O Cuidador da Ojou-sama — Capítulo 76: Volume 11 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Ojou-sama que é Como um Doce

O Cuidador da Ojou-sama
Cap. 76
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O Cuidador da Ojou-sama

Volume 11 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Ojou-sama que é Como um Doce

Capítulo 76

17.678 palavras~77 min de leitura

A ATMOSFERA DA ACADEMIA estava, pouco a pouco, sendo tingida pelas cores do festival cultural.

Tanto nos pátios quanto dentro do prédio da escola, as estruturas para as atrações de cada turma eram montadas uma após a outra. A velocidade da construção era rápida demais para ser realizada apenas pelos alunos, então grande parte do trabalho era terceirizada — e nós, do conselho estudantil, ficávamos responsáveis por coordenar tudo.

Quando eu pensava em um festival cultural, imaginava os próprios estudantes dando vida ao evento com seus esforços. Mas, na Academia Kiou, poder financeiro e conexões também são considerados parte da capacidade dos alunos, então o resultado acaba sendo esse.

Ver um aquário e até um planetário sendo construídos me fazia sentir como se estivesse em um parque temático, o que era bastante empolgante. Era completamente diferente dos festivais culturais que eu conhecia, mas, à sua maneira, também tinha seu charme. Se Joutou tivesse se tornado presidente do conselho estudantil, talvez tivéssemos um festival muito mais parecido com aqueles aos quais eu estava acostumado.

— Aaah... Estou com tanto sono...

Banhada pela luz da manhã, Hinako já tinha a aparência de alguém que queria voltar para casa.

Os ensaios da peça pareciam estar chegando ao auge, então ela também precisou vir à escola hoje. Eu ainda me preocupava com ela, mas, comparado à primeira vez, estava bem mais tranquilo.

Enquanto caminhávamos em direção ao prédio da escola, nossos olhares se cruzaram com os de Tennouji-san.

Tennouji-san estava me chamando com um leve gesto.

Será que ela precisava de alguma coisa?

— Tennouji-san está nos chamando.

— Nngh... Meus olhos ainda não se acostumaram com a luz... Melhor depois...

Ela está tratando a Tennouji-san como se fosse o sol?

...Bem, também não posso dizer que não entendo.

Sem outra escolha, pedi para Hinako esperar ali e fui até Tennouji-san.

— Bom dia, Tennouji-san.

— Ah... S-Sim... Bom dia.

— Aconteceu alguma coisa?

— Bem... Ainda não me acostumei com a maneira como você fala. Quase acabei chamando você de Itsuki-san.

A última parte ela sussurrou, de forma que apenas eu pudesse ouvir.

Ah... é mesmo.

Até agora, quando Tennouji-san me chamava de "Itsuki-san", aquilo era o sinal para que eu falasse desse jeito.

...Entendo perfeitamente como ela se sente. Eu mesmo quase chamei a Hinako de agora de "Hinako", em vez de "Konohana-san".

— A propósito, por que Konohana Hinako não veio junto?

— Bem... Parece que o sol está brilhando forte demais para ela...

— Então suponho que os ensaios da peça estejam realmente intensos.

Ela simplesmente aceitou essa explicação.

— Enfim, gostaria que avisasse Konohana Hinako mais tarde, mas... vocês gostariam de participar de um chá durante o intervalo do almoço?

— Um chá? Claro, por mim tudo bem, mas...

Foi tão repentino que não pude deixar de imaginar se havia algum motivo por trás.

— Não existe nenhuma razão especial. Se tivesse que dar uma, seria apenas porque senti vontade de conversar novamente com aquele grupo depois de tanto tempo.

— Agora que você mencionou, não fizemos um único chá desde que a eleição terminou.

— De fato. É uma vergonha para um grupo chamado Aliança do chá.

Tennouji-san comentou em tom de brincadeira. Embora esse tenha sido um nome dado a nós sem que tivéssemos qualquer escolha...

— Bem, pessoalmente, não gosto muito desse nome.

— Sério? Achei que você gostasse, Tennouji-san...

— Não gosto da ideia de que ele possa soar como se colocasse os outros abaixo de nós.

Entendo. Ela queria dizer que os demais alunos também deveriam ser considerados nobres.

(N/SLAG: Hora da explicação (um pouco tarde para isso, né? Mas agora que isso foi fazer algum contexto). Eu adaptei o nome do grupo para "Aliança do Chá", por ser bem mais simples. Mas no original (高貴なるお茶会) 高貴 (kōki) = nobre, aristocrático, distinto. お茶会 (ochakai) = chá da tarde, reunião para tomar chá, tea party.) Ou seja, o nome é literalmente algo como: "O Nobre Chá da Tarde" ou "A Nobre Reunião do Chá".)

— Você realmente tem perfil para ser presidente do conselho estudantil.

— Só percebeu isso agora?

Tennouji-san ergueu o queixo, exibindo uma expressão orgulhosa.

— De qualquer forma, como todos estão ocupados no momento, achei que seria melhor fazermos isso durante o almoço.

— É uma boa ideia. Nós temos trabalho no conselho estudantil, e os outros estão ocupados com os preparativos do festival cultural.

A Hinako de agora provavelmente acabaria dormindo mesmo que participasse do chá... mas será que ela vai aparecer?

...Se possível, gostaria que Tennouji-san e Narika vissem de perto como Hinako está agora.

Por que Hinako acabou ficando desse jeito? Será que realmente está tudo bem deixá-la desse jeito?

Sinto que aquelas duas talvez consigam me dar alguma pista para responder às preocupações que venho carregando.

Depois de aceitar o convite para o chá, despedi-me de Tennouji-san e estava prestes a voltar para Hinako.

Foi então que percebi. Hinako, que estava ali até poucos instantes atrás, havia desaparecido.

— Itsukiii... Cadê vocêêê...?

Quando dei por mim, ela já estava na outra ponta do corredor. Ergui a voz em meio ao movimento dos alunos.

— Hinako... Quer dizer, Konohana-san!! P-Por aqui!! É desse lado!!

Droga. Se eu deixar a Hinako de agora sozinha, ela vai acabar se perdendo.

Ela está ensaiando a peça.

Até quando essa desculpa vai continuar funcionando...?

◆

Na hora do almoço, conforme o combinado, nos reunimos no café para o nosso chá.

Era possível almoçar ali mesmo ou trazer comida de casa. Tennouji-san, Asahi-san e Taishou, que normalmente iam ao refeitório, pediram seus pratos, enquanto eu, Hinako e Narika abrimos nossos bentôs sobre a mesa.

Nessas ocasiões, o conteúdo do meu obentô e o da Hinako era completamente diferente. Não podia ficar evidente que ambos tinham sido preparados na mesma cozinha.

Como aquilo também serviria de almoço, só a comida não passava muito a sensação de um verdadeiro chá da tarde. Por isso, todos pediram bebidas e alguns biscoitos amanteigados para acompanhar.

Assim que os pedidos chegaram, Tennouji-san olhou para todos nós antes de falar.

— Obrigada por terem vindo mesmo com tão pouco aviso. Não temos muito tempo, mas vamos conversar com calma, como sempre...

— Vou dormir...

Sentada ao meu lado, Hinako apoiou a cabeça sobre a mesa. Poucos segundos depois, sua respiração tranquila já podia ser ouvida.

— E-Ela... realmente dormiu?

— Ao que parece... — respondeu Tennouji-san.

Tennouji-san e Narika observavam Hinako atentamente. Então, de repente, Hinako ergueu a cabeça lentamente.

— Ah, ela acordou.

Asahi-san murmurou. Hinako pegou um dos biscoitos que estavam sobre a mesa e começou a mastigá-lo.

— Mmm... Batata frita é mais gostosa...

Depois de reclamar apenas isso, voltou a deitar a cabeça e adormeceu outra vez.

— Ela acordou, comeu um biscoito... e voltou a dormir...

Taishou apenas descreveu o que todos acabavam de testemunhar.

...Ela é um panda, por acaso?

Ela estava agindo puramente por instinto. Parecia mais um animal do que uma pessoa. Mas, ironicamente, isso combinava perfeitamente com a imagem de Ofélia, a personagem que ela interpretaria na peça do festival cultural.

Taishou e Asahi-san conheciam bem a história da peça e, naturalmente, Tennouji-san e Narika também já deviam ter ouvido um resumo. Por isso, ninguém pareceu achar aquela situação particularmente estranha.

Hinako dormia profundamente, com a bochecha apoiada sobre a mesa. Um fio de saliva escorria lentamente de seus pequenos lábios, voltados para o meu lado.

— Céus...

Sem alternativa, peguei um lenço e limpei delicadamente a saliva do canto de sua boca. Depois de dobrar cuidadosamente o lenço...

...percebi que todos estavam olhando fixamente para mim.

— T-Tomonari-san...?

— O que... foi isso que você acabou de fazer...?

Por algum motivo, Tennouji-san e Narika pareciam completamente chocadas.

O quê...? Eu só limpei a baba dela...

— Ah.

...O que eu estou fazendo? Por mais que Hinako esteja no meio dos ensaios, ninguém simplesmente vai limpar a saliva de outra pessoa sem sequer pedir permissão.

Fiz isso por puro hábito...

— I-Isso também faz parte dos ensaios da peça...?

— Foi tão natural que pareceu algo que você faz o tempo todo.

Asahi-san e Taishou também demonstravam confusão.

— E esse lenço? O Itsuki que eu conheço jamais teria um gosto desses.

Narika comentou enquanto olhava para o lenço cor-de-rosa que eu ainda segurava.

— Nossa... Que observação afiada de repente...!

— É-É que... bem...

Esse é um lenço exclusivo para limpar a baba da Hinako.

No começo, eu usava o meu próprio lenço, mas como também o utilizo depois de lavar as mãos no banheiro, resolvi separar as coisas.

Aliás, a própria Hinako provavelmente nem sabe que esse lenço existe. Na maior parte do tempo, só o uso enquanto ela está dormindo...

— H-Há muito tempo, eu tive um cachorro! Acabei me lembrando dele e limpei sem nem pensar.

— Ora, essa é a primeira vez que ouço falar disso.

— B-Bem, nunca surgiu uma oportunidade para comentar. Eu deixava ele dormir na minha cama, dava banho nele e tudo mais. Hahaha... hahaha...

Desculpa, Hinako. Só por enquanto... deixa eu fingir que você é um cachorro...!!

— Quanto ao lenço... foi só uma coincidência...

— Hmph.

Narika lançou um olhar claramente desconfiado para mim. Isso é ruim…

Quem ainda não conseguiu se adaptar à mudança da Hinako sou eu.

Depois disso, o chá voltou ao clima habitual, mas passei o restante do tempo suando frio.

◆

— Nossa, já está tão tarde.

Assim que Tennouji-san olhou para o horário, o nosso chá chegou ao fim.

— A Konohana-san passou o tempo todo dormindo.

— Impressionante, não é...? A peça deste ano vai ser algo realmente extraordinário.

Asahi-san e Taishou observavam Hinako, que continuava profundamente adormecida.

Mas, se eu a deixasse dormir para sempre, acabaria se atrasando para a aula. Então balancei seu ombro com delicadeza.

— Konohana-san, a aula já vai começar.

— Nngh... só mais cinco minutinhos...

Era uma frase que eu ouvia todas as manhãs.

Eu já estava acostumado a acordar a Hinako a partir desse ponto, mas precisava manter certa distância para não levantar suspeitas como antes...

Continuei balançando-a suavemente, deixando escapar um sorriso resignado.

— Nngh... me abraça...

— É só atuação, tá bom?! Isso faz parte dos ensaios!!

Enquanto explicava desesperadamente para todos ao redor, consegui finalmente fazê-la acordar.

— Foi muito bom conversar com todos depois de tanto tempo. Acho que podemos encerrar por aqui.

Com as palavras de Tennouji-san, o encontro chegou ao fim e todos começaram a se dispersar. Eu também estava prestes a voltar para a sala de aula, mas parei por um instante e sussurrei no ouvido de Hinako.

— Hinako, pode esperar aqui um pouquinho?

— Sim, não vejo problema.

...Hã?

Por que a ojou-sama perfeita apareceu de repente...? Ah... entendi.

Como a personalidade verdadeira e a personalidade perfeita dela estão invertidas, quando conversamos em segredo dentro da academia, quem aparece é justamente essa versão...

...A ojou-sama perfeita.

...Que confusão!!

Minha cabeça já está começando a embaralhar tudo.

— Não vá sair andando por aí sozinha como fez hoje de manhã.

— Vai ficar tudo bem. Você se preocupa demais, Tomonari-kun.

Foi essa mesma boca que, há poucos instantes, estava dizendo "me abraça"...? Desculpe, mas eu simplesmente não consigo confiar em você. Por isso, saí dali mantendo Hinako o tempo todo dentro do meu campo de visão.

— Tennouji-san! Narika!

Depois de me afastar um pouco de Hinako, chamei as duas. Quando elas se viraram, perguntei:

— Então... o que vocês acharam da Konohana-san hoje?

— O que achei...? Bem, como esperado, várias coisas me passaram pela cabeça...

— Qualquer impressão serve. Quero ouvir a opinião sincera de vocês.

Ao perceberem o quanto eu estava falando sério, Tennouji-san e Narika também assumiram uma expressão pensativa. Taishou e Asahi-san estudam na mesma turma que ela, então eu já havia ouvido a impressão deles sobre a Hinako de agora.

Achei que também seria bom saber o que Tennouji-san e Narika pensavam. Porque isso talvez me desse alguma pista sobre o motivo de Hinako ter acabado daquele jeito.

— Tomonari-san, você se lembra de quando me ensinou a regra dos três segundos?

Assenti ao ouvir as palavras de Tennouji-san. Aquilo havia acontecido durante um chá, muito tempo atrás.

— Naquela ocasião, Konohana Hinako pegou um biscoito que havia caído sobre a mesa e falou sobre a regra dos três segundos. Na época, já achei aquela atitude completamente diferente do comportamento habitual da Konohana Hinako, mas...

Ela continuou, refletindo enquanto organizava seus pensamentos.

— A Konohana Hinako de agora me lembra um pouco a Konohana Hinako daquele dia.

…....!

Prendi a respiração diante da precisão daquela observação.

— Mas, se for esse o caso... isso significaria que, naquela época, Konohana Hinako também estava ensaiando sua atuação... Hm? Espera... acho que nem eu sei mais o que estou dizendo...

Ela chegou tão perto… Mas ainda estava olhando pelo lado oposto. A resposta correta era que Hinako não estava atuando nem naquela época, nem agora.

Tanto antes quanto agora, aquilo era seu verdadeiro eu. Mesmo assim, Tennouji-san percebeu que o estado em que Hinako estava naquela ocasião era o mesmo de agora.

