O Cuidador da Ojou-samaVolume 11 – Capítulo 2 – Capítulo 2: A Máscara Perfeita
Capítulo 74NA MANHÃ SEGUINTE, cheguei à academia e abri a porta da sala de aula com uma leve sensação de nervosismo.
— Bom dia, Tomonari-kun!
Assim que caminhei em direção ao meu lugar, Asahi-san me notou imediatamente e veio até mim.
Tudo bem. Eu já tinha simulado esse momento incontáveis vezes… Depois de respirar fundo discretamente para me acalmar, olhei para Asahi-san, fingindo agir como de costume.
— Bom dia, Asahi-san.
— Hm?
Ao ouvir meu tom incomum, Asahi-san inclinou a cabeça, confusa.
— Tomonari-kun, você também tem trabalho do conselho estudantil hoje?
— Tenho. Provavelmente vou continuar ocupado até o fim do festival cultural.
— Entendi. Então pode deixar a peça com a gente! Vamos dar o nosso melhor!
— Obrigado. Estou contando com vocês.
Respondi ao entusiasmo de Asahi-san com o sorriso mais natural e agradável que consegui fazer. No entanto, ela apenas ficou encarando meu rosto por alguns segundos, com a boca entreaberta.
— Ah...
Com lágrimas começando a se formar no canto dos olhos, Asahi-san deixou escapar uma voz que parecia prestes a desabar em choro.
— Asahi-san!?
— Tomonari-kun... você... virou um delinquente...?
— Não! Calma! Eu vou explicar, então só me escuta!
Não acho que minha resposta fosse algo que um delinquente diria... mas, pelo visto, a mudança no meu jeito de falar tinha sido tão chocante que detalhes como esse já não importavam.
Toda a confusão acabou atraindo os outros colegas da turma, então expliquei a situação para todos, exatamente como havia feito na sala do conselho estudantil no dia anterior.
Eu realmente não queria transformar aquilo em um grande acontecimento... mas acho que era inevitável que isso acontecesse cedo ou tarde.
Queria evitar causar alvoroço, mas também não tinha coragem de fazer um anúncio ridículo como: "Pessoal, prestem atenção! A partir de hoje eu decidi mudar a forma como falo!"
Eu tenho um mínimo de vergonha na cara, sabe? Queria fazer essa mudança da forma mais discreta possível, mas não consegui pensar em nenhuma boa ideia. No fim das contas, entrei na sala simplesmente pensando: o que acontecer, aconteceu.
— Heh... Não vejo problema nenhum nisso!
Depois que terminei de explicar, Taishou falou com seu jeito animado de sempre.
— Tô feliz, cara. Parece que finalmente derrubou essa barreira entre a gente.
— Valeu, Taishou.
— Ah, então você finalmente vai parar de usar tratamento formal com a gente. Hehe... sei lá, isso dá uma sensação boa, né?
— Foi mal. Na verdade, faz tempo que eu te chamo assim na minha cabeça.
— Sério?
Não era só desde ontem. Já fazia muito tempo. Até o grande Taishou ficou completamente sem reação por um instante.
Basicamente, eu costumo chamar os garotos apenas pelo nome, sem honoríficos, enquanto as garotas eu trato com "san". Era um hábito que trouxe da minha antiga escola.
Mas... o comentário casual que Taishou fez ficou martelando na minha cabeça.
"Parece que finalmente derrubou essa barreira entre a gente..."
Se ele pensava assim, então significava que, até agora, realmente sentia que havia uma certa distância entre nós.
Bem... não tinha como evitar.
Por mais que alguém tente manter uma fachada, acho que a verdadeira natureza de uma pessoa não pode ficar escondida para sempre.
A menos que seja um verdadeiro gênio da atuação...
Como a Hinako.
...De alguma forma, de novo fui aceito por todo mundo com uma facilidade surpreendente.
Olhei discretamente para os outros colegas além de Taishou. Todos pareciam ter recebido minha mudança de forma bastante positiva. Eu já imaginava que ninguém faria maldade por causa de uma decisão tão pessoal, mas tudo aconteceu de maneira tão tranquila que chegou a ser anticlimático.
— O que foi, Tomonari?
— Não... é só que... todo mundo me aceitou tão facilmente que isso acaba sendo até um pouco preocupante...
Todos estavam reagindo com tanta naturalidade que quem estava começando a ficar confuso era eu.
— Meu maior medo era que pensassem algo como: "Ele ficou metido só porque virou vice-presidente..."
— Ah, ninguém ia pensar isso.
Taishou olhou para o restante da turma como se dissesse:
— Não é, pessoal?
Os colegas assentiram em concordância.
— A gente te observa há meio ano, Tomonari. Aposto que você ficou quebrando a cabeça, pensando nisso como sempre, antes de tomar essa decisão, né?
— É, foi isso mesmo.
— A gente te conhece, cara.
Taishou deu um tapinha no meu ombro. Os outros colegas também concordaram com um gesto que parecia dizer: Nem precisa explicar mais.
O que é isso...?
É reconfortante, mas ao mesmo tempo meio complicado. Será que eu realmente passo a impressão de alguém que está sempre preocupado e remoendo as coisas?
...Bem, não posso negar. Também não está completamente errado.
— Eu realmente acho que agora ficou muito mais fácil se aproximar de você. Você também acha isso, né, Asahi?
— Ueh!?
Chamada de repente por Taishou, Asahi-san deu um pequeno pulo de susto.
— Ah... hã... s-sim... acho que também...
Era óbvio que ela estava escondendo o que realmente pensava.
— Asahi-san... por acaso você preferia como eu era antes?
— E-Eh!? N-Não! Claro que não!
— Mas faz um tempo que você nem consegue olhar nos meus olhos.
— I-Isso é porque...
Depois de desviar o olhar para todos os lados, Asahi-san finalmente pareceu desistir de esconder seus sentimentos e me encarou de frente.
— M-Meu coração não para de bater!
