodogawa concordou imediatamente.

— Claro, eu também não tenho nenhuma objeção.

— Eu penso o mesmo.

Narika e Tennouji-san também aprovaram a mudança. Enquanto eu suspirava aliviado, Tennouji-san olhou diretamente para mim.

— Tomonari-san... meus parabéns.

Ela me parabenizou de repente. Logo em seguida, Narika também sorriu.

— É... parabéns, Itsuki.

Na mesma hora, entendi o verdadeiro significado daquelas felicitações. As duas sabiam. Sabiam que minha verdadeira identidade não era a de um herdeiro de família tradicional, mas a de um simples plebeu.

E sabiam também que eu havia mudado tudo em mim — desde a forma de falar até o comportamento — para esconder essa verdade.

Aquilo era, de certa forma, uma formatura. A despedida do antigo eu. Do garoto que só sabia ser humilde diante de qualquer pessoa. Tennouji-san e Narika estavam reconhecendo todo o esforço que fiz até chegar ali.

— De alguma forma... parece que vocês estão falando de algo do qual nós dois não fazemos parte.

— É mesmo, -ssu! Dá até uma sensação de exclusão, -ssu!

Abeno-san e Yodogawa trocaram um olhar antes de comentarem. Não era minha intenção deixá-los de fora...

Mas a verdade era que Tennouji-san, Narika e eu convivíamos com frequência, principalmente durante os chás da tarde, então acabávamos compartilhando muitas coisas.

— Tennouji-san e Narika me conheceram logo depois que me transferi para a Academia Kiou. Naquela época... eu me esforçava desesperadamente para me adaptar a todos, inclusive na maneira de falar...

Era por isso que elas estavam me parabenizando. Depois que expliquei resumidamente, Abeno-san e Yodogawa demonstraram surpresa.

— Então você se esforçou tanto assim... Eu só conheço o Tomonari-san de agora, então nunca imaginei que você tivesse passado por tudo isso.

— Eu também, -ssu! Pelo contrário, a imagem que eu tinha era de alguém que sempre se destacava nos Management Games e em tudo mais. Achei que você fosse um gênio desde o começo, -ssu!

Ser chamado de gênio… Nunca imaginei que esse dia chegaria. Foi realmente difícil chegar até aqui.

Até sinto saudade da época em que Tennouji-san corrigia até a minha postura.

Embora… Ela ainda faça isso de vez em quando.

— Então você venceu tudo isso com esforço, Tomonari-san! Eu respeito pra caramba isso, -ssu!

— Valeu.

Yodogawa me olhava com os olhos brilhando de admiração. Depois de um instante, resolvi perguntar algo que vinha me intrigando fazia tempo.

— Já faz um tempo que penso nisso, mas o seu jeito de falar é bem peculiar, não é, Yodogawa?

Por um momento, imaginei que ele também tivesse passado por dificuldades parecidas com as minhas.

Mas...

— Ah, é que eu tenho uma personalidade superdescontraída, então meus pais vivem me obrigando a falar de forma educada, -ssu! Só que, quando eu falo certinho, parece que não consigo mostrar quem eu realmente sou e fica difícil me aproximar das pessoas. Então dei uma adaptada até encontrar um meio-termo que não fosse tão chato, -ssu! Mas é segredo dos meus pais, então conto com vocês pra não falarem nada, -ssu!

Era um motivo incrivelmente mundano. Dei um sorriso sem graça. Dessa vez, foi Abeno-san quem lhe fez uma pergunta.

— Yodogawa-san, eu só percebi quando você preparou os convites... mas sua caligrafia é muito bonita. Você também estudou caligrafia, como a Miyakojima-san?

-ssu!

Yodogawa assentiu vigorosamente.

— Eu sempre fui muito agitado, então meus pais também me colocaram na aula de caligrafia, -ssu! No fim das contas, só virei um cara barulhento com uma letra bonita, -ssu! Hahaha!

Enquanto ele ria alto, o resto de nós apenas esboçou um sorriso constrangido. Esse cara é otimista demais...

Mesmo assim, eu conseguia entender o dilema dele.

Quando se usa uma linguagem formal o tempo todo, fica difícil demonstrar quem realmente se é e criar proximidade com as pessoas. Talvez isso não seja um problema para alguns.

Mas, olhando para mim mesmo, percebo que meu jeito verdadeiro sempre acabava aparecendo quando eu conversava honestamente com alguém. Tenho certeza de que foi assim quando falei sobre assuntos importantes com Hinako, Tennouji-san e Narika.

— Fufu...

Tennouji-san sorriu discretamente.