A Hinako relaxada e desleixada que aparecia espontaneamente de vez em quando... e a Hinako atual, que fingia que tudo fazia parte dos ensaios. Se Tennouji-san ligar esses dois pontos, cedo ou tarde perceberá qual é a verdadeira personalidade de Hinako.

...Ela pode acabar concluindo que, independentemente da atuação, Konohana Hinako também possui esse lado.

...Isso é ruim.

Não posso simplesmente ficar calado. Nesse ritmo, ela certamente vai descobrir. E isso provavelmente não vai demorar muito.

— Acho que entendo o que você quer dizer, Tennouji-san.

Narika falou, levando um dedo ao queixo.

— Mas, para falar a verdade... eu gostei bastante da Konohana-san de agora.

— Hã?

Fiquei surpreso com uma opinião tão inesperada. No entanto, Tennouji-san assentiu profundamente.

— Entendo o que Miyakojima-san quer dizer. Por mais perfeita que uma pessoa pareça ser, quando convivemos com ela o tempo todo, inevitavelmente acabamos encontrando um ou dois defeitos. Mas isso nunca aconteceu com Konohana Hinako... E, sinceramente, isso não me parece muito natural.

Em outras palavras… Tennouji-san acreditava que a Hinako de antes talvez fosse apenas uma fachada.

Era uma situação em que eu deveria estar desesperado. E, no entanto… meu coração permanecia estranhamente calmo.

"Eu gostei bastante da Konohana-san de agora."

As palavras de Narika ecoavam fortemente na minha mente.

— Desculpem, minha próxima aula é em outro prédio, então preciso ir.

— Ah, claro. Desculpe por tomar seu tempo.

Narika já estava saindo, mas antes de ir embora, olhou diretamente nos meus olhos.

— Itsuki, eu não sei com o que você está preocupado... mas vou ajudar no que puder.

Depois de dizer isso, ela foi embora.

— Eu compartilho da mesma opinião.

— Obrigado.

A confiabilidade das duas arrancou um sorriso de alívio do meu rosto.

Tenho muita sorte por ter amigos assim...

...Acho que vou aceitar a oferta delas e fazer uma pergunta um pouco mais delicada.

— Tennouji-san.

— O que foi? Você pode contar comigo para qualquer coisa.

Então não vou me conter.

— Tennouji-san... você pinta o cabelo e também mudou completamente sua forma de falar, adotando esse jeito meio peculiar, não foi?

— N-Ngyaa!?

Tennouji-san deu um gritinho e levou a mão ao peito.

— P-P-Por que você resolveu me atacar desse jeito, do nada!?

— D-Desculpe. Mas estou falando sério.

Talvez eu tenha escolhido mal as palavras.

— Quero dizer... tudo isso faz parte de tentar criar uma nova versão de si mesma, certo? Enquanto fazia isso... sua personalidade antiga ainda aparecia de vez em quando? Ou as duas acabavam se misturando?

Na verdade, eu queria perguntar se elas chegavam a trocar de lugar. Mas, se fosse tão direto, ela poderia acabar percebendo a condição de Hinako.

— Não entendo exatamente a intenção da sua pergunta... mas, sim, isso realmente acontecia.

Ela provavelmente estava se lembrando da própria infância. Recordando as dificuldades pelas quais passou, Tennouji-san continuou com um olhar gentil.

— Mas acredito que isso seja um desafio eterno.

— Um desafio eterno?

— Existe o eu que desejamos nos tornar... e existe nosso verdadeiro eu. Enquanto você continuar perseguindo esse ideal, sempre haverá uma distância entre os dois.

Enquanto continuarmos olhando para um objetivo mais alto, essa distância jamais desaparecerá. E, por isso, também não há como escapar do sofrimento e da confusão causados por ela.

No caso da Hinako...

Ela não escolheu olhar para um ideal por vontade própria. Mesmo assim, essa distância também existe dentro dela. Às vezes, ela consome seu corpo e sua mente na forma daquela febre.

...Talvez isso seja apenas uma continuação do mesmo problema.

A mudança pela qual Hinako está passando agora talvez seja, em essência, a mesma coisa que a febre causada por sua atuação.

— E como você conseguiu superar isso, Tennouji-san?

— Não se trata de superar... mas de desafiar!!

Tennouji-san respondeu com um sorriso revigorante.

— Como filha da família Tennouji, continuarei buscando ir cada vez mais longe! Por isso, esse sofrimento jamais desaparecerá! Sendo assim, não faz sentido ficar triste toda vez que ele aparecer!!

Em vez de buscar se livrar desse sofrimento… Tennouji-san escolheu continuar avançando.

...Que incrível. Pouquíssimas pessoas conseguiriam aceitar algo assim.

— Eu ainda gostaria de conversar mais e ajudá-lo, mas acho que já devemos voltar.

Disse isso enquanto olhava ao redor. Já éramos os únicos alunos restantes no café. O prédio da escola estava silencioso, provavelmente porque todos já haviam voltado para as salas.

— Ah, é verdade. Ainda não entreguei isto a você.

Enquanto falava, Tennouji-san tirou um pequeno maço de papéis do bolso e o estendeu para mim.

— São os convites para o festival cultural que Yodogawa-san preparou. Pretendemos entregar dois para cada aluno, mas nós, membros do conselho estudantil, podemos distribuir quantos quisermos. Se acabar precisando de mais, é só me avisar.

— Entendido. Obrigado.

Mesmo sendo ilimitados, eu precisava manter o bom senso.

...Além disso, nem tenho tantas pessoas assim para convidar. Mas havia pelo menos uma pessoa que eu queria convidar sem falta.

Por isso, decidi encontrá-la em breve.

Também queria pedir sua opinião sobre tudo isso...

◆

No dia seguinte, sábado, fui sozinho até a casa da Yuri.

— Yo.

— Bem-vindo.

Fazia algum tempo desde a última vez que eu tinha visto Yuri naquela cidade. Eram três da tarde.

Eu havia evitado o horário do almoço, mas, mesmo assim, o Hiramaru, o restaurante popular administrado pela família da Yuri, ainda estava com vários clientes.

Fiz contato visual com o pai da Yuri, que manejava uma frigideira atrás do balcão. Como não queria atrapalhar seu trabalho, apenas fiz uma leve reverência antes de entrar no quarto da Yuri.

— Então você realmente virou vice-presidente do conselho estudantil da Academia Kiou, hein?

— Eu me esforcei para conseguir.

Ao responder de forma tão direta, Yuri arregalou ligeiramente os olhos.

— Hee... Você ganhou um pouco de postura. Antes, vivia dizendo coisas desnecessariamente humildes, tipo: "Ah, não... alguém como eu..."

— Eu também não era tão inseguro assim, era?

As palavras "desnecessariamente humilde" atingiram em cheio.

Eu precisava mudar a forma como enxergava minha própria confiança. Lembrei do que o pai da Tennouji-san... Masatsugu-san... havia me dito certa vez.

Confiança nasce das próprias conquistas.

Segundo ele, aquilo que nos sustenta nos momentos decisivos são justamente as realizações que acumulamos. E eu já tinha conquistado muita coisa.

Recebi um prêmio no Management Game.

Fui eleito vice-presidente na eleição do conselho estudantil.

Se eu continuasse pensando que "ainda não é o suficiente", ninguém iria me seguir. Daqui para frente, como vice-presidente, terei que liderar muitas pessoas. Preciso aprender a manter a cabeça erguida de verdade.

O pensamento de "vou continuar dando o meu melhor!" já não basta mais.

Eu dei o meu melhor.

...Quero me tornar alguém capaz de dizer isso com convicção.

— Trouxe os convites para o festival cultural.

Retirei o maço de convites da mochila e o entreguei à Yuri, que estava sentada sobre uma enorme almofada. Quando me sentei na outra almofada, bem à sua frente, meu corpo afundou completamente.

Era confortável demais. Como era mesmo o nome dessas almofadas gigantes cheias de bolinhas...? Lembro que fizeram bastante sucesso um tempo atrás.

— Você podia simplesmente ter me entregado isso na casa da Konohana-san. Afinal, eu vou lá amanhã, não vou?

— É... mas achei melhor entregar pessoalmente.

— Hmph... Obrigada.

Yuri fingiu indiferença, mas sua expressão suavizou, como se tivesse ficado um pouco feliz.

Para mim também era melhor assim. Se ela apenas recebesse o convite na mansão, pareceria mais uma cliente do que uma amiga, e isso me deixava um pouco triste.

Eu não queria distribuir convites como quem busca visitantes.

Queria convidar uma amiga.

Além disso…

Eu realmente queria conversar com Yuri sobre a mudança da Hinako. Pensei em pedir sua opinião na própria mansão, mas Hinako quase sempre estava ao meu lado.

Era difícil falar sobre ela na sua frente. Por isso resolvi mudar de lugar. Também queria permanecer ao lado da Hinako o máximo possível...

Mas a Hinako de agora ficava extremamente quieta quando estava na mansão. Depois de conversar com Shizune-san, concluímos que ela provavelmente ficaria bem. Ainda assim, por precaução, pedi que Shizune-san permanecesse ao lado dela até eu voltar. Só então vim encontrar Yuri.

— Por enquanto vou deixar cinco convites com você. Será que basta?

— Hum... Podemos convidar pessoas da nossa antiga escola?

Da nossa antiga escola. Ou seja… Pessoas que conheciam minha verdadeira identidade como um simples plebeu. Considerando minha posição atual, convidá-las representava um certo risco.

Mas eu já imaginava que Yuri faria essa sugestão.

— Achei que você fosse perguntar isso, então conversei antes com a Shizune-san. Ela disse que não há problema, desde que sejam apenas algumas pessoas em quem possamos realmente confiar.

— Entendido. Então hoje mesmo vou decidir para quem entregá-los e depois aviso você, só por garantia.

Isso seria uma grande ajuda.

...Estou um pouco nervoso. Mas também ansioso. Na antiga escola, eu vivia ocupado com o trabalho de meio período e quase não tive tempo para fazer amizades.

Graças à Yuri, que sempre fazia a ponte entre mim e os outros, nunca fiquei completamente isolado. Mesmo assim, nossos relacionamentos eram superficiais.

No fim, Yuri foi a única pessoa com quem continuei mantendo contato. Não chego a desejar poder voltar àquela época… Mas existem algumas pessoas com quem talvez eu pudesse ter me tornado amigo de verdade.

Estou ansioso para reencontrá-las durante o festival cultural.

— Meus pais também querem ir. Tudo bem convidá-los?

— Claro.

Eu podia confiar nos pais da Yuri. Afinal, eles eram os pais dela.

— A Konohana-san vai participar da peça, não vai? Estou ansiosa para assistir.

— Vai, sim. Tenho dado uma espiada nos ensaios de vez em quando, mas ainda não vi a peça completa. Então também estou ansioso.

— Ah... é verdade. O conselho estudantil não pode participar das atrações, né?

Era verdade… O trabalho do conselho estudantil era gratificante, mas havia momentos em que eu me sentia um pouco solitário.

— Já que estamos falando disso, por que não assistimos juntos? Você vai ver a peça de qualquer forma, não é?

— Boa ideia. Vamos fazer isso.

Assistir à peça com alguém parecia divertido. Poderíamos comentar nossas impressões depois.

...Embora, quando assisti à apresentação do ano passado na sala do Kagen-san, fiquei tão emocionado que não tive vontade de conversar com ninguém.

Bem, de qualquer forma, acho que ficaria satisfeito.

— Só por precaução, vou perguntar: você realmente vai ter tempo?

— Hã?

— Você não acabou marcando compromisso com um monte de gente, acabou?

Não fiz tantas promessas assim, então acho que vou conseguir...

Mas… Eu prometi acompanhar a Narika na atração de artes tradicionais. Também combinei de dançar uma música com a Tennouji-san.

Sem falar no trabalho do conselho estudantil. E, como responsável por cuidar da Hinako, também preciso permanecer ao lado dela...

....Hã?

De repente...

Comecei a sentir que não teria um único momento para descansar.

— Isso pode acabar sendo um problema.

— Hah. Não foi exatamente isso que eu disse? — Yuri suspirou. — Se ficar pesado demais, me avisa. Eu posso passear com outras pessoas, sabia?

— Não... mas eu quero passear com você, Yuri...

— Então……………….. dê um jeito de arrumar tempo.

Yuri respondeu, desviando o rosto. Para nós, que estamos sempre correndo atrás dos nossos objetivos, momentos de descanso são preciosos. Quero compartilhar esses momentos com ela.

— A propósito, Yuri.

— O quê?

— Tem uma coisa sobre a qual eu queria pedir sua opinião.

— Você vem pedir conselho para mim toda vez, hein?

Bem...

É porque você é confiável. Além disso, por você não estudar na Academia Kiou, de certa forma é mais fácil conversar.

Percebi que, hoje em dia, existem poucas pessoas ao meu redor capazes de opinar a partir da mesma perspectiva de um plebeu que eu.

— Yuri, você acha que é o tipo de pessoa que teria duas personalidades?

— Acho que não.

...Imaginei. O que eu faço agora? É difícil explicar a situação sem mostrar o caso real.

— É que... eu queria falar sobre atuação...

— Atuação...? Tem a ver com a peça?

— É... mais ou menos.

— Hmph... Bem, a Konohana-san está realmente se esforçando por causa da peça. Outro dia, inclusive, ela me perguntou se eu tinha alguns mangás sobre atuação para emprestar como referência.

Foi mesmo? Mas...

Esse motivo provavelmente era uma desculpa. Hinako não estava tendo tanta dificuldade assim para interpretar a personagem. Eu mesmo já havia ensaiado com ela algumas vezes, e ela pegou o jeito quase imediatamente.

Então...

Ela já estava preocupada com isso desde aquela época. Com seu verdadeiro eu… E com a ojou-sama perfeita.

— Quando foi isso?

— Hum... Na quarta-feira passada.

Naquele mesmo dia em que comecei a conversar naturalmente com todos da turma. Por um instante, lembrei da teoria da Narika. A hipótese de que Hinako estivesse com ciúmes porque eu havia começado a tratar todos de maneira mais natural.

...Mas, se fosse esse o motivo, a mudança deveria ser algo como ela começar a ficar grudada em mim o tempo todo, não?

É estranho até eu pensar isso.

— Que mangá você emprestou para ela?

— Ah, um bem comum. Aquele tipo de história em que o protagonista entra para o clube de teatro.

...Pode até ser um mangá comum.

Mas...

Hinako nunca gostou de atuar. Isso era óbvio. A atuação era algo que chegava ao ponto de fazê-la desenvolver febre.

No entanto...

Se uma Hinako assim lesse um mangá que retratasse a atuação de forma positiva… Será que isso não abalaria completamente seus valores? Aquilo que ela acreditava não ter valor...

Talvez, na verdade, tivesse. Eu mesmo havia sentido algo parecido recentemente. Bastou uma única frase da Narika.

"Eu gostei bastante da Konohana-san de agora."