Sua voz ecoou pela sala inteira.
— Você está agindo muito mais... masculino que o normal, Tomonari-kun! Meu coração fica disparado e eu nem consigo conversar direito!
— Desculpa...
Sem saber como reagir, acabei pedindo desculpas por impulso. Com uma das mãos sobre o peito, Asahi-san me lançou um olhar acusador, como se dissesse que o rosto corado dela e toda a atenção que estava recebendo fossem culpa minha.
Ao ver aquela cena, Taishou ficou com uma expressão séria.
— Tomonari... não me diga que você está tentando conquistar as garotas usando o poder do gap moe...!?
(N/SLAG: gap moe=o lado oculto costuma ser mais doce, vulnerável ou gentil do que a primeira impressão demonstra.)
— Não estou.
Ué? Você não tinha acabado de dizer que me entendia? Então o que foi que você observou durante esses seis meses!?
Soltei um pequeno suspiro e, por acaso, olhei para a frente da sala. Hinako estava me observando do seu lugar.
Havia algo de estranho nela. Resolvi me aproximar.
— Oi... Konohana-san?
Nossa, essa foi por pouco. Quase a chamei de Hinako. Mesmo tendo voltado a falar do meu jeito normal, o fato de nosso relacionamento precisar permanecer em segredo não mudou.
— O que foi, Tomonari-kun?
— Não. Se não for nada, tudo bem.
Era uma sensação muito sutil. Algo que provavelmente só eu perceberia, justamente por passar tanto tempo ao lado dela. Se eu tivesse que adivinhar, talvez tivesse relação com os ensaios.
Desde que ajudei Hinako a praticar ontem à noite, ela parecia um pouco diferente.
— Estou torcendo para que os ensaios deem certo.
— Muito obrigada.
Hinako abaixou a cabeça com um movimento elegante e natural. Seus longos cabelos cor de âmbar balançaram suavemente.
A elegância que transparecia em cada gesto realmente fazia jus ao título de ojou-sama perfeita.
Ainda assim… Aos meus olhos, alguma coisa continuava parecendo fora do lugar.
◆
Depois das aulas.
Enquanto caminhava pelo corredor em direção à sala do conselho estudantil, avistei as costas de uma garota.
— Narika.
— Hm?... Itsuki!
Mesmo indo para o mesmo lugar, Narika voltou correndo até mim.
...Parecia um cachorrinho fiel. Talvez eu devesse preparar alguma recompensa para ela.
— Você também está indo para a sala do conselho, Itsuki?
— Estou. Pelo visto, posso deixar nossa turma nas mãos do pessoal sem me preocupar.
— Comigo é a mesma coisa. Para ser sincera, já nem sei mais quem está ajudando quem.
Narika sorriu, satisfeita. Eu entendia exatamente o que ela queria dizer. Agora que fui eleito para o conselho estudantil, estou dando o meu melhor para apoiar os alunos.
Mas, pensando bem… Tenho a impressão de que são eles que acabam me apoiando. Meus colegas têm sido extremamente compreensivos com todas as minhas responsabilidades no conselho.
Vivem dizendo que a peça está indo muito bem, provavelmente para que eu não fique preocupado.
Se existe uma coisa que ainda me incomoda… É o estado de Hinako. Se realmente aconteceu alguma coisa… Será que tem relação com a peça? Ou será que é outra coisa completamente diferente?
— Itsuki, aconteceu alguma coisa?
Enquanto eu estava perdido em pensamentos, Narika inclinou o rosto para me observar.
— A Konohana-san está parecendo um pouco estranha. Pelo momento, imagino que tenha a ver com os preparativos do festival cultural, mas...
Ao dizer isso, percebi que havia outra possibilidade. Um acontecimento recente.
— Ou talvez tenha relação com o fato de eu ter começado a falar do meu jeito normal.
Será que, sem perceber, acabei deixando Hinako desconfortável? Se for isso… Vou me sentir péssimo.
Ao ouvir minha hipótese, Narika refletiu seriamente por alguns instantes.
— Itsuki, você costuma falar com a Konohana-san usando seu jeito normal quando estão fora da academia?
— Hã?
A pergunta inesperadamente certeira me deixou sem palavras. Até pouco tempo atrás, isso era algo que precisava manter em segredo.
Mas agora que passei a falar normalmente com todo mundo… Acho que não tem problema contar.
Além disso, Narika já sabe que estou morando na mansão Konohana. E, acima de tudo… Eu confio nela.
— Prefiro que isso fique entre nós, mas... sim.
— Eu sabia. Bem, se vocês moram na mesma casa, isso é perfeitamente natural.
Embora chamar aquilo de "casa" não seja exatamente o termo mais adequado...
……….
Melhor continuar escondendo da Narika o fato de que nós dois quase sempre ficamos no mesmo quarto.
Pensando com calma...
O motivo de eu falar naturalmente com a Narika desde antes era porque, quando éramos pequenos, eu costumava passar a noite na casa dela. Talvez por isso ela tenha aceitado essa situação com tanta facilidade.
Era algo parecido com a própria experiência dela.
— Isso é só um palpite meu, mas... talvez a Konohana-san esteja incomodada porque agora você fala de maneira casual com todo mundo.
Narika falou de forma um pouco constrangida. Mas eu simplesmente não consegui aceitar essa ideia e inclinei a cabeça.
— Mas por que isso incomodaria ela?
— A-Ah... bem... é que...
Narika começou a suar frio, completamente sem jeito. Então, como se tivesse tomado coragem, disparou:
— P-Porque... isso me incomoda!
— Incomoda? Você também?
— Porque! Até agora, eu era a única na academia com quem você falava de maneira casual! Eu era a única especial… mas agora você virou o Itsuki de todo mundo!
O Itsuki de todo mundo…
É um pouco constrangedor, mas eu entendo o que ela quer dizer. É como quando a pessoa que você considera seu melhor amigo, de repente, começa a se dar bem com outras pessoas.