— Pensando bem, começamos imediatamente os preparativos para o festival cultural assim que terminaram as eleições do conselho estudantil... Talvez ainda não tenhamos tido tempo suficiente para nos conhecer de verdade.

Era difícil dizer que já conhecíamos uns aos outros por completo. Ao que parecia, Tennouji-san estava feliz por ter percebido isso.

— Se eu puder fazer uma pergunta sem rodeios...

Abeno-san voltou o olhar para mim.

— No fim das contas... você é um mulherengo, Tomonari-san?

…………

Por que ela iria perguntar uma coisa dessas?

— Abeno-san, onde você ouviu esse boato?

— Os alunos do primeiro ano estavam comentando sobre isso. Várias pessoas conhecidas também já me perguntaram se era verdade, e eu sempre respondi que era apenas um boato sem fundamento... Mas eu me sentiria muito mal se estivesse espalhando uma informação falsa, então achei melhor confirmar diretamente com você.

Ou seja...

Depois de ouvir aquilo tantas vezes, Abeno-san começou a suspeitar que talvez o rumor fosse verdadeiro.

Era compreensível. Mesmo assim… Eu preferia que ela continuasse negando até o fim.

Soltei um pequeno suspiro antes de responder.

— É só um boato sem fundamento. Faz parte da campanha de difamação que espalharam contra mim durante a eleição.

— Pensando bem, havia mesmo muitos boatos circulando naquela época, não é?

Abeno-san pareceu convencida por um instante, mas logo fez outra pergunta.

— Então você não tem nenhum tipo de relacionamento especial com a presidente ou com a Miyakojima-senpai, Tomonari-san?

……..

Nenhum relacionamento especial...

Não era como se eu pudesse dizer que realmente não existia nada… Percebendo meu silêncio, Abeno-san passou a olhar para Tennouji-san e Narika.

— O mesmo vale para vocês duas, presidente e Miyakojima-senpai, certo? Posso entender que nenhuma de vocês tem sentimentos especiais pelo Tomonari-senpai?

……..

……… ..

Assim como eu, Tennouji-san e Narika permaneceram em silêncio. As duas estavam coradas.

...Principalmente Narika. Mas eu entendia perfeitamente o motivo. No caso dela, era impossível dizer que não existia absolutamente nada entre nós.

Afinal… Narika já havia se declarado para mim.

Ao ver nossas reações, Abeno-san ficou pensativa por alguns instantes.

— Então o boato é verdadeiro?

— Não é!! Não tem nada disso! Enfim... não é mesmo!!

Eu não sou um mulherengo!! Não sou mesmo!!

◆

Depois de terminar o trabalho do conselho estudantil, voltei para a mansão e entrei no meu quarto.

— Cheguei.

— Nngh... bem-vindo de volta...

Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Hinako estava deitada na minha cama. Ela ergueu apenas a parte de cima do corpo e permaneceu sentada enquanto me observava largar a mochila e soltar um longo suspiro.

— Itsuki... você está cansado...?

— É... um pouco. Hoje tentei falar com o pessoal do conselho usando meu jeito natural de falar...

Eu já havia contado para Hinako que pretendia voltar a falar do meu jeito verdadeiro. Só não tinha dito que faria isso justamente hoje.

Ela arregalou os olhos, surpresa. Mesmo tendo tomado essa decisão logo após a eleição, continuei adiando o momento de colocá-la em prática. Provavelmente ela imaginava que eu deixaria isso para depois do festival cultural, quando tudo estivesse mais calmo.

Na verdade… Uma parte de mim realmente pretendia fazer isso.

— E... como foi a reação de todo mundo?

— Aceitaram muito mais facilmente do que eu esperava... Mas, sinceramente, estou exausto.

Tudo aconteceu de forma tão tranquila que até agora parecia um pouco irreal. Hinako sorriu com gentileza.

— Você se esforçou bastante até chegar aqui.

— Obrigado.

Assim como Tennouji-san e Narika, Hinako também me parabenizou. Existiam pessoas neste mundo que acompanharam de perto todo o meu esforço durante esse tempo. Só isso já era motivo suficiente para eu me sentir grato.

— Você também parece cansada, Hinako.

— Nmm... os ensaios são bem mais pesados do que eu imaginava...

Hinako parecia ainda mais cansada do que eu. Normalmente, seu rosto sempre transmitia um claro "quero ficar de bobeira".

Hoje, porém, estava estampado nele um sincero "quero descansar".

Parecia parecido… Mas era completamente diferente.

— Quer que eu ajude? Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

— Nesse caso... pode fazer o papel de Hamlet por um tempinho?

— Claro.