Essas palavras não saíam da minha cabeça. E só agora eu entendia o motivo. Foi a primeira vez. A primeira vez em que o verdadeiro eu da Hinako… e não a ojou-sama perfeita…

Foi reconhecido e valorizado por outras pessoas. Ultimamente, sob o pretexto dos ensaios da peça, o lado preguiçoso da Hinako vinha sendo aceito. Mas aquilo só era tolerado porque ajudava a tornar a apresentação melhor.

A reação da Tennouji-san e da Narika foi diferente. As duas enxergaram aquela Hinako relaxada como uma característica dela mesma. Como parte da pessoa que ela era.

Achei isso estranho… E, ao mesmo tempo...

Fiquei feliz. Afinal... Não era exatamente isso que Hinako queria descobrir?

...Talvez.

Talvez Hinako estivesse se perguntando: "O que aconteceria se eu mostrasse quem eu realmente sou?"

Ver que eu comecei a agir naturalmente diante dos outros pode ter despertado nela o desejo de descobrir qual seria o resultado se ela também fizesse o mesmo. Ela queria descobrir qual era o verdadeiro valor de cada uma de suas facetas.

Do seu verdadeiro eu...

E da personagem da ojou-sama perfeita.

...Tenho a sensação de que estou certo.

Mas, se for realmente isso… Por quanto tempo ela pretende continuar assim? No fim das contas, o que a Hinako precisa encontrar para ficar satisfeita e voltar ao normal?

...E se ela simplesmente não tiver mais a intenção de voltar?

Até então, eu não havia considerado que pudesse ser uma mudança de decisão tão repentina. Mas, naquele momento, percebi mais uma vez que não havia garantia alguma de que Hinako voltaria a ser como antes.

Pelo que aconteceu durante o chá, se tudo continuar desse jeito, sua verdadeira personalidade acabará sendo descoberta.

E, quando isso acontecer… Nem mesmo Kagen-san poderá continuar fingindo que não percebeu.

Já faz meio ano desde que me tornei o responsável por cuidar dela. Durante todo esse tempo, observando Hinako e Kagen-san, senti o peso da responsabilidade que a família Konohana carrega.

Se Hinako não voltar ao normal...

Os próprios alicerces da família Konohana serão abalados. E, quando isso acontecer...

O que será de mim? E de todos ao redor da Hinako?

Eu sequer conseguia imaginar.

Mas...

Ao mesmo tempo...

Dizer para ela simplesmente voltar ao normal não é o papel de alguém que cuida dela. Já existem pessoas mais do que suficientes para dizer isso. Se pensarmos apenas no bem da família Konohana...

O melhor realmente seria que Hinako voltasse a ser a ojou-sama perfeita.

Eu sei disso.

Mas...

Isso não significaria negar quem a verdadeira Hinako é?

...Quero conversar com ela.

Pelo menos uma vez. Mas como? Pelo jeito, a própria Hinako acredita que seu estado atual é completamente natural.

— Hmm...

— Você está pensando nisso bem a sério, hein...

Enquanto eu permanecia mergulhado em pensamentos, Yuri apenas me observava em silêncio, sem interromper.

Sou grato por esse tipo de consideração.

— Para ser mais específico, não quero falar sobre atuação em uma peça... e sim sobre atuar nas relações entre as pessoas.

Enquanto dizia isso, olhei diretamente para Yuri.

— Yuri, você não costuma fingir ser outra pessoa diante dos outros, costuma?

— Claro que não. Não tenho paciência para uma coisa tão irritante.

— Ou será que você simplesmente não é boa o bastante para atuar?

— O que foi que você disse?

— Desculpa, desculpa! Então para com essa garra de ferro! Ai, ai, ai, ai, ai!!

Como cozinheira, Yuri mantinha as unhas bem curtas. Mas justamente por trabalhar na cozinha, a força dos seus dedos era absurda.

Ela apertava meu rosto com tanta força que parecia querer esmagá-lo.

Essas mãos são para cozinhar… Não para machucar as pessoas...!!

— Até eu mudo um pouco quando estou com outras pessoas além de você, sabia?

Yuri comentou, um pouco envergonhada.

— Quero dizer... você também muda sua maneira de agir dependendo de quem está na sua frente, não muda? Por exemplo, você age diferente comigo e com a Konohana-san, certo?

— Agora que você falou... é verdade.

No meu caso...

Acho que consigo ser mais eu mesmo quando estou com você, Yuri. Eu havia aprendido isso durante a visita à empresa no Management Game. Nós naturalmente ajustamos nossa postura dependendo da pessoa.

Conversamos de maneira animada com pessoas alegres. Falamos de forma mais tranquila com pessoas reservadas.

Fazemos isso o tempo todo. Mas, quando ficamos nervosos, esquecemos disso e tentamos impor nosso próprio jeito de agir. Talvez esse tipo de adaptação nem possa ser chamado de atuação.

Sem dúvida, é ao lado da Yuri que ajo da forma mais natural. Mas isso não significa que conversar com outras pessoas me deixe cansado.

Com a Hinako… Talvez seja diferente. Para ela, talvez interpretar um papel seja algo tão pesado que acabou precisando criar praticamente outra personalidade.

Enquanto refletia sobre isso, Yuri abriu um sorriso convencido.

— Que cara é essa?

— Nada... Só estava pensando que sou a pessoa diante de quem você mais mostra quem realmente é.

Droga...

Eu não devia ter falado aquilo. Como as palavras simplesmente escaparam da minha boca, também não consegui negar.

— Você também é assim comigo, Yuri.

— O-O quê!? E-Eu nunca disse uma coisa dessas!!

— Então estou errado?

— Ugh...

Yuri ficou completamente sem resposta.

— B-Bem... é que... com você é diferente...

— Viu só?

— Cala a boca!! Nem olha para mim!!

...Hm?

Seu rosto estava completamente vermelho. Eu queria aproveitar um pouco mais essa rara oportunidade de inverter os papéis. Mas lembrei que ainda precisava conversar sobre algo importante.

— Por exemplo...

Talvez percebendo que meu tom havia ficado sério, Yuri voltou a olhar para mim, ainda com o rosto corado.

— Imagine que acontecesse justamente o contrário com você.

— O contrário?

— Você fingisse ser outra pessoa apenas quando estivesse comigo... mas mostrasse seu verdadeiro eu para todo mundo. Qual você acha que seria o motivo?

— Então você está perguntando por que eu esconderia meu verdadeiro eu justamente de você?

— Isso.

Eu sabia que era uma pergunta difícil. Esperei em silêncio enquanto Yuri refletia por alguns instantes.

— Hmm... Bem... a primeira coisa que me vem à cabeça é que nós dois teríamos brigado... e acabado nos afastando.

— Você e eu?

— Não parece muito provável.

— Nem um pouco.

Podíamos até discutir de vez em quando. Mas eu simplesmente não conseguia imaginar um futuro em que nossa relação se deteriorasse a esse ponto.

E o mesmo valia para a Hinako. Se minha relação com a Hinako algum dia fosse rompida, provavelmente seria por causa da diferença entre nossas posições sociais.

Mas eu me esforçava todos os dias justamente para superar essa barreira. E, recentemente, vinha obtendo resultados aos poucos. Pelo menos, não acredito que a origem da família tenha qualquer relação com a mudança recente da Hinako.

— Tem mais alguma possibilidade?

— Hum... Essa também é meio difícil de imaginar, mas...

Yuri respondeu com certa hesitação. Parecia constrangida até para colocar aquilo em palavras.

— Porque... talvez você gostasse mais de mim se eu fingisse ser outra pessoa.

Ela falou num tom muito mais baixo que o habitual, claramente envergonhada.

— Gostasse de você...

— G-Gostar como pessoa, tá bom!? Como ser humano! Não vai entender errado!!

— Eu sei, mas...

— Talvez eu devesse simplesmente contar tudo de uma vez...

De repente, a expressão de Yuri ficou séria. Eu estava tão concentrado nos meus próprios pensamentos que nem lembrava exatamente do que havia acabado de dizer.

...Será que falei alguma besteira?

— Mas... isso não seria muito doloroso? Ser querido por alguém apenas porque está interpretando um papel...

Eu sabia melhor do que ninguém o quanto era difícil receber o carinho das pessoas usando uma máscara.

Bastava olhar para a Hinako. Mas Yuri não demonstrou concordar. Em vez disso… Ela abriu um sorriso gentil.

— Eu não acho, sabia?

Sua voz era calma.

— Quando é por alguém de quem você gosta... interpretar um pequeno papel não é um grande sacrifício.

Ela fez uma breve pausa antes de completar:

— Principalmente para nós, garotas.

◆

Voltei para a mansão pouco antes do jantar. Como já estava ficando tarde, Yuri insistiu para que eu comesse no Hiramaru, mas eu estava preocupado com a Hinako e preferi voltar.

Assim que entrei, encontrei Shizune-san dando instruções às empregadas.

— Voltei.

— Bem-vindo de volta, Itsuki-san.

— Como está a Hinako?

Ao ouvir minha pergunta, Shizune-san fez uma pequena pausa. Como se estivesse prestes a contar algo inacreditável.

— A ojou-sama está ajudando Kagen-sama no trabalho.

Por um instante… Minha mente ficou completamente em branco. Ela já vinha estudando por conta própria desde que voltava para a mansão.

Pensando bem, considerando a Hinako de agora, isso nem era tão estranho.

Mas...

Ela tinha ido tão longe assim? Pelo visto, os dois estavam no escritório.

Decidi ao menos passar lá para cumprimentá-los. Se eu estivesse atrapalhando, bastava sair em seguida.

— Com licença.

Bati à porta do escritório. Depois de ouvir um "Pode entrar" de Kagen-san, abri a porta.

— Ah, Tomonari-kun. Bem-vindo de volta.

— Estou em casa.

Ao lado da mesa de Kagen-san, Hinako sorriu ao me ver. Ela estava mesmo ajudando no trabalho...

Quando olhei para Kagen-san, nossos olhares se encontraram. Ele parecia um pouco incomodado. Até mesmo o grande Kagen-san parecia não saber como lidar com essa nova Hinako.

— Pai, já que Tomonari-kun chegou, que tal deixarmos que ele nos ajude também?

A sugestão saiu da boca da Hinako com toda a naturalidade. Eu fiquei surpreso.

— Mas... não existem informações confidenciais ou segredos comerciais?

— Não importa.

Kagen-san respondeu sem hesitar.

— Você não é o tipo de pessoa que sairia espalhando esse tipo de informação, é?

Tenho a impressão de que o problema vai muito além de simplesmente espalhar boatos...

...Ou será que já passamos desse ponto?

Afinal, fui eu quem participou de uma reunião de acionistas escondendo minha verdadeira identidade. Se estavam me conduzindo cada vez mais para essa zona cinzenta por confiarem em mim...

Então o mínimo que eu podia fazer era corresponder a essa confiança. E, se possível, transformar isso em algo positivo. Kagen-san bateu de leve na tampa do notebook sobre sua mesa.

Entendi que ele queria que eu o pegasse. No mesmo instante, Hinako bateu com o dedo na própria mesa.

— Tomonari-kun, venha para cá.

— Tá.

Peguei o notebook e fui para o lado dela.

...Quem diria que eu acabaria trabalhando lado a lado com Hinako em assuntos do Grupo Konohana.

Coloquei o notebook sobre a mesa que algum funcionário provavelmente havia preparado para ela. Havia também uma cadeira reserva encostada na parede.

Resolvi usá-la.

...Espera.

Por que havia uma cadeira sobrando ali? Será que Hinako já esperava, desde o começo, que eu fosse ajudá-la? Será que ela queria que eu aprendesse mais sobre o Grupo Konohana?

...Estou pensando demais?

Abri o notebook e comecei a me preparar para trabalhar. Enquanto isso, Hinako e Kagen-san continuavam a conversa.

— Pai, sobre a melhoria do sistema de shared services, vários investidores apresentaram opiniões diferentes, então organizei todas elas neste relatório.

— Ignore a proposta de BPO. Nossa prioridade é estabilizar a estrutura de governança, que ainda está em fase inicial. Explique melhor os pontos que garantem a singularidade do projeto.

Uau...

Droga...

Mal consigo acompanhar o assunto. Dava para perceber que eles estavam falando sobre a administração das empresas do grupo.

Shared services...

Se bem me lembro, é o sistema de centralizar atividades como contabilidade, recursos humanos e administração, que normalmente ficam espalhadas entre várias subsidiárias, em um único departamento.

Já BPO significa terceirizar essas funções. E governança corporativa trata da forma como a empresa é administrada e supervisionada.

Ou seja...

Os investidores estavam sugerindo terceirizar essas áreas administrativas. Já Kagen-san queria fortalecer a estrutura interna da empresa.

...Certo.

Com calma… Acho que consigo acompanhar a conversa. Ainda bem que levei a sério os estudos sobre a administração de empresas de um grupo durante o Management Game, quando veio à tona o escândalo do acobertamento do recall na empresa da Hinako.

Quando abri o notebook, encontrei um arquivo que estava sendo editado. Acho que posso ajudar com isso. Era uma simulação da transferência de operações para aprimorar os serviços compartilhados... Isso realmente parece trabalho de um gerente.

Pelo visto, eles querem calcular quanto benefício pode ser obtido ao centralizar a gestão das tarefas administrativas que hoje estão espalhadas entre as empresas do grupo. Se esse projeto for concluído, deve ser fácil conseguir a aprovação não apenas dos funcionários das empresas do grupo, mas também dos investidores.

— Itsuki-kun, tem alguma coisa que você não entendeu?

— Estou bem. Vou tentar terminar isso por enquanto.

Os serviços compartilhados abrangerão quatro empresas, todas incorporadas recentemente ao grupo.

Hum... entendi.

Eu achava estranho que até mesmo o gigantesco Grupo Konohana não tivesse uma estratégia consolidada de gestão integrada, mas agora faz sentido. O número de subsidiárias aumentou por causa das constantes cisões e fusões e aquisições, tornando a administração muito mais complicada.

É como fazer uma manutenção periódica na gestão. Nesse caso, esse tipo de trabalho provavelmente já foi repetido inúmeras vezes, então deve existir algum procedimento operacional padrão. Vou procurar... Ah, encontrei.

Por enquanto, vou seguir o documento enquanto trabalho e, se surgir alguma dificuldade, peço ajuda ao Kagen-san.

Assim, mergulhei completamente no trabalho, e um longo silêncio tomou conta do escritório. No entanto, minha concentração não durou muito.

...Hinako.

Será que a Hinako consegue mesmo se concentrar?

Pensando nisso, lancei um olhar para o lado. Hinako percebeu meu olhar, virou-se para mim e nossos olhos se encontraram. Ela sorriu suavemente antes de voltar a encarar o monitor, retomando o trabalho.

Aquela imagem certamente representava o ideal esperado de alguém destinado a carregar o futuro da família Konohana.