…Não, no caso da Narika, talvez não seja exatamente isso.
A Narika… bem, ela gosta de mim. Então é natural que seja mais sensível a esse tipo de coisa.
A pessoa de quem ela gosta acabou se aproximando de outra pessoa. A frustração que isso causa provavelmente é muito maior do que o simples ciúme de um melhor amigo. Provavelmente…
— Olha, só porque agora eu falo do mesmo jeito com todo mundo, isso não muda o fato de que, desde o começo, você foi a única para quem eu consegui mostrar quem eu realmente sou.
— Você está tentando me confundir com essas palavras bonitas?
Não é isso. Eu também estou dizendo coisas constrangedoras, então pega leve comigo…
— Narika, para mim, você é especial. Foi justamente por isso que consegui falar com você com sinceridade desde o começo. Esse vínculo especial entre nós não vai desaparecer, tá?
— Itsuki…
Narika ficou me encarando por alguns instantes. Então, de repente, cerrou os dentes e fez uma expressão como se estivesse tentando conter uma onda intensa de emoções.
— F-Falar que eu sou "especial", logo para mim… isso só faz eu acabar entendendo as coisas do jeito errado, sabia…?
— Desculpa. Para ser sincero, eu também pensei isso logo depois que falei.
Escolhi muito mal as palavras.
— Hah… hah… hah………… Tome cuidado. Até a minha paciência tem limites.
O que exatamente ela estava suportando até agora?
Por um instante, ela me lançou um olhar digno de um predador feroz… É melhor nem perguntar. Tenho a sensação de que algo realmente assustador aconteceria.
Segui para a sala do conselho estudantil ao lado de Narika, que ainda tentava conter as brasas daquela paixão intensa. Permaneci em silêncio, porque tive a impressão de que, se dissesse qualquer coisa agora, acabaria sendo devorado em mais de um sentido. O silêncio acabou ajudando a esfriar minha cabeça.
Será mesmo que a Hinako está estranha pelo motivo que a Narika falou…?
Por algum motivo, sinto que não era isso.
Era apenas um pressentimento. Procurei algum indício que o transformasse em certeza, mas não encontrei nada.
— Ora, vocês dois chegaram juntos.
Quando entramos na sala do conselho estudantil, todos os outros já estavam presentes. Parece que as atividades de todas as turmas estão indo bem.
— Tomonari-san, desculpe pedir isso, mas poderia escolher, a partir desta lista, quais convidados serão chamados para o festival cultural? Deixo os critérios por sua conta.
— Entendido. …Quer dizer, pode deixar.
— Fufu. Parece que nem você mesmo se acostumou ainda.
Ser motivo de risada da Tennouji-san me deixou um pouco envergonhado. Velhos hábitos realmente demoram para desaparecer.
Agora, sobre o trabalho…
Entendo. Parece que todas as turmas querem convidar pessoas para o festival cultural este ano, mas pretendem limitar a quantidade, já que seria difícil administrar caso chamassem gente demais.
Levando em conta a reputação da Academia Kiou, não seria adequado usar o orçamento como critério. Talvez seja melhor filtrar por fatores como rivalidades empresariais que geraram conflitos ou históricos suspeitos.
…O Kagen-san me pediu isso, então vou terminar logo o trabalho do conselho estudantil e depois passar na nossa sala.
Também quero ver como a Hinako está. Felizmente, o volume de trabalho de hoje não parece tão grande. Se eu me concentrar, devo conseguir terminar cedo e arranjar um tempo para ir até a sala.
Dei dois tapas leves nas próprias bochechas para me animar.
— Muito bem!!
— Oh! O Tomonari-san está cheio de energia hoje!
Eu sempre estou. Foi justamente por isso que acabei sentado nesta cadeira.
◆
Não sei dizer o quanto essa determinação realmente fez diferença, mas consegui terminar meu trabalho mais cedo e fui imediatamente verificar como estavam as coisas na Classe A.
Quando estava prestes a entrar casualmente na sala, ouvi vozes vindas de dentro. Os atores provavelmente estavam ensaiando.
Não seria bom interrompê-los.
Abri a porta o mais silenciosamente possível e entrei.
Assim como havia acontecido na Classe C, as carteiras e cadeiras estavam empurradas para os cantos, deixando livre o espaço no centro da sala, que estava sendo usado como palco improvisado para os ensaios.
Dois alunos interpretavam uma cena no centro. Uma delas era a Hinako. Os demais estudantes observavam atentamente a atuação dos dois.
Uma tensão apropriada pairava no ambiente. Como esperado dos alunos da Academia Kiou, a capacidade de mudar completamente o foco quando necessário era impressionante.
Ainda bem que percebi o clima da sala e entrei em silêncio.
Enquanto todos assistiam, Hinako, no papel de Ofélia, falou ao garoto diante dela.
— Pai. O príncipe Hamlet já me declarou seu amor sincero inúmeras vezes.
— Sincero? Hah. Palavras dignas de uma garota ingênua. Você realmente acredita nesse amor?
— Pai, o príncipe Hamlet jurou diante dos céus.
— Esse juramento não passa de uma paixão momentânea.
Era um trecho do início da peça. A pessoa com quem Ofélia conversava era seu pai, Polônio.
Ofélia acreditava que ela e Hamlet estavam apaixonados, mas Polônio via aquilo apenas como um capricho passageiro do príncipe.
Ofélia queria provar que aquele amor era verdadeiro, enquanto Polônio insistia que tudo não passava da imaginação da filha.
Infelizmente, esse conflito entre pai e filha jamais chega a ser resolvido. Porque Polônio acaba sendo assassinado.
— Muito bem, vamos pular um pouco. Agora vamos ensaiar a cena após a morte de Polônio. Aquela em que a personalidade de Ofélia muda completamente, tornando-se apática por causa da morte do pai.
Um aluno que observava o ensaio dos dois orientou que passassem para a próxima cena.