Hinako pegou o roteiro que estava ao lado da cama e o entregou para mim. O simples fato de o roteiro estar ali significava que ela continuara ensaiando mesmo depois de voltar para a mansão.

Para alguém como Hinako… Ela estava sendo surpreendentemente dedicada.

— É esta parte que eu devo ler, certo?

— Uhum... Itsuki, você conhece Hamlet?

— Sim. Dei uma estudada, por precaução.

Pesquisei sobre a peça no caminho de volta da escola.

Hamlet estreou no início do século XVII e é considerada uma das quatro grandes tragédias de William Shakespeare. As outras três são Otelo, Macbeth e Rei Lear. Curiosamente, a famosa Romeu e Julieta não faz parte desse grupo, justamente porque possui muitos elementos cômicos.

Já Hamlet mantém um tom sério do começo ao fim, tendo como tema principal a disputa pela sucessão ao trono e as tragédias que dela surgem. Hamlet, príncipe da Dinamarca, sofre profundamente com a morte de seu pai, o rei.

No entanto, um dia descobre que o pai, na verdade, foi assassinado. O culpado era seu próprio tio, agora ocupando o trono. Depois de matar o irmão, ele tomou para si tanto a coroa quanto a rainha.

Ao descobrir a verdade, Hamlet jura vingança. Mas essa vingança acaba arrastando inúmeras pessoas para a desgraça. Entre todas elas, a mais representativa é Ofélia. Ela era a mulher que Hamlet amava.

Contudo, incapaz de compreender a aparente loucura em que Hamlet mergulha para cumprir sua vingança, Ofélia acaba sucumbindo ao sofrimento. Mais tarde, Hamlet mata o pai dela por engano.

Consumida pelo desespero, Ofélia perde a sanidade e acaba morrendo ao cair em um rio.

Era uma tragédia sem qualquer esperança.

Hinako interpretaria justamente essa personagem. Quanto mais eu pesquisava sobre a peça, mais entendia a importância daquele papel.

De certa forma… Era Ofélia quem transformava Hamlet em uma verdadeira tragédia.

Li o trecho do roteiro que Hinako havia me entregado e imaginei mentalmente a cena que ensaiaríamos.

— Essa é uma das cenas mais famosas da peça.

— Uhum... por isso preciso me dedicar um pouco mais a ela.

Para Hinako, que normalmente aproveitava qualquer oportunidade para relaxar, dizer uma coisa dessas significava que aquela cena era realmente importante.

Provavelmente, seria ela que definiria a qualidade da apresentação. Era a cena em que Hamlet, após jurar vingança, rompe sua relação com Ofélia.

Para ocultar seus verdadeiros objetivos, Hamlet finge estar enlouquecendo. Sem compreender o que está acontecendo, Ofélia apenas sofre ao vê-lo se afastar.

Sinceramente… eu não tinha confiança para interpretar Hamlet de improviso.

...Naquele momento, Taishou provavelmente devia estar arrancando os cabelos. Representar Hamlet parecia ser muito mais difícil do que eu imaginava.

— Certo... vou começar.

Pelo menos tentaria atuar bem o suficiente para servir como parceiro de ensaio. Fiquei de frente para Hinako segurando o roteiro.

Foi então que percebi algo óbvio. Se eu estava com o roteiro nas mãos, Hinako não conseguiria ler suas falas.

— Você decorou todas as suas falas?

— Nngh... decorei tudo.

— Não apenas as desta cena?

— Decorei todas as falas da Ofélia... embora ainda seja a primeira versão do roteiro, então talvez elas mudem depois.

Como sempre… As habilidades naturais de Hinako eram simplesmente extraordinárias.

Nesse caso, eu ficaria com o roteiro.

A partir daquele momento...

Eu era Hamlet.

Meu pai havia morrido. Em meio ao luto, descubro que ele foi assassinado.

O desejo de vingança passa a consumir cada parte do meu ser. Sinto pena de Ofélia, minha amada.

Mas meu amor por ela jamais poderia superar o dever de honrar meu falecido pai. Minha mente vacilava à beira da loucura.

— Adeus, Ofélia. Entra para um convento. Não haverá mais casamentos. Somos todos uns completos canalhas.

Depois de me despedir de Ofélia, afastei-me dela. Para reproduzir ao menos a atmosfera indicada no roteiro, caminhei até a parede, aumentando a distância entre nós.

Ao ser abandonada por Hamlet, Hinako interpretou Ofélia com um semblante tomado pela tristeza.

— Ó céus misericordiosos... salvem-no! Devolvam-lhe a razão!

Sua atuação era magnífica. Uma interpretação tão bela que prendia naturalmente o olhar de qualquer pessoa.