Mas... será que esse também era o ideal da própria Hinako?

Dedos finos, postura impecável e uma aparência levemente frágil.

Essa Hinako trabalhadora, que sempre se esforça além dos próprios limites... será que esse é realmente o sonho dela? Ou sou eu quem está sendo egoísta ao pensar assim?

...Talvez seja mesmo apenas egoísmo meu. Lembrei-me do que Yuri havia dito. A possibilidade de que todas as minhas preocupações fossem infundadas começou a parecer real.

— Hinako, leve estes documentos para a Shizune.

— Entendido.

Depois de receber os documentos das mãos de Kagen-san, Hinako fez uma reverência respeitosa na porta antes de deixar a sala.

— Ufa.

Assim que ficamos sozinhos, Kagen-san soltou um longo suspiro. Parei de trabalhar e olhei para ele.

Kagen-san também havia interrompido o serviço e estava recostado na cadeira, olhando para o teto.

Ao vê-lo daquele jeito, entendi imediatamente. Ele havia mandado Hinako sair justamente para poder conversar comigo a sós.

— É estranho... Antigamente eu acreditava que essa Hinako era o ideal...

A voz de Kagen-san soava como uma confissão. Era verdade. Quando o conheci, Kagen-san desejava acima de tudo que Hinako fosse uma ojou-sama perfeita.

Mas agora... seus próprios valores pareciam estar vacilando. Todos haviam mudado desde então.

Eu.

Hinako.

Shizune-san.

E o próprio Kagen-san.

— Na academia, algumas pessoas já começaram a perceber qual é a verdadeira personalidade da Hinako. Considerando o grau de proximidade delas com ela, acho que é apenas uma questão de tempo até que descubram tudo.

— Entendo... De qualquer forma, quando o festival cultural terminar, a desculpa de que ela está apenas ensaiando para a peça deixará de funcionar. Até lá, ela terá que voltar ao normal, mas...

Ao dizer isso, Kagen-san voltou os olhos para a porta por onde Hinako havia saído.

— Mesmo assim, o que mais me surpreende é perceber que já não consigo achar que isso possa continuar.

Enquanto dizia isso, massageou as rugas entre as sobrancelhas. Como responsável por cuidar da Hinako, fiquei feliz ao ouvir aquelas palavras.

Ele estava dizendo que, mesmo deixando de lado os interesses da família Konohana, não era certo permitir que a Hinako continuasse vivendo daquela maneira. Parece que Kagen-san finalmente começava a compartilhar dos mesmos sentimentos que eu.

— Talvez seja porque a Hinako de agora me lembra minha esposa.

Ao murmurar isso baixinho, seu semblante pareceu tomado pela solidão.

— Perdoe a indiscrição, mas... a mãe da Hinako já...

— Faleceu. Quando aquela menina tinha cinco anos.

— Meus sentimentos.

Kagen-san respondeu com calma, mas era evidente que carregava emoções difíceis de lidar. A aliança em seu dedo anelar contava essa história por si só.

Mas... quando Hinako tinha cinco anos...

Já tinha ouvido essa informação antes. Se não me engano...

— Foi nessa mesma época que Takuma-san passou a morar em outra mansão, não foi?

— Você sabe bastante coisa.

Foi Shizune-san quem me contou isso quando Hinako desmaiou de febre na minha frente pela primeira vez. Takuma-san deixou esta mansão quando Hinako tinha cinco anos e passou a viver em outra residência da família.

— A separação de Takuma-san aconteceu por causa da morte da mãe da Hinako?

— Sim.

A morte da mãe de Hinako. E a saída de Takuma-san.

Talvez por eu ter ligado esses dois acontecimentos de uma forma que ele não esperava, Kagen-san acabou falando, com um ar resignado.

— Isto diz mais respeito à minha vida pessoal do que aos assuntos da família Konohana. Então, por enquanto, gostaria que mantivesse isso em segredo... A causa da morte da minha esposa foi excesso de trabalho.

Baixando o olhar, ele continuou.

— Ela sempre dizia para mim, que sofria sob a pressão de ser o herdeiro da família: "Está tudo bem ser você mesmo." Mas acabaram se aproveitando da bondade dela.

Kagen-san entrelaçou os dedos com força. Por um breve instante, percebi Kagen-san acariciando delicadamente a aliança em seu dedo.

— A morte da minha esposa foi um divisor de águas para a nossa família. Eu decidi me tornar apenas uma engrenagem do Grupo Konohana. Já Takuma fez o oposto: começou a questionar o próprio sistema da família Konohana. E Hinako, que ainda era uma criança, passou a interpretar o papel da ojou-sama perfeita por minha ordem.

Ao que parecia, a morte da esposa de Kagen-san havia mudado completamente a vida de todos daquela família.

Era óbvio.

Hinako não poderia estar representando esse papel desde que nasceu. Em algum momento, algo precisou acontecer para obrigá-la a agir daquela forma.

— Com licença, posso fazer uma pergunta extremamente indiscreta?

— Você sempre é indiscreto.

Hã...?

...Eu sabia que estava longe de ser uma pessoa perfeita, mas nunca imaginei que fosse visto dessa maneira. Enquanto eu assimilava o golpe, Kagen-san soltou um pequeno suspiro.

— Mas, às vezes, se ninguém tiver coragem de se intrometer, as pessoas nunca conseguirão se entender. ...Você sempre escolhe o momento certo para fazer isso, e eu reconheço esse mérito. Então pare de se preocupar com coisas desnecessárias.

...Isso foi um elogio?

Acho que não preciso mais hesitar em fazer esse tipo de pergunta. Foi o próprio Kagen-san quem disse isso. Então resolvi aceitar suas palavras.

— Sua esposa morreu por excesso de trabalho... então por que obriga a Hinako a sustentar uma atuação tão pesada?

Tão pesada a ponto de ela acabar tendo febre e desmaiando… Bastava olhar para perceber que Kagen-san ainda amava profundamente sua falecida esposa. Por isso, eu não conseguia entender por que ele impunha um fardo tão cruel à própria filha.

Ao ouvir minha pergunta, porém, Kagen-san soltou uma breve risada.

— Hahaha...

— Excesso de trabalho de verdade não é nada parecido com isso. ...Na realidade, é justamente essa atuação que impede que ela chegue a esse ponto.

Naquele instante, enxerguei uma escuridão profunda em seus olhos. Excesso de trabalho... de verdade. Aquilo devia estar em um nível completamente diferente de simplesmente pegar uma febre ou ficar de cama.

...É claro.

Afinal… As pessoas morrem por causa disso.

— Você não acha que eu obrigo a Hinako a fazer isso porque gosto, acha?

— Claro que não.

Logo depois de eu voltar a ser oficialmente o cuidador dela, durante aquela festa da alta sociedade, fiz uma pergunta a Kagen-san.

"Precisa mesmo ser a Hinako?"

E ele respondeu, sem hesitar:

"Se existisse alguém para substituí-la, eu mesmo aproveitaria essa oportunidade."

— Vejo que você possui um talento parecido com o do Takuma.

Kagen-san fez um gesto para que eu me aproximasse. Quando cheguei perto, ele girou o notebook para que eu pudesse ver a tela.

— Estes são relatórios enviados pelas empresas do grupo. Há de tudo aqui: propostas de novos negócios, investimentos de capital, auditorias contábeis... Não importa o conteúdo. Apenas leia.

Sem entender muito bem sua intenção, mas interessado, comecei a examinar os documentos.

Havia relatórios de inúmeras empresas do grupo. Cada um pertencia a um setor diferente, tinha um formato diferente e tratava de assuntos completamente distintos.

Mas…

Todos possuíam algo em comum.

— Hã?

O que é isso? Que sensação repugnante é essa?

O talento que Takuma-san reconheceu em mim — a capacidade de enxergar o que existe por trás dos dados — começou a reagir.

Os rostos dos administradores escondidos por trás daqueles relatórios. Os gritos deles...

Quero lucrar.

Eu conseguia ouvir vozes manchadas pela ganância.

Enganar. Exagerar. Dominar. Intimidar. Governar. Explorar. Estar acima dos outros. Desprezar. Saquear. Rir. Relaxar. Brincar.

Uma tempestade de egoísmo grotesco.

Os gestores por trás daqueles documentos não pensavam em nada além de satisfazer seus próprios desejos.

Era uma sujeira...

Infinita.

— Ugh...

Ao sentir aquela torrente de desejos tão crus, meu estômago revirou. Era como se enfiassem meu rosto dentro de uma vala de lama. Senti vontade de vomitar.

— Você reagiu exatamente da mesma forma que o Takuma reagia.

Ao me ver cobrindo a boca, Kagen-san lançou-me um olhar cheio de compreensão. Eu entendia. Principalmente depois de ter passado pelo Management Game. Aquilo não podia ser chamado de gestão saudável.

Para ser sincero… Era completamente anormal.

O Grupo Konohana era um lugar estranho.

— Quando chega a esse nível, até eu consigo perceber alguma coisa. A alta cúpula do Grupo Konohana está cheia desses velhos raposas ardilosos.

Kagen-san fechou o notebook e continuou.

— Para lutar contra monstros, não há alternativa além de trabalhar friamente e continuar entregando resultados. Foi isso que quis dizer quando decidi me tornar apenas uma engrenagem. E...

Sua expressão tornou-se pesada.

— Como eu não sou forte o bastante para enfrentar isso sozinho, acabei arrastando a Hinako junto comigo.

Diante daquela confissão silenciosa, permaneci calado.

Provavelmente… aquela era toda a verdade. Contar-me aquilo era a forma de sinceridade que Kagen-san podia oferecer.

— Traga a Hinako de volta ao normal. É muito melhor vê-la relaxando nesta casa do que deixando sua verdadeira personalidade escapar diante das pessoas lá fora.

Ao terminar de falar, Kagen-san abaixou profundamente a cabeça. Aquela reverência não era dirigida apenas a mim.

Parecia que Kagen-san também curvava a cabeça diante do peso da própria impotência.

Pouco antes, ele havia demonstrado preocupação com a Hinako atual por motivos que não tinham relação com a família Konohana. No entanto, sua posição não lhe permitia agir conforme os próprios sentimentos. Por isso, reprimiu suas emoções e recorreu a mim.

Pediu minha ajuda dizendo que, se aquilo continuasse, a família Konohana teria problemas...

...engolindo as palavras que realmente queria dizer: "Estou preocupado como pai."

Tenho uma enorme dívida de gratidão com Kagen-san. Foi por ter sido acolhido pela família Konohana que toda a minha vida mudou.

Graças aos encontros preciosos e às inúmeras experiências que vivi, sinto que cresci muito como pessoa. Por isso, se eu puder, quero compensar a fraqueza que Kagen-san acredita ter.

Era isso que eu pensava, mas mesmo assim...

— Sinto muito... não posso fazer essa promessa.

Kagen-san ergueu a cabeça. Provavelmente imaginou que, desta vez, nossos objetivos finalmente coincidiam. E, de fato, até pouco tempo atrás eu compartilhava exatamente das mesmas preocupações.

Será que isso não está indo longe demais?

Nesse ritmo... a Hinako não vai acabar desmoronando?

Mas, depois de conversar com Yuri, comecei a enxergar outra possibilidade. Talvez o que eu devesse sentir...

...não fosse preocupação.

— Em vez disso, posso lhe fazer outra promessa.

O que eu precisava fazer era algo muito mais simples.

— Aconteça o que acontecer, eu continuarei ao lado da Hinako.

Mesmo a parte que Kagen-san não podia assumir por causa das responsabilidades de sua posição… Eu permaneceria ao lado dela.

Dessa forma, talvez eu pudesse compensar sua impotência, mesmo sendo apenas quem eu sou hoje.

Pensando bem...

Eu não precisava quebrar a cabeça com questões tão complicadas. Eu sou o cuidador da Hinako.

Só isso já bastava.

◆

Saí da sala e caminhei pelo corredor, perguntando aos empregados que encontrava se haviam visto a Hinako. Pouco depois, encontrei-a vindo na minha direção pelo outro lado do corredor.

— Hinako.

— Tomonari-kun? Já terminou de ajudar o papai?

— Ah... sim. Mais ou menos.

Não dava exatamente para dizer que eu tinha saído porque o clima ficou estranho. Bom, de qualquer forma, já tínhamos chegado a um bom ponto de parada, então não havia problema.

— Que bom. Tomonari-kun, você tem algum compromisso amanhã?

— Amanhã? É domingo, então... não.

— Nesse caso... gostaria de assistir a uma peça comigo?

Uma peça? Inclinei a cabeça, intrigado, e Hinako explicou.

— Uma colega de classe me deu dois ingressos. Ela disse que a peça poderia servir de referência para nós. Também falou que eu poderia ir sozinha, mas os lugares são muito bons, e seria um desperdício. Então pensei que gostaria de assistir com você, Tomonari-kun.

Entendi a situação. Ainda assim, fiquei surpreso por ser a própria Hinako quem queria sair em um dia de folga.

Entendo...

A Hinako de sempre teria recusado sair num domingo nem que precisasse se agarrar à cama com todas as forças. Mas, para a "ojou-sama perfeita", passar o dia de folga saindo era algo perfeitamente natural.

— Claro. Mas tem certeza de que quer ir comigo? Se a ideia é usar a peça como referência, não seria melhor convidar algum colega que também vai atuar?

— Se o único objetivo fosse estudar, talvez.

Hinako respondeu, um pouco envergonhada.

— Mas é um dia de folga... então quero priorizar me divertir.

— Entendi.

Era agradável. Uma honra. E... um pouco constrangedor.

...Na verdade, isso acabou sendo perfeito.

Eu também estava pensando em fazer alguma coisa com a Hinako no dia seguinte. Minha ideia era passarmos o tempo na mansão, mas, se ela mesma queria sair, seria ainda mais conveniente para mim.

— Então amanhã vamos assistir à peça juntos.

— Sim. Estou ansiosa.

Fiquei apenas olhando para o sorriso radiante estampado no rosto de Hinako. Passei tanto tempo preocupado com essa mudança nela.

Conversei com Shizune-san.

Conversei com Tennouji-san.

Conversei com Narika.

Conversei com Yuri.

Até conversei com Kagen-san.

E, por fim...

Cheguei à minha própria conclusão. Por que eu não tinha feito isso desde o começo?

Decidi simplesmente aproveitar, sem reservas, todos os dias que passasse ao lado da garota preciosa diante de mim.

◆

No dia seguinte, fomos de carro até o teatro usando um veículo disponibilizado pela família Konohana. Depois de descermos, seguimos juntos em direção à entrada.

— Então este é o teatro...

O edifício parecia encaixar-se perfeitamente na elegante paisagem urbana, cercado por prédios comerciais e escritórios, como se fosse uma peça de um quebra-cabeça.

Era um dos teatros mais tradicionais do país. Sua arquitetura era simples e horizontal, mas as colunas negras e os discretos tons de marrom transmitiam uma elegância refinada.