Polônio morre. Pelas mãos de Hamlet.
No entanto, Hamlet não o mata de propósito. Ele o confunde com seu odiado tio e acaba assassinando Polônio por engano. Mas, intencional ou não, perder o pai foi doloroso demais para Ofélia.
Como consequência, a personalidade da casta e nobre Ofélia se transforma por completo.
— Ofélia, por que você não sai do seu quarto?
Após a morte de Polônio, há uma cena em que a mãe de Hamlet, a rainha Gertrudes, conversa com Ofélia. Devia ser justamente essa.
...Então a Suminoe-san está interpretando a rainha.
Combina perfeitamente com ela.
Entre os alunos da nossa turma, Suminoe-san só perde para Hinako em elegância.
Desde que mantenha a boca fechada...
Diante de Suminoe-san estava Hinako que, completamente diferente de antes, parecia ter perdido toda a força do corpo, como se estivesse prestes a derreter.
— Não adianta... Estou cansada. Não quero ir a lugar nenhum.
Senti todos os colegas prenderem a respiração. A diferença para a atuação de instantes atrás era absurda. Sua voz, seus movimentos, sua presença... era como se fosse outra pessoa. Um contraste tão marcante certamente prenderia os olhos do público.
Hinako cobriu a boca enquanto bocejava e voltou o olhar para a janela.
— Será que o direito de passar a vida deitada pertence apenas aos velhos? Então eu também sou uma velha. Porque este meu coração deseja desesperadamente dormir. Um sono profundo... do qual jamais acordará.
— Ofélia, venha comigo. Há muitas coisas sobre as quais quero conversar com você.
— Não... Eu vou dormir agora. Em vez de ficar andando de um lado para o outro, eu seria muito mais feliz vivendo todos os dias apenas comendo minha ração, como um passarinho preso numa gaiola. ...Boa noite. Não me acordem~.
Hinako deitou-se ali mesmo no chão e começou a murmurar como se estivesse falando durante o sono.
Suminoe-san soltou um pequeno suspiro. Ao que tudo indicava, o ensaio havia terminado.
— Perfeito... Foi uma atuação perfeita!!
— Ela é a reencarnação da Audrey Hepburn!!
Os colegas ficaram profundamente emocionados com a atuação de Hinako. Por enquanto, bati palmas junto com todos os outros, mas...
...Ela só está voltando ao jeito que realmente é.
Embora estivesse usando falas adequadas ao universo da peça, sua postura era praticamente a mesma de quando estava na mansão.
Aposto que até o conteúdo das falas vinha diretamente do fundo do coração dela.
— Nós enviamos a gravação para o roteirista e ele respondeu na mesma hora dizendo que estava perfeito!
Quando Kita anunciou isso segurando um notebook em uma das mãos, gritos de comemoração ecoaram pela sala.
Pelo visto, Kita assumiu um papel nos bastidores. Como a família dele administra uma empresa de tecnologia e ele entende bastante do assunto, provavelmente escolheu essa função por conta própria.
Hamlet não possui um elenco tão grande, então eles podiam dedicar mais pessoas à produção dos bastidores para montar uma apresentação mais caprichada.
Os colegas comemoravam bastante por terem recebido o selo de aprovação de "perfeito" do roteirista. No entanto...
— Perfeito.
A única pessoa com uma expressão complicada era justamente Hinako. O ensaio tinha sido um sucesso. Pensei que, dessa vez, ela finalmente ficaria sinceramente feliz.
Mesmo assim… Parecia que alguma coisa ainda a incomodava.
◆
— A Ojou-sama está agindo de forma estranha, é isso?
— Isso mesmo.
Crec... crec...
O assoalho rangeu sob nossos pés. Descalço sobre o tatame, tentei agarrar Shizune-san pela gola. Mas, antecipando meus movimentos, ela recuou apenas o suficiente para escapar do meu alcance.
— Agora que você comentou... ela realmente parecia distraída às vezes, mesmo quando estava comigo.
Shizune-san avançou em direção ao meu cotovelo… Mas era apenas uma finta. Seu verdadeiro alvo era meu outro braço, próximo à cintura.
Como eu esperava, no instante em que desviei da mão que vinha em direção ao cotovelo, ela tentou agarrar minha faixa com a outra mão. Como seu movimento foi exatamente o que eu havia previsto, desviei o braço dela facilmente.
— Desde quando?
— Desde hoje de manhã.
Foi Shizune-san quem quebrou o impasse. Ela avançou em linha reta. Estendi levemente as duas mãos à frente para impedir que se aproximasse.
Naquele exato instante, Shizune-san segurou meus dois pulsos com força. Então era isso. Ela tinha me induzido a estender os braços. Mas...
— Eia!
— Ora.
Antes que Shizune-san pudesse girar meu braço e me arremessar, avancei um passo e encurtei completamente a distância entre nós. Daquela posição, nem projeções nem chaves de articulação funcionavam.
— Achei que tinha conseguido.
— Eu já estava esperando por esse golpe.
Como o impasse parecia continuar, voltamos às posições iniciais. Ao nos afastarmos um do outro, soltei um pequeno suspiro.
Fazia algum tempo desde que Shizune-san tinha me chamado para um treino de defesa pessoal. Eu estava preocupado por talvez ter enferrujado, mas, pelo visto, ainda estava em boa forma.
Uma parte de mim queria apenas suar um pouco. Mas, acima de tudo, aceitei o convite porque queria conversar com ela sobre a Hinako.
Infelizmente, parece que Shizune-san também não fazia ideia do que estava acontecendo.
— Eu também vou ficar de olho na Ojou-sama.
— Por favor.
Cheguei a pensar que talvez Hinako estivesse enfrentando algum problema que tivesse dificuldade de me contar. Mas, ao que tudo indica, ela também não comentou nada com Shizune-san. É possível que tudo isso não passe de um mal-entendido da minha parte...
Mesmo assim, não consigo ignorar a sensação de que meu instinto de cuidador está tentando me dizer alguma coisa.