— Aquele nobre espírito foi lançado ao caos. O homem que possuía a eloquência de um cortesão, a espada de um guerreiro e a sabedoria de um erudito caiu... Foi consumido pela loucura!

A atuação era tão realista que apertou meu coração. Era um desperdício que apenas eu estivesse assistindo àquilo.

A interpretação que acabara de presenciar merecia um palco muito maior. Merecia uma plateia muito mais numerosa. Era tão impressionante que, por um instante, tive a estranha sensação de que era minha missão fazer aquilo acontecer.

Hinako soltou um leve suspiro e voltou ao seu estado habitual de moleza. Só então consegui recuperar a compostura.

Eu havia ouvido apenas alguns versos. Poucas falas. Mesmo assim, meu corpo inteiro estava coberto de suor. Parecia que, se eu abrisse a boca naquele instante, todo o entusiasmo que fervia dentro de mim escaparia como chamas.

— Você é realmente incrível….

Contendo esse turbilhão de emoções, consegui transmitir o que sentia.

— Você atua tão bem porque faz isso o tempo todo?

— Acho que sim... Já estou acostumada a viver consciente dos olhares das pessoas...

Então era isso… Mas fazia sentido.

— Só que... a Ofélia ainda não está perfeita...

Eu entendi exatamente o que Hinako queria dizer com a palavra "perfeita". Comparada ao nível de atuação que normalmente alcançava, ela ainda considerava sua Ofélia insuficiente.

— Se eu quiser satisfazer o vovô... preciso refinar ainda mais minha atuação...

Ao ouvir aquele comentário murmurado, fiquei um pouco surpreso.

— Então você sabe que o chefe da família vai assistir à apresentação?

— Uhum... Foi o papai quem me contou... Eu preferia nem ter ficado sabendo.

— Ah...

Hinako soltou um longo suspiro, completamente exausta. Seu rosto deixava claro o quanto aquela notícia havia pesado sobre ela.

— O vovô tem um olhar muito criterioso... Acho que isso ainda não será suficiente para satisfazê-lo.

— Isso é exigência demais...

Então nem aquela atuação era boa o bastante… Para mim, sinceramente, já parecia uma versão praticamente perfeita.

— Mas encontrei um ponto que ainda pode melhorar, então acho que esta cena vai ficar boa agora... Obrigada por me ajudar. Mesmo você também estando ocupado, Itsuki.

— Eu nem estou tão ocupado assim.

Hoje, a única coisa realmente diferente que fiz foi voltar a falar do meu jeito natural com os membros do conselho estudantil.

Mas...

— Só de pensar em amanhã já fico nervoso. Ainda preciso explicar para toda a turma por que mudei minha maneira de falar.

— Estou torcendo por você... Boa sorte...

...Que incentivo mais sem vontade. Mesmo assim… Era reconfortante.

— Você finalmente conseguiu se livrar daquele jeito de falar que não era realmente seu...

— É.

Talvez não fosse correto chamar simplesmente uma linguagem formal de "um jeito falso de falar".

Mas, na realidade, eu não era uma pessoa naturalmente formal a ponto de tratar meus próprios colegas daquela maneira.

Mesmo que não fosse exatamente uma mentira…

Era verdade que eu convivia com todos usando uma postura que não era realmente minha.

Ao pensar no dia seguinte, senti uma mistura de expectativa, nervosismo… E uma leve sensação de tristeza.

…….

Por que eu estava triste?

Assim que me fiz essa pergunta, encontrei a resposta.

— Até hoje, minha forma educada de agir me salvou muitas vezes. Nesse sentido... mesmo que não fosse meu jeito verdadeiro de falar, acho que ela também foi algo precioso para mim...

Falei isso com sinceridade. O hábito de sempre ser humilde… Hoje havia se tornado uma corrente que me prendia.

Mas, durante muito tempo, ele caminhou ao meu lado e me sustentou. Era natural sentir que estava me despedindo de uma parte importante de mim.

Ao ouvir minhas palavras, Hinako...

— Hã?

Por algum motivo, arregalou os olhos, completamente surpresa. Por que ela estava tão espantada?

— O que foi, Hinako?

— N-Não... não foi nada.

Ela balançou a cabeça e desviou o olhar. Parecia haver alguma coisa acontecendo.

Mesmo assim, não disse mais nada. Pouco depois, voltou para seu quarto.

E permaneceu praticamente em silêncio pelo resto da noite.

◆

Assim que entrou no quarto, Hinako afundou imediatamente na cama. Enfiou-se debaixo das cobertas, deixando-se envolver pela escuridão acolhedora e pelo calor.