A maioria das pessoas que entrava no prédio eram senhoras muito bem vestidas.

— Você já veio aqui antes, Hinako?

— Algumas vezes. Mas não posso dizer que esteja acostumada.

Talvez estivesse dizendo isso apenas para me deixar mais à vontade, mas ela realmente não parecia frequentar aquele lugar com frequência.

A Hinako em seu estado natural sempre preferia ficar tranquila e, tirando os compromissos sociais, quase nunca saía de casa.

Certo, vamos entrar…

Mas antes…

Olhei para o relógio.

— Ainda temos um tempo antes de a apresentação começar.

Como tínhamos planejado chegar cedo para evitar qualquer imprevisto e também imaginávamos que passaríamos algum tempo passeando pela região, acabamos chegando com duas horas de antecedência. Acho que exageramos um pouco.

Enquanto pensava em como matar o tempo, Hinako apontou para um prédio alto nas proximidades.

— Que tal passarmos um tempo naquela loja de departamentos?

— Boa ideia.

Começamos a caminhar e tive a impressão de que alguns adultos ao nosso redor também passaram a acompanhar nossos passos.

Os seguranças da família Konohana certamente estavam nos protegendo à distância, sem chamar atenção.

Aquela região era conhecida pelas lojas de grifes de luxo, então tudo era muito bem organizado. Ainda assim, por causa do grande fluxo de pessoas, não dava para dizer que fosse totalmente segura. Havia muitos turistas estrangeiros, e táxis iam e vinham o tempo todo.

...Melhor eu caminhar pelo lado mais próximo da rua, por precaução.

Fingindo me interessar por uma vitrine do outro lado da avenida, troquei discretamente de lugar com Hinako.

Ela sorriu de leve e disse:

— Muito obrigada.

Ela percebeu imediatamente o que eu estava fazendo...

Nossa...

Que vergonha. Queria conseguir escoltá-la de maneira tão natural que ela nem percebesse.

O semáforo para pedestres ficou vermelho, então paramos para esperar. Enquanto aguardávamos, olhei instintivamente para Hinako.

Nossos olhares se encontraram.

— Aconteceu alguma coisa, Tomonari-kun?

— Não... é que...

Pensando bem, ainda não tinha dito aquilo. Resolvi aproveitar a oportunidade.

— Esse vestido ficou muito bonito em você.

A Hinako de sempre preferia roupas casuais e confortáveis, fáceis de se movimentar.

Mas hoje ela estava diferente. Usava um vestido de peça única, adornado por delicados babados.

O tom marrom-chocolate e o padrão xadrez lhe davam uma aparência elegante e, ao mesmo tempo, delicadamente feminina.

— Obrigada. Fico feliz por ter me esforçado.

Hinako sorriu timidamente, claramente satisfeita. Mesmo sem colocarmos isso em palavras, a saída de hoje era, sem dúvida alguma, um encontro. E ver Hinako se dedicar tanto para isso fez meu coração disparar.

Talvez ela estivesse apenas sendo educada. Mesmo assim, era impossível impedir minha imaginação de ir além.

Não eram apenas as roupas. A maquiagem leve, os cabelos cuidadosamente escovados, lisos e brilhantes...

Tudo mostrava o tempo e o carinho que ela havia dedicado àquela ocasião. Para esconder a confusão dentro de mim, desviei o olhar e segui em direção à loja de departamentos.

Assim que entramos no prédio, que parecia tão tradicional quanto o próprio teatro, acabei parando por um instante diante da atmosfera solene do lugar.

— Pensando bem... esta é a primeira vez que entro numa loja de departamentos.

— É mesmo?

Hinako olhou para mim como se tivesse encontrado algo incomum.

Embora, pensando bem, não me parece tão comum um estudante do ensino médio frequentar lojas de departamentos...

Mas será que é mesmo? Talvez alguém como a Yuri venha aqui com frequência.

Mesmo antes de me tornar o cuidador da Hinako, minha vida já estava longe de ser comum. Às vezes acabo perdendo a noção do que pode ser considerado normal.

— O Grupo Konohana possui alguma loja de departamentos?

— Diretamente, não. Mas temos uma empresa responsável pelo desenvolvimento de complexos comerciais de porte semelhante.

— A Konohana Real Estate, certo? Uma das maiores empresas do grupo.

— Ora... então você realmente andou estudando.

Claro que sim. Depois de conquistar a confiança de Kagen-san, passei a estudar mais sobre o Grupo Konohana.

A atmosfera daquela loja de departamentos era única. As vitrines exibiam joias, relógios e outros produtos das marcas mais prestigiadas do mundo.

Só de imaginar esbarrar em alguma peça e derrubá-la, meu coração já quase parava. Talvez por isso quase não houvesse crianças correndo por ali.

A impressão era de que aquele ambiente tranquilo existia justamente porque era frequentado por pessoas elegantes, completamente acostumadas ao luxo.

...Esse clima lembra bastante a Academia Kiou.

E eu, naturalmente, fazia parte do grupo das pessoas que se sentiam intimidadas. Enquanto observava as roupas expostas em uma boutique, deixei escapar um pequeno suspiro.

Tudo aqui é absurdamente caro...

Embora...

O vestido da Hinako provavelmente custe ainda mais. Enquanto pensava nisso, Hinako inclinou levemente o rosto para observar minha expressão.

— Está procurando roupas?

— Não exatamente... Estou olhando mais para os preços do que para as roupas.

Meu olhar estava completamente preso às etiquetas de preço, e não às peças expostas. Ao ver meu olhar preso às etiquetas de preço, Hinako inclinou a cabeça, confusa.

— Mas, Tomonari-kun, você ganha dinheiro, não é? Nunca tinha parado para perguntar antes... no que você costuma gastar o seu salário?

………....

Então finalmente chegou essa pergunta. Como Hinako disse, na verdade eu ganho um bom dinheiro.

Meu salário como cuidador é de vinte mil ienes por dia. Como praticamente não tenho folgas, recebo pelo menos seiscentos mil ienes por mês. Além disso, moro na mansão, então não gasto com aluguel nem alimentação.

É um emprego tão vantajoso que qualquer recém-formado provavelmente teria vontade de me estrangular se soubesse.

Em condições normais, minhas economias deveriam estar aumentando rapidamente...

...Deveriam.

— Bem... eu compro ternos para usar nos eventos da alta sociedade, sapatos... relógios...

— Ué? Mas as roupas de trabalho não são fornecidas para você?

— São, mas... eu não consigo ficar à vontade usando aquelas roupas. Elas são tão caras que fico o tempo todo preocupado em manchá-las. Então, ultimamente, peço apenas que a Shizune-san aprove os modelos e compro tudo com o meu próprio dinheiro.

Na verdade...

Eu não tinha tanta folga financeira quanto parecia.

— Se isso é o que faz você feliz, tudo bem... mas o dinheiro que você ganha trabalhando deveria ser usado para você mesmo, sabia?

— Ugh...

Aquilo soou como uma bronca. E foi incrivelmente constrangedor. Eu já imaginava que ela diria algo assim.

Foi justamente por isso que preferia esconder esse assunto. Mas os ternos fornecidos pela família Konohana custam facilmente duzentos ou trezentos mil ienes.

Quando participo de alguma recepção da alta sociedade em que as pessoas ficam em pé conversando, passo o tempo inteiro preocupado em não sujar a roupa, a ponto de nem conseguir aproveitar a comida.

Como também não posso relaxar e acabar descuidando da etiqueta, acabei optando por comprar meus próprios ternos.

Ainda assim...

Difícil dizer que isso seja um gasto feito para meu próprio prazer.

Agora que penso nisso... faz tempo que não compro alguma coisa simplesmente porque eu quero.

Na época em que era apenas um estudante sem dinheiro, eu fazia bicos apenas para conseguir sobreviver.

— Pelo visto, vou ter que ensinar isso a você.

Os olhos de Hinako brilharam de repente, cheios de determinação.

— Antes de irmos ao teatro, vamos comprar alguma coisa nesta loja de departamentos. Hoje eu vou acompanhar você nas compras.

...Surgiu um objetivo completamente inesperado.

Mas talvez essa fosse uma boa oportunidade. Ao meu lado estava Hinako, a ojou-sama perfeita.

Normalmente sou eu quem cuida dela, e isso nunca me incomodou.

Mas...

Talvez, desta vez, eu pudesse deixá-la cuidar um pouco de mim.

◆

— Primeiro de tudo, precisamos comprar roupas.

— Roupas, é...

Nossa primeira parada foi justamente a loja de roupas que ficava logo à nossa frente. Seria mentira dizer que eu não tinha interesse.

Depois de me tornar cuidador, acabei tendo a oportunidade de usar peças de diversas marcas famosas.

Mas isso se limitava às roupas formais para eventos da alta sociedade. Era um universo completamente diferente da moda e das tendências que os estudantes do ensino médio costumavam seguir.

Meu interesse se resumia a ternos e sapatos de couro. Não entendia praticamente nada sobre jeans, jaquetas ou tênis. Além disso, como Hinako era do tipo que preferia ficar em casa, nunca houve necessidade de comprar roupas casuais para sair.

Já que a oportunidade apareceu...

Talvez eu compre pelo menos um conjunto.

...Quando estamos lado a lado, eu pareço tão sem graça.

Olhei para nosso reflexo no espelho. Enquanto Hinako usava um vestido delicado e cheio de charme, eu estava vestido apenas com uma camisa simples e uma calça social.

— Que tal experimentar alguma coisa que chama sua atenção?

— Já que estamos aqui, por que você também não experimenta alguma roupa, Hinako? Ficar só esperando deve ser entediante.

— Não. Acho que vou me divertir vendo você experimentar várias.

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Entendi...

Nesse caso...

Sem nenhuma vergonha...

Vou experimentar um monte de roupas!

Peguei todas as peças que chamaram minha atenção e fui direto para o provador.

Primeiro, uma combinação segura: jaqueta com jeans.

— Nossa, ficou muito bonito em você.

Depois, um visual mais descontraído, com uma camisa oversized.

— Acho que ficou bem estiloso.

Em seguida, um look mais rebelde, com moletom e calças de nylon.

— Fufu... esse ficou um pouco... fufufu...

Depois, uma regata com uma camisa transparente por cima, tentando um visual mais ousado.

— Acho melhor deixar essa opção de lado.

Talvez eu tenha escolhido as roupas de forma um pouco aleatória demais.

Depois de experimentar tudo o que tinha separado, fechei novamente a cortina do provador e peguei minhas roupas de sempre para me trocar.

Foi então que Hinako falou do lado de fora.

— Tomonari-kun, poderia vestir novamente o primeiro conjunto?

— Hã? Claro...

Deixei minha velha calça social no chão e coloquei outra vez a jaqueta com o jeans.

Assim que abri a cortina...

Clique.

Ouvi o som da câmera do celular de Hinako.

— Pessoalmente, acho que esse foi o que mais combinou com você. Então vou mandar uma foto para a Shizune, só para confirmar.

Realmente. Boa ideia. Hinako enviou a foto para Shizune-san.

— Ah... ela respondeu.

...Não foi rápido demais?

Shizune-san…

Você está trabalhando mesmo?

Hinako mostrou a tela, e nós dois lemos a resposta juntos.

"O julgamento da ojou-sama está correto. No entanto, considerando o porte físico do Itsuki-san, acredito que tanto a parte de cima quanto a de baixo poderiam ser um tamanho menor. As tendências atuais mostram uma separação bem definida entre o formal e o casual, então o mais seguro é buscar um equilíbrio entre os dois. Porém, quando um estudante do ensino médio exagera no estilo casual, acaba transmitindo uma imagem infantil. Como o Itsuki-san tem um rosto naturalmente jovem, recomendo manter um visual mais limpo e compensar a simplicidade com acessórios..."

— Uau...

Acabei deixando escapar em voz alta. Enquanto eu ainda estava impressionado, Hinako lia a mensagem com um sorriso satisfeito.

— Acho que nunca vi uma mensagem tão longa da Shizune.

— Antes de eu me tornar seu cuidador vocês não conversavam assim?

— Não... Desde que você chegou, Tomonari-kun, sinto que a Shizune está muito mais descontraída.

Bem...

Ela chegou até a fazer cosplay e me pedir para tirar fotos dela.

— Que tal comprarmos alguma coisa seguindo os conselhos da Shizune?

— A ideia é boa, mas... se vou comprar roupas, acho melhor estudar um pouco sobre moda primeiro. Eu realmente não entendo nada de tendências.

— Tem razão. Não precisamos ter pressa. Vamos deixar as roupas para outra oportunidade.

Ao ver o entusiasmo da Shizune-san, senti um pequeno vislumbre da profundidade do mundo da moda. Como iniciante, era melhor pesquisar antes de sair comprando qualquer coisa.

Afinal, errar na escolha de roupas não é algo fácil de consertar.

— Então... que tal a próxima loja?

Descemos pela escada rolante. O segundo lugar para onde Hinako me levou era...

— Uma loja de móveis?

Sofás, camas, mesas…

Até onde a vista alcançava, havia móveis dos mais diversos tipos. Parecia que metade daquele andar era dedicada exclusivamente ao setor de mobiliário.

...Talvez essa não fosse uma má ideia.

Desde que me tornei cuidador, passei a morar em um dos quartos destinados aos empregados, e talvez já estivesse na hora de acrescentar algum detalhe à decoração. Alguns funcionários, por exemplo, enfeitavam seus quartos com quadros ou plantas.

Encontrei uma mesa de que gostei e fui conferir a etiqueta de preço.

Caaaaaaaaaaaaaaaaaaro demais!!

Instintivamente, ergui o olhar para o teto. Pensando com calma, móveis já são compras caras por natureza. Além disso, por serem vendidos numa loja de departamentos desse nível, a qualidade era excepcional.

Ali, uma mesa custando duzentos ou trezentos mil ienes era algo completamente normal.

...Embora os móveis da mansão provavelmente sejam ainda mais caros.

Na verdade, a escrivaninha que já estava no meu quarto quando me mudei para lá deve custar algo nessa faixa de preço.

— Eles têm uma grande variedade de estampas Ortega...

Hinako observava os tapetes com bastante interesse. Ao vê-la assim, acabei perguntando:

— Você gosta desse tipo de coisa, Hinako?

— Gosto. Muitos desses padrões são feitos à mão...

— Não, não estou falando das estampas.

Quando ela se virou para mim, continuei:

— Não é só por causa da peça de teatro. Você parecia estar se divertindo olhando as roupas e agora também os móveis... então fiquei pensando se você gosta desse tipo de coisa mais artística.

Afinal, tinha sido a própria Hinako quem sugerira assistir à peça. E, pelo que ela havia dito, estava mais interessada em aproveitar o passeio do que em usar o espetáculo apenas como referência.

Isso significava que ela realmente gostava de teatro.