— Mudando de assunto... como seus colegas reagiram depois que você voltou a falar do seu jeito normal?
Shizune-san perguntou enquanto arrumava a gola desalinhada do seu dogi.
— Não houve problema algum. Mas tenho a impressão de que só estão relevando isso por causa da posição que conquistei.
— Fico feliz em ver que isso não subiu à sua cabeça.
Com a ponta dos dedos, Shizune-san afastou uma mecha de cabelo que havia grudado em sua bochecha.
— É o destino de um cuidador, mas, enquanto estivesse ao lado da ojou-sama, era inevitável que você chamasse atenção de forma negativa quando se transferiu para a academia. Além disso, ser herdeiro de uma empresa de médio porte não tem nada de extraordinário naquele lugar. É justo dizer que você só foi realmente reconhecido depois dos resultados que obteve no Management Game e na eleição do conselho estudantil.
Concordei com Shizune-san. Mesmo ouvindo isso repetidas vezes, ainda acho engraçado. Na Academia Kiou, o título de "herdeiro de uma empresa de médio porte" é tão comum que acaba servindo como camuflagem.
— Ainda assim, se você não tivesse apresentado resultados, imagino que nem teria sido necessário mudar sua forma de falar.
— É verdade.
— Você poderia simplesmente ter passado despercebido e vivido seus dias sem chamar atenção. O fato de ter escolhido se destacar ativamente por causa da ojou-sama é algo pelo qual jamais conseguirei agradecer o suficiente.
— Você já me agradeceu mais do que o bastante. Eu é que agradeço.
Shizune-san era rígida quando precisava ser, mas também fazia questão de reconhecer o mérito dos outros. E, de um tempo para cá, percebi outra característica. Quando ela encontra algo digno de elogio, continua elogiando.
Não apenas acontecimentos recentes; às vezes, até trazia à tona coisas que eu havia feito há muito tempo.
Desse jeito, se eu continuar trabalhando ao lado dela, talvez acabe sendo elogiado para sempre.
...Pensando bem, eu gostaria de ver isso acontecer. Vou me esforçar para não ser demitido.
Retomamos o treino.
Se entrássemos num agarramento direto, a diferença de força entre homem e mulher me daria vantagem. Por isso, Shizune-san mantinha distância enquanto observava atentamente meus movimentos.
Estendi a mão.
Ela a afastou com um tapa.
Ela estendeu a dela.
Eu fiz o mesmo.
Essa troca de movimentos, procurando uma abertura, continuou por um bom tempo.
— Vai continuar falando desse jeito comigo?
— Hã?
— Esse seu jeito de falar.
Ela afastou novamente a minha mão estendida. Percebendo que ela tentaria se aproximar, girei no sentido horário para dificultar qualquer tentativa de me agarrar.
— Sempre fui eu mesmo quando estou com você, Shizune-san. Naturalmente, uso linguagem formal com pessoas mais velhas ou em posição superior.
— Não acredito que nossa relação seja tão superficial a ponto de poder ser resumida apenas a "mais velha" ou "superior".
O quê? O quê? O quê?
Por que ela disse uma coisa tão fofa de repente???
Shizune-san tentou agarrar meu obi.
Por pouco. Saltei para trás bem a tempo.
— É verdade, mas...
— Acredito que eu passe mais tempo com você do que seus colegas de classe.
Isso também era verdade. Embora não fosse exatamente uma competição...
— Será que você está um pouco... com ciúmes?
— Não.
Aquela pequena pausa antes da resposta praticamente confirmou tudo. Shizune-san normalmente não deixava as emoções transparecerem.
Mas elas claramente estavam afetando seus movimentos durante o treino. Sua transferência de peso ficou desajeitada. Agora eu conseguia quebrar seu equilíbrio com facilidade.
— Aí.
Segurei seu ombro e a puxei para a frente. No instante em que perdeu o equilíbrio, pressionei levemente seu rosto com a parte interna do cotovelo e a projetei para trás.
Sem conseguir se sustentar, Shizune-san caiu de costas sobre o tatame.
— Irimi-nage, não é? Muito bem.
— Não sou muito bom em aikidô, mas às vezes consigo acertar esse golpe.
Na verdade, eu pensava que as técnicas de judô eram bem mais fáceis de aplicar. Enquanto refletia sobre isso, Shizune-san, ainda caída, estendeu o braço para mim com uma expressão emburrada.
Provavelmente aquela cara não era apenas porque havia perdido. Segurei sua mão e a ajudei a se levantar. Acho que não tem jeito...
Embora, sinceramente, eu ainda me sinta um pouco intimidado em falar com Shizune-san de maneira tão casual.
— E aí? Fiquei mais forte, não fiquei?
…...!
Assim que falei no tom descontraído que ela mesma havia exigido, o rosto de Shizune-san ficou completamente vermelho.
— P-Para alguém como você, Itsuki-san...
Ela rapidamente se afastou de mim. Embora estivesse corada, seus olhos me encaravam com um ar de indignação.
— Você é só o Itsuki-san... e mesmo assim consegue me deixar desse jeito...!
O que exatamente eu deveria fazer com isso...?
No fim das contas, decidimos que eu continuaria falando formalmente com Shizune-san.
Parecia que nenhum dos dois conseguiria fazer qualquer trabalho direito se insistíssemos em agir de um jeito ao qual não estávamos acostumados.
◆
Depois de tomar banho, fui até o meu quarto procurar Hinako.
...Agora que penso nisso, é um pouco estranho que o primeiro lugar onde eu vá procurá-la seja justamente o meu próprio quarto.
Eu queria saber como ela estava. Mas, de qualquer forma, como seu cuidador, já fazia parte da minha rotina permanecer ao lado dela depois de terminar todas as minhas tarefas do dia.
Depois de concluir tanto os estudos de preparação quanto a revisão, procurar Hinako já não era mais trabalho para mim.