Seu corpo e sua mente, completamente cansados, agradeceram. Para Hinako, poder simplesmente se deitar daquele jeito era uma forma de felicidade.

Mas… Ela não conseguia dormir. As palavras de Itsuki continuavam ecoando em sua mente.

"Nesse sentido... mesmo que não fosse meu jeito verdadeiro de falar, acho que ela também foi algo precioso para mim..."

Foi isso que Itsuki disse. Que a maneira como havia falado durante todo esse tempo tinha sido importante para ele.

Hinako não conseguia compreender aquilo.

...Mesmo sendo uma atuação?

Pensando bem… Assim como ela interpretava o papel da perfeita jovem dama na Academia Kiou… Itsuki também vinha interpretando, todo esse tempo, alguém muito mais humilde do que realmente era.

Ela nunca havia parado para pensar nisso. Mas os dois estavam fazendo praticamente a mesma coisa. Foi justamente por isso que ela o havia parabenizado.

"Você se esforçou bastante até chegar aqui."

"Finalmente está livre."

Era isso que ela pensava. Uma atuação imposta por posições, expectativas e títulos. Uma atuação que apenas os restringia. Hinako acreditava que ninguém entenderia melhor do que ela a alegria de finalmente se libertar disso.

E, no entanto… A reação de Itsuki foi completamente diferente do que ela esperava. Ele não enxergava aquela atuação como algo ruim.

"Até hoje, minha forma educada de agir me salvou muitas vezes."

………

Será que...

Comigo também é assim?

Abraçando o travesseiro macio, Hinako apoiou o rosto sobre ele. Para ela, atuar sempre havia sido apenas um fardo.

Mas talvez… Graças àquela atuação, ela tivesse conquistado um lugar para si.

A perfeita ojou-sama. Outra versão de si mesma.

Sempre achei que odiava atuar...

Ela recordou o passado. O momento em que tudo começou. Quando ainda era criança e era chamada de prodígio. Naquela época, todos eram gentis com ela. Mesmo recebendo elogios de todos os lados, nunca deixou que aquilo lhe subisse à cabeça.

Ela preferia muito mais os momentos tranquilos do que ouvir pessoas dizendo o quanto era genial.

Mas… Depois que descobriram sua verdadeira personalidade, muita coisa aconteceu.

Seu noivo da época se decepcionou com quem ela realmente era. O noivado foi desfeito. Quase ao mesmo tempo… Sua mãe faleceu.

A morte da mãe foi dolorosa. Mas havia alguém que sofreu ainda mais do que ela.

Konohana Kagen. Seu pai. Com os olhos inchados de tanto chorar, mas carregando uma determinação inabalável, ele lhe deu uma única ordem.

Atue.

…………

...Eu sei.

Ela suspirou debaixo das cobertas. O calor da própria respiração voltando contra seu rosto era desagradável.

O que todos querem... é a garota que está atuando...

Ela sempre soube disso. Ainda que apenas vagamente. O mundo desejava aquela Hinako.

A perfeita ojou-sama.

Ela não era pessimista a ponto de acreditar que ninguém desejava conhecer sua verdadeira personalidade. Mas também sabia que essas pessoas eram poucas.

Assim como Itsuki… Ela também conquistava seu lugar no mundo graças à atuação que representava todos os dias. Mesmo que aquilo não fosse o que realmente desejava.

...Tudo bem. Desde que o Itsuki conheça quem eu realmente sou... isso basta.

Itsuki era uma das poucas pessoas que a aceitavam como ela realmente era. Naquela vez em que ele quase deixou de ser seu cuidador… Ele lhe disse: "Se não houver mais ninguém… então pelo menos deixe que seja eu. Alguém que impeça você de se forçar demais."

………..

Ela jamais esqueceria o quanto aquelas palavras a sustentaram. Foi graças a elas que encontrou coragem para ser ela mesma quando estava ao lado dele.

Mas então…

Um pensamento surgiu de repente. Itsuki sempre foi extremamente gentil. Talvez ele quisesse que ela fosse ela mesma apenas porque compreendia o sofrimento de alguém obrigado a viver representando um papel.

Ele nunca havia dito. Nunca afirmou, nem uma única vez… Que gostava mais da verdadeira Hinako.

........De qual Hinako o Itsuki gosta...?

Hinako colocou a cabeça para fora das cobertas e apertou o travesseiro contra o peito.

A Hinako de agora...

Ou a ojou-sama que todos conheciam.

Afinal...

De qual delas Itsuki realmente gostava?

Fim da leitura

Capítulo 73 concluído

Volume 11 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Grande Atriz, Konohana Hinako