— Acho... que gosto.

Desta vez, a ojou-sama perfeita demorou um instante antes de responder.

— Sim, gosto. Pinturas enriquecem o coração, e a música toca a alma. Gosto de artes que deixam alguma coisa dentro de nós.

Hinako escolheu cuidadosamente as palavras, como se estivesse organizando os próprios sentimentos antes de expressá-los.

Mas...

Será que aquelas palavras vinham realmente do fundo do coração?

Ela havia hesitado por um breve momento antes de afirmar que gostava de arte.

...Será que estava pensando se "gostar de arte" era uma resposta apropriada para uma ojou-sama perfeita?

...Não.

Resolvi deixar esse tipo de reflexão para depois.

Agora...

Queria apenas aproveitar a Hinako que estava diante de mim.

— Encontrou alguma coisa de que gostou?

— Hum... Desculpe, mas acho que meu coração ainda não está preparado para encarar preços desse nível de uma hora para outra.

— Acho que cada pessoa tem sua própria noção do valor das coisas.

...Ela estava me consolando.

Mesmo usando móveis muito mais caros na mansão, eu ainda não tinha coragem de gastar meu próprio dinheiro comprando algo naquela loja.

— Tomonari-kun, que tal irmos para esta loja agora?

Hinako apontou para o mapa ao lado da escada rolante. Nossa terceira parada foi...

— Uma loja de utensílios de mesa?

Como era de se esperar de uma loja de departamentos desse nível, havia muitas marcas que eu já tinha visto sendo usadas na mansão. À primeira vista, tudo parecia extremamente luxuoso. Mas, olhando com mais atenção, percebi que havia produtos de diversas faixas de preço.

Na seção de antiguidades, inclusive, existiam várias peças relativamente acessíveis.

— Wedgwood, Meissen, Noritake... Eles têm praticamente todas as marcas tradicionais.

— É igual na academia. As pessoas ricas realmente dão muita importância a jogos de chá e vasos, não é?

— Eles também possuem valor artístico, mas a principal função é receber convidados. Na nossa família, espera-se que esse tipo de gasto seja prioridade.

Do meu ponto de vista, tudo dentro da mansão já parecia sofisticado demais para existir qualquer tipo de prioridade.

Mas...

Pensando pelo lado da hospitalidade, jogos de chá e vasos cumpriam um papel semelhante ao dos quadros e objetos decorativos espalhados pelos corredores. Agora eu conseguia entender melhor por que investiam tanto nisso.

— É igual ao interior de uma empresa. Os andares onde os clientes circulam costumam ser projetados por designers e recebem um acabamento muito mais sofisticado. Já os setores onde os clientes nunca entram geralmente têm os custos reduzidos e acabam ficando bem mais simples.

— Ah...

— Às vezes isso acaba gerando reclamações dos funcionários. Eles perguntam coisas como: "Por que aquele andar é tão bonito e este aqui é tão sem graça?"

Hinako sorriu de leve.

— Mas a diferença existe apenas porque um espaço recebe clientes e o outro não. Ainda assim, é importante explicar isso aos funcionários para que eles compreendam o motivo.

Assenti enquanto ouvia sua explicação detalhada.

Pensando bem...

Sempre tive a impressão de que fábricas e escritórios de uma mesma empresa possuíam ambientes completamente diferentes.

Quando penso numa fábrica, imagino funcionários usando uniformes de trabalho, pisos resistentes e paredes sem qualquer preocupação estética.

Já um escritório me faz imaginar vendedores de terno trabalhando em mesas limpas e bem organizadas.

Realmente...

Convencer os funcionários de que essa diferença faz sentido não deve ser nada fácil. Seria bom se isso pudesse ser compensado com salários melhores ou benefícios.

— Isso foi uma explicação muito interessante.

— Imaginei que esse fosse um assunto de que você gostaria, então resolvi comentar.

Eu tinha essa impressão mesmo. Para alguém que pretende trabalhar como consultor no futuro, tudo o que ela acabara de dizer era extremamente interessante.

Ela é mesmo... incrível.

Sem que eu percebesse, meu coração, que desde cedo estava inquieto por causa daquela Hinako diferente de sempre, finalmente se acalmou.

Porque ela havia escolhido justamente um assunto que despertava meu interesse.

— Se você quiser, da próxima vez podemos visitar uma das empresas do grupo. Tenho certeza de que o papai permitiria, especialmente se fosse para você, Tomonari-kun.

— Agradeço a intenção, mas fico um pouco receoso de usar esse tipo de privilégio. Também não quero atrapalhar o trabalho dos funcionários...

— Mas não acha que seria uma boa experiência conhecer o lugar onde você vai trabalhar no futuro?

— Trabalhar... no futuro?

Inclinei a cabeça diante da observação casual de Hinako. No instante seguinte, o rosto dela ficou completamente vermelho, e ela baixou os olhos.

— Desculpe................... acabei me adiantando.

Ao ver sua reação, percebi que meu próprio rosto também estava esquentando.

Pelo visto, na cabeça da Hinako já era algo completamente natural que eu fosse trabalhar no Grupo Konohana no futuro.

Como explicar essa sensação...?

Era constrangedora de um jeito que fazia meu coração disparar. Para mudar de assunto, Hinako perguntou:

— Tomonari-kun, você prefere café, não é?

— Sim.

Também gosto de chá, mas costumo beber mais café porque ele me ajuda a despertar.

Na verdade, sou mais atraído pela utilidade do que pelo sabor, então não posso dizer que seja exatamente um apreciador de café.

— Nesse caso, recomendo peças de cerâmica ou grés.

— Você está falando do material?

— Sim. Existem conjuntos feitos de barro, chamados de cerâmica; de porcelana, feita de pedra; e de grés, que fica entre os dois. Veja...

Hinako pegou duas xícaras do expositor.

— Esta mais grossa é de cerâmica, enquanto esta mais fina é de porcelana. Ambas servem, mas acho que as de cerâmica combinam melhor com café. Além disso, conservam o calor por mais tempo.

— Entendi... Na cafeteria da turma durante o festival cultural eles usavam dois tipos diferentes de xícara. Eu estava me perguntando por quê. Então era esse o motivo.

Eu sabia vagamente que café e chá eram servidos em xícaras diferentes. Mas nunca tinha parado para pensar no motivo.

Até as cores eram distintas. As xícaras finas de porcelana usadas para chá geralmente eram decoradas com flores, pássaros e outros desenhos elegantes.

Já as de cerâmica, mais espessas, costumavam ter cores únicas, valorizando as nuances criadas durante o processo de esmaltação.

...Ter conhecimento sobre esse tipo de coisa é bem elegante.

Passava uma impressão de maturidade. De alguém que realmente sabe aproveitar a vida.

Por que Hinako era chamada de ojou-sama perfeita?

Talvez fosse justamente por causa de conversas como essa. Ter boas notas, por si só, não bastava para ser considerada perfeita. Hinako não era apenas inteligente. Ela possuía um repertório impressionante.

Pensando na Academia Kiou, as pessoas mais admiradas nunca eram apenas gentis.

Elas pareciam... ricas.

Ricas em experiências.

Ricas em conhecimento.

Ricas em sensibilidade.

Ou ricas em imaginação.

O encanto que transmitiam combinava perfeitamente com a elegância. Talvez essa fosse uma das maiores diferenças entre a Academia Kiou e uma escola comum.

Pensando bem...

Tennouji-san também era exatamente assim.

Ela ocupava uma posição social comparável à de Hinako e possuía experiências à altura.

Seu profundo conhecimento sobre arte, sua paixão por dança, etiqueta e tantas outras áreas a diferenciavam dos demais alunos.

Era natural que fosse tão admirada. Narika também era assim.

Seu vasto conhecimento, o talento para os esportes, os anos dedicados às artes marciais e sua capacidade de conciliar estudos e vida social faziam dela alguém que unia perfeitamente a figura de uma guerreira à de uma dama.

Durante muito tempo sua personalidade foi um problema.

Mas agora...

Ela era tão popular quanto Hinako e Tennouji-san.

Uma vida rica...

Talvez esse também devesse ser meu objetivo. Era um ideal perfeito para alguém como eu, cuja forma de gastar dinheiro sempre fora tão sem graça.

— O que você gostaria de fazer? Ainda temos bastante tempo antes da peça. Podemos olhar outras lojas...

— Não. Acho que vou comprar alguma coisa aqui mesmo.

Ao contrário das roupas ou dos móveis, jogos de chá tinham preços bem mais acessíveis.

E...

— Até hoje eu só aproveitava chá e café em ocasiões sociais. Mas, se eu tiver uma xícara de que realmente goste, acho que posso começar a apreciá-los por conta própria.

Quem sabe isso até não se torne um novo hobby?

Queria guardar esse sentimento.

— Então eu também vou comprar uma xícara para mim.

Pelo visto, Hinako também havia decidido comprar um conjunto.

Minha própria xícara...

Gostei da ideia. Tenho a impressão de que o tempo passado saboreando uma bebida numa xícara escolhida por mim, feita especialmente para mim, será muito agradável.

— Qual você vai escolher, Tomonari-kun?

— Gosto desta cor. E como ultimamente tenho tomado muitas bebidas quentes, talvez seja melhor uma que tenha alça...

— Nesse caso, que tal esta? Ou então esta daqui?

— Deixa eu ver...

As opções que Hinako sugeriu eram bonitas. Mesmo assim, queria procurar algo que realmente me conquistasse.

Agora que havia decidido transformar isso em um hobby, de repente comecei a ficar exigente. Talvez demorasse um pouco para escolher.

Mas essa também era parte da diversão. Quem sabe, conforme esse interesse crescesse, eu começasse a pesquisar mais por conta própria e meu conhecimento aumentasse naturalmente.

— Por que você não escolhe primeiro a sua, Hinako? Assim posso usar como referência.

Eu queria ver como Hinako fazia sua escolha. Mas ela respondeu:

— Hum... prefiro escolher depois de você, Tomonari-kun.

— Hã? Por quê?

Quando perguntei, ela começou a mexer inquieta os dedos.

— É que...

Depois de um longo silêncio, falou quase num sussurro:

— Eu queria comprar uma igual à sua, Tomonari-kun...

Ou seja...

Hinako queria que comprássemos um par de xícaras combinando. Jamais imaginei que ela tivesse uma intenção tão adorável.

— Ah...

Um som completamente estranho escapou da minha boca. No fim das contas, acabamos comprando um par de xícaras iguais.

Escolhemos um modelo da marca britânica Denby, da linha Imperial Blue.

Tinham um formato arredondado e delicado. Escolhi aquelas xícaras pensando que, só de olhar para elas, até alguém tão tenso quanto eu conseguiria sentir um pouco de tranquilidade.

Para mim, foi uma compra cara. Para Hinako, talvez fosse apenas uma despesa qualquer. Mesmo assim, ela parecia genuinamente feliz por termos comprado xícaras iguais.

O importante não era o preço. Era o significado.

Achei aquela uma forma de pensar admirável, livre do apego ao valor material das coisas.

◆

Saímos do teatro em silêncio. Depois de alguns passos, olhamos um para o outro quase ao mesmo tempo.

— Hinako.

— Tomonari-kun.

Assim que nossos olhares se encontraram, nós dois começamos a falar ao mesmo tempo, incapazes de conter a empolgação que ainda transbordava.

— Aquilo foi... incrível, não foi?

— Foi... maravilhoso, não foi?

O musical a que havíamos acabado de assistir era Os Miseráveis (Les Misérables).

Segundo nos explicaram, a obra era originalmente um romance histórico francês, e o título significava "Os Miseráveis".

Em poucas palavras, contava a história de Jean Valjean, um homem que, após viver uma vida marcada pelo sofrimento e pela desconfiança, é salvo pela bondade de uma pessoa e decide se tornar alguém justo.

Mas, para seguir esse caminho, precisa enfrentar tanto a maldade das outras pessoas quanto o próprio passado.

E quanto mais tenta permanecer íntegro… Mais seu coração sofre.

— No começo eu torcia muito pelo Jean. Mas, na segunda metade... tudo o que eu queria era que ele parasse e descansasse um pouco. Foi doloroso de assistir... mas eu simplesmente não conseguia desviar os olhos.

— Gostei muito da forma como a história mostra a honestidade tanto como uma virtude quanto como uma fraqueza. A fraqueza da justiça... e a força equivocada... Achei muito bonito o modo como Jean vive dividido entre essas duas coisas e, mesmo assim, sempre escolhe seguir pelo caminho correto.

Como esperado da Hinako. Ela enxergava a peça sob uma perspectiva muito mais profunda do que eu.

Era justamente isso que tornava a apreciação da arte tão interessante. Cada pessoa presta atenção em aspectos diferentes. E, quando compartilhamos essas percepções, acabamos descobrindo coisas novas.

— Encontrou alguma coisa que possa ajudar na apresentação do festival cultural?

— Bastante. Principalmente sobre o equilíbrio das expressões voltadas para o público. A visão de quem está na primeira fila é diferente da de quem está sentado mais atrás. Então percebi que preciso preparar expressões pensadas para quem está perto e outras para quem está longe, alternando entre elas.

...Tenho a impressão de que ela está falando de um nível de atuação completamente diferente.

Consigo acompanhar suas interpretações sobre a história. Mas, quando o assunto é técnica teatral… Já está muito além da minha compreensão.

Alonguei discretamente o pescoço e olhei para o céu.

O sol já começava a se pôr.

— Fiquei tão envolvido que nem vi o tempo passar... mas estou um pouco cansado.

— Sim. Ficamos muito tempo na mesma posição. Que tal darmos uma pequena caminhada?

— Vamos.

Os Miseráveis tinha pouco menos de três horas de duração. Mesmo com o intervalo, era uma apresentação bastante longa.

Enquanto assistia, nem percebi. Mas meu corpo estava um pouco rígido. Caminhamos juntos pelas ruas da cidade. Agora havia bem menos pessoas do que durante a tarde.

...Preciso conversar com ela antes de voltarmos para casa.

Precisávamos retornar antes do jantar. O carro da família Konohana certamente já nos esperava no local combinado. Ultimamente, Kagen-san vinha aparecendo na mansão com muito mais frequência.

Provavelmente porque estava preocupado com a Hinako de agora. Eu entendia seus sentimentos. Mas, na próxima oportunidade, era bem provável que ele pedisse diretamente para Hinako "voltar a ser como antes".

...Tudo porque eu não consegui aceitar o pedido dele.

Por isso...

Quero conversar com Hinako agora.

Antes que ela fale com Kagen-san. Antes que converse com Shizune-san. Quero ouvir seus próprios sentimentos.

Sobre a Hinako de agora.

— Os atores pareciam estar realmente se divertindo enquanto atuavam.

Conversávamos enquanto atravessávamos um pequeno parque, repleto de flores e bancos.