Era simplesmente um hábito.
Enquanto caminhava pelo corredor em direção ao quarto, Kagen-san vinha andando na direção oposta. Como iríamos nos cruzar, parei e fiz uma leve reverência.
— Kagen-san, obrigado pelo seu trabalho.
— Veio em boa hora. Eu estava procurando por você.
Por mim? Fiquei me perguntando o motivo... mas logo percebi que era óbvio.
Era sobre o festival cultural.
— Como estão indo os preparativos da peça?
— Até agora, não houve nenhum problema.
Mudei imediatamente para o modo de trabalho. Ultimamente, tenho conseguido alternar minha mentalidade com facilidade, assim como todo mundo na academia.
Provavelmente isso aconteceu porque forcei meu cérebro ao limite ao participar, um atrás do outro, do Management Game e da eleição do conselho estudantil.
Meu corpo está começando a se lembrar da sensação de estar completamente focado no trabalho. Basta evocar esse estado, e minha mente muda automaticamente.
— O conselho estudantil também está avançando com os preparativos do palco. Pelo menos, tudo indica que conseguiremos manter o mesmo nível de qualidade da estrutura do ano passado.
— Não seria possível preparar algo especial para os assentos da plateia?
— Como teremos a presença de um ministro este ano, pretendemos reservar alguns assentos exclusivos. Mas... não sei se apenas o fato de você ser o chefe do Grupo Konohana será suficiente para conseguir um deles.
— A Academia Kiou realmente é um covil de monstros. Em qualquer outro lugar, ser o chefe do Grupo Konohana bastaria para conseguir qualquer privilégio.
Também acho. Mas, se fizéssemos isso na Academia Kiou, acabaríamos tendo de preparar assentos especiais para praticamente todos os convidados.
Afinal, quase todos eles são pessoas extremamente influentes. Não haveria fim para tantos tratamentos especiais.
— O Takuma-san participou da criação do Management Game, não foi? Talvez, usando isso como justificativa, fosse possível...
— De jeito nenhum.
Uma voz carregada de irritação interrompeu minhas palavras. Fiquei surpreso com a mudança repentina na expressão de Kagen-san.
Logo em seguida, ele recuperou a calma e, parecendo lamentar a própria reação, explicou:
— O chefe da família despreza Takuma. A ponto de nem sequer querer ouvir o nome dele.
— Entendo.
Quando eu havia acabado de me tornar cuidador, Shizune-san me explicou que existiam dúvidas sobre Takuma-san realmente ser digno de herdar o Grupo Konohana.
Naquela época, eu não compreendi completamente o contexto. Mas, vendo a reação de Kagen-san agora, finalmente consegui juntar todas as peças. Quem não reconhece Takuma-san como sucessor é o próprio chefe da família.
Não é exatamente Kagen-san quem o rejeita. São os membros mais influentes da família Konohana.
— Haverá cafés no festival cultural?
— Sim. Cafés são bastante populares, então sete turmas pretendem abrir um. Além disso, o café da própria academia também continuará funcionando.
— Quero que providencie um chá específico para o café da academia: um blend de Uva Ceylon. É uma mistura especial que normalmente encomendamos da França.
Devia ser o chá favorito do chefe da família. Kagen-san tirou um porta-cartões do bolso interno do paletó.
— Vou lhe entregar um cartão com o contato. Se for necessário, use o nome do Grupo Konohana… — ele interrompeu a própria frase por um instante. — Não. Pode usar o nome de Konohana Kagen.
Recebi silenciosamente o cartão que ele me ofereceu. Entendi perfeitamente o significado daquela pequena mudança de palavras. E, ao entendê-la, senti meu peito se aquecer.
Kagen-san confiava em mim como pessoa a ponto de permitir que eu usasse seu próprio nome. Perceber isso me deixou extremamente feliz.
— Entendido. Vou utilizá-lo, se for necessário.
Kagen-san exibiu um discreto sorriso de satisfação antes de seguir pelo corredor. O cartão que ele me entregou estava inteiramente escrito em francês. Ele disse que era apenas um contato, mas parecia que a outra parte também era francesa.
Os assuntos externos costumam ficar a cargo da Narika, mas, dependendo da situação, talvez fosse melhor pedir ajuda a outra pessoa.
...Alguém como Tennouji-san provavelmente falaria francês com fluência.
Talvez eu também devesse começar a estudar mais idiomas.
Hora de ir ver a Hinako.
Lembrando do meu objetivo inicial, caminhei pelo corredor na direção oposta à de Kagen-san. Quando abri a porta do meu quarto, encontrei Hinako dormindo completamente esparramada na minha cama.
— Nnh... Itsuki...?
— Você já estava acordada?
— Até agora eu estava dormindo~.
Pelo jeito, estava mesmo. O futon estava completamente bagunçado.
— Itsuki, pode me ajudar a ensaiar a peça de novo...?
— Claro. Mas... você anda bem motivada ultimamente.
Hinako me entregou o roteiro que estava ao lado do travesseiro. A verdadeira natureza de Hinako é preguiçosa, mas isso não significa que ela goste de causar problemas aos outros.
Tenho certeza de que o que ela mais deseja é que todos sejam felizes. Inclusive ela mesma.
Provavelmente, esse é o desejo mais importante para ela. Por isso entendo que ela sinta responsabilidade pelo sucesso da peça. Mesmo assim, hoje ela parecia muito mais empenhada do que de costume.
Será que aconteceu alguma coisa enquanto eu estava trabalhando na sala do conselho estudantil?
Diante dos meus olhos, Hinako voltou a se transformar em Ofélia. Desta vez, era uma cena depois da mudança de personalidade.
A Ofélia preguiçosa.
— Pessoal, por que vocês não ficam à toa como eu? Comam alguns doces, deitem na cama e, se relaxarem o corpo assim...
...Zzzzz...