— Pareciam mesmo. Só de observá-los dava para perceber que aquele era o lugar onde pertenciam.

— Não eram apenas as falas. Cada movimento parecia completamente natural. Se alguém domina a atuação nesse nível... talvez representar passe a ser tão natural quanto respirar.

— Sim.

Hinako demorou um instante antes de responder.

A ojou-sama perfeita...

Hesitou. Eu deveria ter percebido antes o significado disso.

...Eu já sei.

Não preciso fazer rodeios. Você também sente isso, não é, Hinako?

Parei no meio do parque e me virei para encará-la.

— Desde quando?

Transformei em palavras a certeza que vinha crescendo dentro de mim.

— Desde quando você passou a conseguir representar o tempo todo... sem nem sequer ter febre?

Os olhos de Hinako se arregalaram discretamente. Observei seu rosto por alguns segundos. Então ela soltou um pequeno suspiro.

— Como você descobriu?

— Eu passo muito mais tempo com você na mansão do que na academia. Se você realmente estivesse representando o tempo todo dentro de casa, com a resistência que tinha até pouco tempo atrás... simplesmente não teria conseguido aguentar.

Estive ao lado dela esse tempo todo. Acho que conheço razoavelmente bem os limites físicos da Hinako.

Hoje em dia, ela aproveita qualquer oportunidade para cochilar na academia.

Mas...

Mesmo assim, é evidente que está descansando muito menos do que antes. Ela não dorme durante todas as aulas. Ainda participa dos ensaios depois do expediente. A antiga Hinako certamente já teria desmaiado fazia tempo.

E, no entanto…

Na mansão, ela não demonstrava qualquer sinal de cansaço.

Ela… Não estava exausta. Foi então que percebi.

— Conversei com várias pessoas sobre você... e comecei a pensar que talvez alguma coisa tenha mudado dentro de você. Antes, representar era algo que você detestava. Mas talvez... a peça de teatro tenha sido o gatilho para que você começasse a enxergar a atuação de outra maneira.

Hinako me ouviu atentamente, sem interromper uma única palavra. Então continuei:

— Se você conseguiu dominar completamente o papel da ojou-sama perfeita, talvez ele tenha deixado de ser tão desgastante quanto antes... Quando essa ideia me ocorreu, comecei a pensar que talvez toda essa situação atual tenha sido criada por você de propósito.

Respirei fundo e revelei a conclusão à qual havia chegado.

— Isto também é uma atuação, não é? Você apenas está interpretando o papel de alguém que "mudou".

Como Hinako era um verdadeiro gênio da atuação, conseguiu fazer parecer que sua personalidade realmente havia se transformado.

Desde o começo, tanto eu quanto Shizune-san estávamos enganados. Nunca houve necessidade de levá-la ao médico.

Porque tudo isso...

Era algo que Hinako havia escolhido fazer.

— Há uma falha nesse raciocínio.

Hinako apontou isso calmamente.

— Enquanto dizia tudo isso, você não percebeu que havia uma contradição? Se foi a peça do festival cultural que me fez enxergar a atuação de forma mais positiva, então essa mudança deveria estar relacionada ao meu verdadeiro eu, e não ao papel que interpreto.

Era verdade. Enquanto interpretava Ofélia, o verdadeiro eu de Hinako havia sido aceito pelos colegas.

Seguindo essa lógica, sua autoestima deveria ter aumentado justamente por causa da própria personalidade. Ao mesmo tempo, ela deveria sentir ainda mais ansiedade ao pensar que a ojou-sama perfeita já não era mais necessária.

Mas...

— Acho que isso é apenas uma questão de ordem dos acontecimentos. Se você começou a pensar que talvez fosse melhor mostrar seu verdadeiro eu na academia... então não seria natural chegar à conclusão oposta, de que talvez fosse melhor continuar sendo a ojou-sama perfeita dentro da mansão?

Se o valor do seu verdadeiro eu havia mudado… Então o valor do papel completamente oposto também deveria ter mudado.

— Se você tivesse aprendido a aceitar apenas seu verdadeiro eu, bastaria agir como você mesma o tempo todo. Não haveria motivo para continuar representando a ojou-sama perfeita como faz agora... Hinako, você passou a aceitar não apenas quem realmente é, mas também a pessoa que interpreta.

Antes, representar a ojou-sama perfeita era algo exaustivo para ela. Se esse continuasse sendo o caso, bastaria relaxar tanto na mansão quanto na academia.

Mas Hinako não fez isso.

Talvez...

Ser aceita pelos colegas como ela realmente era tivesse sido algo muito maior do que eu jamais conseguiria imaginar.

E então ela começou a refletir sobre muitas coisas.

"Talvez ser a ojou-sama perfeita também não seja tão ruim."

"Talvez o oposto também tenha seu valor."

"Talvez exista uma maneira muito mais fácil de viver do que antes."

Tenho certeza de que foi isso que ela pensou. Depois de ouvir toda a minha hipótese, Hinako sorriu com delicadeza.

— Excelente dedução, detetive.

— Para com isso. Não resolvi caso nenhum.

— Mas combina com você. Que tal entrar para a peça de teatro também?

— Ei, para de me provocar.

Não tente mudar de assunto.

— Eu não sou detetive. Também não sou médico. Mas sou o cuidador da Hinako.

Quem passou mais tempo ao lado dela nesses últimos seis meses?

Sem dúvida...

Fui eu.

— Então, mesmo que eu não saiba fazer deduções brilhantes... quando o assunto é você, Hinako... eu simplesmente consigo perceber.

Mesmo que o pai dela não perceba. Mesmo que Shizune-san não perceba.

Mesmo que os colegas dela não percebam. Eu vou perceber. Porque sou o cuidador de Konohana Hinako.

— Fico feliz que você me conheça tão bem.

Ao dizer isso, Hinako sorriu timidamente. Mas, logo em seguida, abriu um sorriso travesso.

— Mesmo assim... sua nota é oitenta de cem.

Aquela expressão maliciosa era absurdamente fofa.

...Ela ainda não havia abandonado o papel da ojou-sama perfeita.

Ou seja...

Nossa conversa ainda não tinha terminado.

— E de onde vieram os vinte pontos que faltam?

Não era como se eu não tivesse pensado nisso. Antes de conversar com Hinako, refleti até esgotar todas as possibilidades que consegui imaginar. Sinceramente, não acreditava que fosse encontrar uma resposta melhor sozinho.

— Você está certo, Tomonari-kun. Hoje eu consigo aceitar essa atuação.

Ela fez uma breve pausa.

— Mas não foi apenas porque meu verdadeiro eu foi aceito na academia. Existe outro motivo... um motivo de verdade... para eu ter começado a interpretar a ojou-sama perfeita também dentro da mansão.

...Eu imaginava que fosse algo assim.

O motivo pelo qual ela passou a aceitar sua verdadeira personalidade era simples. Os colegas a haviam acolhido por meio da atuação como Ofélia.

Essa parte fazia sentido. O que eu havia pensado era apenas uma dedução lógica: "Se ela consegue aceitar seu verdadeiro eu... talvez também consiga aceitar a ojou-sama perfeita."

Mas eu nunca tinha alcançado a verdadeira raiz da questão. Então realmente existia outro motivo...

Tentei pensar novamente. Mas nenhuma resposta apareceu. O tempo simplesmente passou.

— Seu tempo acabou.

— Não pode me dar mais cinco minutos?

— Não.

Hinako deu uma risadinha.

— Não use comigo as mesmas frases que você costumava usar.

Ela sorriu divertida.

— Mesmo que eu lhe desse mais tempo... acho que você nunca descobriria a resposta sozinho, Tomonari-kun.

...Eu nunca descobriria? O que ela queria dizer com isso?

— O motivo pelo qual comecei a interpretar a ojou-sama perfeita dentro da mansão foi...

Os olhos de Hinako refletiam apenas meu rosto. Então ela falou, quase num sussurro.

— Porque achei que você, Tomonari-kun, pudesse gostar mais de mim desse jeito.

Depois disso...

Ela simplesmente se calou. Não havia continuação. Levei alguns segundos para perceber que aquela única frase continha tudo o que ela queria dizer.

— Eu…..?

— Você parece realmente surpreso.

Hinako inflou levemente as bochechas, demonstrando seu descontentamento de um jeito adorável.

— É por isso que perdeu aqueles vinte pontos.

Ela respirou fundo e repetiu, com firmeza:

— Posso dizer quantas vezes forem necessárias. Passei a aceitar essa atuação porque pensei que você, Tomonari-kun, talvez gostasse mais dessa versão de mim.

...Hã?

Sério...?

Era só isso...?

— Você conseguiu superar todo o desgaste de representar... por causa de um motivo desses...?

— Eu preferia que você não chamasse isso de "um motivo desses" — ela voltou a fazer um pequeno beicinho. — Para mim, isso é algo muito importante.

Seu rosto ganhou um leve rubor.

— Afinal...

Ela desviou o olhar por um instante antes de continuar.

— Eu sou uma garota.

As bochechas de Hinako ficaram ainda mais coradas.

— Na verdade, eu queria ter esperado um pouco mais para ter certeza dos meus sentimentos...

Ela respirou fundo.

— Mas... já que chegamos até aqui...

Seus olhos úmidos voltaram a encontrar os meus.

— Quero que você me responda diretamente.

Por um instante, o mundo pareceu silenciar. Então ela perguntou:

— Tomonari-kun...

Sua voz tremia quase imperceptivelmente.

— De qual de mim você gosta mais?

Do verdadeiro eu de Hinako… Ou da Hinako que interpreta a ojou-sama perfeita. Ela me perguntou, de frente, qual das duas eu preferia.

…Ela não parecia estar me provocando. Será que ela realmente…

Então era sobre os meus sentimentos. Não é como se eu tivesse uma autoestima particularmente baixa. Mesmo assim, pensar que eu ocupava um lugar tão importante nos pensamentos da Hinako… me enchia de uma mistura de felicidade, honra e constrangimento.

Mas eu precisava me acalmar. Porque a Hinako… estava enganada.

— Hinako.

Hinako, que esperava que eu escolhesse uma das duas, parecia tensa. Mas eu iria acabar com aquela tensão sem precisar discutir.

— Isso… é algo que eu não consigo escolher.

— Eh?

Os olhos de Hinako se arregalaram. Depois de um momento para se recompor, ela abriu a boca lentamente.

— Não, você não pode. Essa é uma conversa séria, então, por favor, não tente fugir——

— Eu não estou fugindo.

Balancei a cabeça.

— Mesmo que você me pergunte de qual eu gosto mais, eu só enxergo a Hinako.

Porque, diante de mim, havia apenas uma garota.

— Você está entendendo errado, Hinako. Neste mundo, não existe uma Hinako ojou-sama perfeita, nem existe uma Hinako preguiçosa.

— Então, o que eu sou?

Ela provavelmente esperava que eu respondesse: "A Hinako ojou-sama perfeita". Mas estava errada. A pessoa diante de mim era—

— A Hinako perfeita e preguiçosa. …Para mim, desde o começo, sempre existiu apenas essa única Hinako.

Ainda bem. Eu não sabia o motivo pelo qual Hinako havia começado a gostar da sua atuação como uma ojou-sama perfeita, mas… o restante era exatamente como eu havia previsto.

Então ela realmente estava preocupada com isso. Era por isso que eu queria conversar com ela.

— A Hinako que eu conheço sempre foi as duas coisas ao mesmo tempo: perfeita e preguiçosa. Não existe uma Hinako 100% perfeita, assim como não existe uma Hinako 100% preguiçosa.

Por isso era tão difícil responder quando ela perguntava de qual eu gostava mais.

— Todo mundo muda a forma como age dependendo da situação. Por exemplo, o eu na mansão e o eu na academia são diferentes, não são? …Todas as pessoas vivem interpretando papéis, assim como você, Hinako.

Tennouji-san, Narika, Asahi-san, Taishou… Todos tinham mais de um lado dentro de si. Todos, sem perceber, atuavam enquanto viviam.

— Mas a sua atuação foi boa demais, Hinako. Foi por isso que você acabou pensando dessa maneira.

Todos nós agimos em maior ou menor grau, mas não conseguimos nos comportar de uma maneira completamente distante de quem realmente somos. Simplesmente não temos a capacidade de controlar a nós mesmos nesse nível.

Mas Hinako era diferente. Ela conseguia interpretar uma versão de si mesma que era completamente oposta ao seu verdadeiro eu. Para nós, atuar é apenas uma forma de ajustar nosso comportamento para facilitar nossos relacionamentos.

Mas, para Hinako, atuar era um interruptor usado para esconder quem ela realmente era. Foi por isso que surgiu a ideia de que uma delas poderia ser melhor do que a outra.

— Existe apenas uma Konohana Hinako. …Você não precisa pensar em qual delas é mais amada.

Por causa das pessoas ao seu redor, Hinako carregava dentro de si dois conjuntos diferentes de valores que lutavam entre si.

Meu verdadeiro eu é melhor?

Ou a ojou-sama perfeita é melhor?

Eu disse a ela que não precisava se preocupar com isso.

— Então, o que eu devo fazer? — Hinako perguntou, como se estivesse se agarrando a mim. — Agora que superei o cansaço causado por atuar, se eu quisesse, poderia continuar sendo a ojou-sama perfeita para sempre. Mas a dúvida sobre se isso seria melhor simplesmente não desaparece.

Antes, ela ficava exausta por atuar, então a ideia de continuar sendo a ojou-sama perfeita para sempre sequer existia. Foi justamente por ter superado esse cansaço que ela agora enfrentava essa preocupação.

Eu conseguia imaginar facilmente o que Hinako sentia. Muitas pessoas queriam a Hinako ojou-sama perfeita, não a verdadeira Hinako. Mesmo que eu tivesse sido a causa para que ela superasse o cansaço, foram as pessoas ao redor dela que reforçaram a ideia de que talvez fosse melhor continuar atuando.

Kagen-san, seus colegas da academia e, acima de tudo, as pessoas da família Konohana.

Essa pressão estava encurralando Hinako. Era exatamente por isso que eu queria que a minha voz, a voz de alguém que não estava tentando encurralá-la, chegasse até ela de verdade—

— Você também fica muito atrapalhado quando está com essa minha versão, não fica, Tomonari-kun?

— Ugh.

E-Ela percebeu…?

Ter isso apontado pela própria pessoa era extremamente constrangedor. Hinako encarou meu rosto com um olhar intenso e prolongado.

"Viu? Eu sabia. No fim, você gosta mais dessa minha versão, não é, Tomonari-kun?"

Seu olhar parecia dizer isso. Era um completo mal-entendido. Era um mal-entendido, mas… para fazer Hinako entender isso, eu precisava dizer exatamente o que estava pensando, sem esconder nada…

…………Acho que não tenho escolha.

O mal-entendido de que eu gostava mais da Hinako ojou-sama perfeita do que da verdadeira Hinako era algo que eu precisava esclarecer de qualquer maneira.