Enquanto recitava suas falas, Hinako sentou-se em uma cadeira. Ao terminar, apoiou o corpo sobre a mesa. Parecia ter adormecido completamente. Curioso, aproximei-me dela. No mesmo instante, seus olhos se abriram de repente.
— E então? Como foi?
— Eita, você me assustou. Achei que tivesse dormido de verdade.
— O segredo é chegar bem perto de pegar no sono... sem realmente dormir.
Hinako exibiu um sorriso orgulhoso.
...Isso não é perigoso? E se, durante a apresentação de verdade, ela acabar dormindo profundamente em pleno palco...?
— Itsuki.
Enquanto eu imaginava um desastre desses acontecendo diante da plateia, Hinako me encarou fixamente.
— Minha atuação... foi perfeita?
— ? Sim. Eu acho que foi perfeita.
Para mim, a atuação de Hinako era impecável. Tão impecável quanto a atuação da "ojou-sama" que ela representava todos os dias. Mesmo assim, Hinako permaneceu em silêncio, mergulhada em pensamentos.
— Hinako... tem certeza de que não há nada incomodando você?
— Nn... É só que... é um pouco complicado... Não se preocupe comigo.
Então realmente havia alguma coisa. Narika tinha dito que talvez fosse por causa da minha maneira de falar, mas, considerando o momento, era quase certo que o problema estivesse relacionado à peça.
Talvez nem ela própria tivesse conseguido entender direito o que estava sentindo, muito menos explicar isso para outra pessoa. Eu já passei por essa situação muitas vezes. Por enquanto, talvez fosse melhor deixá-la pensar sozinha.
Vou deixá-la descansar por hoje.
Se amanhã ela continuar do mesmo jeito, volto a perguntar.
Depois de ajudá-la a ensaiar mais algumas vezes, acompanhei Hinako durante o banho e, por fim, a levei até seu quarto.
◆
Assim que voltou para o quarto, Hinako simplesmente se jogou na cama. A sensação fresca do futon era agradável contra seu corpo ainda aquecido pelo banho.
Ela já havia terminado todas as tarefas que seu pai lhe passara e, graças à ajuda de Itsuki, também tinha ensaiado bastante para a peça.
Ninguém teria motivo para reclamar se ela simplesmente fechasse os olhos e dormisse. Mesmo assim, Hinako permaneceu acordada, encarando distraidamente o teto.
...Todo mundo aceitou o verdadeiro Itsuki.
Ela relembrou a cena que havia presenciado na academia. Itsuki revelou a todos sua verdadeira maneira de falar. Era uma das coisas que ele havia escondido durante seis meses.
A credibilidade que ele conquistou não desapareceria apenas porque passou a falar de maneira mais descontraída. Hinako, que acompanhou desde o início todo o esforço que ele fez para conquistar aquela confiança, sabia muito bem disso.
Mesmo assim, depois de ver seus colegas aceitarem Itsuki com os próprios olhos, ela não conseguiu impedir que uma pergunta surgisse dentro de si.
...E se fosse comigo?
Se eu mostrasse quem realmente sou… Será que todos também me aceitariam?
O tempo durante o qual ela escondia sua verdadeira personalidade não podia sequer ser comparado ao de Itsuki. Muito antes de entrar na Academia Kiou, Hinako já interpretava o papel da ojou-sama perfeita.
Agora, essa máscara estava tão profundamente enraizada que não apenas os outros acreditavam nela. A própria Hinako já não conseguia imaginar um futuro em que a retirasse.
E, ainda assim… Recentemente, surgiu uma oportunidade para deixá-la de lado.
Quando interpretava Ofélia.
Durante todo esse tempo, acreditei que precisava ser uma ojou-sama perfeita... por isso vivi representando esse papel... Mas agora... meu eu verdadeiro está sendo chamado de perfeito...
Ela se lembrou do ensaio realizado na sala de aula naquela tarde. Quando interpretou uma Ofélia preguiçosa, seus colegas elogiaram sua atuação, dizendo que estava "perfeita".
Até o roteirista profissional, que acompanhava tudo por chamada de vídeo, fez exatamente o mesmo elogio. Ela apenas mostrou quem realmente era… E, ainda assim...
Perfeita.
Quanto esforço ela fez durante toda a vida para ouvir justamente essa palavra? Ela representou desesperadamente o papel de uma ojou-sama, a ponto de adoecer de tanto se esforçar.
A perfeição sempre foi a recompensa por todo esse sofrimento.
Mas agora… Mesmo sendo apenas ela mesma… A perfeição simplesmente aparecia diante dela. Como se caísse do céu.
...O que era mesmo que eu deveria estar fazendo...?
— Ugh...
Estou completamente confusa...
Ela estava perdida. A máscara que tantas vezes lhe disseram que jamais poderia retirar… No fim das contas… Não mudou absolutamente nada quando finalmente a deixou cair.
Será que ela esperava que alguma coisa acontecesse?
Na verdade, não. A situação deveria tranquilizá-la. Mesmo assim, seu coração permanecia inquieto.
Para todo mundo... qual delas é a verdadeira "ojou-sama"...?
Onde, afinal, está a minha perfeição?
Era como se tivesse perdido completamente o caminho. Nesse momento, o celular sobre a mesa de cabeceira anunciou uma chamada. Receber uma ligação naquele horário era algo incomum.
Surpresa, ela atendeu. Na tela apareceu o nome de uma amiga.
"Hirano-san?"
"Ah, você atendeu. Está ocupada agora?"
"Não... pode falar, mas..."
O que ela queria a essa hora? Hinako imaginou que fosse alguma emergência. Mas a voz da amiga não parecia transmitir nenhuma urgência.
"Na verdade, eu só queria perguntar qual mangá você quer que eu te empreste da próxima vez. Faz um tempo que só tenho levado histórias do mesmo gênero, né? Pensei que talvez você estivesse com vontade de variar um pouco."
Era apenas uma conversa sem importância. Pensando bem… Ainda era cedo para dormir. Provavelmente pessoas comuns passavam horas conversando ao telefone sobre assuntos assim.
Será que uma ligação dessas combina com uma ojou-sama?
Esse pensamento surgiu automaticamente, como sempre. Mas, naquele momento… O valor desse hábito começava a vacilar dentro dela. O sol já havia se posto. Ela já havia tomado banho.
Era um horário que deveria ser dedicado a descansar serenamente.
Talvez ficar animada conversando ao telefone com uma amiga não fosse exatamente algo digno de uma ojou-sama.
Ainda assim… Naquele instante, esses valores pareciam distantes.
"Um mangá que eu gostaria de ler..."
Deixa eu pensar...
Era verdade que, ultimamente, Yuri vinha lhe emprestando vários mangás do mesmo gênero. Originalmente, Hinako começou a lê-los para chamar a atenção de seu cuidador absurdamente lerdo...
E também para entender melhor os próprios sentimentos por esse mesmo cuidador absurdamente lerdo.
Como parte dessa "pesquisa", ela pretendia continuar lendo mangás shoujo. Mas, naquele momento, havia algo que a preocupava muito mais do que o amor. Ela queria entender por que atuar a deixava tão confusa.
Queria descobrir o que, exatamente, estava abalando seu coração.
"Você tem algum mangá sobre atuação?"
"Atuação? Tenho alguns... mas esse foi um pedido bem repentino e específico."
"Na verdade, estou ensaiando para uma peça que vamos apresentar no festival cultural. Achei que poderia servir de referência."
"Ah! Então você vai atuar, Konohana-san!"
Na verdade, ela não apenas participaria da peça. Seria a protagonista. Mesmo assim, hesitou em dizer isso.
"O festival cultural está parecendo cada vez mais interessante."
"Sim. Estou ansiosa para vê-la lá."
"Quando eu for à sua casa, levo os mangás. Vou te mandar os títulos por mensagem. Se quiser usá-los como referência antes disso, dá uma olhada nas prévias disponíveis na internet."
Depois que a ligação terminou, Yuri enviou imediatamente, por mensagem, a lista dos mangás que pretendia lhe emprestar.
Ela percebeu que o pedido de Hinako vinha do desejo sincero de melhorar na peça e de aceitar qualquer ajuda que pudesse receber.
Pessoas esforçadas costumam respeitar o esforço dos outros. Isso era algo que Yuri havia aprendido observando Itsuki. Mas, deixando isso de lado...
Prévia online...?
Era uma expressão que Hinako nunca tinha ouvido. Ela se sentou diante da escrivaninha e pesquisou o significado no notebook. Depois de entender do que se tratava, procurou os títulos dos mangás que iria pegar emprestados e acessou as páginas oficiais.
Pelo visto, dali mesmo era possível seguir para a página de compra. Mas ela tinha uma amiga gentil o bastante para emprestá-los.
Às vezes, aceitar a boa vontade de alguém também fazia parte da etiqueta.
Não como uma ojou-sama. Mas como uma amiga.
Ela então abriu a prévia. Como esperava, era um mangá sobre teatro.
A protagonista era uma garota que sonhava em se tornar atriz. Ela possuía um talento extraordinário para atuar, e o primeiro capítulo terminava justamente quando demonstrava esse talento diante de um diretor.
Dali em diante, provavelmente enfrentaria rivais enquanto subia, passo a passo, rumo ao estrelato. Hinako desviou o olhar da tela e respirou fundo. Sentia que havia encontrado a resposta que procurava.
Atuar tem valor. Atuar não é algo ruim. Talvez fosse justamente por isso que seu pai sempre exigiu que ela representasse o papel da ojou-sama perfeita. Porque isso era valioso para a família Konohana.
...Hã? Mas, agora, na academia... estão justamente me pedindo para não atuar...
Seu pai também aprovou isso. Porque, neste momento, o mais importante é o sucesso da peça.
Então... o meu eu verdadeiro não tem valor?
...Não.
Isso não fazia sentido. Seu pai jamais aceitaria algo assim. O que ela estava mostrando para todos na academia agora… Era justamente a atuação de não atuar.
Até pouco tempo atrás, ela representava constantemente o papel de uma ojou-sama perfeita dentro da academia.
Agora… Somente durante os ensaios… Ela interpretava a si mesma.
Ela estava representando Ofélia… Usando justamente o seu "não atuar".
Tudo isso… Pelo bem de todos.
...?????????
Estou ficando completamente confusa.
Chega.
Vou dormir.
Ela se enfiou debaixo das cobertas. Dormir resolvia tudo. Bastava enrolar todos aqueles pensamentos embaralhados e jogá-los no abismo do esquecimento.
Assim que fechou os olhos, o sono envolveu seu corpo quase instantaneamente.
Ela sempre gostou dessa facilidade que tinha para adormecer.
No entanto… Naquela noite, sua mente, que normalmente mergulhava imediatamente em um sono profundo, acabou sonhando.
Provavelmente porque ficou pensando em coisas complicadas antes de dormir.
Em seu sonho, Hinako estava na academia. Ela havia dormido demais pela manhã e acabou passando todas as aulas cochilando. Mostrava seu lado preguiçoso diante de todos.
Mesmo assim, seus colegas apenas sorriam.
— Assim fica mais fácil me aproximar de você.
— Está perfeito!!
Todos a aceitavam naturalmente. Depois, quando voltava para a mansão, ia direto para o quarto e realizava em silêncio todas as tarefas que seu pai lhe deixava.
À mesa, sua etiqueta era impecável. Uma nota cem perfeita. Seu pai e Shizune a elogiavam.
— Como esperado.
— Perfeito.
Na academia… Ela podia ser preguiçosa. Na mansão… Precisava continuar sendo uma dama impecável.
……
Espera. Era isso mesmo?
Qual deles...
Era o meu verdadeiro eu?
…… …
Ah, tanto faz.
Não quero pensar em coisas difíceis.
Nem mesmo nos meus sonhos.
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