— Sabe, Hinako. Se você vai dizer isso, então eu…

Reunindo minha coragem, abri a boca.

— Eu também fico atrapalhado quando estou com a Hinako de sempre.

— Eh?

Hinako ficou visivelmente abalada.

— E-Espera… não, isso é… uma mentira. Porque, quando você está com a minha versão de ojou-sama perfeita, você faz uma expressão diferente daquela que faz quando está comigo normalmente.

— Minha expressão pode ser diferente, mas eu sempre fico atrapalhado.

Entendi…

Ao ver minhas reações incomuns, Hinako achou que aquela devia ser a resposta certa. Talvez até tenha pensado que, ao atuar daquele jeito, conseguiria me deixar mais feliz.

…………Não era isso. Nem um pouco.

O motivo pelo qual eu demonstrava reações tão diferentes com a Hinako de agora era simplesmente porque eu estava completamente sendo levado por ela e não conseguia manter a compostura. Era uma situação à qual eu não estava acostumado, então minhas emoções acabavam ficando mais expostas, mas, sendo sincero, meu coração sempre foi assim.

Eu precisava contar para Hinako… como eu sempre me sentia.

Olhei ao redor. Naquele momento, éramos apenas nós dois ali. Não havia ninguém conhecido por perto.

…Então tudo bem, não é?

Tudo bem se eu simplesmente… Deixar tudo sair, não é?

— Entendeu? Primeiro de tudo, a Hinako verdadeira é fofa.

— E-Eh?

Hinako soltou um som estranho. Pelo visto, minha declaração tinha sido muito mais inesperada do que ela imaginava.

Mas continuei. Tudo aquilo que eu havia guardado dentro de mim durante os últimos seis meses—

— O jeito que você fica emburrada é fofo. O jeito que você dorme imediatamente como um bebê é fofo. O jeito que você abraça o travesseiro assim que acorda é fofo, e até quando fica com migalhas na boca, isso também é fofo.

— E-Espere…!? U-Um…!?

— A sua expressão de desgosto quando come vegetais é fofa e, por outro lado, o jeito que você come batata chips como um esquilo também é fofo. O jeito que você anda toda curvada é fofo, e até quando fica preocupada porque não consegue sair da cama também é—

— P-Por favor, pare!! Já chega!! Eu disse que já chega!!

Hinako, com o rosto completamente vermelho, tentou me impedir. Mas balancei a cabeça.

— Não é o bastante. Ainda estamos apenas na metade.

Se eu parasse ali, ficaria incompleto.

— Está ouvindo? Acredite ou não, Hinako… você também é fofa quando está sendo a ojou-sama perfeita.

— Nya!?

Hinako, cujas orelhas haviam ficado tão vermelhas quanto um polvo cozido, soltou um grito estranho.

— O olhar concentrado que você tem quando está estudando é fofo. O seu sorriso quando conversa com alguém é fofo. O jeito que você enche as bochechas é fofo, e a maneira como sempre abaixa a cabeça ao entrar ou sair de um cômodo também é fofa. O jeito que, às vezes, você conta uma mentirinha é fofo, e esse seu lado surpreendentemente competitivo também é—

— P-P-P-Por favor, já chega!! Mais do que isso, sério, por favor, pare…!!

O rosto dela devia estar extremamente quente, porque Hinako estava até com os olhos levemente marejados.

— U-Uuuu… P-Por que você está dizendo coisas tão vergonhosas agora…?! E-Eu estava tentando ter uma conversa séria…!!

Eu também estou tendo uma conversa séria, sabia?

Além disso—

— Foi você quem disse coisas vergonhosas, Hinako. No outro dia, durante o almoço, na frente de todo mundo, você disse "Diga ahhh" e tudo mais.

— O quêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê!?

O grito estrondoso de Hinako abafou completamente minhas palavras.

Eu não fazia ideia de que Hinako conseguia gritar tão alto…

— Naquele momento você também estava consciente, não estava? O que você estava pensando quando disse aquilo?

— Uuu, uuuuuuuuu…!!

Hinako estava agindo como se tivesse mudado de personalidade. Em outras palavras, tudo o que ela dizia na academia era intencional.

Se perder pelos corredores, comer apenas os doces da festa de chá antes de cair no sono imediatamente… tudo isso era fruto da própria vontade da Hinako.

Pensando dessa forma, as minhas próprias palavras eram algo insignificante.

— Basicamente, o que estou dizendo é…

Se eu a confundisse ainda mais, nunca conseguiríamos resolver aquilo, então tentei encerrar a conversa.

— Eu sempre fico atrapalhado. Quando você mostra o seu verdadeiro eu e quando você está atuando como a ojou-sama perfeita, eu sempre achei que você era uma pessoa encantadora.

— E-Encan…tadora!?

Hinako continuava completamente agitada.

…Por que eu estava tão calmo agora?

Provavelmente porque, no fundo, eu pensava assim há muito, muito tempo.

Assim que esse pensamento surgia, eu ficava nervoso ou envergonhado, mas, conforme o tempo passava, esses sentimentos se tornavam parte do passado e acabavam se transformando em fatos.

Como eu estava apenas afirmando fatos, não sentia vergonha. Era um fato que a Konohana Hinako perfeita e preguiçosa era uma pessoa encantadora. Era uma verdade da qual eu não precisava me envergonhar.

— Mas, se mesmo assim você disser que quer escolher entre uma ou outra… o seu verdadeiro eu ou o seu eu atuando… acho que quem deve fazer essa escolha é você, não eu.

Eu não estava tentando jogar essa decisão sobre ela.

— Porque, independentemente da escolha que você fizer, eu vou continuar ao seu lado.

Eu disse isso para Hinako, enquanto o vermelho em suas bochechas desaparecia aos poucos.

— Existe apenas uma coisa que eu posso dizer para você… Quando estiver comigo, não se force.

— Ah.

Um pequeno som escapou dos lábios de Hinako.

— Eu disse a mesma coisa há muito tempo. Você se lembra?

— Não tem como eu esquecer.

Foi logo depois de eu ser demitido como seu cuidador, quando invadi a mansão à força. Eu sempre quis ser a única pessoa diante de quem Hinako não precisasse se esforçar. Por isso, não me importava qual escolha Hinako faria.

…Desde que ela não estivesse se forçando, eu poderia continuar ao lado dela como seu cuidador.

Eu me sentia mal por Kagen-san, mas queria priorizar o fato de Hinako não precisar se forçar, em vez de fazê-la voltar ao normal.

Porque eu sou o cuidador dela. Pelo bem da Hinako, todo o resto vinha em segundo plano.

— No começo, eu também achava que não poderíamos continuar assim. Eu tinha medo de que você estivesse se forçando… Mas, se não for esse o caso, então é uma história diferente.

Em algum momento, percebi que Hinako havia superado o cansaço causado pela sua atuação. Então, a partir daí, tudo que eu precisava fazer era respeitar a vontade dela.

Cheguei a essa conclusão simples.

— Eu quero que você viva livremente, Hinako. Se a forma da sua liberdade mudou, então acho que tudo bem seguir em frente com isso… Não importa para onde você queira ir, eu vou acompanhar você.

Antes, eu acreditava que ser o seu verdadeiro eu era a liberdade da Hinako. Mas agora, se isso havia mudado, eu também aceitaria essa mudança.

Não importava que tipo de liberdade Hinako buscasse, tudo que eu precisava fazer era continuar ao lado dela sem questionar.

— Então………….. e se…

Hinako disse isso olhando para baixo.

— Se eu quisesse continuar sendo a ojou-sama perfeita (a minha versão atual), você ainda me seguiria, Tomonari-kun?

— Sim.

— E, ao contrário… se eu quisesse viver como o meu verdadeiro eu o tempo todo, você ainda me seguiria, Tomonari-kun?

— É claro.

Kagen-san jamais permitiria isso, mas não importava.

— Eu vou seguir você de qualquer maneira. …Mas acho que seria melhor pensar com calma sobre isso. Sobre se você realmente conseguiria ser feliz vivendo dessa forma.

Era uma escolha importante demais para ser feita sem pensar. Eu a seguiria independentemente do que ela escolhesse.

Mas ela precisava refletir. Precisava pensar se aquela escolha realmente era a certa para ela.

— Isso não é justo.

— É, acho que não…

Eu sabia que estava colocando a situação de uma maneira injusta. Se, naquele momento, ela tentasse viver como seu verdadeiro eu o tempo todo, provavelmente enfrentaria muitas dificuldades e conflitos.

Eu pretendia apoiá-la com todas as minhas forças, mas um futuro em que acabaríamos nos tornando inimigos de Kagen-san e da família Konohana provavelmente seria inevitável.

Sinceramente, era uma situação que eu preferia nem imaginar.

— Uma escolha que você não consegue fazer agora talvez possa ser feita algum dia. Acho que esperar e acreditar nesse futuro também é uma opção.

Eu vou esperar com você. Eu vou ajudar você a alcançar esse futuro. Você não precisa escolher agora. Enquanto estivermos juntos, essa possibilidade sempre vai existir.

— Sinceramente… se você está tão decidido assim, então eu também não posso simplesmente desistir.

Hinako soltou um suspiro:

— Fuu…

E sorriu gentilmente.

— Tem certeza? Se você desejar, Tomonari-kun, eu posso continuar assim para sempre, sabe?

Hinako estava confirmando minhas intenções.

— Eu sou chamada de ojou-sama perfeita, lembra? Sou a garota mais popular da academia e acho que sou bastante bonita. Sou boa nos estudos, boa nos esportes, uma garota talentosa colocada em um pedestal, sabe?

Era verdade. A Konohana Hinako era uma ojou-sama perfeita. Na Academia Kiou, onde se reuniam os filhos de famílias ricas, ela era a personificação do ideal que sempre reinava no topo.

A detentora de habilidades dignas do nome Konohana. E, ainda assim, era uma pessoa de caráter que nunca se vangloriava disso. Ela era incrível, admirável, fofa… a ojou-sama perfeita que todos desejavam.

— E você pode… ficar ao lado dessa minha versão para sempre, sabe?

Com os olhos úmidos, Hinako olhou para mim.

— É verdade que a Hinako de agora é maravilhosa, mas…

Mesmo assim, eu não conseguia deixar de pensar. Se Hinako desejasse isso, tudo bem que ela continuasse sendo como era.

Mas, ainda assim, a Hinako de agora era uma atuação.

Eu só…

Eu só não queria ser a pessoa que negaria a verdadeira Hinako.

— Eu também gosto de cuidar da Hinako preguiçosa, sabia?

Quando eu disse isso…

A ojou-sama perfeita abriu um sorriso feliz, mas ao mesmo tempo envergonhado e tímido.

— Nossa…

◆

Um pouco antes, Konohana Hinako havia pensado em uma coisa.

E se Itsuki gostasse mais da minha versão de ojou-sama perfeita do que da minha versão de sempre…?

Quando essa possibilidade surgiu em sua mente, o que nasceu no peito de Hinako foi uma pequena ansiedade.

Ela se sentiu um pouco decepcionada, mas aquilo estava longe de ser desespero. Na verdade, ela até sentiu que não era necessariamente um problema. Naquele momento, Hinako percebeu.

Pelo bem do Itsuki, eu posso ser a ojou-sama perfeita para sempre…

Então ela decidiu descobrir. Qual versão dela Itsuki realmente gostava?

Ela decidiu mostrar sua verdadeira natureza também na academia, para confirmar o valor do seu verdadeiro eu e do seu eu atuando.

E então, se Itsuki quisesse aquela versão dela…

A ojou-sama perfeita…

Ela pretendia continuar sendo assim para sempre.

Mas…

— Isso… é algo que eu não consigo escolher.

O que Itsuki estava olhando não era a verdadeira Hinako, nem a Hinako ojou-sama perfeita. Ele estava olhando para a verdadeira Konohana Hinako, aquela que possuía as duas.

…Que resposta generosa.

Quando a perfeição estava bem diante dele. Quando a ojou-sama perfeita que seu pai e todos na academia admiravam estava bem à sua frente. Quando a garota refinada, educada e que provavelmente era exatamente o tipo de pessoa de quem os garotos gostavam estava ali…

Mesmo assim, Itsuki colocou Hinako em primeiro lugar. Era isso que Hinako amava nele.

— Mas acho que seria melhor pensar com calma sobre isso. Sobre se você realmente conseguiria ser feliz vivendo dessa forma.

Provavelmente aquilo era um aviso para impedir que Hinako agisse de maneira imprudente. Ao ouvir as palavras de Itsuki, que consideravam o futuro, Hinako pensou consigo mesma:

…Eu consigo.

Mesmo vivendo dessa forma, eu consigo ser feliz.

Desde que Tomonari-kun me ame… isso já é felicidade suficiente para mim.

No fim, era só disso que ela precisava.

Provavelmente Itsuki estava pensando em muitas coisas. O relacionamento dele com seu pai. O relacionamento dele com a família Konohana.

Depois de considerar todos os tipos de riscos, ele estava fazendo uma afirmação cuidadosa. Mas, na verdade, enquanto Itsuki estivesse ao seu lado, isso era tudo que importava. Não importava se passasse os dias sendo seu verdadeiro eu ou sendo a ojou-sama perfeita.

Desde que Itsuki estivesse ao seu lado, tudo bem. Os riscos vinham em segundo plano. Para Konohana Hinako, Tomonari Itsuki era um tesouro pelo qual ela colocaria todo o resto em segundo lugar.

…Eu o amo.

Mantendo sua atuação de ojou-sama perfeita, Hinako pensou:

Eu amo o Tomonari-kun.

Eu amo o Tomonari-kun que sempre dá o seu melhor, que se levanta não importa quantas vezes caia.

Eu amo o bondoso Tomonari-kun, que não consegue abandonar alguém em dificuldades, mesmo quando ele próprio está ocupado.

Eu amo o Tomonari-kun que pensa em mim antes da família Konohana.

Eu amo o Tomonari-kun que sempre estuda até tarde da noite para poder permanecer ao meu lado.

Eu amo o Tomonari-kun que percebe imediatamente quando eu não estou bem.

Eu amo o Tomonari-kun que entende imediatamente aquilo que eu desejo.

Eu amo o Tomonari-kun que negocia com meu pai por minha causa.

…Eu queria que ele se declarasse para mim. Aqui. Agora.

Então eu aceitaria sem hesitar.

Eu quero tanto receber uma declaração dele…

Mas provavelmente ele não vai perceber, não é?

Algum dia, eu vou dizer claramente ao Itsuki, que sempre pensa nos outros: Eu amo o Tomonari-kun.

Eu amo você.

Eu estou apaixonada por você.

Mais do que qualquer outra pessoa no mundo.

Eu amo muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito o Tomonari-kun!!

Fim da leitura

Capítulo 76 concluído

Volume 11 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Ojou-sama que é Como um Doce